Poemas neste tema

Morte e Luto

Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Iv. Ele Porém Dobrou o Cabo E Não Achou a Índia

Ele porém dobrou o cabo e não achou a Índia
E o mar o devorou com o instinto de destino que há no mar
1982
1 376
Raimundo Correia

Raimundo Correia

Luiz Gama

A Raul Pompéia


Tantos triunfos te contando os dias,
Iam-te os dias descontando e os anos,
Quando bramavas, quando combatias
Contra os bárbaros, contra os desumanos;

Quando a alma brava e procelosa abrias
Invergável ao pulso dos tiranos,
E ígnea, como os desertos africanos
Dilacerados pelas ventanias...

Contra o inimigo atroz rompeste em guerra,
Grilhões a rebentar por toda a parte,
Por toda a parte a escancarar masmorras.

Morreste!... Embalde, Escravidão! Por terra
Rolou... Morreu por não poder matar-te!
Também não tarda muito que tu morras!


In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.2, p.19
2 631
José Saramago

José Saramago

8

Está determinado que hoje se travará uma grande batalha e não obstante o número de mortos previsto assim se fará

Nunca a certeza dos mortos evitou uma guerra muito menos em 1993 quando os escrúpulos não são prisão e impedimento

Não os têm os perseguidores aos perseguidos aconselha-se que os não tenham

Mas só no fim da batalha o como vai saber-se porque a contagem dos mortos será contra o costume repartida pelos dois campos

Apenas porque o ódio entrou enfim no corpo das mulheres

Será visto que estando mortos os homens perseguidos os perseguidores hão-de de violá-las conforme mandam as imemoriais regras da guerra

Já tudo isto aconteceu infinitas vezes tantas que violação se não deve dizer pelo contrário entrega

Por isso a longa fileira das mulheres deitadas espera com indiferença que é simulada a penetração dos perseguidores

Elas mesmas levantaram as roupas e oferecem à luz do sol e aos olhos as vulvas húmidas

Silenciosamente suportam o assalto e abrem os braços enquanto a raiva corre pelo sangue para o centro do corpo

Há um derradeiro momento em que o perseguidor ainda poderia retirar-se

Mas logo é tarde e no exacto instante em que o espasmo militarmente iria deflagrar

Com um estalo seco e definitivo os dentes que o ódio fizera nascer nas vulvas frenéticas

Cortam cerce os pénis do exército perseguidor que as vaginas cospem para fora com o mesmo desprezo com que os homens perseguidos haviam sido degolados

Uma só mulher porém enquanto as outras celebram a justa vitória retira suavemente o membro amputado que ainda tivera tempo de ejacular

E levantada comprime o sexo com as mãos e afasta-se pela planície na direcção das montanhas
968
José Saramago

José Saramago

15

Porém não devemos esquecer o mar que é o princípio e o fim de todas as coisas

É certo que nos dias de 1993 poucas pessoas ainda serão capazes de imaginar os primeiros tempos do mundo

Quando nenhum animal percorria a terra ou voava sobre ela

Quando nada que merecesse o nome de planta rompia o solo instável

Então a enorme caldeira do mar elaborava a alquimia da pedra filosofal que tudo mudava em vida e alguma coisa em ouro

Também para os dias de 1993 o futuro para além do futuro parecerá impossível

Quando o mar cobrir os continentes gastos e a terra rebrilhar no espaço como um espelho gelado

E outra vez nenhuma planta a não ser as algas marinhas nenhum animal a não ser os mais pesados e já moribundos peixes

Agora os homens apenas procuram o mar para se lamentarem diante da grande voz das ondas

E postos de joelhos em linha com os braços abertos recebendo no rosto a fustigação do vento e da espuma

Gritam ensurdecidos pelo estrépito a miséria extrema que por agora os dispersa na terra

E quando enfim se calam assombrados pelo pavor que são capazes de suportar

O mar subitamente acalma e um lento murmúrio de um lado e do outro reconsidera os factos

Que em verdade não excluem uma maré renovada e uma coragem à medida do tempo que passou desde a primeira de todas as mortes

Sem o que não seria possível juntarem-se outra vez os homens e subirem a escarpa a caminho da terra ocupada
922
Herberto Helder

Herberto Helder

Iii J

O dia meteu-se para dentro: a água enche o meu sono
e transborda.
Os dons obscurecem-me.
Nas redes da pedra coa-se o muito forte
das matérias. E numa volta espasmódica a curva exaltada arranca
dos fundos da carne trémula
grandes massas côncavas, difíceis, terrestres, convexas.
Meto para dentro a linha sísmica,
ponho os dedos de fora,
e a linha
— os pontos poderosos das palavras:
amor, velocidade, morte, metamorfose — a linha
vibra, a linha do mundo. Escreva-se:
obscurece, revela.
Nos lugares frios as pedras longamente pousadas sobre leques de água.
Nem sempre se tem a voltagem das coisas: mesa aqui, fogão aceso,
torneiras fechadas com aquela assombrosa massa de água
atrás, à espera,
roupas, madeiras, livros.
Oh como alguém espera que a luz se levante asperamente até à cara
Ou se espera ver em alguém assim
tocado ver
o sangue nos orifícios da cabeça, ou
melhor:
amígdalas, palato, língua, a voz tratada a sangue e rapidez.
E a maneira de andar na escuridão sob as gotas,
cuidar da ferida, cuidar
da gramática, árduo cuidar, quem
pensaria?, cuidar da música,
do mundo.
Há um azul selvagem defronte se alguém se vira,
nas costas rebenta a espuma.
Que sim, que os elementos através da casa: um espaço
na beleza: água atrás das paredes,
fogo nas botijas,
cristal nas unhas.
Mantém o nome, tu, o gás cingido pelos aros de ferro, mesa
e papéis, a morte atenta, mantém-na, tarda, não
tarda, abertas, fechadas
as torneiras.
Oh mundo escrito dolorosamente nas faixas de seda
saída de bichos como que
plenos, em brasa, mas
macios, saída
do âmago dos bichos.
Quem morre morre, tão fulgurante nas mãos e na testa.
O bafo trabalha nas linhas perigosas.
A estrela estala.
1 191
Max Martins

Max Martins

A Fera

Das cavernas do sono das palavras, dentre
os lábios confortáveis de um poema lido
e já sabido
voltas

para ela — para a terra
maleável e amante. Dela
de novo te aproximas

e de novo a enlaças firme sobre o lago
do diálogo, moldas
novo destino

Firme penetra e cresce a aproximação conjunta
E ocupa um centro: A morte, a fera
da vida
te lambendo

Serra dos Carajás, dez. 1986


In: MARTINS, Max. Para ter onde ir. Fotos de Béla Borsodi. São Paulo: Massao Ohno: A. Massi, 199
2 039
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Procura-Se Ajuda

eu era um jovem demente e aí encontrei certo livro escrito por um
homem mais velho demente e me senti melhor porque ele era
capaz de botar no papel
e aí encontrei um livro de uma fase posterior desse mesmo homem mais velho
demente
só que a mim
ele já não parecia demente ele só parecia ser
maçante –
todos nós aguentamos bem por um tempo, aí com defeitos e
lapsos e erros inerentes
na maioria de nós
tão frequentemente nos deterioramos da noite para o dia
chegando a um estado tão próximo da defecação
que o resultado final é quase insuportável para os
sentidos.

por sorte, encontrei alguns outros homens dementes que quase permaneceram do
mesmo jeito até que
morreram.

isso é mais digno, sabe, e beneficia um pouco mais as nossas
vidas
conforme desempenhamos as nossas –
umbrosas –
tarefas.
1 114
Herberto Helder

Herberto Helder

Iii K

Num espaço unido a luz sacode
o peso, o curvo, o muito:
laranjas a chamejar contra paredões de água.
Ou então coze-se o oco, faz-se um púcaro,
o fôlego encurva as massas de vidro,
a água pára no barro côncavo.
Imagem unânime do mundo.
A imagem estremece pela potência da água,
o papel estremece pela potência da frase
que o atravessa,
aqueduto.
Mas se a mão se amaciasse para que a frase
fosse delgada como a seda, se de súbito
a seda se rasgasse pela força
de um nome último?
A ascensão do aloés: vê-se,
fica-se bêbado. E tão leve o esperma.
De noite os cabelos crescem tanto que neles se amarra a cabeça,
crescem a cada pancada do sangue,
cada sopro.
Num tronco escreve-se o nome do mundo,
aferida do mundo,
a seiva freme nos dedos.
Que tocam, os dedos, no pénis e nos testículos:
e sente-se em baixo o furor
do ouro.
Com erros misteriosos escreve-se o poema primeiro do tempo:
música, sintaxe, massas
em equilíbrio, a ortografia, o número,
o mais respirado, espaçoso, primário, terrestre
poema
das vozes, das luzes.
A água jorra no caos, fecha-se a água nos tanques:
bebe-se. Mergulha dentro da água
um galho
de estrelas maduras. O esperma torna-se espesso.
Morre-se de alvoroço.
Ressuscita-se, hoje.
1 076
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Ai Justiça, Mal Fazedes, Que Nom

Ai Justiça, mal fazedes, que nom
queredes ora dereito filhar
de Mor da Cana, porque foi matar
Joan'Airas, ca fez mui sem razom;
mais se dereito queredes fazer,
ela sô el devedes a meter,
ca o manda o Livro de Leon.

Ca lhi queria gram bem, e des i
nunca lhi chamava senom senhor;
e quando lh'el queria mui milhor,
foi-o ela logo matar ali;
mais, Justiça, pois tam gram torto fez,
metede-a já sô el ũa vez,
ca o manda o dereito assi.

E quando mais Joan'Airas cuidou
que houvesse de Mor da Cana bem,
foi-o ela logo matar por en,
tanto que el em seu poder entrou;
mais, Justiça, pois que assi é já,
metam-na sô el, e padecerá
a que o a mui gram torto matou.

E quen'os ambos vir jazer, dirá:
- Beeito seja aquel que o julgou!
663
Vicente de Carvalho

Vicente de Carvalho

Spleen

Fora, na vasta noute, um vento de procela
Erra, aos saltos, uivando, em rajadas e em fúria;
E num rumor de choro, uma voz de lamúria,
Ouço a chuva a escorrer nos vidros da janela.

No desconforto do meu quarto de estudante,
Velo. Sinto-me como insulado da vida.
Eu imagino a morte assim, aborrecida
Solidão numa sombra infinita e constante...

Tu, que és forte, rebrame em fúria, natureza!
Eu, caído num fundo abismo de tristeza,
Invejo-te a expansão livre do temporal;

E, no tédio feroz que me assalta e me toma,
Sinto ansiarem-me n'alma instintos de chacal...
E compreendo Nero incendiando Roma.


Publicado no livro Ardentias (1885).

In: CARVALHO, Vicente de. Versos da mocidade. Porto: Chardron, 191
1 780
Herberto Helder

Herberto Helder

Iv B

Foi-me dada um dia apenas, num dos centros da idade,
a linha medida quando
o mármore se encurva, uma linha
de seda tirada ao remoinho
do casulo. Foi-me dada na origem
mesma, no caos
das linhas. E nunca mais, sob os dedos que tanta
aspereza tocaram, de tanta matéria
esfriaram ou aqueceram:
vísceras, madeiras profundas se alguém batesse com os nós dos dedos
e ressoassem, massas
na escuridão, massas
de prata arrancadas às matrizes,
quando a minha idade estava certa — nunca
mais saberei a distância de uma palavra a outra.
Linha do tórax, macia como
o fio ao meio do coração
do casulo, seda
em bruto,
no princípio.
Assoprado louvor, de tudo.
Apertar na mão sal grosso.
Sentir a queimadura das tripas no alguidar até aos cotovelos.
Desde as unhas até às faúlhas entre os cabelos. Se a prancha
vergasse e a curva, medida vagarosamente,
de seda, o arco de baixo mármore luminoso,
fosse o que unia um pólo
a outro pólo, pontos
de força terrestre
terrível. O espaço entre os dois nomes:
eu e o mundo, mundo e poema, poema e nascimento.
Ou a morte, substantivo que raia.
Alinha verbal luzindo sob os dedos,
poderosamente no molde do mármore cosendo os órgãos
da frase de carne.
Foi-me dado uma vez, o dom, e já não sei.
Sítio ecoado noutro sítio do papel, não sei.
Rouco se o bafo de Deus lhe batia,
assim escrito: o choro.
Morte, aqui, num poema, atrás, adiante,
morte com música.
Este que chegou ao seu poema pelo mais alto que os poemas têm
chegou ao sítio de acabar com o mundo: não o quero
para o enlevo, o erro, disse,
quero-o para a estrela plenária que há nalguns sítios de alguns poerm
abruptos, sem autoria.
Esteve ali a descobrir a ríspida maneira
daquilo:
plutónio, o abismo.
A luz trabalhava à rapidez do esplendor.
Os pregos vivos pela cabeça dentro, eu sei.
Vaso feito ao vivo, soprado quente, disse, eu sei.
O sistema do som no recôndito do poema para sempre,
poema incólume, de
música e
magnificação.
Onde se fica para o delírio, na parte
alta, devorada pelo ouro, a parte inóspita.
Frequentado também pelo mais simples:
quantidade e frescura, exemplo:
as frutas embebedam.
Alguém disse: a estrela absoluta entrou pela tua suavidade.
Travessa a travessa de osso — porque eras virgem — e transmudou-te.
Filho.
A boca a doer com o bafo e o hausto.
Queimado onde se fecha a carne, ou aberto pode
dizer-se
como buraco de matéria materna.
Áspera sacaria em cima:
sacos brilhando, sacos de sangue amarrado.
1 068
Herberto Helder

Herberto Helder

V A

Dentro das pedras circula a água, sussurram,
ouve-se, ficam escuras,
frias,
tocamo-las: abalam-nos,
e os ramos de sangue dos dedos ao coração,
à cabeça,
arrefecem os nossos nomes, lento
alimento da morte.
1 048
Herberto Helder

Herberto Helder

Iv I

Sou eu, assimétrico, artesão, anterior
— na infância, no inferno.
Desarrumado num retrato em ouro todo aberto.
A luz apoia-se nos planos de ar e água sobrepostos,
e entre eles desenvolvem-se
as matérias.
Trabalho um nome, o meu nome, a dor do sangue,
defronte
da massa inóspita ou da massa
mansa de outros nomes.
Vinhos enxameados, copos, facas, frutos opacos, leves
nomes,
escrevem-nos os dedos ferozes no papel
pouco, próximo. Tudo se purifica: o mundo
e o seu vocabulário. No retrato e no rosto, nas idades em que,
gramatical, carnalmente, me reparto.
Desequilibro-me para o lado onde trabalha a morte.
O lado em como isto se cala.
939
Herberto Helder

Herberto Helder

Iv J

Arquipélago:
ar que o habita, movimento, sal, abalo.
O barulho, o verbo.
Arqueja a folha onde se funda escrito.
Na linha dos trópicos arqueja de calor e velocidades de água:
e nas frias braças da natação a pique, a morte
submarina.
573
Herberto Helder

Herberto Helder

Iv K

Com uma pêra, dou-lhe um nome de erro
entre mim e tudo, na mão, amadureço
enquanto ela se torna propícia,
amarela ao influxo do vento de estrela para estrela.
O sangue da mão ensombra a fruta na sua volta
de átomos, abala
imagem, arquitectura.
E o espaço que isto cria: a noite
aparece no ar. E dura, leve, tersa, curva,
a linha
do fogo entrecruza
os pontos paralelos: a pêra desde o esplendor,
a mão desde
o equilíbrio, os centros
do sistema geral do corpo, o buraco negro.
Morro?
Escrevo apenas, e o hausto aspira
dedos e pêra, enigma e sentido, ordem, peso, o papel onde assenta
a constelação do mundo com esse buraco
negro e as palavras em torno.
No instante extremo de
desaparecerem.
Se morro, é por exemplo.
1 115
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Que Estou Fazendo?

preciso parar de enfrentar esses corredores enlouquecidos na autoestrada enquanto
rugimos por aberturas estreitíssimas com estéreo ribombando sem parar
ao meio-dia e no entardecer e na escuridão
quando na verdade tudo que queremos é sentar em frescos jardins verdes
conversando calmamente com bebidas na mão.
o que nos faz ficar desse jeito? – unhas encravadas? – ou o fato de que as mulheres
não são suficientes? – que tolice nos faz beliscar o nariz da
Morte
continuamente?
será que temos medo do lento urinol? – ou de babar sobre ervilhas
malcozidas trazidas por uma enfermeira entediada com estúpidas
pernas grossas?
que temerário impulso estouvado nos faz pisar fundo com
uma só mão na direção?
não temos noção da paz de envelhecer
suavemente?
que maldito grito de guerra é esse?

nós somos os mais doentes da espécie – enquanto bons museus – a grande arte –
gerações de conhecimento – são todos esquecidos
enquanto vemos profundidade no fato de sermos
babacas –
vamos acabar virando
fotografias – quase em tamanho natural – penduradas
como advertência na
parede do Tribunal de Trânsito
e as pessoas vão estremecer só um pouquinho e
virar o rosto

sabendo que
ego demais não é
suficiente.
1 012
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Esqueça

agora ouça, quando eu morrer não quero nenhuma choradeira, só trate de colocar
o funeral em andamento, tive uma vida plena, e
se alguém já levou vantagem esse alguém
fui eu, vivi 7 ou 8 vidas em uma, suficiente para
qualquer um.
somos todos iguais afinal, portanto nada de discursos, por favor,
a menos que você queira dizer que ele apostava nos cavalos e era muito
bom nisso.

depois é a sua vez e eu já sei algo que você não sabe,
talvez.
1 221
Péricles Eugênio da Silva Ramos

Péricles Eugênio da Silva Ramos

Céus Nossos

Céus nossos, terra nossa,
nossa é a graça,
a graça de existir por um momento.

Chamas, ensinai-nos a lição
de iluminar morrendo.


In: RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. A noite da memória. São Paulo: Art Ed., 1988
1 140
Herberto Helder

Herberto Helder

Tinha As Mãos de Gesso. Ao Lado, Os Mal

Tinha as mãos de gesso. Ao lado, os malmequeres. Tinha as veias
por cima das cadeiras, lá no alto.
Todo o gesso no alto: os malmequeres.
Ele dormia, dormia.
Aquele homem que as letras atravessavam tinha as mãos
de gesso sobre as cadeiras.

Por cima do alto — dormia, dormia.
As letras encostadas aos telhados, e ali começava
o livro da idade com as suas rosáceas.
Os malmequeres dormiam,
dormiam nas cadeiras. E os telhados
vinham devagar encostar-se às mãos,
nas rosáceas.
No alto, no alto — ele tinha as suas veias
de gesso como o sol
branco encostado.

Perguntei-lhe: aonde vais, caçador
com o arco-íris?
E ele estava coberto de letras encostado
às rosáceas, e disse:
eu dormia, dormia — com as cadeiras
encostadas ao livro da idade,
e agora sou caçador. As minhas mãos
de gesso lá no alto.

Ele tinha malmequeres, e velava
pelos telhados cheios de letras,
e dizia: as rosáceas encostadas ao meu nome,
as cadeiras encostadas,
as mãos de gesso encostadas ao meu nome.
E eu perguntei-lhe: caçador
de arco-íris encostado, aonde vais
assim com a morte encostada ao teu nome?

Ele tinha o gesso como os malmequeres
nas mãos, e disse:
eu dormia, dormia—e eis que as letras
da idade atravessaram a minha morte.
—Aonde vais, encostado à rosácea do teu nome?
Ele tinha, e disse:
com as minhas mãos de gesso,
encostei-me agora à minha morte, no alto.
1 166
Herberto Helder

Herberto Helder

Era Uma Vez Toda a Força Com a Boca Nos Jornais:

Era uma vez toda a força com a boca nos jornais:
e vinham os mortos com sapatos leves,
roendo maçãs.
Caminhavam balouçando entre as linhas
secas dos necrológios, como
se a lua lhes tocasse nos cabelos
vivos ainda para números de semanas.
Uma vez essa força balouçando como bêbeda,
se a lua tocasse o gosto,
lançava a boca sobre o som dos sapatos leves.
E os mortos nas linhas secas, roendo
maçãs vivas, andavam pelo escuro de um nosso
pensamento. Os mortos com vestidos estampados lá dentro.
Nos jornais os cabelos viviam violentamente.

Eles sabiam de cór os países completos.
Devagar recitavam os palácios do som.
E os animais para eles eram de cimento
que a erosão lavrasse
como uma esponja tremente. Completos,
os países de cimento
recitavam o som.
Os mortos devagar lavravam animais
nos palácios violentos.

Com orelhas direitas como livros amados,
eu ouvia a chegada
das semanas fechadas no terror dos jornais.
Curvavam-se os mortos como vírgulas
na terra, e as folhas —
para dentro — eram vivas como águas
solitárias.
Nos meus livros entravam as cabeças teóricas —
e as folhas voltavam-se, terríveis,
respirando.
E eu ouvia a chegada através dos jornais.

Os leves sapatos tocavam no som:
violento, o cabelo vivia
cheio de folhas. Os mortos curvavam-se
para dentro como águas solitárias —
e de novo partiam através das linhas secas
para semanas terríveis em países
completos. E não voltavam mais
como se a lua não tocasse, balouçando
entre as linhas lavradas,
suas cabeças animais, seus teóricos
vestidos estampados para dentro.

Desapareciam nas orelhas dos jornais.
539
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Para Jane: Com Todo o Amor Que Eu Tinha, Que Não Foi Suficiente

eu pego a saia,
eu pego as contas cintilantes
em preto,
essa coisa que se movia outrora
em volta de carne,
e chamo Deus de mentiroso,
repito qualquer coisa que se movesse
daquele jeito
ou soubesse
meu nome
jamais poderia morrer
na veracidade comum da morte,
e eu pego
seu gracioso
vestido,
sua graciosidade toda se foi,
e falo
a todos os deuses,
deuses judeus, deuses de Cristo,
lascas de coisas piscantes,
ídolos, pílulas, pão,
profundidades, riscos,
rendição experiente,
ratos no molho de 2 totalmente enlouquecidos
sem chance,
conhecimento de beija-flor, chance de beija-flor,
eu me apoio nisso,
eu me apoio em tudo isso
e sei:
seu vestido em meu braço:
mas
não querem
devolvê-la pra mim.
836
Charles Bukowski

Charles Bukowski

A Travessura da Expiração

eu sou, quando muito, delicado pensamento de delicada mão
que extingue pela corda de mistura, e quando
por baixo do amor das flores estou calmo,
e a aranha bebe a hora verdejante –
batem sinos cinzentos de bebida,
que uma rã diga
uma voz morreu,
que as bestas da despensa
e os dias que odiaram isso,
as esposas contrariadas que pranteiam sem piscar,
planícies da pequena rendição
entre Mexicali e Tampa;
galinhas abatidas, cigarros fumados, pães fatiados,
e não tomem isso por tristeza torta:
coloquem a aranha no vinho,
batam nos finos lados do crânio dotados de fraco relâmpago,
façam disso menos do que um beijo traiçoeiro,
inscrevam-me na dança
vocês bem mais mortos,
sou um prato para suas cinzas,
sou um punho para seu ar.
a coisa mais imensa sobre a beleza
é vê-la desaparecida.
1 064
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Princesa da Cidade Extrema Ou a Morte Dos Ritos

Quando o palácio do rei do Estio foi invadido
Isô princesa da Cidade Extrema
Inclinou gravemente a cabeça pequena
E em seu sorriso de coral os dentes brilharam como grãos de arroz
Quando levaram sua colecção de jades
O seu leito de sândalo
O sorriso franziu sua narina fina
Suas pestanas acenaram como borboletas
Quando levaram suas jarras vermelhas seus livros de estampas
Ela continuou flexível e serena
Suas pestanas aplaudiram como leques pretos
Seus lábios recitaram a sentença antiga:
Aquele que é despojado fica livre
No lago viu-se
Ela mesma era
Flexível e brilhante como seda
Fresca e macia como jade
Colorida e preciosa como estampa
Serena como seda dormiu nessa noite sobre esteiras
Porém a aurora do tempo novo despontou na cidade
Quando ela acordou
O cortejo das mãos não acorreu
A mão que na jarra põe a flor
A mão que acende o incenso
A mão que desenrola o tapete
A mão que faz cantar a música das harpas
A longa subtil mão precisa que pinta o contorno dos olhos
A mão fresca e lenta que derrama os perfumes
Mão nenhuma invoca o espírito dos deuses
Protectores do tecto
Mão nenhuma dispõe o ritual antiquíssimo que introduz
O fogo linear do dia
Mão nenhuma traça o gesto que constrói
A forma celeste do dia
As vozes dizem:
Ergue-te sozinha
Não és ídolo não és divina
Nenhuma coisa é divina
Como seda no chão cai desprendida
Assim ela esvaída
Quando a si torna não torna à sua imagem
Tudo é abolido e bebido em repentina voragem
O colóquio dos bambus calou-se
Nem a rã coaxa
Como caule ao vento seu pescoço fino baloiça
Suas pestanas permanecem imóveis como as do cego que há milénios
Junto da ponte não vê o rio
Em seus vestidos tropeça como o cego
Suas mãos tacteiam o ar
Muito alto ouve ranger o céu
São os deuses rasgando suas sedosas bandeiras de vento
Para não ouvir o silvo dos gumes acerados
Mergulha no lago até ao lodo
Depois flutua muitos dias
No centro da corola que formam
Os seus largos vestidos espalhados
1 152
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Meu Verdadeiro Amor Em Atenas

e eu me lembro da faca,
do modo como você toca uma rosa
e sai com sangue
e como você toca o amor do mesmo modo,
e como quando você quer entrar na autoestrada
os caminhões encurralam você na pista interna
luar e rugindo
atropelando sua bravura,
fazendo você pisar no freio
e pequenas imagens surgem na sua cabeça:
imagens de Cristo pendurado lá
ou Hiroshima
ou sua última esposa
fritando um ovo.
o modo como você toca uma rosa
é o modo como você se encosta nas laterais dos caixões
dos mortos,
o modo como você toca uma rosa
e vê os mortos rodopiando de volta
por baixo das suas unhas;
a faca
Gettysburg, as Ardenas, Flandres,
Átila, Muss –
de que me serve a história
quando tudo se reduz
à sombra das três da tarde
embaixo de uma folha?
e se a mente fica atormentada
e a rosa morde
como um cão,
dizem
que temos amor...
mas de que me serve o amor
quando todos nascemos
em diferentes momentos e lugares
e só nos encontramos
através de um truque dos séculos
e três passos casuais
à esquerda?
você quer dizer que
um amor que não encontrei
é menos do que um egoísmo
que chamo de próximo?
posso dizer agora
com sangue de rosa no fundo da minha mente,
posso dizer agora enquanto rodopiam os planetas
e toneladas de força são disparadas dentro do fim do espaço
para fazer Colombo parecer uma criança idiota
posso dizer agora
que porque gritei dentro de uma noite
e não me ouviram,
posso dizer agora
que me lembro da faca
e fico sentado num quarto fresco
e esfrego meus dedos ao apito do relógio
e calmamente penso em
Ajax e escarro
e galinhas ferroviárias atravessando os trilhos dourados,
e meu verdadeiro amor está em Atenas
600
A ou D,
enquanto fora da minha janela
pombos tropeçam enquanto voam
e por uma porta
de longa espera para um quarto vazio
rosas não conseguem
entrar ou sair,
ou amor ou mariposas ou relâmpago –
eu não irromperia nem em suspiro
nem em sorriso; poderiam nadas
como mariposas ou homens
existir como luz solar laranja sobre papel
dividido por nove?
Atenas fica agora a muitas milhas
e uma morte de distância,
e as mesas estão sujas pra cacete
e os lençóis e os pratos,
mas estou rindo; isso não é real;
mas é, dividido por nove
ou cem;
roupa limpa é amor
que não se coça
e suspira.
715