Poemas neste tema

Mudança e Transformação

Carlos D’Alge

Carlos D’Alge

Re-invenção do Corpo

O corpo perdido precisa ser re-inventado
para que de se possa fazer o instrumento
com que cantar no ermo já instaurado.
Quem sabe se uma lira, qual o pastor antigo
que do osso da coxa, do que restou do filho amado,
fez o objeto para celebrar o corpo imolado.

O corpo não é apenas a carícia que afaga,
a amena enseada, o útero procurado, a quieta rua,
o repouso consentido, a desbravada plaga.
O corpo se transforma às vezes em fino aço,
em lâmina que fere sem deixar traço,
em riso que se esconde e se insinua,

O corpo é um ser em constante mutação,
zéfiro, borrasca, tempestade, cantochão.
O corpo perdido entre algas e brumas,
entre sinuosas, ínvias e obscuras fragas,
precisa ser re-criado entre paredes seladas
que abafem segredos, murmúrios e escumas.

Talvez fazer da costela mais saliente
um arco com que brandir o travo violino
ou a possível lira e escondê-la no cimo
da árvore onde repousa o corpo fremente.
Corpo ser móbil, móvel e serpentário,
úmido, fugidio, escampado sacrário.

362
Ana Martins Marques

Ana Martins Marques

porta

a porta
como toda fronteira
é apenas para se atravessar
rapidamente ela já não serve mais
um corpo a corpo
e já se está do outro lado
dela nascem o fora e o dentro
ela que é seu vazio


Da série “Arquitetura de interiores”
1 270
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Fui forte, venci as misérias da alma com a alma toda.

Fui forte, venci as misérias da alma com a alma toda.
Lembro o teu sorriso pequeno, Leucothoe, e não sorrio para não chorar.

Vi-te como eras, Dyke, num sonho da meia-noite
De novo te amei, mas de outra maneira. Porém vi-te qual eras.

As árvores da floresta onde andámos sãs as mesmas, ou são outras.
Nós, Lydia, nem somos os mesmos nem outros, porque lembramos.
1 504
Anterior Página 20