Poemas neste tema

Mudança e Transformação

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sometimes in the middle of life a change

Sometimes in the middle of life a change
Suddenly comes like an alienation
A sense of voidness enormous, strange
And a void, deep desolation.

A sense of being left alone
And more and more than abandoned
(…)
'Tis a sense half as if I were dead.
1 354
Rui Costa

Rui Costa

Narciso

No rio a tua imagem parece menos tua:
A memória é uma líquida mensagem de aloendros
e o teu opaco ardor apenas o resultado disso:
Um coração já pasmado de algum travo
mordendo uma outra água com vértices ao fundo.
Não te iludas. O que tu vês és mesmo tu:
Restos de um homem às portas de outro homem
e o futuro de olhos baixos, o mar a ver.

489
Rui Costa

Rui Costa

breve ensaio sobre a potência 27

E já não haver lugar para as imagens.
Eu sei que cabe tudo em disco externo,
mas foi aí que nós perdemos a cabeça.
Temos placas, rígidas plataformas, luz
com pouca treva nas costas da cidade.
Havemos de trocar as nossas memórias,
viver as outras vidas. Que sonho é agora?

470
Isabel Câmara

Isabel Câmara

Ilógica

Só quem sabe a Idade do Ferro
é a Bigorna que o modifica


943
Amália Bautista

Amália Bautista

Dragões

Chegou a hora de matar o dragão,
de acabar para sempre com este monstro
de fauces terríveis e olhos de fogo.
Há que matar este dragão e todos
que à sua volta se reproduzem.

O dragão da culpa e o do espanto,
o do remorso estéril, o do ódio,
o que sempre devora a esperança,
o do medo, do frio, da angústia.
Há que matar também o que nos esmaga
de bruços contra o chão,
imóveis, cobardes, quebrados, sem raízes.

Que o sangue de todos inunde
cada parte da casa
até nos chegar à cinta.
E quando essa pilha de monstros
for só um monte de vísceras
e olhos abertos para o vazio,
enfim poderemos trepar, montar-nos sobre eles,
chegar às janelas, abri-las ou quebrá-las,
deixar entrar a luz, a chuva, o vento
e tudo o que estava retido
atrás dos vidros.

475
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Assalto

No quarto de hotel
a mala se abre: o tempo
dá-se em fragmentos.

Aqui habitei
mas traças conspiram
uma idade de homem
cheia de vertentes.

Roupas mudam tanto.
Éramos cinco ou seis
que hoje não me encontro,
clima revogado.

Uma doença grave
esse amor sem braços
e toda a carga leve
que súbito me arde.

No quarto de hotel
funcionam botões
chamando mocidade
fogo, canto, livro.

Vem a quarteira
depositar a branca
toalha do olvido
insinuar o branco

sabão da calma.
A perna que pensa
outrora voava
sobre telhados.

Em copo de uísque
lesmas baratas
acres lembranças
enjôo de vida.

Ponho no chapéu
restos desse homem
encontrado morto
e do nono andar

jogo tudo fora.
A mala se fecha: o tempo
se retrai, ó concha.
2 815
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Ii - As Invenções

Vês este pequeno objeto trissilábico?
É um cilindro subalterno da felicidade
e manejado, agora, por organismos coerentes
por controle remoto, estou, estais seguros
de uma eficácia tão resplandecente
que amadurecem as uvas em sua pressão ignota
e o trigo em pleno campo se converte em pão,
as águas dão à luz cavalos vermelhões
que galopam o ar sem prévio aviso,
grandes indústrias se movem como centopeias
deixando rodas e relógios nos lugares desabitados:
Senhores, adquiri meu produto terciário
sem mescla de algodão nem de substâncias lácteas:
concedo-vos um botão para mudar o mundo:
adquiri o trifásico antes que me arrependa!
985
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

No Parque

Há uma distância de ser que é ainda uma forma de estar no mundo. Esta distância é uma lâmina. Sou uma constante margem que percorro até ao centro de cada coisa.
Sou o espelho
deste espaço.
*
Uma pedra acesa e clara aspira o verde aroma do parque. A cegueira branca é ver as formas habitadas pela força calma.
*
Uma pedra, no dia aceso, o átrio do olhar cada vez mais alto. Inundado insecto ante o jorro compacto de uma árvore.
*
O princípio de um chão e de um rosto a centrar-se num espaço novo entre margens vivas verdes. Assim, abro a face do dia, bebo a língua do vento.
*
Posso apagar a hora,
abrir o pulso
do instante.
*
Estabeleço-me na altura verde do chão. Respiro o arbusto de pequenas folhas frescas. A delicada razão do seu ser em paz dançável com o ar.
*
O espaço aniquilou-me e dele renasço, olhando o mundo aberto.
*
Piso o chão novo animado da imóvel e branca oscilação do espaço arborescente.
*
Tenho o poder suave de me enrolar na doce espiral do dia.
*
Conheço a tranquila latitude da terra.
1 035
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Alberto Burri

Vestuário ou pele
a ferida e a faca
a cicatriz na parede
um saco que se rasga     um campo
uma costura     um caminho de poeira

Entre o trabalho e o encanto
sem veemência
a carne da escrita
o vestuário remendado
sobre o corpo vermelho

Uma cor de ferrugem nas palavras
a terra     a noite     o fogo

Uma velha idade adormecida
um ardor subtil e violento
a incisão que rasga a pele antiga
para restaurar a integridade viva
573
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Conheci Ao Mexicano

Conheci ao mexicano Tihuatín
faz alguns séculos, em Jalapa,
e depois, cada vez, ao encontrá-lo
na Colômbia, em Iquique, em Arequipa,
comecei a suspeitar de sua existência.
Tinha-me parecido estranho
seu chapéu, quando aquele homem,
oleiro de ofício, vivia da argila
mexicana e depois tomou-se arquiteto,
mordomo de uma ferragem na Venezuela,
mineiro e aguazil na Guatemala.

Como, pensei, com a mesma idade,
só trezentos anos,
eu, com o mesmo ofício, ensimesmado
em minha fábrica de sinos,
a bater sempre pedras ou metais
para que alguém ouça meus sinos
e conheça minha voz,
minha única voz,
este homem, desde mortos anos
por rios que não existem,
muda de ofício?
Então compreendi que ele era eu,
que éramos um sobrevivente a mais
entre outros de perto ou daqui,

outros de linhagens iguais enterrados
com as mãos sujas de areia,
nascendo sempre em qualquer parte,
dispostos a um trabalho interminável.
1 135
Raul Pompéia

Raul Pompéia

Indústria

Que la fournaise flambe, et que les lourds marteaux,
Nuit et jour et sans fin, tourmentent les métaux!

A. BRIZEUX.

O homem bate-se contra o mundo. Cada força viva é um inimigo.
À parte a luta das paixões, trava-se na sociedade a batalha
perene das indústrias.
Combate-se contra o tempo que atrasa e contra a distância que
afasta.
A locomotiva atravessa as planícies como um turbilhão de ferro; a
rede nervosa da telegrafia cria a simultaneidade e a solidariedade
na face do globo; o steamer suprime o oceano; o milagre de
Guttemberg precipita em tempestade as idéias, reduzindo o esforço
cerebral; exacerbam-se os ímpetos produtores do solo, com a energia
vertiginosa das máquinas. Vibram as cidades ao rumor homérico das
caldeiras. Cada dia, o combate ganha uma nova feição e o ventre
fecundo, o ventre inexaurível das forjas, para as novas pugnas,
produz novas armas.
Bendita febre industrial!
Bendito o operário, mártir das indústrias!
Estenda-se por todo o firmamento o fumo que paira sobre as
cidades, vele aos nossos olhos os abismos da amplidão e os signos
impenetráveis das esferas.


Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série III - O Ventre.

In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. .4, p.69. (Vera Cruz, 324c
2 283
Capinan

Capinan

Semeadura

I

A terra é nova, o tempo é outro.
Inútil a insistência dos agricultores
Para arrebentar com o mesmo método
O solo.

A terra é nova, insisto, o tempo é outro.
Inútil a insistência dos agricultores
Em lavrar a floração do solo.
O sol.

A terra é nova, o tempo é outro.
Inútil a insistência dos agricultores
Em tornar virente o solo.
O homem.


In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 50

NOTA: Poema composto de 3 parte
1 268
Edimilson de Almeida Pereira

Edimilson de Almeida Pereira

Cuidado

"Terra-mãe, água das lagoas e das fontes,
Nanã é também deusa da fertilidade do
solo, do grão que morre e renasce.
... é a deusa dos mistérios."

A terra de tudo, jamais serei outra. Conheço
meus segredos, mas há sempre o nome da flor
nascente que me escapa. São nomes futuros,
sementes e grãos que me entontecem. Ah, a
toda criação me asila em gestos de quase
infinita espera. Sou terra úmida, fonte perdida
entre as folhas. Estimo as raízes que me saem
destino ou flor espetalada.


Publicado no livro O livro de falas ou Kalunbungu: achados da emoção inicial (1987).

In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.20
1 244
Mariana Ianelli

Mariana Ianelli

Para amanhã

Faz tua
casa um fragmento de alma,
cobre o teu pensamento.
Vai, que estás em tempo de colher-te,
um minuto para ser teu.
Interrompe tuas regatas desbravadas,
saídas das marinas solitárias,
e retribui para terra a demonstração das tuas patas.
Que não há segunda vez,
um homem se esgalha da marga ou desiste.
Para terra dá teus domingos desagradáveis e os risíveis.
Fica lasso, pétala urdida no sol e na água.
Vai, capaz de crescer.

774
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Crescem Os Anos

Hungria,
duplo é teu rosto como uma medalha.
Eu te encontrei no verão
e era
teu perfil bosque e trigo:
o rápido verão
com seu manto de ouro
teu doce corpo verde recobria.
Mais tarde
te vi cheia de neve,
oh bela rosada
de dentes brancos e coroa branca,
estrela do inverno,
pátria da brancura!
 
E assim teu duplo rosto de medalha
amei passando sobre tuas pupilas
meus beijos bem-vindos na aurora,
porque construías
o sol que ia nascendo,
tua bandeira,
o passo de teu povo
nas estepes,
as ferramentas puras
da libertação, o aço
com que se forjaram as estrelas.
Junto a mim cresce
este tempo,
esta época
como um rápido bosque,
como planta vulcânica
cheia de vida e folhas,
minha época
de sangue e claridade, de noite fria
e esplendor matutino.
Novas cidades crescem,
amanhecem bandeiras,
se afirmam as repúblicas
do socialismo em marcha,
Vietnam palpita
porque em sangue e dores
nasce uma nova vida.
 
Minha época
loureiro e lua cheia,
amor e pólvora!
 
Eu vi
nascer, crescer os anos,
parir a velha terra
robustas, novas coisas.
Penso
no homem perdido
de outro tempo
que não viu nascer nada,
que se precipitou de rua em rua,
de noite em noite fria,
subiu escadas,
encheu-se de fumaça,
e nunca viu onde terminavam
os degraus nem a fumaça.
Aquele homem
foi como um cogumelo na selva,
na umidade escura
dissipou suas heranças,
não viu sobre o bosque a altura
tatuada com estrelas,
não vislumbrou sob seus pés
entrelaçar-se todos
os germes do bosque.
Eu sinto, olho, toco
o crescimento
do que sobrevêm,
vou de uma terra a outra constatando,
somando o indelével,
acrescendo os passos,
reunindo as sílabas
do canto do vento na terra.
 
1 231
Adélia Prado

Adélia Prado

O Aprendiz de Ermitão

É muito difícil jejuar.
Com a boca decifro o mundo, proferindo palavras,
beijando os lábios de Jonathan que me chama Primora,
nome de amor inventado.
Flauta com a boca se toca,
do sopro de Deus a alma nasce,
dor tão bonita que eu peço:
dói mais, um pouquinho só.
Não me peça de volta o que me destes, Deus.
Meu corpo de novo é inocente,
como a pastos sem cerca amo Jonathan,
mesmo que me esqueça.
Ó mundo bonito!
Eu quero conhecer quem fez o mundo
tão consertadamente descuidoso.
Os papagaios falam, Jonathan respira
e tira do seu alento este som: Primora.
“Tomai e comei.”
Vosso Reino é comida?
Eu sei? Não sei.
Mas tudo é corpo, até Vós,
mensurável matéria.
O espírito busca palavras,
quem não enxerga ouve sons,
quem é surdo vê luzes,
o peito dispara a pique de arrebentar.
Salve, mistérios! Salve, mundo!
Corpo de Deus, boca minha,
espanto de escrever arriscando minha vida:
eu te amo, Jonathan,
acreditando que você é Deus e
me salvará a palavra dita por sua boca.
Me saúda assim como à Aurora Consurgens:
Vem, Primora.
Falas como um homem,
mas o que escuto é o estrondo
que vem do Setentrião.
Me dá coragem, Deus, para eu nascer.
1 318
Mariana Ianelli

Mariana Ianelli

Nostálgico

Tornas
às festas passadas
Com o jeito de quem velou
E pretendeu à risca uma prece difícil.
O perigo te apaixona tanto
Que num ímpeto frio por mudanças
Tu te fazes rebelde querendo outras vidas.
E para quê...
Logo voltas a tuas saudades antigas,
A teu largo acervo de ossos.
Porque és o teu regresso,
Nas tuas buscas iludidas
E no teu desamor.

839
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

Dilema

Sempre que volto de viagem
a alma refastelada de afrescos, vinhos e castelos
sento-me na praia aqui nos trópicos
e ponho-me a olhar o horizonte
de onde vivo regressando.
– Não deveria ter voltado. – Sim, devia.
De costas pra montanha
de frente para o mar
dividido
entre ir e regressar
penso que merecia
porto melhor para ancorar.
De frente pra montanha
de costas para o mar
recomeço a caminhar.
1 126
Adélia Prado

Adélia Prado

O Santo

O padre marxista está cansado.
Deu-se conta
quando viu passar a carroça
entufada de cana verde
e falou sem saber por quê:
mãe, ô mãe, mãezinha,
minha querida mãe.
Nunca mais pregou.
Diz o povo
que pegou fama de santo.
1 415
Pablo Neruda

Pablo Neruda

VI - As Pontes

Novas pontes de Praga, nascestes
na velha cidade, rosa e cinza,
para que o homem novo
passe o rio.
Mil anos gastaram os olhos
dos deuses de pedra
que da velha Ponte Carlos
viram ir e vir e não voltar
as velhas vidas,
de Malá Strana os pés que para Morávia
se dirigiram, os pesados
pés do tempo,
os pés do velho cemitério judeu
sob vinte capas de tempo e pó
passaram e dançaram sobre a ponte,
enquanto as águas cor de fumo
corriam do passado, para a pedra.

Moldava, pouco a pouco
te ias fazendo estátua,
estátua cinzenta de um rio que morria
com sua velha coroa de ferro na fronte,
mas de repente o vento
da história sacode
teus pés e teus joelhos,
e cantas, rio, e danças, e caminhas
com uma nova vida.
As usinas trabalhavam de outro modo.
O retrato esquecido
do povo nas janelas
sorri saudando,
e eis aqui agora
as novas pontes:
a claridade as enche,
sua retidão convida
e diz: “Povo, adiante,
para todos os anos que vêm,
para todas as terras do trigo,
para o tesouro negro da mina
repartido entre todos os homens”.

E passa o rio
sob as novas pontes
cantando com a história
palavras puras
que encherão a terra.

Não são pés invasores os que cruzam
as novas pontes, nem os terríveis carros
do ódio e da guerra:
são pés pequenos de meninos, firmes
passos de operário.
Sobre as novas pontes
passas, oh primavera,
com tua cesta de pão e teu vestido novo,
enquanto o homem, a água, o vento
amanhecem cantando.
1 222
Susana Pestana

Susana Pestana

Uma Lágrima

Passou por mim uma voz
Um estoiro!
Equilibrado na luz do dia
derradeiras esperanças
mostradas pela realidade acordada
Um despertar sem aviso
Um olhar entreaberto nas metades agitadas.
de um dia adulto...
O brilho nos olhos
Infantilidades adormecidas!

Tu

Criança que espreitas às escondidas
dentro da minha vida num quarto pequeno.
De olhos arregalados
Congelados num momento de dor
em feridas que se deslizam
no despertar de uma lágrima que não rola.
Uma apenas!
Sabedora lágrima que és, minha amiga
foge desse olhar arranhado pelos anos
e sobrevoa por galhos rijos e carinhosos.
vultos aquecidos por momentos.
Cresce por fora
voa!

873
Silvaney Paes

Silvaney Paes

Sol

De desconforto
ardia à natureza,
Esvaecida da luz que lhe inflamara,
Em incertas, luminosas e claras horas.
Que de tantas foram doces e amargas,
Quebrantadas pela dama que se avizinhara,
Ferindo a claridade como negra faca.

E o céu de um azul esplendoroso,
Agonizava agora em tons opacos,
Para sangrar em real vermelho.
Gritando o prenúncio primeiro,
De que ainda muito cedo,
Moribundo morreria em preto.

Estando o mundo preso,
Sob imenso bloco negro,
No breu da abóbada gigantesca
Restou do sol o espelho.
Em estrondosa lua cheia
Como o prenuncio verdadeiro,
Do retorno da luz a seu reino.

E depois das escuras horas,
Retorna com fugaz frescor e alvor
Em esplendorosa alvorada de cores,
Rasgando o negro manto da noite.
Como quem resgata a vida da morte,
Vivificando de novo a natureza,
Desde seu primeiro e ardente beijo
Até o escaldante Sol do meio-dia.

1 054
Pablo Neruda

Pablo Neruda

Fala um transeunte das Américas chamado Chivilcoy

I.

Eu mudo de rumo, de emprego, de bar e de barco, de pelo
de renda e mulher, lancinante, de propósito não existo,
talvez sou mexibiano, argentuaio, bolívio,
caribião, panamante, colomvenechilenomalteco:
aprendi nos mercados a vender e comprar caminhando;
me inscrevi nos partidos díspares e mudei de camisa
impulsionado
pelas necessidades rituais que jogam à merda o crepúsculo
e confesso saber mais que todos sem ter aprendido:
o que ignoro não vale a pena, não se paga na praça, senhores.

Me acostumo a sapatos quebrados, gravatas surradas, cuidado,
quando menos pensarem levo um grande solitário em um dedo
e me engomam por dentro e por fora, me perfumam, me cuidam, me penteiam.

Casei-me na Nicarágua: perguntem vocês pelo general Allegado
que teve a honra de ser sogro de seu servidor, e mais tarde
na Colômbia fui esposo legítimo de uma Jaramillo Restrepo.
Se meus matrimônios terminam mudando de clima, não importa.
(Falando entre homens: Minha chola18 de tambo19: Algo sério na cama.)
Vendi manteiga e chancaca20 nos partos peruanos
e medicamentos de um povoado a outro da Patagônia:
vou envelhecendo nas más pensões sem dinheiro,
passando por rico,
e passando por pobre entre ricos, sem ter ganho nem
perdido nada.

II.

Da janela que me corresponde na vida
vejo o mesmo jardim poeirento de terra mesquinha
com cães errantes que urinam e ainda buscam a felicidade,
ou excrementícios e eróticos gatos que não se interessam por vidas alheias.

III.

Eu sou aquele homem rodado por tantos quilômetros e sem existência:
sou pedra em um rio que não tem nome no mapa,
sou o passageiro dos ônibus gastos de Oruro
e ainda que pertença às cervejarias de Montevidéu
na Boca andei vendendo guitarras do Chile
e sem passaporte entrava e saía pelas cordilheiras.
Suponho que todos os homens deixam bagagem;

eu vou deixar como herança o mesmo que o cão;
é o que levei entre as pernas: meus bens são esses.

IV.

Se desapareço apareço com outra visão: dá no mesmo.
Sou um herói imperecível não tenho começo nem fim
e minha moral consiste em um prato de peixe frito.
546
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Criança, era outro...

Criança, era outro...
Naquele em que me tornei
Cresci e esqueci.
Tenho de meu, agora, um silêncio, uma lei.
Ganhei ou perdi?
1 999