Poemas neste tema
Morte e Luto
Castro Alves
A Uma Taça Feita de Um Crânio Humano
(Traduzido de BYRON)
"Não recues! De mim não foi-se o espírito...
Em mim verás — pobre caveira fria —
Único crânio que, ao invés dos vivos,
Só derrama alegria.
Vivi! amei! bebi qual tu: Na morte
Arrancaram da terra os ossos meus.
Não me insultes! empina-me!... que a larva
Tem beijos mais sombrios do que os teus.
Mais val guardar o sumo da parreira
Do que ao verme do chão ser pasto vil;
— Taça — levar dos Deuses a bebida,
Que o pasto do reptil.
Que este vaso, onde o espírito brilhava,
Vá nos outros o espírito acender.
Ai! Quando um crânio já não tem mais cérebro
...Podeis de vinho o encher!
Bebe, enquanto inda é tempo! Uma outra raça,
Quando tu e os teus fordes nos fossos,
Pode do abraço te livrar da terra,
E ébria folgando profanar teus ossos.
E por que não? Se no correr da vida
Tanto mal, tanta dor aí repousa?
É bom fugindo à podridão do lodo
Servir na morte enfim pra alguma coisa!... "
"Não recues! De mim não foi-se o espírito...
Em mim verás — pobre caveira fria —
Único crânio que, ao invés dos vivos,
Só derrama alegria.
Vivi! amei! bebi qual tu: Na morte
Arrancaram da terra os ossos meus.
Não me insultes! empina-me!... que a larva
Tem beijos mais sombrios do que os teus.
Mais val guardar o sumo da parreira
Do que ao verme do chão ser pasto vil;
— Taça — levar dos Deuses a bebida,
Que o pasto do reptil.
Que este vaso, onde o espírito brilhava,
Vá nos outros o espírito acender.
Ai! Quando um crânio já não tem mais cérebro
...Podeis de vinho o encher!
Bebe, enquanto inda é tempo! Uma outra raça,
Quando tu e os teus fordes nos fossos,
Pode do abraço te livrar da terra,
E ébria folgando profanar teus ossos.
E por que não? Se no correr da vida
Tanto mal, tanta dor aí repousa?
É bom fugindo à podridão do lodo
Servir na morte enfim pra alguma coisa!... "
2 385
Charles Bukowski
Tristeza no Ar
aqui estou eu sentado sozinho
feito um frouxo
ouvindo Chopin
o vento notumo soprando
através das
cortinas rasgadas.
hoje ganhei 546 dólares nas corridas mas
agora estou pensando que
morrer é uma coisa tão
estranha e ordinária.
só espero nunca precisar
de uma dentadura postiça antes de
ir embora.
Wm. Holden arrebentou sua cabeça
em uma mesa de café
quando bêbado e
sangrou até morrer;
duro e teso por 4 dias
antes de ser encontrado.
pergunto-me: como Chopin se foi?
as coisas passam, isso não é
novidade.
aqui em L.A.
vi tantos bons
lutadores mexicanos
chegarem e irem
subindo pelas
cordas
jovens e cintilantes de
ambição
e depois
se desvanecerem.
para onde eles vão?
onde estão esta noite
enquanto ouço Chopin?
quem sabe se eu não estou em um negócio
melhor?
eu não acho.
escritores também vão embora
depressa
esquecem como criar
uma
frase reta e firme.
então dão aulas
escrevem artigos de crítica
lamentam-se
ficam estragados
somem.
Holden escorregou em
uma passadeira
sua cabeça batendo no criado-mudo
ele tinha um nível de álcool
de .22 no sangue.
quanto a mim
já desabei
muitas vezes usualmente
sobre um fio de telefone.
odeio telefones
de todo modo
sempre que algum toca
eu dou um pulo.
pessoas me perguntam: "por que você
dá um pulo quando o telefone
toca?"
se elas não sabem
você não pode responder
está esfriando.
eu vou fechar a janela.
eu fecho a janela.
Chopin continua.
quando você bebe sozinho
como Wm. Holden
às vezes você tem
alguma coisa em mente
que não se pode contar
a ninguém.
em muitos casos é
melhor ficar
quieto.
não fomos colocados aqui para
gozar dias e noites
tranquilas.
e quando o telefone
toca
você também saberá que
todos nós
estamos no negócio errado.
e se você não souber
o que isso significa
você não sentirá a
tristeza no ar.
feito um frouxo
ouvindo Chopin
o vento notumo soprando
através das
cortinas rasgadas.
hoje ganhei 546 dólares nas corridas mas
agora estou pensando que
morrer é uma coisa tão
estranha e ordinária.
só espero nunca precisar
de uma dentadura postiça antes de
ir embora.
Wm. Holden arrebentou sua cabeça
em uma mesa de café
quando bêbado e
sangrou até morrer;
duro e teso por 4 dias
antes de ser encontrado.
pergunto-me: como Chopin se foi?
as coisas passam, isso não é
novidade.
aqui em L.A.
vi tantos bons
lutadores mexicanos
chegarem e irem
subindo pelas
cordas
jovens e cintilantes de
ambição
e depois
se desvanecerem.
para onde eles vão?
onde estão esta noite
enquanto ouço Chopin?
quem sabe se eu não estou em um negócio
melhor?
eu não acho.
escritores também vão embora
depressa
esquecem como criar
uma
frase reta e firme.
então dão aulas
escrevem artigos de crítica
lamentam-se
ficam estragados
somem.
Holden escorregou em
uma passadeira
sua cabeça batendo no criado-mudo
ele tinha um nível de álcool
de .22 no sangue.
quanto a mim
já desabei
muitas vezes usualmente
sobre um fio de telefone.
odeio telefones
de todo modo
sempre que algum toca
eu dou um pulo.
pessoas me perguntam: "por que você
dá um pulo quando o telefone
toca?"
se elas não sabem
você não pode responder
está esfriando.
eu vou fechar a janela.
eu fecho a janela.
Chopin continua.
quando você bebe sozinho
como Wm. Holden
às vezes você tem
alguma coisa em mente
que não se pode contar
a ninguém.
em muitos casos é
melhor ficar
quieto.
não fomos colocados aqui para
gozar dias e noites
tranquilas.
e quando o telefone
toca
você também saberá que
todos nós
estamos no negócio errado.
e se você não souber
o que isso significa
você não sentirá a
tristeza no ar.
1 005
Murillo Mendes
A Tesoura de Toledo
Com seus elementos de Europa e África,
Seu corte, inscrição e esmalte,
A tesoura de Toledo
Alude às duas Espanhas.
Duas folhas que se encaixam,
Se abrem, se desajustam,
Medem as garras afiadas:
Finura e rudeza de Espanha,
Rigor atento ao real,
Silêncio espreitante, feroz,
Silêncio de metal agindo,
Aguda obstinação
Em situar o concreto,
Em abrir e fechar o espaço,
Talhando simultaneamente
Europa e África,
Vida e morte.
Publicado no livro Tempo Espanhol (1964).
In: MENDES, Murilo. Antologia poética. Sel. João Cabral de Melo Neto. Introd. José Guilherme Merquior. Rio de Janeiro: Fontana; Brasília: INL, 197
Seu corte, inscrição e esmalte,
A tesoura de Toledo
Alude às duas Espanhas.
Duas folhas que se encaixam,
Se abrem, se desajustam,
Medem as garras afiadas:
Finura e rudeza de Espanha,
Rigor atento ao real,
Silêncio espreitante, feroz,
Silêncio de metal agindo,
Aguda obstinação
Em situar o concreto,
Em abrir e fechar o espaço,
Talhando simultaneamente
Europa e África,
Vida e morte.
Publicado no livro Tempo Espanhol (1964).
In: MENDES, Murilo. Antologia poética. Sel. João Cabral de Melo Neto. Introd. José Guilherme Merquior. Rio de Janeiro: Fontana; Brasília: INL, 197
1 853
Murillo Mendes
Canto a García Lorca
Não basta o sopro do vento
Nas oliveiras desertas,
O lamento de água oculta
Nos pátios da Andaluzia.
Trago-te o canto poroso,
O lamento consciente
Da palavra à outra palavra
Que fundaste com rigor.
O lamento substantivo
Sem ponto de exclamação:
Diverso do rito antigo,
Une a aridez ao fervor,
Recordando que soubeste
Defrontar a morte seca
Vinda no gume certeiro
Da espada silenciosa
Fazendo irromper o jacto
De vermelho: cor do mito
Criado com a força humana
Em que sonho e realidade
Ajustam seu contraponto.
Consolo-me da tua morte.
Que ela nos elucidou
Tua linguagem corporal
Onde el duende é alimentado
Pelo sal da inteligência,
Onde Espanha é calculada
Em número, peso e medida.
Publicado no livro Tempo Espanhol (1964).
In: MENDES, Murilo. Antologia poética. Sel. João Cabral de Melo Neto. Introd. José Guilherme Merquior. Rio de Janeiro: Fontana; Brasília: INL, 197
Nas oliveiras desertas,
O lamento de água oculta
Nos pátios da Andaluzia.
Trago-te o canto poroso,
O lamento consciente
Da palavra à outra palavra
Que fundaste com rigor.
O lamento substantivo
Sem ponto de exclamação:
Diverso do rito antigo,
Une a aridez ao fervor,
Recordando que soubeste
Defrontar a morte seca
Vinda no gume certeiro
Da espada silenciosa
Fazendo irromper o jacto
De vermelho: cor do mito
Criado com a força humana
Em que sonho e realidade
Ajustam seu contraponto.
Consolo-me da tua morte.
Que ela nos elucidou
Tua linguagem corporal
Onde el duende é alimentado
Pelo sal da inteligência,
Onde Espanha é calculada
Em número, peso e medida.
Publicado no livro Tempo Espanhol (1964).
In: MENDES, Murilo. Antologia poética. Sel. João Cabral de Melo Neto. Introd. José Guilherme Merquior. Rio de Janeiro: Fontana; Brasília: INL, 197
1 797
José Afonso
Os bravos
Eu fui à terra do bravo
Bravo meu bem
Para ver se embravecia
Cada vez fiquei mais manso
Bravo meu bem
Para a tua companhia
Eu fui à terra do bravo
Bravo meu bem
Com o meu vestido vermelho
O que eu vi de lá mais bravo
Bravo meu bem
Foi um mansinho coelho
As ondas do mar são brancas
Bravo meu bem
E no meio amarelas
Coitadinho de quem nasce
Bravo meu bem
Pra morrer no meio delas
Bravo meu bem
Para ver se embravecia
Cada vez fiquei mais manso
Bravo meu bem
Para a tua companhia
Eu fui à terra do bravo
Bravo meu bem
Com o meu vestido vermelho
O que eu vi de lá mais bravo
Bravo meu bem
Foi um mansinho coelho
As ondas do mar são brancas
Bravo meu bem
E no meio amarelas
Coitadinho de quem nasce
Bravo meu bem
Pra morrer no meio delas
3 003
José Afonso
Trovas antigas
O que mais me prende à vida
Não é amor de ninguém.
É que a morte de esquecida
Deixa o mal e leva o bem.
Olha a triste viuvinha
que anda na roca a fiar
É bem feito, é bem feito
que não tem com quem casar
Quem se vai casar ao longe
Ao perto tendo com quem
Alva flor da laranjeira
Não a dará a ninguém
No cimo daquela serra
Está um lenço de mil cores
Está dizendo Viva, Viva
Morra quem não tem amores
Não é amor de ninguém.
É que a morte de esquecida
Deixa o mal e leva o bem.
Olha a triste viuvinha
que anda na roca a fiar
É bem feito, é bem feito
que não tem com quem casar
Quem se vai casar ao longe
Ao perto tendo com quem
Alva flor da laranjeira
Não a dará a ninguém
No cimo daquela serra
Está um lenço de mil cores
Está dizendo Viva, Viva
Morra quem não tem amores
1 912
Álvares de Azevedo
SONHANDO
Hier, la nuit d'été, que nous prêtait ses voiles,
Était digne de toi, tant elle avait d'étoiles!
VICTOR HUGO
Na praia deserta que a lua branqueia,
Que mimo! que rosa! que filha de Deus!
Tão pálida... ao vê-la meu ser devaneia,
Sufoco nos lábios os hálitos meus!
Não corras na areia,
Não corras assim!
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!
A praia é tão longa! e a onda bravia
As roupas de gaza te molha de escuma...
De noite, aos serenos, a areia é tão fria...
Tão úmido o vento que os ares perfuma!
És tão doentia...
Não corras assim...
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!
A brisa teus negros cabelos soltou,
O orvalho da face te esfria o suor,
Teus seios palpitam - a brisa os roçou,
Beijou-os, suspira, desmaia de amor!
Teu pé tropeçou...
Não corras assim...
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!
E o pálido mimo da minha paixão
Num longo soluço tremeu e parou,
Sentou-se na praia, sozinha no chão,
A mão regelada no colo pousou!
Que tens, coração
Que tremes assim?
Cansaste, donzela?
Tem pena de mim!
Deitou-se na areia que a vaga molhou.
Imóvel e branca na praia dormia;
Mas nem os seus olhos o sono fechou
E nem o seu colo de neve tremia...
O seio gelou?...
Não durmas assim!
O pálida fria,
Tem pena de mim!
Dormia: - na fronte que níveo suar...
Que mão regelada no lânguido peito...
Não era mais alvo seu leito do mar,
Não era mais frio seu gélido leito!
Nem um ressonar...
Não durmas assim...
O pálida fria,
Tem pena de mim!
Aqui no meu peito vem antes sonhar
Nos longos suspiros do meu coração:
Eu quero em meus lábios teu seio aquentar,
Teu colo, essas faces, e a gélida mão...
Não durmas no mar!
Não durmas assim.
Estátua sem vida,
Tem pena de mim!
E a vaga crescia seu corpo banhando,
As cândidas formas movendo de leve!
E eu vi-a suave nas águas boiando
Com soltos cabelos nas roupas de neve!
Nas vagas sonhando
Não durmas assim...
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!
E a imagem da virgem nas águas do mar
Brilhava tão branca no límpido véu...
Nem mais transparente luzia o luar
No ambiente sem nuvens da noite do céu!
Nas águas do mar
Não durmas assim...
Não morras, donzela,
Espera por mim!
Lira dos Vinte Anos - Primeira Parte
Était digne de toi, tant elle avait d'étoiles!
VICTOR HUGO
Na praia deserta que a lua branqueia,
Que mimo! que rosa! que filha de Deus!
Tão pálida... ao vê-la meu ser devaneia,
Sufoco nos lábios os hálitos meus!
Não corras na areia,
Não corras assim!
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!
A praia é tão longa! e a onda bravia
As roupas de gaza te molha de escuma...
De noite, aos serenos, a areia é tão fria...
Tão úmido o vento que os ares perfuma!
És tão doentia...
Não corras assim...
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!
A brisa teus negros cabelos soltou,
O orvalho da face te esfria o suor,
Teus seios palpitam - a brisa os roçou,
Beijou-os, suspira, desmaia de amor!
Teu pé tropeçou...
Não corras assim...
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!
E o pálido mimo da minha paixão
Num longo soluço tremeu e parou,
Sentou-se na praia, sozinha no chão,
A mão regelada no colo pousou!
Que tens, coração
Que tremes assim?
Cansaste, donzela?
Tem pena de mim!
Deitou-se na areia que a vaga molhou.
Imóvel e branca na praia dormia;
Mas nem os seus olhos o sono fechou
E nem o seu colo de neve tremia...
O seio gelou?...
Não durmas assim!
O pálida fria,
Tem pena de mim!
Dormia: - na fronte que níveo suar...
Que mão regelada no lânguido peito...
Não era mais alvo seu leito do mar,
Não era mais frio seu gélido leito!
Nem um ressonar...
Não durmas assim...
O pálida fria,
Tem pena de mim!
Aqui no meu peito vem antes sonhar
Nos longos suspiros do meu coração:
Eu quero em meus lábios teu seio aquentar,
Teu colo, essas faces, e a gélida mão...
Não durmas no mar!
Não durmas assim.
Estátua sem vida,
Tem pena de mim!
E a vaga crescia seu corpo banhando,
As cândidas formas movendo de leve!
E eu vi-a suave nas águas boiando
Com soltos cabelos nas roupas de neve!
Nas vagas sonhando
Não durmas assim...
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!
E a imagem da virgem nas águas do mar
Brilhava tão branca no límpido véu...
Nem mais transparente luzia o luar
No ambiente sem nuvens da noite do céu!
Nas águas do mar
Não durmas assim...
Não morras, donzela,
Espera por mim!
Lira dos Vinte Anos - Primeira Parte
2 282
Charles Bukowski
Especial De 1990
gasto pelos anos
cansado até a medula.
dançando na escuridão com a
escuridão,
o Garoto Suicida ficou
grisalho.
ah, os velozes verões
idos e partidos
para sempre!
estará a morte
me espreitando
agora?
não, é apenas meu gato,
desta
vez.
cansado até a medula.
dançando na escuridão com a
escuridão,
o Garoto Suicida ficou
grisalho.
ah, os velozes verões
idos e partidos
para sempre!
estará a morte
me espreitando
agora?
não, é apenas meu gato,
desta
vez.
1 118
João Maimona
Prostitutas Misérias entre Mar e Janelas
Prostitutas Misérias entre Mar e Janelas
no quadragésimo aniversário
da explosão de Hiroshima
1. Nascemos quase pelas horas quase
iluminadas pelas cortinas que
ocultam a ausência humana. E
falecemos entre as sombras da
presença humana. A palavra sentida
há de calar a dor. Devíamos ter dito
duas vezes a oração bordada - a
estreita oração que nos ensinou a
bíblia de pedra. Da palavra sentida
há de nascer o amor. As avenidas
cantam e dizem lagartos para
escurecer as noites que nos vêm da
madrugada. Na palavra sentida há de
crescer a flor. Os leões inventam
microfones que em duas línguas
dizem tudo em duas palavras para os
ouvidos de dois mundos que se
ajoelham em dois caminhos. Temos
de conhecer o mar. Temos de dançar
ao pé das janelas. E crepúsculo
estará na neve do crepúsculo que há
de vir congregado em pedras do
crepúsculo.
2. O velho continente acordou e
deixou de sonhar com as estátuas de
cinza. A América se levantou e se
contorce de recessão espacial nos
pastos que enchem os peitos do gado
com o qual havemos de alimentar os
silêncios da África. As Américas
colecionam lembranças da
escravatura. E África coleciona
lábios para beijar folhas e árvores
perdidas no deserto por habitar. Aqui
os dias caem no chão e ninguém os
quer contar. Mas de noite cantamos
os dias que se abrem. Estendidos no
chão. Espiados pela mão que para a
noite vai. A carne, a flor, o sal, o
sangue e a água se misturam para
soprar felicidade ao mar e às
janelas. Temos de conhecer o mar.
Temos de dançar ao pé das janelas.
E o crepúsculo estará na neve do
crepúsculo que há de vir congregado
em pedras de crepúsculo.
no quadragésimo aniversário
da explosão de Hiroshima
1. Nascemos quase pelas horas quase
iluminadas pelas cortinas que
ocultam a ausência humana. E
falecemos entre as sombras da
presença humana. A palavra sentida
há de calar a dor. Devíamos ter dito
duas vezes a oração bordada - a
estreita oração que nos ensinou a
bíblia de pedra. Da palavra sentida
há de nascer o amor. As avenidas
cantam e dizem lagartos para
escurecer as noites que nos vêm da
madrugada. Na palavra sentida há de
crescer a flor. Os leões inventam
microfones que em duas línguas
dizem tudo em duas palavras para os
ouvidos de dois mundos que se
ajoelham em dois caminhos. Temos
de conhecer o mar. Temos de dançar
ao pé das janelas. E crepúsculo
estará na neve do crepúsculo que há
de vir congregado em pedras do
crepúsculo.
2. O velho continente acordou e
deixou de sonhar com as estátuas de
cinza. A América se levantou e se
contorce de recessão espacial nos
pastos que enchem os peitos do gado
com o qual havemos de alimentar os
silêncios da África. As Américas
colecionam lembranças da
escravatura. E África coleciona
lábios para beijar folhas e árvores
perdidas no deserto por habitar. Aqui
os dias caem no chão e ninguém os
quer contar. Mas de noite cantamos
os dias que se abrem. Estendidos no
chão. Espiados pela mão que para a
noite vai. A carne, a flor, o sal, o
sangue e a água se misturam para
soprar felicidade ao mar e às
janelas. Temos de conhecer o mar.
Temos de dançar ao pé das janelas.
E o crepúsculo estará na neve do
crepúsculo que há de vir congregado
em pedras de crepúsculo.
1 081
Murillo Mendes
Grafito para Ipólita
1
A tarde consumada, Ipólita desponta.
Ipólita, a putain do fim da infância.
Nascera em Juiz de Fora, a família em Ferrara.
Seus passos feminantes fundam o timbre.
Marcha, parece, ao som do gramofone.
A cabeleira-púbis, perturbante.
Os dedos prolongados em estiletes.
Os lábios escandindo a marselhesa
Do sexo. Os dentes mordem a matéria.
O olho meduseu sacode o espaço.
O corpo transmitindo e recebendo
O desejo o chacal a praga o solferino.
Pudesse eu decifrar sua íntima praça!
Expulsa o sol-e-dó, a professora, o ícone
Só de vê-la passar, meu sangue inobre
Desata as rédeas ao cavalo interno.
2
Quando tarde a revejo, rio usado,
Já a morte lhe prepara a ferramenta.
Deixa o teatro, a matéria fecal.
Pudesse eu libertar seu corpo (Minha cruzada!)
Quem sabe, agora redescobre o viso
Da sua primeira estrela, esquartejada.
3
Por ela meus sentidos progrediram.
Por ela fui voyeur antes do tempo.
4
O dia emagreceu. Ipólita desponta.
Roma 1965
Poema integrante da série Convergência.
In: MENDES, Murilo. Convergência, 1963/1966: 1 — convergência; 2 — sintaxe. São Paulo: Duas Cidades, 1970
A tarde consumada, Ipólita desponta.
Ipólita, a putain do fim da infância.
Nascera em Juiz de Fora, a família em Ferrara.
Seus passos feminantes fundam o timbre.
Marcha, parece, ao som do gramofone.
A cabeleira-púbis, perturbante.
Os dedos prolongados em estiletes.
Os lábios escandindo a marselhesa
Do sexo. Os dentes mordem a matéria.
O olho meduseu sacode o espaço.
O corpo transmitindo e recebendo
O desejo o chacal a praga o solferino.
Pudesse eu decifrar sua íntima praça!
Expulsa o sol-e-dó, a professora, o ícone
Só de vê-la passar, meu sangue inobre
Desata as rédeas ao cavalo interno.
2
Quando tarde a revejo, rio usado,
Já a morte lhe prepara a ferramenta.
Deixa o teatro, a matéria fecal.
Pudesse eu libertar seu corpo (Minha cruzada!)
Quem sabe, agora redescobre o viso
Da sua primeira estrela, esquartejada.
3
Por ela meus sentidos progrediram.
Por ela fui voyeur antes do tempo.
4
O dia emagreceu. Ipólita desponta.
Roma 1965
Poema integrante da série Convergência.
In: MENDES, Murilo. Convergência, 1963/1966: 1 — convergência; 2 — sintaxe. São Paulo: Duas Cidades, 1970
1 747
Charles Bukowski
Lei
veja, ele me disse,
todas essas criancinhas morrendo nas árvores,
e eu disse, o quê?
e ele disse, veja,
e eu fui até a janela
e, com certeza, lá estavam elas dependuradas nas árvores,
mortas e moribundas.
e eu disse, o que isso significa?
e ele disse, eu não sei mas foi autorizado.
no dia seguinte quando despertei
eles haviam colocado cães nas árvores
mortos e dependurados e moribundos,
e eu me voltei para meu amigo e disse,
o que isso significa?
e ele disse, não se preocupe,
as coisas são assim, houve uma votação,
foi resolvido,
e no dia seguinte foram gatos,
não entendo como eles pegaram todos aqueles gatos com tamanha
rapidez
e os dependuraram nas árvores
mas eles fizeram isso,
e no dia seguinte foram cavalos e não foi nada bom
pois muitos galhos quebraram,
e depois do bacon com ovos no dia seguinte,
meu amigo me apontou uma pistola
por cima do café e disse,
vamos,
e saímos
e lá estavam todos esses homens e mulheres nas
árvores, a maioria deles mortos ou
moribundos, e ele pegou a corda, e eu disse,
o que significa isso? e ele disse, não se preocupe,
foi autorizado, é constitucional, foi aprovado pelo
voto majoritário, e ele amarrou minhas mãos às minhas costas,
depois abriu o laço.
não sei quem vai me enforcar, ele disse,
quando eu terminar com você. suponho, no fim das contas,
que só vai sobrar um de nós
e ele terá que se enforcar
a Si mesmo.
supondo que ele não faça isso?, eu perguntei.
ele terá que fazer isso, ele disse, foi autorizado.
ó, eu disse, bem, vamos em frente
com isso
então.
todas essas criancinhas morrendo nas árvores,
e eu disse, o quê?
e ele disse, veja,
e eu fui até a janela
e, com certeza, lá estavam elas dependuradas nas árvores,
mortas e moribundas.
e eu disse, o que isso significa?
e ele disse, eu não sei mas foi autorizado.
no dia seguinte quando despertei
eles haviam colocado cães nas árvores
mortos e dependurados e moribundos,
e eu me voltei para meu amigo e disse,
o que isso significa?
e ele disse, não se preocupe,
as coisas são assim, houve uma votação,
foi resolvido,
e no dia seguinte foram gatos,
não entendo como eles pegaram todos aqueles gatos com tamanha
rapidez
e os dependuraram nas árvores
mas eles fizeram isso,
e no dia seguinte foram cavalos e não foi nada bom
pois muitos galhos quebraram,
e depois do bacon com ovos no dia seguinte,
meu amigo me apontou uma pistola
por cima do café e disse,
vamos,
e saímos
e lá estavam todos esses homens e mulheres nas
árvores, a maioria deles mortos ou
moribundos, e ele pegou a corda, e eu disse,
o que significa isso? e ele disse, não se preocupe,
foi autorizado, é constitucional, foi aprovado pelo
voto majoritário, e ele amarrou minhas mãos às minhas costas,
depois abriu o laço.
não sei quem vai me enforcar, ele disse,
quando eu terminar com você. suponho, no fim das contas,
que só vai sobrar um de nós
e ele terá que se enforcar
a Si mesmo.
supondo que ele não faça isso?, eu perguntei.
ele terá que fazer isso, ele disse, foi autorizado.
ó, eu disse, bem, vamos em frente
com isso
então.
1 156
Thomas Hardy
I NEED NOT GO
Porque ainda irei
por neve sem lei
aonde bem sei
que espera silente?
Há-de aguardar
possa eu poupar
o tempo a gastar
com outra gente.
Quando eu me farte
do mundo a ser parte,
e quando mais arte
já sobre ao que sei,
tempo é de ir aonde
o cipreste a esconde,
como quem responde:
Enfim, cá voltei.
Se o dia chegar
de ninguém negar
o que eu procurar,
e ainda eu não for
(com boa medida
ao ócio atribuída
no prazer sem brida),
paciente é o amor.
Não venham ralhar-me
por meu demorar-me
e nem perguntar-me
porque me fiquei.
Cuidados me chamam,
amores me inflamam,
Ela é dos que não clamam:
atura-me, eu sei.
por neve sem lei
aonde bem sei
que espera silente?
Há-de aguardar
possa eu poupar
o tempo a gastar
com outra gente.
Quando eu me farte
do mundo a ser parte,
e quando mais arte
já sobre ao que sei,
tempo é de ir aonde
o cipreste a esconde,
como quem responde:
Enfim, cá voltei.
Se o dia chegar
de ninguém negar
o que eu procurar,
e ainda eu não for
(com boa medida
ao ócio atribuída
no prazer sem brida),
paciente é o amor.
Não venham ralhar-me
por meu demorar-me
e nem perguntar-me
porque me fiquei.
Cuidados me chamam,
amores me inflamam,
Ela é dos que não clamam:
atura-me, eu sei.
1 442
Charles Bukowski
Encômios
após a morte
exageramos as boas qualidades de alguém,
nós as inflamos.
durante a vida
frequentemente sentimos repulsa pela mesma pessoa
enquanto falamos com ela ao telefone
ou só de estar no mesmo aposento.
e frequentemente criticamos o jeito como
andam, falam, vestem-se
vivem
creem.
mas é só morrerem
então que criaturas elas
se tornam.
se apenas em uma cerimônia fúnebre
alguém dissesse,
"que indivíduo odioso
esse aí foi!"
que em meu funeral
haja só um pouco de verdade,
e depois a boa e limpa
poeira.
exageramos as boas qualidades de alguém,
nós as inflamos.
durante a vida
frequentemente sentimos repulsa pela mesma pessoa
enquanto falamos com ela ao telefone
ou só de estar no mesmo aposento.
e frequentemente criticamos o jeito como
andam, falam, vestem-se
vivem
creem.
mas é só morrerem
então que criaturas elas
se tornam.
se apenas em uma cerimônia fúnebre
alguém dissesse,
"que indivíduo odioso
esse aí foi!"
que em meu funeral
haja só um pouco de verdade,
e depois a boa e limpa
poeira.
1 080
Charles Bukowski
Uma Noite Mais Escura Em Abril
cada homem finalmente preso e arrebentado
cada túmulo pronto
cada falcão morto
e o amor e a sorte também.
os poemas acabaram
a garganta está seca.
suponho que não haja funeral para isso
e nada de lágrimas
e nenhuma razão.
a dor é o senhor
a dor é silêncio.
as gargantas dos meus poemas
estão secas.
cada túmulo pronto
cada falcão morto
e o amor e a sorte também.
os poemas acabaram
a garganta está seca.
suponho que não haja funeral para isso
e nada de lágrimas
e nenhuma razão.
a dor é o senhor
a dor é silêncio.
as gargantas dos meus poemas
estão secas.
1 134
Charles Bukowski
Passagem
e seus navios queimaram, galeões, galeras, veleiros,
e eles naufragavam enquanto as nuvens baixavam
como reis em seus tronos e os pegaram:
servos, escravos, leões, sábios, loucos, mercadores,
matadores; depois as algas, betume, alabastro, conchas
se apresentaram, e depois vieram as sombras,
escuras como muralhas sob um sol poente: e belicoso e
maldoso o mar pisoteou os navios que naufragavam e as
ramagens embalaram os crânios em exame, as
algas marinhas ergueram os crânios e você os via
lá, tão estranhos e livres e soltos: todos os
amantes solitários mortos.
e eles naufragavam enquanto as nuvens baixavam
como reis em seus tronos e os pegaram:
servos, escravos, leões, sábios, loucos, mercadores,
matadores; depois as algas, betume, alabastro, conchas
se apresentaram, e depois vieram as sombras,
escuras como muralhas sob um sol poente: e belicoso e
maldoso o mar pisoteou os navios que naufragavam e as
ramagens embalaram os crânios em exame, as
algas marinhas ergueram os crânios e você os via
lá, tão estranhos e livres e soltos: todos os
amantes solitários mortos.
1 055
Charles Bukowski
Sol Se Pondo
ninguém está triste por eu ir embora,
nem mesmo eu;
mas deveria haver um menestrel
ou ao menos um copo de vinho.
isso incomoda mais aos jovens, acho:
uma morte lenta sem violência.
ainda assim isso faz com que qualquer homem sonhe;
você gostaria de um velho veleiro,
a vela branca incrustada de sal
e o mar embalando sugestões de imortalidade.
mar no nariz
mar no cabelo
mar na medula, nos olhos
e sim, no peito.
sentiremos falta
do amor de uma mulher ou música ou comida
ou o corcovear do grande cavalo louco e
musculoso,
pisoteando torrões de terra e destinos
para o alto e para bem longe
em um só momento de sol poente?
mas agora é a minha vez
e não há majestade nisso
pois não houve majestade
antes disso
e cada um de nós, como vermes mordidos
nas maçãs,
não merece moratória.
a morte penetra em minha boca
e rasteja ao longo dos meus dentes
e me pergunto se estou com medo deste
morrer sem voz e sem lamentos que é
igual ao murchar de uma rosa?
nem mesmo eu;
mas deveria haver um menestrel
ou ao menos um copo de vinho.
isso incomoda mais aos jovens, acho:
uma morte lenta sem violência.
ainda assim isso faz com que qualquer homem sonhe;
você gostaria de um velho veleiro,
a vela branca incrustada de sal
e o mar embalando sugestões de imortalidade.
mar no nariz
mar no cabelo
mar na medula, nos olhos
e sim, no peito.
sentiremos falta
do amor de uma mulher ou música ou comida
ou o corcovear do grande cavalo louco e
musculoso,
pisoteando torrões de terra e destinos
para o alto e para bem longe
em um só momento de sol poente?
mas agora é a minha vez
e não há majestade nisso
pois não houve majestade
antes disso
e cada um de nós, como vermes mordidos
nas maçãs,
não merece moratória.
a morte penetra em minha boca
e rasteja ao longo dos meus dentes
e me pergunto se estou com medo deste
morrer sem voz e sem lamentos que é
igual ao murchar de uma rosa?
1 198
Alfred Edward Housman
IF TRUTH IN HEARTS
Se o vero em peitos mortais
Movesse os altos poderes,
O grande amor que te tenho
Não deixara tu morreres.
Sim: que se um firme sentido
Um pensar puro salvara,
Podia o mundo acabar,
Que a ti ninguém enterrara.
Este longo e fundo querer
Tal desejo de agradar-te
- Ai para sempre vivias,
Se pudesse isto salvar-te.
Mas porque nada é assim,
Sê gentil ainda comigo,
Antes que partas pra onde
Não terás melhor amigo.
Movesse os altos poderes,
O grande amor que te tenho
Não deixara tu morreres.
Sim: que se um firme sentido
Um pensar puro salvara,
Podia o mundo acabar,
Que a ti ninguém enterrara.
Este longo e fundo querer
Tal desejo de agradar-te
- Ai para sempre vivias,
Se pudesse isto salvar-te.
Mas porque nada é assim,
Sê gentil ainda comigo,
Antes que partas pra onde
Não terás melhor amigo.
934
Rita Barém de Melo
Vem!
Vem! Que t importa que maldiga o mundo
O amor profundo que nos liga? vem;
Vem, que nos vales de cheirosas flores,
Nossos amores viçarão também.
Vem! de joelhos nos tapiz de nardo
Há de te o brado suspirar idílios,
Cantar-te a face rosejada em pranto,
O orvalho santo do frouxel dos cílios.
Pensa na sombra da floresta virgem...
Nesta vertigem ... nestamor ali!...
Aves felizes no sendal dos ramos
Seremos: vamos, que o serei por ti!
Vamos unidos como a luz ao astro
O amor da Castro na soidão lembrá-lo,
Nas longas plumas que a palmeira agita
A alma palpita de Virgínia e Paulo.
Que mais tu queres, anjo e flor? Escuta:
Quem ama luta? Não lutemos, vem!
Vamos aos vales de cheirosas flores,
Que é flor damores meu amor também.
Olha, de tarde quando o sol se esconde
Diz-me tu onde mais poesia viste?
Calam-se os ventos - só a brisa arrula -
O céu se azula - mas o céu é triste.
Pois bem, o bardo na soidão exprime
Na voz sublime dum arcanjo a voz:
Hei de dos seios arrancar os lírios
Dos meus delírios, pra tos dar - a sós. -
Perdidos ambos no deserto infinito
Que sonho lindo, que visões também!
E o éter puro como véu destrelas...
E a chama delas a tremer além!...
"Mas quando um dia desbotar-se o prado?
Quando o valado se cobrir de gelos?
Ai! tu só vives - beija-flor - de orvalhos
Em verdes galhos de sonhares belos!
Qu importa o prado de cheirosas flores
Se teus amores morrerão também!"
Quando morrerem, morrerão comigo
E ao céu contigo voarei - Oh! vem!
"Oh! não! Minhalma se coroa em flores;
Nos esplendores de celeste aurora;
Deus abençoa só amores santos
Cala teus cantos: morrerás agora?"
(Rio Grande, julho de 1867)
O amor profundo que nos liga? vem;
Vem, que nos vales de cheirosas flores,
Nossos amores viçarão também.
Vem! de joelhos nos tapiz de nardo
Há de te o brado suspirar idílios,
Cantar-te a face rosejada em pranto,
O orvalho santo do frouxel dos cílios.
Pensa na sombra da floresta virgem...
Nesta vertigem ... nestamor ali!...
Aves felizes no sendal dos ramos
Seremos: vamos, que o serei por ti!
Vamos unidos como a luz ao astro
O amor da Castro na soidão lembrá-lo,
Nas longas plumas que a palmeira agita
A alma palpita de Virgínia e Paulo.
Que mais tu queres, anjo e flor? Escuta:
Quem ama luta? Não lutemos, vem!
Vamos aos vales de cheirosas flores,
Que é flor damores meu amor também.
Olha, de tarde quando o sol se esconde
Diz-me tu onde mais poesia viste?
Calam-se os ventos - só a brisa arrula -
O céu se azula - mas o céu é triste.
Pois bem, o bardo na soidão exprime
Na voz sublime dum arcanjo a voz:
Hei de dos seios arrancar os lírios
Dos meus delírios, pra tos dar - a sós. -
Perdidos ambos no deserto infinito
Que sonho lindo, que visões também!
E o éter puro como véu destrelas...
E a chama delas a tremer além!...
"Mas quando um dia desbotar-se o prado?
Quando o valado se cobrir de gelos?
Ai! tu só vives - beija-flor - de orvalhos
Em verdes galhos de sonhares belos!
Qu importa o prado de cheirosas flores
Se teus amores morrerão também!"
Quando morrerem, morrerão comigo
E ao céu contigo voarei - Oh! vem!
"Oh! não! Minhalma se coroa em flores;
Nos esplendores de celeste aurora;
Deus abençoa só amores santos
Cala teus cantos: morrerás agora?"
(Rio Grande, julho de 1867)
1 270
Diogo Brandão
Os que logo decrararam
Os que logo decrararam
suas dores, em querendo,
muitas vezes s'estimaram;
mas muito mais obrigaram
aqueles que, padecendo,
nam falando, mas morrendo,
confessaram.
Bem podem dizer fingidos
seus amores os primeiros;
masaquestes, já vencidos,
pola morte conhecidos,
sam seus males verdadeiros.
Já se muitos confortaram
em suas penas dizendo,
e disso se contentaram;
portanto mais obrigaram
aqueles que, padecendo,
nom falando, mas morrendo,
confessaram.
suas dores, em querendo,
muitas vezes s'estimaram;
mas muito mais obrigaram
aqueles que, padecendo,
nam falando, mas morrendo,
confessaram.
Bem podem dizer fingidos
seus amores os primeiros;
masaquestes, já vencidos,
pola morte conhecidos,
sam seus males verdadeiros.
Já se muitos confortaram
em suas penas dizendo,
e disso se contentaram;
portanto mais obrigaram
aqueles que, padecendo,
nom falando, mas morrendo,
confessaram.
548
Alfred Edward Housman
FAREWELL TO A NAME
Adeus a um número e um nome
Que foi chamado
À treva, silêncio e sono
Do sangue derramado.
Assim cessa em acto
E volta ao fim.
Soldado à pátria barato
E caro para mim.
Assim em sangue se afoga
O chamejante açoite
De uma verdade que volta
Ao pó e à noite.
Que foi chamado
À treva, silêncio e sono
Do sangue derramado.
Assim cessa em acto
E volta ao fim.
Soldado à pátria barato
E caro para mim.
Assim em sangue se afoga
O chamejante açoite
De uma verdade que volta
Ao pó e à noite.
1 233
Alfred Edward Housman
SHOT? SO QUICK
Um tiro? Um fim asseado?
Fizeste bem em buscá-lo.
Eras um caso arrumado:
Melhor a morte guardá-lo.
Razoável tu pensaste,
Soubeste que ias à viola;
E muito a tempo encostaste
À tua fronte a pistola.
Antes que tarde já fosse
Em humilhações e desgraça,
O teu traidor acabou-se
Que nascera de má raça.
O futuro adivinhaste,
E ao teu pântano fugiste,
Se o pó, meu filho, ganhaste,
ainda há pior, que previste.
Não-alma que as almas suga,
Essa história é bem sabida.
Aos outros poupaste a fuga.
Foi de homem teu fim de vida
Os estranhos e os amigos
Com inveja passam cá:
Sem desonra e sem perigos
Sem culpas, teu ser está.
Repousa-te em paz serena.
Coroa é só esta a que eu traga:
Guardá-la não vale a pena
Mas, se usada, não se apaga.
Fizeste bem em buscá-lo.
Eras um caso arrumado:
Melhor a morte guardá-lo.
Razoável tu pensaste,
Soubeste que ias à viola;
E muito a tempo encostaste
À tua fronte a pistola.
Antes que tarde já fosse
Em humilhações e desgraça,
O teu traidor acabou-se
Que nascera de má raça.
O futuro adivinhaste,
E ao teu pântano fugiste,
Se o pó, meu filho, ganhaste,
ainda há pior, que previste.
Não-alma que as almas suga,
Essa história é bem sabida.
Aos outros poupaste a fuga.
Foi de homem teu fim de vida
Os estranhos e os amigos
Com inveja passam cá:
Sem desonra e sem perigos
Sem culpas, teu ser está.
Repousa-te em paz serena.
Coroa é só esta a que eu traga:
Guardá-la não vale a pena
Mas, se usada, não se apaga.
1 004
Vinicius de Moraes
O Cemitério Na Madrugada
Às cinco da manhã a angústia se veste de branco
E fica como louca, sentada, espiando o mar...
É a hora em que se acende o fogo-fátuo da madrugada
Sobre os mármores frios, frios e frios do cemitério
E em que, embaladas pela harpa cariciosa das pescarias
Dormem todas as crianças do mundo.
Às cinco da manhã a angústia se veste de branco
Tudo repousa... e sem treva, morrem as últimas sombras...
É a hora em que, libertados do horror da noite escura
Acordam os grandes anjos da guarda dos jazigos
E os mais serenos cristos se desenlaçam dos madeiros
Para lavar o rosto pálido na névoa.
Às cinco da manhã... — tão tarde soube — não fora ainda uma visão
Não fora ainda o medo da morte em minha carne!
Viera de longe... de um corpo lívido de amante
Do mistério fúnebre de um êxtase esquecido
Tinha-me perdido na cerração, tinha-me talvez perdido
Na escuta de asas invisíveis em torno...
Mas ah, ela veio até mim, a pálida cidade dos poemas
Eu a vi assim gelada e hirta, na neblina!
Oh, não eras tu, mulher sonâmbula, tu que eu deixei
Banhada do orvalho estéril da minha agonia
Teus seios eram túmulos também, teu ventre era uma urna fria
Mas não havia paz em ti!
Lá tudo é sereno... Lá toda a tristeza se cobre de linho
Lá tudo é manso, manso como um corpo morto de mãe prematura
Lá brincam os serafins e as flores, bimbalham os sinos
Em melodias tão alvas que nem se ouvem...
Lá gozam miríades de vermes, que às brisas matutinas
V oam em povos de borboletas multicolores...
Escuto-me falar sem receio; esqueço o amanhã distante
O vento traz perfumes inconfessáveis dos pinheiros...
Um dia morrerão todos, morrerão as amadas
E eu ficarei sozinho, para a hora dos cânticos exangues
Hei de colar meu ouvido impaciente às tumbas amigas
E ouvir meu coração batendo.
Tu trazes alegria à vida, ó Morte, deusa humílima!
A cada gesto meu riscas uma sombra errante na terra
Sobre o teu corpo em túnica, vi a farândola das rosas e dos lírios
E a procissão solene das virgens e das madalenas
Em tuas maminhas púberes vi mamarem ratos brancos
Que brotavam como flores dos cadáveres contentes.
Que pudor te toma agora, poeta, lírico ardente
Que desespero em ti diz da irrealidade das manhãs?
A Morte vive em teu ser... — não, não é uma visão de bruma
Não é o despertar angustiado após o martírio do amor
É a Poesia... — e tu, homem simples, és um fanático arquiteto
Ergues a beleza da morte em ti!
Oh, cemitério da madrugada, por que és tão alegre
Por que não gemem ciprestes nos teus túmulos?
Por que te perfumas tanto em teus jasmins
E tão docemente cantas em teus pássaros?
És tu que me chamas, ou sou eu que vou a ti
Criança, brincar também pelos teus parques?
Por ti, fui triste; hoje, sou alegre por ti, ó morte amiga
Do teu espectro familiar vi se erguer a única estrela do céu
Meu silêncio é o teu silêncio — ele não traz angústia
É assim como a ave perdida no meio do mar...
............................................................................................
Serenidade, leva-me! guarda-me no seio de uma madrugada eterna!
E fica como louca, sentada, espiando o mar...
É a hora em que se acende o fogo-fátuo da madrugada
Sobre os mármores frios, frios e frios do cemitério
E em que, embaladas pela harpa cariciosa das pescarias
Dormem todas as crianças do mundo.
Às cinco da manhã a angústia se veste de branco
Tudo repousa... e sem treva, morrem as últimas sombras...
É a hora em que, libertados do horror da noite escura
Acordam os grandes anjos da guarda dos jazigos
E os mais serenos cristos se desenlaçam dos madeiros
Para lavar o rosto pálido na névoa.
Às cinco da manhã... — tão tarde soube — não fora ainda uma visão
Não fora ainda o medo da morte em minha carne!
Viera de longe... de um corpo lívido de amante
Do mistério fúnebre de um êxtase esquecido
Tinha-me perdido na cerração, tinha-me talvez perdido
Na escuta de asas invisíveis em torno...
Mas ah, ela veio até mim, a pálida cidade dos poemas
Eu a vi assim gelada e hirta, na neblina!
Oh, não eras tu, mulher sonâmbula, tu que eu deixei
Banhada do orvalho estéril da minha agonia
Teus seios eram túmulos também, teu ventre era uma urna fria
Mas não havia paz em ti!
Lá tudo é sereno... Lá toda a tristeza se cobre de linho
Lá tudo é manso, manso como um corpo morto de mãe prematura
Lá brincam os serafins e as flores, bimbalham os sinos
Em melodias tão alvas que nem se ouvem...
Lá gozam miríades de vermes, que às brisas matutinas
V oam em povos de borboletas multicolores...
Escuto-me falar sem receio; esqueço o amanhã distante
O vento traz perfumes inconfessáveis dos pinheiros...
Um dia morrerão todos, morrerão as amadas
E eu ficarei sozinho, para a hora dos cânticos exangues
Hei de colar meu ouvido impaciente às tumbas amigas
E ouvir meu coração batendo.
Tu trazes alegria à vida, ó Morte, deusa humílima!
A cada gesto meu riscas uma sombra errante na terra
Sobre o teu corpo em túnica, vi a farândola das rosas e dos lírios
E a procissão solene das virgens e das madalenas
Em tuas maminhas púberes vi mamarem ratos brancos
Que brotavam como flores dos cadáveres contentes.
Que pudor te toma agora, poeta, lírico ardente
Que desespero em ti diz da irrealidade das manhãs?
A Morte vive em teu ser... — não, não é uma visão de bruma
Não é o despertar angustiado após o martírio do amor
É a Poesia... — e tu, homem simples, és um fanático arquiteto
Ergues a beleza da morte em ti!
Oh, cemitério da madrugada, por que és tão alegre
Por que não gemem ciprestes nos teus túmulos?
Por que te perfumas tanto em teus jasmins
E tão docemente cantas em teus pássaros?
És tu que me chamas, ou sou eu que vou a ti
Criança, brincar também pelos teus parques?
Por ti, fui triste; hoje, sou alegre por ti, ó morte amiga
Do teu espectro familiar vi se erguer a única estrela do céu
Meu silêncio é o teu silêncio — ele não traz angústia
É assim como a ave perdida no meio do mar...
............................................................................................
Serenidade, leva-me! guarda-me no seio de uma madrugada eterna!
1 266
Eugénia Tabosa
Destino
No passeio junto à praia,
do outro lado da estrada
duas mulheres de negro
caminham apressadas,
o vento fá-las dobrar
as saias parecem asas
debatendo-se no ar.
Do outro lado da estrada
no passeio junto ao mar
duas mulheres gemendo
parecem quase voar,
na cabeça lenços pretos
encobrem-lhes o olhar,
as mãos apertam o peito
pra o coração não estalar.
O vento uiva mais alto
trazendo gritos da praia
um espanto para lá do mar,
elas correm, como correm
nem a água as faz parar
procuram cegas os barcos
e nada há que encontrar.
Só então abrem os braços
erguendo o punho ao ar
gritam de revolta e dor,
soltam seu ódio, seu mal,
chamam, choram de amor,
e as lágrimas abrem sulcos
naqueles rostos desfeitos.
Desceu um silêncio à praia
era a morte a passear
por entre gaivotas feridas
todas de negro vestidas
olhos presos no mar.
do outro lado da estrada
duas mulheres de negro
caminham apressadas,
o vento fá-las dobrar
as saias parecem asas
debatendo-se no ar.
Do outro lado da estrada
no passeio junto ao mar
duas mulheres gemendo
parecem quase voar,
na cabeça lenços pretos
encobrem-lhes o olhar,
as mãos apertam o peito
pra o coração não estalar.
O vento uiva mais alto
trazendo gritos da praia
um espanto para lá do mar,
elas correm, como correm
nem a água as faz parar
procuram cegas os barcos
e nada há que encontrar.
Só então abrem os braços
erguendo o punho ao ar
gritam de revolta e dor,
soltam seu ódio, seu mal,
chamam, choram de amor,
e as lágrimas abrem sulcos
naqueles rostos desfeitos.
Desceu um silêncio à praia
era a morte a passear
por entre gaivotas feridas
todas de negro vestidas
olhos presos no mar.
1 177
Pablo Neruda
XXXVII
De tuas cinzas nascerão
tchecoslovacos ou tartarugas?
Tua boca beijará cravos
com outros lábios vindouros?
Mas sabes de onde vem
a morte, de cima ou de baixo?
Dos micróbios ou dos muros,
das guerras ou do inverno?
tchecoslovacos ou tartarugas?
Tua boca beijará cravos
com outros lábios vindouros?
Mas sabes de onde vem
a morte, de cima ou de baixo?
Dos micróbios ou dos muros,
das guerras ou do inverno?
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