Poemas neste tema

Morte e Luto

Eunaldo Costa

Eunaldo Costa

Olha aquela negra

Olha aquela negra, turbeculosa,
Estendida nas grama úmidas do canteiro do jardim.
A chuva e o vento caindo-lhe no corpo
Cansado da vida dos becos.

- Seu nome ?
- Pouco importa,
- Poderia ser Carlota
- ou outro qualquer.

Naquela negra, seminua, enferma,
Abandonada, o mundo só não sujou
A sua alma, que conserva a pureza inicial.

Nesta hora tardia da noite
O sono fechou as pálpebras da cidade,
Mas existem alguns olhos abertos
Vendo as luzes descendo sobre a negra
Que agoniza junto às rosas do canteiro do jardim.

1 074
Emílio Moura

Emílio Moura

Noturno de Ouro Preto

Que alada figura aquela
transformada em algo lívido?
Que pedia? Que falava
de sua órbita aérea,
com suas múltiplas vozes?
Ah, noite, há muito submersa
em labirintos de sono!
Quem chamava? Quem sofria?
Quem jogava com o segredo
de tantas áreas ignotas?
Que espectro, a vagar, tecia
o próprio avesso do sonho?
E aquele morrer de novo
a cada inútil aurora?
O ardor, o ritmo brusco
da vida jogada fora,
com tantas, tantas raízes
perdidas, esmigalhadas?
Que era tudo? Que era
aquele fluir do tempo
como invisível cortejo
como vento no caminho?

901
Fábio Afonso de Almeida

Fábio Afonso de Almeida

Fraude

Participe da grande cartada,
Início e fim de todos os sonhos,
Estampa virtual da matéria,
Idéias semi-sólidas do cérebro.

Pegue, sinta, não acredite,
Chore a perda inexistente,
Exulte-se com o prêmio que finda
Na escala irreal da existência.

Fixe a imagem que desmancha
Detenha o tempo que foge.
Sinta a inverdade do vazio,
Segure a geléia das formas.

Assim que se sentir esgotado,
Não creia no corpo cansado.
Mude sua própria natureza,
Que a morte também é uma fraude.

979
Emílio Moura

Emílio Moura

Toada dos que não Podem Amar

Os que não podem amar
estão cantando.
A luz é tão pouca, o ar é tão raro
que ninguém sabe como eles ainda vivem.
Os que não podem amar
estão cantando,
estão cantando,
e morrendo.

Ninguém ouve o canto que soluça
por detrás das grades.

1 336
Emílio Burlamaqui

Emílio Burlamaqui

Um Tema

[Lá vai o grande rio
[Solene como uma procissão.

[Roçando florestas e rochas,
[Seu manto se alastra, se alonga
[E, qual pálio de rei antigo,
[Passa em lento e grave desfile.

[Sua essência: a água.
[Seu estado: o movimento.

[Mas, chegará um ponto de sua caminhada
[Em que o movimento lhe será retirado.

[Esse termo estará no seu encontro com o mar.

[O caráter essencial de água persistirá.
[No entanto — imóvel — como rio se findará.

[Deixou de existir o rio? Sim.
[Passou a inexistir a água? Não.

[A água se integrou no seu mar.

[Vamos ao homem, ser de índole tão andante,
[Esse rio humano que afronta a natureza,
[E rege, com maestria idêntica,
[Violinos e canhões, salmos e prantos.

[Pêndulo oscilante entre o nefando e o sublime.

[E lá vai o homem, inquieto, aflito,
[Em marcha desordenada
[Buscando o que não alcançará.

[Sua essência: a alma.
[Seu estado: o movimento.

[Sobreviverá o ansejo inelutável
[Em que o movimento que lhe era inerente
[Se converterá em estagnação.

[Sua essência, a alma, esta remanescerá.
[Não obstante — inerte — o homem já não será.

[Deixou de existir o homem? Sim.
[Passou a inexistir a alma? Não.

[A alma terá encontrado seu mar.

873
Elielson Rodrigues

Elielson Rodrigues

Pobre Infeliz

As estrelas me espionam,
eu, reclusivo, grito!
quebro os preceitos que em atrito,
pream minhalma e me decepcionam.

A Noite é meu manto,
dentre a bruma secreto meu desejo,
meu sofrer me martiriza um santo,
mas como haríolo,não prevejo.

Mortos ressuscitam,
a lua ilumina, eles fitam...
Correm e bradam por vida,
e sua dor aumenta a ferida.

A Morte é imprevisível,
é petulante,
invisível,
corante, dos mares vis,
que ceifa a vida
do pobre infeliz.

823
Eliane Pantoja Vaidya

Eliane Pantoja Vaidya

Conta Akutagawa

Conta Akutagawa
que Bashô
o notável mestre
do hai-kai
estava morrendo.
Em seu quarto
reunidos
os mais queridos discípulos.
O silêncio estava presente
nem lua havia
e se distinguiam soluços e suspiros.
O maior poeta daquela Terra
agora morria
cercado de seus amigos.
Ah Quimera, ilusão graciosa
os que choravam o faziam
cada um por si
nenhum por ele.
Bashô olhou em torno
o coração árido
daqueles que o cercavam
— Terra morta —
Só os rostos eram quentes
e as lágrimas naturais.

809
Elisa Sayeg

Elisa Sayeg

De Nicole Sangue de Nuvem

A Porta do Amor gira sobre os gonzos
Pesadamente
Deixando-nos o Lado de Fora

Ao passante solitário
nenhum revide o espera
no cemitério.

Nenhum violento se erga
da campa dourada
Onde a lápide é folheada
com o sol morto.
Não o enjoe uma névoa incensada
Nenhum violento
sono se erga.

760
Elielson Rodrigues

Elielson Rodrigues

Clâmide Sepulcral

Não te atreles ao passado,
Ilumina teu céptico futuro,
e caminha ao meu lado,
sucumbindo em lugar seguro.

Dentre a bruma que cobre teu túmulo,
vi voar um anjo que me disse o quanto,
aquele lugar é santo,
queimando o velário que te torna nulo.

O Areópago me condena
à vida cenobial...
que outra gangrena,
me vestiria a clâmide sepulcral?

872
Elisa Lucinda

Elisa Lucinda

Incompreensão dos Mistérios

Saudades de minha mãe.
Sua morte faz um ano e um fato
Essa coisa fez
eu brigar pela primeira vez
com a natureza das coisas:
que desperdício, que descuido
que burrice de Deus!
Não de ela perder a vida
mas a vida de perdê-la.
Olho pra ela e seu retrato.
Nesse dia, Deus deu uma saidinha
e o vice era fraco.

1 964
Eunice Arruda

Eunice Arruda

Notícias

As crianças morrem

Em piscinas
lagoas
no centro da cidade

o corte na testa
barrigas inchadas
costas afundadas

As crianças
elas também nos abandonam

786
Edimilson de Almeida Pereira

Edimilson de Almeida Pereira

Magnificat

Porque não há ofício
espero desaparecer.
O vão desejado
poreja
(para aquele tempo,
talvez)
não para a secura
que implode a memória.

O céu virá limpo,
depois.

1 054
Emílio Burlamaqui

Emílio Burlamaqui

De uma Notícia de Jornal

Disseram à menininha de quatro anos,
Sobrevivente única de um desastre de avião
Em Detroit,
Que ela iria rever seus pais
Nunca mais.

E a menininha perguntava:
O que quer dizer "nunca mais"?

Infortunadamente, meu anjo,
É nunca jamais para todo o sempre,
É o nunca mais de corvo
Que Drumond, triste, lembrou,
Que Allan, trágico, criou.

737
Elielson Rodrigues

Elielson Rodrigues

Putrefação

Quando a putrefação
ultrapassa tua pele,
quando deixa teu coração
e toma conta de tudo.

Quando teu corpo apodrece
e todos olham sem fazer nada,
E você descobre que merece
tudo que acontece na tua vida.

Não há Mártir que aguente,
contemplar sua propria morte,
Ver seu corpo em correntes,
e esperar a sua sorte.

Sua vida acaba antes do meio,
e começa no seu fim,
Morte, vivo no teu seio,
me diz... o que farás de mim?

989
Dimas Macedo

Dimas Macedo

Subitamente

Subitamente
é preciso que os relógios parem,
porque tudo será pedra sobre pedra,
e tudo.
Não mais restarão
as tuas mãos que necessito,
as tuas palavras sem gestos
que eu procuro...
não mais restará o teu silêncio
que o meu silêncio pede,
pois as armas e os brasões
hão de florir por sobre a infância,
e tudo será rocha.

918
Dimas Macedo

Dimas Macedo

Poema

Há uma hora em que nos decompomos
e indefinidamente vagaimos
entre rosas de sangue.

Há uma hora em que nos despimos
e ocultamos o rosto
e velejamos pelas bordas do caos.

Há uma hora em que copiamos o sonho
e tecemos loas ao tempo
e nos rendemos exaustos.

Há uma hora em que não é possível
o compasso do corpo
nem o corpo se quer sua memória.

Há uma hora em que morremos
e uma hora em que o poema
se torna uma necessidade inarredável.

1 054
Dílson Catarino

Dílson Catarino

Quero-Quero

A carga d’água nas costas feridas
quero-quero que tudo role
que tudo rode,

tudo mole,
tudo pode.

posso?

POSTE
POST.
MORTEM.

Tudo aquilo que eu sempre quis
nada

As gueixas pintadas
as ameixas murchas
as queixas infundadas
suas saias justas

SAIA! - SAIA!
não quero mais ficar aqui...

Não quero mais encargos
nem mesmo um cargo quero

Eu quero um beijo
embaixo da cachoeira
no vale das águas.

839
Eunice Arruda

Eunice Arruda

O Tempo

Os olhos se resguardam
sob as pálpebras
mas o tempo passa

Junto de nossos passos cautelosos
que ultrapassam mas retornam
sempre
o tempo caminha
Na superfície calma dos retratos
inscreve seu itinerário
e passeia com cautela em nosso rosto
fala pela boca das crianças
murmura no cansaço nossas mortes

Em vão
se preenchem as horas
O tempo carrega em seu rio nossas sementes
para um mar.

823
Daniel Orlandi Mattos Edmundson

Daniel Orlandi Mattos Edmundson

Fim

Quem sou eu,
Agora?
Nao me reconheco mais,
Nao sou como outrora.

Quando meu cigarro parar de fumar,
E meus livros parar de ler;
Podem tocar a marcha fúnebre,
Pois eu hei de morrer.

E quando isso acontecer,
Ninguém há de chorar,
Ninguém há re rezar,
E espero que seja num dia cinza posto a chover.

Porque escrevo esse poema?
Se ninguém o há de ler.
Ninguém vai se lembrar,
De uma vela para mim acender.

E se por ventura,
Alguém em algum lugar
Algum dia disser meu nome,
Por favor
Derrame por mim
Uma lágrima
Para que minha alma possa nela se lavar,
e aspirar poder ao céu
Algum dia,
Eu chegar.

1 058
Diamond

Diamond

Quarta-feira

sinistro e indiferente bisturi,
segue cortando e lambendo,
tranquilo e lento, de um ao outro lado,
com o ácido vai e vem, da fria lâmina de aço.

abundante cheiro de sangue,
antecipa meu final, ausente eu nada faço,
enquanto a linha não vem,
costurar de vez esse espaço.

a dor foi suprimida,
anestesia se antepõe a vida,
e a alma faz a sua despedida,
saindo, lentamente, pelo corte da ferida.

se morro perco essa luz,
vou para onde, eu não sei?
se for escuro, o medo,
se for o nada, também.

Quarta-feira, mórbida cirurgia.

862
Carolina Vigna Prado

Carolina Vigna Prado

Custos

Você ainda se surpreende. Mérito meu.
Você ainda gosta. Mérito seu.
Custo a compreender sua lógica, se é que existe uma.
Custo a compreender minhas razões. Elas não existem.
Enquanto isso,
você pensa em custos.
Tenho a absoluta certeza de nossa temporalidade.
Me irrito com o desperdício.
Me falta a paciência, me falta tempo.
O tempo é pouco, sempre será.
A consciência da morte não me desespera, apenas me apressa.
Não temos tempo. Nunca o teremos.
Não bastamos.
Seu egocentrismo exacerbado destrói seu prazer.
E você pensa em custos.
Custos.
Que custos?
Não somos únicos.
Não somos os melhores.
Nunca o seremos.

796
Daniel Loureiro

Daniel Loureiro

Pra Bom Enten

Em São Paulo o silêncio é vácuo
Em regime militar o silêncio é lei
No campo onde vivi o silêncio é doce
Na bagunça da minha cabeça
o silêncio não existe mais.
Olha a luz
é uma ilusão
Olha o homem
estruturação
Olha a vida
com avidez
Olha o tiro!
e ele ficou ali, estirado.
no enterro
acenderam piras
donde ele renasceu
das próprias cinzas querendo ficar por ali.
Ah! e também havia flores
sempre participantes
das pantes e frantes.
Você me entende
pois pra bom enten
Mas não há bom enten
só há nós e os nós do amor
Tão cantado
Tão falado
Tão pensado
Tão desejado
Tão esquecido
Tão desprezado
Tanta hipocrisia
e a crise ia
continua indo
acho que ligaram na tomada
e tomaram de mim o baú
de cujo fundo saía minha tia
a contar suas histórias...

Mas agora não tenho tempo
se é que alguém tem tempo
O tempo é que tem a gente
bem na palma da mão
e dentre os dedos
Escorri como areia
e as veias inchadas
mostravam cansaço
e o esforço do braço
no espancamento cruel

Sorrindo
Sorri e fui indo
Sorriso lindo
de te ter no meu pensamento
debaixo da janela
no peitoril da sacada
te vejo apoiada
na minha vida
se apóia na minha vida

802
Daniel Loureiro

Daniel Loureiro

Uma Crença

Jazer tão perto da morte
onde talvez a sorte
de nós, a espécie condenada
a entender para sentir angústia
nas misérias dos prazeres mundanos
ópios de vida que nos causam danos
feridas ocultas agora libertas
Rasgar a libertação

Argh!

Esse Deus contraditório
Piedoso e cruel
Aos crentes fornece seus favos de fel
o consolo débil, frágil
de uma crença como tábua última
Sua mediocridade ilhada

Assim me faço pagão
Diversos Deuses me Divertem
Imperfeições gregas tão civilizadas...

Ânsia pela vida como ser a vida sua
Nua de mandanças do dever ideal

834
José Maria da Costa e Silva

José Maria da Costa e Silva

Soneto

A morte da ilustríssima senhora D. Maria
Constância Lima Barbosa

Aquele coração, em que eu reinava,
O rosto, em que meus olhos se reviam,
Os lábios, que a voz doce desprendiam,
Que de minha alma os seios penetrava:

O peito, que a meu peito eu apertava,
Os braços, que amorosos me cingiam,
Mil graças, prendas mil, que revestiam
O encantador objeto, que adorava.

Tudo ao sepulcro foi com Márcia, aquela
Que eu tanto celebrei na ebúrnea lira,
Na estação juvenil, jucunda, e bela.

Márcia! Márcia cedeu da morte à ira?...
Oh! como poderá viver sem ela,
O amante, que por ela em vão suspira?

1 074