Poemas neste tema
Morte e Luto
Leão Moysés Zagury
Não Está na Hora
Não está na hora
de acordar.
Não é hora
de dormir sob as inquietudes poéticas
dum tempo incerto.
Nunca é o momento
do...
nem o despertar quotidiano.
Nunca temos tempo
para...
Nunca pertencemos a lugar algum.
A vida corre e nem
queremos participar
de suas coisas.
Nunca temos tempo.
Será que já morremos?
de acordar.
Não é hora
de dormir sob as inquietudes poéticas
dum tempo incerto.
Nunca é o momento
do...
nem o despertar quotidiano.
Nunca temos tempo
para...
Nunca pertencemos a lugar algum.
A vida corre e nem
queremos participar
de suas coisas.
Nunca temos tempo.
Será que já morremos?
784
Luís Inácio Araújo
Agreste
Não mais recuo:
o que escrevo é escassez e fendas,
é contra esse modo reto e seguro de escrever
que escrevo
— em desaprumo.
Bebo o gosto travado desse poema
numa cobiça de ser dito:
um laivo de sangue escorre de minha boca.
O processo vital subsiste ainda na artéria,
a manhã poluída prossegue sua lenta engrenagem,
seu incêndio diário, sua assimetria
— apesar do azinhavre no garfo
do pêndulo,
do cotidiano cigarro
igual ao trabalho noturno da morte num corpo.
Mas pra nomear o que respira secretamente
por trás dessa vida de veias nervos assombros penhoras
e sofre desfiladeiros poços terrenos baldios,
a mais inexplicável vertigem
— nenhuma palavra é possível:
nenhum selo.
o que escrevo é escassez e fendas,
é contra esse modo reto e seguro de escrever
que escrevo
— em desaprumo.
Bebo o gosto travado desse poema
numa cobiça de ser dito:
um laivo de sangue escorre de minha boca.
O processo vital subsiste ainda na artéria,
a manhã poluída prossegue sua lenta engrenagem,
seu incêndio diário, sua assimetria
— apesar do azinhavre no garfo
do pêndulo,
do cotidiano cigarro
igual ao trabalho noturno da morte num corpo.
Mas pra nomear o que respira secretamente
por trás dessa vida de veias nervos assombros penhoras
e sofre desfiladeiros poços terrenos baldios,
a mais inexplicável vertigem
— nenhuma palavra é possível:
nenhum selo.
853
João Linneu
Em seu leito, finda a velha
Em seu leito, finda a velha.Ao seu lado, fito a cena.Num átimo, sou seus sentidos.Por olhos turvoslímpidas visões;nos flácidos braços,íntimos abraçosNo silencio dos ouvidossussurros de paixão;br>no mutismo dos lábios,murmurando, disse não.Sofre pelo não feito...o beijo negado e tanto querido;o bilhete escrito e logo rasgado;o abraço sonhado e nunca dado;a palavra não dita, e que a sós gritava;amores ocultos, noites insones;um pouco mais e seria feliz...
736
Luis Germano Graal
Saber
Saber
Conhecer
Desvendar os segredos
É o peso maior
A tarefa mais triste
A pior parte
Da missão
Saber os segredos é um peso
Tão grande
Que às vezes melhor
Seria
Morrer
Mas agora que chegamos
Tão perto
Do fim
E restam pouquíssimos de nós
Morrer
Não é mais
Um sonho
Ou um medo
Ou um desejo
Morrer pode ser amanhã
Morrer
Pode ser hoje
Quem será o próximo
Não sabemos
Nem adianta saber
É um segredo
Talvez o único a não sabermos
O próximo podemos ser
Eu
Podemos ser ele
Ou ela
O próximo seremos o próximo
A morrer
A forma
A face
O modo
A vestimenta
Que a morte usará
Também não sabemos
Pode ser a fome
Que nos atormenta
Nos fere
Nos morde
E ainda assim alguns de nós
Continuamos vivos
Também pode ser a sede
Não temos água doce
Não temos vinho
Não temos garrafa
E a água do mar
Salga nossos lábios
Obriga-nos a vomitar
Pra depois sentirmos ainda mais sede
A morte poderá vir
Como um outro peixe
Ou como uma outra sereia
A cantar
E encantar
Ela poderá chegar magnificamente
Acompanhada
Por algumas mortezinhas menores
Infantas
Petizes
Pode ainda vir indesejada
Pelo eleito
Ou também sonhada
Acarinhada
Querida
Por quem de decerto
Também pode a morte não chegar
Ela gosta de seduzir
Agir
Igual à mulher fatal
Que atiça o desejo
Dá uma mão
Pra logo tirar
Mostra o tornozelo
O sonho da perna
Mas logo dá um piparote
E o fulano acorda
A morte pode agir assim
E alguém ser o seduzido
O amante
O fulano
O homem que se atira n’água
E dentro d’água se encontra
Com ela, a mulher
Fatal
Finalmente fora da redoma
Essa dona
Do amor
Essa filha
Da primeira serpente
Essa mulher
Que só nos oferece duas escolhas
Entre sermos escravos seus
E esperarmos
Sua chamada
Ou sermos senhores
E partirmos
Ao seu encontro.
Conhecer
Desvendar os segredos
É o peso maior
A tarefa mais triste
A pior parte
Da missão
Saber os segredos é um peso
Tão grande
Que às vezes melhor
Seria
Morrer
Mas agora que chegamos
Tão perto
Do fim
E restam pouquíssimos de nós
Morrer
Não é mais
Um sonho
Ou um medo
Ou um desejo
Morrer pode ser amanhã
Morrer
Pode ser hoje
Quem será o próximo
Não sabemos
Nem adianta saber
É um segredo
Talvez o único a não sabermos
O próximo podemos ser
Eu
Podemos ser ele
Ou ela
O próximo seremos o próximo
A morrer
A forma
A face
O modo
A vestimenta
Que a morte usará
Também não sabemos
Pode ser a fome
Que nos atormenta
Nos fere
Nos morde
E ainda assim alguns de nós
Continuamos vivos
Também pode ser a sede
Não temos água doce
Não temos vinho
Não temos garrafa
E a água do mar
Salga nossos lábios
Obriga-nos a vomitar
Pra depois sentirmos ainda mais sede
A morte poderá vir
Como um outro peixe
Ou como uma outra sereia
A cantar
E encantar
Ela poderá chegar magnificamente
Acompanhada
Por algumas mortezinhas menores
Infantas
Petizes
Pode ainda vir indesejada
Pelo eleito
Ou também sonhada
Acarinhada
Querida
Por quem de decerto
Também pode a morte não chegar
Ela gosta de seduzir
Agir
Igual à mulher fatal
Que atiça o desejo
Dá uma mão
Pra logo tirar
Mostra o tornozelo
O sonho da perna
Mas logo dá um piparote
E o fulano acorda
A morte pode agir assim
E alguém ser o seduzido
O amante
O fulano
O homem que se atira n’água
E dentro d’água se encontra
Com ela, a mulher
Fatal
Finalmente fora da redoma
Essa dona
Do amor
Essa filha
Da primeira serpente
Essa mulher
Que só nos oferece duas escolhas
Entre sermos escravos seus
E esperarmos
Sua chamada
Ou sermos senhores
E partirmos
Ao seu encontro.
809
Tarcísio Meira César
Breve sono
A leveza da pálpebra dormente
tinha, quando uma tarde adormeci:
uma pequena morte que morri,
muito aquém de algum sono, o mais ardente.
Parecia uma névoa dissolvente
de um momento breve que escondi,
feito do mais esquivo e suavíssimo
instante despregado do poente.
Morri um breve sono desde o além,
silencioso e só e sem lembrança,
como se em nada dissolvesse alguém.
Eu era como a tarde que morria
entre um pedaço da noite e a esquivança
de um instante escondido em pleno dia.
tinha, quando uma tarde adormeci:
uma pequena morte que morri,
muito aquém de algum sono, o mais ardente.
Parecia uma névoa dissolvente
de um momento breve que escondi,
feito do mais esquivo e suavíssimo
instante despregado do poente.
Morri um breve sono desde o além,
silencioso e só e sem lembrança,
como se em nada dissolvesse alguém.
Eu era como a tarde que morria
entre um pedaço da noite e a esquivança
de um instante escondido em pleno dia.
1 140
Luis Germano Graal
Quem Nasceu Vendedor de Peixes
Quem nasceu vendedor de peixes
Vende peixes
Não enjoa de vender
Em verdade
Peixes lhe aparecerão
Tal e qual
Aparecem fantasmas
Nos castelos dos países no norte
Quem nasceu
Pra navegar
Não sossega
Não fica quieto
Não esquenta lugar
Não dorme direito
Fora da linha do mar
Nós nascemos para navegar
A vida inteira
Não adivinhamos
Nosso vero destino
Alguns de nós zanzaram
Pelas ruas
A pedir esmolas
A roubar nas feiras
A rolar pelas calçadas
Mas nosso destino era
Navegar
Outros de nós
Tiveram dinheiro
E os estrangeiros nos tiraram
O dinheiro que tivemos
Tiraram-nos a vontade
A visão
Talvez as pessoas que assim fizeram
Soubessem
(Sequer sabendo
Que sabiam)
A verdade sobre nosso destino
E apenas seguiram
Os desígnios
Outros de nós fomos depravados
Fomos prostitutas
Muitos fomos chamados
De escória
Pelos ainda terrestres
Muitos escreveram versos
Escrevemos autos
Cartas
Poemas
Mas nenhum de nós sabia
Do nosso final
Desde o dia
Em que nos puseram
Nesta nave, navegamos
Navegamos
Navegamos
Nossa vida é navegar
Nosso destino
Missão
As quiromantes sabiam
As videntes dos circos
Sabiam
Os oráculos, idem
As pitonisas sabiam
Mas não nos disseram
Uma única palavra
Os marinheiros também
Deviam saber
Um marinheiro reconhece
Outro
Mesmo na selva
Mas nada nos deram
(Tudo é segredo
Tudo ainda é
Segredo
Nada nos é revelado)
Nós
Habitantes da nau
Passamos nossa vida a saber
De nada
Nada nos é dito
Tudo nos é escondido
Tudo nos é roubado
Tudo acontece
Para que cumpramos o destino
De navegar
Mesmo quando
No oceano pleno
Estamos
E não há um só navio
Uma numa embarcação
A vista
É-nos sonegado saber
Por que estamos
Nesta nave
Pois navegar é bom
Mas temos fome
Navegar é bom
Mas temos sede
Navegar é bom
Mas temos frio
Navegar é bom
Mas temos sono
Navegar é preciso
Mas estamos cansados
Estamos cansados
Estamos cansados
Navegar é viver
Mas estamos quase mortos
Navegar é o que nos resta
Mas não queremos
Navegar
E nossa missão
Mas que vá para o diabo
Para o diablo
Para as profundas
A nossa missão
Estamos aqui
Marítimos
Mas não queremos estar
Nem todos de nós
Queremos
Estar
Muitos querem ir embora
Dois já foram
Um com a sereia
E o primeiro
Com outro peixe
Mais da nossa metade
Junto à amurada
Junto ao muro
Junto à fronteira
Do mar
Está
A fazer últimas orações
Para eles chegado o momento
O porto
A pedra
Já começam a cair
Começam a se jogar
O mar que era calmo
Faz marulho
Agora
Ao engolir os corpos
De nós
Que caímos
Os corpos de alguns
De muitos
Caídos
No mar tanatificado
Maktub?
Vende peixes
Não enjoa de vender
Em verdade
Peixes lhe aparecerão
Tal e qual
Aparecem fantasmas
Nos castelos dos países no norte
Quem nasceu
Pra navegar
Não sossega
Não fica quieto
Não esquenta lugar
Não dorme direito
Fora da linha do mar
Nós nascemos para navegar
A vida inteira
Não adivinhamos
Nosso vero destino
Alguns de nós zanzaram
Pelas ruas
A pedir esmolas
A roubar nas feiras
A rolar pelas calçadas
Mas nosso destino era
Navegar
Outros de nós
Tiveram dinheiro
E os estrangeiros nos tiraram
O dinheiro que tivemos
Tiraram-nos a vontade
A visão
Talvez as pessoas que assim fizeram
Soubessem
(Sequer sabendo
Que sabiam)
A verdade sobre nosso destino
E apenas seguiram
Os desígnios
Outros de nós fomos depravados
Fomos prostitutas
Muitos fomos chamados
De escória
Pelos ainda terrestres
Muitos escreveram versos
Escrevemos autos
Cartas
Poemas
Mas nenhum de nós sabia
Do nosso final
Desde o dia
Em que nos puseram
Nesta nave, navegamos
Navegamos
Navegamos
Nossa vida é navegar
Nosso destino
Missão
As quiromantes sabiam
As videntes dos circos
Sabiam
Os oráculos, idem
As pitonisas sabiam
Mas não nos disseram
Uma única palavra
Os marinheiros também
Deviam saber
Um marinheiro reconhece
Outro
Mesmo na selva
Mas nada nos deram
(Tudo é segredo
Tudo ainda é
Segredo
Nada nos é revelado)
Nós
Habitantes da nau
Passamos nossa vida a saber
De nada
Nada nos é dito
Tudo nos é escondido
Tudo nos é roubado
Tudo acontece
Para que cumpramos o destino
De navegar
Mesmo quando
No oceano pleno
Estamos
E não há um só navio
Uma numa embarcação
A vista
É-nos sonegado saber
Por que estamos
Nesta nave
Pois navegar é bom
Mas temos fome
Navegar é bom
Mas temos sede
Navegar é bom
Mas temos frio
Navegar é bom
Mas temos sono
Navegar é preciso
Mas estamos cansados
Estamos cansados
Estamos cansados
Navegar é viver
Mas estamos quase mortos
Navegar é o que nos resta
Mas não queremos
Navegar
E nossa missão
Mas que vá para o diabo
Para o diablo
Para as profundas
A nossa missão
Estamos aqui
Marítimos
Mas não queremos estar
Nem todos de nós
Queremos
Estar
Muitos querem ir embora
Dois já foram
Um com a sereia
E o primeiro
Com outro peixe
Mais da nossa metade
Junto à amurada
Junto ao muro
Junto à fronteira
Do mar
Está
A fazer últimas orações
Para eles chegado o momento
O porto
A pedra
Já começam a cair
Começam a se jogar
O mar que era calmo
Faz marulho
Agora
Ao engolir os corpos
De nós
Que caímos
Os corpos de alguns
De muitos
Caídos
No mar tanatificado
Maktub?
852
Tomáz Kim
Antes da Metralha
Antes da metralha e do dedo da morte...
Antes dum corpo jovem, anônimo,
apodrecer, esquecido, à chuva...
Ou singrar, boiando, nas águas mansas...
Ou se despedaçar contra o céu indiferente...
Antes do pavor e do pranto e da prece...
Um adeus longo e triste
aos poemas amontoados no fundo da gaveta
e à renúncia ao teu amor brando
e às noites calmas e ao sonho inacabado...
Antes da morte sem mistério...
Um adeus longo e triste
à luta de que não se partilhou!
Antes dum corpo jovem, anônimo,
apodrecer, esquecido, à chuva...
Ou singrar, boiando, nas águas mansas...
Ou se despedaçar contra o céu indiferente...
Antes do pavor e do pranto e da prece...
Um adeus longo e triste
aos poemas amontoados no fundo da gaveta
e à renúncia ao teu amor brando
e às noites calmas e ao sonho inacabado...
Antes da morte sem mistério...
Um adeus longo e triste
à luta de que não se partilhou!
1 179
Luis Germano Graal
Minhalma
Minhalma gentil que se parte
Vai
Sai de mim
Eu ficarei a relembrar-te
A reclamar-te
A chorar-te
Na clara escuridão da funda noite
Minhalma fremosa
Minhalma doce
Minhalma cheia de tudo, vai
Mãe natureza chama de volta
O que lhe pertence
Solta-te de mim
Não me pertences
Cai na toda escuridão
Minha luz, minha lâmpada, meu céu
Minha vida que minha mãe me deu
Fica a esperar
Escondida
Em algum colo
Morfeu
Fica meu corpo aqui
Fica meu corpo sem minhalma
Fica meu corpo no breu
Sem meu espírito
Um e uma e outro eram em mim
A presença
De alguém ausente de mim
Fica meu corpo longe
Bem longe
Minha sina
Meu destino
Minha cruz
Fica meu corpo incendiado no barco
Crucifixo
Fica o que foi e tinha sido
Antes
Destes mares de nunca mais
Nunca dantes
Nunca durantes
Nestes, naqueles, noutros mares
De nunca jamais
Restam nestas águas
Destes mares
A fumaça
O fero fogo
A luz
Os fantasmas, os ângelos
Os arcângelos
Que fomos
Restam pelo céu
Per omnia saecula saeculorum
Fumaças tapando a bola
Mas o fogo e a luz ardendo aqui
Transformam
Esta nave
Num farol
Lúmina, luminosa, lumescente
Lúcida
Nossa nave ilumina os mares
É farol
A nossa luz é tanta
Ilumina tudo
É sol.
Vai
Sai de mim
Eu ficarei a relembrar-te
A reclamar-te
A chorar-te
Na clara escuridão da funda noite
Minhalma fremosa
Minhalma doce
Minhalma cheia de tudo, vai
Mãe natureza chama de volta
O que lhe pertence
Solta-te de mim
Não me pertences
Cai na toda escuridão
Minha luz, minha lâmpada, meu céu
Minha vida que minha mãe me deu
Fica a esperar
Escondida
Em algum colo
Morfeu
Fica meu corpo aqui
Fica meu corpo sem minhalma
Fica meu corpo no breu
Sem meu espírito
Um e uma e outro eram em mim
A presença
De alguém ausente de mim
Fica meu corpo longe
Bem longe
Minha sina
Meu destino
Minha cruz
Fica meu corpo incendiado no barco
Crucifixo
Fica o que foi e tinha sido
Antes
Destes mares de nunca mais
Nunca dantes
Nunca durantes
Nestes, naqueles, noutros mares
De nunca jamais
Restam nestas águas
Destes mares
A fumaça
O fero fogo
A luz
Os fantasmas, os ângelos
Os arcângelos
Que fomos
Restam pelo céu
Per omnia saecula saeculorum
Fumaças tapando a bola
Mas o fogo e a luz ardendo aqui
Transformam
Esta nave
Num farol
Lúmina, luminosa, lumescente
Lúcida
Nossa nave ilumina os mares
É farol
A nossa luz é tanta
Ilumina tudo
É sol.
948
Maria Thereza Noronha
Elegia a Sérgio Campos
"O pássaro morto é seu vôo pousado na morte"
(Sérgio Campos)
A poesia soltava as amarras, aportava
na sala. Viesse de Nova Friburgo,
da Ilha do Governador. Desafiava
a ira dos dias, reacendia
o itinerário das cinzas, viajeira
de um mar anterior.
E chegavam praias, ilhas,
seixos, harpas, naves,
mares absolutos e abismos
de significados de ardilosa chave.
E vinham mitos navegando lendas,
ancorando nos páramos da página,
Ninfas e faunos farfalhando outonos
na exatidão dos sons.
Memória de Sérgio
no ouro dos versos
nos teares de prata, onde tramava
dos heróis epicédio e hospedaria.
Memória de Sérgio
nas rotas de sal
no avesso das palavras à deriva
no punho do poeta feito areia.
(Sérgio Campos)
A poesia soltava as amarras, aportava
na sala. Viesse de Nova Friburgo,
da Ilha do Governador. Desafiava
a ira dos dias, reacendia
o itinerário das cinzas, viajeira
de um mar anterior.
E chegavam praias, ilhas,
seixos, harpas, naves,
mares absolutos e abismos
de significados de ardilosa chave.
E vinham mitos navegando lendas,
ancorando nos páramos da página,
Ninfas e faunos farfalhando outonos
na exatidão dos sons.
Memória de Sérgio
no ouro dos versos
nos teares de prata, onde tramava
dos heróis epicédio e hospedaria.
Memória de Sérgio
nas rotas de sal
no avesso das palavras à deriva
no punho do poeta feito areia.
822
Lucídio Freitas
Perscrutadoramente
Perscrutadoramente os olhos ponho
No que fui, no que sou, no que hei de ser,
E alucinado dentro do meu sonho
Sinto a inutilidade do nascer.
Minha origem componho e recomponho,
Venho do berço ao túmulo... viver
Um instante só, e após, ermo e tristonho,
Sob o ventre da terra apodrecer.
Homem — parcela humilde, humilde e obscura,
Que anda perdida e desapercebida
Buscando os vermes de uma sepultura —
O que foste? o que és? para onde vais?
Esta angústia maldita da tua vida
Foi a maldita angústia dos teus Pais!
No que fui, no que sou, no que hei de ser,
E alucinado dentro do meu sonho
Sinto a inutilidade do nascer.
Minha origem componho e recomponho,
Venho do berço ao túmulo... viver
Um instante só, e após, ermo e tristonho,
Sob o ventre da terra apodrecer.
Homem — parcela humilde, humilde e obscura,
Que anda perdida e desapercebida
Buscando os vermes de uma sepultura —
O que foste? o que és? para onde vais?
Esta angústia maldita da tua vida
Foi a maldita angústia dos teus Pais!
1 449
Tomáz Kim
Campo de Batalha
1
A noite, porém, rangeu e quebrou:
Viajantes clandestinos,
à procura de uma estrela mais distante,
quedaram-se emudecidos.
Apodreceu a carne, rangeram os ossos
e os dias escorreram, viscosos, iguais.
Estéril, a vida continuou:
a fome, a peste, a guerra — a morte!
2
Secam as fontes e os rios,
ardem as searas e a nossa casa
e as árvores nuas amaldiçoam o céu,
sem sabermos porquê.
Morrem os jovens antes de se amarem
e os poetas com os poemas inacabados
e as crianças olhando espantadas para o céu,
sem saberem porquê.
Um vento noturno deixou insepultos
ventres e seios e desejos de maternidade
nunca realizados,
e secou risos e cantares subindo para o céu,
sem sabermos porquê.
Andam as guerras pelo mundo:
somente possuímos uma voz, uma voz
e essa voz não se calará
e nós sabemos porquê!
3
Antes da metralha e do medo e da morte,
antes de um corpo jovem, anônimo, apodrecer
esquecido à chuva e ao vento,
ou singrar, boiando, na água mansa,
ou se despedaçar contra o céu indiferente...
Antes do pavor e do pranto e da prece,
um adeus longo e triste
aos poemas no fundo da gaveta,
e à renúncia ao teu amor brando
e às noites calmas e ao sonho inacabado...
Antes da morte sem-mistério,
um adeus longo e triste
à luta de que não se partilhou!...
4
Longe, a bala rasgando o luar;
longe, o corpo caindo;
longe, o sangue, vermelho e morno e espesso.
Aqui, à face desta lua e da noite,
iguais às outras luas e às outras noites,
iguais como o sangue vermelho e morno e espesso
dos homens ...
Aqui,
oculto e surdo e retido,
o sangue,
vermelho e morno e espesso,
igual!
5
As feridas abrem-se
para o céu distante na sua impassibilidade
e destilam as sete pragas
que desabaram
sobre o ventre das nossas mulheres
e o sonho dos nossos filhos
e a nossa seara e olival.
É da glória que nascem os vermes;
e as estréias,
de mil pedaços ensangüentados,
subindo a noite vertical!
6
Esta carne envilecida e santa,
a gerar os prados e a nuvem e a chuva,
levada pelo sol e pelo vento ...
Esta carne envilecida e santa,
apodrecendo em todas as latitudes,
presente na angústia da noite devastada...
Esta carne envilecida e santa,
forçada a negar a verdade pressentida,
ecoando os versos dos poetas desconhecidos...
Esta carne envilecida e santa,
abrindo-se em flor aos quatro cavaleiros,
é o homem
e a vida breve!
A noite, porém, rangeu e quebrou:
Viajantes clandestinos,
à procura de uma estrela mais distante,
quedaram-se emudecidos.
Apodreceu a carne, rangeram os ossos
e os dias escorreram, viscosos, iguais.
Estéril, a vida continuou:
a fome, a peste, a guerra — a morte!
2
Secam as fontes e os rios,
ardem as searas e a nossa casa
e as árvores nuas amaldiçoam o céu,
sem sabermos porquê.
Morrem os jovens antes de se amarem
e os poetas com os poemas inacabados
e as crianças olhando espantadas para o céu,
sem saberem porquê.
Um vento noturno deixou insepultos
ventres e seios e desejos de maternidade
nunca realizados,
e secou risos e cantares subindo para o céu,
sem sabermos porquê.
Andam as guerras pelo mundo:
somente possuímos uma voz, uma voz
e essa voz não se calará
e nós sabemos porquê!
3
Antes da metralha e do medo e da morte,
antes de um corpo jovem, anônimo, apodrecer
esquecido à chuva e ao vento,
ou singrar, boiando, na água mansa,
ou se despedaçar contra o céu indiferente...
Antes do pavor e do pranto e da prece,
um adeus longo e triste
aos poemas no fundo da gaveta,
e à renúncia ao teu amor brando
e às noites calmas e ao sonho inacabado...
Antes da morte sem-mistério,
um adeus longo e triste
à luta de que não se partilhou!...
4
Longe, a bala rasgando o luar;
longe, o corpo caindo;
longe, o sangue, vermelho e morno e espesso.
Aqui, à face desta lua e da noite,
iguais às outras luas e às outras noites,
iguais como o sangue vermelho e morno e espesso
dos homens ...
Aqui,
oculto e surdo e retido,
o sangue,
vermelho e morno e espesso,
igual!
5
As feridas abrem-se
para o céu distante na sua impassibilidade
e destilam as sete pragas
que desabaram
sobre o ventre das nossas mulheres
e o sonho dos nossos filhos
e a nossa seara e olival.
É da glória que nascem os vermes;
e as estréias,
de mil pedaços ensangüentados,
subindo a noite vertical!
6
Esta carne envilecida e santa,
a gerar os prados e a nuvem e a chuva,
levada pelo sol e pelo vento ...
Esta carne envilecida e santa,
apodrecendo em todas as latitudes,
presente na angústia da noite devastada...
Esta carne envilecida e santa,
forçada a negar a verdade pressentida,
ecoando os versos dos poetas desconhecidos...
Esta carne envilecida e santa,
abrindo-se em flor aos quatro cavaleiros,
é o homem
e a vida breve!
1 581
Lêdo Ivo
Planta de Maceió
O vento do mar rói as casas e os homens.
Do nascimento à morte, os que moram aqui
andam sempre cobertos por leve mortalha
de mormaço e salsugem. Os dentes do mar
mordem, dia e noite, os que não procuram
esconder-se no ventre dos navios
e se deixam sugar por um sol de areia.
Penetrada nas pedras, a maresia
cresta o pêlo dos ratos perdulários
que, nos esgotos, ouvem o vômito escuro
do oceano esvaído em bolsões de mangue
e sonham os celeiros dos porões dos cargueiros.
Foi aqui que nasci, onde a luz do farol
cega a noite dos homens e desbota as corujas.
A ventania lambe as dragas podres,
entra pelas persianas das casas sufocadas
e escalavra as dunas mortuárias
onde os beiços dos mortos bebem o mar.
Mesmo os que se amam nesta terra de ódios
são sempre separados pela brisa
que semeia a insônia nas lacraias
e adultera a fretagem dos navios.
Este é o meu lugar, entranhado em meu sangue
como a lama no fundo da noite lacustre.
E por mais que me afaste, estarei sempre aqui
e serei este vento e a luz do farol,
e minha morte vive na cioba encurralada.
Do nascimento à morte, os que moram aqui
andam sempre cobertos por leve mortalha
de mormaço e salsugem. Os dentes do mar
mordem, dia e noite, os que não procuram
esconder-se no ventre dos navios
e se deixam sugar por um sol de areia.
Penetrada nas pedras, a maresia
cresta o pêlo dos ratos perdulários
que, nos esgotos, ouvem o vômito escuro
do oceano esvaído em bolsões de mangue
e sonham os celeiros dos porões dos cargueiros.
Foi aqui que nasci, onde a luz do farol
cega a noite dos homens e desbota as corujas.
A ventania lambe as dragas podres,
entra pelas persianas das casas sufocadas
e escalavra as dunas mortuárias
onde os beiços dos mortos bebem o mar.
Mesmo os que se amam nesta terra de ódios
são sempre separados pela brisa
que semeia a insônia nas lacraias
e adultera a fretagem dos navios.
Este é o meu lugar, entranhado em meu sangue
como a lama no fundo da noite lacustre.
E por mais que me afaste, estarei sempre aqui
e serei este vento e a luz do farol,
e minha morte vive na cioba encurralada.
3 324
Valéry Larbaud
Noturno
Os teus noturnos lábios débeis pedem
Satisfações exangues aos motéis.
Na aurora fogem magros menestréis
Cantando por Sodoma um novo Édem.
O espaço singra, as borboletas medem,
Nos ares cantam teus azuis pincéis,
Estrelas giram como carrosséis
De brinquedos de sol que os Fados cedem.
Os teus verdes-vermelhos lábios bebo
E, atrás, a Lua grávida percebo
A festejar meus ócios estivais.
A Cruz nos fere como agudo açoite
No brilho de funéreos carnavais
Ao vento frio e roxo desta noite.
Satisfações exangues aos motéis.
Na aurora fogem magros menestréis
Cantando por Sodoma um novo Édem.
O espaço singra, as borboletas medem,
Nos ares cantam teus azuis pincéis,
Estrelas giram como carrosséis
De brinquedos de sol que os Fados cedem.
Os teus verdes-vermelhos lábios bebo
E, atrás, a Lua grávida percebo
A festejar meus ócios estivais.
A Cruz nos fere como agudo açoite
No brilho de funéreos carnavais
Ao vento frio e roxo desta noite.
982
Luís Canelo de Noronha
Décimas
Nascer o Sol no Ocidente,
quem jamais tal coisa viu,
se na oposição caiu
ser Sol posto, e Sol oriente?
Mas bem caiu, que um luzente
e mais gigante farol,
mostrando novo arrebol
quando aquele Sol caía,
Sol mais claro então se erguia
para ser o Sol do Sol.
Pôr o Oriente no Ocaso,
fazer do morrer nascer,
inui maior poder,
e faz assombroso o caso;
faz divina e não acaso
esta empresa, pois que assombra,
que se um Sol ao Sol assombra,
e o Sol uma Sombra fica,
em que seja sombra rica
é do Sol o Sol a Sombra.
quem jamais tal coisa viu,
se na oposição caiu
ser Sol posto, e Sol oriente?
Mas bem caiu, que um luzente
e mais gigante farol,
mostrando novo arrebol
quando aquele Sol caía,
Sol mais claro então se erguia
para ser o Sol do Sol.
Pôr o Oriente no Ocaso,
fazer do morrer nascer,
inui maior poder,
e faz assombroso o caso;
faz divina e não acaso
esta empresa, pois que assombra,
que se um Sol ao Sol assombra,
e o Sol uma Sombra fica,
em que seja sombra rica
é do Sol o Sol a Sombra.
981
Lêdo Ivo
Um hospital em Amsterdam
Ziekenhuis in Amsterdam
As janelas do hospital
eram olhos fechados
de cego ou moribundo.
E eu passava na rua
como quem traz
um ramalhete de flores.
Atrás das janelas
a morte dormia
e eu temia acordá-la
com os meus passos
de intruso.
De ramen van het ziekenhuis
waren gesloten ogen
van een blinde of een sterven
En ik liep door de straat
als wie een bos
bloernen brengt.
Achter de ramen
sliep de dood
die ik vreesde te weeken
met mijn stap
van indringer.
As janelas do hospital
eram olhos fechados
de cego ou moribundo.
E eu passava na rua
como quem traz
um ramalhete de flores.
Atrás das janelas
a morte dormia
e eu temia acordá-la
com os meus passos
de intruso.
De ramen van het ziekenhuis
waren gesloten ogen
van een blinde of een sterven
En ik liep door de straat
als wie een bos
bloernen brengt.
Achter de ramen
sliep de dood
die ik vreesde te weeken
met mijn stap
van indringer.
1 261
Laura Amélia Damous
Autópsia
e ficou atestado que quando rasgaram
suas pálpebras
encontraram de por-de-sol e lua
lua minguante lua crescente
lua cheia
e estrelas
o precário e doído equilíbrio da vida
latejava no cérebro cansado
nas virilhas ainda quentes
o aconchego
e a calma do sexo apaziguado
Do sangue que escorria ente as veias
e artérias
um perfume de jasmim seco
No labirinto de nervos e entranhas
que não mais viviam
(fácil de ser visto)
TEU NOME
suas pálpebras
encontraram de por-de-sol e lua
lua minguante lua crescente
lua cheia
e estrelas
o precário e doído equilíbrio da vida
latejava no cérebro cansado
nas virilhas ainda quentes
o aconchego
e a calma do sexo apaziguado
Do sangue que escorria ente as veias
e artérias
um perfume de jasmim seco
No labirinto de nervos e entranhas
que não mais viviam
(fácil de ser visto)
TEU NOME
1 010
José de Paula Ramos Jr.
Aquiles
A minha morte escolho nesta hora,
ao pé do corpo frio que jaz inerte.
No campo de batalha, junto a Tróia,
não mais verei, entrando nessa tenda,
sentado no divã, tocando a lira,
o amigo que foi morto em meu lugar.
Tristes despojos, Pátroclo divino,
regressas sem a vida e sem o escudo,
teu cadáver saqueado à tenda torna,
pilhado da armadura que envergaste.
Heitor, que te deu fim, e agora empunha
as armas que brandiste bravamente,
ufano está do feito vitorioso.
Pois regozije enquanto a Moira escura
no gume de meu gládio não provar.
Bem sei que morrerei dessa vingança,
assim me foi predito pelos deuses;
mas nada vale a vida sem a cólera,
que me dará na morte eterna glória.
ao pé do corpo frio que jaz inerte.
No campo de batalha, junto a Tróia,
não mais verei, entrando nessa tenda,
sentado no divã, tocando a lira,
o amigo que foi morto em meu lugar.
Tristes despojos, Pátroclo divino,
regressas sem a vida e sem o escudo,
teu cadáver saqueado à tenda torna,
pilhado da armadura que envergaste.
Heitor, que te deu fim, e agora empunha
as armas que brandiste bravamente,
ufano está do feito vitorioso.
Pois regozije enquanto a Moira escura
no gume de meu gládio não provar.
Bem sei que morrerei dessa vingança,
assim me foi predito pelos deuses;
mas nada vale a vida sem a cólera,
que me dará na morte eterna glória.
1 696
José Sarney
Meditação sobre o Bacanga
As águas passam
É lua e as casas aparecem.
Sou eu. Narciso que se olha
E fenece.
Tudo é sombra, sombra e nada,
água e silêncio nas folhas e vales
rompidos pelo Bacanga em sulcos
de madrugada.
Faixa de vento na montanha a encher e vazar:
címbalos onde o tédio geme.
É o gigante do não esquecer e as vozes do mangue.
Sangue correndo das imagens mordidas
pelos dentes estranguladores da noite.
Narciso se olha
Satanicamente o brilho dos olhares
buscam
o que não existe mais.
Ele vivia além e tinha fome, mas pensava.
Comeu os pensamentos devorando os dias
o nome e a noite.
Doce rio que vem e bóia
na enseada.
Águas barrentas, sujas,
Liberdade que morreu
e se afoga
no Mar.
Medito sobre mim que já sou morto:
as canções fúnebres que me pesam
como pedras no vazio do
lembrar.
— Barquinho de vela
que vai sobre o mar.
Boneca amarela
que me vem roubar.
meus olhos fenecem e o presságio dorme
no espelho das águas que
escorrem.
(A Canção Inicial / l954)
É lua e as casas aparecem.
Sou eu. Narciso que se olha
E fenece.
Tudo é sombra, sombra e nada,
água e silêncio nas folhas e vales
rompidos pelo Bacanga em sulcos
de madrugada.
Faixa de vento na montanha a encher e vazar:
címbalos onde o tédio geme.
É o gigante do não esquecer e as vozes do mangue.
Sangue correndo das imagens mordidas
pelos dentes estranguladores da noite.
Narciso se olha
Satanicamente o brilho dos olhares
buscam
o que não existe mais.
Ele vivia além e tinha fome, mas pensava.
Comeu os pensamentos devorando os dias
o nome e a noite.
Doce rio que vem e bóia
na enseada.
Águas barrentas, sujas,
Liberdade que morreu
e se afoga
no Mar.
Medito sobre mim que já sou morto:
as canções fúnebres que me pesam
como pedras no vazio do
lembrar.
— Barquinho de vela
que vai sobre o mar.
Boneca amarela
que me vem roubar.
meus olhos fenecem e o presságio dorme
no espelho das águas que
escorrem.
(A Canção Inicial / l954)
1 707
Luiz Augusto Kehl
O Fantasma
Olhar branco que teu ficara numa cara sem fundo
duma carne sem peso como a lua,
carne tua branca na memória tocada
por uma língua sem gosto no beijo chupado
etéreo pairando no lábio murcho da lembrança,
toda a realidade que foste tornada
no tom mais claro do pálido
e a luz de uma vela que eu não acendia
e o fogo morto do teu sexo enterrado
nalgum passado remoto
em outras noites, que eu chorara outrora,
natureza morta,
tu como todas as outras,
tu como a primeira professora,
tu como a foto sépia da coisa um dia tida,
ou aquele dia na infância um dia,
ou aquela praça sonhada, a língua mamada da namorada cega,
saliva passada como água de rio,
como rio, tudo, indo, tu náufraga corrente,
vendo-te eu te tornares água, onda, marola, espuma, nada,
apenas ida, afogada em teus cabelos de yara,
teu canto doce apagando-se sob o muzak dos novos dias,
tu, fantasma tantas vezes inacabado,
roçando-me a pele num hálito gelado e transparente,
brisa tremulante, ar
que reverbera e não se vê, seda sem vida,
tu -- viva ainda nalguma parte e que há de estar sorrindo--
viúvo de ti morta em mim te beijo o quadro rasgado
e olho no papel amarelo rabiscado teu telefone
lentamente desbotando
e me despeço de ti para sempre em tua campa sem esperança
plantada perenemente em minha alma,
e juro-te que virei visitar-te, minha querida,
sempre, sempre, todo dia.
duma carne sem peso como a lua,
carne tua branca na memória tocada
por uma língua sem gosto no beijo chupado
etéreo pairando no lábio murcho da lembrança,
toda a realidade que foste tornada
no tom mais claro do pálido
e a luz de uma vela que eu não acendia
e o fogo morto do teu sexo enterrado
nalgum passado remoto
em outras noites, que eu chorara outrora,
natureza morta,
tu como todas as outras,
tu como a primeira professora,
tu como a foto sépia da coisa um dia tida,
ou aquele dia na infância um dia,
ou aquela praça sonhada, a língua mamada da namorada cega,
saliva passada como água de rio,
como rio, tudo, indo, tu náufraga corrente,
vendo-te eu te tornares água, onda, marola, espuma, nada,
apenas ida, afogada em teus cabelos de yara,
teu canto doce apagando-se sob o muzak dos novos dias,
tu, fantasma tantas vezes inacabado,
roçando-me a pele num hálito gelado e transparente,
brisa tremulante, ar
que reverbera e não se vê, seda sem vida,
tu -- viva ainda nalguma parte e que há de estar sorrindo--
viúvo de ti morta em mim te beijo o quadro rasgado
e olho no papel amarelo rabiscado teu telefone
lentamente desbotando
e me despeço de ti para sempre em tua campa sem esperança
plantada perenemente em minha alma,
e juro-te que virei visitar-te, minha querida,
sempre, sempre, todo dia.
569
J. Ribamar Matos
Ressurreição
Se eu falecer, querida, bem distante,
e não vires, sequer, meu corpo frio,
ao meu sepulcro leva, a cada instante,
a dor cristalizada, fio a fio...
Reza ao teu morto uma oração constante:
deixa cair do triste olhar vazio,
do teu, então, já pálido semblante
o pranto que te torna o olhar sombrio...
Vai derramar em minha sepultura
chuva eterna de lágrima sentida
de tua alma, diluída na amargura;
que, se molhar a minha face ungida,
então me erguendo lá da cova escura,
eu chamarei por ti, mulher querida!
e não vires, sequer, meu corpo frio,
ao meu sepulcro leva, a cada instante,
a dor cristalizada, fio a fio...
Reza ao teu morto uma oração constante:
deixa cair do triste olhar vazio,
do teu, então, já pálido semblante
o pranto que te torna o olhar sombrio...
Vai derramar em minha sepultura
chuva eterna de lágrima sentida
de tua alma, diluída na amargura;
que, se molhar a minha face ungida,
então me erguendo lá da cova escura,
eu chamarei por ti, mulher querida!
1 125
Luís António Cajazeira Ramos
Quo Vadis?
Amigos não resolvem minha solidão.
Amores não penetram em meu coração.
Assuntos não ocupam minha vastidão.
Nada na vida dá vazão a minha vida.
O leite derramado talha em desperdício.
O bicho aprisionado míngua em sacrifico
O passo compassado marcha ao precipício.
Tudo na vida é só senão a minha vida.
Enquanto abato o tronco e moldo a cruz dos ombros,
o mato toma conta do jardim dos sonhos.
Tanto na vida dá razão a minha morte! ...
Por quanto tempo um grito ecoa pelo vácuo?
Pra que defuntos faz sentido o fogo-fátuo?
Quanto na morte vale o vão de minha sorte? ...
Amores não penetram em meu coração.
Assuntos não ocupam minha vastidão.
Nada na vida dá vazão a minha vida.
O leite derramado talha em desperdício.
O bicho aprisionado míngua em sacrifico
O passo compassado marcha ao precipício.
Tudo na vida é só senão a minha vida.
Enquanto abato o tronco e moldo a cruz dos ombros,
o mato toma conta do jardim dos sonhos.
Tanto na vida dá razão a minha morte! ...
Por quanto tempo um grito ecoa pelo vácuo?
Pra que defuntos faz sentido o fogo-fátuo?
Quanto na morte vale o vão de minha sorte? ...
746
João Fortunato
História Triste
Ao Vasco Granja
Debaixo da magnólia
No jardim sossegado
O menddigo adormecera…
Agora,
Já não tinha calor
Aquele corpo enregelado,
Ali, no banco, abandonado,
A vida, dele se esquecera.
Uma flor que caíra
Ao velho chapéu se lhe prendera…
E os raros que passavam
Na noite silencioso,
Não passavam,
E, de mais não cuidando,
Riam
Da caricatura
Do chapéu roto florido!
Somente um cão vadio
Que se fora aproximando
Tentou saber quqlquer coisa;
Mas logo também se ia,
Soltando triste latido,
Ao sentir a mão tão fria
Que, do banco, imóvel, pendia…
Neste momento fugiu
Um pássaro que se assustou;
A magnólia estremeceu,
E mais uma flor tombou…
Já longe, o cão vadio,
Aos pávidos astros uivou…
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
Debaixo da magnólia
No jardim sossegado
O menddigo adormecera…
Agora,
Já não tinha calor
Aquele corpo enregelado,
Ali, no banco, abandonado,
A vida, dele se esquecera.
Uma flor que caíra
Ao velho chapéu se lhe prendera…
E os raros que passavam
Na noite silencioso,
Não passavam,
E, de mais não cuidando,
Riam
Da caricatura
Do chapéu roto florido!
Somente um cão vadio
Que se fora aproximando
Tentou saber quqlquer coisa;
Mas logo também se ia,
Soltando triste latido,
Ao sentir a mão tão fria
Que, do banco, imóvel, pendia…
Neste momento fugiu
Um pássaro que se assustou;
A magnólia estremeceu,
E mais uma flor tombou…
Já longe, o cão vadio,
Aos pávidos astros uivou…
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
837
João Gulart de Souza Gomos
batalha final
se amanhã me condenarem à morte
ou se o halley beijar sofregamente a terra
quero ver por último o brilho dos teus olhos
quando a praia vier dar no meu quintal
e todo magma exsudar na minha sala
vou inalar profundamente os teus cabelos
quando toda lava do vesúvio e
todo suspiro dos vendavais
assomarem à minha rua
será no teu colo que estarei deitado
(des)esperando o último momento
ainda que todo o sal dos oceanos
e toda terra das montanhas
aterrissem no meu teto
só teus lábios soterrarão meu corpo
os tanques cinzas do tio sam estacionarão no abaeté
e ferirão o farol com seus punhais
mas eu estarei deitado
acima, abaixo, sob, sobre, ao lado
em você, de qualquer jeito
quando todos se forem, míssil indetonado
e quando os patriots e exocets desfizerem minhas nuvens
não haverá dia seguinte:
estarei no túmulo dos teus braços
explodindo em milhões de átomos, desintegrando:
o último soldado desconhecido...
Goulart Gomes, Salvador, BA
ou se o halley beijar sofregamente a terra
quero ver por último o brilho dos teus olhos
quando a praia vier dar no meu quintal
e todo magma exsudar na minha sala
vou inalar profundamente os teus cabelos
quando toda lava do vesúvio e
todo suspiro dos vendavais
assomarem à minha rua
será no teu colo que estarei deitado
(des)esperando o último momento
ainda que todo o sal dos oceanos
e toda terra das montanhas
aterrissem no meu teto
só teus lábios soterrarão meu corpo
os tanques cinzas do tio sam estacionarão no abaeté
e ferirão o farol com seus punhais
mas eu estarei deitado
acima, abaixo, sob, sobre, ao lado
em você, de qualquer jeito
quando todos se forem, míssil indetonado
e quando os patriots e exocets desfizerem minhas nuvens
não haverá dia seguinte:
estarei no túmulo dos teus braços
explodindo em milhões de átomos, desintegrando:
o último soldado desconhecido...
Goulart Gomes, Salvador, BA
929
João Fortunato
Estela
Para Manuel Ribeiro de Paiva
Orgulho natural,
Integridade,
Um corpo que não se vende,
Humilha, ou trai.
Só agora,
Toda claridade,
Sua alma a nós se rende
E não se retrai.
E alva,frágil,
Agreste como flor de esteva,
Acima do turbilhão
Da cidade que a colheu,
Liberta, se eleva…
Orgulho natural,
Integridade,
Um corpo que não se vende,
Humilha, ou trai.
Só agora,
Toda claridade,
Sua alma a nós se rende
E não se retrai.
E alva,frágil,
Agreste como flor de esteva,
Acima do turbilhão
Da cidade que a colheu,
Liberta, se eleva…
768