Poemas neste tema

Música

Antonio Risério

Antonio Risério

Um Poema é um poema é um poema?

Saudades de Mario Faustino. Não temos hoje uma crítica textual
que se disponha a examinar culturalmente questões culturais. Em
vez da densidade histórica, da abrangência contextual ou da
espessura ensaística, o que nos servem, na bandeja da imprensa,
são flores falsas, brotos de safadeza sibilina, trazidas das coxias
em que se disputa o "poder literário" e em que personagens pouco
ou nada interessantes se esforçam para exercer minimandarinatos
culturalmente irrelevantes.

Vejam o que se fala hoje da criação poética no Brasil.
É um quadro curioso. Os poetas tipográficos resolveram defender
com unhas e dentes a sua baia escritural. Por quê? Porque estão
se sentindo ameaçados. E assim desferem pontapés capengas
em duas direções. De uma parte, afirmam que letra de música
não é poesia —logo, à lata de lixo com Assis Valente,
Dorival Caymmi, Humberto Teixeira, Noel Rosa, Caetano Veloso e Chico Buarque,
entre muitos outros.

De outra parte, declaram que a visualidade da escrita, no horizonte da
poesia, é algo que só pode ser cultivado e praticado por
Augusto de Campos —e que o melhor que eu e Arnaldo Antunes (entre outros
mais) temos a fazer é enfiar o computador no saco. O que sobra,
então? A poesia tipográfica, é claro.

Os argumentos são tolos —e seus representantes, também. De
um modo geral, ficamos à mercê de baboseiras que se estendem
de achismos quase cândidos a ascherismos sub-haroldianos. É
aí que se ouriçam e enristam armas os tolentinos e bonvicinos
em promoção.

Atacando a lírica da música popular brasileira e decretando
a impossibilidade da existência de uma "poesia visual" (monopólio
de Augusto de Campos), eles limpara o terreno apenas para, claro, eles
mesmos. É compreensível. Durante muito tempo, e apesar das
profecias de Walter Benjamin e Viclímir Khlébnikov, o reino
da poesia tipográfica, carta marcada da modernidade ocidental, se
pensou como único e eterno.

Mas vamos por partes. O problema com a poesia da música popular,
que parecia superado a partir da década de 70, não merece
maiores comentários. Se vamos excluir as "lyrics" do tabuleiro,
atiremos fora gregos, provençais e elizabetanos. E qual o problema
com a música popular? Como já dizia o supracitado Faustino,
a poesia é um pássaro versátil e bem pouco esnobe,
capaz de fazer o seu ninho em qualquer canto. E a relação
poesia-canto é sublinhada sem exclusivismos, nos mais diversos sistemas
culturais. A estética verbal dos índios kuikuro, por exemplo,
distingue entre poesia da fala, da fala cantada e do canto. É a
música que transfigura o que há de bom e belo na fala comum.
Se foi para emitir tolices que Tolentino se educou com governantas e preceptores
europeus, teria sido melhor ir ao Xingu.

Bobagem, também, pensar que uma determinada forma poética
se cristalizou, no interior da "Galáxia de Gutenberg", para durar
por todos os tempos. Esse tipo de fantasia canônica não resiste
ao mais breve exame histórico. O padrão da poesia "vers libre"
impressa (alinhamento pela esquerda, margem direita irregular, letras dispostas
linearmente da esquerda para a direita e passagem de uma linha a outra
no sentido alto-baixo, o conjunto aparecendo como um bloco tipográfico
colado no branco da página) pode ser várias coisas, menos
eterno.

Deixando de parte padrões extra-europeus, para nos limitar à
cultura poética do Ocidente, devemos dizer que, mesmo nesse âmbito,
o cânone é obviamente histórico. Não existia
em tempos medievais, já não era cultivado por Blake e está
longe de reinar sozinho, na esquina entressecular em que nos encontramos.

Na verdade, os discursos que querem reduzir a poesia a um dos formatos
que ela assumiu, ao longo de sua trajetória histórica, indicam
nada mais que a crescente ansiedade de literatos conservadores (sejam tolentinos
ou bonvicinos) diante das transmutações formais que atualmente
presenciamos. E, em consequência, diante da impossibilidade de sustentar
o caráter único ou mesmo a hegemonia do modelo gráfico
que esses mesmos literatos elegeram para o fazer poético.

Mas o fato é que a arte da palavra é anterior ao espaço
gráfico gutemberguiano —e sobreviverá a este. Se a invenção
da máquina de escrever marcou a escrita poética a partir
das últimas décadas do século 19, como evitar que
o computador e seus programas gráfico-visuais não a marquem
igualmente, e ainda com mais intensidade, na virada do século 20
para o 21?

Só alguém enceguecido pelo afã irracional de defender
a sua baia escritural, frente à proliferação de signos
e formas de nossa circunstância histórico-cultural, pode pretender
que a materialização do poético somente seja viável
por meio do "medium" gutemberguiano. O computador, a holografia e o vídeo
estão aí, ao nosso dispor. Para quem quiser (e souber) usá-los.
É apenas tolo tentar bloquear o acesso de "designers" da linguagem
às novas tecnologias de inscrição sígnica.
E mais: não só a poesia concreta, quando nasceu, foi acusada
de "repetição" (o "caligrama"!), como Augusto de Campos,
antes que ser único e inimitável, pertence, como ele mesmo
é o primeiro a saber, a uma longa e rica tradição
planetária.

E, aliás, o que é mesmo que essas pessoas nos apresentam?
Nada digno de nota. Bruno Tolentino é um
empulhador, aproveitando-se da falta de organicidade da vida
cultural brasileira para enfiar azeitonas marketeiras nas empadas que passam
à sua frente. Nelson Ascher é um
crítico mediano (sub-candido, sub-haroldo) e um versejador de oitava
categoria. Os desinformados de sempre comem gato por lebre,
claro. Mas há quem saiba distinguir as coisas.

Na verdade, Tolentino é um subfilhote do
eruditismo alienado, ansioso por se travestir em porta-voz da alta cultura.
Com sucesso, já que estamos onde estamos. Mas, no caso, talvez eu
esteja alvejando pacas fáceis, já que Bonvicino
é um oportunista patológico, e Tolentino traz
a mente e o coração infectados. Seja como for, se a dieta
vai de Bonvicino a Tolentino, estamos, no mínimo, pessimamente servidos.

Ora, que Tolentino e Bonvicino (com seu escudeiro Nelson Ascher) explorem
a escrita tradicional.

E o façam da melhor maneira possível. Mas não queiram
nos proibir de cantar, ou de navegar nas águas luminosas da escrita
multimídia. A quirografia, a tipografia e a infografia são
tecnologias ou tecnologizações da palavra. E, assim como
o canto não cessou diante da barra do tipógrafo, também
não vai se furtar a introduzir perturbações nas redes
hipertextuais que agora se desenham e se ramificam por todo o planeta.
A poesia não nasceu em função do suporte de celulose,
mas como palavra-evento —ou, Homero na ponta da língua, palavra
alada.

Antonio Risério é poeta e antropólogo, autor de,
entre outros, "Textos e Tribos" (Imago, 1993), "Avant-Garde na Bahia" (Instituto
Lina Bo e P.M. Bardi, 1995) e "Fetiche" (Fundação Casa de
Jorge Amado, 1996).

(in Caderno Mais, Folha de São Paulo, 28.04.96)

Fantástico, Ascher fala de bem de Risério!

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Mais Bovincino

1 776
Martônio de Vasconcelos

Martônio de Vasconcelos

Ocarina: O Som do Barro

A Virgílio Maia,
poeta singular, amigo plural

Doce barro das terras nordestinas,
Ressoando este som que não se apaga,
na leveza da argila e das resinas,
Som da noite e de festa, som que afaga.

É o acorde da noite que termina
Com os dedos tocando agalopado;
É o som da araponga, é um trinado,
É a doçura da voz de uma menina.

Este barro que canta e que extasia
E que é clave de sol, é nostalgia,
É prisão de um pássaro canoro.

Ocarina: dos ventos, dos anuns:
Se te ouvi uma tarde em Garanhuns,
Sei dos grãos do teu lírico sonoro!

911
Ricardo Madeira

Ricardo Madeira

Tempestade Sol

I
As cordas da minha guitarra
Fazem as nuvens chorar,
Cada nota de tristeza
Milhões de lágrimas faz derramar.

O sol foge para longe
E o vento ergue-se, irado,
Enquanto as nuvens se reúnem
Ao som de acordes do diabo.

Caem as árvores na tormenta,
As flores vergam-se, fracas,
Suas as pétalas arrancadas,
Os dedos do vento tal facas.

II
Uma paisagem de tons laranja,
E toda a fúria se acalma,
Sol aquece novamente a alma,
Para muito longe se foi
Tempestade...

III
Tempo está de sol,
Rasteja lento o caracol,
Noutra terra distante...

Debaixo do gigante carvalho,
Naquela sombra de Verão,
A brisa afaga o teu vestido,
Passeias entre flocos de algodão.

976
Rogério F. P.

Rogério F. P.

Quando eu me deparar com a

Quando eu me deparar com a
fúnebre realidade, e me cobrires de terra
com dizeres melancólicos, sufocarei,
taciturno os seus mais lindos sonhos

com os sons agônicos saídos de minhalma.
Porque tu arremataste o meu ser em
leilão profano, não usaste recursos humanos
para obter tua felicidade.

Querida discípula de Baco, guardarei
para ti um lugar em meu tétrico báratro,
onde juntos entoaremos as
canções mais lindas, tendo como instrumento suas vísceras.

887
Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

PRODÍGIO!

Últimos Sonetos

Como o Rei Lear não sentes a tormenta
que te desaba na fatal cabeça!
(Que o céu d'estrelas todo resplandeça.)
A tua alma, na Dor, mais nobre aumenta.

A Desventura mais sanguinolenta
sobre os teus ombros impiedosa desça,
seja a treva mais funda e mais espessa,
Todo o teu ser em músicas rebenta.

Em músicas e em flores infinitas
de aromas e de formas esquisitas
e de um mistério singular, nevoento...

Ah! só da Dor o alto farol supremo,
consegue iluminar, de extremo a extremo,
o estranho mar genial do Sentimento!

1 823
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Poema Para o Engraxate

o equilíbrio é preservado pelas lesmas que escalam os
rochedos de Santa Mônica;
a sorte está em descer a Western Avenue
enquanto as garotas numa casa de
massagem gritam para você, “Alô, Doçura!”
o milagre é ter 5 mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos,
e o melhor de tudo isso é que você só é capaz
de amar uma delas.
a bênção é ter uma filha mais delicada
do que você, cuja risada é mais leve
que a sua.
a paz vem de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado em O Seu Apresentador
Preferido, sentindo o sol, sentindo o sólido roncar
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego.
a graça está na capacidade de gostar de rock,
música clássica, jazz...
tudo o que contenha a energia original do
gozo.
e a probabilidade que retorna
é a tristeza profunda
debaixo de você estendida sobre você
entre as paredes de guilhotina
furioso com o som do telefone
ou com os passos de alguém que passa;
mas a outra probabilidade –
a cadência animada que sempre se segue –
faz com que a garota do caixa no
supermercado se pareça com a
Marilyn
com a Jackie antes que levassem seu amante de Harvard
com a garota do ensino médio que sempre
seguíamos até em casa.
lá está a criatura que nos ajuda a acreditar
em alguma coisa além da morte:
alguém num carro que se aproxima
numa rua muito estreita,
e ele ou ela se afasta para que possamos
passar, ou o velho lutador Beau Jack[17]
engraxando sapatos
após ter queimado todo seu dinheiro
em festas
mulheres
parasitas
bufando, respirando junto ao couro,
dando um trato com a flanela
os olhos erguidos para dizer:
“mas que diabos, por um momento
tive tudo. isso compensa todo o
resto.”
às vezes sou amargo
mas no geral o sabor tem sido
doce. é apenas que tenho
medo de dizê-lo. é como
quando sua mulher diz,
“fala que me ama”, e
você não consegue.
se você me vir sorridente
em meu Fusca azul
aproveitando o sinal amarelo
dirigindo firme em direção ao sol
estarei mergulhado nos
braços de uma
vida insana
pensando em trapezistas de circo
em anões com enormes charutos
num inverno na Rússia no início dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polaca
numa velha garçonete que me traz uma xícara
extra de café com um sorriso
nos lábios.
o melhor de você
me agrada mais do que pode imaginar.
os outros não importam
excetuado o fato de que eles têm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos e pesadelos
e uma estrada a seguir.
a justiça está em toda parte e não descansa
e as metralhadoras e os coldres e
as cercas vão lhe dar prova
disso.
1 169
Castro Alves

Castro Alves

O Gondoleiro do Amor

BARCAROLA

DAMA NEGRA

Teus olhos são negros, negros,
Como as noites sem luar...
São ardentes, são profundos,
Como o negrume do mar;

Sobre o barco dos amores,
Da vida boiando à flor,
Douram teus olhos a fronte
Do Gondoleiro do amor.

Tua voz é a cavatina
Dos palácios de Sorrento,
Quando a praia beija a vaga,
Quando a vaga beija o vento;

E como em noites de Itália,
Ama um canto o pecador,
Bebe a harmonia em teus cantos
O Gondoleiro do amor.

Teu sorriso é uma aurora,
Que o horizonte enrubesceu,
— Rosa aberta com biquinho
Das aves rubras do céu.

Nas tempestades da vida
Das rajadas no furor,
Foi-se a noite, tem auroras
O Gondoleiro do amor.

Teu seio é vaga dourada
Ao tíbio clarão da lua,
Que, ao murmúrio das volúpias,
Arqueja, palpita nua;

Como é doce, em pensamento,
Do teu colo no langor
Vogar, naufragar, perder-se
O Gondoleiro do amor!? ...

Teu amor na treva é — um astro,
No silêncio uma canção,
É brisa — nas calmarias,
É abrigo — no tufão;

Por isso eu te amo, querida,
Quer no prazer, quer na dor,...
Rosa! Canto! Sombra! Estrela!
Do Gondoleiro do amor.

Recife, janeiro de 1867.

1 935
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Touro

eu não sabia
que os mexicanos
faziam isto:
o touro
havia sido bravo
e agora
eles o arrastavam
morto
ao redor da arena
pela
cauda,
um bravo touro
morto
mas não um touro qualquer,
esse foi um touro
especial
e para mim
uma lição especial
que aprendi...
e embora Brahms
tenha roubado sua Primeira da 9a
de Beethoven,
e embora
o touro
estivesse morto,
sua cabeça e seus cornos e
seus intestinos mortos,
ele foi melhor que
Brahms,
tão bom quanto
Beethoven,
e
enquanto íamos embora
seu som e O
sentido dele
continuavam a subir rastejando por meus braços
e embora as pessoas me empurrassem e
pisassem nos meus pés
o touro fazia arder em mim
um candeeiro de
luz;
arrastado por sua cauda
ele nada tinha a ver com qualquer coisa
tendo agora escapado de tudo aquilo,
baixando pelo longo túnel, rodeado por
cotovelos e pés e olhos, eu rezei por Tijuana
e pelo touro morto
e pelo homem
e por mim,
as águas azuis beijando-se
gozando o prazer do âmago da dor,
e eu cerrei meus punhos
bem fundo em meus
bolsos, agarrei a escuridão
e segui em frente.
1 265
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Acordo Sobre Tchaikovsky

minhas duas pernas estão quebradas nos joelhos
e eu não posso mexer meu braço direito:
é primavera e os pássaros estão saltitando
para dentro e para fora dos arbustos
enlouquecendo os gatos.
meu bom amigo, Randy, frequenta os
sanitários para homens na pista de corridas
em busca de carteiras: garoto esperto:
se os pais dele fossem ricos
ele me diz que teria seguido
para Harvard.
ela fica tocando a 4a de Tchaikovsky,
aquela assim:
ka plunk plunk plunk plunk plunk;
não gosto
mas a velha senhora Rose
minha vizinha
na Casa de Repouso Sunset Park
acha que é
lindo.
todo mundo aqui é velho demais para usar
a quadra de tênis
há uma camada de pó em cima da coisa toda
e a rede é um emaranhado de fios rasgados.
a velha senhora Rose foi visitar seus filhos hoje -
isto é, eles vieram e a apanharam, o traste;
ela nem consegue andar
e suas pernas sequer estão quebradas -
ela não passa de um enfadonho
peido velho!
eu fui de cadeira de rodas há pouco até o quarto dela
e achei uma nota de 10 dólares dobrada bem
limpinha
e arrumadinha:
ela achava que ninguém a encontraria
dentro de um de seus velhos chinelos
mas eu estive rondando
e ela virá bater à minha porta esta noite
pedindo uma "pequena dose de scotch";
cara, toda essa besteira sobre as terras que ela COSTUMAVA
ter no Arizona e como seu marido COSTUMAVA
usar polainas e sair de bengala!
ele não precisa usar mais nada no lugar onde está agora;
e enquanto estive lá dentro
eu arrebentei a velha 4a de Tchaikovsky no braço de uma cadeira
quebrei-a para valer.
e a velha senhora Rose tinha razão:
soava maravilhosamente para mim:
qualquer coisa como
nozes quebrando.
1 087
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Fora do Arco

Quem constrói?
Ninguém mais. Só
onde me lanço. E é terra ou não.
Nada quero dizer.
Nada se alcança.
Música, a necessária:
boca do desejo
que inicia a perda ou
o espaço em branco.

Quem escuta ou quem atende?
Fora do arco, no papel
a pedra não é pedra. É onde
nada imploro, mas avanço ou caio.
E sem a força, o aro flexível,
inscrevo, abrindo o branco
para onde não sei.

Não me nego. Mas cedo
ao duro arbusto que estremece
à minha frente.
Será a árvore, é para ti
se eu for
no alvo que atravesso.
1 003
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Nota Sobre a Tigresa

primeiro, uma terrível discussão.
em seguida, nós fizemos amor.
agora, finalmente, estou pacificamente deitado
em sua vasta cama
que está
coberta por um prado de graciosas flores espalhadas nela,
minha cabeça e barriga para baixo,
cabeça de lado,
borrifado pela luz através da cortina
enquanto ela se banha silenciosa no
outro aposento.
tudo está além de mim
assim como está a maioria das coisas.
ouço música clássica em um pequeno rádio.
ela toma banho.
ouço a água a escorrer.
três
enquanto a maioria das pessoas
joga toda a conversa fora
eu
1 077
Ruy Belo

Ruy Belo

Espaço para a canção

As noites desmedidas de novembro
abertas sobre a queixa rígida das árvores
inauguram o outono sobre a terra
Adeus ó meu verão impiedoso
ó limpidez da água sobre as pedras
ó inúmeros galos da manhã
ó tempestade agreste de alegria
É o país da música é a fome da noite
impossível estar só razoável rapaz
meu príncipe da própria juventude
Nos cabelos de vento do mar morto do destino
fundo antigo de água conchas e areias
no centro solitário deste solo
ante a solenidade sensual do sono
eu olho os paralelipípedos do nada
não me detenho nos umbrais das trevas
caminho numa mesma direcção
Onde o cheiro da esteva sobre a vila
o trigo para o campo do olhar
as estrelas abertas pelo céu?
Ponho os pés sobre as folhas no asfalto
espero por dezembro mês para morrer
evoco a luz discreta das doenças de outrora
Aqui os cisnes são da cor da cinza
e o vento devasta o país dos pauis
quando perto do chão a última cigarra
anuncia a definitiva solidão
Que é momentos puros de outra vida
da luminosa luz como ferro em fusão
do silêncio como a nossa melhor obra?
Eu te saúdo outono punitivo
sinal desse silêncio que me não permite
desistir de cantar enquanto vivo
Que o vento a névoa a folha e sobretudo o chão
caibam dentro do espaço da minha canção
4 433
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Al ruiseñor

¿En qué noche secreta de Inglaterra
O del constante Rhin incalculable,
Perdida entre las noches de mis noches,
A mi ignorante oído habrá llegado
Tu voz cargada de mitologías,
Ruiseñor de Virgilio y de los persas?
Quizá nunca te oí, pero a mi vida
Se une tu vida, inseparablemente.
Un espíritu errante fue tu símbolo
En un libro de enigmas. El Marino
Te apodaba sirena de los bosques
Y cantas en la noche de Julieta
Y en la intrincada página latina
Y desde los pinares de aquel otro
Ruiseñor de Judea y Alemania,
Heine del burlón, el encendido, el triste.
Keats te oyó para todos, para siempre.
No habrá uno solo entre los claros nombres
Que los pueblos te dan sobre la tierra
Que no quiera ser digno de tu música,
Ruiseñor de la sombra. El agareno
Te soñó arrebatado por el éxtasis
El pecho traspasado por la espina
De la cantada rosa que enrojeces
Con tu sangre final. Asiduamente
Urdo en la hueca tarde este ejercicio,
Ruiseñor de la arena y de los mares,
Que en la memoria, exaltación y fábula,
Ardes de amor y mueres melodioso.


"La rosa profunda"(1975)



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 397 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 365
Filipa Leal

Filipa Leal

Vale Formoso II

Apareceu para jantar no Vale Formoso um pianista.
O pianista trazia a mulher pianista, o filho
que preferia jogar às cartas, e um grande saco de maçãs.

À refeição, servida no alpendre, contou que vivia no campo
e que procurava em Lisboa uma casa onde coubesse
com a sua mulher, o filho de ambos, e três pianos.

Fiquei preocupada com a família do pianista
— eram três —
e com a família de pianos
— eram três —
e pareceu-me melhor avisá-los de que seria difícil encontrar uma casa onde coubesse tudo aquilo
e a macieira.

 

160
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Uma Figura Errante, Ainda Incerta — E Sempre?

Uma figura errante, ainda incerta — e sempre?
Alguma folha nova caída de algum ramo?
Cai a sóbria noite em teus cabelos negros.
Pela janela vejo os campos divididos.

O cavalo entre nós é a força da paz
que dos teus ombros desce até aos teus joelhos.
Ganhei também meu rosto na sombra dolorosa.
O meu beijo, na música, é um gesto perfeito.

Suavidade intensa, uma estrela entre nós
num chão de suor negro, uma harmonia forte,
neste abraço ganhamos a força e o horizonte.
967
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Bailaste de noite ao som

Bailaste de noite ao som
De uma música estragada.
Bailar assim só é bom
Quando a alegria é de nada.
879
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Los compadritos muertos

Siguen apuntalando la recova
Del Paseo de Julio, sombras vanas
En eterno altercado con hermanas
Sombras o con el hambre, esa otra loba.
Cuando el último sol es amarillo
En la frontera de los arrabales,
Vuelven a su crepúsculo, fatales
Y muertos, a su puta y su cuchillo.
Perduran en apócrifas historias,
En un modo de andar, en el rasguido
De una cuerda, en un rostro, en un silbido,
En pobres cosas y en oscuras glorias.
En el intimo patio de la parra
Cuando un tango embravece la guitarra.


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 264 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
2 939
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Milonga de Albornoz

Alguien ya contó los días.
Alguien ya sabe la hora.
Alguien para Quien no hay
ni premuras ni demora.
Albornoz pasa silbando
una milonga entrerriana;
bajo el ala del chambergo
sus ojos ven la mañana.

La mañana de este día
del ochocientos noventa;
en el bajo del Retiro
ya le han perdido la cuenta
de amores y de trucadas
hasta el alba y de entreveros
a fierro con los sargentos,
con propios y forasteros.

Se la tienen bien jurada
más de un taura y más de un pillo;
en una esquina del sur
lo está esperando un cuchillo.
No un cuchillo sino tres
antes de clarear el día,
se le vinieron encima
y el hombre se defendía.

Un acero entró en el pecho,
ni se le movió la cara;
Alejo Albornoz murió
como si no le importara.
Pienso que le gustaría
saber que hoy anda su historia
en una milonga. El tiempo
es olvido y es memoria.


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 286 e 287 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 448
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Milonga para los orientales

Milonga que este porteño
dedica a los orientales,
agradeciendo memorias
de tardes y de ceibales.

El sabor de lo oriental
con estas palabras pinto;
es el sabor de lo que es
igual y un poco distinto.

Milonga de tantas cosas
que se van quedando lejos;
la quinta con mirador
y el zócalo de azulejos.

En tu banda sale el sol
apagando la farola
del Cerro y dando alegría
a la arena y a la ola.

Milonga de los troperos
que hartos de tierra y camino
pitaban tabaco negro
en el Paso del Molino.

Milonga del primer tango
que se quebró, nos da igual,
en las casas de Junín
o en las casas de Yerbal.

Como los tientos de un lazo
se entrevera nuestra historia,
esa historia de a caballo
que huele a sangre y a gloria.

Milonga de aquel gauchaje
que arremetió con denuedo
en la pampa, que es pareja,
o en la Cuchilla de Haedo.

¿Quién dirá de quienes fueron
esas lanzas enemigas
que irá desgastando el tiempo,
si de Ramírez o Artigas?

Para pelear como hermanos
era buena cualquier cancha;
que lo digan los que vieron
su último sol en Cagancha.

Hombro a hombro o pecho a pecho,
cuántas veces combatimos.
¡Cuántas veces nos corrieron,
cuántas veces los corrimos!

Milonga del olvidado
que muere y que no se queja;
milonga de la garganta
tajeada de oreja a oreja.

Milonga del domador
de potros de casco duro
y de la plata que alegra
el apero del oscuro.

Milonga de la milonga
a la sombra del ombú,
milonga del otro Hernández
que se batió en Paysandú.

Milonga para que el tiempo
vaya borrando fronteras;
por algo tienen los mismos
colores las dos banderas.


"Para las seis cuerdas" (1965)


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 283, 284 e 285 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 869
Rui Costa

Rui Costa

Clássico nada original

A voz dos Joy Division no carro
que por azar é novo
saber que o mundo é a continuação
de Vila Nova de Gaia
há mulheres com pólvora entre os dentes
para lá das montanhas e montanhas
para lá das montanhas.
o sofá era atanómico.
o gato comi-o. foi a melhor maneira
que encontrei para o levar comigo.
alguma roupa, dois ou três objectos.
as recordações pões numa caixa de
madeira com desenhos de cavalos. Depois,
vais ao café por volta das onze horas
e contas o dia no escritório as
pernas da nova secretária. Ris muito e pensas
que quem ama a luz não pode ter medo
da escuridão

601
Sebastião Alba

Sebastião Alba

Como os outros

Como os outros discipulo da noite
frente ao seu quadro negro que é
exterior à música dispo o reflexo
sou um e baço

dou-me as mãos na estreita
passagem dos dias
pelo café da cidade adoptiva
os passos discordando
mesmo entre si

As coisas são a sua morada
e há entre mim e mim um escuro limbo
mas é nessa disjunção o istmo da poesia
com suas grutas sinfónicas
no mar.


1 131
Rui Costa

Rui Costa

A música

A música partilha com a flor
a carne que se alaga como um copo.
A música é um rizoma atómico
cheia de sílabas grossas e finas
no peito maduro da onda.

Por isso a onda cai e a flor
também. E se te digo sei que ficas
triste e é quando substituis essa
geração de força por dois pequenos
vasos à entrada do teu dorso (e qual
és tu e qual sou eu é uma haste subindo)

Do teu lado esquerdo é dia.
O vestido é branco e aponta
a cidade a que chegas com os
dedos, rodando os ombros mas
não a cabeça. O teu olhar
é uma ferida musical sem verbo fixo:
a penumbra bate às vezes na
pálpebra, outras na imaginação.

A queda gera o seu próprio
impulso, como se fosse o preen-
chimento de uma forma: chama-se amor
e serve para os ouvintes ouvirem o esbracejar
do desejo, esses versos de asa silenciosa-
ouves?

Há poetas azuis que julgam que a
coerência é um pardal azul (da goela
até aos pés). Normalmente limpam os óculos
com coerência, em vez de com (enfim)
e depois vêem o mesmo pardal, a todas
as horas do dia e da noite, sentado azul-
mente sobre o seu nariz azul.

Pela direita, dizes que os versos
não caem se mudares constantemente
o chão. Mas os sonhos sim, e que a transla-
ção do vento sabe do remorso dos bichos mais
pequenos: procura as palavras junto ao chão
e se não me vires,
é porque o silêncio é também a música
e canto-a sem nome
para ti

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Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Milonga de Calandria

Servando Cardoso el nombre
y Ño Calandria el apodo;
no lo sabrán olvidar
los años, que olvidan todo.

No era un científico de esos
que usan arma de gatillo;
era su gusto jugarse
en el baile del cuchillo.

Cuántas veces en Montiel
lo habrá visto la alborada
en brazos de una mujer
ya tenida y ya olvidada.

El arma de su afición
era el facón caronero.
Fueron una sola cosa
el cristiano y el acero.

Bajo el alero de sombra
o en el rincón de la parra,
las manos que dieron muerte
sabían templar la guitarra.

Fija la vista en los ojos,
era capaz de parar
el hachazo más taimado.
¡Feliz quien lo vio pelear!

No tan felices aquellos
cuyo recuerdo postrero
fue la brusca arremetida
y la entrada del acero.

Siempre la selva y el duelo,
pecho a pecho y cara a cara.
Vivió matando y huyendo.
Vivió como si soñara.

Se cuenta que una mujer
fue y lo entregó a la partida;
a todos, tarde o temprano,
nos va entregando la vida.


"Para las seis cuerdas" (1965)


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 289 e 290| Debolsillo, 3ª. edição, 2016
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Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Ricardo Güiraldes

Nadie podrá olvidar su cortesía;era la no buscada, la primera
forma de su bondad, la verdadera
cifra de un alma clara como el día.
No he de olvidar tampoco la bizarra
serenidad, el fino rostro fuerte,
las luces de la gloria y de la muerte,
la mano interrogando la guitarra.
Como en el puro sueño de un espejo
(tú eres la realidad, yo su reflejo)
te veo conversando con nosotros
en Quintana. Ahí estás, mágico y muerto.
Tuyo, Ricardo, ahora es el abierto
campo de ayer, el alba de los potros.


"Elogio de la sombra" (1969)


Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 305 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
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