Poemas neste tema

Morte e Luto

Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Viver e morrer

Viver por viver,
não é viver.

Viver é viver
viver a vida
sem ver,
o que se pode ver.

Viver e morrer
que um dia há de ser,

— mas nunca morrer sem viver

521
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Trilogia

nascimento

— nasceu nas horas
que precedem
a fome

vida

— cresceu com fome

morte

— morreu de fome

795
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Sinos

Os sinos batem
e bate em meu peito
uma dor profunda

Outrora, este sinos
me pareciam amigos
anunciando com a morte
o nascimento do mundo

Mas hoje, eles batem
E a minha dor é profunda

a dor de perder,
parte do meu mundo.

913
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Perda

Tolos dormiam
quando trouxeram
a notícia
"Sebastião perdera a vida"

Itinerário interrompido
O sexo interrompido
O salário inerrompido
(salário família)
que em vida lhe servira
para saldar as dívidas.
Agora choram a perda
do bastião da Nhá Maria
que parte deixando filhos,
dívidas e um salário
"FAMÍLIA"

776
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

A menina do lago azul

Clarice morava
perto de um lago azul
como seus sonhos de menina.
Trazia nos lábios um sorriso
que era a própria vida
formosa cantiga.

Teve uma irmã, Maria
que cedo partira
sempre dizia:
"— quero ir onde está Maria".

Agora mora perto do céu
onde somente os anjos vivem.

1 315
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Monafa

Notícia de Jornal
"Morreu ninguém
nesse dia qualquer
a tal hora
não carece cuidados"

M aria
O ndulava
R eluzia
T ranscendia
A brangia a essência de "ser"

N ascia com a brancura do dia
A manhecia

F estiva do
A mor que
V ivia
E xalava
L eve
A ragem, feito brisa

Renascia com a morte que lhe sorria

1 031
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Menino de favela

Na favela
à favela
uma vela
vela o menino

pálido
frágil
sem vida

1 144
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Hoje tem festa no céu

HOJE TEM FESTA NO CÉU
E OS HOMENS CHORAM NA TERRA

Morreu "mundinho"
filho de Izabel
que brincava às manhãs
com seu barco de papel

HOJE TEM FESTA NO CÉU
E OS HOMENS CHORAM NA TERRA

No céu preparam a chegada
do "mundinho de Izabel"
na terra ficou o barquinho
e o menino foi pro céu
HOJE TEM FESTA NO CÉU

1 109
Mário Beirão

Mário Beirão

Moda Alentejana

A ribeira do Xacafre
Vai rasa dos meus cuidados:
No escuro das águas tristes,
Há laivos ensanguentados…

Ó meus olhos, ó meus olhos,
— Noite e dia — que estais vendo?
A ribeira do Xacafre,
Da minha alma discorrendo!

Na ribeira do Xacafre,
uma voz suspira fundo:
A voz da minha saudade,
A despedir-se do Mundo!

Aldeia de Montes Velhos
Não posso querer-te mais:
És a luz do sol-nascente,
Abrindo, em flor, nos meus ais!

Aldeia de Montes Velhos,
És sempre luz de alvorada,
És sempre rosa do altar
Da chama duma «queimada»!

Eu hei-de florir na urze,
Arder no vento «suão»,
Lá, na Charneca das Naves,
Mar alto da Solidão! —

1 319
Maria Rita Kehl

Maria Rita Kehl

corte de cabelos para ficar triste

Tipo faça-você-mesma. Trabalho incansável.
Pode durar uma noite -- ou mais -- fio por fio --
a memória na ponta da tesoura,
obcecada,
Medo crescente. Medo até a paixão.
Ou até conferir pelo espelho:
aquela lá morreu mesmo.

1 477
Moniz Bandeira

Moniz Bandeira

Canto do Outubro

Que ficou de teu mundo?
Onde aqueles que te ajudaram a construí-lo?
Os muros tragaram balas e palavras
e a erva cresceu sobre os lábios dos mortos
que a noite ocultou.

Sempre noite, sempre inverno,
flocos de neve caindo
na memória dos que marcaram
as estradas do tempo.

Os mortos.
Sangue, pólvora, cinza, pedra,
e um século preso nos seus dentes.

Vê a alvorada,
a alvorada que vem,
que ainda vem,
que surgirá de lágrimas e de sonhos,
quando nos campos,
verdes campos,
hoje cobertos de neve,
as sementes brotarem e as árvores florescerem.

quando todas as vozes,
rasgando túmulos e quebrando espelhos,
vibrarem nos subterrâneos do mundo.

Vê quantos homens
caminham pela madrugada.
Eles esperam por ti.
Esperam que os relógios sangrem
à dor das horas.

Que os rios contidos
desemboquem pela boca dos mortos
despertados ao canto das aves
e dos clarins de fogo da alvorada.

E o sol,
O sol que tu levaste nas mãos,
será de todos.

965
Maria Braga Horta

Maria Braga Horta

A Moça da Praça Mauá

I
De onde vem?
Para onde vai
a moça de olhos de gata?

Parou na praça.
Pararam
grumetes em torno dela.

A moça não tem destino:
só tem caminho de ir,
no escuro da vida, ao cais
onde espera os marinheiros
(urgentes, por demorado
percurso na solidão).

São eles que vêm e vão...

Não lhe trazem "souvenirs"
nem contam as aventuras
do mar e de estranhos portos.
Nem passado e nem presente

lhe contam. Nem ela os tem
para contar a ninguém.
Iguais, no seu merecido,
um dia vai, outro vem.

II
Um dia a encontraram morta
no cais da Praça Mauá.
Suicídio, acidente ou crime?
Nem foi preciso indagar...
Morreu simplesmente a moça
que não recebeu da vida
seu tempo de armazenar.

Acodem três cavalheiros
de branco (tarde demais!)
e a levam num carro branco.
Mas não de branco vestida
vai ela ao eterno cais.

Sobre toda a humanidade
pesa o peso desta morte
da moça que não viveu
estória de se contar,
condenada ao seu caminho
de ir ao cais e voltar
sempre, sempre, sempre, sempre...
sempre sem rir, sem chorar.

III
Morreu a moça dos olhos
de gata. Morreu? Mentira!
A moça de olhos de gata
nasceu com o cais, viverá
o tempo de duração
do cais da Praça Mauá.

Lá está outra vez na praça.
Grumetes desembarcados
dos mares da solidão
(nascidos também com o cais
só com ele morrerão)
urgentes seguem os passos
do seu primeiro destino
em terras de arribação.

A moça de olhos de gata
é porto de solidão.
Nasce e morre. Morre e nasce.
Traz estampado na face
seu horóscopo malsão.

De onde vem? Para onde vai?
A moça não tem destino;
seu tempo ficou parado
no marco da condição.

1 207
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Rotina

Amanheceu
O orvalho molhou a flor
O passarinho cantou
Clareou

A sirene de uma fábrica
O empregado sai correndo
Tumulto
Houve atropelamento

A rádio anuncia
Nota de falecimento

Mais uma alma que vai
Para onde?

865
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Velório

Sinto-me só neste velório
As pessoas estão distantes, alheias
o que farão aqui?

Sussurram problemas diários
preço do arroz, sindicato
sucessão presidencial, sucessos do
[rádio . . .

Estou só, na minha lucidez
E embora seja o morto
Me sinto vivo mais do que nunca.

948
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Morreram as Videiras na Quinta

I
Jogávamos vôlei na beira da tarde
o cabelo era louro o dolmã verde.
Amava o verde da veste. Havia cheiro
de maçã. Havia amor pelo moço de dolmã.

II
Os pássaros em muitas tardes se foram.
Vieram anos de silêncio. Celas de solidão
e medo. Março secou o mar a areia cobriu
palavras. A giesta formou sangue no fim da noite.

III
As árvores verdes marcaram o tempo
marcaram o cansaço o temor da morte.

IV
A música chegava quebrada nas montanhas.
A poesia era o uivo do lobo no amanhecer.

V
Chegaste trazendo o sol nos olhos.
Lembrei o moço de dolmã. Lembrei
o verde crucificado. Lembrei os corpos
enterrados em valas profundas.

VI
Viste com o beijo nos lábios. Nas mãos
o afeto. Havia água cobrindo a febre.
Habitava o verde-oliva nas manhãs.
Verde pântano no porto da alma.

VII
Quando vi a patente em seu casaco,
quando vi o sangue dos meus irmãos
nos porões, morreram as videiras na quinta.
Parti
não entendeste minha ida.
Eras bom e o céu escuro
vestia verdevestia verde.

913
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Sutilezas

Brinco com seus lábios
já ausentes de meus olhos.
Imagino o relógio de sol
marcando peles brancas.
Lembranças envolvem sutilezas
que suas mãos ofereciam.
Doçuras carregam água de geleiras
e em cada verso que te oferto vejo
minha morte.

988
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Chuva na Quilha

A chuva vem de longe, abriga
o fim do ano. No arroio,
memórias memórias
trituradas nas tardes outonais.

Vem chuva na campina da alma.
Guardamos os anéis usados nos dias
do calendário. A água repõe salivas
e lembramos as flores idas na maré.

Esperamos os sóis que virão marcados
de cruzes. A madeira pesa o corpo
e levará o corpo. Somos sobreviventes
do oceano. Sua água chega na porta da casa
mesmo que se faça distante.

A chuva cinza os olhos.
O canto é anterior aos que sobrevivem.
Ainda que se conte o tempo.
Ainda que nas mãos o adeus.
Os mortos virão para o Ano Novo.
Estão sentados à mesa,
vestem linho.

Descerão na aurora
e quando o dia nascer
ficaremos só com a túnica
e a tempestade na quilha.
E o vento o vento presságios
nos olhos
trazendo cardumes. Trazendo a ferrugem
dos números.

1 119
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

O Retrato

(Em memória de Teresinha, minha irmã, em seu aniversário).
Na tarde o perfume da gardênia
os sóis entrando na vidraça.

O retrato navega no oceano
com olhos de tempestade.

Nasce uma rosa em março
nascem passos de ausência
na alma.

Na cristaleira o licor
o licor guardado
na interminável partida.

Vieste alimentar os pássaros
no alpendre
vieste guarnecer de lágrima os olhos.

Há dias preparo as paredes
preparo a cadeira marrom
preparo a carcaça.

Tua figura traz uma mensagem
que se desfaz no espaço
no vento.

O afeto o afeto
devassa os elementos do ser.

Resta o verão o jardim os violinos
o desespero do rosto
que jamais veremos.

1 029
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

O vento nas Folhas

Converso com o tamarindo e escuto
o vento nas folhas.
A palavra cobre a terra, cobre
as mãos inquietas. A idade é remota.
Longe ficaram as sementes.

A idade cega os olhos e invade a morte.
Não tenho o sono do limbo. O muro nasce
a erva no pôr-do-sol. A árvore vem do tempo
das águas e traz a maresia dos cardumes.

O silêncio das nascentes guarda a lonjura
da canção. O mesmo silêncio no verde pinheiro.
O verso perdeu o sol. Quero falar da criança
da rosa do último adeus da velha casa.
Sombras habitam o âmago do texto.

Converso com o tamarindo a história da alma.
A alma se esqueceu das estrelas. O medo
das confissões e o desespero da fala abrigam
um século de vida nos dedos nodosos de sonhos.

1 056
Marco Antônio Rosa

Marco Antônio Rosa

Aos Curdos

As dobras do tempo
me assustam
por sua precisão
em faces há muito conhecidas
e reencontradas
depois de eras
em uma curva qualquer
da estrada
onde seguimos rumo
a estranho compromisso
de pó e cordite,
lágrimas
nos olhos.

853
Marcos A. P. Ribeiro

Marcos A. P. Ribeiro

Minha Bermuda

A sujeira invisível que minha bermuda acumula
só aquele sabão-em-pó vê.

Sinto que novos atributos, de origem não-identificada,
lhe são lentamente agregados.
Ela adquire novo odor:
papelão velho, restos de comida,
líquidos orgânicos, pêlos de gato -
perfeita síntese odorífera
de horas lendo diante da TV
(fazer duas coisas ao mesmo tempo
é um prazer meu).

Então vem o momento
em que é preciso decidir não mais usá-la.
Está suja - conceito bastante elástico.
Volte-se ao início do processo.

Assim percebo a passagem do tempo,
quando se vive para a escolha do epitáfio.

1 022
Maria Aparecida Reis Araújo

Maria Aparecida Reis Araújo

Faces do Silêncio

Pedras escondidas em prateleiras
de encostas
e guizos de aljôfar - silêncio
é o guia, o selo e a viagem.

O desembarcar de ossos
em asas do vento

o borbulhar de espuma
em corpos de areia

o riso milenar no roteiro de cinzas.

870
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

O Retrato de Biel

(Em memória do Poeta e Professor
Gabriel Archanjo de Mendonça)

Vestia o inverno, na foto marcando viagem. Os olhos vinham das águas, do rio, dos pássaros que voavam em seu corpo. A voz cantava uma canção. Canção embrenhada na distância. No silêncio, a risada de Biel. Existia um olhar aberto à procura dos seres que formavam o caule da vida. Reencontro de amigos. O mistério do espírito se preparando ao hiato da ausência. Biel desenhava no porão. Os olhos em vigília. Olhava os campos calcinados, onde borboletas secas dormiam. Biel, inflexão do corpo criando versos de origem, criando grãos no espaço. Biel menino. Ah, os cabelos de Biel! O canário nos dedos trazia o sol. Biel, viajante de tudo que já foi visto. Rindo, rindo, rindo, do barco à espera. Tantas flores chegando. A festa de Biel
O desamparo arrastando o sino. Formigas retalhando memórias. O desgaste no oco dos olhos. Poemas guardados em álbuns amarelados, trazendo emoções. Fazia frio no dia 31 de julho de 1996. Tarde de Biel. De poemas. À margem da praia distante vejo o texto crescendo. Uma flor azul entre as pedras dorme o fim. Biel menino, poeta, desenhista, cantor de canções perdidas. Nada explica o professor do vento da velha São João Nepomuceno.
Leio sua poesia, vejo o retrato vestido de inverno. Encarno a geografia de sua vida. O vôo não foi rasteiro. Plantaram a semente. Depois o pânico do silêncio. Lá fora a chuva marca o nascimento do poeta.

1 180
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Seis Cantos Para Zobeide

I

Na ilha, agapantos lilases partiam o corpo dormido no linear da manhã. A água batia nas pedras. Papagaios povoavam nuvens. Rostos idos com círios levavam louros. A videira esperava o fim da procissão.

II

Vestia de anjo em azul opaco. Pastilhas Valda no timbre da voz. A grinalda em Maria, rostos no altar. Balas de amêndoas. Balas de amêndoas.

III

Matizes da terra no linho formando flores. Flores bordadas no jogo sutil das mãos. Na mesa, a toalha, o ciclo, o desafio à vida. Cavalos de ferrugem arrastavam o corpo. Brancas as paredes e havia portas e janelas.

IV

O assobio chegava quando as nuvens desenhavam o céu. Dinossauros soterrados. Melodia é riso no lábio. Bicicletas vermelhas desciani a rua. A música de um tempo sem tempo. A canção de Zobeide ficou nos pés. No cisco do olho. A embarcação, a vela branca, levaram o azinhavre do piano. Faz silêncio na rua à direita.

V

As flores se vão sem sofrimentos. Fenecem ao oxigênio. O pássaro dorme no relâmpago. Foram calendários, a lágrima na face. O corvo espiava na cumeeira, escondia a luz da tarde. Na Matriz, gritavam teu nome. Era maio. Eram dálias amarelas. Tua roupa azul opaco. A grinalda. Maria. Amêndoas.

VI

Marinheiros vieram de Aldebarã, ungiram os olhos. Douraram o pente nos cabelos. Banharam as pálpebras com malva e fecharam o sol nas mãos. A quilha de açafrão esperava o óleo dos ossos. A cal da tarde marcou a eternidade. Vieram gralhas, o sino. Uma chuva de mariscos nos olhos. Escutei na pedra a voz de teus cantores dormindo o sono. Havia sementes de gergelim. Havia pergaminho nos olhos. O pássaro levando o adeus de maio.

Zobeide Gonçalves de Castro
08/06/1932 - 12/05/1996
O carínho de tua írmã poeta.

896