Poemas neste tema

Morte e Luto

Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 15

Mandaram-me fazer um electro-encefalograma.
Era para ver como ia o meu ritmo alfa.
Eles tinham desconfianças.
Falavam de estados crepusculares.
Divertido.
Eu não tinha estados crepusculares.
O ritmo alfa estava óptimo.
Cumprimentaram-me muito.
A sua cabeça é sólida.
Bem, eu tinha uma cabeça sólida.
Era uma coisa alegre.
Encontrei-me algumas vezes ainda com o psicanalista.
Nessa altura, ele interessava-se particularmente pelo Apocalipse.
Não no aspecto erudito, é claro.
Falávamos durante horas sobre a besta com a grande prostituta de escarlate assentada entre os cornos, sobre os cavalos, os sete candelabros, os sete selos e os terríficos gafanhotos de rosto humano e cabelos longos como os das mulheres.
Eu saía do gabinete fervendo de inspiração.
Escrevi poemas apocalípticos e o psicanalista pôs-se a examiná-los.
Foi um bom tempo.
Mas eu tinha uma cabeça sólida, um belo ritmo alfa.
Então, com a minha sólida cabeça, comecei a pensar na morte.
Estudei os melhores venenos, em livros da especialidade, as mais subtis combinações de drogas e, com receitas que arranjava entre os médicos amigos, organizei uma boa colecção.
Gosto da palavra suicídio.
A frequência dos ii, como golpes, as duas sibilantes, e a última consoante, malignamente dental, fascinam-me — fascinam-me.
Mas bastava-me o prestígio da palavra e o jogo de coleccionar comprimidos mortais.
Como alegria, imaginei alguma coisa:
Uma cidade com torres brancas, espancada pela luz, e com navios que saíam das águas vibrantes para todas as partes.
Havia uma árvore inocente no meio da cidade.
Na primavera, enchia-se de espinhos ferozes e dava flores monstruosas, cor de púrpura.
As mães não deixavam que as crianças brincassem perto da árvore.
Durante dias e dias, a luz espancava a cidade.
Nada havia a fazer com a minha maturidade.
Certas noites, vagueava pelas ruas e entrava em todos os bares.
Os bêbedos formam uma maçonaria.
Andávamos pela cidade à procura uns dos outros, bebíamos no meio de inextricáveis conversas.
Um deles disse-me: tens um espírito essencialmente religioso.
Gostei.
Ficámos muito amigos.
Passámos a beber os dois, falando do espírito religioso.
Eu também possuo um espírito essencialmente religioso — garantiu-me ele uma noite, quando já tinha cerveja quase até à garganta.
A minha juventude, disse-lhe eu, foi uma violenta e fulminante viagem através do terror e da alegria.
Estive agarrado às trevas, ouvia o barulho das águas negras, não podia dormir.
Ou então tremia de puro júbilo, era admirável ter um corpo, uma voz, viver no meio da luz e da chuva e das grandes nuvens sobre os campos.
É o espírito religioso, dizia o meu amigo.
Talvez fosse, sim.
Era, com certeza.
Entretanto, principiei a duvidar.
Uma vez em que bebíamos um mau brandy, revelei-lhe a minha paixão pelo crime.
Gostaria de cometer um crime.
O meu amigo falou-me mais uma vez de espírito religioso.
Merda, respondi.
E ele quis saber se eu lera o Crime e Castigo.
Emprestou-mo.
A expiação, disse-lhe depois, é o verdadeiro centro religioso do livro.
O crime é apenas a circunstância propiciatória para o desenvolvimento religioso da personagem.
Ela necessita da expiação, para sua profunda glória.
Eu não amo a expiação.
O meu amigo disse: então és louco.
Tenho uma cabeça sólida, o que desejo é saber o que se faz com um terror morto e uma alegria morta.
E ele respondeu: bebe.
Não bebo mais, estou farto, vou-me embora para um lugar onde me não possa mexer muito — estou cansado de me mexer.
Apareceram então as pessoas que ajudam.
Tinham teorias.
O meu esforço, no entanto, era para recuperar a alegria e o terror.
Não é fácil.
As pessoas incitavam-me a diversas tarefas: a ética, a estética, a política, a numismática.
Sugeriram mesmo que eu deveria ir para África, e falaram da maneira rápida como ainda se pode enriquecer lá.
E depois há as florestas, ainda por cima, diziam.
Comecei a ter medo das pessoas.
Escreviam-me cartas assim:
Creio que te posso ajudar.
És um espírito rico, contraditório, de uma espantosa vitalidade.
Podes fazer coisas, resolveres as tuas contradições, ganhar a partida.
Então fiz as malas, e ia dizendo baixinho: merda, merda.
Parti para um lugar, com o propósito de semear cabeças de crianças, e ouvi-las cantar quando o dia acaba.
Como se fosse um campo de trigo.
Esta é, realmente, a minha embaraçosa chegada à maturidade.
Não me é possível pensar em qualquer salvação.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Os Ritmos 12

Pendurada pelos cabelos, no meio do estúdio, há uma cabeça decepada que pensa: é este o meu filho?
Vejo-lhe o rosto apavorado, as mãos frágeis, e não consigo imaginar que pudessem erguer um cutelo de açougueiro.
Tem os olhos sofredores das crianças que percorrem os quartos, abrindo e fechando portas, esquecendo-se também de as fecharem.
Mas esses olhos de crianças deambulatórias enganam, e sobretudo porque este ser não é uma criança, é um homem.
Intriga-me a idade dele.
Não será um velho?
E se é uma doce criança, ou um homem tão fraco, ou se é um velho — para que subi eu das águas e atravessei a cidade, uma cabeça sem pernas, até chegar a este estúdio, e erguer-me apenas pela força do meu delírio, da minha astúcia e dor, e amarrar-me ao tecto pelos cabelos?
Teatral eu, sim — mas uma cabeça cheia de terrível amor.
Entre a janela e a porta, para lhe ocultar o mundo, para afundar os meus olhos nos olhos do filho.
Ele entra e hesita, existe ainda qualquer coisa fútil naquele coração que um dia desejou abandonar-se à luz.
Espera uma cidade com pequenas surpresas quotidianas, pensa em pessoas andando pelas ruas, arrabaldes com cavalos, e aragem passando nas árvores.
Julgo às vezes que ele nada conhece dos crimes.
Imagina libertações.
Procuro ajudá-lo com o horror da minha presença irremovível.
É bom no entanto lembrar que a sua cara se encostou à minha, e as suas lágrimas banharam o meu rosto que irrompeu do meio dos mortos.
Será sempre assim?, pensava ele, mas a ideia de um pacto nascia já dentre a confusão de todas as outras ideias.
E confunde tudo, ele, confunde as coisas todas, quando quer saber se o crime compensa.
Compensar seria para ele libertar-se dos profundos pactos do amor.
Mas as faunas e floras daqueles países que não há, consignadas na parede do estúdio, que são elas senão alusões aos mistérios do amor, metáforas do crime, deslocações subtis de sentido para chegar ao centro do próprio amor?
E eis-me aqui, pendurada por esta cabeleira que me esforcei por fazer crescer até ao rosto dele.
Eis-me tornada suspensa, voraz, aterradora, dando o melhor do meu conhecimento, da minha força — para que ele compreenda, este mau estudante.
Meu Deus, será sempre assim, sempre?
Estou cansada.
Duvido já da minha ciência, já quase me distraio às vezes de que o amor é para aterrorizar e matar.
Procuro sorrir, ser doce, utilizar um código humano.
Ele treme, talvez jovem demais ou excessivamente velho.
Uma cabeça pendurada não pode saber tudo.
Depois, falta-me o corpo — que ajuda a não ter cabeça, de quando em quando.
Sou forçada a possuir uma cabeça permanente, eu, cabeça.
Utilizo pequenos truques de teatro, oscilo, volto-me, torno-me maior.
É para aterrorizá-lo, afirmar categoricamente a minha realidade maravilhosa.
Mas ele tem terror do terror, não o recebe como alimento da sua própria vida.
Faz comparações tolas com a América do Sul, escapa-lhe a significação das coisas.
A grandeza que me concede é por comparação com o folclore.
Ah, mete-me no centro do teu coração, não durmas mais, caminha até ao fundo da angústia.
Não sou uma mestra-escola.
Sou a frontalidade do crime.
E ele cambaleia, treme, hesita, tem delicadas mãos de fantasista de paredes.
Eras tu quem me deveria erguer ao alto, com as tuas mãos fortes e ensanguentadas, com o teu negro coração cheio da minha eternidade.
Contudo, sou eu que me penduro pelos cabelos, fazendo teatro.
Se pudesses ouvir que nunca houve primaveras com cheiros vegetais, roupas idiotas a secar, casas altas no meio da luz.
Escuta: avança pelas trevas.
É um literato, este pobre diabo: leu o Apocalipse, o Inferno, Lautréamont, Rimbaud.
Não se leu a si próprio, não leu o mistério da minha aparição.
O que deseja, o fraco, é curar-se do pouco que ainda sabe.
E então eu sorrio, envergonhada de nós dois, aspirando às vezes a perder-me no esquecimento, não supor que houve um crime.
Talvez o crime não compense, sim, no outro sentido, talvez o crime não seja uma coisa exemplar, criadora.
Sou uma cabeça triste, envelheço.
Deixo-me balançar ao vento, quero libertar-me.
Pergunto mesmo: há realidade, amor, crime?
Este homem gastou-se no medo.
Encheu-se de ideias de salvação, penetrou-se de doçura — o que ele ama é a interpretação mais superficial da minha presença.
Gosta que eu sorria.
E talvez eu própria comece a gostar de sorrir, talvez deseje libertar-me da presença deste homem.
Hoje, quando ele estava encostado à porta, olhando-me nos olhos, perguntei se isto não terá fim.
Nunca mais, nunca mais?
Quem sabe se não se encontrará aí o segredo da minha aparição?
Suponho por instantes que foi ele quem me tirou do rio, quem me trouxe para aqui e me pendurou do tecto.
Talvez quisesse saber até que ponto eu suportaria um pacto.
Talvez eu seja uma criação sua.
Meu Deus, e se assim for, nunca mais me libertarei?
Haverá um pacto?
Que pacto?
Digo a verdade: não foi ele quem chorou com o rosto encostado à minha face gelada.
Fui eu.
E as minhas lágrimas caíam na cara dele, rolavam até à sua boca implacável.
Porque eu não sei, ele não pronuncia uma só palavra.
Meu Deus, será sempre assim? sempre, sempre?
Tenho medo desta tenebrosa cumplicidade que há entre nós dois, porque ele é um homem, um ser perigoso, e eu sou apenas uma cabeça de grand guignol.
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Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Os Sinos

Sino de Belém,
Sino da Paixão...

Sino de Belém,
Sino da Paixão...

Sino do Bonfim!...
Sino do Bonfim...

Sino de Belém, pelos que inda vêm!
Sino de Belém bate bem-bem-bem.

Sino da Paixão, pelos que lá vão!
Sino da Paixão bate bão-bão-bão.

Sino do Bonfim, por quem chora assim?...

Sino de Belém, que graça ele tem!
Sino de Belém bate bem-bem-bem.

Sino da Paixão — pela minha irmã!
Sino da Paixão — pela minha mãe!

Sino do Bonfim, que vai ser de mim?...

Sino de Belém, como soa bem!
Sino de Belém bate bem-bem-bem.

Sino da Paixão... Por meu pai?... — Não! Não!...
Sino da Paixão bate bão-bão-bão.

Sino do Bonfim, baterás por mim?...

Sino de Belém,
Sino da Paixão...
Sino da Paixão, pelo meu irmão...

Sino da Paixão,
Sino do Bonfim...
Sino do Bonfim, ai de mim, por mim!

Sino de Belém, que graça ele tem!
1 390
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Quando Perderes o Gosto Humilde da Tristeza...

Quando perderes o gosto humilde da tristeza,
Quando, nas horas melancólicas do dia,
Não ouvires mais os lábios da sombra
Murmurarem ao teu ouvido
As palavras de voluptuosa beleza
Ou de casta sabedoria;

Quando a tua tristeza não for mais que amargura,
Quando perderes todo estímulo e toda crença,
— A fé no bem e na virtude,
A confiança nos teus amigos e na tua amante,
Quando o próprio dia se te mudar em noite escura
De desconsolação e malquerença;

Quando, na agonia de tudo o que passa
Ante os olhos imóveis do infinito,
Na dor de ver murcharem as rosas,

E como as rosas tudo o que é belo e frágil,
Não sentires em teu ânimo aflito
Crescer a ânsia de vida como uma divina graça:

Quando tiveres inveja, quando o ciúme
Crestar os últimos lírios de tua alma desvirginada;
Quando em teus olhos áridos
Estancarem-se as fontes das suaves lágrimas
Em que se amorteceu o pecaminoso lume
De tua inquieta mocidade:

Então sorri pela última vez, tristemente,
À tudo o que outrora
Amaste. Sorri tristemente...
Sorri mansamente... em um sorriso pálido... pálido
Como o beijo religioso que puseste
Na fronte morta de tua mãe... sobre a sua fronte morta...
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Herberto Helder

Herberto Helder

Fonte - V

Apenas te digo o ouro de uma palavra no meio da névoa,
formosura inclinada sobre a cinza descerrada
e o frio dos retratos.
Espero que a seiva ascenda a um puro gosto
de reaver tua grave cabeça de mãe
cora platina entre a aragem. Que se inspire na seiva
o vermelho de uma face
adormecendo no vinho, acordando
para o início das primaveras.
Peço que os dedos não esqueçam o pão e a tristeza
e a boca vibre como um pensamento
na substância de um instante
carnal, irremovível.

E se morrer é a alta vocação das manhãs marcadas pelas uvas
- peço, mãe um dia
composta sobre a veemente confusão das forças
e dos números, que resguardes
entre as descuidadas dobras de pedra
o fulgor de onde plátanos e aves recebiam
a doce e dolorosa vida
da beleza.

Rente ao tempo que nos cobria
de previsão e silêncio,
arrefecem os sentidos sobre o teu rosto selado.
Pequena e imensa coisa no alto das águas,
no fundo de sementes desmemoriadas — mãe
engolfada no leite renascente,
para ti se elevam os lábios tocados pelo sumo
incompleto, o sono da próxima
incontida primavera.

Tudo o que se diga está vivo na frescura de um coração
novo. Por isso o ouro, o inseguro passo
de um dia que traz a morte em sua intensa
juventude, roça a forma do espírito
em que tu mesma te buscavas — quente e rápida
em nós, no equilibrado idioma
de fomes e sorrisos que nunca
se decifram.

Num lugar onde a sombra é gémea
do fogo irrevelado, não há
morte que se não destine a um escarlate
de rosa. Nunca se adormece
que não seja para ler um estuante anúncio
nas pálpebras que se apagam.

Nasces da melancolia, e arrebatas-te.
Como os bichos nascem da matéria dos seus dias,
como os frutos vacilam no bojo das auroras
e se embebem até que o tempo os faz
violentos,
cerrados,
palpáveis.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Fonte - Iii

Ó mãe violada pela noite, deposta, disposta
agora entre águas e silêncios.
Nada te acorda — nem as folhas dos ulmos,
nem os rios, nem os girassóis,
nem a paisagem arrebatada.
— Espero do tempo novo todos os milagres,
menos tu.

Corres somente no meu sangue memoriado
e sobes, carne das palavras outra vez
imperecíveis e virgens.
— Do tempo jovem espero o vinho e o pólen,
outras mãos mais puras
e mais sagazes,
e outro sexo, outra voz, outro gosto, outra virtude
inteligente.

— Espero cobrir-te novamente de júbilo, ó corola do canto.
Mas tu estarás mais branca com a boca selada
pelas pedras lisas.
E sei que terei o amor e o pão e a água
e o sangue e as palavras e os frutos.
Mas tu, ó rosa fria,
ó odre das vinhas antigas e limpas?

Do tempo novo espero
o sinal ardente e incorrupto,
mas levo os dedos ao teu nome prolongado,
6 cerrada mãe, levo
os dedos vazios —
e a tua morte cresce por eles totalmente.
1 188
Herberto Helder

Herberto Helder

O Poema - Vi

Fecundo mês da oferta onde a invenção ilumina
a harpa e a loucura desperta a pura espada
em pleno sangue. O vasto,
amargo e límpido mês interior onde a graça
se toca do fogo e o corpo se torna o cândido
e longo varão de música. Escada de seiva
entre arbustos de estrelas
e cubos de sal perpetuamente ardendo.
— Por ti, mês feliz de confusão e génio,
eu levanto minha húmida boca
até ao ar e ao vinho, levanto
minha obscura pedra por vias de tormento
e instinto até
ao barro vermelho do céu, ao espasmo
violento e sagrado das palavras.

Mês por onde subo fundamente agitado
em meu coração de argila, em minhas veias
de pequena infância espantada e grata.
E subindo me incendeio e consumo.
Mês das mãos purificadas.
Delicado mês para uma corola
de nuvem, um vivo transporte
entre coxas e mamas.
Em lama e areia se descobre
o pensamento, se perde a memória, se possui
uma estreita palavra virgem
e extrema.

Arde, mesa. Arde, instrumento de profunda
música. Arde, vinho. Carne,
ave, grande mar, grande estátua fria,
grande sorriso desfeito na face da solidão.
Mês de onde nascem os bichos ébrios e a voz
das catedrais de resina e o flanco
terrível e doce das montanhas
e o amor irmão da morte e da alegria.
Mês do poema, substância de Deus servida
como ceia e primeira pedra no espaço
da minha angústia,
do meu encanto.
Mês da aliança, tempo
tremendo da inocência onde a lua desce
suas raízes ferozes
e a morte anuncia seus primeiros sinais
de glória.

— E eu dormia. O sangue atravessava a noite
como cantando baixo.
Tecedeiras deixavam mãos sobre a atenção, flores começavam
no linho com o tremor comprido das veias.
Mês, mês. Um beijo pensava-se em palavra, recolhia-se, renascia,
vibrava na testa como o beijo da loucura.
— Pela terra adiante aumentava o trigo insensato do canto,
o perdão nascia das formas,
e por todas as coisas corria o sopro alucinado
e redentor
de um primeiro minuto de entre as mãos e a obra.
1 310
Herberto Helder

Herberto Helder

As Palavras 2

A pessoa escolhe a parte mais fria, e dispõe absolutamente a camélia ou a viva madeira da viola.
Tu sentas-te ao meio.
Fechas as janelas para que trema a treva sentada na cadeira.
Devagar move a mão, mais devagar a ciência.
E toma o espelho: que é veloz o terror.
Inclina o coração para o pássaro com a árvore, e a cor com o pássaro, e o canto com a cor.
Por cima, a luz com a crina espalhada em forma de rosa.
O frio lençol chega à sua brancura, o espelho chega à imagem.
A flor tropeça na roseira como, digo eu, como o sangue se infiltra no sono, e ninguém sabe.
Cravo agora e candeia, como a lua com as patas se empoleira no espaldar da cadeira.
Como tu mesmo avanças para o espelho feroz, respirando — e a sinistra imagem canta abaixo do pássaro, acima da ciência.
Como um lençol na cara, e a mão na lembrança.
Tão lenta como uma tábua ao sol — seca, dolorosa.
E o espanto que é criança a entrar na infância, e dá uma volta, e sai por uma estampa de ouro — a tristeza.
Talvez estar — maçã colocada num perpétuo silêncio.
Vivendo uma cor desesperada, um odor de mês cortado ao meio.
E o espaço que isto cria — um equilíbrio de lâmpada, uma lâmina alta.
Mas tu entras por um lado, e mexes os braços — voas, cantas abruptamente.
E estás então no outro lado — livre e morto.
Ressuscitarás inclinado, como todas as coisas.
És simples, e à noite apareces, ó árvore de cal, tábua a prumo — inodora, branca.
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Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Poema para Tuquinha

Você chamou Maria Helena "o anjo lindo de Tuquinha".
Na realidade você é que é o anjo lindo de Maria Helena,
O anjo lindo de Branca,
O anjo lindo de Branquinha,
O anjo lindo de Isabel,
O anjo lindo de Manuel,
O anjo lindo de nós todos.
Reze a Deus por nós, anjo lindo: aos anjos ele atende.
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Herberto Helder

Herberto Helder

O Poema - Vii

A manhã começa a bater no meu poema.
As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores
líricas.
Muita coisa começa a bater contra os muros do meu poema.
Escuto um pouco a medo o ruído das gárgulas,
o rodopio das rosáceas do meu
poema batido pela revelação das coisas.
Os finos ramos da cabeça cantam mexidos
pelo sangue.
Talvez eu enlouqueça à beira desta treva
rapidamente transfigurada.
Batem nas portas das palavras,
sobem as escadas desta intimidade.
É como uma casa, é como os pés e as mãos
das pessoas invasoras e quentes.

Estou deitado no meu poema. Estou universalmente só,
deitado de costas, com o nariz que aspira,
a boca que emudece,
o sexo negro no seu quieto pensamento.
Batem, sobem, abrem, fecham,
gritam à volta da minha carne que é a complicada carne
do poema.

Uma inspiração fende lírios na minha testa,
fende-os ao meio
como os raios fendem as direitas taças de pedra.
Eu sorrio e levo pela mão essa criança poderosa,
uma visita do sangue cheio de luzes interiores.
Acompanho, como tocando uma espécie de paisagem
levitante,
as palavras pessoas caudas luminosas ascéticas aldeias.

E a madrugada e a noite que rolam sobre os telhados
do poema. E Deus que rola e a morte
e a vida violenta. E o meu coração é um castiçal
à beira
do povo que até mim separa os espinhos das formas
e traz sua pureza aguda e legítima.
—Trazem liras nas mãos, trazem nas mãos brutais
pequenos cravos de ouro ou peixes delicados
de música fria.

— Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos.

O poema dói-me, faz-me.
O povo traz coisas para a sua casa
do meu poema.
Eu acordo e grito, bato com os martelos
dos dias da minha morte
a matéria secreta de que é feito o poema.

—A manhã começa a colocar o poema na parte
mais limpida da vida. E o povo canta-o
enquanto crescem os campos levantados
ao cume das seivas.
Amanhã começa a dispersar o poema na luz incontida
do mundo.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Os Epílogos

Vou enlouquecer, sussurrou ele para o mestre que o olhava do outro lado da mesa.
Vou matar toda a gente.
Sou um assassino, disse ele.
Vou morrer.
Vou tomar veneno, e o meu corpo inchará, ficará coberto de pústulas, será repugnante, murmurou docemente, docemente.
O mestre olhava-o do outro lado da mesa.
Só de me verem, as pessoas ficarão doentes, já não terão a mais pequena parcela de fé, disse ele.
Serei o mais abjecto cadáver da terra.
Bastará uma hora para eu apodrecer.
Haverá peste.
Terão de queimar-me numa grande fogueira, se quiserem escapar ao meu cheiro.
Tenho um cheiro, murmurou ele.
Tenho um cheiro horrível à espera.
O mestre olhava-o do outro lado da mesa.
Não pensem que me escaparão, sussurrou ele.
Hão-de ficar com o meu cheiro, hão-de levá-lo de um lado para outro, e ele contaminará todas as coisas.
Ninguém mais terá fé, disse ele.
É preciso aprender a andar sobre as águas, disse o mestre.


Às vezes as coisas desatam a crescer numa espécie de sentido ao contrário.
Desenvolvem-se em dois planos, movem-se em lugares diferentes.
Entre eles bate um coração, uma alma, um motor.
Aí é que está a unidade e o sentido — o senso, o contra-senso.
Imaginemos uma planta com as raízes no ar e a flor debaixo da terra — mas raízes eficazes, e uma flor perfeitamente organizada.
A máquina desta planta é um milagre de energia.
Foi tocada pelo sopro da alegria criadora.
Faz coisas simétricas, assimétricas — maravilhas circulatórias e respiratórias: estruturas vivas.
Mas está de cabeça para baixo.
Não se integra nas matemáticas gerais.
Falha nas relações.
É outro milagre — um rasgão, uma oposição, uma subversão: um clarão.
O conjunto estremece, abalado por uma luz nova.
Então há um refluir de todas as coisas para este centro devorador, este aparelho centrípeto.
O contra-senso é o senso.
Falo do quotidiano absolutamente real, realizado.
Vou contar uma história.
Havia uma rapariga que era maior de um lado do que de outro.
Cortaram-lhe um bocado do lado maior.
Foi de mais.
Ficou maior do lado que era dantes mais pequeno.
Cortaram.
Ficou de novo maior do lado que era primitivamente maior.
Tornaram a cortar.
Foram cortando, cortando, cortando.
O objectivo era este: criar um ser normal.
Não conseguiam.
A rapariga acabou por desaparecer, de tão cortada nos dois lados.
Isto levou muitas pessoas ao suicídio.
Outras riram, apenas — o que era uma forma de suicídio.
Algumas compreenderam.
Não me venham com teorias, estou farto.
Acontecimentos, seres, objectos, lugares.
A coluna vertebral disto tudo.
A posição vertical — eis o que me parece justo.
Se se anda com a cabeça e se põe o chapéu nos pés, não é a coluna vertebral que tem culpa.
O erro pode estar em andar com os pés e pôr o chapéu na cabeça.
De qualquer maneira, é magnífico ver uma flor ter delicadeza debaixo da terra.
Bem: pode tomar-se um espelho e colocá-lo em frente das coisas.
Na melhor das hipóteses, onde era esquerdo fica direito, e vice-versa.
Pode aparecer tudo negro, noutros casos.
É porque as coisas são negras.
Dormimos ou estamos acordados, conforme a escolha.
Atenção.
É uma espécie de espectáculo.
Vem anunciado nos jornais.
Não se inventou, apenas se tornou mais forte a pancada do martelo.
Sim, na cabeça.
Chama-se a isto malícia ou intenção.
Segue.


Estava no rés-do-chão, nu, aplainando tábuas.
Inclinava-se sobre a inocência das tábuas, sobre a sua própria inocência de criatura nua — e aplainava.
Depois subiu até ao último andar daquela ciência, e era negra a sua nudez, de onde nascera uma cadeira.
Então lançou-a ao ar, e a cadeira voou.
Ele trabalhara segundo o ritmo mais antigo da terra — isso queimara-lhe o corpo, e a cadeira voava.
Era um mestre.
As pessoas desejam saber como é a sabedoria por dentro — e ele diz que é um ritmo, até a beleza se tornar negra, até voar a cadeira.
Diz ainda que não experimentem, e fecha os olhos.
Seca, pura, voadora cadeira — uma flor estrita e alta.
A sabedoria mata em sua forma viva de cadeira.
Outro pôs-se a andar de cabeça para baixo, e depois via, falava, pensava, cantava, sorria com os pés.
Tinha uma malícia rápida, e andava depressa com o cabelo comprido.
Também voou, este — de tal modo que ele era a sua própria obra.
E à noite sangrava dos cabelos, com a dor da sabedoria.
Quiseram saber, e ele disse: tenho medo de toda a minha ciência.
Houve também quem dormisse, para aprender até ao mais fundo como a memória respira, como o desejo e o corpo respiram, como respira a treva.
Tornou-se sábio à força de respiração nocturna.
Tivera revelações, sabia dos nascimentos, das formas imóveis, de cores dobradas no escuro, dolorosamente, até que delas rebentava a luz aterradora das paisagens.
Ele tremia com esta ciência toda — perdera os nomes, o seu corpo fervia com a peste do conhecimento.
Aprendi uma ciência mortal, disse ele, nada me salvará.
Mas o último não amava a invenção — sentara-se em frente dos trabalhos alheios, não se mexia.
Preciso de ócio, dizia ele, preciso dos meus olhos, quero ver como é.
E viu como era.
Viu o ritmo humano estabelecendo relações no espaço, viu as coisas entre si, o movimento primitivo dos animais, os ciclos vegetativos, as imagens nocturnas e diuturnas.
As casas cresciam e a aveia, e os pomares cresciam, e as cores e as vozes cresciam.
Havia motores, o petróleo subia do coração tenebroso da terra, purificava-se e, ao alto de belas torres metálicas, grandes chamas de uma sacralidade moderna glorificavam as forças obscuras da terra.
Já tenho a minha sabedoria, disse o último homem, estou triste.
E fechou os olhos, porque estava cansado da sua sabedoria da visão.
Gostaria de poder morrer, disse ele, a terra é extraordinariamente rica e constante, estou cansado.
A terra está cheia de coisas vivas e inúteis, coisas irrompentes, palpitantes, ardentes — coisas de uma fulgurante inutilidade.
Fechou os olhos e disse: se eu pudesse morrer.
Esta é a minha sabedoria, tenho os olhos queimados.

Ou ainda:

Há a tentação de escrever um texto inabitável, uma espécie de mapa solitário e limpo, diante do qual o engenheiro da fábula não possa maquinar o seu empenho de aventura humana, com as palavras: aqui fica uma rua, aqui uma ponte, aqui um parque, aqui a mancha cerrada de sentimentos e ideias com o nome de bairro de gente.
Antes da escrita, alguém disse: um momento, engenheiro — eu amaria uma superfície destituída de enigmas, aonde ninguém chegasse, onde não houvesse uma casa paterna, sobretudo, e a perpetração da parábola do filho pródigo.
É um texto que se destina à consagração do silêncio, a gente já pensou tanto, já teve mãos por tantos lados, já dormiu e acordou — bom seria imaginar o espírito apaziguado, a reconciliação do pensamento com a matéria do mundo.
Mestre, não me dês um tema.
E então o texto principia a ser ferozmente habitado.
Abrem as portas do texto como se fosse uma cidade: entram as pessoas com os seus animais e mercadorias, chegam para vender, comprar e trocar.
Possuem todas o seu entendimento, o seu plano, os sentimentos, a malícia, o enigma — e o que vai circular pelo texto dantes nu e fixo é um movimento soturno, ardente: a aventura do homem que deseja ligar-se à terra.
Sabem? é o filho pródigo, o que estava no exílio e cai na vertigem da decifração.
Jamais será possível lavrar o discurso sem compromisso, a idade do ouro, uma sintaxe da desabitação — é provável o aparecimento de Édipo-o-Jovem à entrada de Tebas.
E junto aos muros da cidade é evidente que estará a Esfinge que, segundo a nota, «se aparenta aos demónios sedentos de amor e sangue que povoam o sono dos vivos».
«… tu que, mal chegado aos muros da cidade, nos libertaste do tributo que sobre nós mantinha o monstro dos enigmas…»
E como já então o texto se encontra cheio de gente! — existe a peste, o crime da aventura espiritual, fez-se carne e gesto o amor do lugar.
É a nova tentação do espírito: a união com a terra, a mãe.
«… não viram na união com a mãe a antiga hierogamia, o casamento com a terra…»
Que coisas ocorreram no espírito, que trazes tu ao texto mudável, chegando assim pelas trevas, inspirado de tal modo por um deus que, de súbito, aniquilas os prestígios enigmáticos?
Mas nada sabes afinal, ignoras mesmo que é um regresso.
Por isso eu digo: o ganho seria suplantar o espírito, aparecer no texto virgem, dançando como um rapaz nu e aí implantando o amor — celebrar o casamento com a mãe.
O resto é uma fábula lateral, a história de uma investigação policiária moderna, crime e castigo, catarse, integração moral, espectáculo dramático, os outros.
«Um crime, mesmo involuntário, mesmo legítimo, macula o seu autor, e cria a necessidade de uma purificação.»
«… ninguém pode purificar-se a si próprio.»
Desejaria afastar-me do espírito, o engendrador do princípio criminal.
Isto luta para ser um texto branco, reconciliado, a vida externa.
Olho, dou um passo atrás, desocupando o espaço interior — e então o texto põe-se a andar, cego, tacteando, procurando entrar na sua verdade própria: a clareira primitiva.
Todo o texto conduz ao exemplo do mundo, narra a parábola do regresso e apresenta a cerimónia da paisagem.
Tu és simples e essencial.
Vê o teu lugar:


É uma ilha em forma de cão sentado, com a cabeça inclinada para perscrutar o enigma da água.
O cão tem as orelhas fitas, porque, ao mesmo tempo que cheira e olha o mar, recebe notícias de vento.
O cão está sentado no atlântico.


A água cai em cordões verticais e vivos, cantando.
Cria-se uma nova, ou muito velha, espécie de solidão, onde o súbito gosto da pureza se mistura ao temor.
A água é uma matéria em si própria delicadíssima e exaltante.
Talvez os homens desejassem estender-lhe as mãos, voltando-as de todos os lados, para ficarem bem molhadas.
É uma água vasta, nua e maternal.
As casas tornam-se muito isoladas, a uma distância infinita umas das outras.
Não é tempo de comércio entre as pessoas, de qualquer espécie de fraternidade.
Sabe-se pouco a respeito da água da chuva.
É esta uma ilha estéril, fechada em cal e areia.
Há as estiagens.
E então, sucede o absurdo.
O talento do absurdo é criar o excesso.
Por isso, às vezes, cai uma chuva avassaladora.
A carne concentra-se para recebê-la, e aceita-a.
Poder-se-ia sair das casas, e não somente estender as mãos à grande chuva, mas deixá-la mesmo encharcar as roupas e a pele, limpar o homem de uma porção de coisas que não prestam.
Seria possível andar nu debaixo da chuva cantante, as próprias pessoas cantando, com alegria e terror sagrados.
Mas, na verdade, cada qual se encerra na sua solidão.
Liga-se às vontades celestes por uma comoção enigmática.
Os caminhos confundem-se, os telhados de terra batida aluem aqui e ali, o enxurro ganha os campos.
Desaparece essa frágil ordem que se cria para andar sobre os abismos.
Em dois dias, perdem-se todas as pistas do ano.
Os centros da vida onde se tece, à volta, o pavor da morte — a malícia de enganá-la e a pequena vitória com seu anel de alegria — eis que desaparecem os tais centros de audaz inteligência.
Absorveu-os a água.
Na forma desfeita, já se não sabe o lugar dos bichos, da lentilha e dos barcos.
Cavalos de areia húmida galopam nos ares.
O vento bate nos campos as ferraduras de água.
As casas abaixam-se, iluminadas por candeias cuja grossa torcida mergulha em gordura de carneiro.


É preciso inventar de novo o palpável edifício das convenções: demarcar os campos de cevada, reparar as empenas dos barcos, amar a vida.
Para ajudar, haverá uma pobre primavera de ervagem baixa e uns passos de lentilha verde.
Mas os homens da ilha não amam o trabalho.
É difícil um pacto com os segredos da terra.
As manhãs hesitam, com o seu sol molhado.
O céu curva-se para as poças.
Ao longe, no mar áspero, passam cargueiros.
De noite, são luzes pequenas que se movem.
É muito triste.


Tem de se descer fundo na matéria enigmática destes homens, entender a região do seu feroz repouso, tão trágicas fontes de imobilidade.
Estas fábulas são algo de terrível, nos seus enredos e forças.
Os caminhos afogados, as casas destruídas.
Toda a gente vem para fora, hesitante, um pouco espantada.
Não há lugar para as suas mãos, para os seus pés.
Mas o ar vai-se tornando leve e penetrante.
As coisas libertam-se do grande abraço das águas.
Durante dois meses, na trágica solidão subterrânea, preparou-se o tempo que agora se torna exterior e vivo.
Talvez que a lentilha e a cevada semeadas no outono venham a cobrir as planuras.
As sementes dormiram e imaginaram.
Talvez acordem agora para a reconstrução da alma humana.
É então que um grande silêncio cai sobre os quarenta quilómetros quadrados da ilha.
Ou vem das coisas, do interior das coisas.
É um silêncio extremamente doce.
Um equilíbrio supremo.
A ilha adquire uma grave e grandiosa imobilidade.
E a luz entra nas veias, torna belas as mãos dos homens.
É dos olhos que primeiro caem as carapaças do sono.
Em seguida, da boca.
De cada parte do corpo, lentamente, de uma e outra parte, até as pessoas ficarem nuas.
Ressurreição.


Os campos estão cobertos de erva e, no meio dela, vibram na aragem viva algumas hastes de cevada.
Principia a ordenação abstracta das cores — violentas, delicadas — no puro cheiro da maresia e da areia que já aquece.
O céu levanta-se como um animal.
A terra pensa, a cabeça de cão pensa em cima do labirinto da água salgada.
E a primavera sobe, ganha maior precisão.
A cevada amadurece depressa na exaltante transparência do espaço, agitada leve leve pela aragem.
Na atmosfera de pureza, cuja violência intrínseca se dissimula, nascem repentinas fontes de felicidade.
Desenvolve-se furiosamente no coração um grande pensamento de imortalidade, tão vivo e exclusivo que a carne verga ao seu peso.
Aspira, ambiguamente, a um aniquilamento obscuro, rápido, total.
Sem vestígios.
Uma colina branca resplandece tão veemente que parece ter levantado voo.
Os homens descem até à praia e estendem-se na areia, onde correm centenas de lagartixas, fazendo desenhos complicadíssimos e fúteis.
E enquanto os homens dormem, os montes ao alto são nus e amarelos.
Eles dormem, e os montes ficam sempre vazios e secos, sob o sol tranquilo.
O mar, com o seu perfume cru, invade a ilha.
É o perfume do mar na primavera.
Ou é o perfume do mar no verão.
Os homens sentem o sal a arder nas veias.
A cabeça fecha-se.
Há neles uma espécie de alegria cega e mortal.
Então vão para casa e fornicam com as mulheres.
Esta gente possui o orgulho firme de quem conhece o poder das coisas, o sentido da inutilidade essencial da vida, contra o qual nada mais se deve opor do que a força de uma ordem momentânea, estritamente necessária.
É preciso comer um mínimo, trabalhar um mínimo, acreditar um mínimo nestas hastes ainda verdes que estremecem ao vento de maio.
Depois, o que se pode fazer é ficar ao sol, olhando perdidamente para a água do mar, ou ir para as casas mal-reconstruídas, no meio do vento cheio de areia, e fornicar com as mulheres que envelhecem depressa.
Um dia por quinzena os homens descem ao cais de estacas e pranchas de madeira, para esperar o barco que vem da ilha mais próxima.
É um barco no estilo dos de pesca, com vela e motor.
Quase nunca traz passageiros.
Às vezes traz lenha ou farinha de milho.
Os homens da ilha vêm sempre assistir à chegada do barco.
É como os barcos dos pescadores, simétrico, largo ao meio, com a popa igual à proa, amarelo e verde ou amarelo e azul.
Eles gostam de ver o barco a entrar na pequena baía.
Durante o dia inteiro, ficam-se a olhá-lo, rondando-o, deslocando-se de uma parte para outra da praia, para vê-lo do maior número possível de ângulos.
Têm a ingenuidade, a sabedoria de sentir na contemplação a única saída para a alma humana.
Gostam de ver as coisas até esgotá-las.
Recolhem-se depois com elas.
Vivem longamente com a densidade das suas imagens.
Disso tudo fabricam um suave desencanto, uma ternura sem febre nem finalidade.


Detestam o trabalho.
Vão já querendo aos seus hábitos de renúncia misturada com tédio, à calma subalimentação e à astronomia de imagens puras.
Por nada trocariam uma vida de ócio que nem é preciso justificar.
Que está justificada pela areia, o monte estéril, a grande estiagem.
Falam pouco destas coisas, porque não são coisas de que se fale e porque não gostam de falar.
Gostam de olhar.
Olham as luzes dos navios que passam ao longe, o descarregamento do barco que vem uma vez por quinzena, ou os desenhos puros, sem sentido, que as lagartixas fazem na areia.
Também olham as mãos, as suas próprias mãos, com um desprendimento porventura um pouco irónico.


Um dia acontece a fome.
Não essa habitual fome lacunar, a fome básica da ilha — estilo central com suas tréguas que empenham de novo o homem no acto íntimo de viver.
Acontece a fome extrema.
Então as mulheres saem das casas e atravessam os caminhos em grupos mudos e sombrios.
Têm as caras das pessoas velhas, embora algumas sejam ainda mulheres jovens.
O seu passo é incerto, porque saem pouco.
Estão desesperadas e dirigem-se às autoridades da ilha.
Caminham com um passo sem jeito, vestidas de negro, com aquele pensamento femininamente feroz do pão, a determinação de fêmeas que sentem ameaçadas as bases da própria vida.
Pode dizer-se que a sua fome é, de certa maneira, uma fome imediata, um pouco sem dignidade.
Não atinge a forma de ideia, uma expressão de silêncio audaz.
É uma fome-fêmea, e por isso será remediada.
Os homens estão deitados na praia, e ir às autoridades é a última, a coisa desesperada, convincente, maliciosa e eficaz, que pertence às mulheres.
O desespero público não é dos homens.
Deles, o inútil orgulho.
Ficam na mesma posição, olhando para o mundo, e — cheios de um orgulho inerte onde não existe uma ponta sequer de ironia — sentir toda a fome por toda a parte do corpo.
É uma fome-macho, e por isso não seria remediada se, a seu lado, se não tivesse desenvolvido, em toda a sua ignóbil e engenhosa energia, a fome das mulheres.
É a salvação.
As autoridades redigem um apelo às ilhas vizinhas, mais férteis, e dias depois chega um barco com farinha de milho e barricas de carne seca.
Alguns homens fazem-se ao mar e trazem peixe.
Mas trazem pouco, o estritamente preciso para acalmar a fome.
Não está neles trazer para guardar.
Não há dia seguinte.
Isso não está neles.
Só é preciso trazer dois ou três ou quatro peixes para um dia.
Guardar não está nos homens.
Todo o trabalho de colheita para o dia seguinte é excessivo, e eles não têm dentro de si o sentimento desse trabalho.
Trazem três peixes, e algum tempo depois chega o carregamento de farinha de milho e carne seca.
As mulheres tranquilizam-se, e os dias da primavera cobrem os campos de pequenas folhas verdes, ou são os dias do estio onde as lagartixas correm silenciosamente e que enchem as pupilas de ofuscação, ou ainda os dias do outono espalhando uma doçura ferida sobre a terra.
Os homens olham para todas as coisas com a sua desapaixonada, entanto firme, meticulosa, fruidora curiosidade.
Enriquecem o já vasto tesouro das imagens.
Sobrecarregam o seu silêncio quase sem intenção, tornando mais apta a gratuita, mas nunca cínica, capacidade de destruir a verdade mais acessível da vida onde os seres se esgotam e são felizes, infelizes.
E principia o estio com o sol sem margens, ilimitado.
Urzes incendiadas.
A multidão das lagartixas distribuindo na areia a confusão das pistas imperscrutáveis até ao absurdo.
O verão de mar imóvel, cio avassalador, montes áridos — vermelhos e cinzentos — como pousados abstractamente em volta das planuras.
No meio dos trevos, meia dúzia de ventres de um verde brutal: as melancias da fome.


A cabeça do cão continua virada para as águas.
Ninguém presume o que vê ou sabe.
É um bocado de pedra com a forma de uma cabeça de cão.
Apenas intrigante.
O mais certo é nada ver e saber.
Está ali.
Está inclinada para o enigma da água.
Para os enigmas.


Os pés do vento correm na areia.
Os homens voltam-se ligeiramente sobre os seus passos, sorriem um pouco, são de novo devorados pela própria força interior, a indiferença.
Durante um instante, recolhem o violento azul do espaço, o mar fixo e as cores primitivas dos barcos.
As lisas imagens do dia instalam-se neles, como figuras abstractas e completas.
Sobem e descem dentro deles.
Respiram.
À volta, sobre a areia, as crianças fazem a vida das lagartixas, copiando o seu quotidiano do sol, fugas precipitadas, atenta imobilidade e combates incompreensíveis.
Nos campos e montes, as mulheres procuram, seguindo pistas, a bosta seca dos animais, para servir de combustível.
Os homens ruminam as imagens simples e ardentes.
As crianças movem-se no seu universo réptil.


As lagartixas vivem cercadas pelas crianças.
É delas que esperam tudo.
Alimento e morte.
Trata-se de um pacto, tácito comércio cheio de misteriosas intenções.
Linguagem de dádiva e crueldade, pela qual homens e bichos se conhecem, fascinados.
As crianças são lagartixas mais fortes que, por isso, decretam as leis de relação.
Iniciam, no silêncio amarelo e saturado da praia, o jogo religioso da cidadania.
Atraem as lagartixas, mexendo de leve na areia, distribuindo num sábio acaso miolo de pão, insectos mortos ou pedacinhos de gordura.
Podem afugentá-las de repente, com um gesto inimigo.
Ou cortar-lhes a cauda, num golpe rápido, e dar-lhes depois uma bolinha de pão.
Ou prender, na mão fechada, os corpos pânicos.
E podem então hesitar e, em seguida, conceder-lhes a liberdade.
Mas as crianças pagam os direitos do poder.
Sujeitam a atenção: a fisionomia do seu mundo interior tem de adaptar-se a certas leis profundas dos bichos.
Armam-se então de inexaurível paciência, uma secreta humildade para com as forças superiores que demarcam e condicionam o teor das suas próprias regras.
Decerto que todas estas regras se elaboram e exercem na inspiração do terrível, mas o terrível possui a sua doçura e lírica castidade, o seu transporte dadivoso.
As crianças amam as lagartixas, com uma crueldade cheia de paciência e pormenorizada paixão.
Há uma centena de maneiras de assassinar lagartixas.
Foi isto que os carrascos aprenderam com as vítimas.
Por cima de cada morte, urde-se um jogo subtil, onde cada propósito cria uma ambígua antecipação que abre uma porta imediatamente fechada.
E depois possivelmente reaberta.
As invenções bebem no gosto da dor.
Uma fúria silenciosa e inteligente corre para as mãos sábias.
Invenções e mãos jamais se aplacam.
A fúria inventa sem parar.
Aperfeiçoa os seus instrumentos e métodos, num estilo cada vez mais cerrado, puro e tenebroso.
Um estilo de propósitos severos, quase místicos.


Na manhã aberta por todos os lados, morre um homem.
Um cancro devorou-o de dentro.
Mero símbolo, porque a morte nasce e floresce dentro de cada ser, espalhando morosamente as finas e frias ramificações.
Neste, a raiz estava cravada nos pulmões, e o devoramento atingiu, na manhã branca, a sua forma terminal de flor.
O cadáver é lavado, envolto num lençol e posto sobre quatro bancas baixas, unidas umas às outras.
Do corpo, só se vê a cabeça azulada.
Uma a uma, são retiradas do quarto todas as peças.
Nem um móvel, uma estampa, um objecto.
Apenas as paredes grosseiras caiadas de branco, o chão de terra batida, e o corpo nu e limpo do morto, embrulhado no seu lençol.
Quando abrem a porta, a luz irrompe violentamente, e bate nas paredes despidas e no lençol.
No meio da claridade explosiva, a cabeça azulada do morto tem um peso quase obsceno.
Entre o corpo e o lençol, colocam a navalha de barba que pertenceu ao homem.
As mulheres gritam à porta da rua.
Lá dentro, no abismo luminoso, a cabeça do morto parece quase negra.
O mar rumoreja nos troncos de madeira que servem de pilares ao cais, arrasta-se pela praia e molha os pés escuros dos homens deitados.
Cai o sol sobre os campos secos onde as mulheres recolhem a bosta ressequida.
As crianças matam, e as lagartixas morrem.
É uma ilha em forma de cão sentado.
1 538
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Boi Morto

Como em turvas águas de enchente,
Me sinto a meio submergido
Entre destroços do presente
Dividido, subdividido,
Onde rola, enorme, o boi morto,

Boi morto, boi morto, boi morto.

Árvores da paisagem calma,
Convosco — altas, tão marginais! —
Fica a alma, a atônita alma,
Atônita para jamais.
Que o corpo, esse vai com o boi morto,

Boi morto, boi morto, boi morto.

Boi morto, boi descomedido,
Boi espantosamente, boi
Morto, sem forma ou sentido
Ou significado. O que foi
Ninguém sabe. Agora é boi morto,

Boi morto, boi morto, boi morto!
2 453
Herberto Helder

Herberto Helder

Fonte - Vi

Estás verdadeiramente deitada. É impossível gritar sobre esse abismo
onde rolam os cálices transparentes da primavera
de há vinte e dois anos. Quando aperto as pálpebras
ou descubro o teu nome como uma paisagem,
só há grutas virgens onde os candelabros se apagam.
Mãe, pouco resta de ti na exaltação do mundo. As vezes
misturas-te um pouco nos terrores da noite ou olhas-me,
vertiginosa e triste, através
das palavras.

No outro lado da mesa estás inteiramente
morta. Parece que sorris de leve no meu
pensamento, mas sei que é apenas
a solidão espantada. Como pudeste morrer
tão violenta e fria,
quando os meus dedos começavam a agarrar-te
a cabeça inclinada dentro
das luzes? Não podes levantar-te dos retratos antigos
onde procuro afogar-me como uma criança
nocturna. E não atravessaremos juntos as cidades redentoras,
perdidos um no outro, sorrindo
como se estivéssemos debaixo de uma árvore inspirada e eterna.

Conheço algumas cidades da europa e a fantasia vagarosa
da cidade da minha infância.
Tu desapareceste. E um erro
das musas distraídas. Não há guindaste que te levante
do coração ias águas
onde apodreceste envolvida no halo do teu amor invisível,
ou recolhida na tua carne rápida, ou
ligeiramente tocada pelo ardor
de uma existência pura. Conheço grandes casas
onde não habitas, flores que cheiro, tarefas
silenciosas que cumpro humildemente, e luzes,
instrumentos de música,
laranjas que devoro sentindo o gosto da vida desde a garganta
às mais finas raízes das vísceras. Tu
desapareceste.

Imagino que seria possível tocares porventura
a minha boca. Tocares-me tão viva ou tão misteriosamente
que eu estremecesse nas traves
da cega inspiração. Poderias estar vergada sobre os meus
ombros até que as lágrimas
na minha boca se confundissem com a ansiosa subtileza
dos teus dedos, e eu me sentisse
perdido entre os pilares e os túneis das cidades
ressoantes.

Depois talvez pudesses vir com o rosto um pouco coberto de poeira,
e os olhos delicados de mulher restituída,
e os pés brilhando sobre os caminhos do meu silêncio exaltado
— talvez
pudesses salvar-me como uma palavra pode
salvar um pensamento, ou uma
breve música pode acordar do abismo inocente
da noite
um instrumento encerrado nas cordas extenuadas.
640
Herberto Helder

Herberto Helder

Elegia Múltipla - I

Como se poderia desfazer em mim tua nobre cabeça, essa
torre deslumbrada pelo mudo calor dos dias, pelo
brilhante gelo nocturno? E pela cabeça
que os mortos maravilhosamente pesam
no nosso coração. Essas flores intangíveis para as quais
temos medo de sorrir, as armas
lavradas, as liras que estremecem e pendem
sobre os rios agitados das coisas. Só o amor as abre
e vê sua confusa e grave geografia, as fontes
livres de onde os pensamentos crescem
como a folhagem iluminada das antigas idades
do ouro.

Eu próprio levanto minha exígua cabeça de vivo,
procuro colocar-me num ponto irradiante
da terra, olhar de frente
com toda a inspiração do meu passado, e estar
à altura dos mortos, na zona
esplêndida e vasta
da sua nobreza — receber essa espécie de força
indestrutível
que envolve a cabeça montada sobre os dias e dias,
de que as rosas bebem o jeito aéreo e a boca
a delicadeza misteriosa.

Existem árvores cercando os animais sonhadores, o grande
arco das eras com os fogos rápidos
presos como campanulas, e a fixa vontade
do homem ardendo e gelando
no tempo. Abeira dos rios canta-se ou deixa-se
que as mãos corram, deslumbradas
da sua grande luz
nas águas. Existe um nome suspenso
sobre as estações do ano. Essa cabeça
dos mortos — a tua cabeça antiga como o verde
nas pedras ou o movimento
das corolas frias,
essa cabeça sumptuosa rodeada de estreitas
víboras —
sobe do meu coração até que a minha cabeça
seja a possessiva, doce cabeça
dos mortos.
646
Herberto Helder

Herberto Helder

(Vox)

O que está escrito no mundo está escrito de lado
a lado do corpo — e tu, pura alucinação da memória,
entra no meu coração como um braço vivo:
o dia traz as paisagens de dentro delas, a noite é um grande
buraco selvagem —
e a voz agarra em todo o espaço, desde o epicentro às constelações
dos membros abertos: e irrompe o sangue
das imagens ferozes:
as rótulas unidas aos dentes e,
como um sexo trilhado:
a boca expele por entre os joelhos o seu grito com a fundura
de uma paisagem — uma
paisagem arrancada ao meio da noite, com as golfadas
de luz
que se despenharam: porque não há lembrança
dos jardins refrigerados com seus pequenos planetas
fotostáticos
levitando — a loucura está tão próxima que o meu braço
se entranha na água, e este atelier onde escrevo
sobe
dos precipícios curvos, forte desde o fundo:
aquilo que se escreve é o próprio corpo pregado como uma estrela
à púrpura das madeiras, aos lençóis
ofuscantes cheios de sangue, de água
magnetizada — e esta sala brilhando apoia-se às espáduas,
e em baixo a queimadura
dos intestinos arde do alimento: os cabelos luzem, o rosto
plantado
em sua estaca de sangue como uma grande veia animal —
eu tenho sangue até às órbitas: a estrela fechada eleva-se
no remoinho da garganta — e levanto a mão e explode
cinematograficamente
a imagem da própria mão
afogada
— porque eu morro da minha vida grave: a longa pálpebra
do corpo cerra-se
sobre a fenda negra aberta à paisagem que corre
como uma chama
por toda a casa — ceifem-me os cabelos à luz
panorâmica: e nas raízes sangrentas
a cabeça queima-se como a lua queima as roupas
levantadas — o meio do vento que cresce nesses cabelos cresce
dentro de mim: meu coração aumenta como uma pedra
aumenta
exposta às mãos como outra mão
de carne larga — esse
osso vedado alumiando o fundo da cabeleira que cortam
como se corta a noite
com uma foice, e os ossos se cortam a plena voz,
na terra, num incêndio completo, enquanto
ceifam: porque há uma cabeça no centro
do choque
do corpo: uma cabeça movida pelo refluxo escuro dos dias
sem fracturas: a cabeça
que vê e cheira e que se abre e fecha
e ouve e refulge e morde
e come depressa e respira para dentro e para fora —
e a voz ascende de todas as raízes entrelaçadas
— a largura, o sangue, o movimento: a fruta em claridade
entre as unhas,
labaredas, um puro génio mundial — tudo como uma forma límpida,
sutura
do coração, uma leveza tremenda
no poder: quando o dia é muito perto, uma estrela comprida
— as mães brilhavam: o que eu escrevo, elas o escreviam
na queimadura da paisagem: uma visão
cerrada pela força: e um cometa desentranha-se
da branca carnagem das memórias, fervendo
entre axilas e falangetas como
um braço, ou uma dança luzente na sua teia até às pálpebras —
o que se lembra e pulsa: fibras
vivas
de uma vara embrenhada no meio da água,
e à volta os planetas oscilam como folhas cantando
desde o abismo —
os dedos das mães nas linhas sangrentas que cosem
profundamente
o espelho e a imagem, como pelas artérias se cose
o coração
aos pedaços de carne, entre orifícios
negros, ressacas
fulgurantes, o corpo aberto com o centro estancado na terra.
1 219
Herberto Helder

Herberto Helder

Elegia Múltipla - Ii

Sobre o meu coração ainda vibram seus pés: a alta
formosura do ouro. E se acordo e me agito,
minha mão entreabre o subtil arbusto
de fogo — e eu estou imensamente vivo.
Se com a neve e o mosto dei ao tempo
a medida secreta, na minha vida tumultuam
os rostos mais antigos. Não sei
o que é a morte. Enchia com meu desejo
o vestíbulo da primavera, eu próprio me tornava uma árvore
abismada e cantante. E a beleza é uma chama
solitária, um dardo que atravessa
o sono doloroso. Nada sei dos mortos.
Deixaram em mim os pés sombrios, um súbito
fulgor de ausência. — De mim, vivo e ofegante,
sei uma flor de coral: delicada, vermelha.

Porque morrem assim no interior do vinho quando
se extasiam e cantam? Porque escurecem os ombros onde
as videiras se derramavam e subiam as escadas?
Uma um vão nascendo meus pensamentos
nocturnos, e eu digo: porque morrem
os que tinham a carne com seu peso e milagre e sorriam
sobre a mesa
como seres imortais?

E agora é a minha vida que assombrada se fecha.
A vida funda e selvagem. Porque um dia,
como se apaga a labareda de um cacho,
o brilho se apagará onde estava a minha letra.
Dançarei uma só vez em redor da taça,
festejando a última estação. Hoje
nada sei. Correm em mim os mortos, como água —
com o murmúrio gelado da sua incalculável ausência.

E digo: não refulgia a carne quando
a primavera inclinava a cabeça sobre a sua confusão?
Não dormiam junto ao mosto com lírios no pensamento?
Ei-los em mim, os mortos longos, e digo: se havia
tanto ouro dentro e fora deles, porque
se extinguiram?
Nada sei dos mortos.
Um dia hei-de ser como espuma absorta em volta
de um coração, e dele se erguerá uma onda de púrpura,
um amor terrível.

— Porque era de ouro firme, e ressoava.
628
Herberto Helder

Herberto Helder

Elegia Múltipla - Iii

Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada se sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.

Não havia animal que no seu pêlo brilhasse
assim na morte,
batendo nas ervas extasiadas por uma morte
tão bela.
Porque as ervas têm pálpebras abertas
sobre estas imagens tremendamente puras.

Pelo orvalho dentro.
De dia. De noite.
A sua cara batia nas candeias.
Batia nas coisas gerais da manhã.
Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.
Tomava alegria no pensamento
do orvalho. Corria.

Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.
Que têm os olhos cegos como sangue.
Este corria, assombrado.
Os mortos devem ser puros.
Ouvi dizer que respiram.
Correm pelo orvalho dentro, e depois
estendem-se. Ajudam os vivos.
São doces equivalências, luzes, ideias puras.
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar

— a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece

— como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
com uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia nos olhos das ervas
que fixam estas coisas puras.
Renascia.
1 164
Herberto Helder

Herberto Helder

Elegia Múltipla - Iv

Acolher de súbito cai no silêncio da língua.
Paro com a gelada imagem do tempo nos sentidos
puros. E sei que não é uma flor aberta
ou a noite cercada de águas extremas.
Paro por esta monstruosa,
ingénua força da morte.
—Acolher envolvida pelo silêncio extenuante
da minha boca, da minha vida.

Que faço? Bem sei como se alimenta um homem,
e tímido e arguto
alimenta a sua irónica inspiração solar,
a inocente astronomia
de ossos e estrelas, veias e flores
e órgãos genitais —
para que tudo se construa docemente,
com as mulheres sentadas nos seus vestidos coalhados,
sorrindo fixamente como as crianças na lírica,
tenebrosa densidade da carne.

A colher cheia de alimento. Era um jogo vivo,
manso, ponderado—uma
beleza evocativa e confusa.
Eis: sou um homem que instante a instante
ganhava um sabor de perene
sentido, uma duração de sombra extasiada,
laboriosa, inclinada no grave centro
da primavera — a sombra
das minhas mãos.

A colher subia como um instrumento da criação,
firme subia nos dedos
como que invocando, unindo os fragmentos
do espírito,
a mímica na sugerida integridade
da pessoa
colocada na doce integridade do tempo.
Mas paro. Cai no silêncio da língua
a colher que era — quem sabe? — música,
intimidade, sinal fortuito
de uma essência, um génio interior.

O puro roer devagar roerá
a colher na mão e a boca na colher,
e no sangue imóvel o pudor da imagem onde
coagulava a leve espessura das casas. Essas que ardiam
na assimetria festiva e sagaz das invenções.
— Cai
no silêncio da língua a colher tão brusca.
636
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Aparição Amorosa

Doce fantasma, por que me visitas
como em outros tempos nossos corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pele, convida
a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca
um beijo recebeu de rosto consumido.

Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
e aquele mesmo longo arquejo
em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.

Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.
Aperto... o quê? A massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.

Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.
Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma ideia platônica no espaço?

O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me, suave?
Nunca pensei que os mortos
o mesmo ardor tivessem de outros dias
e no-lo transmitissem com chupadas
de fogo aceso e gelo matizados.

Tua visita ardente me consola.
Tua visita ardente me desola.
Tua visita, apenas uma esmola.
1 156
Charles Bukowski

Charles Bukowski

De Um Cão Velho Em Seu Porre

ah, meu amigo, é terrível, pior
do que isso – você só vai
ficando bom –
uma garrafa virada e
vazia –
os poemas fervilhando na sua
cabeça
mas
a meio caminho entre os 60 e
os 70
você detém a mão
antes de abrir a
segunda garrafa –
às vezes
não abre
pois após 50 anos de
bebedeira pesada
você pode presumir
que essa garrafa adicional
vai te mandar
balbuciando para
uma casa de repouso
ou te conceder
um derrame
sozinho na sua
casa
os gatos mastigando a
sua carne
enquanto a névoa matinal
penetra pela tela
quebrada.

a gente nem pensa no
fígado
e se o fígado
não pensa na
gente, tudo
bem.

mas de fato parece
que quanto mais bebemos
tanto melhores as palavras
ficam.

a morte não importa
mas a derradeira inconveniência
da quase-morte é o pior dos
tormentos.

vou encerrar a noite
com
cerveja.
1 032
Herberto Helder

Herberto Helder

Elegia Múltipla - V

Não posso ouvir cantar tão friamente. Cantam
sobre a minha vida.
Trouxeram a taciturna pureza das grandes noites
do mundo.
Do antigo elemento do silêncio subiu essa canção
devastadora. Oh feroz mundo puro,
oh vida incomparável. Cantam, cantam.
Abro os olhos debaixo das águas silenciosas,
e vejo que a minha lembrança é mais remota
que tudo. Cantam friamente.
Não posso ouvir cantar.

Se dissessem: a tua vida é uma roseira. Vê
como bebe no anónimo da estação.
O sangue escorrega por ti quando é altura de rosas.
Ouve: não te maravilha
a subtileza de espinhos e folhas pequeníssimas?
— Se dissessem alguma coisa, eu ficaria rico
de um nome extremo.
Não cantem, não floresçam.
Não posso sentir encher-se assim a vida
como uma canção fria e uma roseira
tão espalhada em mim.

Pode ser que fosse ilesa esta época do ano,
e minha existência de repente se tomasse
por todo esse fervor.
Vejo minha ardente agudeza escoar-se até à maturidade
confluente
de um minuto de verão. — Estaria eu
completo para a morte?
Não, não cantem essa lembrança de tudo.
Nem roseira na sangrenta delicadeza
da carne, nem o verão com seus
símbolos de feroz plenitude.

Gostaria de pensar cada um dos meus dedos,
esta cítara descida dentro da obra.
Toda a tristeza como uma vida admirável
enchendo a eternidade.
As frias canções despovoam-me, e as roseiras
tornam desavindas as rosas
recuadas. Ouve: na tristeza do estio enorme
alui-se-me o uno sangue.
Eu próprio poderia cantar um nome masculino,
a minha vida inteira
tão forte e impura, tão preenchida pelo quente silêncio
do que se não sabe.

Não se canta e floresce. Ninguém
amadurece no meio da sua vida.
Toca-se lentamente uma parte suspensa do corpo,
e a alta tristeza purifica os dedos.
Porque um homem não é uma canção fria ou
uma roseira. Não
é um fruto como entre folhas inspiradoras.
Um homem vive uma profunda eternidade que se fecha
sobre ele, mas onde o corpo
arde para além de qualquer símbolo, sem alma e puro
como um sacrifício antigo.

— Por sobre frias canções e roseiras aterradoras,
minha carne ligada nutre o silêncio maravilhoso
de uma grande vida.

Pode ser que tudo esteja bem no plural
de um mundo intenso. Mas
o amor é outro poder, a carne
vive de sua absorta permanência. Esta vida
de que falo
não se escoa, não alimenta os superlativos
diários. E única
e perene sobre a escondida fluência
dos movimentos.

— Uma roseira, mesmo
incomparável, cobre tudo com a sua distracção vermelha.
Por detrás da noite de pendidas
rosas, a carne é triste e perfeita
como um livro.
1 066
Herberto Helder

Herberto Helder

(A Morte Própria)

E estás algures, em ilhas, selada pelo teu próprio brilho,
enquanto a terra me queima os dedos e os dedos
entram no coração como uma queimadura e o coração
propagado
é o incêndio na cabeça — às vezes
a cabeça não sabe que os pulmões arrastam
as labaredas do mundo como um grande buraco
de vozes: um rumor
de crepitações: uma força: uma rapidez
entre as formas — espelhos luzindo
atrás dos rostos: e tu levantas um braço:
trazes do fundo de tudo a raiz ainda viva de cada coisa:
uma constelação magnética entre os pés afastados
— eu vejo a tua morte no meu próprio movimento:
na chama correndo pela paisagem
fora, a paisagem
que ergues, que depois abandonas ao seu próprio espaço
de paisagem no tempo,
externa: atravessada por noites,
por luzes, transformações, ideias de quem vê,
pelos seus desenvolvimentos ocultos — vejo
que ressuscito no teu modo, essa espécie de estilo
ou energia,
quando casa e paisagem circulam como ilhas
numa torrente à volta —
e então o que tocas é esse teu mesmo coração cruzado
por imagens luxuosas: o filme aceso:
membranas do corpo rutilando à passagem dos astros de mármore —
e o teu rosto arranca-se à sombria gravidade
do fundo
da beleza, dos poderes terrestres e o peso
de tanta profundidade: e um instante explode
essa estrela embrenhada na minha cabeça, como
o coração se aprofunda, os dedos
puxam
as linhas de lume com que se cose a terra,
a fenda do seu sangue abismado — às vezes
o espelho é o meu próprio corpo,
a sua ferida: mas entre ilhas, sob
o que circula: espuma do ar, os cometas,
no sono sumptuoso
de animais
quase fixos, os rostos abertos aos raios dos nossos rostos,
aos nossos dedos que lhes chegam ao meio do coração —
porque tudo anda dentro de mim, e o mundo
esgota-se
no teu movimento entre laços
de sangue, cabelos luzindo, as pedras
inclinadas para os teus lugares respiradores: a árvore
crescendo a cada paragem, com toda a tua inspiração
na minha morte, aqui, uma árvore
combustível
onde a fruta faísca: paraíso de espaços múltiplos
e velozes,
entranhado em mim como se eu fosse a árvore
e tu fosses um espelho que a árvore despedaçasse pela sua força
e no espelho eu, como uma imagem, fosse despedaçado,
brilhando.


1978.
1 511
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Quem sabe se morrendo eu passarei

Quem sabe se morrendo eu passarei
Apenas para outro grau de ignorância
Outra forma do mesmo atroz mistério,
Outro e novo mistério e enfim o mesmo?
Se noutra espécie de outra terra eu for
Continuar a ignorância e o medo
Do Essencial? Assim deve ser
Porque a verdade deve ser o mais
Profundo que se pensa e não o menos,
O mais inexplicável, não o menos
E, fora do absurdo, o mais absurdo...

Ah, não morrer e não morrer nunca, ainda
Que me quebrassem dores todo o corpo
Que grão a grão de carne endurecida
Apodrecesse em mim... Tudo, tudo, tudo
Mas ficar-me a vida! Nunca ir
Ao encontro do abismo do Possível
Aonde apesar de tudo talvez haja
A Verdade...
Pode a Verdade Suma ser velada
Sempre para nós... E a morte revelar-nos
Outra qualquer Verdade falsa e eterna
Que seja um pavor toda e nada seja,
Mas seja tudo quanto eternamente
Possamos ver e ter... Oh horror, oh abismo
Ah ter que ir, que seguir, e ver ao fundo
Um fim de estrada, e um precipício e o som
Não sei de quê ao fundo!...
1 255
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

VICENTE: Todos, oh mestre, têm horror à morte...

[VICENTE]:
Todos, oh mestre, têm horror à morte...
                FAUSTO:
Ah não me ofendas com palavras vãs
O horror do pensamento. Ninguém
Como eu teve esse horror, nem poderá
Nas veias e na alma e no sangue
Tê-lo tão íntimo, tão internado
Tão feito um comigo.
                                Ah,
São as primeiras, únicas palavras
Em que a outro mostrei parte do ser.
Tu não as compreendeste, nem podias,
Nem nunca poderás. Tenta esquecer...
Nunca mais me ouvirás falar assim...
Estava ainda só comigo n'alma
E falava comigo respondendo-te.
Mas dize-me a que vinhas.
                [VICENTE]:
                                        Vinha... eu...
Eu vinha... ah... eu vinha procurar-vos
Para falar... nada... Já me retiro.
Estais febril, mestre, sim, sim, vejo bem
E os vossos olhos brilham não sei como,
Que...
                FAUSTO:
Dize.
                [VICENTE]:
        Que...
                FAUSTO:
       O quê?
                [VICENTE]:
        Que me apavora.
                FAUSTO:
Escuta, aproxima-te, é a primeira
Vez que direi o que te digo. Tu
Não compreenderás talvez ainda,
Nem nunca... a essência do que digo
Nunca, ai nunca. Escuta-me Vicente,
São as últimas palavras que direi.
Não compreendes isto,
Não tomes susto. Escuta.
                                        O mundo
Encerra um sonho como realidade
E em cada seu fragmento — não me entendes (
Vive todo.
Interpenetração de (...)
E complexos mistérios desconhecidos.
As figuras de sonho não conhecem
O sonho (...) de quem são figuras,
Porque o mundo não só é (...) sonhado
Mas é dentro dum sonho um outro sonho
Em que sonhados são os sonhadores
Também. Tu compreendes?
                [VICENTE]:
                                        Vagamente.
                FAUSTO:
Possas tu sempre assim compreender
Como todos na terra que existiram
Menos um.
                [VICENTE]:
                Cristo?
                FAUSTO:
                           Cristo? Quem é Cristo?
Ah ri-te, ri-te desta distracção,
Desta pergunta minha, de alheado
Que ando do meu próprio ver e ouvir
Feito. Deixemos isto, pois Lembra-me
Uma cousa a que podes responder.
Diz-me que pensas
Do orgulho? De imperadores, reis
E príncipes da terra e seu orgulho?
Que pensas?
                [VICENTE]:
                        Eu? Do orgulho? Julgo-o vão.
                FAUSTO:
Todo o orgulho vão?
                [VICENTE]:
                                Todo o orgulho.
Assim mo ensinaram, assim creio
E assim razoável me parece.
                FAUSTO:
Mas o orgulho do génio, desse que sente
Retratar-se no espírito soturno
A ilusão de existir definida
Em mistérios e abismos e visões?
E o desse?
                [VICENTE]:
                O talento é dom de Deus.
Não sei que orgulho haverá em tê-lo
Como se fora cousa produzida
Pelo próprio. Por que quereis saber?
                FAUSTO:
Eu? Nada. O talento é dom de Deus.
E o orgulho não é dom de Deus?
                [VICENTE]:
Por, parecendo humano que é nascido
Da vã contemplação, como direi?
Da maravilha de si mesmo. Eu,
Se fosse talentoso — não o sou (
A Deus diariamente o agradecia.
Dar-me-ia prazer, mas não orgulho.
                FAUSTO:
Bem agradeço-te. Deixa-me agora.
Preciso de pensar Lembrou-me súbito
Uma cousa... Logo te verei.
Continuaremos.
                [VICENTE]:
                        Mestre, até então.
                FAUSTO: (só)
Em todo os raciocínios em que vivo
Aquele (...) nunca fizera.
Como aquelas palavras me feriram!
Sim, por que ter orgulho — para quê?
Mas — ah, quantos problemas e mistérios
Essas palavras dum inconsciente
Me abrem no pensamento. Que intenso
Atropelar de (...) e teorias
De raciocínios, conclusões d'espírito
Mal geradas dentro em mim,
Não poder apagar este tormento;
Não poder despegar-me deste ser;
Não poder esquecer-me desta vida...
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