Poemas neste tema

Morte e Luto

Rodrigo Carvalho

Rodrigo Carvalho

Intervenção da Morte

Consulta médica.
O ar anestesia meus pensamentos,
deixando-os livres.
Que teria eu sofrido para estar em tal lugar?
E o doutor,
de barbas brancas, — que até passava um pouco de calma, sabe?! —
anunciou o esperado:
— Tu realmente és saudável, é verdade.
Salvo tuas vísceras,
teimosas,
impondo-se em deslocar-se.
Causastes uma hérnia, vísceras danadas!
Hospital.
Exames, espera, tricotomia, espera, roupas brancas — ridículas! —
botinhas de pano, touca, cadeira-de-rodas. . .
Sala de cirurgia!
Deito-me na maca e amarram-me por inteiro.
Eletroldos, injeções, soro, bisturi, coração, anestesia. . .

. . .

Terminou?

. . .

E vem a recuperação que,
apesar de rápida,
é bastante dolorosa.
Após a cirurgia, paro e reflito.
Tenho a nítida impressão de que a morte,
é aquilo ali:
não sente-se nada;
não ouve-se nada;
não se é nada,
após os ‘bip’s’. . .

Salvador, 10 de julho de 1994

666
Herberto Helder

Herberto Helder

7

nervuras respirantes, agulhas, veios luzindo
ao longo das vozes, espaço que o som apaixona,
éter a arder, tumulto dealbado na brancura,
e desaguam ínsulas leves, penínsulas, franjas
irradiantes, vibrando
entre os paredões de luz, istmos, vísceras,
doçura malevolente, as vozes
fervendo, fervendo,
oxida-se a cabeça nas pautas rudes,
a morte, áspero enlevo, eriçamento interno,
vozes
pênseis fluorescendo, manchas carregadas de pimenta,
claras,
o écran raiado, a comburente aparição
de jardins atentos, suspeita vertical do vácuo,
vozes, jardins, de patas irracionais, avulsas,
as frias vegetações de radium,
e sobre túneis de sangue, ressurgidas em cima,
as vozes celebrando assustadoramente
979
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

A Morte

A morte vem de longe
Do fundo dos céus
Vem para os meus olhos
Virá para os teus
Desce das estrelas
Das brancas estrelas
As loucas estrelas
Trânsfugas de Deus
Chega impressentida
Nunca inesperada
Ela que é na vida
A grande esperada!
A desesperada
Do amor fratricida
Dos homens, ai! dos homens
Que matam a morte
Por medo da vida.
1 778
Herberto Helder

Herberto Helder

Canção Tártara

O rosto da minha amada cobriu-se de sangue.
A cabeça do falcão cobriu-se de sangue.
Soprou o vento e desatou-se uma madeixa de cabelo
uma madeixa o roçou, e o rosto cobriu-se de sangue.

Construí uma casa, e era tudo num sonho.
Uma casa contra o mundo.
— A ponta do meu bordão era tão frágil, tão frágil:
a noite — a nossa noite — era perigosa e alta.

Eu morro porque olhei sempre sempre o meu caminho.
Porque olhei para a direita e porque olhei para a esquerda.
Nem tu nem eu pelo tempo deixaremos
de olhar e olhar para o nosso caminho.

Transmudaram-se as águas em cavalos,
e das mãos nascia o vinho como dedos.
Bebi até ao fundo da minha dor,
e ela cresceu, cresceu, ainda mais forte que o vinho.
1 248
Bernardo Bonaval

Bernardo Bonaval

A dona que eu amo

A dona que eu amo e tenho por Senhor
amostra-me-a Deus, se vos en prazer for,
se non dade-me-a morte.
A que tenh'eu por lume d'estes olhos meus
e porque choran sempr(e) amostrade-me-a Deus,
se non dade-me-a morte.
Essa que Vós fezestes melhor parecer
de quantas sei, a Deus, fazede-me-a veer,
se non dade-me-a morte.
A Deus, que me-a fizestes mais amar,
mostrade-me-a algo possa con ela falar,
se non dade-me-a morte.
2 886
Herberto Helder

Herberto Helder

9

massas implacáveis, tensas florações químicas, fortemente
maduras, na alvorada que aparece
atrás, mortas, e no lençol de gelo
manchas bloqueadas, cortes, negras estrias,
o som, sangue, tubos de sangue, sangue
tubular, som tubular, gemem,
rudimentares, assoberbados,
os pulmões, folhagem quente,
perfura o som no ar a traqueia eruptiva,
respiração, cacho a arder nas redes finas,
jorro de lâminas,
e a morosa manhã renascente, compreendida,
rarefeita
de folhas, tumulto branco,
cancro, precipitação em brasa,
uma abertura interior latente,
barcos levam todo o álcool
lívido
sobre águas fotografadas explodindo,
a lentidão consome a carne, formigas incrustadas,
uma gota de veneno na cabeça
transparente, antenas de ouro, o doce povoamento
carnívoro, bruscamente o sono
exalta
as apuradas linhas do esquecimento, ao fundo,
batem, pulsam paisagens de uma canção
irregular, clara, onde
se treme, levemente alto, crivado
de imagens implacáveis, os pés tocando a folhagem
negra, a cabeça degolada por um esplendor obsessivo
1 002
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

A Partida

Quero ir-me embora pra estrela
Que vi luzindo no céu
Na várzea do setestrelo.
Sairei de casa à tarde
Na hora crepuscular
Em minha rua deserta
Nem uma janela aberta
Ninguém para me espiar
De vivo verei apenas
Duas mulheres serenas
Me acenando devagar.
Será meu corpo sozinho
Que há de me acompanhar
Que a alma estará vagando
Entre os amigos, num bar.
Ninguém ficará chorando
Que mãe já não terei mais
E a mulher que outrora tinha
Mais que ser minha mulher
É mãe de uma filha minha.
Irei embora sozinho
Sem angústia nem pesar
Antes contente da vida
Que não pedi, tão sofrida
Mas não perdi por ganhar.
Verei a cidade morta
Ir ficando para trás
E em frente se abrirem campos
Em flores e pirilampos
Como a miragem de tantos
Que tremeluzem no alto.
Num ponto qualquer da treva
Um vento me envolverá
Sentirei a voz molhada
Da noite que vem do mar
Chegar-me-ão falas tristes
Como a querer me entristar
Mas não serei mais lembrança
Nada me surpreenderá:
Passarei lúcido e frio
Compreensivo e singular
Como um cadáver num rio
E quando, de algum lugar
Chegar-me o apelo vazio
De uma mulher a chorar
Só então me voltarei
Mas nem adeus lhe darei
No oco raio estelar
Libertado subirei.
1 302
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Traduzido de Kleist

Dizem que no outro mundo o sol é mais brilhante
E brilha sobre campos mais floridos
Mas os olhos que vêem essas maravilhas
São olhos apodrecidos
1 591
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Os Acrobatas

Subamos!
Subamos acima
Subamos além, subamos
Acima do além, subamos!
Com a posse física dos braços
Inelutavelmente galgaremos
O grande mar de estrelas
Através de milênios de luz.

Subamos!
Como dois atletas
O rosto petrificado
No pálido sorriso do esforço
Subamos acima
Com a posse física dos braços
E os músculos desmesurados
Na calma convulsa da ascensão.

Oh, acima
Mais longe que tudo
Além, mais longe que acima do além!
Como dois acrobatas
Subamos, lentíssimos
Lá onde o infinito
De tão infinito
Nem mais nome tem
Subamos!

Tensos
Pela corda luminosa
Que pende invisível
E cujos nós são astros
Queimando nas mãos
Subamos à tona
Do grande mar de estrelas
Onde dorme a noite
Subamos!

Tu e eu, herméticos
As nádegas duras
A carótida nodosa
Na fibra do pescoço
Os pés agudos em ponta.

Como no espasmo.

E quando
Lá, acima
Além, mais longe que acima do além
Adiante do véu de Betelgeuse
Depois do país de Altair
Sobre o cérebro de Deus

Num último impulso
Libertados do espírito
Despojados da carne
Nós nos possuiremos.

E morreremos
Morreremos alto, imensamente
Imensamente alto.
Paisagem
Subi a alta colina
Para encontrar a tarde
Entre os rios cativos
A sombra sepultava o silêncio.

Assim entrei no pensamento
Da morte minha amiga
Ao pé da grande montanha
Do outro lado do poente.

Como tudo nesse momento
Me pareceu plácido e sem memória
Foi quando de repente uma menina
De vermelho surgiu no vale correndo, correndo…
1 114
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Sol de Vidro

O coração na sombra do relógio,
que será de nós, que será de vós,
as virgens passam implorando
o soldado morto na colina.

Vem de ti o rumor sem número,
pontes, archotes, o que será mais,
música e tarde para o fim,
este instante não é o soluço.

Quieto no tempo um lampião
acende as mulheres atrás dos copos,
você sempre com a mesma boca
não sei por que pressentimento
acorda, Princesa, é o sol de vidro.
2 098
Herberto Helder

Herberto Helder

10

tudo se espalha num impulso curvamente
branco, a crista aberta com silêncio
fulgurante, a imagem que agoniza,
e logo o tempo caído
num espaço sem tempo, freme
a fonte algures simultânea, e a voz
num sulco de sangue criminal,
sobre os pulmões o rítmico decalque carbonizado,
nervos queimando
a lentidão da cabeça pululante
em toda a parte, animal,
sonolência vibrante, uma auréola selvagem
sobre a febre, e pinhas
de ouro incrustadas,
inocentes, o perpassar atroz
de antigas noites saindo para as luzes
frias, de alto a baixo os órgãos doces
fendidos pela faca milagrosa, a loucura,
gota a gota se destila a droga nesta coisa viva,
a dor de ter um rosto a tremer
no mundo, entre planos de noite e planos
de luz parados sobre a agonia,
águas de Deus correm numa paisagem
geral e obsessiva, e no terror de uma brancura explosiva,
a morte ao alto, fixa


1970
507
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Balada do Cavalão

A tarde morre bem tarde
No morro do Cavalão...
Tem um poder de sossego.
Dentro do meu coração
Quanto sangue derramado!

Balança, rede, balança...

Susana deixou minha alma
Numa grande confusão
Seu berço ficou vazio
No morro do Cavalão:
Pequena estrela da tarde.

Ah, gosto da minha vida
Sangue da minha paixão!

Levou o anjo o outro anjo
Da saudade de seu pai
Susana foi de avião
Com quinze dias de idade
Batendo todos os recordes!

Que tarde que a tarde cai!

Poeta, diz teu anseio
Que o santo te satisfaz:
Queria fazer mais um filho
Queria tanto ser pai!

V oam cardumes de aves
No cristal rosa do ar.
V ontade de ser levado
Pelas correntes do mar
Para um grande mar de sangue!

E a vida passa depressa
No morro do Cavalão
Entre tantas flores, tantas
Flores tontas, parasitas
Parasitas da nação.

Quanta garrafa vazia
Quanto limão pelo chão!

Menina, me diz um verso
Bem cheio de ingratidão?
- Era uma vez um poeta
No morro do Cavalão
Tantas fez que a dor-de-corno
Bateu com ele no chão
Arrastou ele nas pedras
Espremeu seu coração
Que pensa usted que saiu?
Saiu cachaça e limão.

Susana nasceu morena
E é Mello Moraes também:
É minha filha pequena
Tão boa de querer bem!

Oh, Saco de São Francisco
Que eu avisto a cavaleiro
Do morro do Cavalão!
(O Saco de São Francisco
Xavier não chama não
Há de ser sempre de Assis:
São Francisco Xavier
É nome de uma estação)
Onde está minha alegria
Meus amores onde estão?

A casa das mil janelas
É a casa do meu irmão
Lá dentro me esperam elas
Que dormem cedo com medo
Da trinca do Cavalão.

Balança, rede, balança...
1 005
José Saramago

José Saramago

Hora

Vou no caminho esparso, à luz difusa
Do longo amanhecer: o sol não falta
Ao encontro marcado no silêncio
Da noite que se afasta.
A certeza do sol, a madrugada,
O meu corpo de terra, descoberto
Nesta rosa doirada que da morte
Traz a vida tão perto.
1 263
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Paisagem

Subi a alta colina
Para encontrar a tarde
Entre os rios cativos
A sombra sepultava o silêncio.

Assim entrei no pensamento
Da morte minha amiga
Ao pé da grande montanha
Do outro lado do poente.

Como tudo nesse momento
Me pareceu plácido e sem memória
Foi quando de repente uma menina
De vermelho surgiu no vale correndo, correndo…
1 561
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Pranto Pelo Infante D. Pedro Das Sete Partidas

(poema escrito na noite de 17-12-1961, e interrompido pela notícia da entrada dos soldados indianos em Goa)

Nunca choraremos bastante nem com pranto
Assaz amargo e forte
Aquele que fundou glória e grandeza
E recebeu em paga insulto e morte
779
Ana Marques Gastão

Ana Marques Gastão

Meteorito

O meu cérebro é um meteorito.
Vejo-o a cair do

                            C   éu

como se tivesse sido talhado
pela imaginação      mas não.

A vida é um novelo de resistências
às quais nem a minha mão
nem os meus olhos se adaptam.

O novelo é um nó
o nó é um laço
uma cruz      um traço
terrivelmente
soberano.

Desato-o, desmancho-o,
com ele reato o acto
o mesmo acto-pacto
alado rasgado amado.

E é como se ouvisse o Anjo
e a sua voz inaudível
nas pedras do caminho.

Desenho então,
assim me estendam
os braços,
o círculo      a coroa,
a cintura nua, a lua
e o nome de Helena
ou Karenina, Ana,
Ariana – esse regresso
da morte
entre a mão e o espírito.
854
Rodrigo Carvalho

Rodrigo Carvalho

Lamento Derradeiro

à meu Pai
Salvador. Tarde de 5 de janeiro.
Brinco, excercendo o ofício da minha infância.
Curta.
Meu pai, nessa hora, junto a mim morria. . .
sem um gemido, como que se fosse feito e prometido.

E eu nem lhe ouvi o lamento derradeiro.
Quando acordei, sonhei que ele dormia,
mas o pranto fraterno desmentia. . .

E saí para ver a Santa natureza.
Em tudo, o mesmo tom cinzento.
Capitalismo selvagem das capitais.
Era só o cinza daquela selva de pedras.
Nem uma nuvem no céu.
Branca.

Mas, pareceu-me entre as estrelas flóreas,
como ti, num carro repleto de glórias,
ver tua alma subindo aos céus.

Por ti, penar é a certeza do amor.
Por ti, suplicar aos pés do Onipotente,
em preces comoventes. . .
e depois, remir meus desejos.

Volta!

849
José Saramago

José Saramago

Dispostos Em Cruz

Dispostos em cruz desfeitos em cruz
Em cada caminho três portas fechadas
Um vento de faca um resto de luz
O espanto da morte nas águas cortadas
Um corpo estendido um ramo de frutos
Um travo na boca da boca do outro
O branco dos olhos o negro dos lutos
O grito o relincho e o dente do potro
As feridas do vento as portas abertas
Os cantos da boda no ventre macio
As notas do canto nas linhas incertas
E o lago do sangue ao largo do rio
O céu descoberto da nuvem da chuva
E o grande arco-íris na gota de esperma
O espelho e a espada o dedo e a luva
E a rosa florida na borda na berma
E a luz que se expande no pino do verão
E o corpo encontrado no corpo disperso
E a força do punho na palma da mão
E o espanto da vida na forma do verso
1 203
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Velório Rico

O morto está sinistro e amortalhado
Rodeado de herdeiros inquietos como sombras
Que atormentam o ar com seus pecados
1 276
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Quatro Sonetos de Meditação

I

Mas o instante passou. A carne nova
Sente a primeira fibra enrijecer
E o seu sonho infinito de morrer
Passa a caber no berço de uma cova.

Outra carne vírá. A primavera
É carne, o amor é seiva eterna e forte
Quando o ser que viver unir-se à morte
No mundo uma criança nascerá.

Importará jamais por quê? Adiante
O poema é translúcido, e distante
A palavra que vem do pensamento

Sem saudade. Não ter contentamento.
Ser simples como o grão de poesia.
E íntimo como a melancolia.


II

Uma mulher me ama. Se eu me fosse
Talvez ela sentisse o desalento
Da árvore jovem que não ouve o vento
Inconstante e fiel, tardio e doce.

Na sua tarde em flor. Uma mulher
Me ama como a chama ama o silêncio
E o seu amor vitorioso vence
O desejo da morte que me quer.

Uma mulher me ama. Quando o escuro
Do crepúsculo mórbido e maduro
Me leva a face ao gênio dos espelhos

E eu, moço, busco em vão meus olhos velhos
Vindos de ver a morte em mim divina:
Uma mulher me ama e me ilumina.


III

O efêmero. Ora, um pássaro no vale
Cantou por um momento, outrora, mas
O vale escuta ainda envolto em paz
Para que a voz do pássaro não cale.

E uma fonte futura, hoje primária
No seio da montanha, irromperá
Fatal, da pedra ardente, e levará
À voz a melodia necessária.

O efêmero. E mais tarde, quando antigas
Se fizerem as flores, e as cantigas
A uma nova emoção morrerem, cedo

Quem conhecer o vale e o seu segredo
Nem sequer pensará na fonte, a sós...
Porém o vale há de escutar a voz.


IV

Apavorado acordo, em treva. O luar
É como o espectro do meu sonho em mim
E sem destino, e louco, sou o mar
Patético, sonâmbulo e sem fim.

Desço na noite, envolto em sono; e os braços
Como ímãs, atraio o firmamento
Enquanto os bruxos, velhos e devassos
Assoviam de mim na voz do vento.

Sou o mar! sou o mar! meu corpo informe
Sem dimensão e sem razão me leva
Para o silêncio onde o Silêncio dorme

Enorme. E como o mar dentro da treva
Num constante arremesso largo e aflito
Eu me espedaço em vão contra o infinito.

Oxford, 1938
1 187
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Canção

Não leves nunca de mim
A filha que tu me deste
A doce, úmida, tranqüila
Filhinha que tu me deste
Deixe-a, que bem me persiga
Seu balbucio celeste.
Não leves; deixa-a comigo
Que bem me persiga, a fim
De que eu não queira comigo
A primogênita em mim
A fria, seca, encruada
Filha que a morte me deu
Que vive dessedentada
Do leite que não é seu
E que de noite me chama
Com a voz mais triste que há
E pra dizer que me ama
E pra chamar-me de pai.
Não deixes nunca partir
A filha que tu me deste
A fim de que eu não prefira
A outra, que é mais agreste
Mas que não parte de mim.
1 347
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Os Aviões

Na noite de luar o avião passa como um prodígio
Rápido inofensivo e violento

Ele enche de clamor o sossego branco dos muros onde moro
Ele enche de espanto
O halo azul da noite exterior

Mas depressa passa o pássaro vibrante
De novo tomba a lua sobre as flores
E o cipreste contempla o seu próprio silêncio

Porém noutro lugar noutro silêncio
Bandos passaram em voos de terror
E a morte nasceu dos ovos que deixaram

A lua não encontrou depois as flores
Ninguém morava dentro dos muros brancos
E a noite em vão buscava o seu cipreste
1 701
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Lápide de Sinhazinha Ferreira

A vida sossega
Lírios em repouso
Adormecestes cega
Na visão do esposo.

A paixão é pouso
Que a treva não nega
A morte carrega
E o sono dá gozo.

Não vos vejo em paz
Nem vos penso bem
Na minha saudade.

Sinto que vagais
Ao lado de alguém
Pela eternidade.
1 144
João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

Alguns Toureiros

Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.

Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.

Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.

E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.

Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,

o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,

o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,

o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida.
1 813