Poemas neste tema
Morte e Luto
Humberto de Campos
Pero Coelho
(Descobridor do Ceará)
Na umidade do cárcere de Olinda
— Enjaulado jaguar que a vida acaba
Lembrando a selva rumorosa e linda —
Sonha o conquistador da Ibiapaba.
O sonho é o resto da jornada: é a vinda;
E a morte; é a sede; é o desespero; a taba
Toda investindo. A terra em fogo. Um baba;
Outro cai; outro fica; outro se finda...
Dois filhos morrem nos seus braços: vede!
E nem, sequer, irmão de Agar, tem perto,
Nos olhos água que lhes mate a sede!
E, ao fim de tudo, acusações e gritas...
Ah! por que não tombara no Deserto
Abraçado com os seus israelitas!?...
Na umidade do cárcere de Olinda
— Enjaulado jaguar que a vida acaba
Lembrando a selva rumorosa e linda —
Sonha o conquistador da Ibiapaba.
O sonho é o resto da jornada: é a vinda;
E a morte; é a sede; é o desespero; a taba
Toda investindo. A terra em fogo. Um baba;
Outro cai; outro fica; outro se finda...
Dois filhos morrem nos seus braços: vede!
E nem, sequer, irmão de Agar, tem perto,
Nos olhos água que lhes mate a sede!
E, ao fim de tudo, acusações e gritas...
Ah! por que não tombara no Deserto
Abraçado com os seus israelitas!?...
1 311
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Maria Natália Teotónio Pereira
Aquela que tanto amou
O sol e o vento da canção
Agora jaz no silêncio terrestre
Oculta na ressurreição
Porque em seu viver nascia
Porque estando era procura
Sua imagem permanece
Não passada mas futura
Sempre que rio e confio
E passo além do meu pranto
A sua presença irrompe
Erguida em nós como canto
Aquela que agora jaz
Como semente no chão
Ergue no vento seu riso
Transpõe a destruição
O sol e o vento da canção
Agora jaz no silêncio terrestre
Oculta na ressurreição
Porque em seu viver nascia
Porque estando era procura
Sua imagem permanece
Não passada mas futura
Sempre que rio e confio
E passo além do meu pranto
A sua presença irrompe
Erguida em nós como canto
Aquela que agora jaz
Como semente no chão
Ergue no vento seu riso
Transpõe a destruição
2 203
1
Carlos Drummond de Andrade
O Andar
O andar é lento porque é lento
desde lentos tempos de antanho.
Se alguém corre, fica marcado
infrator da medida justa.
É o lento passo dos enterros,
como é o passo dos casamentos.
O pausado som das palavras.
O tranquilo abrir de uma carta.
Há lentidão em dar o leite
da lenta mama a um sem pressa
neném que mama lentamente,
na lenta espera de um destino.
Não é lenta a vida. A vida é ritmo
assim de bois e de pessoas,
no andar que convém andar
como sugere a eternidade.
desde lentos tempos de antanho.
Se alguém corre, fica marcado
infrator da medida justa.
É o lento passo dos enterros,
como é o passo dos casamentos.
O pausado som das palavras.
O tranquilo abrir de uma carta.
Há lentidão em dar o leite
da lenta mama a um sem pressa
neném que mama lentamente,
na lenta espera de um destino.
Não é lenta a vida. A vida é ritmo
assim de bois e de pessoas,
no andar que convém andar
como sugere a eternidade.
1 737
1
Arthur Rimbaud
OS CORVOS
Senhor, quando os campos são frios
E nos povoados desnudos
Os longos ângelus são mudos...
Sobre os arvoredos vazios
Fazei descer dos céus preciosos
Os caros corvos deliciosos.
Hoste estranha de gritos secos
Ventos frios varrem nossos ninhos!
Vós, ao longo dos rios maninhos,
Sobre os calvários e seus becos,
Sobre as fossas, sobre os canais,
Dispersai-vos e ali restais.
Aos milhares, nos campos ermos,
Onde há mortos recém-sepultos,
Girai, no inverno, vossos vultos
Para cada um de nós vos vermos,
Sede a consciência que nos leva,
Ó funerais aves das trevas!
Mas, anjos do ar, no alto da fronde,
Mastros sem fim que os céus encantam,
Deixai os pássaros que cantam
Aos que no breu do bosque esconde,
Lá, onde o escuro é mais escuro,
Uma derrota sem futuro.
E nos povoados desnudos
Os longos ângelus são mudos...
Sobre os arvoredos vazios
Fazei descer dos céus preciosos
Os caros corvos deliciosos.
Hoste estranha de gritos secos
Ventos frios varrem nossos ninhos!
Vós, ao longo dos rios maninhos,
Sobre os calvários e seus becos,
Sobre as fossas, sobre os canais,
Dispersai-vos e ali restais.
Aos milhares, nos campos ermos,
Onde há mortos recém-sepultos,
Girai, no inverno, vossos vultos
Para cada um de nós vos vermos,
Sede a consciência que nos leva,
Ó funerais aves das trevas!
Mas, anjos do ar, no alto da fronde,
Mastros sem fim que os céus encantam,
Deixai os pássaros que cantam
Aos que no breu do bosque esconde,
Lá, onde o escuro é mais escuro,
Uma derrota sem futuro.
3 838
1
Marigê Quirino Marchini
Sonetos do Imperfeito
- I -
Nuns altos patamares me encontrava
a contemplar por prados florescentes
perfeito Amor, que embaixo lá brincava,
num vau de rio e sol, ambos candentes;
e enquanto a face em mãos eu descansava,
e desejando não me olhasse Amor,
num riso cristalino me chamando
ele atravessa em mim seu dardo em flor.
Florida estou então, e repartida
em duas que se alongam, distanciam:
uma nos patamares pensa e escreve,
outra, suave ardor se vê, e dá
o amor de Amor em prados tão solares,
partida em riso cristalino e breve.
- III -
Viver assim me acalma e aterroriza:
uma se faz silêncio, a outra grita,
uma se erguendo a outra tomba morta,
uma está salva, a outra enferma viva.
E duas almas Amor faz e eterniza;
enquanto uma nos altos patamares
estuda, lê, trabalha e já agoniza,
outra, louca e serena em seus cantares,
greco-romana em dias preteridos,
sobre as sebes gramadas dos sentidos
reparte a paz em ti, para aprenderes:
a vida é curta espera para a morte,
os sentidos são fontes dos prazeres
- tempo é o Amor, que ri e arromba a sorte.
- IV -
Não sei de mim o que será eterno
depois que Amor deixar seu reino claro
e a outros indo me fizer inverno,
este que faz de flores gelo amaro.
Uma se vai e a outra já retorna,
almas que têm em mim o seu alento;
meu reinado, de paz em guerra, as torna
irmãs gêmeas em mútuo desalento.
E quando (eu já sozinha) tu tiveres
comigo, Amor, só o laço da lembrança,
e onde em longos encontros estiveres,
lembra também que um dia me floriste
- e o que fizeste um dia em tua cobrança
paga os juros na morte que assistires.
Nuns altos patamares me encontrava
a contemplar por prados florescentes
perfeito Amor, que embaixo lá brincava,
num vau de rio e sol, ambos candentes;
e enquanto a face em mãos eu descansava,
e desejando não me olhasse Amor,
num riso cristalino me chamando
ele atravessa em mim seu dardo em flor.
Florida estou então, e repartida
em duas que se alongam, distanciam:
uma nos patamares pensa e escreve,
outra, suave ardor se vê, e dá
o amor de Amor em prados tão solares,
partida em riso cristalino e breve.
- III -
Viver assim me acalma e aterroriza:
uma se faz silêncio, a outra grita,
uma se erguendo a outra tomba morta,
uma está salva, a outra enferma viva.
E duas almas Amor faz e eterniza;
enquanto uma nos altos patamares
estuda, lê, trabalha e já agoniza,
outra, louca e serena em seus cantares,
greco-romana em dias preteridos,
sobre as sebes gramadas dos sentidos
reparte a paz em ti, para aprenderes:
a vida é curta espera para a morte,
os sentidos são fontes dos prazeres
- tempo é o Amor, que ri e arromba a sorte.
- IV -
Não sei de mim o que será eterno
depois que Amor deixar seu reino claro
e a outros indo me fizer inverno,
este que faz de flores gelo amaro.
Uma se vai e a outra já retorna,
almas que têm em mim o seu alento;
meu reinado, de paz em guerra, as torna
irmãs gêmeas em mútuo desalento.
E quando (eu já sozinha) tu tiveres
comigo, Amor, só o laço da lembrança,
e onde em longos encontros estiveres,
lembra também que um dia me floriste
- e o que fizeste um dia em tua cobrança
paga os juros na morte que assistires.
761
1
Mário Donizete Massari
Arabela
A TARDE É BELA
A VIDA É BELA
ARABELA É BELA
Um velho leva a vela
Arabela é ainda mais bela
com o rosto iluminado
pela vela
Um velho leva a vela
no enterro de Arabela
A VIDA É BELA
ARABELA É BELA
Um velho leva a vela
Arabela é ainda mais bela
com o rosto iluminado
pela vela
Um velho leva a vela
no enterro de Arabela
1 197
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Eis Que Morreste. Mortalmente Triste
Eis que morreste. Mortalmente triste
Divaga a flor da aurora entre os teus dedos
E o teu rosto ficou entre as estátuas
Velado até que o novo dia nasça.
Se nenhum amor pode ser perdido
Tu renascerás — mas quando?
Pode ser que primeiro o tempo gaste
A frágil substância do meu sono.
Divaga a flor da aurora entre os teus dedos
E o teu rosto ficou entre as estátuas
Velado até que o novo dia nasça.
Se nenhum amor pode ser perdido
Tu renascerás — mas quando?
Pode ser que primeiro o tempo gaste
A frágil substância do meu sono.
2 058
1
Augusto dos Anjos
Agonia de um filósofo
Consulto o Phtah-Hotep. Leio o obsoleto
Rig-Veda. E, ante obras tais, não me consolo...
O Inconsciente me assombra e eu nele rolo
Com a eólica fúria do harmatã inquieto!
Assisto agora à morte de um inseto!...
ah! todos os fenômenos do solo
Parecem realizar de pólo a pólo
O ideal de Anaximandro de Mileto!
No hierático areópago heterogêneo
Das idéias, percorro como um gênio
Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!...
Rasgo dos mundos o velário espesso;
E em tudo, igual a Goethe, reconheço
O império da substância universal!
Rig-Veda. E, ante obras tais, não me consolo...
O Inconsciente me assombra e eu nele rolo
Com a eólica fúria do harmatã inquieto!
Assisto agora à morte de um inseto!...
ah! todos os fenômenos do solo
Parecem realizar de pólo a pólo
O ideal de Anaximandro de Mileto!
No hierático areópago heterogêneo
Das idéias, percorro como um gênio
Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!...
Rasgo dos mundos o velário espesso;
E em tudo, igual a Goethe, reconheço
O império da substância universal!
6 528
1
Dante Milano
Terra de Ninguém
A sala recende
A terra molhada,
A caule úmido e raiz apodrecida.
As flores sobre o cadáver
Contraem pétalas enregeladas.
A figura de cera no caixão bordado
Sorri como um cego sorri
Com ar de náusea.
Os convidados expandem uma tristeza festiva.
O defunto recusa
Qualquer comunicação com a humanidade
Que lhe é de todo indiferente agora.
(Ele que morreu "pela Causa" e recebe honras fúnebres.)
Em sua torre de marfim,
Sob o céu absoluto da paisagem devastada,
Reina, altivo. (Há coroas, há bendeiras na sala.)
Passante! descobre-te e não rias,
Respeita a morte e o fedor se sua glória.
A terra molhada,
A caule úmido e raiz apodrecida.
As flores sobre o cadáver
Contraem pétalas enregeladas.
A figura de cera no caixão bordado
Sorri como um cego sorri
Com ar de náusea.
Os convidados expandem uma tristeza festiva.
O defunto recusa
Qualquer comunicação com a humanidade
Que lhe é de todo indiferente agora.
(Ele que morreu "pela Causa" e recebe honras fúnebres.)
Em sua torre de marfim,
Sob o céu absoluto da paisagem devastada,
Reina, altivo. (Há coroas, há bendeiras na sala.)
Passante! descobre-te e não rias,
Respeita a morte e o fedor se sua glória.
1 236
1
Luiz de Miranda
Ferramentas do Tempo
a Lígia Averbuck
Ferramentas do tempo
feito luz de manhã aberta
luzindo à sombra da porta
do próprio corpo
armas luzindo na noite morta
junto aos cadáveres do sonho
e o vento jogando
mundos indecifráveis no ar
Tento reduzir a sina
reduzir o sinal
luzir no fundo da morte
tua presença
Tento reluzir
na pálpebra do verão
no ombro da tarde
e escorre alegria
na alameda fechada do dia
E tudo são papéis, poeira
fiapos de lembrança
pedaços da própria carne
e tudo arde no ar
à luz desamparada das coisas envelhecidas
Ferramentas do tempo
trazem lampiões lamparinas incêndios
trazem o fogo de dentro
da terra e do corpo
a repor memória ao companheiro morto
Publicado no livro Estado de alerta (1981).
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.298-29
Ferramentas do tempo
feito luz de manhã aberta
luzindo à sombra da porta
do próprio corpo
armas luzindo na noite morta
junto aos cadáveres do sonho
e o vento jogando
mundos indecifráveis no ar
Tento reduzir a sina
reduzir o sinal
luzir no fundo da morte
tua presença
Tento reluzir
na pálpebra do verão
no ombro da tarde
e escorre alegria
na alameda fechada do dia
E tudo são papéis, poeira
fiapos de lembrança
pedaços da própria carne
e tudo arde no ar
à luz desamparada das coisas envelhecidas
Ferramentas do tempo
trazem lampiões lamparinas incêndios
trazem o fogo de dentro
da terra e do corpo
a repor memória ao companheiro morto
Publicado no livro Estado de alerta (1981).
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.298-29
1 541
1
Tenreiro Aranha
Soneto
À parda Maria Bárbara, mulher de um soldado,
cruelmente assassinada, porque preferiu a morte
à mancha de adúltera.
Se acaso aqui topares, caminhante,
Meu frio corpo já cadáver feito,
Leva piedoso com sentido aspeito
Esta nova ao esposo aflito, errante ...
Diz-lhe como de ferro penetrante
Me viste por fiel cravado o peito,
Lacerado, insepulto, e já sujeito
O tronco feio ao corvo altivolante:
Que dum monstro inumano, lhe declara,
A mão cruel me trata desta sorte;
Porém que alívio busque a dor amara
Lembrando-se que teve uma consorte,
Que, por honrada fé que lhe jurara,
À mancha conjugal prefere a morte.
cruelmente assassinada, porque preferiu a morte
à mancha de adúltera.
Se acaso aqui topares, caminhante,
Meu frio corpo já cadáver feito,
Leva piedoso com sentido aspeito
Esta nova ao esposo aflito, errante ...
Diz-lhe como de ferro penetrante
Me viste por fiel cravado o peito,
Lacerado, insepulto, e já sujeito
O tronco feio ao corvo altivolante:
Que dum monstro inumano, lhe declara,
A mão cruel me trata desta sorte;
Porém que alívio busque a dor amara
Lembrando-se que teve uma consorte,
Que, por honrada fé que lhe jurara,
À mancha conjugal prefere a morte.
1 531
1
Silvaney Paes
Moribundo diante de um Padre
Conhecendo
mais à dor...
Dela, devo tirar-lhe pálidos goles de gozo
E delirar em derradeiros instantes de riso,
Para que vossas piedosas intenções
Restem guardadas para uma outra alma,
Alienada de vosso rabanho.
E desde já,
Abro mão de ocultas baixezas,
Pois que declaro, sempre desejei
Fosse a vossa hora antes da minha.
E nada podeis ofertar a este moribundo...
Haja que, de nada mais careço.
Como crer em vosso falhado Deus Cristão?
Ele já foi a ilusão temporã deste peregrino
E por isso fui falhado homem de falhada sorte,
Mas, se agora me falha teimosa fibra,
Que dantes conduzia ralo líquido em mim,
Não haverá de falhar-me a morte onde falhou-me a vida.
E careço somente nela crer por ora.
Se neste instante derradeiro,
Em achando que blasfemo contra vosso senhor,
Pois que, lhe encomende o somatório de minhas faltas
E que profira zangada sentença.
Já cumpri todas as penas,
Nos meus cotidianos infernos e purgatórios,
Bem diante de vossos cegos olhos e surdos ouvidos
mais à dor...
Dela, devo tirar-lhe pálidos goles de gozo
E delirar em derradeiros instantes de riso,
Para que vossas piedosas intenções
Restem guardadas para uma outra alma,
Alienada de vosso rabanho.
E desde já,
Abro mão de ocultas baixezas,
Pois que declaro, sempre desejei
Fosse a vossa hora antes da minha.
E nada podeis ofertar a este moribundo...
Haja que, de nada mais careço.
Como crer em vosso falhado Deus Cristão?
Ele já foi a ilusão temporã deste peregrino
E por isso fui falhado homem de falhada sorte,
Mas, se agora me falha teimosa fibra,
Que dantes conduzia ralo líquido em mim,
Não haverá de falhar-me a morte onde falhou-me a vida.
E careço somente nela crer por ora.
Se neste instante derradeiro,
Em achando que blasfemo contra vosso senhor,
Pois que, lhe encomende o somatório de minhas faltas
E que profira zangada sentença.
Já cumpri todas as penas,
Nos meus cotidianos infernos e purgatórios,
Bem diante de vossos cegos olhos e surdos ouvidos
700
1
Lúcio Cardoso
Poema do ferro e do sangue
Esqueceram os campos revolvidos
onde vegetam perdidos
os ossos obscuros
calcinados
de dez milhões de mortos.
Esqueceram as cruzes improvisadas
erguendo para o alto
preces de galhos retorcidos.
E esqueceram o rumor das granadas
revolvendo a terra e os vivos
devorando os mortos
destruindo.
onde vegetam perdidos
os ossos obscuros
calcinados
de dez milhões de mortos.
Esqueceram as cruzes improvisadas
erguendo para o alto
preces de galhos retorcidos.
E esqueceram o rumor das granadas
revolvendo a terra e os vivos
devorando os mortos
destruindo.
960
1
Edgard Braga
na minha luva de ouro
na minha luva de ouro na minha luva de prata
escondi raças e povos escondi minha vergonha
na minha luva de pedra
escondi a minha morte
na minha luva de ferro
escondi o meu silêncio
cavaleiro cavaleiro cavaleiro cavaleiro
joga tua luva ao vento joga tua luva ao vento
cavaleiro cavaleiro
joga tua luva ao vento
cavaleiro cavaleiro
guarda tua luva
e
vento
In: BRAGA, Edgard. Desbragada. Org. Régis Bonvicino. São Paulo: M. Limonad, 1984
escondi raças e povos escondi minha vergonha
na minha luva de pedra
escondi a minha morte
na minha luva de ferro
escondi o meu silêncio
cavaleiro cavaleiro cavaleiro cavaleiro
joga tua luva ao vento joga tua luva ao vento
cavaleiro cavaleiro
joga tua luva ao vento
cavaleiro cavaleiro
guarda tua luva
e
vento
In: BRAGA, Edgard. Desbragada. Org. Régis Bonvicino. São Paulo: M. Limonad, 1984
1 282
1
Moreira Campos
Bruma
Chovia.
A pequena estação.
Meu acanhamento adolescente
diante do mal que consumia meu pai.
Quase como se pedisse desculpas,
me escusasse diante dos olhos curiosos
que lhe surpreendiam e seguiam a ruína.
Os grandes ossos a furar-lhe o paletó de brim,
a devastação da face,
o brilho febril de suas órbitas profundas.
O acesso de tosse,
a sua ânsia,
o lenço,
possivelmente manchado de vermelho.
A lembrança sobretudo do seu pobre e inútil guarda-chuva.
Deixava-o ali para a tentativa impossível de uma cura na serra.
Talvez sua mão (sua descarnada mão)
tivesse pousado de leve sobre a minha cabeça.
Sua última imagem se dilui
nas gotas dágua que caíam lentas do beiral da estação
(da pequena estação).
Restou-me de tudo, e para sempre,
a mágoa daquele acanhamento adolescente,
do meu vexame,
do meu quase pedido de desculpas aos curiosos.
Quando chegam as primeiras águas,
fragmento-me no tempo,
e sou bruma.
A pequena estação.
Meu acanhamento adolescente
diante do mal que consumia meu pai.
Quase como se pedisse desculpas,
me escusasse diante dos olhos curiosos
que lhe surpreendiam e seguiam a ruína.
Os grandes ossos a furar-lhe o paletó de brim,
a devastação da face,
o brilho febril de suas órbitas profundas.
O acesso de tosse,
a sua ânsia,
o lenço,
possivelmente manchado de vermelho.
A lembrança sobretudo do seu pobre e inútil guarda-chuva.
Deixava-o ali para a tentativa impossível de uma cura na serra.
Talvez sua mão (sua descarnada mão)
tivesse pousado de leve sobre a minha cabeça.
Sua última imagem se dilui
nas gotas dágua que caíam lentas do beiral da estação
(da pequena estação).
Restou-me de tudo, e para sempre,
a mágoa daquele acanhamento adolescente,
do meu vexame,
do meu quase pedido de desculpas aos curiosos.
Quando chegam as primeiras águas,
fragmento-me no tempo,
e sou bruma.
1 321
1
Mário Faustino
Sinto que o Mês Presente Me Assassina
Sinto que o mês presente me assassina,
As aves atuais nasceram mudas
E o tempo na verdade tem domínio
sobre homens nus ao sul das luas curvas.
Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de um cristo preso,
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina.
Sinto que o mês presente me assassina
E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas
De apóstolos marujos que me arrastam
Ao longo da corrente onde blasfemas
Gaivotas provam peixes de milagre.
Sinto que o mês presente me assassina,
Há luto nas rosáceas desta aurora,
Há sinos de ironia em cada hora
(Na libra escorpiões pesam-me a sina)
Há panos de imprimir a dura face
À força de suor, de sangue e chaga.
Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos.
O tempo na verdade tem domínio
Amen, amen vos digo, tem domínio
E ri do que desfere verbos, dardos
De falso eterno que retornam para
Assassinar-nos num mês assassino.
As aves atuais nasceram mudas
E o tempo na verdade tem domínio
sobre homens nus ao sul das luas curvas.
Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de um cristo preso,
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina.
Sinto que o mês presente me assassina
E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas
De apóstolos marujos que me arrastam
Ao longo da corrente onde blasfemas
Gaivotas provam peixes de milagre.
Sinto que o mês presente me assassina,
Há luto nas rosáceas desta aurora,
Há sinos de ironia em cada hora
(Na libra escorpiões pesam-me a sina)
Há panos de imprimir a dura face
À força de suor, de sangue e chaga.
Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos.
O tempo na verdade tem domínio
Amen, amen vos digo, tem domínio
E ri do que desfere verbos, dardos
De falso eterno que retornam para
Assassinar-nos num mês assassino.
3 179
1
Manuel Sérgio
Senhor
Senhor
Quando eu morrer
(De tanto viver)
Coloca-me
Entre os que não
Te conheceram
E Te procuraram
De olhos magoados
Como pedaços da tarde
Entre os náufragos perdidos
Na cerração
Da vida
Coloca-me
Ao lado dos que foram pisados
Como as pedras da rua
E desprezados
No meio de armas e silêncios
E mesmo assim
Junto às margens de um cais
Foram esperando
Com marcas de certezas na alma
Como rastos de pés na areia
Senhor
Eu que abraço
Como quem Te comunga
Que não sei bater
A não ser
Com látegos feitos da luz da lua
Que mantenho os mesmos olhos de criança
Para ver diferente
Senhor
Sou por certo dos Teus
Senhor
Eu que em espaços úmidos
De ternura incorrupta
Beijei seios túmidos
E lábios
Que eram flores vermelhas ofegantes
Que me desfiz em mil acenos
A chamar
Senhor
Sou por certo dos Teus
Mas nem assim hesites um só instante
Em colocar-me
Ao lado dos que não Te conheceram
E Te procuraram
E deixa-me continuar
O mensageiro inquieto
Da Esperança perseguida
Inventada
E por uma grande coragem
Fecundada
Quando eu morrer
(De tanto viver)
Coloca-me
Entre os que não
Te conheceram
E Te procuraram
De olhos magoados
Como pedaços da tarde
Entre os náufragos perdidos
Na cerração
Da vida
Coloca-me
Ao lado dos que foram pisados
Como as pedras da rua
E desprezados
No meio de armas e silêncios
E mesmo assim
Junto às margens de um cais
Foram esperando
Com marcas de certezas na alma
Como rastos de pés na areia
Senhor
Eu que abraço
Como quem Te comunga
Que não sei bater
A não ser
Com látegos feitos da luz da lua
Que mantenho os mesmos olhos de criança
Para ver diferente
Senhor
Sou por certo dos Teus
Senhor
Eu que em espaços úmidos
De ternura incorrupta
Beijei seios túmidos
E lábios
Que eram flores vermelhas ofegantes
Que me desfiz em mil acenos
A chamar
Senhor
Sou por certo dos Teus
Mas nem assim hesites um só instante
Em colocar-me
Ao lado dos que não Te conheceram
E Te procuraram
E deixa-me continuar
O mensageiro inquieto
Da Esperança perseguida
Inventada
E por uma grande coragem
Fecundada
850
1
Daniel Faria
Estranho é o sono
Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
de quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
de quem já só por dentro se ilumina
e surpreende
e por fora é
apenas peso de ser tarde. Como é
amargo não poder guardar-te
em chão mais próximo do coração.
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
Como é estrangeiro o sossego
de quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
de quem já só por dentro se ilumina
e surpreende
e por fora é
apenas peso de ser tarde. Como é
amargo não poder guardar-te
em chão mais próximo do coração.
de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
2 191
1
Ana Cristina Cesar
Protuberância
Este sorriso
que muitos chamam de boca
É antes um chafariz, uma coisa louca
Sou amativa antes de tudo
Embora o mundo me condene
Devo falar em nariz(as pontas rimam por dentro)
Se nos determos amanhã
Pelo menos não haverá necessidades frugais nos espreitando
Quem me emprestar seu peito ma madrugada
E me consolar, talvez tal vez me ensine um assobio
Não sei se me querem, escondo-me sem impasses
E repitamos a amadora sou
Armadora decerto atrás das portas
Não abro para ninguém, e se a pena é lépida, nada me detém
É sem dúvida inútil o chuvisco de meus olhos
O círculo se abre em circunferências concêntricas que se
Fecham sobre si mesmas
No ano 2001 terei (2001-1952=) 49 anos e serei uma rainha
Rainha de quem, quê, não importa
E se eu morrer antes disso
Não verei a lua mais de perto
Talvez me irrite pisar no impisável
E a morte deve ser muito mais gostosa
Recheada com marchemélou
Uma lâmpada queimada me contempla
Eu dentro do templo chuto o tempo
Um palavra me delineia
VORAZ
E em breve a sombra se dilui,
Se perde o anjo.
que muitos chamam de boca
É antes um chafariz, uma coisa louca
Sou amativa antes de tudo
Embora o mundo me condene
Devo falar em nariz(as pontas rimam por dentro)
Se nos determos amanhã
Pelo menos não haverá necessidades frugais nos espreitando
Quem me emprestar seu peito ma madrugada
E me consolar, talvez tal vez me ensine um assobio
Não sei se me querem, escondo-me sem impasses
E repitamos a amadora sou
Armadora decerto atrás das portas
Não abro para ninguém, e se a pena é lépida, nada me detém
É sem dúvida inútil o chuvisco de meus olhos
O círculo se abre em circunferências concêntricas que se
Fecham sobre si mesmas
No ano 2001 terei (2001-1952=) 49 anos e serei uma rainha
Rainha de quem, quê, não importa
E se eu morrer antes disso
Não verei a lua mais de perto
Talvez me irrite pisar no impisável
E a morte deve ser muito mais gostosa
Recheada com marchemélou
Uma lâmpada queimada me contempla
Eu dentro do templo chuto o tempo
Um palavra me delineia
VORAZ
E em breve a sombra se dilui,
Se perde o anjo.
2 883
1
Alphonsus de Guimaraens
L - Filhos
O amor, a cada filho, se renova.
Mesmo no inverno, brilha a primavera...
E o coração dos pais, sedento, prova
O néctar suave de quem tudo espera.
Vai-se a lua, e vem outra lua nova...
Ai! os filhos... (e quem os não quisera?)
São frutos que criamos para a cova.
Melhor fora que Deus no-los não dera.
Frutos de beijos e de abraços, frutos
Dos instantes fugazes, voluptuosos,
Rosário interminável de noivados...
Filhos... São flores para velhos lutos.
Por que Jesus nos fez tão venturosos,
Para sermos depois tão desgraçados?
Publicado no livro Poesias (1938). Poema integrante da série Sonetos / Pulvis.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 355. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
Mesmo no inverno, brilha a primavera...
E o coração dos pais, sedento, prova
O néctar suave de quem tudo espera.
Vai-se a lua, e vem outra lua nova...
Ai! os filhos... (e quem os não quisera?)
São frutos que criamos para a cova.
Melhor fora que Deus no-los não dera.
Frutos de beijos e de abraços, frutos
Dos instantes fugazes, voluptuosos,
Rosário interminável de noivados...
Filhos... São flores para velhos lutos.
Por que Jesus nos fez tão venturosos,
Para sermos depois tão desgraçados?
Publicado no livro Poesias (1938). Poema integrante da série Sonetos / Pulvis.
In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 355. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
5 181
1
H. Masuda Goga
Primavera
Um bem-te-vi na árvore,
canta e canta sem descanso:
outro canto ao longe.
Por sobre o gramado,
as borboletas em bando,
um caixão chegando...
Inúmeras flores
nos túmulos de finados
— na alma só saudade...
canta e canta sem descanso:
outro canto ao longe.
Por sobre o gramado,
as borboletas em bando,
um caixão chegando...
Inúmeras flores
nos túmulos de finados
— na alma só saudade...
1 009
1
Renata Pallottini
Salvo
Salvo
a falácia da queda e o seu após
nada tenho a constatar
do que caiu sobre nós.
Digo-te qual suponho:
o que passou, passou.
Não ponho sobre ti o peso do meu sonho,
nem do que velo, nem do que findou.
Salvo a falácia do erro
tudo o mais fui eu:
quem nasceu e se pôs de pé,
quem cresceu e não cresceu,
quem humilhou e perdoou,
quem finalmente morreu
e hoje chora ao pé da cova
pelo dorido do que aconteceu.
a falácia da queda e o seu após
nada tenho a constatar
do que caiu sobre nós.
Digo-te qual suponho:
o que passou, passou.
Não ponho sobre ti o peso do meu sonho,
nem do que velo, nem do que findou.
Salvo a falácia do erro
tudo o mais fui eu:
quem nasceu e se pôs de pé,
quem cresceu e não cresceu,
quem humilhou e perdoou,
quem finalmente morreu
e hoje chora ao pé da cova
pelo dorido do que aconteceu.
1 549
1
José Craveirinha
Carreira de Gaza
Escusado fazer pontaria.
Chusmas de rajadas acertam sempre.
Povo armado de maternitude e velhice
esgota a lotação das carreiras de Gaza
rumo à saudade de onde saiu.
Objectivo estratégico de maternitude
machibombo da carreira de Gaza
atingido em cheio calcinou.
A mãe que dava o peito ao bebé de três meses
foi removida assim mesmo.
Chusmas de rajadas acertam sempre.
Povo armado de maternitude e velhice
esgota a lotação das carreiras de Gaza
rumo à saudade de onde saiu.
Objectivo estratégico de maternitude
machibombo da carreira de Gaza
atingido em cheio calcinou.
A mãe que dava o peito ao bebé de três meses
foi removida assim mesmo.
3 609
1
Pedro de Alcântara
Soneto
Não maldigo o rigor da iníqua sorte,
Por mais atroz que seja e sem piedade,
Arrancando-me o trono e a majestade
Quando a dois passos só estou da morte!
Do pego das paixões minha alma forte
Conhece a fundo a triste realidade,
Pois se agora nos dá felicidade
Amanhã tira o bem, que nos conforte.
Mas a dor que excrucia, a que maltrata,
A dor cruel que o ânimo deplora
Que fere o coração e quase o mata,
É ver da mão fugir à extrema hora
A mesma boca lisonjeira e ingrata
Que tantos beijos nela pôs outrora!
Por mais atroz que seja e sem piedade,
Arrancando-me o trono e a majestade
Quando a dois passos só estou da morte!
Do pego das paixões minha alma forte
Conhece a fundo a triste realidade,
Pois se agora nos dá felicidade
Amanhã tira o bem, que nos conforte.
Mas a dor que excrucia, a que maltrata,
A dor cruel que o ânimo deplora
Que fere o coração e quase o mata,
É ver da mão fugir à extrema hora
A mesma boca lisonjeira e ingrata
Que tantos beijos nela pôs outrora!
1 257
1