Poemas neste tema
Morte e Luto
Felipe Sampaio
Duas Faces
Morri duas vezes.
Duas faces desiguais.
Estranho...
Eu que procurei-as.
O primeiro rosto era lindo,
Singelamente único e terno.
Engraçado...
Um rosto que tinha tudo
Para me dar a vida,
Uma nova vida.
Mas me negou,
Me magoou,
Me matou.
Senti ali o fardo melancólico
De ser reduzido
Ao mais ínfimo ser.
"Formigas, levem-me!"
Fujo,
Atravesso a porta
E escolho um segundo rosto.
Basta um.
Encho-me de coragem.
A morte vem a 4 rodas.
Um rosto agora desconhecido,
Inocente e amedrontado
Que passa por cima de mim
E compreensivelmente foje.
Esquisito...
Agora ele é quem foge,
Enquanto ali eu fico
Mais uma vez
Sentido um peso
Em minhas costas,
Enquanto espero que o primeiro rosto,
Terrivelmente belo,
Vá até a mim
E ao menos chore.
01/06/97
Duas faces desiguais.
Estranho...
Eu que procurei-as.
O primeiro rosto era lindo,
Singelamente único e terno.
Engraçado...
Um rosto que tinha tudo
Para me dar a vida,
Uma nova vida.
Mas me negou,
Me magoou,
Me matou.
Senti ali o fardo melancólico
De ser reduzido
Ao mais ínfimo ser.
"Formigas, levem-me!"
Fujo,
Atravesso a porta
E escolho um segundo rosto.
Basta um.
Encho-me de coragem.
A morte vem a 4 rodas.
Um rosto agora desconhecido,
Inocente e amedrontado
Que passa por cima de mim
E compreensivelmente foje.
Esquisito...
Agora ele é quem foge,
Enquanto ali eu fico
Mais uma vez
Sentido um peso
Em minhas costas,
Enquanto espero que o primeiro rosto,
Terrivelmente belo,
Vá até a mim
E ao menos chore.
01/06/97
364
Carlos Drummond de Andrade
Ei, Bexiga!
Os chocolates em túnica de prata,
justa, recendem. A hortelã
das balas pincela um frio verdoendo
na boca.
Tudo vem de longe, de São Paulo,
para Seu Foscarini, distribuidor de delícias.
E um homem desses vai morrer de varíola?
A Idade-média enrola a cidade
em cobertor de pânico.
Sete dias se fecham as portas
se acendem velas
sem leite sem pão sem saúde pública
joelhos em terra exortam a sagrada ira
a poupar os que não são italianos e fundaram
este chão de Deus sem bexigas.
Pereça, coitado, Seu Foscarini,
mas as velhas famílias se salvem.
Levam Seu Foscarini para o lazareto,
que não é lazareto, é um casebre desbeiçado
no campo onde a cobra pasta
vírgulas de tédio.
Nunca mais chocolates, licorinos
caramelos, magia de São Paulo?
Rezo por Seu Foscarini,
que milagrosamente se salva
e fecha a confeitaria.
justa, recendem. A hortelã
das balas pincela um frio verdoendo
na boca.
Tudo vem de longe, de São Paulo,
para Seu Foscarini, distribuidor de delícias.
E um homem desses vai morrer de varíola?
A Idade-média enrola a cidade
em cobertor de pânico.
Sete dias se fecham as portas
se acendem velas
sem leite sem pão sem saúde pública
joelhos em terra exortam a sagrada ira
a poupar os que não são italianos e fundaram
este chão de Deus sem bexigas.
Pereça, coitado, Seu Foscarini,
mas as velhas famílias se salvem.
Levam Seu Foscarini para o lazareto,
que não é lazareto, é um casebre desbeiçado
no campo onde a cobra pasta
vírgulas de tédio.
Nunca mais chocolates, licorinos
caramelos, magia de São Paulo?
Rezo por Seu Foscarini,
que milagrosamente se salva
e fecha a confeitaria.
1 092
Fabio Valor Caldas
Janela
Foi da janela do meu quarto
Que te vi pela primeira e última vez,
Com o meu olhar sonolento
Observava a tua presença.
Seus cabelos brincando com o vento,
E seus olhos distraídos,
Suas pernas em passos frágeis,
E seus belos movimentos perdidos.
Uma passo gracioso saindo da calçada,
No momento em que um alegre
passarinho cantava em seu cortejo,
E você apenas caminhava...
Até que o carro te surpreendeu,
Derrubou-te no chão
Sujando tudo de sangue,
Levando sua alma para longe de mim.
Que te vi pela primeira e última vez,
Com o meu olhar sonolento
Observava a tua presença.
Seus cabelos brincando com o vento,
E seus olhos distraídos,
Suas pernas em passos frágeis,
E seus belos movimentos perdidos.
Uma passo gracioso saindo da calçada,
No momento em que um alegre
passarinho cantava em seu cortejo,
E você apenas caminhava...
Até que o carro te surpreendeu,
Derrubou-te no chão
Sujando tudo de sangue,
Levando sua alma para longe de mim.
932
Pentti Saarikoski
XLVII
os mortos têm nomes
os vivos: uma cara e dez dedos
582
Erich Fried
Falta de humor
Os moleques
jogam
de brincadeira
pedras
nos sapos
Os sapos
morrem
de verdade
:
Humorlos
Die Jungen
werfen
zum Spass
mit Steinen
nach Fröschen
Die Frösche
sterben
im Ernst
jogam
de brincadeira
pedras
nos sapos
Os sapos
morrem
de verdade
:
Humorlos
Die Jungen
werfen
zum Spass
mit Steinen
nach Fröschen
Die Frösche
sterben
im Ernst
871
Erich Fried
Naturalização
Mãos brancas
cabelos ruivos
olhos azuis
Pedras brancas
sangue ruivo
lábios azuis
Ossos brancos
areia ruiva
céu azul
:
Einbürgerung
Weisse Hände
rotes Haar
blaue Augen
Weisse Steine
rotes Blut
blaue Lippen
Weisse Knochen
roter Sand
blauer Himmel
cabelos ruivos
olhos azuis
Pedras brancas
sangue ruivo
lábios azuis
Ossos brancos
areia ruiva
céu azul
:
Einbürgerung
Weisse Hände
rotes Haar
blaue Augen
Weisse Steine
rotes Blut
blaue Lippen
Weisse Knochen
roter Sand
blauer Himmel
1 002
Lois Pereiro
Somentes
Somentes
intentaba conseguir
deixar na terra
algo de min que me sobrevivise
sabendo que deberia ter sabido
impedirme a min mesmo
descubrir que só fun un interludio
atroz entre dous muros de silencio
só puiden evitar vivindo á sombra
inocularlle para sempre a quen amaba
doses letais do amor que envelenaba
a súa alma cunha dor eterna
sustituíndo o desexo polo exilio
iniciei a viaxe sen retorno
deixándome levar sen resistencia
ó fondo dunha interna
aniquilación chea de nostalxia.
intentaba conseguir
deixar na terra
algo de min que me sobrevivise
sabendo que deberia ter sabido
impedirme a min mesmo
descubrir que só fun un interludio
atroz entre dous muros de silencio
só puiden evitar vivindo á sombra
inocularlle para sempre a quen amaba
doses letais do amor que envelenaba
a súa alma cunha dor eterna
sustituíndo o desexo polo exilio
iniciei a viaxe sen retorno
deixándome levar sen resistencia
ó fondo dunha interna
aniquilación chea de nostalxia.
1 210
Lois Pereiro
Cero a la izquierda
O corredor de fondo perde o alento
fuxindo dunha vida inzada de renuncias
da súa liturxia obesa e oleosa,
mediocre nos seus comunais fracasos,
bágoas de xelo, indignación contida
non deu chegado a tempo de exercer
a súa rebelión,
nin de levar a cabo
a súa vinganza definitiva
contra un mundo inxusto, homicida, e cruel,
pola inutilidade da súa propia vida
solitario, enfermo e fatigado,
a morte anticipouse e chegou antes.
927
Maria Ângela Alvim
Sempre distante amor e perto anseio
Sempre distante amor e perto anseio,
e triste descambar do adeus e a ida
em promessa que apenas prometida
tanto levou do ser que o fez alheio.
De outra morte morrer, opõe receio?
Morre um morto após si, já em seguida
à perda ao largo de alma tão perdida?
Mortos são os que morrem vida em meio.
São os vivos de amor, que amor esquece,
e, súbito, na morte amadurece
antes de tudo mais que vai morrendo.
Feridos numa dor que está vivendo
no arrastar em gemido e em passo tardo,
ter sido, mais que ser, terrível fardo.
e triste descambar do adeus e a ida
em promessa que apenas prometida
tanto levou do ser que o fez alheio.
De outra morte morrer, opõe receio?
Morre um morto após si, já em seguida
à perda ao largo de alma tão perdida?
Mortos são os que morrem vida em meio.
São os vivos de amor, que amor esquece,
e, súbito, na morte amadurece
antes de tudo mais que vai morrendo.
Feridos numa dor que está vivendo
no arrastar em gemido e em passo tardo,
ter sido, mais que ser, terrível fardo.
911
Maria Ângela Alvim
Estou e não me respondo
Estou e não me respondo.
Assisto. Em mim se decide
um inútil afã e se some
a vida que me preside.
E passo, ainda... Meu nome
há muito não coincide
comigo se estar se consome
e tantas vezes me elide.
Me move o tempo mais frio
de tanto pranto afogado
num quase mito de mim.
Vou morando em desvario
quase em sonho inaugurado
para um começo, meu fim.
Assisto. Em mim se decide
um inútil afã e se some
a vida que me preside.
E passo, ainda... Meu nome
há muito não coincide
comigo se estar se consome
e tantas vezes me elide.
Me move o tempo mais frio
de tanto pranto afogado
num quase mito de mim.
Vou morando em desvario
quase em sonho inaugurado
para um começo, meu fim.
899
Daniel Faria
Um pássaro em queda mesmo
Um pássaro em queda mesmo
Quando é proporcional à pedra
Que tomba do muro nunca
Alcança a mesma coloração do musgo
– Já nem sequer falo do tempo
Em que mudam a pena
Para fazeres ideia pensa
Como perde um homem a idade
De encontrar os ninhos
Retém na memória: o homem cai. Desloca-se
O pássaro para que as estações não mudem
É dessa rotação que o muro
Pode cercar-se sem ninguém o construir. O cerco
Do voo é a pedra da idade
Para fazeres uma ideia pensa
Em engoli-la
1 294
Flávio Sátiro Fernandes
O aprendiz de sapateiro
Bate o prego no salto,
o prego salta,
o martelo na sola,
o martelo ao sol,
a faca afiada a chiar na sola,
a forma, a sovela, a linha escassa.
Não passe o sapateiro
além do chinelo.
Sola, meia-sola, salto,
brocha, alicate, prego, brocha,
a palmilha pisando firme
no compasso do martelo.
Sola, meia-sola, sapato, salto,
salto para a morte.
o prego salta,
o martelo na sola,
o martelo ao sol,
a faca afiada a chiar na sola,
a forma, a sovela, a linha escassa.
Não passe o sapateiro
além do chinelo.
Sola, meia-sola, salto,
brocha, alicate, prego, brocha,
a palmilha pisando firme
no compasso do martelo.
Sola, meia-sola, sapato, salto,
salto para a morte.
1 875
Felipe d’Oliveira
O Epitáfio que Não Foi Gravado
Todos sentiram quando a morte entrou
com um frêmito apressado de retardatária.
A que tinha de morrer, — a que a esperava, —
fechou os olhos
fatigados de assistirem ao mal-entendido da vida.
Os que a choravam sabiam-na sem pecado,
consoladora dos aflitos,
boca de perdão e de indulgência,
corpo sem desejo,
voz sem amargor.
A que tinha de morrer fechou os olhos fatigados,
mas tranqüilos...
Porque os que a choravam nunca saberiam
o rancor sem perdão de sua boca,
o desejo saciado de seu corpo,
o amargor de sua voz,
a sua angústia de arrastar até o fim a alma postiça que lhe fizeram,
o seu cansaço imenso de abafar, secretos, na carne ansiosa,
a perfeição e o orgulho de pecar.
A que tinha de morrer fechou os olhos para sempre
e os que a choravam
nunca souberam de alguém que foi de todos junto ao leito à hora do exausto coração parar
o mais distante,
o mais imóvel,
o que não soluçou
o que não pôde erguer as pálpebras pesadas,
o que sentiu clamar no sangue o desespero de sobreviver,
o que estrangulou na garganta o grito dilacerado do solitário,
o que depôs, sobre a serenidade da morte purificadora,
a redenção do silêncio,
como uma pedra votiva de sepulcro.
com um frêmito apressado de retardatária.
A que tinha de morrer, — a que a esperava, —
fechou os olhos
fatigados de assistirem ao mal-entendido da vida.
Os que a choravam sabiam-na sem pecado,
consoladora dos aflitos,
boca de perdão e de indulgência,
corpo sem desejo,
voz sem amargor.
A que tinha de morrer fechou os olhos fatigados,
mas tranqüilos...
Porque os que a choravam nunca saberiam
o rancor sem perdão de sua boca,
o desejo saciado de seu corpo,
o amargor de sua voz,
a sua angústia de arrastar até o fim a alma postiça que lhe fizeram,
o seu cansaço imenso de abafar, secretos, na carne ansiosa,
a perfeição e o orgulho de pecar.
A que tinha de morrer fechou os olhos para sempre
e os que a choravam
nunca souberam de alguém que foi de todos junto ao leito à hora do exausto coração parar
o mais distante,
o mais imóvel,
o que não soluçou
o que não pôde erguer as pálpebras pesadas,
o que sentiu clamar no sangue o desespero de sobreviver,
o que estrangulou na garganta o grito dilacerado do solitário,
o que depôs, sobre a serenidade da morte purificadora,
a redenção do silêncio,
como uma pedra votiva de sepulcro.
1 489
Joaquim Cardozo
Cemitério da Infância
Semana da criança, 1953
No cemitério da Infância
Era manhã quando entrei,
Das plantas que vi florindo
De tantas me deslumbrei...
Era manhã reluzindo
Quando ao meu país cheguei,
Dos rostos que vi sorrindo
De poucos me lembrarei.
Vinha de largas distâncias
No meu cavalo veloz,
Pela noite, sobre a noite,
Na pesquisa de arrebóis;
E ouvia, sinistramente,
Longínqua, esquecida voz...
Galos cantavam, cantavam.
— Auroras de girassóis.
Por esses aléns de serras,
Pelas léguas de verão,
Quantos passos repetidos
Trilhados no mesmo chão;
Pelas margens das estradas:
Rosário, cruz, coração...
Mulheres rezando as lágrimas,
Passando as gotas na mão.
Aqui caíram as asas
Dos anjos. Rudes caminhos
Adornam covas pequenas
De urtiga branca e de espinhos;
Mais perto cheguei meus passos,
Mais e demais, de mansinho:
As almas do chão revoaram:
Um bando de passarinhos.
Oh! aflições pequeninas
Em corações de brinquedos;
Em sono se desfolharam
Tuas roseiras de medo...
Teus choros trazem relentos:
Ternuras de manhã cedo;
Oh! Cemitério da Infância
Abre a luz do teu segredo.
Carne, cinza, terra, adubo
Guardam mistérios mortais;
Meninos, depois adultos:
Os grandes canaviais...
— Crescem bagas nos arbustos,
Como riquezas reais,
Pasta o gado nas planuras
Dos vastos campos gerais.
Publicado no livro Signo estrelado (1960). Poema integrante da série Elegias.
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.78-8
No cemitério da Infância
Era manhã quando entrei,
Das plantas que vi florindo
De tantas me deslumbrei...
Era manhã reluzindo
Quando ao meu país cheguei,
Dos rostos que vi sorrindo
De poucos me lembrarei.
Vinha de largas distâncias
No meu cavalo veloz,
Pela noite, sobre a noite,
Na pesquisa de arrebóis;
E ouvia, sinistramente,
Longínqua, esquecida voz...
Galos cantavam, cantavam.
— Auroras de girassóis.
Por esses aléns de serras,
Pelas léguas de verão,
Quantos passos repetidos
Trilhados no mesmo chão;
Pelas margens das estradas:
Rosário, cruz, coração...
Mulheres rezando as lágrimas,
Passando as gotas na mão.
Aqui caíram as asas
Dos anjos. Rudes caminhos
Adornam covas pequenas
De urtiga branca e de espinhos;
Mais perto cheguei meus passos,
Mais e demais, de mansinho:
As almas do chão revoaram:
Um bando de passarinhos.
Oh! aflições pequeninas
Em corações de brinquedos;
Em sono se desfolharam
Tuas roseiras de medo...
Teus choros trazem relentos:
Ternuras de manhã cedo;
Oh! Cemitério da Infância
Abre a luz do teu segredo.
Carne, cinza, terra, adubo
Guardam mistérios mortais;
Meninos, depois adultos:
Os grandes canaviais...
— Crescem bagas nos arbustos,
Como riquezas reais,
Pasta o gado nas planuras
Dos vastos campos gerais.
Publicado no livro Signo estrelado (1960). Poema integrante da série Elegias.
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.78-8
1 247
Francisco Bernardino Ribeiro
Ode
(Ao Algoz de 24 de maio de 1833 - S. Paulo)
Eu vi um homem?... ou me ilude a mente!
Que horror que eu sinto!... Homem! não, não eras,
Tranqüilo fratricida.
Como pudeste, ó monstro,
Áridos olhos atentar na vítima
Desfalecida, exangue?
Como pudeste impávido roubar-lhe
Miseranda existência com os redobres
De angústias repetidas,
Sem o brado ouvires,
Que dentro da alma rompe, e clama: "É homem,
E homem desgraçado?!"
Como o pudeste sem arrepiar-te
As carnes frio horror? Sem ver diante
Esquálido fantasma
Habitador dos túmulos,
Com a mirrada mão prender-te os braços,
"É teu irmão!" — chamar-te?
Que é desse coração, que o ser te alenta?
Ainda palpita? Não. Quente de crimes
O sangue infeccionado
Dispara só arrancos.
E cada arranco ordena um atentado.
Deixaste de ser homem!
És aborto do inferno, ente perverso,
Nasceste apenas para ser vergonha,
Opróbrio da existência.
É mais que tu ditoso
Aquele que arrojaste à sepultura
Que tuas mãos cavaram.
Esse ostentou furores desastrosos;
Mas não mostrou à face do Universo,
Que surdo à natureza,
Já saciado tigre,
Em paz — com as garras meneava a morte
Para extinguir humanos!
Eu vi um homem?... ou me ilude a mente!
Que horror que eu sinto!... Homem! não, não eras,
Tranqüilo fratricida.
Como pudeste, ó monstro,
Áridos olhos atentar na vítima
Desfalecida, exangue?
Como pudeste impávido roubar-lhe
Miseranda existência com os redobres
De angústias repetidas,
Sem o brado ouvires,
Que dentro da alma rompe, e clama: "É homem,
E homem desgraçado?!"
Como o pudeste sem arrepiar-te
As carnes frio horror? Sem ver diante
Esquálido fantasma
Habitador dos túmulos,
Com a mirrada mão prender-te os braços,
"É teu irmão!" — chamar-te?
Que é desse coração, que o ser te alenta?
Ainda palpita? Não. Quente de crimes
O sangue infeccionado
Dispara só arrancos.
E cada arranco ordena um atentado.
Deixaste de ser homem!
És aborto do inferno, ente perverso,
Nasceste apenas para ser vergonha,
Opróbrio da existência.
É mais que tu ditoso
Aquele que arrojaste à sepultura
Que tuas mãos cavaram.
Esse ostentou furores desastrosos;
Mas não mostrou à face do Universo,
Que surdo à natureza,
Já saciado tigre,
Em paz — com as garras meneava a morte
Para extinguir humanos!
645
Xavier Villaurrutia
Noturno em que nada se ouve
Em meio a um silêncio deserto como a rua antes do crime
sem sequer respirar para que nada turve minha morte
nesta solidão sem paredes
no momento em que fugiram os ângulos
na tumba do leito deixo minha estátua sem sangue
para sair em um instante tão lento
em uma descida interminável
sem braços para estender
sem dedos para alcançar a escala que cai de um piano invisível
sem nada mais que um olhar e uma voz
que não se lembram de ter saído de olhos e lábios
o que são lábios? que são olhares que são lábios?
E minha voz já não é minha
dentro da água que não molha
dentro do ar de vidro
dentro do fogo pálido que corta como o grito
E no jogo angustiante de um espelho perante outro
cai minha voz
e minha voz que madura
e minha voz queimadura
e minha foz que matura
e minha voz queima dura
como o gelo de vidro
como o grito de gelo
aqui no caracol da orelha
no latido de um mar no qual não sei nada
no qual não se nada
porque deixei pés e braços na areia
sinto cair fora de mim a rede dos meus nervos
mas tudo foge como o peixe que se dá conta
até cem no pulso das minhas têmporas
telegrafia muda à qual ninguém responde
porque o sonho e a morte já nada têm a se dizerem
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Nocturno en que nada se oye
Xavier Villaurrutia
En medio de un silencio desierto como la calle antes del crimen
sin respirar siquiera para que nada turbe mi muerte
en esta soledad sin paredes
al tiempo que huyeron los ángulos
en la tumba del lecho dejo mi estatua sin sangre
para salir en un momento tan lento
en un interminable descenso
sin brazos que tender
sin dedos para alcanzar la escala que cae de un piano invisible
sin más que una mirada y una voz
que no recuerdan haber salido de ojos y labios
¿qué son labios? ¿qué son miradas que son labios?
Y mi voz ya no es mía
dentro del agua que no moja
dentro del aire de vidrio
dentro del fuego lívido que corta como el grito
Y en el juego angustioso de un espejo frente a otro
cae mi voz
y mi voz que madura
y mi voz quemadura
y mi bosque madura
y mi voz quema dura
como el hielo de vidrio
como el grito de hielo
aquí en el caracol de la oreja
el latido de un mar en el que no sé nada
en el que no se nada
porque he dejado pies y brazos en la orilla
siento caer fuera de mí la red de mis nervios
mas huye todo como el pez que se da cuenta
hasta ciento en el pulso de mis sienes
muda telegrafía a la que nadie responde
porque el sueño y la muerte nada tienen ya que decirse.
.
.
.
sem sequer respirar para que nada turve minha morte
nesta solidão sem paredes
no momento em que fugiram os ângulos
na tumba do leito deixo minha estátua sem sangue
para sair em um instante tão lento
em uma descida interminável
sem braços para estender
sem dedos para alcançar a escala que cai de um piano invisível
sem nada mais que um olhar e uma voz
que não se lembram de ter saído de olhos e lábios
o que são lábios? que são olhares que são lábios?
E minha voz já não é minha
dentro da água que não molha
dentro do ar de vidro
dentro do fogo pálido que corta como o grito
E no jogo angustiante de um espelho perante outro
cai minha voz
e minha voz que madura
e minha voz queimadura
e minha foz que matura
e minha voz queima dura
como o gelo de vidro
como o grito de gelo
aqui no caracol da orelha
no latido de um mar no qual não sei nada
no qual não se nada
porque deixei pés e braços na areia
sinto cair fora de mim a rede dos meus nervos
mas tudo foge como o peixe que se dá conta
até cem no pulso das minhas têmporas
telegrafia muda à qual ninguém responde
porque o sonho e a morte já nada têm a se dizerem
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Nocturno en que nada se oye
Xavier Villaurrutia
En medio de un silencio desierto como la calle antes del crimen
sin respirar siquiera para que nada turbe mi muerte
en esta soledad sin paredes
al tiempo que huyeron los ángulos
en la tumba del lecho dejo mi estatua sin sangre
para salir en un momento tan lento
en un interminable descenso
sin brazos que tender
sin dedos para alcanzar la escala que cae de un piano invisible
sin más que una mirada y una voz
que no recuerdan haber salido de ojos y labios
¿qué son labios? ¿qué son miradas que son labios?
Y mi voz ya no es mía
dentro del agua que no moja
dentro del aire de vidrio
dentro del fuego lívido que corta como el grito
Y en el juego angustioso de un espejo frente a otro
cae mi voz
y mi voz que madura
y mi voz quemadura
y mi bosque madura
y mi voz quema dura
como el hielo de vidrio
como el grito de hielo
aquí en el caracol de la oreja
el latido de un mar en el que no sé nada
en el que no se nada
porque he dejado pies y brazos en la orilla
siento caer fuera de mí la red de mis nervios
mas huye todo como el pez que se da cuenta
hasta ciento en el pulso de mis sienes
muda telegrafía a la que nadie responde
porque el sueño y la muerte nada tienen ya que decirse.
.
.
.
968
Fernando Pessoa
Doce é o fruto à vista, e à boca amaro,
Doce é o fruto à vista, e à boca amaro,
Breve é a vida ao tempo e longa à alma.
A arte, com que todos,
— Ora sem saber virando os copos,
Ora, enchendo-os, consiste em nos ousarmos,
Chegada a morte, despi-la.
Breve é a vida ao tempo e longa à alma.
A arte, com que todos,
— Ora sem saber virando os copos,
Ora, enchendo-os, consiste em nos ousarmos,
Chegada a morte, despi-la.
1 383
Fernando José dos Santos Oliveira
Sou alguém comum
Sou alguém comum
Sou alguém comum, que a multidão de homens comuns esconde.
(ainda que charmoso não admitir).
Algumas vezes fui maior, menor, mais alto, mais baixo, mais feio, mais bonito.
Sou tão incomum quanto qualquer homem comum.
Algumas vezes nadei, outras, em corredeiras me arrebentei.
Já morri muitas mortes e em todas renasci;
Nem sempre certo, nem sempre errado,
às vezes sequer diferente.
Já desisti de viver muitos sonhos; jamais de sonhá-los.
Quando definirem amor, talvez eu diga que já amei,
ou que fui amado.
Não sei.
Mas, por Deus, eu sempre tentei.
Não sei se sei quem sou, ou mesmo se quero sabê-lo:
o que me encanta é a jornada.
Sou alguém que busca, e não sabe se quer encontrar.
Já senti saudades doloridas de mim,
Já me escondi, apavorado.
Já menti, já matei, já fiz chorar, já magoei, já pisei;
Mas eu me lembro de quando lutei verdades,
de vidas que dei,
de lágrimas que sequei,
das mágoas que tomei a mim,
e vejo marcas de pés no meu corpo, também.
Já chorei de dor,
ou por uma flor.
Já dei porradas e recebi outras tantas, dolorosas - e sobrevivi.
Já sorri sorrisos de todas as cores;
Já dei e me esquivei de muitos abraços;
Já beijei e fui beijado, de muitas formas:
dos falsos aos essenciais.
Já transei, já "trepei", já "comi";
e talvez um dia (sonho meu) eu venha a fazer amor.
Já tive amigos (e ainda os tenho, todos, mesmo que não se lembrem).
Tenho o corpo de quem abraça, mas também quero ser abraçado.
Já tive medo da morte, e já a desejei, e já a venci.
Já tive medo da vida, e já a desejei, e já a vivi
Sou alguém que caminha pela estrada,
às vezes de mãos dadas com a alegria;
outras, abraçado pela tristeza.
Tenho os pés no chão mas não me furto o prazer de voar.
Tenho os olhos tristes (já o disseram) mas consigo, aqui e ali, sorrir
- mesmo que para esconder.
Tenho estado num lugar ou noutro, nas horas certas e nas erradas.
Tenho sido vários e espero jamais ter que escolher um.
Tenho sido um pouco disso, daquilo e talvez mais,
e talvez menos.
Nada de mais, não!
Saio por aí, voando ou me arrastando, e sempre volto para aqui:
Sou alguém comum, que a multidão de homens comuns esconde.
Sou alguém comum, que a multidão de homens comuns esconde.
(ainda que charmoso não admitir).
Algumas vezes fui maior, menor, mais alto, mais baixo, mais feio, mais bonito.
Sou tão incomum quanto qualquer homem comum.
Algumas vezes nadei, outras, em corredeiras me arrebentei.
Já morri muitas mortes e em todas renasci;
Nem sempre certo, nem sempre errado,
às vezes sequer diferente.
Já desisti de viver muitos sonhos; jamais de sonhá-los.
Quando definirem amor, talvez eu diga que já amei,
ou que fui amado.
Não sei.
Mas, por Deus, eu sempre tentei.
Não sei se sei quem sou, ou mesmo se quero sabê-lo:
o que me encanta é a jornada.
Sou alguém que busca, e não sabe se quer encontrar.
Já senti saudades doloridas de mim,
Já me escondi, apavorado.
Já menti, já matei, já fiz chorar, já magoei, já pisei;
Mas eu me lembro de quando lutei verdades,
de vidas que dei,
de lágrimas que sequei,
das mágoas que tomei a mim,
e vejo marcas de pés no meu corpo, também.
Já chorei de dor,
ou por uma flor.
Já dei porradas e recebi outras tantas, dolorosas - e sobrevivi.
Já sorri sorrisos de todas as cores;
Já dei e me esquivei de muitos abraços;
Já beijei e fui beijado, de muitas formas:
dos falsos aos essenciais.
Já transei, já "trepei", já "comi";
e talvez um dia (sonho meu) eu venha a fazer amor.
Já tive amigos (e ainda os tenho, todos, mesmo que não se lembrem).
Tenho o corpo de quem abraça, mas também quero ser abraçado.
Já tive medo da morte, e já a desejei, e já a venci.
Já tive medo da vida, e já a desejei, e já a vivi
Sou alguém que caminha pela estrada,
às vezes de mãos dadas com a alegria;
outras, abraçado pela tristeza.
Tenho os pés no chão mas não me furto o prazer de voar.
Tenho os olhos tristes (já o disseram) mas consigo, aqui e ali, sorrir
- mesmo que para esconder.
Tenho estado num lugar ou noutro, nas horas certas e nas erradas.
Tenho sido vários e espero jamais ter que escolher um.
Tenho sido um pouco disso, daquilo e talvez mais,
e talvez menos.
Nada de mais, não!
Saio por aí, voando ou me arrastando, e sempre volto para aqui:
Sou alguém comum, que a multidão de homens comuns esconde.
984
Marcelo Tápia
ironia do destino
Ayds emagrece com segurança 4,5 kg por mês.
Já emagreceu milhares de americanos.
(...) logo, logo, Ayds estará em todo o Brasil.
anúncio publicitário em revista Cláudia, c. 1972
no anúncio antigo de produto dietético
o humor tétrico adivinho da palavra:
poder intemporal, primitivo, insone
a se trair só por um ipsilone?
Já emagreceu milhares de americanos.
(...) logo, logo, Ayds estará em todo o Brasil.
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o humor tétrico adivinho da palavra:
poder intemporal, primitivo, insone
a se trair só por um ipsilone?
907
Fernando José dos Santos Oliveira
A Meu Pai
A Meu Pai
O silêncio respeitoso
O dia lento, leve,
moroso
Uma água quente
que passa e vai.
Só agora, agorinha mesmo,
A mente volta - e lembra -
do andar a esmo:
faz 5 anos perdi(?) meu pai.
Perdi? Por que então o tenho?
Por que na vida me embrenho
como se o medo não incomodasse?
Por que o sinto tão perto agora?
Por que não sinto que foi embora?
Por que doces lágrimas na face?
Como sua presença me é calma!
Quão bem me faz à alma
tê-lo, assim, no coração!
Como queria agradecer
O homem que sou,
e não chegou a ver,
Como queria beijar sua mão!
Como queria falar-lhe tanto
Como queria secar meu pranto
ouvir silêncio, fugir do barulho.
Como queria me visse agora:
o homem forte que ri e chora,
como queria o seu orgulho!
Tantas vezes o tive aqui:
quando chorei, amei, sofri;
Tantas vezes o vi presente.
Sempre que, caído, chorei;
sempre que, sorrindo, amei;
sempre senti seu toque quente.
Alguém doce, e forte, e rude
- meu Deus, como não pude
sentir-lhe isso enquanto perto!
Era alguém que amou profundo
a nós: sua vida, sua luta, seu mundo
abraços largos, peito aberto.
Não por saudade lágrimas vêm;
Por que por feliz se chora também;
porque minhalma revê-lo espera.
Até lá só me resta honrá-lo
e minha forma de amá-lo
é tentar ser o que ele era.
O silêncio respeitoso
O dia lento, leve,
moroso
Uma água quente
que passa e vai.
Só agora, agorinha mesmo,
A mente volta - e lembra -
do andar a esmo:
faz 5 anos perdi(?) meu pai.
Perdi? Por que então o tenho?
Por que na vida me embrenho
como se o medo não incomodasse?
Por que o sinto tão perto agora?
Por que não sinto que foi embora?
Por que doces lágrimas na face?
Como sua presença me é calma!
Quão bem me faz à alma
tê-lo, assim, no coração!
Como queria agradecer
O homem que sou,
e não chegou a ver,
Como queria beijar sua mão!
Como queria falar-lhe tanto
Como queria secar meu pranto
ouvir silêncio, fugir do barulho.
Como queria me visse agora:
o homem forte que ri e chora,
como queria o seu orgulho!
Tantas vezes o tive aqui:
quando chorei, amei, sofri;
Tantas vezes o vi presente.
Sempre que, caído, chorei;
sempre que, sorrindo, amei;
sempre senti seu toque quente.
Alguém doce, e forte, e rude
- meu Deus, como não pude
sentir-lhe isso enquanto perto!
Era alguém que amou profundo
a nós: sua vida, sua luta, seu mundo
abraços largos, peito aberto.
Não por saudade lágrimas vêm;
Por que por feliz se chora também;
porque minhalma revê-lo espera.
Até lá só me resta honrá-lo
e minha forma de amá-lo
é tentar ser o que ele era.
1 103
Erorci Santana
XXVI
Por mais que eu me seqüestre, aquele rio me retoma.
E começa a desenhar-se na lembrança
seus contornos imprecisos, rio limpo, atravessando
a alma sem escoriações, sem danos, embora
maculada para sempre a sua líquida história,
evocação inscrita agora, nessa idade sazonada
e madura. Traz ao poema os primeiros signos do mal.
Primeiro surgem os palustres afogados,
continentais criaturas, depois os assassinados,
cujos inquéritos policiais não decifraram
a condição de peixes compulsórios, os que
tomaram o rio de empréstimo e têm nele
a morada derradeira. Obriga-os ao fundo
um colar de pérolas vulcânicas, utilitárias
da construção civil de grutas.
(...)
Todo rio é da infância e principia com águas
de pouco caso e vai ganhando lenda
e autoridade a cada braça percorrida
para consumo próprio e assombração de inimigos.
E vai morrer, melhor, somar-se ao mar,
cumprindo o seu destino, feito os kamikazes,
os poemas, os meninos. Veste-se
de ira quando violada sua integridade,
ao jugo de substâncias estranhas submetido.
Deve vingar-se semeando a morte se preciso,
pestilências de calibre, delegar armas letais
aos esquadrões de sua guarda para dizimar
aqueles que cometem lesa-majestade contra ele.
Rio que se preze não deve dar testemunho
de pusilanimidade, deve disfarçar seus tristes tons,
creditar à pujança toda venenosa escuma.
E mesmo que os discípulos chorem lágrimas veladas,
esse Mestre deve transitar por entre eles
de cabeça erguida. Um rio assim antepara
os aguilhões da mágoa. Quem obtém um rio assim
não anda mais sozinho. Rio desse naipe,
mesmo turvo como sói, rio deve, até que banhem
o coração de toda humanidade as suas águas.
E começa a desenhar-se na lembrança
seus contornos imprecisos, rio limpo, atravessando
a alma sem escoriações, sem danos, embora
maculada para sempre a sua líquida história,
evocação inscrita agora, nessa idade sazonada
e madura. Traz ao poema os primeiros signos do mal.
Primeiro surgem os palustres afogados,
continentais criaturas, depois os assassinados,
cujos inquéritos policiais não decifraram
a condição de peixes compulsórios, os que
tomaram o rio de empréstimo e têm nele
a morada derradeira. Obriga-os ao fundo
um colar de pérolas vulcânicas, utilitárias
da construção civil de grutas.
(...)
Todo rio é da infância e principia com águas
de pouco caso e vai ganhando lenda
e autoridade a cada braça percorrida
para consumo próprio e assombração de inimigos.
E vai morrer, melhor, somar-se ao mar,
cumprindo o seu destino, feito os kamikazes,
os poemas, os meninos. Veste-se
de ira quando violada sua integridade,
ao jugo de substâncias estranhas submetido.
Deve vingar-se semeando a morte se preciso,
pestilências de calibre, delegar armas letais
aos esquadrões de sua guarda para dizimar
aqueles que cometem lesa-majestade contra ele.
Rio que se preze não deve dar testemunho
de pusilanimidade, deve disfarçar seus tristes tons,
creditar à pujança toda venenosa escuma.
E mesmo que os discípulos chorem lágrimas veladas,
esse Mestre deve transitar por entre eles
de cabeça erguida. Um rio assim antepara
os aguilhões da mágoa. Quem obtém um rio assim
não anda mais sozinho. Rio desse naipe,
mesmo turvo como sói, rio deve, até que banhem
o coração de toda humanidade as suas águas.
611
Fernando Pessoa
Pobre Espanha, já sem ter
Pobre Espanha, já sem ter
Alma onde ser!
Fragmento sobrevivente
De ti mesma, ente
De te perder!
Relembremos na hora
Em que em ti chora
O que não ouves em ti,
Aquele que foi
O herói em si
Do que em ti se perdeu de herói.
Fidalgo que toda a alma deu
Ao Rei e à Grei que o perdeu
No incêndio da hora estranha,
Saibamo-lo, alheios mas homens, chorar,
Com quem a alma da fidalguia da Espanha
Foi a enterrar.
Alma onde ser!
Fragmento sobrevivente
De ti mesma, ente
De te perder!
Relembremos na hora
Em que em ti chora
O que não ouves em ti,
Aquele que foi
O herói em si
Do que em ti se perdeu de herói.
Fidalgo que toda a alma deu
Ao Rei e à Grei que o perdeu
No incêndio da hora estranha,
Saibamo-lo, alheios mas homens, chorar,
Com quem a alma da fidalguia da Espanha
Foi a enterrar.
1 546
Marcelo Tápia
pedreira
para Paulo Leminski
o tempo pós
o fez diverso:
pedra
eterna, fixa
dura, pesada
imóvel, muda
cega, surda
mas perene
sólida
como sua vida
poesia pura do tempo
pedra-chama
teimando eternamente
como alma consistente
ascensão e queda
no centro do lago
no mais profundo
no mais escuro
no redemunho
no furo
no fio
o fim
do fio
do furo
do redemunho
do mais escuro
do mais profundo
ao centro do lago
iôiô
acima sem saída
até as margens sem alcance
na descida a ilusão de ascender
aos céus
o tempo pós
o fez diverso:
pedra
eterna, fixa
dura, pesada
imóvel, muda
cega, surda
mas perene
sólida
como sua vida
poesia pura do tempo
pedra-chama
teimando eternamente
como alma consistente
ascensão e queda
no centro do lago
no mais profundo
no mais escuro
no redemunho
no furo
no fio
o fim
do fio
do furo
do redemunho
do mais escuro
do mais profundo
ao centro do lago
iôiô
acima sem saída
até as margens sem alcance
na descida a ilusão de ascender
aos céus
1 053
Herberto Helder
Os Epílogos
Vou enlouquecer, sussurrou ele para o mestre que o olhava do outro lado da mesa.
Vou matar toda a gente.
Sou um assassino, disse ele.
Vou morrer.
Vou tomar veneno, e o meu corpo inchará, ficará coberto de pústulas, será repugnante, murmurou docemente, docemente.
O mestre olhava-o do outro lado da mesa.
Só de me verem, as pessoas ficarão doentes, já não terão a mais pequena parcela de fé, disse ele.
Serei o mais abjecto cadáver da terra.
Bastará uma hora para eu apodrecer.
Haverá peste.
Terão de queimar-me numa grande fogueira, se quiserem escapar ao meu cheiro.
Tenho um cheiro, murmurou ele.
Tenho um cheiro horrível à espera.
O mestre olhava-o do outro lado da mesa.
Não pensem que me escaparão, sussurrou ele.
Hão-de ficar com o meu cheiro, hão-de levá-lo de um lado para outro, e ele contaminará todas as coisas.
Ninguém mais terá fé, disse ele.
É preciso aprender a andar sobre as águas, disse o mestre.
Às vezes as coisas desatam a crescer numa espécie de sentido ao contrário.
Desenvolvem-se em dois planos, movem-se em lugares diferentes.
Entre eles bate um coração, uma alma, um motor.
Aí é que está a unidade e o sentido — o senso, o contra-senso.
Imaginemos uma planta com as raízes no ar e a flor debaixo da terra — mas raízes eficazes, e uma flor perfeitamente organizada.
A máquina desta planta é um milagre de energia.
Foi tocada pelo sopro da alegria criadora.
Faz coisas simétricas, assimétricas — maravilhas circulatórias e respiratórias: estruturas vivas.
Mas está de cabeça para baixo.
Não se integra nas matemáticas gerais.
Falha nas relações.
É outro milagre — um rasgão, uma oposição, uma subversão: um clarão.
O conjunto estremece, abalado por uma luz nova.
Então há um refluir de todas as coisas para este centro devorador, este aparelho centrípeto.
O contra-senso é o senso.
Falo do quotidiano absolutamente real, realizado.
Vou contar uma história.
Havia uma rapariga que era maior de um lado do que de outro.
Cortaram-lhe um bocado do lado maior.
Foi de mais.
Ficou maior do lado que era dantes mais pequeno.
Cortaram.
Ficou de novo maior do lado que era primitivamente maior.
Tornaram a cortar.
Foram cortando, cortando, cortando.
O objectivo era este: criar um ser normal.
Não conseguiam.
A rapariga acabou por desaparecer, de tão cortada nos dois lados.
Isto levou muitas pessoas ao suicídio.
Outras riram, apenas — o que era uma forma de suicídio.
Algumas compreenderam.
Não me venham com teorias, estou farto.
Acontecimentos, seres, objectos, lugares.
A coluna vertebral disto tudo.
A posição vertical — eis o que me parece justo.
Se se anda com a cabeça e se põe o chapéu nos pés, não é a coluna vertebral que tem culpa.
O erro pode estar em andar com os pés e pôr o chapéu na cabeça.
De qualquer maneira, é magnífico ver uma flor ter delicadeza debaixo da terra.
Bem: pode tomar-se um espelho e colocá-lo em frente das coisas.
Na melhor das hipóteses, onde era esquerdo fica direito, e vice-versa.
Pode aparecer tudo negro, noutros casos.
É porque as coisas são negras.
Dormimos ou estamos acordados, conforme a escolha.
Atenção.
É uma espécie de espectáculo.
Vem anunciado nos jornais.
Não se inventou, apenas se tornou mais forte a pancada do martelo.
Sim, na cabeça.
Chama-se a isto malícia ou intenção.
Segue.
Estava no rés-do-chão, nu, aplainando tábuas.
Inclinava-se sobre a inocência das tábuas, sobre a sua própria inocência de criatura nua — e aplainava.
Depois subiu até ao último andar daquela ciência, e era negra a sua nudez, de onde nascera uma cadeira.
Então lançou-a ao ar, e a cadeira voou.
Ele trabalhara segundo o ritmo mais antigo da terra — isso queimara-lhe o corpo, e a cadeira voava.
Era um mestre.
As pessoas desejam saber como é a sabedoria por dentro — e ele diz que é um ritmo, até a beleza se tornar negra, até voar a cadeira.
Diz ainda que não experimentem, e fecha os olhos.
Seca, pura, voadora cadeira — uma flor estrita e alta.
A sabedoria mata em sua forma viva de cadeira.
Outro pôs-se a andar de cabeça para baixo, e depois via, falava, pensava, cantava, sorria com os pés.
Tinha uma malícia rápida, e andava depressa com o cabelo comprido.
Também voou, este — de tal modo que ele era a sua própria obra.
E à noite sangrava dos cabelos, com a dor da sabedoria.
Quiseram saber, e ele disse: tenho medo de toda a minha ciência.
Houve também quem dormisse, para aprender até ao mais fundo como a memória respira, como o desejo e o corpo respiram, como respira a treva.
Tornou-se sábio à força de respiração nocturna.
Tivera revelações, sabia dos nascimentos, das formas imóveis, de cores dobradas no escuro, dolorosamente, até que delas rebentava a luz aterradora das paisagens.
Ele tremia com esta ciência toda — perdera os nomes, o seu corpo fervia com a peste do conhecimento.
Aprendi uma ciência mortal, disse ele, nada me salvará.
Mas o último não amava a invenção — sentara-se em frente dos trabalhos alheios, não se mexia.
Preciso de ócio, dizia ele, preciso dos meus olhos, quero ver como é.
E viu como era.
Viu o ritmo humano estabelecendo relações no espaço, viu as coisas entre si, o movimento primitivo dos animais, os ciclos vegetativos, as imagens nocturnas e diuturnas.
As casas cresciam e a aveia, e os pomares cresciam, e as cores e as vozes cresciam.
Havia motores, o petróleo subia do coração tenebroso da terra, purificava-se e, ao alto de belas torres metálicas, grandes chamas de uma sacralidade moderna glorificavam as forças obscuras da terra.
Já tenho a minha sabedoria, disse o último homem, estou triste.
E fechou os olhos, porque estava cansado da sua sabedoria da visão.
Gostaria de poder morrer, disse ele, a terra é extraordinariamente rica e constante, estou cansado.
A terra está cheia de coisas vivas e inúteis, coisas irrompentes, palpitantes, ardentes — coisas de uma fulgurante inutilidade.
Fechou os olhos e disse: se eu pudesse morrer.
Esta é a minha sabedoria, tenho os olhos queimados.
Ou ainda:
Há a tentação de escrever um texto inabitável, uma espécie de mapa solitário e limpo, diante do qual o engenheiro da fábula não possa maquinar o seu empenho de aventura humana, com as palavras: aqui fica uma rua, aqui uma ponte, aqui um parque, aqui a mancha cerrada de sentimentos e ideias com o nome de bairro de gente.
Antes da escrita, alguém disse: um momento, engenheiro — eu amaria uma superfície destituída de enigmas, aonde ninguém chegasse, onde não houvesse uma casa paterna, sobretudo, e a perpetração da parábola do filho pródigo.
É um texto que se destina à consagração do silêncio, a gente já pensou tanto, já teve mãos por tantos lados, já dormiu e acordou — bom seria imaginar o espírito apaziguado, a reconciliação do pensamento com a matéria do mundo.
Mestre, não me dês um tema.
E então o texto principia a ser ferozmente habitado.
Abrem as portas do texto como se fosse uma cidade: entram as pessoas com os seus animais e mercadorias, chegam para vender, comprar e trocar.
Possuem todas o seu entendimento, o seu plano, os sentimentos, a malícia, o enigma — e o que vai circular pelo texto dantes nu e fixo é um movimento soturno, ardente: a aventura do homem que deseja ligar-se à terra.
Sabem? é o filho pródigo, o que estava no exílio e cai na vertigem da decifração.
Jamais será possível lavrar o discurso sem compromisso, a idade do ouro, uma sintaxe da desabitação — é provável o aparecimento de Édipo-o-Jovem à entrada de Tebas.
E junto aos muros da cidade é evidente que estará a Esfinge que, segundo a nota, «se aparenta aos demónios sedentos de amor e sangue que povoam o sono dos vivos».
«… tu que, mal chegado aos muros da cidade, nos libertaste do tributo que sobre nós mantinha o monstro dos enigmas…»
E como já então o texto se encontra cheio de gente! — existe a peste, o crime da aventura espiritual, fez-se carne e gesto o amor do lugar.
É a nova tentação do espírito: a união com a terra, a mãe.
«… não viram na união com a mãe a antiga hierogamia, o casamento com a terra…»
Que coisas ocorreram no espírito, que trazes tu ao texto mudável, chegando assim pelas trevas, inspirado de tal modo por um deus que, de súbito, aniquilas os prestígios enigmáticos?
Mas nada sabes afinal, ignoras mesmo que é um regresso.
Por isso eu digo: o ganho seria suplantar o espírito, aparecer no texto virgem, dançando como um rapaz nu e aí implantando o amor — celebrar o casamento com a mãe.
O resto é uma fábula lateral, a história de uma investigação policiária moderna, crime e castigo, catarse, integração moral, espectáculo dramático, os outros.
«Um crime, mesmo involuntário, mesmo legítimo, macula o seu autor, e cria a necessidade de uma purificação.»
«… ninguém pode purificar-se a si próprio.»
Desejaria afastar-me do espírito, o engendrador do princípio criminal.
Isto luta para ser um texto branco, reconciliado, a vida externa.
Olho, dou um passo atrás, desocupando o espaço interior — e então o texto põe-se a andar, cego, tacteando, procurando entrar na sua verdade própria: a clareira primitiva.
Todo o texto conduz ao exemplo do mundo, narra a parábola do regresso e apresenta a cerimónia da paisagem.
Tu és simples e essencial.
Vê o teu lugar:
É uma ilha em forma de cão sentado, com a cabeça inclinada para perscrutar o enigma da água.
O cão tem as orelhas fitas, porque, ao mesmo tempo que cheira e olha o mar, recebe notícias de vento.
O cão está sentado no atlântico.
A água cai em cordões verticais e vivos, cantando.
Cria-se uma nova, ou muito velha, espécie de solidão, onde o súbito gosto da pureza se mistura ao temor.
A água é uma matéria em si própria delicadíssima e exaltante.
Talvez os homens desejassem estender-lhe as mãos, voltando-as de todos os lados, para ficarem bem molhadas.
É uma água vasta, nua e maternal.
As casas tornam-se muito isoladas, a uma distância infinita umas das outras.
Não é tempo de comércio entre as pessoas, de qualquer espécie de fraternidade.
Sabe-se pouco a respeito da água da chuva.
É esta uma ilha estéril, fechada em cal e areia.
Há as estiagens.
E então, sucede o absurdo.
O talento do absurdo é criar o excesso.
Por isso, às vezes, cai uma chuva avassaladora.
A carne concentra-se para recebê-la, e aceita-a.
Poder-se-ia sair das casas, e não somente estender as mãos à grande chuva, mas deixá-la mesmo encharcar as roupas e a pele, limpar o homem de uma porção de coisas que não prestam.
Seria possível andar nu debaixo da chuva cantante, as próprias pessoas cantando, com alegria e terror sagrados.
Mas, na verdade, cada qual se encerra na sua solidão.
Liga-se às vontades celestes por uma comoção enigmática.
Os caminhos confundem-se, os telhados de terra batida aluem aqui e ali, o enxurro ganha os campos.
Desaparece essa frágil ordem que se cria para andar sobre os abismos.
Em dois dias, perdem-se todas as pistas do ano.
Os centros da vida onde se tece, à volta, o pavor da morte — a malícia de enganá-la e a pequena vitória com seu anel de alegria — eis que desaparecem os tais centros de audaz inteligência.
Absorveu-os a água.
Na forma desfeita, já se não sabe o lugar dos bichos, da lentilha e dos barcos.
Cavalos de areia húmida galopam nos ares.
O vento bate nos campos as ferraduras de água.
As casas abaixam-se, iluminadas por candeias cuja grossa torcida mergulha em gordura de carneiro.
É preciso inventar de novo o palpável edifício das convenções: demarcar os campos de cevada, reparar as empenas dos barcos, amar a vida.
Para ajudar, haverá uma pobre primavera de ervagem baixa e uns passos de lentilha verde.
Mas os homens da ilha não amam o trabalho.
É difícil um pacto com os segredos da terra.
As manhãs hesitam, com o seu sol molhado.
O céu curva-se para as poças.
Ao longe, no mar áspero, passam cargueiros.
De noite, são luzes pequenas que se movem.
É muito triste.
Tem de se descer fundo na matéria enigmática destes homens, entender a região do seu feroz repouso, tão trágicas fontes de imobilidade.
Estas fábulas são algo de terrível, nos seus enredos e forças.
Os caminhos afogados, as casas destruídas.
Toda a gente vem para fora, hesitante, um pouco espantada.
Não há lugar para as suas mãos, para os seus pés.
Mas o ar vai-se tornando leve e penetrante.
As coisas libertam-se do grande abraço das águas.
Durante dois meses, na trágica solidão subterrânea, preparou-se o tempo que agora se torna exterior e vivo.
Talvez que a lentilha e a cevada semeadas no outono venham a cobrir as planuras.
As sementes dormiram e imaginaram.
Talvez acordem agora para a reconstrução da alma humana.
É então que um grande silêncio cai sobre os quarenta quilómetros quadrados da ilha.
Ou vem das coisas, do interior das coisas.
É um silêncio extremamente doce.
Um equilíbrio supremo.
A ilha adquire uma grave e grandiosa imobilidade.
E a luz entra nas veias, torna belas as mãos dos homens.
É dos olhos que primeiro caem as carapaças do sono.
Em seguida, da boca.
De cada parte do corpo, lentamente, de uma e outra parte, até as pessoas ficarem nuas.
Ressurreição.
Os campos estão cobertos de erva e, no meio dela, vibram na aragem viva algumas hastes de cevada.
Principia a ordenação abstracta das cores — violentas, delicadas — no puro cheiro da maresia e da areia que já aquece.
O céu levanta-se como um animal.
A terra pensa, a cabeça de cão pensa em cima do labirinto da água salgada.
E a primavera sobe, ganha maior precisão.
A cevada amadurece depressa na exaltante transparência do espaço, agitada leve leve pela aragem.
Na atmosfera de pureza, cuja violência intrínseca se dissimula, nascem repentinas fontes de felicidade.
Desenvolve-se furiosamente no coração um grande pensamento de imortalidade, tão vivo e exclusivo que a carne verga ao seu peso.
Aspira, ambiguamente, a um aniquilamento obscuro, rápido, total.
Sem vestígios.
Uma colina branca resplandece tão veemente que parece ter levantado voo.
Os homens descem até à praia e estendem-se na areia, onde correm centenas de lagartixas, fazendo desenhos complicadíssimos e fúteis.
E enquanto os homens dormem, os montes ao alto são nus e amarelos.
Eles dormem, e os montes ficam sempre vazios e secos, sob o sol tranquilo.
O mar, com o seu perfume cru, invade a ilha.
É o perfume do mar na primavera.
Ou é o perfume do mar no verão.
Os homens sentem o sal a arder nas veias.
A cabeça fecha-se.
Há neles uma espécie de alegria cega e mortal.
Então vão para casa e fornicam com as mulheres.
Esta gente possui o orgulho firme de quem conhece o poder das coisas, o sentido da inutilidade essencial da vida, contra o qual nada mais se deve opor do que a força de uma ordem momentânea, estritamente necessária.
É preciso comer um mínimo, trabalhar um mínimo, acreditar um mínimo nestas hastes ainda verdes que estremecem ao vento de maio.
Depois, o que se pode fazer é ficar ao sol, olhando perdidamente para a água do mar, ou ir para as casas mal-reconstruídas, no meio do vento cheio de areia, e fornicar com as mulheres que envelhecem depressa.
Um dia por quinzena os homens descem ao cais de estacas e pranchas de madeira, para esperar o barco que vem da ilha mais próxima.
É um barco no estilo dos de pesca, com vela e motor.
Quase nunca traz passageiros.
Às vezes traz lenha ou farinha de milho.
Os homens da ilha vêm sempre assistir à chegada do barco.
É como os barcos dos pescadores, simétrico, largo ao meio, com a popa igual à proa, amarelo e verde ou amarelo e azul.
Eles gostam de ver o barco a entrar na pequena baía.
Durante o dia inteiro, ficam-se a olhá-lo, rondando-o, deslocando-se de uma parte para outra da praia, para vê-lo do maior número possível de ângulos.
Têm a ingenuidade, a sabedoria de sentir na contemplação a única saída para a alma humana.
Gostam de ver as coisas até esgotá-las.
Recolhem-se depois com elas.
Vivem longamente com a densidade das suas imagens.
Disso tudo fabricam um suave desencanto, uma ternura sem febre nem finalidade.
Detestam o trabalho.
Vão já querendo aos seus hábitos de renúncia misturada com tédio, à calma subalimentação e à astronomia de imagens puras.
Por nada trocariam uma vida de ócio que nem é preciso justificar.
Que está justificada pela areia, o monte estéril, a grande estiagem.
Falam pouco destas coisas, porque não são coisas de que se fale e porque não gostam de falar.
Gostam de olhar.
Olham as luzes dos navios que passam ao longe, o descarregamento do barco que vem uma vez por quinzena, ou os desenhos puros, sem sentido, que as lagartixas fazem na areia.
Também olham as mãos, as suas próprias mãos, com um desprendimento porventura um pouco irónico.
Um dia acontece a fome.
Não essa habitual fome lacunar, a fome básica da ilha — estilo central com suas tréguas que empenham de novo o homem no acto íntimo de viver.
Acontece a fome extrema.
Então as mulheres saem das casas e atravessam os caminhos em grupos mudos e sombrios.
Têm as caras das pessoas velhas, embora algumas sejam ainda mulheres jovens.
O seu passo é incerto, porque saem pouco.
Estão desesperadas e dirigem-se às autoridades da ilha.
Caminham com um passo sem jeito, vestidas de negro, com aquele pensamento femininamente feroz do pão, a determinação de fêmeas que sentem ameaçadas as bases da própria vida.
Pode dizer-se que a sua fome é, de certa maneira, uma fome imediata, um pouco sem dignidade.
Não atinge a forma de ideia, uma expressão de silêncio audaz.
É uma fome-fêmea, e por isso será remediada.
Os homens estão deitados na praia, e ir às autoridades é a última, a coisa desesperada, convincente, maliciosa e eficaz, que pertence às mulheres.
O desespero público não é dos homens.
Deles, o inútil orgulho.
Ficam na mesma posição, olhando para o mundo, e — cheios de um orgulho inerte onde não existe uma ponta sequer de ironia — sentir toda a fome por toda a parte do corpo.
É uma fome-macho, e por isso não seria remediada se, a seu lado, se não tivesse desenvolvido, em toda a sua ignóbil e engenhosa energia, a fome das mulheres.
É a salvação.
As autoridades redigem um apelo às ilhas vizinhas, mais férteis, e dias depois chega um barco com farinha de milho e barricas de carne seca.
Alguns homens fazem-se ao mar e trazem peixe.
Mas trazem pouco, o estritamente preciso para acalmar a fome.
Não está neles trazer para guardar.
Não há dia seguinte.
Isso não está neles.
Só é preciso trazer dois ou três ou quatro peixes para um dia.
Guardar não está nos homens.
Todo o trabalho de colheita para o dia seguinte é excessivo, e eles não têm dentro de si o sentimento desse trabalho.
Trazem três peixes, e algum tempo depois chega o carregamento de farinha de milho e carne seca.
As mulheres tranquilizam-se, e os dias da primavera cobrem os campos de pequenas folhas verdes, ou são os dias do estio onde as lagartixas correm silenciosamente e que enchem as pupilas de ofuscação, ou ainda os dias do outono espalhando uma doçura ferida sobre a terra.
Os homens olham para todas as coisas com a sua desapaixonada, entanto firme, meticulosa, fruidora curiosidade.
Enriquecem o já vasto tesouro das imagens.
Sobrecarregam o seu silêncio quase sem intenção, tornando mais apta a gratuita, mas nunca cínica, capacidade de destruir a verdade mais acessível da vida onde os seres se esgotam e são felizes, infelizes.
E principia o estio com o sol sem margens, ilimitado.
Urzes incendiadas.
A multidão das lagartixas distribuindo na areia a confusão das pistas imperscrutáveis até ao absurdo.
O verão de mar imóvel, cio avassalador, montes áridos — vermelhos e cinzentos — como pousados abstractamente em volta das planuras.
No meio dos trevos, meia dúzia de ventres de um verde brutal: as melancias da fome.
A cabeça do cão continua virada para as águas.
Ninguém presume o que vê ou sabe.
É um bocado de pedra com a forma de uma cabeça de cão.
Apenas intrigante.
O mais certo é nada ver e saber.
Está ali.
Está inclinada para o enigma da água.
Para os enigmas.
Os pés do vento correm na areia.
Os homens voltam-se ligeiramente sobre os seus passos, sorriem um pouco, são de novo devorados pela própria força interior, a indiferença.
Durante um instante, recolhem o violento azul do espaço, o mar fixo e as cores primitivas dos barcos.
As lisas imagens do dia instalam-se neles, como figuras abstractas e completas.
Sobem e descem dentro deles.
Respiram.
À volta, sobre a areia, as crianças fazem a vida das lagartixas, copiando o seu quotidiano do sol, fugas precipitadas, atenta imobilidade e combates incompreensíveis.
Nos campos e montes, as mulheres procuram, seguindo pistas, a bosta seca dos animais, para servir de combustível.
Os homens ruminam as imagens simples e ardentes.
As crianças movem-se no seu universo réptil.
As lagartixas vivem cercadas pelas crianças.
É delas que esperam tudo.
Alimento e morte.
Trata-se de um pacto, tácito comércio cheio de misteriosas intenções.
Linguagem de dádiva e crueldade, pela qual homens e bichos se conhecem, fascinados.
As crianças são lagartixas mais fortes que, por isso, decretam as leis de relação.
Iniciam, no silêncio amarelo e saturado da praia, o jogo religioso da cidadania.
Atraem as lagartixas, mexendo de leve na areia, distribuindo num sábio acaso miolo de pão, insectos mortos ou pedacinhos de gordura.
Podem afugentá-las de repente, com um gesto inimigo.
Ou cortar-lhes a cauda, num golpe rápido, e dar-lhes depois uma bolinha de pão.
Ou prender, na mão fechada, os corpos pânicos.
E podem então hesitar e, em seguida, conceder-lhes a liberdade.
Mas as crianças pagam os direitos do poder.
Sujeitam a atenção: a fisionomia do seu mundo interior tem de adaptar-se a certas leis profundas dos bichos.
Armam-se então de inexaurível paciência, uma secreta humildade para com as forças superiores que demarcam e condicionam o teor das suas próprias regras.
Decerto que todas estas regras se elaboram e exercem na inspiração do terrível, mas o terrível possui a sua doçura e lírica castidade, o seu transporte dadivoso.
As crianças amam as lagartixas, com uma crueldade cheia de paciência e pormenorizada paixão.
Há uma centena de maneiras de assassinar lagartixas.
Foi isto que os carrascos aprenderam com as vítimas.
Por cima de cada morte, urde-se um jogo subtil, onde cada propósito cria uma ambígua antecipação que abre uma porta imediatamente fechada.
E depois possivelmente reaberta.
As invenções bebem no gosto da dor.
Uma fúria silenciosa e inteligente corre para as mãos sábias.
Invenções e mãos jamais se aplacam.
A fúria inventa sem parar.
Aperfeiçoa os seus instrumentos e métodos, num estilo cada vez mais cerrado, puro e tenebroso.
Um estilo de propósitos severos, quase místicos.
Na manhã aberta por todos os lados, morre um homem.
Um cancro devorou-o de dentro.
Mero símbolo, porque a morte nasce e floresce dentro de cada ser, espalhando morosamente as finas e frias ramificações.
Neste, a raiz estava cravada nos pulmões, e o devoramento atingiu, na manhã branca, a sua forma terminal de flor.
O cadáver é lavado, envolto num lençol e posto sobre quatro bancas baixas, unidas umas às outras.
Do corpo, só se vê a cabeça azulada.
Uma a uma, são retiradas do quarto todas as peças.
Nem um móvel, uma estampa, um objecto.
Apenas as paredes grosseiras caiadas de branco, o chão de terra batida, e o corpo nu e limpo do morto, embrulhado no seu lençol.
Quando abrem a porta, a luz irrompe violentamente, e bate nas paredes despidas e no lençol.
No meio da claridade explosiva, a cabeça azulada do morto tem um peso quase obsceno.
Entre o corpo e o lençol, colocam a navalha de barba que pertenceu ao homem.
As mulheres gritam à porta da rua.
Lá dentro, no abismo luminoso, a cabeça do morto parece quase negra.
O mar rumoreja nos troncos de madeira que servem de pilares ao cais, arrasta-se pela praia e molha os pés escuros dos homens deitados.
Cai o sol sobre os campos secos onde as mulheres recolhem a bosta ressequida.
As crianças matam, e as lagartixas morrem.
É uma ilha em forma de cão sentado.
Vou matar toda a gente.
Sou um assassino, disse ele.
Vou morrer.
Vou tomar veneno, e o meu corpo inchará, ficará coberto de pústulas, será repugnante, murmurou docemente, docemente.
O mestre olhava-o do outro lado da mesa.
Só de me verem, as pessoas ficarão doentes, já não terão a mais pequena parcela de fé, disse ele.
Serei o mais abjecto cadáver da terra.
Bastará uma hora para eu apodrecer.
Haverá peste.
Terão de queimar-me numa grande fogueira, se quiserem escapar ao meu cheiro.
Tenho um cheiro, murmurou ele.
Tenho um cheiro horrível à espera.
O mestre olhava-o do outro lado da mesa.
Não pensem que me escaparão, sussurrou ele.
Hão-de ficar com o meu cheiro, hão-de levá-lo de um lado para outro, e ele contaminará todas as coisas.
Ninguém mais terá fé, disse ele.
É preciso aprender a andar sobre as águas, disse o mestre.
Às vezes as coisas desatam a crescer numa espécie de sentido ao contrário.
Desenvolvem-se em dois planos, movem-se em lugares diferentes.
Entre eles bate um coração, uma alma, um motor.
Aí é que está a unidade e o sentido — o senso, o contra-senso.
Imaginemos uma planta com as raízes no ar e a flor debaixo da terra — mas raízes eficazes, e uma flor perfeitamente organizada.
A máquina desta planta é um milagre de energia.
Foi tocada pelo sopro da alegria criadora.
Faz coisas simétricas, assimétricas — maravilhas circulatórias e respiratórias: estruturas vivas.
Mas está de cabeça para baixo.
Não se integra nas matemáticas gerais.
Falha nas relações.
É outro milagre — um rasgão, uma oposição, uma subversão: um clarão.
O conjunto estremece, abalado por uma luz nova.
Então há um refluir de todas as coisas para este centro devorador, este aparelho centrípeto.
O contra-senso é o senso.
Falo do quotidiano absolutamente real, realizado.
Vou contar uma história.
Havia uma rapariga que era maior de um lado do que de outro.
Cortaram-lhe um bocado do lado maior.
Foi de mais.
Ficou maior do lado que era dantes mais pequeno.
Cortaram.
Ficou de novo maior do lado que era primitivamente maior.
Tornaram a cortar.
Foram cortando, cortando, cortando.
O objectivo era este: criar um ser normal.
Não conseguiam.
A rapariga acabou por desaparecer, de tão cortada nos dois lados.
Isto levou muitas pessoas ao suicídio.
Outras riram, apenas — o que era uma forma de suicídio.
Algumas compreenderam.
Não me venham com teorias, estou farto.
Acontecimentos, seres, objectos, lugares.
A coluna vertebral disto tudo.
A posição vertical — eis o que me parece justo.
Se se anda com a cabeça e se põe o chapéu nos pés, não é a coluna vertebral que tem culpa.
O erro pode estar em andar com os pés e pôr o chapéu na cabeça.
De qualquer maneira, é magnífico ver uma flor ter delicadeza debaixo da terra.
Bem: pode tomar-se um espelho e colocá-lo em frente das coisas.
Na melhor das hipóteses, onde era esquerdo fica direito, e vice-versa.
Pode aparecer tudo negro, noutros casos.
É porque as coisas são negras.
Dormimos ou estamos acordados, conforme a escolha.
Atenção.
É uma espécie de espectáculo.
Vem anunciado nos jornais.
Não se inventou, apenas se tornou mais forte a pancada do martelo.
Sim, na cabeça.
Chama-se a isto malícia ou intenção.
Segue.
Estava no rés-do-chão, nu, aplainando tábuas.
Inclinava-se sobre a inocência das tábuas, sobre a sua própria inocência de criatura nua — e aplainava.
Depois subiu até ao último andar daquela ciência, e era negra a sua nudez, de onde nascera uma cadeira.
Então lançou-a ao ar, e a cadeira voou.
Ele trabalhara segundo o ritmo mais antigo da terra — isso queimara-lhe o corpo, e a cadeira voava.
Era um mestre.
As pessoas desejam saber como é a sabedoria por dentro — e ele diz que é um ritmo, até a beleza se tornar negra, até voar a cadeira.
Diz ainda que não experimentem, e fecha os olhos.
Seca, pura, voadora cadeira — uma flor estrita e alta.
A sabedoria mata em sua forma viva de cadeira.
Outro pôs-se a andar de cabeça para baixo, e depois via, falava, pensava, cantava, sorria com os pés.
Tinha uma malícia rápida, e andava depressa com o cabelo comprido.
Também voou, este — de tal modo que ele era a sua própria obra.
E à noite sangrava dos cabelos, com a dor da sabedoria.
Quiseram saber, e ele disse: tenho medo de toda a minha ciência.
Houve também quem dormisse, para aprender até ao mais fundo como a memória respira, como o desejo e o corpo respiram, como respira a treva.
Tornou-se sábio à força de respiração nocturna.
Tivera revelações, sabia dos nascimentos, das formas imóveis, de cores dobradas no escuro, dolorosamente, até que delas rebentava a luz aterradora das paisagens.
Ele tremia com esta ciência toda — perdera os nomes, o seu corpo fervia com a peste do conhecimento.
Aprendi uma ciência mortal, disse ele, nada me salvará.
Mas o último não amava a invenção — sentara-se em frente dos trabalhos alheios, não se mexia.
Preciso de ócio, dizia ele, preciso dos meus olhos, quero ver como é.
E viu como era.
Viu o ritmo humano estabelecendo relações no espaço, viu as coisas entre si, o movimento primitivo dos animais, os ciclos vegetativos, as imagens nocturnas e diuturnas.
As casas cresciam e a aveia, e os pomares cresciam, e as cores e as vozes cresciam.
Havia motores, o petróleo subia do coração tenebroso da terra, purificava-se e, ao alto de belas torres metálicas, grandes chamas de uma sacralidade moderna glorificavam as forças obscuras da terra.
Já tenho a minha sabedoria, disse o último homem, estou triste.
E fechou os olhos, porque estava cansado da sua sabedoria da visão.
Gostaria de poder morrer, disse ele, a terra é extraordinariamente rica e constante, estou cansado.
A terra está cheia de coisas vivas e inúteis, coisas irrompentes, palpitantes, ardentes — coisas de uma fulgurante inutilidade.
Fechou os olhos e disse: se eu pudesse morrer.
Esta é a minha sabedoria, tenho os olhos queimados.
Ou ainda:
Há a tentação de escrever um texto inabitável, uma espécie de mapa solitário e limpo, diante do qual o engenheiro da fábula não possa maquinar o seu empenho de aventura humana, com as palavras: aqui fica uma rua, aqui uma ponte, aqui um parque, aqui a mancha cerrada de sentimentos e ideias com o nome de bairro de gente.
Antes da escrita, alguém disse: um momento, engenheiro — eu amaria uma superfície destituída de enigmas, aonde ninguém chegasse, onde não houvesse uma casa paterna, sobretudo, e a perpetração da parábola do filho pródigo.
É um texto que se destina à consagração do silêncio, a gente já pensou tanto, já teve mãos por tantos lados, já dormiu e acordou — bom seria imaginar o espírito apaziguado, a reconciliação do pensamento com a matéria do mundo.
Mestre, não me dês um tema.
E então o texto principia a ser ferozmente habitado.
Abrem as portas do texto como se fosse uma cidade: entram as pessoas com os seus animais e mercadorias, chegam para vender, comprar e trocar.
Possuem todas o seu entendimento, o seu plano, os sentimentos, a malícia, o enigma — e o que vai circular pelo texto dantes nu e fixo é um movimento soturno, ardente: a aventura do homem que deseja ligar-se à terra.
Sabem? é o filho pródigo, o que estava no exílio e cai na vertigem da decifração.
Jamais será possível lavrar o discurso sem compromisso, a idade do ouro, uma sintaxe da desabitação — é provável o aparecimento de Édipo-o-Jovem à entrada de Tebas.
E junto aos muros da cidade é evidente que estará a Esfinge que, segundo a nota, «se aparenta aos demónios sedentos de amor e sangue que povoam o sono dos vivos».
«… tu que, mal chegado aos muros da cidade, nos libertaste do tributo que sobre nós mantinha o monstro dos enigmas…»
E como já então o texto se encontra cheio de gente! — existe a peste, o crime da aventura espiritual, fez-se carne e gesto o amor do lugar.
É a nova tentação do espírito: a união com a terra, a mãe.
«… não viram na união com a mãe a antiga hierogamia, o casamento com a terra…»
Que coisas ocorreram no espírito, que trazes tu ao texto mudável, chegando assim pelas trevas, inspirado de tal modo por um deus que, de súbito, aniquilas os prestígios enigmáticos?
Mas nada sabes afinal, ignoras mesmo que é um regresso.
Por isso eu digo: o ganho seria suplantar o espírito, aparecer no texto virgem, dançando como um rapaz nu e aí implantando o amor — celebrar o casamento com a mãe.
O resto é uma fábula lateral, a história de uma investigação policiária moderna, crime e castigo, catarse, integração moral, espectáculo dramático, os outros.
«Um crime, mesmo involuntário, mesmo legítimo, macula o seu autor, e cria a necessidade de uma purificação.»
«… ninguém pode purificar-se a si próprio.»
Desejaria afastar-me do espírito, o engendrador do princípio criminal.
Isto luta para ser um texto branco, reconciliado, a vida externa.
Olho, dou um passo atrás, desocupando o espaço interior — e então o texto põe-se a andar, cego, tacteando, procurando entrar na sua verdade própria: a clareira primitiva.
Todo o texto conduz ao exemplo do mundo, narra a parábola do regresso e apresenta a cerimónia da paisagem.
Tu és simples e essencial.
Vê o teu lugar:
É uma ilha em forma de cão sentado, com a cabeça inclinada para perscrutar o enigma da água.
O cão tem as orelhas fitas, porque, ao mesmo tempo que cheira e olha o mar, recebe notícias de vento.
O cão está sentado no atlântico.
A água cai em cordões verticais e vivos, cantando.
Cria-se uma nova, ou muito velha, espécie de solidão, onde o súbito gosto da pureza se mistura ao temor.
A água é uma matéria em si própria delicadíssima e exaltante.
Talvez os homens desejassem estender-lhe as mãos, voltando-as de todos os lados, para ficarem bem molhadas.
É uma água vasta, nua e maternal.
As casas tornam-se muito isoladas, a uma distância infinita umas das outras.
Não é tempo de comércio entre as pessoas, de qualquer espécie de fraternidade.
Sabe-se pouco a respeito da água da chuva.
É esta uma ilha estéril, fechada em cal e areia.
Há as estiagens.
E então, sucede o absurdo.
O talento do absurdo é criar o excesso.
Por isso, às vezes, cai uma chuva avassaladora.
A carne concentra-se para recebê-la, e aceita-a.
Poder-se-ia sair das casas, e não somente estender as mãos à grande chuva, mas deixá-la mesmo encharcar as roupas e a pele, limpar o homem de uma porção de coisas que não prestam.
Seria possível andar nu debaixo da chuva cantante, as próprias pessoas cantando, com alegria e terror sagrados.
Mas, na verdade, cada qual se encerra na sua solidão.
Liga-se às vontades celestes por uma comoção enigmática.
Os caminhos confundem-se, os telhados de terra batida aluem aqui e ali, o enxurro ganha os campos.
Desaparece essa frágil ordem que se cria para andar sobre os abismos.
Em dois dias, perdem-se todas as pistas do ano.
Os centros da vida onde se tece, à volta, o pavor da morte — a malícia de enganá-la e a pequena vitória com seu anel de alegria — eis que desaparecem os tais centros de audaz inteligência.
Absorveu-os a água.
Na forma desfeita, já se não sabe o lugar dos bichos, da lentilha e dos barcos.
Cavalos de areia húmida galopam nos ares.
O vento bate nos campos as ferraduras de água.
As casas abaixam-se, iluminadas por candeias cuja grossa torcida mergulha em gordura de carneiro.
É preciso inventar de novo o palpável edifício das convenções: demarcar os campos de cevada, reparar as empenas dos barcos, amar a vida.
Para ajudar, haverá uma pobre primavera de ervagem baixa e uns passos de lentilha verde.
Mas os homens da ilha não amam o trabalho.
É difícil um pacto com os segredos da terra.
As manhãs hesitam, com o seu sol molhado.
O céu curva-se para as poças.
Ao longe, no mar áspero, passam cargueiros.
De noite, são luzes pequenas que se movem.
É muito triste.
Tem de se descer fundo na matéria enigmática destes homens, entender a região do seu feroz repouso, tão trágicas fontes de imobilidade.
Estas fábulas são algo de terrível, nos seus enredos e forças.
Os caminhos afogados, as casas destruídas.
Toda a gente vem para fora, hesitante, um pouco espantada.
Não há lugar para as suas mãos, para os seus pés.
Mas o ar vai-se tornando leve e penetrante.
As coisas libertam-se do grande abraço das águas.
Durante dois meses, na trágica solidão subterrânea, preparou-se o tempo que agora se torna exterior e vivo.
Talvez que a lentilha e a cevada semeadas no outono venham a cobrir as planuras.
As sementes dormiram e imaginaram.
Talvez acordem agora para a reconstrução da alma humana.
É então que um grande silêncio cai sobre os quarenta quilómetros quadrados da ilha.
Ou vem das coisas, do interior das coisas.
É um silêncio extremamente doce.
Um equilíbrio supremo.
A ilha adquire uma grave e grandiosa imobilidade.
E a luz entra nas veias, torna belas as mãos dos homens.
É dos olhos que primeiro caem as carapaças do sono.
Em seguida, da boca.
De cada parte do corpo, lentamente, de uma e outra parte, até as pessoas ficarem nuas.
Ressurreição.
Os campos estão cobertos de erva e, no meio dela, vibram na aragem viva algumas hastes de cevada.
Principia a ordenação abstracta das cores — violentas, delicadas — no puro cheiro da maresia e da areia que já aquece.
O céu levanta-se como um animal.
A terra pensa, a cabeça de cão pensa em cima do labirinto da água salgada.
E a primavera sobe, ganha maior precisão.
A cevada amadurece depressa na exaltante transparência do espaço, agitada leve leve pela aragem.
Na atmosfera de pureza, cuja violência intrínseca se dissimula, nascem repentinas fontes de felicidade.
Desenvolve-se furiosamente no coração um grande pensamento de imortalidade, tão vivo e exclusivo que a carne verga ao seu peso.
Aspira, ambiguamente, a um aniquilamento obscuro, rápido, total.
Sem vestígios.
Uma colina branca resplandece tão veemente que parece ter levantado voo.
Os homens descem até à praia e estendem-se na areia, onde correm centenas de lagartixas, fazendo desenhos complicadíssimos e fúteis.
E enquanto os homens dormem, os montes ao alto são nus e amarelos.
Eles dormem, e os montes ficam sempre vazios e secos, sob o sol tranquilo.
O mar, com o seu perfume cru, invade a ilha.
É o perfume do mar na primavera.
Ou é o perfume do mar no verão.
Os homens sentem o sal a arder nas veias.
A cabeça fecha-se.
Há neles uma espécie de alegria cega e mortal.
Então vão para casa e fornicam com as mulheres.
Esta gente possui o orgulho firme de quem conhece o poder das coisas, o sentido da inutilidade essencial da vida, contra o qual nada mais se deve opor do que a força de uma ordem momentânea, estritamente necessária.
É preciso comer um mínimo, trabalhar um mínimo, acreditar um mínimo nestas hastes ainda verdes que estremecem ao vento de maio.
Depois, o que se pode fazer é ficar ao sol, olhando perdidamente para a água do mar, ou ir para as casas mal-reconstruídas, no meio do vento cheio de areia, e fornicar com as mulheres que envelhecem depressa.
Um dia por quinzena os homens descem ao cais de estacas e pranchas de madeira, para esperar o barco que vem da ilha mais próxima.
É um barco no estilo dos de pesca, com vela e motor.
Quase nunca traz passageiros.
Às vezes traz lenha ou farinha de milho.
Os homens da ilha vêm sempre assistir à chegada do barco.
É como os barcos dos pescadores, simétrico, largo ao meio, com a popa igual à proa, amarelo e verde ou amarelo e azul.
Eles gostam de ver o barco a entrar na pequena baía.
Durante o dia inteiro, ficam-se a olhá-lo, rondando-o, deslocando-se de uma parte para outra da praia, para vê-lo do maior número possível de ângulos.
Têm a ingenuidade, a sabedoria de sentir na contemplação a única saída para a alma humana.
Gostam de ver as coisas até esgotá-las.
Recolhem-se depois com elas.
Vivem longamente com a densidade das suas imagens.
Disso tudo fabricam um suave desencanto, uma ternura sem febre nem finalidade.
Detestam o trabalho.
Vão já querendo aos seus hábitos de renúncia misturada com tédio, à calma subalimentação e à astronomia de imagens puras.
Por nada trocariam uma vida de ócio que nem é preciso justificar.
Que está justificada pela areia, o monte estéril, a grande estiagem.
Falam pouco destas coisas, porque não são coisas de que se fale e porque não gostam de falar.
Gostam de olhar.
Olham as luzes dos navios que passam ao longe, o descarregamento do barco que vem uma vez por quinzena, ou os desenhos puros, sem sentido, que as lagartixas fazem na areia.
Também olham as mãos, as suas próprias mãos, com um desprendimento porventura um pouco irónico.
Um dia acontece a fome.
Não essa habitual fome lacunar, a fome básica da ilha — estilo central com suas tréguas que empenham de novo o homem no acto íntimo de viver.
Acontece a fome extrema.
Então as mulheres saem das casas e atravessam os caminhos em grupos mudos e sombrios.
Têm as caras das pessoas velhas, embora algumas sejam ainda mulheres jovens.
O seu passo é incerto, porque saem pouco.
Estão desesperadas e dirigem-se às autoridades da ilha.
Caminham com um passo sem jeito, vestidas de negro, com aquele pensamento femininamente feroz do pão, a determinação de fêmeas que sentem ameaçadas as bases da própria vida.
Pode dizer-se que a sua fome é, de certa maneira, uma fome imediata, um pouco sem dignidade.
Não atinge a forma de ideia, uma expressão de silêncio audaz.
É uma fome-fêmea, e por isso será remediada.
Os homens estão deitados na praia, e ir às autoridades é a última, a coisa desesperada, convincente, maliciosa e eficaz, que pertence às mulheres.
O desespero público não é dos homens.
Deles, o inútil orgulho.
Ficam na mesma posição, olhando para o mundo, e — cheios de um orgulho inerte onde não existe uma ponta sequer de ironia — sentir toda a fome por toda a parte do corpo.
É uma fome-macho, e por isso não seria remediada se, a seu lado, se não tivesse desenvolvido, em toda a sua ignóbil e engenhosa energia, a fome das mulheres.
É a salvação.
As autoridades redigem um apelo às ilhas vizinhas, mais férteis, e dias depois chega um barco com farinha de milho e barricas de carne seca.
Alguns homens fazem-se ao mar e trazem peixe.
Mas trazem pouco, o estritamente preciso para acalmar a fome.
Não está neles trazer para guardar.
Não há dia seguinte.
Isso não está neles.
Só é preciso trazer dois ou três ou quatro peixes para um dia.
Guardar não está nos homens.
Todo o trabalho de colheita para o dia seguinte é excessivo, e eles não têm dentro de si o sentimento desse trabalho.
Trazem três peixes, e algum tempo depois chega o carregamento de farinha de milho e carne seca.
As mulheres tranquilizam-se, e os dias da primavera cobrem os campos de pequenas folhas verdes, ou são os dias do estio onde as lagartixas correm silenciosamente e que enchem as pupilas de ofuscação, ou ainda os dias do outono espalhando uma doçura ferida sobre a terra.
Os homens olham para todas as coisas com a sua desapaixonada, entanto firme, meticulosa, fruidora curiosidade.
Enriquecem o já vasto tesouro das imagens.
Sobrecarregam o seu silêncio quase sem intenção, tornando mais apta a gratuita, mas nunca cínica, capacidade de destruir a verdade mais acessível da vida onde os seres se esgotam e são felizes, infelizes.
E principia o estio com o sol sem margens, ilimitado.
Urzes incendiadas.
A multidão das lagartixas distribuindo na areia a confusão das pistas imperscrutáveis até ao absurdo.
O verão de mar imóvel, cio avassalador, montes áridos — vermelhos e cinzentos — como pousados abstractamente em volta das planuras.
No meio dos trevos, meia dúzia de ventres de um verde brutal: as melancias da fome.
A cabeça do cão continua virada para as águas.
Ninguém presume o que vê ou sabe.
É um bocado de pedra com a forma de uma cabeça de cão.
Apenas intrigante.
O mais certo é nada ver e saber.
Está ali.
Está inclinada para o enigma da água.
Para os enigmas.
Os pés do vento correm na areia.
Os homens voltam-se ligeiramente sobre os seus passos, sorriem um pouco, são de novo devorados pela própria força interior, a indiferença.
Durante um instante, recolhem o violento azul do espaço, o mar fixo e as cores primitivas dos barcos.
As lisas imagens do dia instalam-se neles, como figuras abstractas e completas.
Sobem e descem dentro deles.
Respiram.
À volta, sobre a areia, as crianças fazem a vida das lagartixas, copiando o seu quotidiano do sol, fugas precipitadas, atenta imobilidade e combates incompreensíveis.
Nos campos e montes, as mulheres procuram, seguindo pistas, a bosta seca dos animais, para servir de combustível.
Os homens ruminam as imagens simples e ardentes.
As crianças movem-se no seu universo réptil.
As lagartixas vivem cercadas pelas crianças.
É delas que esperam tudo.
Alimento e morte.
Trata-se de um pacto, tácito comércio cheio de misteriosas intenções.
Linguagem de dádiva e crueldade, pela qual homens e bichos se conhecem, fascinados.
As crianças são lagartixas mais fortes que, por isso, decretam as leis de relação.
Iniciam, no silêncio amarelo e saturado da praia, o jogo religioso da cidadania.
Atraem as lagartixas, mexendo de leve na areia, distribuindo num sábio acaso miolo de pão, insectos mortos ou pedacinhos de gordura.
Podem afugentá-las de repente, com um gesto inimigo.
Ou cortar-lhes a cauda, num golpe rápido, e dar-lhes depois uma bolinha de pão.
Ou prender, na mão fechada, os corpos pânicos.
E podem então hesitar e, em seguida, conceder-lhes a liberdade.
Mas as crianças pagam os direitos do poder.
Sujeitam a atenção: a fisionomia do seu mundo interior tem de adaptar-se a certas leis profundas dos bichos.
Armam-se então de inexaurível paciência, uma secreta humildade para com as forças superiores que demarcam e condicionam o teor das suas próprias regras.
Decerto que todas estas regras se elaboram e exercem na inspiração do terrível, mas o terrível possui a sua doçura e lírica castidade, o seu transporte dadivoso.
As crianças amam as lagartixas, com uma crueldade cheia de paciência e pormenorizada paixão.
Há uma centena de maneiras de assassinar lagartixas.
Foi isto que os carrascos aprenderam com as vítimas.
Por cima de cada morte, urde-se um jogo subtil, onde cada propósito cria uma ambígua antecipação que abre uma porta imediatamente fechada.
E depois possivelmente reaberta.
As invenções bebem no gosto da dor.
Uma fúria silenciosa e inteligente corre para as mãos sábias.
Invenções e mãos jamais se aplacam.
A fúria inventa sem parar.
Aperfeiçoa os seus instrumentos e métodos, num estilo cada vez mais cerrado, puro e tenebroso.
Um estilo de propósitos severos, quase místicos.
Na manhã aberta por todos os lados, morre um homem.
Um cancro devorou-o de dentro.
Mero símbolo, porque a morte nasce e floresce dentro de cada ser, espalhando morosamente as finas e frias ramificações.
Neste, a raiz estava cravada nos pulmões, e o devoramento atingiu, na manhã branca, a sua forma terminal de flor.
O cadáver é lavado, envolto num lençol e posto sobre quatro bancas baixas, unidas umas às outras.
Do corpo, só se vê a cabeça azulada.
Uma a uma, são retiradas do quarto todas as peças.
Nem um móvel, uma estampa, um objecto.
Apenas as paredes grosseiras caiadas de branco, o chão de terra batida, e o corpo nu e limpo do morto, embrulhado no seu lençol.
Quando abrem a porta, a luz irrompe violentamente, e bate nas paredes despidas e no lençol.
No meio da claridade explosiva, a cabeça azulada do morto tem um peso quase obsceno.
Entre o corpo e o lençol, colocam a navalha de barba que pertenceu ao homem.
As mulheres gritam à porta da rua.
Lá dentro, no abismo luminoso, a cabeça do morto parece quase negra.
O mar rumoreja nos troncos de madeira que servem de pilares ao cais, arrasta-se pela praia e molha os pés escuros dos homens deitados.
Cai o sol sobre os campos secos onde as mulheres recolhem a bosta ressequida.
As crianças matam, e as lagartixas morrem.
É uma ilha em forma de cão sentado.
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