Poemas neste tema

Mudança e Transformação

Herberto Helder

Herberto Helder

Poemas Arabico-Andaluzes - Os Jarros

Pesados eram os jarros, mas quando os encheram de vinho puro,

tornaram-se leves, e quase levantaram voo com sua carga preciosa, do
mesmo modo que os corpos se aligeiram com os espíritos.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Poemas Arabico-Andaluzes - Bolhas

Quando o encheram de vinho, inflamou-se o jarro, vestindo-se com uma
túnica de chamas.

E maravilharam-se os olhos, quando ao de cima vieram as bolhas:

Granizo sobre vivas chamas, granizo que nascia do próprio coração das
brasas.
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José Saramago

José Saramago

Este Meu Rosto

Este meu rosto de sombra
Onde a luz me está nascendo
Não o nego
Animal sujo do fundo
Devagar à superfície veio imundo
Mas não cego
Roço o vitral que me assombra
Abro o chumbo e vou ardendo
Neste pego
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Rodrigo Carvalho

Rodrigo Carvalho

Elementos Naturais

Água, ar, fogo, terra.
Às vezes, para definir-me,
caio nos conceitos naturais.
Ao passar de minha vida,
muitas vezes quis ser fogo.
Revidar com chamas,
queimar todas as regras,
explodir em pensamentos. . .
Outras vezes,
desejei ser ar,
e poder escapar ileso
das armadilhas da paixão,
das dúvidas angustiantes,
dos golpes do coração.
Ou ainda, terra.
Firme, forte.
Dura o bastante para resistir à tentações.
Mas nunca pude viver tais conceitos!
Resta-me somente um elemento.
É claro que sou água!!
Deixo fluir, correr. . .
Vejo sempre novas paisagens. . .
Começo o dia como um rio,
que desagua no mar,
que o sol evapora,
que vira nuvem,
que transforma-se em chuva,
que volta à terra em outro rio,
que segue para outro mar,
que se regenera. . .
Sou meio sem raízes,
seguindo correntes.
Sou mutante. . .
Tudo muda!
Hoje sou um,
amanhã serei outro.
Mas,
sempre melhor que ontem.

Itabuna, 30 de junho de 1995

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Edmir Domingues

Edmir Domingues

Soneto das inseguranças

O que é mau e o que é bom, no dia a dia,
fica sempre difícil de entendermos.
Seja tudo julgado nos seus termos
sem qualquer preconceito ou fantasia.

Toda verdade é de sujeito, via
essa coisa tão simples de sabermos,
um mago, que escreveu para nós lermos,
que nada há de objetivo na valia.

Quando, à tarde, de súbito, aparece
um sátiro num bosque de ninfetas,
o que é bom e o que é mau não se conhece.

Cochonilhas são rubras nas provetas,
e quem mata lagartas não merece
o futuro esplendor das borboletas.
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Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Soneto da Madrugada

Pensar que já vivi à sombra escura
Desse ideal de dor, triste ideal
Que acima das paixões do bem e do mal
Colocava a paixão da criatura!

Pensar que essa paixão, flor de amargura
Foi uma desventura sem igual
Uma incapacidade de ternura
Nunca simples e nunca natural!

Pensar que a vida se houve de tal sorte
Com tal zelo e tão íntimo sentido
Que em mim a vida renasceu da morte!

Hoje me libertei, povo oprimido
E por ti viverei meu ódio forte
Nesse misterioso amor perdido.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Princesa da Cidade Extrema Ou a Morte Dos Ritos

Quando o palácio do rei do Estio foi invadido
Isô princesa da Cidade Extrema
Inclinou gravemente a cabeça pequena
E em seu sorriso de coral os dentes brilharam como grãos de arroz
Quando levaram sua colecção de jades
O seu leito de sândalo
O sorriso franziu sua narina fina
Suas pestanas acenaram como borboletas
Quando levaram suas jarras vermelhas seus livros de estampas
Ela continuou flexível e serena
Suas pestanas aplaudiram como leques pretos
Seus lábios recitaram a sentença antiga:
Aquele que é despojado fica livre
No lago viu-se
Ela mesma era
Flexível e brilhante como seda
Fresca e macia como jade
Colorida e preciosa como estampa
Serena como seda dormiu nessa noite sobre esteiras
Porém a aurora do tempo novo despontou na cidade
Quando ela acordou
O cortejo das mãos não acorreu
A mão que na jarra põe a flor
A mão que acende o incenso
A mão que desenrola o tapete
A mão que faz cantar a música das harpas
A longa subtil mão precisa que pinta o contorno dos olhos
A mão fresca e lenta que derrama os perfumes
Mão nenhuma invoca o espírito dos deuses
Protectores do tecto
Mão nenhuma dispõe o ritual antiquíssimo que introduz
O fogo linear do dia
Mão nenhuma traça o gesto que constrói
A forma celeste do dia
As vozes dizem:
Ergue-te sozinha
Não és ídolo não és divina
Nenhuma coisa é divina
Como seda no chão cai desprendida
Assim ela esvaída
Quando a si torna não torna à sua imagem
Tudo é abolido e bebido em repentina voragem
O colóquio dos bambus calou-se
Nem a rã coaxa
Como caule ao vento seu pescoço fino baloiça
Suas pestanas permanecem imóveis como as do cego que há milénios
Junto da ponte não vê o rio
Em seus vestidos tropeça como o cego
Suas mãos tacteiam o ar
Muito alto ouve ranger o céu
São os deuses rasgando suas sedosas bandeiras de vento
Para não ouvir o silvo dos gumes acerados
Mergulha no lago até ao lodo
Depois flutua muitos dias
No centro da corola que formam
Os seus largos vestidos espalhados
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Viagem

Naquele tempo era o Kaos
E as palavras do poema não irrompiam já como palmeiras

Por isso abandonou a cidade — o país natal
País perdendo dia a dia o seu rosto:
A pintura a cair das paredes — cães
Farejando o lixo —
Brutais os gestos — obscenas as palavras
De cada coisa a beleza destroçada

Por isso se evadiu e para Oriente
Navegou e de noite e lentamente

E um novo dia se abriu em sua frente

E era um país de tigres e palmeiras
Como em longínquo cismar adolescente
1 373
Fernando Guerreiro

Fernando Guerreiro

[poema sem título]

O corpo sobe e desce
embalado de encontro
à gelatina (gordura)
do líquido até se dissolver
na onda de partículas
– a cintilação sem brilho
(glauca) de fuxos invisíveis – 
 de onde reemerge
com um novo tronco –
as guelras no lugar
das pernas – para
repetir um outro ciclo.
Quem o segura?
Tudo se arrasta
no aquário alagado
em que o olhar se adensa,
inclinado para dentro,
deixando-se cobrir
pelo lençol de pregas –
silvos embutidos –
do vidro movediço
Tudo mexe em câmara
lenta vídeo distorcido
no viveiro de formas
(carnívoro adormecido)
de onde as imagens
se desprendem
(da agonia do fundo)
ainda irresolvidas.

Mal sai da cápsula
a placa de vidro –
com os seus parafusos
de metal fundido –
agride-o na cabeça
no ponto em que
o pensamento bate
no fundo e se
extingue o sentido.
Atravessado pela janela
que o lamina pelo cinto
cai para baixo e cima
sem que os dois cotos,
girando sobre si,
cheguem a ocupar
o espaço de ravinas
deixado livre
pelo pesadelo
entre o sólido e o líquido.
Só então a imagem,
quando volta à superfície,
reconhece como sua
a promessa de novos sons –
seres de língua bífida – 
 que já nada prende
aos limites do conhecido.
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Isabel Mendes Ferreira

Isabel Mendes Ferreira

e volto

e volto. com outro silêncio mais loba mais árabe menos faca antes farpa outro vestido a mesma capa. fui ao deserto. nasceu-me um filho. da terra vermelha. da terra sanguínea. da pele vestal sou agora outra muralha desabituei-me da planície. fiz-me à montanha. galopei-me. voltei. mais secreta. menos incerta. menos asa. mais de areia. menos perguntas. menos respostas. de esporas. quero menos. quero agora. só agora voltei. muitas mortes muitas viagens depois. para lembrar o que não esqueço. tudo o que trago nos traços da pele. lama. perfume. finitude que me cega claridades de cal. e me afoga todos os afagos e cala as palavras e descola os gritos. como placenta como raiz. voltei para acordar do automatismo. do esboço. do risco. do retrato. do adjectivo.
voltei. estou aqui. igual. diferente. menos macia. mais árida. menos ávida. como se ao contrário. redonda. aguda. crua. menos gata mais gasta bruta dupla contra o vento. metade dionisíaca. metade socrática. e volto.
719
Isabel Mendes Ferreira

Isabel Mendes Ferreira

nada ressuscitará

nada ressuscitará. nem a montanha. apenas um breve
desmaio. de minúsculas ervas. de poeiras. sem espelho.
e tudo se liga tudo se completa. em múltiplas gradações de uma geografia labiríntica. que não decifro. antes crio.
re.crio. re.inicio. como se sibila fosse não sendo rosto nem ruga nem mapa de areia. as coisas estranhas estranham-se pela metade visível. breve asa de búzio amazónico.
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Matilde Campilho

Matilde Campilho

We’Ve Changed, Honey Boo

Como estava previsto nos registos, agora você é muito mais dada à astrologia e eu ao estudo dos cafés servidos nas beiras de estrada. A polícia não nos procura mais. O tribunal dos seiscentos dias resolveu que a misturada que fizemos com os nomes dos pássaros já não é uma questão para a segurança interna. Mensagens encriptadas na bula dos medicamentos, aromas desleais enfiados à socapa nos pacotinhos de sorvete, assobio nos ouvidos do sinaleiro- tudo parou. Quase nos prendiam por tráfico de influências, mas agora as urbanizações andam muito sossegadas. Daniel, entretanto, está morto. Walter emudeceu no caminho da composição e os jornais usam datas estranhas em seus cabeçalhos. Junto àquelas figuras de aviões e homens fardados aparece o nome do décimo sexto mês. Mudou tudo, honey, e a distância entre nós não foi certamente a causa para toda a explosão. Existem mais de trinca e nove marcas diferentes de café, isso sem contar as misturas solúveis. As professoras de Westbridge preferem-no forte. Os astronautas fora de missão bebem cafezinho claro, não vá acontecer uma emergência qualquer — quem entende de gravidade está muito consciente da ligação entre leveza e sono. Antes do horóscopo e dos mapas você prestava alguma atenção ao despertar do soldado. Acho que tinha qualquer coisa a ver com luz ou com melancolia, tinha certamente tudo a ver com crença. Quero dizer, tu trabalhavas na tipografia e eu ainda guardo a revista onde plantaste o retrato do barcalhão fazendo a vênia à alvorada. Falávamos muito de príncipes nessa época, e os príncipes pertencem às manhãs. Cada motel serve um café diferente, raios. Distingo os ares da China do vento do Cazaquistão num minuto. We’ve changed, honey boo, mas os climogramas permanecem.
1 000
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Infatigável

O progresso não recua.
Já transformou esta rua
em buraco.

E o progresso continua.
Vai abrir neste buraco
outra rua.

Afinal, da nova rua,
o progresso vai compor
outro buraco.
1 739
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

És Como a Terra-Mãe Que Nos Devora

Prendendo a nossa vida no seu peso.
De ti nos veio a morte, e trazemos
A tristeza e a sombra dos teus membros
Colada ao nosso sonho e o teu amor
Rói-nos na raiz. Larga os nossos braços.
Deixa crescer os gestos que nos brotam.
Nós temos outro corpo pra formar,
Não o corpo pesado que nos deste
Mas um outro que está no horizonte.
Deixa-nos crescer, deixa-nos nascer
E que a nossa raiz de ti se arranque.
1 445
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Pronunciar a Terra

Pronunciar a terra
com as suas estridências.
Rodar com o novo sangue e a sua ignorância.
1 022
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Minha Terra

Saí menino de minha terra.
Passei trinta anos longe dela.
De vez em quando me diziam:
Sua terra está completamente mudada,
Tem avenidas, arranha-céus...
É hoje uma bonita cidade!

Meu coração ficava pequenino.

Revi afinal o meu Recife.
Está de fato completamente mudado.
Tem avenidas, arranha-céus.
É hoje uma bonita cidade.

Diabo leve quem pôs bonita a minha terra!
2 923
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Fiel À Lentidão Que Abarca a Cinza E o Fogo

Fiel à lentidão que abarca a cinza e o fogo.
Fogo do ar em sua tácita certeza.
Confluência à superfície na dispersão latente.
1 266
Martha Medeiros

Martha Medeiros

pois é

pois é
aqui estou
quem vier
verá que sou
o que restou
de uma mulher
1 002
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mutação da Distância

Mutação da distância
Uma íntima brisa se levanta
Ritmos unânimes
consonantes com ignorados fundamentos
Apoteose oculta desenrola-se num branco fausto
Nunca abrira esta porta e no entanto abriu-se
como se fosse o caminho de sempre
O ruído o repouso o movimento
transformaram-se numa dicção das coisas
A interrogação desposa a textura iminente
Aproximam-se superfícies
Uma sombra vai e vem até se transformar em pedra
Ilhas de sílabas vão formando um arquipélago verde
Revelação de outro sabor ignorado
Carícias de carícias vibrações mais finas
Pela transparência desnudado dilato-me na densidade
Prolonga-se o imponderável o mínimo o subtil
Tácita no sangue lavra a flora do permanente
913
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora da Página

Desaparece. Renasce.
É um corpo ou um nome?
Florescência sem raízes. Cada imagem
gera outra imagem. Partículas

intermitentes. Tempestade
silenciosa. Como reencontrar
o negro e as raízes?
Algo tão pobre no silêncio

requer uma linguagem nua.
Surpreendente júbilo quando
na estrita área branca
a nudez profunda repercute.
1 013
Martha Medeiros

Martha Medeiros

se eu quisesse

se eu quisesse
sairia da cidade
moraria onde pudesse
deixaria saudade
partiria quando desse
não interessa a idade


andaria a esmo
descobriria ruas
iria sozinha
pediria abrigo
trabalharia à noite
viveria de dia
ouviria música
saberia línguas
pediria arrego
trocaria o nome
mandaria cartas
choraria às vezes
não envelheceria
perderia o rumo
cometeria erros
distribuiria beijos
arruinaria casamentos
visitaria museus
deixaria o cabelo crescer
sorriria diferente
montaria uma casa
viajaria em cargueiro


faria tudo isso
se eu quisesse mesmo
1 015
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora da Nudez

Um corpo aquece
ascende
liberta-se
dos círculos cinzentos.

Uma língua se tece
dentro da pele
as pálpebras compreendem
as cordas do silêncio.

Aroma global
da ferida e da resina
os extremos são barcas
nudez completa.
925
Marina Colasanti

Marina Colasanti

A medida do pai

O filho primogênito
abaixa a cabeça
sempre que passa
por aquela porta.
O filho primogênito cresceu.

Alteie a porta,
digo para ele,
não abaixe a cabeça.

Não posso,
me responde,
já tentei, mas
a porta foi feita
e posta a viga
na minha antiga medida.

O filho primogênito cresceu
e a casa do pai
só lhe cabe
abaixando a cabeça.  


El Moro, Roma, 2001
1 118
Martha Medeiros

Martha Medeiros

são tantos os canais do coração

são tantos os canais do coração
que chegando em Veneza fiquei nua
descobri segredos que escondia de mim mesma
encontrei a saída dos meus becos disfarçados
chorei ouvindo jazz na Praça de São Marcos
1 042