Poemas neste tema
Mudança e Transformação
Gabriela Cunha Melo Cavalcanti
Realidade
Realidade, por que és tão difícil de ser encarada?
Por que fazes questão de mostrar tua face mais amarga, a mais oculta, a mais sacrificada pelo tempo?
O que tens de tão incômodo contra o nosso amigo sonho , que faz-te parecer assim, desagradável?
Será uma necessidade subjetiva tornar-te tão maçante?
Ou faz parte do espetáculo da vida enxergar-te de forma angustiante?
Entre tantas das tuas facetas, carregas sempre contigo a saudade e a melancolia? Carregas sempre contigo a vontade de respeitar uma nova realidade?
Tens, por acaso, espaço para criar? Ou ainda sobrevives naquele medo tão antigo do desejo de mudar?
Terás tu ansiedade de novos conhecimentos?
Ou estás acomodada nas tuas já conhecidas emoções?
Falta-te coragem, caríssima realidade ? E logo tu, que afrontas a todos de maneira ímpia, com tanta volúpia !
Faz a ti mesma esta imensa caridade, procura os "porquês" de tão intensa realidade !!!
Por que fazes questão de mostrar tua face mais amarga, a mais oculta, a mais sacrificada pelo tempo?
O que tens de tão incômodo contra o nosso amigo sonho , que faz-te parecer assim, desagradável?
Será uma necessidade subjetiva tornar-te tão maçante?
Ou faz parte do espetáculo da vida enxergar-te de forma angustiante?
Entre tantas das tuas facetas, carregas sempre contigo a saudade e a melancolia? Carregas sempre contigo a vontade de respeitar uma nova realidade?
Tens, por acaso, espaço para criar? Ou ainda sobrevives naquele medo tão antigo do desejo de mudar?
Terás tu ansiedade de novos conhecimentos?
Ou estás acomodada nas tuas já conhecidas emoções?
Falta-te coragem, caríssima realidade ? E logo tu, que afrontas a todos de maneira ímpia, com tanta volúpia !
Faz a ti mesma esta imensa caridade, procura os "porquês" de tão intensa realidade !!!
1 065
Ana Garrett
Converti-me num lago
Converti-me num lago
travessado por barqueiros sem destino,
e, como uma altiva ave de rapina,
solto-me em gritos e
lanço o meu último gemido.
Numa despedida efémera
cruzo o mundo, alheia, a voar
e das águas serenas que brotam dos meus olhos,
acrescento ao universo mais um mar,
onde iças as tuas velas
e prossegues uma história que foi minha,
a navegar.
travessado por barqueiros sem destino,
e, como uma altiva ave de rapina,
solto-me em gritos e
lanço o meu último gemido.
Numa despedida efémera
cruzo o mundo, alheia, a voar
e das águas serenas que brotam dos meus olhos,
acrescento ao universo mais um mar,
onde iças as tuas velas
e prossegues uma história que foi minha,
a navegar.
823
Reinaldo Ferreira
Roma 476
Bárbaro é puro; é sangue novo e forte;
É o ruivo e brutal que retempera
A decadência doiro; é primavera
No outono hipnótico da morte.
Quando a taça mais vinho não comporte
E trema já a mão que o invertera,
O bárbaro impulso que lhe altera
O equilíbrio é ruivo e vem do norte
Oh! Nós, os para quem andam contados
Os dias viciosos, requintados!
Que chovam, triunfais, pétalas, cravos,
Como quem peça a derradeira orgia!
Pois antes que, talvez, renasça o dia,
Do norte venha quem nos faça escravos
É o ruivo e brutal que retempera
A decadência doiro; é primavera
No outono hipnótico da morte.
Quando a taça mais vinho não comporte
E trema já a mão que o invertera,
O bárbaro impulso que lhe altera
O equilíbrio é ruivo e vem do norte
Oh! Nós, os para quem andam contados
Os dias viciosos, requintados!
Que chovam, triunfais, pétalas, cravos,
Como quem peça a derradeira orgia!
Pois antes que, talvez, renasça o dia,
Do norte venha quem nos faça escravos
1 589
António Ramos Rosa
O Sim do Instante — a Montanha Branca
O sim do instante — a montanha branca
negra
negra
543
António Ramos Rosa
A Nuvem Passa
A nuvem passa
sem vestígios
abrindo o espaço
sem vestígios
abrindo o espaço
1 067
António Ramos Rosa
A Face Submersa de Che
Gastaram-se as promessas da sempre morte viva
Das sílabas do teu rosto novas palavras surgem
Sob as palavras as sílabas se reúnem
Outras palavras sob as palavras
nascem
A face submersa ressurge das raízes
Sempre ou nunca mais de cada vez e sempre
Um rastro se propaga rasga as superfícies
Um perfume silvestre desempesta as cidades
As sílabas reúnem-se Uma bondade antiga
retempera a revolta
Gastaram-se as promessas A face submersa
ressurge das raízes
Outras palavras sob as palavras nascem
Das sílabas do teu rosto novas palavras surgem
Sob as palavras as sílabas se reúnem
Outras palavras sob as palavras
nascem
A face submersa ressurge das raízes
Sempre ou nunca mais de cada vez e sempre
Um rastro se propaga rasga as superfícies
Um perfume silvestre desempesta as cidades
As sílabas reúnem-se Uma bondade antiga
retempera a revolta
Gastaram-se as promessas A face submersa
ressurge das raízes
Outras palavras sob as palavras nascem
1 006
António Ramos Rosa
O Que Segrega Névoa E Suor Debaixo de Um Sol Escuro Outro Sistema?
O que segrega névoa e suor debaixo de um sol escuro Outro sistema?
Nada mais do que sombras que não flectem nem respiram
Partiu-se o espelho das imagens
múltiplas
Abre-se o arco do sujeito nulo
no inesperado sopro de outras formas
Nada mais do que sombras que não flectem nem respiram
Partiu-se o espelho das imagens
múltiplas
Abre-se o arco do sujeito nulo
no inesperado sopro de outras formas
921
António Ramos Rosa
Um Corpo Se Retrai E Se Constrói
Um corpo se retrai e se constrói
pelo vazio que gira em torno dele o espaço é limitado
e se algo avança sem colunas
são formas que respiram na brancura
Aqui nesta procura a mão
dilata-se
A história que nos vence não nos vence
O desejo é o objecto da metamorfose
Com o desejo o corpo se levanta
As formas estão nas linhas
e um rosto se imagina
na árvore em ramos abstractos
pelo vazio que gira em torno dele o espaço é limitado
e se algo avança sem colunas
são formas que respiram na brancura
Aqui nesta procura a mão
dilata-se
A história que nos vence não nos vence
O desejo é o objecto da metamorfose
Com o desejo o corpo se levanta
As formas estão nas linhas
e um rosto se imagina
na árvore em ramos abstractos
955
António Ramos Rosa
Algo Se Duplica
Algo se duplica
e inclina-se
refracta-se
num novo espaço em que se recompõe
Vertigem densa angústia do não igual de um outro qual?
O acaso decisivo
e o gesto imprevisível
negam ao espaço a multidão de imagens
e inclina-se
refracta-se
num novo espaço em que se recompõe
Vertigem densa angústia do não igual de um outro qual?
O acaso decisivo
e o gesto imprevisível
negam ao espaço a multidão de imagens
979
António Ramos Rosa
Dizem Que É Jardim
Dizem que é jardim
porque repousa
E diz-se também que se ilumina
em pausas
repentinas
Mas que dizer da trama
em movimento?
Que dizer do vento?
Que se prepara o incêndio
aqui na folha
porque repousa
E diz-se também que se ilumina
em pausas
repentinas
Mas que dizer da trama
em movimento?
Que dizer do vento?
Que se prepara o incêndio
aqui na folha
935
António Ramos Rosa
Limiar Ou o Silêncio
Limiar ou o silêncio
de um corpo obscuro e branco
As hastes vivas
envolvem-no na clareira
em que a sua nudez promete o nome
A fenda escura e verde
em que desliza a mão
sem atingir o inseparável ou o núcleo
Imagens múltiplas
até que os limites se conjuguem
no novo corpo ou na palavra
que o transpõe
de um corpo obscuro e branco
As hastes vivas
envolvem-no na clareira
em que a sua nudez promete o nome
A fenda escura e verde
em que desliza a mão
sem atingir o inseparável ou o núcleo
Imagens múltiplas
até que os limites se conjuguem
no novo corpo ou na palavra
que o transpõe
1 085
António Ramos Rosa
A Metamorfose Branca
Por toda a parte
um corpo
o mesmo corpo
Para mutilar
Para eliminar
Por toda a parte
a anarquia do canto
dos nervos
da escrita
do único corpo?
O universo escreve-se no corpo
Tudo se escreve no corpo
A mulher o animal a noite intacta
a morte
a ferida permanente
(A mão fora do abismo tenta escrever ainda mas quê? Com que instrumento subtil paciente impaciente? Com que matéria? Em que rectângulo do ar recortado no vazio?)
Tudo desaparece
A nitidez da letra
apaga-se
no papel
Uma palavra subsiste uma marca
no corpo
no texto
A marca do corpo desfaz
o texto
que se apaga
e arde
de letra em letra
de ferida em ferida
Cruel nudez do texto e do corpo
do corpo perdido
fixo
na letra do texto
que o devora
que o desnuda
anula
O texto apaga-se
e acende-se
no limite
metamorfose da morte do corpo
vida do corpo impossível
em cada letra flui o sangue novo
da palavra do corpo
Uma ferida só uma longa ferida
de terra
vocábulo de sangue e pedra
………………………………………………
Este é o espaço mortal do corpo
Este é o corpo nascente e branco do vocábulo
Esta é a respiração da página
Constelações navios promessas
Sangue da metamorfose da palavra
No limiar do deserto as palavras de fogo branco são a cinza de um fogo perdido de um fogo a acender com a respiração do deserto ou do mar.
As palavras encrespam-se acendem-se ao vento que as despe e as despoja avivando com o ar vivo do sal e da areia a rosa de um dizer que nasce da incessante solidão da sua sede.
Os vocábulos são como um rumor de cavalos
adormecidos
e a sua brancura é vida
através da morte e do branco
Cada caminho de palavras na página
conduz-nos
a uma pedra
Esta pedra é a do sepulcro ou o sinal de um perpétuo adiamento
uma espera indefinida sem esperança
sinal de suspensão
que se anula
para que o caminho prossiga
de novo
as palavras vivem solitárias
o sal o vento e o sol despertam
uma boca ressequida e verde uma boca lenta longínqua de ócio fresco
Vivem as palavras
do suicídio da brancura
renascem brancas
espuma breve
de que pureza mortal
para que sede sempre insatisfeita
de um início de água
de uma linguagem de água
(A morte das palavras na página será a metamorfose que não foge à morte a vida a outra vida que seria o início sempre possível e impossível do nosso nascimento.)
Mas que palavras dirão a morte impossível inominável? Que morte é a morte da linguagem e do corpo? Simulacro aparência espectáculo fumo de palavras sem sangue e sem corpo
infinita e ridícula hemorragia em torno de um ponto
morto que nada reflecte nem o eco sequer de qualquer vida. Por momentos e num espaço que logo se olvida a palavra morre com a morte sem a morte irrecuperável soberana
o hiato aqui é inenarrável
A linguagem renascerá além na margem fria da manhã
A linguagem será o corpo o corpo nu(lo)
O corpo de metamorfose é o corpo que já não pertence à vida nem à morte tornou-se na linguagem obscura e branca de cada vocábulo fechado e aberto como uma ferida. Quem fala é a língua desta morte-vida aqui e para além sempre no limiar do inacessível. Milhares de pálpebras se fecham sob cada palavra que se levanta e o silêncio desses olhos perturba a palavra, torna-a ilegível na sua legibilidade
O vocábulo não é plano e liso Nos seus subterrâneos milhares de vozes se calaram para que o vocábulo emergisse como a palavra da metamorfose no limiar do nada
Na sua impossibilidade esta é a única voz que atravessa o inexorável a voz paciente e sôfrega ardente e impaciente a voz que espera sem esperança
um corpo
o mesmo corpo
Para mutilar
Para eliminar
Por toda a parte
a anarquia do canto
dos nervos
da escrita
do único corpo?
O universo escreve-se no corpo
Tudo se escreve no corpo
A mulher o animal a noite intacta
a morte
a ferida permanente
(A mão fora do abismo tenta escrever ainda mas quê? Com que instrumento subtil paciente impaciente? Com que matéria? Em que rectângulo do ar recortado no vazio?)
Tudo desaparece
A nitidez da letra
apaga-se
no papel
Uma palavra subsiste uma marca
no corpo
no texto
A marca do corpo desfaz
o texto
que se apaga
e arde
de letra em letra
de ferida em ferida
Cruel nudez do texto e do corpo
do corpo perdido
fixo
na letra do texto
que o devora
que o desnuda
anula
O texto apaga-se
e acende-se
no limite
metamorfose da morte do corpo
vida do corpo impossível
em cada letra flui o sangue novo
da palavra do corpo
Uma ferida só uma longa ferida
de terra
vocábulo de sangue e pedra
………………………………………………
Este é o espaço mortal do corpo
Este é o corpo nascente e branco do vocábulo
Esta é a respiração da página
Constelações navios promessas
Sangue da metamorfose da palavra
No limiar do deserto as palavras de fogo branco são a cinza de um fogo perdido de um fogo a acender com a respiração do deserto ou do mar.
As palavras encrespam-se acendem-se ao vento que as despe e as despoja avivando com o ar vivo do sal e da areia a rosa de um dizer que nasce da incessante solidão da sua sede.
Os vocábulos são como um rumor de cavalos
adormecidos
e a sua brancura é vida
através da morte e do branco
Cada caminho de palavras na página
conduz-nos
a uma pedra
Esta pedra é a do sepulcro ou o sinal de um perpétuo adiamento
uma espera indefinida sem esperança
sinal de suspensão
que se anula
para que o caminho prossiga
de novo
as palavras vivem solitárias
o sal o vento e o sol despertam
uma boca ressequida e verde uma boca lenta longínqua de ócio fresco
Vivem as palavras
do suicídio da brancura
renascem brancas
espuma breve
de que pureza mortal
para que sede sempre insatisfeita
de um início de água
de uma linguagem de água
(A morte das palavras na página será a metamorfose que não foge à morte a vida a outra vida que seria o início sempre possível e impossível do nosso nascimento.)
Mas que palavras dirão a morte impossível inominável? Que morte é a morte da linguagem e do corpo? Simulacro aparência espectáculo fumo de palavras sem sangue e sem corpo
infinita e ridícula hemorragia em torno de um ponto
morto que nada reflecte nem o eco sequer de qualquer vida. Por momentos e num espaço que logo se olvida a palavra morre com a morte sem a morte irrecuperável soberana
o hiato aqui é inenarrável
A linguagem renascerá além na margem fria da manhã
A linguagem será o corpo o corpo nu(lo)
O corpo de metamorfose é o corpo que já não pertence à vida nem à morte tornou-se na linguagem obscura e branca de cada vocábulo fechado e aberto como uma ferida. Quem fala é a língua desta morte-vida aqui e para além sempre no limiar do inacessível. Milhares de pálpebras se fecham sob cada palavra que se levanta e o silêncio desses olhos perturba a palavra, torna-a ilegível na sua legibilidade
O vocábulo não é plano e liso Nos seus subterrâneos milhares de vozes se calaram para que o vocábulo emergisse como a palavra da metamorfose no limiar do nada
Na sua impossibilidade esta é a única voz que atravessa o inexorável a voz paciente e sôfrega ardente e impaciente a voz que espera sem esperança
1 031
António Ramos Rosa
No Limiar da Claridade Móvel
No limiar da claridade móvel
um só trajecto até à opacidade
um frémito de abandono e de silêncio
nas vertentes
mais frescas e mais fundas
Impossível relatar o que tu vês
inesgotáveis são as folhas
as relações inúmeras gotas de água
os objectos sucessivos simultâneos
o corpo desagrega-se
recompõe-se
o mesmo corpo e outro e outro
a distância mantém-se e é abolida
Figura do desejo e da nudez
perseguida
a transparência é livre
à superfície de
uma escrita que se abre ao obscuro
Uma festa se promove
uma aliança do ar com um fogo de ervas
o combate pela claridade
na carne mesma do poema
Corpo a corpo
letra a letra
pelos sulcos não sulcados
algo que começa e é sem nome
e sem imagem
um só trajecto até à opacidade
um frémito de abandono e de silêncio
nas vertentes
mais frescas e mais fundas
Impossível relatar o que tu vês
inesgotáveis são as folhas
as relações inúmeras gotas de água
os objectos sucessivos simultâneos
o corpo desagrega-se
recompõe-se
o mesmo corpo e outro e outro
a distância mantém-se e é abolida
Figura do desejo e da nudez
perseguida
a transparência é livre
à superfície de
uma escrita que se abre ao obscuro
Uma festa se promove
uma aliança do ar com um fogo de ervas
o combate pela claridade
na carne mesma do poema
Corpo a corpo
letra a letra
pelos sulcos não sulcados
algo que começa e é sem nome
e sem imagem
1 051
António Ramos Rosa
Num Ponto Qualquer
Num ponto qualquer
sensualmente subtil
algo que antes não servia para nada
irradia agora habitada surpresa.
sensualmente subtil
algo que antes não servia para nada
irradia agora habitada surpresa.
1 113
António Ramos Rosa
Não Querer Na Espera
Não querer na espera
até ao tácito oculto que interroga.
Arquear-se entre os arcos de água
até ao fundo e nascer flexível signo.
até ao tácito oculto que interroga.
Arquear-se entre os arcos de água
até ao fundo e nascer flexível signo.
1 002
António Ramos Rosa
A Brecha Aberta Pelo Gesto
A brecha aberta pelo gesto
apaga todas as fórmulas. Do rio
nasce a palavra que corre para o fogo.
Outra boca se abre inicial, perdida.
apaga todas as fórmulas. Do rio
nasce a palavra que corre para o fogo.
Outra boca se abre inicial, perdida.
934
Jaime Gil de Biedma
Voltar
Minha lembrança eram imagens,
no instante, de ti:
essa expressão e um matiz
dos olhos, um pouco suave
na inflexão de tua voz,
e teus bocejos furtivos
de lebréu que dormiu mal
toda a noite em meu quarto.
Voltar, passados os anos,
rumo à felicidade
— para ver-se e recordar
que estou também mudado.
(de Moralidades)
no instante, de ti:
essa expressão e um matiz
dos olhos, um pouco suave
na inflexão de tua voz,
e teus bocejos furtivos
de lebréu que dormiu mal
toda a noite em meu quarto.
Voltar, passados os anos,
rumo à felicidade
— para ver-se e recordar
que estou também mudado.
(de Moralidades)
836
Angela Santos
Ressonâncias
Subrepticiamente
um tremor se anuncia nas profundezas
lateja nas veias, em cada fibra, em cada músculo
e emerge à terra de ninguém onde me abandonei....
subitamente um rio galga as margens,
vou na corrente indo onde me leva,
não sou de mim, mesmo que me saiba e sinta
nasço de cada maré, em todos os ciclos lunares
e a cada manhã regresso desse lugar
onde sempre irei na senda do que houver perdido....
Carrego, as sombras e a alva, sou o caos que se ordena
a cada instante que respira,
e nenhuma outra voz ecoa nas labirínticas dobras da memória
que não essa que vem de um lugar e tempo inexplicitos.
Sou no eterno retorno onde me descubro e refaço,
E vivo do inaudito
raiz de mim onde asas ganho,
lugar do desatino onde me acerto
a cada erro, a cada dor, a cada passo, a cada rasgo de infinito.
um tremor se anuncia nas profundezas
lateja nas veias, em cada fibra, em cada músculo
e emerge à terra de ninguém onde me abandonei....
subitamente um rio galga as margens,
vou na corrente indo onde me leva,
não sou de mim, mesmo que me saiba e sinta
nasço de cada maré, em todos os ciclos lunares
e a cada manhã regresso desse lugar
onde sempre irei na senda do que houver perdido....
Carrego, as sombras e a alva, sou o caos que se ordena
a cada instante que respira,
e nenhuma outra voz ecoa nas labirínticas dobras da memória
que não essa que vem de um lugar e tempo inexplicitos.
Sou no eterno retorno onde me descubro e refaço,
E vivo do inaudito
raiz de mim onde asas ganho,
lugar do desatino onde me acerto
a cada erro, a cada dor, a cada passo, a cada rasgo de infinito.
643
Angela Santos
A Caminho
Calam-se
à passagem do desejo todas as vozes
que ontem insinuavam ficar aqui, e eram
sonhos inacabados ou nado-mortos, os que me detinham,
a vida, essa, acenava do lado de cá de si mesma
enquanto eu me perdia ao largo ....
insuspeitas, ressurgem as sementes
aos primeiros sinais de um outono anunciado
e em clarões se espalham rente ao âmago
onde se acoita secreta a vida.
Risco em todos os muros "não - proibir! ",
rasgo todos os códigos
onde a palavra vida seja ausente,
a cada instante do acontecer me encontro
dobrando a esquina a caminho do que vier...
olho-me, em viagem me descubro,
não sei esperar,
mais tarde é só metáfora...
reescrevo a palavra futuro
com a tinta fresca do presente!
à passagem do desejo todas as vozes
que ontem insinuavam ficar aqui, e eram
sonhos inacabados ou nado-mortos, os que me detinham,
a vida, essa, acenava do lado de cá de si mesma
enquanto eu me perdia ao largo ....
insuspeitas, ressurgem as sementes
aos primeiros sinais de um outono anunciado
e em clarões se espalham rente ao âmago
onde se acoita secreta a vida.
Risco em todos os muros "não - proibir! ",
rasgo todos os códigos
onde a palavra vida seja ausente,
a cada instante do acontecer me encontro
dobrando a esquina a caminho do que vier...
olho-me, em viagem me descubro,
não sei esperar,
mais tarde é só metáfora...
reescrevo a palavra futuro
com a tinta fresca do presente!
763
Lope de Vega
CANTAR DE CEIFA
CANTAR DE CEIFA
Tão branca tanto que eu era,
quando entrei para ceifeira;
deu-me o sol, fiquei morena.
Tão branca soía eu ser
antes de vir a ceifar,
mas não quis o sol deixar
branco o fogo em meu poder.
No tempo do amanhecer
era eu brilhante açucena:
deu-me o sol, fiquei morena.
Tão branca tanto que eu era,
quando entrei para ceifeira;
deu-me o sol, fiquei morena.
Tão branca soía eu ser
antes de vir a ceifar,
mas não quis o sol deixar
branco o fogo em meu poder.
No tempo do amanhecer
era eu brilhante açucena:
deu-me o sol, fiquei morena.
1 266
Tarcísio Meira César
Miniteoria do poema
Farto da linguagem
de antes, que exercia,
despiu-se da imagem
que, oca, construía.
Artificial, externa,
mais morta que viva,
fê-la mais interna
árdua, convulsiva.
Com a dor morando
- tanto como o amor -
penas vai portando,
como o espaço a cor.
Sem medo da rima,
sem medo do verso,
mesmo que a obra-prima
saia pelo inverso.
Que o poema seja
novo, mas eterno
(sem a moda andeja),
nobre como o inverno.
de antes, que exercia,
despiu-se da imagem
que, oca, construía.
Artificial, externa,
mais morta que viva,
fê-la mais interna
árdua, convulsiva.
Com a dor morando
- tanto como o amor -
penas vai portando,
como o espaço a cor.
Sem medo da rima,
sem medo do verso,
mesmo que a obra-prima
saia pelo inverso.
Que o poema seja
novo, mas eterno
(sem a moda andeja),
nobre como o inverno.
969
Marcial
IV, 7 - A HILO
Porque ontem que tu davas, hoje, ó Hilo, negas,
Duro tão súbito, quando eras só ternura?
É que tens barba e pelos, mais idade, dizes.
Ó noite, como és longa, que assim envelheces!
Porque troças de mim? Ontem criança ainda eras.
Diz-me: qual a razão de que hoje um homem és?
Duro tão súbito, quando eras só ternura?
É que tens barba e pelos, mais idade, dizes.
Ó noite, como és longa, que assim envelheces!
Porque troças de mim? Ontem criança ainda eras.
Diz-me: qual a razão de que hoje um homem és?
1 106
Marcial
V, 76 - A CINA
Tanto bebeu Mitrídates veneno
Que mal nenhum já lhe poder fazia.
Tal como tu: de sempre cears tão mal,
Não podes, Cina, já morrer de fome.
Que mal nenhum já lhe poder fazia.
Tal como tu: de sempre cears tão mal,
Não podes, Cina, já morrer de fome.
580
Luiz Nogueira Barros
Soneto à liberdade
Longa será, por certo, a estiagem:
fazem antever as nuvens e os ventos.
Que se encham pois as malas de viagem,
que a vida exige assim nesses momentos.
E é bom, também, que o "viver-tristonho",
tal um corcel alado e renovado,
salte do cerne universal do sonho
e voe pelas planícies - imaculado.
E que visões de cata-ventos e moinhos
encontrem o sentido exato desse agora
na selva de pedra dos caminhos.
E mude-se enfim o sonho de outrora,
que tem levado a vida aos descaminhos,
a cada passo, a cada instante e hora.
fazem antever as nuvens e os ventos.
Que se encham pois as malas de viagem,
que a vida exige assim nesses momentos.
E é bom, também, que o "viver-tristonho",
tal um corcel alado e renovado,
salte do cerne universal do sonho
e voe pelas planícies - imaculado.
E que visões de cata-ventos e moinhos
encontrem o sentido exato desse agora
na selva de pedra dos caminhos.
E mude-se enfim o sonho de outrora,
que tem levado a vida aos descaminhos,
a cada passo, a cada instante e hora.
853