Poemas neste tema

Morte e Luto

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Morto de Mênfis

A arma branca
e o alvo preto
não cabem
no soneto.

A mão
que move o fuzil
destrói o til
da canção.

Fica no ar
o som
do verbo matar.

Na varanda, sem cor,
os restos
do amor.

Nos vergéis da justiça
o sol faísca
sobre carniça.

O ódio e seu olho
telescópico
formam um demônio
ubíquo.

Seu nome, Legião.
Não
perdoa a vida.
Onde a vida brota
seu talo verde,
ele vai e corta.

Onde a vida fala
sua esperança,
ele crava a lança,

borda o epitáfio:
Aqui jaz,
desossada, a paz.

Na linha de cor,
na linha de dor,
na linha de horror

da caçada,
a mata é basculante
de banheiro; mais nada.

(Ou janela debruçada
sobre o carro.
Caça ou curra?)

O homem não se reconhece
no semelhante.
O homem anoitece.

O que mais o assusta,
o que mais o ofende
é a luz vasta.

O homem ignora
tudo que já sabe.
E não chora.

Sua intenção
é matar-se na morte
do irmão?

É negar o irmão
e seguir sozinho,
seco, surdo, torto
espinho?

As artes, os sonhos
dissipam-se no projeto
medonho.

Mas renascem. De lágrimas,
pânico, tortura,
emerge a vida pura,

em sua fraqueza
mais forte que a força,
mais força que a morte.

A raiz do homem
vai tentar de novo
o ato de amar.

Vai recomeçar,
Vai continuar.
Continuar.

O morto de Mênfis
continua a amar.
Ninguém mais o pode
matar.
12/04/1968
1 219
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Na Escada Rolante

do Edifício Avenida Central, ao voltar da livraria onde encontrei o exemplar no 9 de 10 poemas em manuscrito, editado por João Condé em 1945, com ilustrações de Portinari, Santa-Rosa e Percy Deane e textos de Cecília Meireles, Augusto Meyer, Manuel Bandeira, Augusto Frederico Schmidt, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Abgar Renault, Mário de Andrade, Vinícius de Morais e o autor desta cantiguinha joco-nostálgica.

Destes dez, já não vivem dois.
Quedê Mário, Macunaíma?
Estás no céu, Jorge de Lima?

Dos pintores, um só nos resta.
Candinho e Santa, pelo cosmo,
estarão fazendo seresta?

Pois ficamos nós. Protegei-nos
nossa, de olhos verdes, Cecília,
que sois a verde maravilha.

Caro Vinícius, tem cautela,
e, marinheiro, poupa o casco
de teu airoso barco a vela.

Longe Murilo, eis que de Roma
teu verso chega, e sou romano
ao menos uma vez por ano.

O mano Abgar, este se esconde.
Faz muito bem. É em segredo
que se goza de paz avonde.

Augusto Meyer, porcelana
que deixa filtrar o crepúsculo:
o coração é flor ou músculo?

De Schmidt contam-nos as folhas
mais e melhor que a cantilena
desta mal informada pena.

Manuel, a estrela matutina
e a da tarde brilham igual?
Viver em luz é tua sina.

No mais, o poeta sem poesia,
de invisível texto paleógrafo,
aqui rabisca novo autógrafo.

Éramos dez em manuscrito.
Oito, carregamos no alforje
a saudade de Mário e Jorge.

Que lá perpetuam um livrinho
só deles, com Santa e Candinho.
25/05/1963
1 169
João Airas de Santiago

João Airas de Santiago

Ai Justiça, Mal Fazedes, Que Nom

Ai Justiça, mal fazedes, que nom
queredes ora dereito filhar
de Mor da Cana, porque foi matar
Joan'Airas, ca fez mui sem razom;
mais se dereito queredes fazer,
ela sô el devedes a meter,
ca o manda o Livro de Leon.

Ca lhi queria gram bem, e des i
nunca lhi chamava senom senhor;
e quando lh'el queria mui milhor,
foi-o ela logo matar ali;
mais, Justiça, pois tam gram torto fez,
metede-a já sô el ũa vez,
ca o manda o dereito assi.

E quando mais Joan'Airas cuidou
que houvesse de Mor da Cana bem,
foi-o ela logo matar por en,
tanto que el em seu poder entrou;
mais, Justiça, pois que assi é já,
metam-na sô el, e padecerá
a que o a mui gram torto matou.

E quen'os ambos vir jazer, dirá:
- Beeito seja aquel que o julgou!
663
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Festa

I — CARNAVAL 1969

A festa acaba impreterivelmente às 4 da matina,
mas se houver vaia
continuará até as 5.
Wilza Carla de ovos de ouro distribui pintos de prata
à distinta comissão julgadora
indecisa entre Tason, o ídolo de Marfim
e Eleonora de Aquitânia à la tour abolie.
Helena entra a cavalo.
Pode não, pode não, cavalo não é paetê.
Prego! pregou na hora e vez de desfilar.
Minuto de silêncio corta o samba
em duas fatias doloridas de nunca mais.
Naval navega onde que não vejo?
70 PMs, 40 detetives especializados
engrossam o Golden Room do Copa.
Ford e Veruschka, o Poder e a Glória,
dividem entre si o terceiro mundo,
mas resta sempre um quarto, um quinto, um
solivagante Eu Sozinho a carregar
todo o peso da graça antiga na Avenida.
Boneco gigante prende o passarinho na gaiola,
embaixo o letreiro: SOL E ALEGRIA.
Salgueiro ao sol
abafa no atabaque e na harmonia.
A gata de vison arranha a bela
acordada nos bosques de Portela.
Dante já não escreve: assiste
à divina comédia de Bornay.
Machado de Assis segue no encalço
de Capitu metida num enredo
mano a mano com Gabriela amor-amado.
Turistas fantasiados de
turista
em vão tentam galgar o olimpo das bancadas.
Pau comeu.
400 músicas gravadas,
6 ou 7 cantadas,
52 mortos em desastre,
17 homicídios,
suicídios 5,
2 fetos,
355 menores apreendidos,
400 garis a postos
para varrer o lixo da alegria.
É cedo, espera um pouco; Chave de Ouro,
festa depois da festa, enfrenta o gás
e o cassetete.
Júri soberano,
os grandes derrotados te saúdam.
Júri safado,
premiou fantasia do baile de 1920.
Pobre júri de escolas,
20 horas, 20 anos indormidos.
A noite cobre a noite do desfile
interminável qual fio de navalha
e deixa cair a peteca.
Que é que eu vou, que é que eu vou dizer em casa?
Levanta a cabeça,
já não precisas dizer nada.
A moça no pula-pula do salão
perdeu o umbigo.
Quem encontrar favor telefonar,
será gratificado.
Bem disse Nana Caymmi: Carnaval
me dá falta de ar.
E resta um bafo da onça na calçada

junto a um confete roxo e um pareô
sem corpo, nu e só, ô ô ô ô.
23/02/1969
II — CARNAVAL 1970

Quatrocentas mil pessoas fogem do Rio
duzentas mil pessoas correm para o Rio
inclusive travestis, que um vale por dois.
A festa assusta e atrai, a festa é festa
ou um raio caindo na cidade?

Que peste passou no ar e foi matando
formas simples de vida costumeira?
A cidade morreu nos escritórios,
nas indústrias, nas lojas. Bairros inteiros
petrificados em mutismo. Janelas
trancadas em protesto ou submissão.
A cidade explode nos clubes
cantansambando
sambatucando
vociferapulando.
Estoura no asfalto em flores furta-cores girandólias
entre florestas metálicas batendo palmas e vaiando
entre postes fantasiados e vinte mil policiais.
Explode meu Rio e sobe,
até a Lua vai a nave da rua
e sambaluando exala em quatro noitidias
queixumes recalcados o ano inteiro.

A decoração desta cidade
eram mares, montanhas e palmeiras
convivendo com gente.
Acharam pouco. Há muitos anos
acrescentam-se bonecos de plástico, sarrafos
em fila processional sobre as cabeças,
brincando no lugar dos que não brincam
ou mandando brincar, ordem turística.

E meu Rio bordado de palhaço
brincou na pauta, brincou fora da pauta.
Brincar é seu destino, ainda quando
há desrazões de ser feliz,
ou por isso mesmo, quem entende?
(Quem quiser que sofra em meu lugar.)
E repetiu os gestos, renovando-os
um após outro, como se este fosse
o carnaval primeiro sobre a Terra
ou o último carnaval, adeus adeus.

E foram todos
ao primo baile
do Municipal
e os ouropéis
das fantasias
monumentais
ninguém sonhara
tão divinais
e as escolas
de samba autêntico
(menos ou mais)
nunca estiveram,
caros ouvintes,
tão geniais.
Meu Deus, acode,
este samba é demais.

Na tribuna computadores críticos
analistas, objetivos: “Não foi bem assim.
A bateria deixou a desejar.
Aquele prêmio? Plágio de plágio
de 58 (veja nos arquivos).
Faltou isso & aquilo, faltou garra,
faltou carnaval ao carnaval”.
Ah, deixa falar, deixa pra lá.
Deixa o cavo coveiro resmungar
que há longo tempo o grande Pan morreu.
No bafo da festa da onça
na vibração da pluma do cacique
no rebolado de Dodô Crioulo
no treme-treme de bloco frevo rancho
na bandeira branca da paz e mais amor,
todo carnaval
é o bom é o bom é o bom.

E ficou barato o pagode, meu compadre?
Oh, quase nada: todos os enfeites
não chegam a um milhão e meio de cruzeiros
novos: contas radiantes de colar
no colo da cidade à beira-mar.
E quem fez os coretos do subúrbio?
Foi o subúrbio mesmo, na pobreza
sem paetê, que finge de brincar
na distância, no ermo e profundeza
de buracos de estrada por tapar.

Mas deixa pra lá, deixa falar
a voz da Penha, de Madureira e Jacarepaguá.
O carnaval é sempre o mesmo e sempre novo
com turista ou sem turista
com dinheiro ou sem dinheirocom máscara proibida e sonho censurado
máquina de alegria montada desmontada,
sempre o mesmo, sempre novo
no infantasiado coração do povo.
12/02/1970
2 437
Edimilson de Almeida Pereira

Edimilson de Almeida Pereira

Magnificat

Porque não há ofício
espero desaparecer.
O vão desejado
poreja
(para aquele tempo,
talvez)
não para a secura
que implode a memória.

O céu virá limpo,
depois.

1 052
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Nem Sempre Funciona

conheci um escritor uma vez
que sempre tentava enxugar suas frases

tipo ele escrevia:
um velho com chapéu de feltro verde caminhava pela
rua.

mudava para:
um velho de verde caminhava na rua.

mudava para:
um velho verde caminhava na rua.

mudava para:
velho verde caminhava.

mudava para:
verde caminhava.

por fim esse escritor dizia
merda, não consigo peidar,
e ele explodia o próprio
cérebro.

explodia próprio cérebro.

explodia cérebro.

explodia.
1 094
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Árvore Genealógica

nada de mais na minha árvore genealógica, bem, houve o meu tio
John, procurado pelo F.B.I., me pegaram primeiro.
Vovô Leonard, no meu lado paterno, ficava muito
amável quando bebia, elogiava todo mundo, distribuía dinheiro,
chorava copiosamente pela condição humana, mas quando ficava
sóbrio se dizia dele que era uma das criaturas mais
ruins jamais vistas, escutadas ou evitadas.
não muito mais exceto Vovô Willy no meu lado
materno (lá na Alemanha): “Ele era um homem amável,
Henry, mas tudo que queria fazer era beber e tocar seu
violino, ele tocava tão bem, ele tinha um ótimo
emprego numa orquestra sinfônica de primeira mas o
perdeu por causa da bebida, ninguém queria contratá-
lo, mas ele era bom com o violino, ele ia para os cafés
e pegava uma mesa e tocava seu violino, botava o chapéu
sobre a mesa de cabeça pra baixo e as pessoas colocavam um
monte de dinheiro dentro mas ele continuava comprando bebida e
tocando o violino e logo passou a não tocar tão bem
assim e pediam que ele saísse mas na noite
seguinte ele encontrava outro café, outra mesa, ele
escrevia sua própria música e ninguém conseguia tocar violino
como ele conseguia.
Ele morreu certa noite na mesa, largou o
violino, tomou a bebida, deitou a cabeça na mesa e
morreu”.
bem, houve o meu tio Ben, ele era tão bonito que
assustava, ele era bonito demais, ele simplesmente fulgurava,
não dava para acreditar e aquilo não passava, tudo que ele
podia fazer a respeito era sorrir e acender outro cigarro
e encontrar outra mulher para sustentá-lo e consolá-lo, e
depois encontrar outra mulher para fazer o mesmo, e depois encontrar
outra.
ele morreu de tuberculose num sanatório nas colinas, o maço de
cigarros embaixo do travesseiro, morto ele sorria, e em seu
enterro 2 dúzias das mais lindas mulheres de Pasadena,
Glendale e Echo Park choraram
desavergonhadamente enquanto meu pai o xingava no caixão: “Seu
filho da puta desgraçado, você nunca trabalhou um único dia na
vida!”.

meu pai, é claro, foi um que eu nunca consegui decifrar –
quero dizer, como é que ele pode ter conseguido entrar na árvore
genealógica.
mas eu estava me sentindo bastante bem até aqui, mal pode haver
algum proveito em fazer disso aqui um poema depressivo.

bem, às vezes você ganha um macaco estranho num galho e tudo que você
pode fazer é perdoar se puder e esquecer, se possível,
e se nem uma nem outra coisa adiantar, então pense nos outros
e saiba que ao menos parte do seu sangue tem alguma
esperança.
1 229
Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo

Dedicatória

Prefiro a paciente
proeza das traças,

meu caquético rapaz,
aos versinhos

bem traçados
dos quais

te mostras capaz
(assépticos e sérios

como os de
ninguém mais).

Ah! Ler-te é
penetrar na paz

dos cemitérios.
Pelo modo como caminhas,

nota-se que ainda
respiras, mas

já entreleio,
junto aos títulos

dos teus livros,
os dois precisos

vocábulos
("Aqui jaz")

com que, um dia,
te saudarão os vivos.
487
José Saramago

José Saramago

Passa No Pensamento

Passa no pensamento a passo
Um animal cavalo
Em vez de laço e pasto a foice
Na venta trespassada
Enquanto o braço abusa do cansaço
Do cavalo animal à chicotada
Entre as pernas do bicho a cicatriz
Que o animal não quis
E a pata almofadada de modo que não sofra
A pedra da calçada
E sentadas nas bermas as velhas abrem coxas
Entre as coxas cabeças decepadas
Com as línguas de fora escarnecentes
E tenazes nos dentes
A rua tem donzelas nas janelas
Que é esse o lugar delas
Enquanto o animal torce o pescoço
A ver se cai a urna que transporta
E não cabe na porta
Levantaram-se as velhas dos passeios
As cabeças rolaram penduradas
Da tripa umbilical
As donzelas taparam as orelhas
E mostraram os seios
Ao cavalo animal
Numa bandeja de prata
Uma menina de branco
Cinta de fina escarlata
Traz o membro do cavalo
Enquanto o morto descansa
Vão buscá-lo
978
Herberto Helder

Herberto Helder

Poemas Arabico-Andaluzes - Bolhas

Troca-me a prata peio oiro do vinho — digo eu ao copeiro. — Dá-me vinho
novo.

Vinho para a minha dor. E logo ao cimo sobrenadam, como espuma, as
bolhas:

brancos dedos de um bebedor petrificado, na mão retendo eternamente a sua
taça.
976
Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo

Elsie sings the

Elsie  Houston
morre no fim:
pílulas para dor-
mir. Mas a voz
dela escapa do

corpo sem vida
dela na forma
de um som
de cor tão cla-
rescura e rara

(Uirapuru no
breu da jângal
– ou sereia
no fundo do
mar – cantan-

do só para nin-
guém ouvir)
que ouvi-la
agora será per-
correr com

ela uma longa
trilha ao revés
(e de reveses
) até a gar-
ganta da qual

naquele vinte
do dois de mil
novecentos e
quarenta e três
ela escapará
698
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Versos Negros (Mas Nem Tanto)

Ao levantar, muito cuidado, amigo.
Não ponha os pés no chão. Corre perigo
se há nylon no tapete: ele dá câncer.

Pise somente no ar, mas com cautela.
Uma pesquisa sábia nos revela
esta triste verdade: o ar dá câncer.

À hora do café, não seja pato,
pois tanto açúcar como ciclamato
e xícara e colher, sorry: dão câncer.

O banho de chuveiro? Não tomá-lo.
O de imersão, também. Sinto informá-lo
do despacho londrino: água dá câncer.

Não se vista, meu caro ou minha cara.
Um cientista famoso eis que declara:
na roupa, qualquer roupa, dorme o câncer.

A nudez, por igual, não recomendo,
a fim de prevenir um mal tremendo:
sábado se apurou que o nu dá câncer.

Rumo ao batente, agora. Antes, porém,
permita que eu indague: o amigo tem
um carrinho? Que azar. Carro dá câncer.

E coletivo, nem se fala. Em massa
aumenta a perspectiva de desgraça.
No ônibus, no avião, viaja o câncer.

Invente um novo meio de transporte
para ir ao trabalho, e não à morte…
Mas sabe que o trabalho já dá câncer?

Isso mesmo: afirmou-me com certeza
uma nega com o nome de Teresa
que dar duro é uma fábrica de câncer.

Pare de trabalhar enquanto é tempo!
Mas evite o lazer, o passatempo,
que no jardim da folga nasce o câncer.

Dormir? Talvez. Ou antes, nem pensar.
Em sonho, pelo que ouço murmurar,
é quando mais solerte chega o câncer.

O amor, então, é a grande solução?
Amor, fonte de vida… Essa é que não.
Amor, meu Deus, amor é o próprio câncer.

Viva, contudo, sem ficar nervoso,
mas sabendo que é muito perigoso
(lá disse o Rosa) e que viver dá câncer.

Já que você nasceu… Ah, não sabia
deste resumo da sabedoria?
Nascer, mero sinônimo de câncer.

Resta morrer, por precaução? Nem isto.
Veja, no céu, o aviso trismegisto:
no mundo de hoje, até morrer dá câncer.

Viva, portanto, amigo. Viva, viva
de qualquer jeito, na esperança viva
de que o câncer há de morrer de câncer.

Ou morrerá — melhor — pela coragem
de enfrentarmos o horror desta linguagem
que faz do câncer dor maior que o câncer.

Pois se souber do trágico brinquedo
que é ver câncer em tudo desta vida,
o câncer vai morrer — morrer de medo.
15/11/1969
660
Zulmira Ribeiro Tavares

Zulmira Ribeiro Tavares

Surfista

Tinha o corpo pronto para fazer filhos
e surfar a grande.
Não lhe guardei o nome. Era um homem

de ancas estreitas e ombros largos.
O seu peito arrostava os repelões do ar.
Não perdia o equilíbrio

e a musculatura o trazia
a um palmo acima da água.
Tanta força e destreza
vinham-lhe do arcabouço exato.

Veloz, impunha respeito às gaivotas.
Elas não lhe batiam no crespo da cabeça
de caracóis duros como os das estátuas.

Era um homem feito
e sabia o quanto. Ele pensava

a sua descendência de ouro.
Esperma e espuma fosforesciam na noite.

O surfista corria pelo escuro do mar
sonhando novos obstáculos –
o olhar esperto e vigilante.

Golpeado por um impulso a contrapelo
– vagalhão sem lei –
a prancha partiu-se em dois
e os urubus lhe abriram espaço
no céu das gaivotas.

Da praia sua descendência se desata
no raso da vazante – maré vazia.
717
Francisco de Vasconcelos

Francisco de Vasconcelos

À Fragilidade da Vida Humana

Esse baixel nas praias derrotado
Foi nas ondas Narciso presumido;
Esse farol nos céus escurecido
Foi do monte libré, gala do prado.

Esse nácar em cinzas desatado
Foi vistoso pavão de Abril florido;
Esse estio em vesúvios encendido
Foi Zéfiro suave em doce agrado.

Se a nau, o sol, a rosa, a Primavera
Estrago, eclipse, cinza, ardor cruel
Sentem nos auges de um alento vago,

Olha, cego imortal, e considera
Que és rosa, primavera, sol, baixel,
Para ser cinza, eclipse, incêndio, estrago.
1 193
Murillo Mendes

Murillo Mendes

Estudo Nº 6

Tua cabeça é uma dália gigante que se desfolha nos meus braços.
Nas tuas unhas se escondem algas vermelhas,
E da árvore de tuas pestanas
Nascem luzes atraídas pelas abelhas.
Caminharei esta manhã para teus seios:
Virei ciumento do orvalho da madrugada,
Do tecelão que tece o fio para teu vestido.
Virei, tendo aplacado uma a uma as estrelas,
E, depois de rolarmos pela escadaria de tapetes submarinos,
Voltaremos, deixando madréporas e conchas,
Obedecendo aos sinais precursores da morte,
Para a grande pedra que as idades balançam à beira-nuvem.
2 065
Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo

BISPO DO ROSÁRIO

quem fez e refez
cem vezes o

caminho do mundo
até antes

cem vezes na
cabeça o longo

trecho entre o
mar e o

céu
quem re fez o

caminho da perda
com seu manto

de
ver deus filho.
707
Saturnino de Meireles

Saturnino de Meireles

Tédio

Tudo se acaba aos nossos olhos perto
Numa brancura que de ver nos cansa,
Como se então de névoas um deserto
Se abrisse assim sem luz nem esperança.

E nessa névoa que nos deixa incerto
E num abismo sem sentir nos lança,
Como se o olhar se visse então coberto
Sentimos se apagar nossa lembrança.

Sentimos um torpor indefinido,
Um vago sentimento adormecido
Como da morte as frias mãos felinas.

E nesse triste desalento infindo
De todo o céu sentimos ir fluindo
Neblinas e neblinas e neblinas...

993
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Ix. Morte do Cigano

Brancas as paredes viram como se mata
Viram o brilho fantástico da faca
A sua luz de relâmpago e a sua rapidez.
1 713 1
João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

Autobiografia de um só dia

No engenho poço não nasci:
minha mãe, na véspera de mim,

veio de lá para a Jaqueira,
que era onde, queiram ou não queiram,

os netos tinham de nascer,
no quarto-avós, frente à maré.

Ou porque chegássemos tarde
(não porque quisesse apressar-me,

e se soubesse o que teria
de tédio à frente, abortaria)

ou porque o doutor deu-me quandos,
minha mãe no quarto-dos-santos,

misto de santuário  e capela,
lá dormiria, até que para ela,

fizessem cedo no outro dia
o quarto onde os netos nasciam.

Porém em pleno céu de gessos,
naquela madrugada mesmo,

nascemos eu e minha morte,
contra o ritual daquela corte

que nada de uma homem sabia:
que ao nascer esperneia, grita.

Parido no quarto-dos-santos,
sem querer, nasci blasfemando,

pois são blasfêmias sangue e grito
em meio à feririce de lírios,

mesmo se explodem (gritos, sangue),
de chácaras entre marés, mangues.
859
José Saramago

José Saramago

Elegia À Moda Antiga

Nem tão tarde que me farte
Nem que me raive de cedo
Quando o mundo não tiver
Nada mais por descobrir
Quando o amor se acabar
Morra com ele o desejo
De ficar a ver as sobras
Os restos da vida cheia
Parado à beira do rio
Onde as águas não descansam
No outro lado milagres
E margens verdes eternas
Enterro os dedos no lodo
Quatrocentas gerações
Um grande sonho pairando
Enquanto o céu se carrega
Ai o destino dos homens
Ai o destino de mim
Corta-se a voz ao para encontrar
Consolo só no fim
1 082
José Saramago

José Saramago

Digo Pedra

Digo pedra, esta pedra e este peso,
Digo água e a luz baça de olhos vazos,
Digo lamas milenárias das lembranças,
Digo asas fulminadas, digo acasos.
Digo terra, esta guerra e este fundo,
Digo sol e digo céu, digo recados,
Digo noite sem roteiro, interminada,
Digo ramos retorcidos, assombrados.
Digo pedra no seu dentro, que é mais cru,
Digo tempo, digo corda e alma frouxa,
Digo rosas degoladas, digo a morte,
Digo a face decomposta, rasa e roxa.
1 255
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

A Última Elegia (V)

O ROOFS OF CHELSEA

Greenish, newish roofs of Chelsea
Onde, merencórios, toutinegram rouxinóis
Forlornando baladas para nunca mais!
Ó imortal landscape
no anticlímax da aurora!
ô joy for ever!
Na hora da nossa morte et nunc et semper
Na minha vida em lágrimas!
uer ar iú
Ó fenesuites, calmo atlas do fog
Impassévido devorador das esterlúridas?
Darling, darkling I listen...
“... it is, my soul, it is
Her gracious self...”
murmura adormecida
É meu nome!...
sou eu, sou eu, Nabucodonosor!
Motionless I climb

the water pipes
Am I a Spider?
Am I a Mirror?
Am I an X Ray?

No, I’m the Three Musketeers
rolled in a Romeo.
Vírus
Da alta e irreal paixão subindo as veias
Com que chegar ao coração da amiga.
Alas, celua
Me iluminou, celua me iludiu cantando
The songs of Los; e agora
meus passos
são gatos
Comendo o tempo em tuas cornijas
Em lúridas, muito lúridas
Aventuras do amor mediúnico e miaugente...
So I came
— from the dark bull-like tower
fantomática
Que à noite bimbalha bimbalalões de badaladas
Nos bem-bons da morte e ruge menstruosamente sádica
A sua sede de amor; so I came
De Menaipa para Forox, do rio ao mar — e onde
Um dia assassinei um cadáver aceso
Velado pelas seis bocas, pelos doze olhos, pelos centevinte dedos
espalmados
Dos primeiros padres do mundo; so I came
For everlong that everlast — e deixa-me cantá-lo
A voz morna da retardosa rosa
Mornful and Beátrix
Obstétrix
Poésia.
Dost thou remember, dark love
Made in London, celua, celua nostra
Mais linda que mare nostrum?
quando early morn’
Eu vinha impressentido, like the shadow of a cloud
Crepitante ainda nos aromas emolientes de Christ Church meadows
Frio como uma coluna dos cloisters de Magdalen
Queimar-me à luz translúcida de Chelsea?
Fear love...
ô brisa do Tâmisa, ô ponte de Waterloo, ô
Roofs of Chelsea, ô proctors, ô preposterous
Symbols of my eagerness!
— terror no espaço!
— silêncio nos graveyards!
— fome dos braços teus!
Só Deus me escuta andar...
— ando sobre o coração de Deus
Em meio à flora gótica... step, step along
Along the High... “I don’t fear anything
But the ghost of Oscar Wilde...” ...ô darlingest
I feared... a estação de trens... I had to post-pone
All my souvenirs! there was always a bowler-hat

Or a policeman around, a stretched one, a mighty
Goya, looking sort of put upon, cuja passada de cautchu
Era para mim como o bater do coração do silêncio (I used
To eat all the chocolates from the one-penny-machine
Just to look natural; it seemed to me que não era eu
Any more, era Jack the Ripper being hunted) e suddenly
Tudo ficava restful and warm... — o sííííííííí
Lvo da Locomotiva — leitmotiv — locomovendo-se
Through the Ballad of Reading Gaol até a visão de
Paddington (quem foste tu tão grande
Para alevantares aos amanhecentes céus de amor
Os nervos de aço de Vercingetórix?). Eu olharia risonho
A Rosa dos Ventos. S. W. Loeste! no dédalo
Se acalentaria uma loenda de amigo: “I wish, I wish
I were asleep”. Quoth I: — Ô squire
Please, à Estrada do Rei, na Casa do Pequeno Cisne
Room twenty four! ô squire, quick, before
My heart turns to whatever whatsoever sore!
Há um grande aluamento de microerosíferos
Em mim! ô squire, art thou in love? dost thou
Believe in pregnancy, kindly tell me? Ô
Squire, quick, before alva turns to electra
For ever, ever more! give thy horses
Gasoline galore, but to take me to my maid
Minha garota — Lenore!
Quoth the driver: — Right you are, sir.

*

O roofs of Chelsea!
Encantados roofs, multicolores, briques, bridges, brumas
Da aurora em Chelsea! ô melancholy!
“I wish, I wish I were asleep...” but the morning
Rises, o perfume da madrugada em Londres
Makes me fluid... darling, darling, acorda, escuta
Amanheceu, não durmas... o bálsamo do sono
Fechou-te as pálpebras de azul... Victoria & Albert resplende
Para o teu despertar; ô darling, vem amar
À luz de Chelsea! não ouves o rouxinol cantar em Central Park?
Não ouves resvalar no rio, sob os chorões, o leve batel
Que Bilac deitou à correnteza para eu te passear? não sentes
O vento brando e macio nos mahoganies? the leaves of brown
Came thumbling down, remember?
“Escrevi dez canções...
...escrevi um soneto...
...escrevi uma elegia...”
Ô darling, acorda, give me thy eyes of brown, vamos fugir
Para a Inglaterra?
“...escrevi um soneto...
... escrevi uma carta...”
Ô darling, vamos fugir para a Inglaterra?
...“que irão pensar
Os quatro cavaleiros do Apocalipse...”
“...escrevi uma ode...”
Ô darling!
Ô pavements!
Ô roofs of Chelsea!
Encantados roofs, noble pavements, cheerful pubs, delicatessen
Crumpets, a glass of bitter, cap and gown... — don’t cry, don’t cry!
Nothing is lost, I’ll come again, next week, I promise thee...
Be still, don’t cry...
…don’t cry
...don’t cry
Resound
Ye pavements!
— até que a morte nos separe
ó brisas do Tâmisa, farfalhai!
Ó telhados de Chelsea,
amanhecei!
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Saturnino de Meireles

Saturnino de Meireles

Ser Humilde

Ser humilde e sentindo-se o primeiro,
Na penumbra ficar dessa grandeza;
Ser feliz e trazer essa tristeza
De sempre andar da vida forasteiro;

Ser humilde e viver no mundo inteiro,
Como um deus sobraçando a natureza;
Ser assim e ter máxima certeza
De ficar para sempre prisioneiro;

É ser da fé a lâmpada impoluta
Que claro marca do destino o norte
Abrindo as portas para nova luta.

É ser de Deus esse perfil sereno,
É andar na vida e já sonhar na morte,
É ser tão grande sendo tão pequeno.

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

X. Aparição

Devagar devagar um homem morre
Escura no jardim a noite se abre
A noite com miríades de estrelas
Cintilantes límpidas sem mácula

Veloz veloz o sangue foge
Já não ouve cantar o moribundo
Sua interior exaltação antiga
Uma ferida no seu flanco o mata

Somente em sua frente vê paredes
Paredes onde o branco se retrata
Seus olhos devagar ficam de vidro
Uma ferida no seu flanco o mata

Já não tem esplendor nem tem beleza
Já não é semelhante ao sol e à lua
Seu corpo já não lembra uma coluna
É feito de suor o seu vestido
A sua face é dor e morte crua

E devagar devagar o rosto surge
O rosto onde outro rosto se retrata
O rosto desde sempre pressentido
Por aquele que ao viver o mata

Seus traços seu perfil mostra
A morte como um escultor
Os traços e o perfil
Da semelhança interior.
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