Poemas neste tema

Mudança e Transformação

Carlos Soulié do Amaral

Carlos Soulié do Amaral

Espelho III

Enquanto nessa frente fria brilha
o peso do passado, o contratempo
do presente se torce numa trilha
sem saída aparente. E sem retorno.

Então é que  se faz urgente ver
de novo o que há de novo longe e fora
da fira frente, e mergulhar no forno
do dia, e incandescer todo o universo.

Se o que contempla não enxerga mais
em si o portal da lendas e aventuras,
há que entender o espelho de outro modo
e ser, do que se vê, o contrário, o inverso.
702
Millôr Fernandes

Millôr Fernandes

Obstinação dos Outros

Deixamos de beber
E em cada esquina
Abriram um novo bar.
Abandonamos o fumo;
Passam homens, crianças
E navios
A fumar.
A rua, como nunca, está cheia de mulheres
Jovens, lindas de corpo, sedutoras de andar.
Ah, mas já deixamos de amar.

1 038
Daniel Loureiro

Daniel Loureiro

Oscilações na Linha Tênue da Loucura

O impulso
fazia de mim
avulso.
Depois cedi
ao pulso e ele
me mantinha
aqui assim.
O discurso
que me possui
agora é outro;
é o torto
de volta à superfície.

897
Micheliny Verunschk

Micheliny Verunschk

Cresente e Decrescente num Mote de Conselheiro

À Lirinha
O sertão
Que eu trago
Junto ao peito
É como a estrela
Cortante
De uma espora,
Como a ave ribaçã
De uma pistola,
Como o olho severo
De um seteiro,
Mas em ti
O sertão
Se torna água
E escorre
Atlântico
Em minha garganta
E em dez pés
Meu galope
Se abranda
E meu pouso
É pacífico
À beira-mar.

1 050
Gregory Corso

Gregory Corso

Ontem à noite guiei um carro

Ontem à noite guiei um carro
sem saber guiar
sem possuir um carro
Guiei e derrubei feito boliche
pessoas que amava
... a 120 sobre o piche.
Parei em Atibaia
e dormi no banco traseiro
... excitado em minha nova vida.
(contextualização de Ricardo Domeneck)
:
Last Night I Drove a Car
Gregory Corso
Last night I drove a car
not knowing how to drive
not owning a car
I drove and knocked down
people I loved
...went 120 through one town.
I stopped at Hedgeville
and slept in the back seat
...excited about my new life.
1 937
Maria Inês Gambogi

Maria Inês Gambogi

Nem a palavra amor

Patrocínio, 1978
Nem a palavra amor
sendo pronunciada
sem obstância, o amor.
Nem o seu nome
consegui pronunciar
que tão só nossos corpos
revimos

Reduzi a costume
o que eu sentia de nosso
devendo, pensei, abandonar.
Reduziu o cerne
a uma situação inominável
a um anterior defeito de prosa.
Neste volume me aguardou em reações comuns.
Opressa e devagarinho
comecei a limpar o fato
tornando a sala passiva.

691
Pat Lowther

Pat Lowther

Antes que chegue o demolidor

Antes que cheguem os demolidores
Arranque pela raiz o lírio
No ângulo duro de terra
Ao lado da casa.
Agache-se sobre o lixo e os despojos
Contra a escada gradeada do porão
(O relâmpago repentino
De sol
Nas suas costas
Por entre o abrir
E fechar
Do varal aos sopros de março,
Ascensão e queda de luz ágil
Como a golpes.)
Aqui o ensaboar em mucos
De uma vida inteira
Azeda a terra,
Neste canto
Sob a escada,
Mas não matou
Os bichos-de-conta
Nem as pupas das mariposas
Que roçam seus dedos
Ao cavar
Em busca da raiz robusta, redonda,
A raiz do lírio
Que de alguma forma, sem sentido,
Tampouco foi morta
Mas cresceu a cada ano
Uma assombrada infância,
Uma arregalada Páscoa.
Encaixote-a entre as fotos,
O polidor da prataria,
E as últimas roupas por lavar
Que não mais
Hão de subir e tremular
Ao sol que destroça.
Marque sua caixa: X
Duas linhas que se cruzam,
Um ponto em grade
Do tempo
E das estações do ano.
Antes que cheguem os demolidores,
Carregue para longe
O bulbo-relâmpago do sol.
(tradução de Ricardo Domeneck)
296
Manuel António Pina

Manuel António Pina

Agora é diferente

Agora é diferente
Tenho o teu nome o teu cheiro
A minha roupa de repente
ficou com o teu cheiro
Agora estamos misturados
No meio de nós já não cabe o amor
Já não arranjamos
lugar para o amor
Já não arranjamos vagar
para o amor agora
isto vai devagar
isto agora demora
2 004
Renato Rezende

Renato Rezende

Ao Menos

Houve um tempo
em que comia nos melhores restaurantes
de São Paulo, Paris e Nova York.
Houve um tempo
que retirava grande prazer da leitura
e tinha orgulho da minha biblioteca.
Hoje os pratos estão quebrados,
os livros ao vento.
-- O coração cada vez mais pleno.


Rio de Janeiro, fevereiro 1998
1 034
Cláudio Feldman

Cláudio Feldman

Joana D’Arc

incensoque perfumadepois de queimado

1 139
Gastão Cruz

Gastão Cruz

Transe

Transe

Num tempo neutro acordo

entre a noite e o dia

sob um céu ilegítimo condensa-se

a mudança

nuvens totais exprimem

a presente longínqua

madrugada

as aves sobrevivem na queda

ao

tempo branco

Acordo sob um céu sob um tecto

dum quarto

É uma imagem pobre uma velha

metáfora No exterior porém

das paredes toalhas além

dos vidros turvos de nuvens

apagadas

agride-me a imagem invisível

opaca

da madrugada externa

que

no dia se espalha

como uma norma espessa

uma neutra linguagem

O céu é como um poço como um mar

como um lago

comparações banais mas as mais

eficazes onde aves

como peixes

transitam lentamente errando

nas palavras

Procuro adormecer

o silêncio do

dia inutiliza a vida

Provavelmente nada

mudará ou talvez

tudo tenha mudado há muito

ou vá mudando

sob o lago do céu onde os

peixes descrevem

ilegítimos voos como velhas

metáforas

2 052
Antonin Artaud

Antonin Artaud

Qui suis-je?

Qui suis-je?

Doù je viens?

Je suis Antonin Artaud

et que je le dise

comme je sais le dire

immédiatement

vous verrez mon corps actuel

voler en éclats

et se ramasser

sous dix mille aspects

notoires

un corps neuf

où vous ne pourrez

plus jamais

moublier.

2 035
Daniel Jonas

Daniel Jonas

OPACIDADE

Estúpido outono
a tudo impondo sua ferrugem
como num velho armazém de ferragens
a artrose ganhando dobradiças
e as espirais
a parafusos zonzos.

E estas árvores são também
impossíveis: árvores
como furgonetas com seus toldos
esvoaçantes, rangendo
a grande dor da
mudança.

Estúpidas árvores: cada copa
um enleio de fios,
uma instalação eléctrica pública
de Calcutá, fundindo
o céu, seu
capote puindo.

Ou este outono é só
uma betoneira
regurgitando o seu betão zonzo.
Estúpido outono. E que erro
tomar os meus olhos
por um aterro!
713 1
Renato Rezende

Renato Rezende

O Espelho

Vindo, no caminho, estão
todas as coisas que percebo, tudo
o que toco,
sinto
e vejo:
frutos do meu próprio pensamento.

Delas, uma a uma, me despeço
como num último, íntimo beijo.

Em mim,
a sombra de todos os vultos, lago
límpido, espelho
do céu e das nuvens
que passam;

do qual limpo
as imagens que turvam o fundo,
e que me unem ao mundo
pelo desejo.

Também eu
desapareço

na superfície, sem deixar vestígios

SURJO
1 010
Renato Rezende

Renato Rezende

Cego, Surdo E Mudo

Ver outra vez com os mesmos olhos
o mil vezes visto e revisto?
Por que
caminhar sem fim na planície,
ouvir com os antigos ouvidos
os mesmos ruídos e vozes
sem respostas, as velhas melodias tristes,
falar com novas palavras e versos
o mil vezes dito
e sempre mal compreendido; enfim
por que buscar o corpo do outro
para um amor sem muito sentido
ou um gozo breve e tosco?
Não quero nada disso; quero o vazio
que traga o novo.
706
Daniel Faria

Daniel Faria

Há uma palavra pessoa

Há uma palavra pessoa
Uma palavra pregada ao silêncio de dizer-se como nunca fora ouvida
E nela dizer-se posso existir.
Só posso viver cabendo nela.
Habito-a
Como Jonas o grande peixe.
Ela pronuncia-me
Traz-me em viagem do nada para o silêncio-exemplifico-o com a luz
de um homem que ressuscita-sustenta-me
Como o jejum alimentado em Nínive
Mas também posso ser um vaso para ela
-um vaso não,outra coisa qualquer que não consigo
comparar às coisas da terra-um lugar tão verdadeiro
Que mesmo a luz em suas praças,pátios e alpendres
Só imprecisamente é capaz de assinalar

E como salva a cinza em Nínive espalhando-se
Eu posso propagá-la
E posso amá-la até me transformar.

de Homens Que São Como Lugares Mal Situados(1998)
1 881
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

O Que Ficou

É falsa a versão
de que passei incólume
ao pisar as brasas,
atravessar paredes,
ser serrado ao meio,
ao beijar a víbora
e acariciar o arcanjo.
Tudo me alterou:
as notícias que Marco Polo
trouxe do Oriente,
o olhar da cachorrinha
buscando seus filhotes,
a borboleta que morreu na pia.
Certo resisti ao vento, à peste.
Mas tudo me alterou.
hoje tenho um passado.
No meu corpo está presente
tudo o que me trespassou.
1 070
Renato Rezende

Renato Rezende

Desprendimentos

...
desolações extraordinárias.
tempestades
de carne; terremotos
nos ossos; tufões
no olho d’alma.
...
fome; erupções
vulcânicas; quedas das alturas
mais altas;
pragas.
...
a queda de cada máscara
com a cara + serena e calma
722
Renato Rezende

Renato Rezende

Alhures

Sinto de uma vez por todas que minha vida—a vida—acabou. Durou o suficiente, e foi
muito, e foi bem vivida. Nos dias de hoje, os homens sobrevivem em muito ao apogeu físico e
mental. O certo é morrer cedo, com menos de quarenta anos no máximo. Mas esta morte que a mim
mesmo decreto não é física. Não, continuarei respirando o ar deste planeta, bebendo a água e me
alimentando dos frutos da terra até que o corpo, por si só, definhe e morra. Não fugirei tampouco
dos avanços da medicina, dos remédios, das operações, dos transplantes, da quimioterapia. É
preciso ser um homem de seu tempo, afinal. Essa minha vida que acaba é outra, mais íntima. Tudo
que havia para ser visto já foi visto, tudo que havia para ser gozado já foi gozado. Não procurarei
repetir, com um corpo cada vez mais decrépito, os prazeres que teve meu corpo jovem. Minha
parcela de amor também já foi o suficiente. Renuncio ao nadar no rio do tempo, todos juntos em
direção ao mar. Caio fora. Solto as mãos daqueles que comigo compartilhavam esse nosso tempo, a
causa da geração, os infinitos diálogos e trocas com as pessoas que cruzaram e cruzam minha vida,
as aventuras de todos os tipos, as viagens de todos os tipos, adeus às moedas, aos tigres, às areias.
Enfim, a tudo que se apreende com olhos, ouvidos, tato; os sentidos. Essa é a vida que acabou,
como alguém que sai do rio, levanta-se na margem sozinho, dá adeus e dirige-se para as montanhas
azuis, lá no fundo. Isso origina uma nova vida. Mas que vida é essa, que começa? Aparentemente,
nada mudou: corpo, cidade, linguagem. Mas no íntimo nada é mais fixo como antes. Tudo em volta
lembra a morte. Nenhum poder é verdadeiro. A vida que começa é a vida de uma máscara vazia.
Não, vazia não: um infinito repleto de luz.
1 006
Golgona Anghel

Golgona Anghel

Sacrifiquei sem nenhum remorso

Sacrifiquei sem nenhum remorso
os talheres de prata, o açúcar e os licores franceses.
Contudo, não precisei de empurrar nenhuma velha
para avançar na fila.
Quando apanhei o caminho certo,
a sorte abriu, sem hesitar, as pernas.
A partir daí foi fácil:
hoje, um ovo, amanhã, uma vaca.
Tudo isso, no pantanal do Oeste,
bem longe das grandes metrópoles
e do brilho das montras,
mas onde aprendi a cultivar a leveza
e a ouvir o canto do galo
que, por estes lados da madrugada,
tanto serve de despertador
como para a canja.
818
Birão Santana

Birão Santana

Em minhas Cinzas

A fênix
renasceu
das própias cinzas.
Tu
em mim
renasceste das cinzas.
Eu,
diante do sentimento por ti,
renasci
das cinzas.
Me vislumbrando
crescendo
te vislumbrei
como fênix
renascendo
em minhas cinzas.

1 082
Birão Santana

Birão Santana

Respingos em Queda

Respingos
de nova hora
ousam cair
no agora.
Repúdio.
Alarido.
Repulsão.
Asco...
Os
respingos
se recolhem
re-enxugam a terra
onde ousaram cair.
Esperam
o fulgir da aurora,
a queda da madrugada,
para recair.

1 041
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Desabar

Desabava
Fugir não adianta     desabava
por toda parte     minas     torres
edif
ícios
princípios
l
e
i
s
muletas
desabando     nem gritar
dava tempo soterrados
novos desabamentos insistiam
sobre peitos em pó
desabadesabadesabadavam
As ruínas formaram
outra cidade em ordem definitiva.
1 672
Renato Rezende

Renato Rezende

07.04.05

As luzes azuis.
Percebo que a iluminação é menos um mergulhar (numa realidade maior) e mais um
explodir de dentro para fora.
É uma pressão que vem de dentro.
Que me expulsa de mim mesmo.
A parte que resiste sou eu. É preciso permitir que essa outra energia (que não é o eu que
estou acostumado a ser) tome posse.
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