Poemas neste tema
Amor Platónico
Sophia de Mello Breyner Andresen
Glosa
«Dá a surpresa de ser
É alta de um loiro escuro»
Fernando Pessoa
Dá a surpresa de ser
É alto de um loiro escuro
Faz bem só pensar em ver
Seu gesto firme e seguro
Tem qualquer coisa de mastro
Tem qualquer coisa de sol
Saber que existe sossega
Como no mar o farol
Há qualquer coisa de rude
Em sua beleza extrema
Como saber a crueza
Que há no dentro do poema
Tem qualquer coisa de limpo
Apetece como o sal
Espanta que seja real
Sua perfeição de Olimpo
Há qualquer coisa de toiro
Na largura dos seus ombros
Navegam brilhos e assombros
No obscuro do seu loiro
1968 (?)
É alta de um loiro escuro»
Fernando Pessoa
Dá a surpresa de ser
É alto de um loiro escuro
Faz bem só pensar em ver
Seu gesto firme e seguro
Tem qualquer coisa de mastro
Tem qualquer coisa de sol
Saber que existe sossega
Como no mar o farol
Há qualquer coisa de rude
Em sua beleza extrema
Como saber a crueza
Que há no dentro do poema
Tem qualquer coisa de limpo
Apetece como o sal
Espanta que seja real
Sua perfeição de Olimpo
Há qualquer coisa de toiro
Na largura dos seus ombros
Navegam brilhos e assombros
No obscuro do seu loiro
1968 (?)
1 204
Carlos Drummond de Andrade
Os Vasos Serenos
Em porcelana cores vivem o par antigo
que se permite jogos de gesto e murmúrio
sem lascívia, despidos de ânsia.
Estão apenas ali, figurinhas de Saxe ou Delft,
enlevo de colecionadores,
registro de catálogos,
ausentes de amor, amor vitrificado.
que se permite jogos de gesto e murmúrio
sem lascívia, despidos de ânsia.
Estão apenas ali, figurinhas de Saxe ou Delft,
enlevo de colecionadores,
registro de catálogos,
ausentes de amor, amor vitrificado.
751
João Lobeira
Muitos Que Mi Oem Loar Mia Senhor
Muitos que mi oem loar mia senhor
e falar no seu bem e no seu prez
dizem eles que algum bem me fez;
e dig'eu: o bem do mundo melhor
me fez e faz, assi Deus me perdom,
desejar, mais em outra guisa nom.
Fal'eu da sa bondad'e do seu sem,
e dizem-m'eles, quand'esto dig'eu,
que bem mi fez, porque sõo tam seu;
e dig'eu: o bem sobre todo bem
me fez e faz, assi Deus me perdom,
desejar, mais em outra guisa nom.
e falar no seu bem e no seu prez
dizem eles que algum bem me fez;
e dig'eu: o bem do mundo melhor
me fez e faz, assi Deus me perdom,
desejar, mais em outra guisa nom.
Fal'eu da sa bondad'e do seu sem,
e dizem-m'eles, quand'esto dig'eu,
que bem mi fez, porque sõo tam seu;
e dig'eu: o bem sobre todo bem
me fez e faz, assi Deus me perdom,
desejar, mais em outra guisa nom.
589
João Lobeira
Senhor Genta
Senhor genta,
mi tormenta
voss'amor em guisa tal,
que tormenta
que eu senta
outra nom m'é bem nem mal
- mais la vossa m'é mortal!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal coi[ta] voss'amor!
Das que vejo
nom desejo
outra senhor se vós nom,
e desejo
tam sobejo
mataria um leom
- senhor do meu coraçom!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal coi[ta] voss'amor!
Mia ventura
em loucura
me meteu de vos amar:
é loucura
que me dura,
que me nom posso en quitar
- ai fremosura sem par!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal coi[ta] voss'amor!
mi tormenta
voss'amor em guisa tal,
que tormenta
que eu senta
outra nom m'é bem nem mal
- mais la vossa m'é mortal!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal coi[ta] voss'amor!
Das que vejo
nom desejo
outra senhor se vós nom,
e desejo
tam sobejo
mataria um leom
- senhor do meu coraçom!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal coi[ta] voss'amor!
Mia ventura
em loucura
me meteu de vos amar:
é loucura
que me dura,
que me nom posso en quitar
- ai fremosura sem par!
Leonoreta,
fin roseta,
bela sobre toda fror,
fin roseta,
nom me meta
em tal coi[ta] voss'amor!
593
João Mendes de Briteiros
Senhor, Conmigo Nom Posso Eu Poer
Senhor, conmigo nom posso eu poer,
nem com este cativo coraçom,
que vos nom haja milhor a querer
de quantas cousas eno mundo som.
E, senhor, é desvairada razom
u eu, por bem que vos quero, por en
nom haver bem de vós per nulha rem.
Já meus dias assi hei a passar:
em amando, mais que outro amador,
vós, mia senhor, que sempr'eu soub'amar
e servir mais que outro servidor.
E razom é desvairada, senhor,
u eu, por bem que vos quero, por en
nom haver bem de vós per nulha rem.
E razom era, senhor, d'algum bem
haver de vós, d'u me tanto mal vem.
nem com este cativo coraçom,
que vos nom haja milhor a querer
de quantas cousas eno mundo som.
E, senhor, é desvairada razom
u eu, por bem que vos quero, por en
nom haver bem de vós per nulha rem.
Já meus dias assi hei a passar:
em amando, mais que outro amador,
vós, mia senhor, que sempr'eu soub'amar
e servir mais que outro servidor.
E razom é desvairada, senhor,
u eu, por bem que vos quero, por en
nom haver bem de vós per nulha rem.
E razom era, senhor, d'algum bem
haver de vós, d'u me tanto mal vem.
630
João Mendes de Briteiros
Tal Ventura Quis Deus a Mim, Senhor
Tal ventura quis Deus a mim, senhor,
dar contra vós, que nom posso partir
meu coraçom de vos gram bem querer,
assi me tem forçad'o voss'amor,
de tal força que nom posso fugir
a esses olhos, que forom veer
aquestes meus, mia senhor, por meu mal.
Pero bem sabe Deus, que pod'e val,
que sempr'eu pugi no meu coraçom
em vos servir, porque vos sei amar
mais doutra rem; mais mia ventura tal
é contra vós, que nenhum galardom
nom hei de vós, senom quando catar
vou esses olhos, que por meu mal vi.
Que eu vi sempre por gram mal de mi
e por gram mal daquestes olhos meus
que vos virom, mia senhor; e por en
a mia ventura me traj'or'assi
atam coitado, assi me valha Deus,
por esses olhos, que per nulha rem
perder nom posso a gram coita que hei.
dar contra vós, que nom posso partir
meu coraçom de vos gram bem querer,
assi me tem forçad'o voss'amor,
de tal força que nom posso fugir
a esses olhos, que forom veer
aquestes meus, mia senhor, por meu mal.
Pero bem sabe Deus, que pod'e val,
que sempr'eu pugi no meu coraçom
em vos servir, porque vos sei amar
mais doutra rem; mais mia ventura tal
é contra vós, que nenhum galardom
nom hei de vós, senom quando catar
vou esses olhos, que por meu mal vi.
Que eu vi sempre por gram mal de mi
e por gram mal daquestes olhos meus
que vos virom, mia senhor; e por en
a mia ventura me traj'or'assi
atam coitado, assi me valha Deus,
por esses olhos, que per nulha rem
perder nom posso a gram coita que hei.
750
João Mendes de Briteiros
Eia, Senhor, Aque-Vos Mim Aqui!
Eia, senhor, aque-vos mim aqui!
Que coita houvestes, ora, d'enviar
por mim? Nom foi senom por me matar,
pois todo meu mal teedes por bem:
por en, senhor, mais val d'eu ir daquém
ca d'eu ficar, sem vosso bem fazer,
de mais haver esses olhos veer
e desejar o vosso bem, senhor,
de que eu sempre foi desejador;
e meus desejos e meu coraçom
nunca de vós houveram se mal nom;
e, por est', é milhor de m'ir, par Deus,
u eu nom possa poer estes meus
olhos nos vossos, de que tanto mal
me vem, senhor; e gram coita mortal
me vós destes eno coraçom meu;
e, mia senhor, pero que m'é mui greu,
nulh'home nunca mi o [e]straĩará.
E, pois m'eu for, mia senhor, que será?
Pois mi assi faz o voss'amor ir já,
como vai cervo lançad'a fugir.
Que coita houvestes, ora, d'enviar
por mim? Nom foi senom por me matar,
pois todo meu mal teedes por bem:
por en, senhor, mais val d'eu ir daquém
ca d'eu ficar, sem vosso bem fazer,
de mais haver esses olhos veer
e desejar o vosso bem, senhor,
de que eu sempre foi desejador;
e meus desejos e meu coraçom
nunca de vós houveram se mal nom;
e, por est', é milhor de m'ir, par Deus,
u eu nom possa poer estes meus
olhos nos vossos, de que tanto mal
me vem, senhor; e gram coita mortal
me vós destes eno coraçom meu;
e, mia senhor, pero que m'é mui greu,
nulh'home nunca mi o [e]straĩará.
E, pois m'eu for, mia senhor, que será?
Pois mi assi faz o voss'amor ir já,
como vai cervo lançad'a fugir.
504
Vinicius de Moraes
Soneto de Quarta-Feira de Cinzas
Por seres quem me foste, grave e pura
Em tão doce surpresa conquistada
Por seres uma branca criatura
De uma brancura de manhã raiada
Por seres de uma rara formosura
Malgrado a vida dura e atormentada
Por seres mais que a simples aventura
E menos que a constante namorada
Porque te vi nascer de mim sozinha
Como a noturna flor desabrochada
A uma fala de amor, talvez perjura
Por não te possuir, tendo-te minha
Por só quereres tudo, e eu dar-te nada
Hei de lembrar-te sempre com ternura.
Rio, 1941
Em tão doce surpresa conquistada
Por seres uma branca criatura
De uma brancura de manhã raiada
Por seres de uma rara formosura
Malgrado a vida dura e atormentada
Por seres mais que a simples aventura
E menos que a constante namorada
Porque te vi nascer de mim sozinha
Como a noturna flor desabrochada
A uma fala de amor, talvez perjura
Por não te possuir, tendo-te minha
Por só quereres tudo, e eu dar-te nada
Hei de lembrar-te sempre com ternura.
Rio, 1941
1 115
João Mendes de Briteiros
Vistes Tal Cousa, Senhor, Que Mi Avém
Vistes tal cousa, senhor, que mi avém
cada que venho convosco falar?
Sol que vos vejo, log'hei a cegar,
que sol nom vej'; e que vos venha bem,
pois mi assi cega vosso parecer,
se ceg'assi quantos vos vam veer?
Ceg'eu de pram daquestes olhos meus,
que rem nom vejo, par Deus, mia senhor;
atant'hei já, de vos veer, sabor
que sol nom vej'; e que vos valha Deus,
pois mi assi cega vosso parecer,
se ceg'assi quantos vos vam veer?
Vosso parecer faz a mim entom,
senhor, cegar, tanto que venh'aqui
por vos veer e log'eu ceg'assi
que sol [nom] vej'; e que Deus vos perdom,
pois mi assi cega vosso parecer,
se ceg'assi quantos vos vam veer?
E pois eu cego, Deus, que há poder,
[que ceg'assi] quantos vos vam veer!
cada que venho convosco falar?
Sol que vos vejo, log'hei a cegar,
que sol nom vej'; e que vos venha bem,
pois mi assi cega vosso parecer,
se ceg'assi quantos vos vam veer?
Ceg'eu de pram daquestes olhos meus,
que rem nom vejo, par Deus, mia senhor;
atant'hei já, de vos veer, sabor
que sol nom vej'; e que vos valha Deus,
pois mi assi cega vosso parecer,
se ceg'assi quantos vos vam veer?
Vosso parecer faz a mim entom,
senhor, cegar, tanto que venh'aqui
por vos veer e log'eu ceg'assi
que sol [nom] vej'; e que Deus vos perdom,
pois mi assi cega vosso parecer,
se ceg'assi quantos vos vam veer?
E pois eu cego, Deus, que há poder,
[que ceg'assi] quantos vos vam veer!
592
João Soares Coelho
As Graves Coitas, a Quen'as Deus Dar
As graves coitas, a quen'as Deus dar
quer, e o mal d'amor, gram bem faria
se lhe desse (pero nom lhe daria)
com quem ousass'em sas coitas falar,
em tal guisa que lho nom entendesse
com quen'o falass'e que se doesse
del; mais nom sei de Deus se poderia.
Pero sei bem, aquant'é meu cuidar,
a quem esto desse, ca lhe daria
mais longa vida e que lhi faria
daquelas coitas haver mais vagar.
E nom sei al per que sem nom perdesse,
que mais houvess', e cedo nom morresse;
e per esto cuido que viveria.
Destas coitas eu podia falar
come quen'as padece cada dia;
mais nom é tempo já, nem me valria.
Mais guarde-se quem se poder guardar
e nom s'esforc'em senhor que prendesse,
a melhor, nem que melhor parecesse
deste mundo, ca peor lhi faria!
Em tam grave dia senhor filhei,
a que nunca "senhor" chamar ousei.
Desta coita nunca eu vi maior:
morrer e nom lh'ousar dizer: "senhor"!
Ca, de pram, moiro, querendo-lhe bem,
pero nom lh'ous'en dizer nulha rem.
Ca dizê-lo cuidei ou a morrer
e, pois la vi, nom lh'ousei rem dizer,
Ca por mais mia prol tenho de morrer!
quer, e o mal d'amor, gram bem faria
se lhe desse (pero nom lhe daria)
com quem ousass'em sas coitas falar,
em tal guisa que lho nom entendesse
com quen'o falass'e que se doesse
del; mais nom sei de Deus se poderia.
Pero sei bem, aquant'é meu cuidar,
a quem esto desse, ca lhe daria
mais longa vida e que lhi faria
daquelas coitas haver mais vagar.
E nom sei al per que sem nom perdesse,
que mais houvess', e cedo nom morresse;
e per esto cuido que viveria.
Destas coitas eu podia falar
come quen'as padece cada dia;
mais nom é tempo já, nem me valria.
Mais guarde-se quem se poder guardar
e nom s'esforc'em senhor que prendesse,
a melhor, nem que melhor parecesse
deste mundo, ca peor lhi faria!
Em tam grave dia senhor filhei,
a que nunca "senhor" chamar ousei.
Desta coita nunca eu vi maior:
morrer e nom lh'ousar dizer: "senhor"!
Ca, de pram, moiro, querendo-lhe bem,
pero nom lh'ous'en dizer nulha rem.
Ca dizê-lo cuidei ou a morrer
e, pois la vi, nom lh'ousei rem dizer,
Ca por mais mia prol tenho de morrer!
580
João Soares Coelho
Desmentido M'há 'Qui Um Trobador
Desmentido m'há 'qui um trobador
do que dixi da ama, sem razom,
de cousas pero, e de cousas nom.
Mais u menti, quero-mi-o eu dizer:
u nom dixi o meo do parecer
que lhi mui bõo deu Nostro Senhor.
Ca, de pram, a fez parecer melhor
de quantas outras eno mundo som
e mui mais mansa e mais com razom
falar e riir e tod'al fazer;
e fezo-lhe tam muito bem saber
que em todo bem é mui sabedor.
E por esto rogo Nostro Senhor
que lhe meta eno seu coraçom
que me faça bem, poilo a ela nom
ouso rogar; e se m'ela fazer
quisesse bem, nom querria seer
rei, nem seu filho, nem emperador,
se per i seu bem houvess'a perder;
ca sem ela nom poss'eu bem haver
eno mundo, nem de Nostro Senhor.
do que dixi da ama, sem razom,
de cousas pero, e de cousas nom.
Mais u menti, quero-mi-o eu dizer:
u nom dixi o meo do parecer
que lhi mui bõo deu Nostro Senhor.
Ca, de pram, a fez parecer melhor
de quantas outras eno mundo som
e mui mais mansa e mais com razom
falar e riir e tod'al fazer;
e fezo-lhe tam muito bem saber
que em todo bem é mui sabedor.
E por esto rogo Nostro Senhor
que lhe meta eno seu coraçom
que me faça bem, poilo a ela nom
ouso rogar; e se m'ela fazer
quisesse bem, nom querria seer
rei, nem seu filho, nem emperador,
se per i seu bem houvess'a perder;
ca sem ela nom poss'eu bem haver
eno mundo, nem de Nostro Senhor.
641
João Soares Coelho
Com'hoj'eu Vivo No Mundo Coitado!
Com'hoj'eu vivo no mundo coitado!
Nas graves coitas que hei de sofrer,
nom poderia outr'home viver;
nem eu fezera, temp'há i passado;
mais quando cuid'em qual mia senhor vi,
em tanto viv'e em tanto vivi,
e tenho m'en das coitas por pagado.
Empero quand'eu, eno meu cuidado,
cuido nas coitas que me faz haver,
cuido mia mort'e querria morrer
e cuid'em como fui mal dia nado;
mais quand'ar cuid'em qual mia senhor vi,
de quantas coitas por ela sofri,
muito m'en tenho por aventurado.
E em seu bem per mi seer loado
nom há mester d'eu ende mais dizer,
ca Deus la fez[o] qual melhor fazer
soub'eno mund'; e bem maravilhado
será, quem vir a senhor que eu vi,
pelo seu bem; e bem dirá per mi
que bem dev'end'a Deus a dar bom grado
de quantas coitas por ela sofri,
- se Deus mi a mostre como a já vi
seendo com sa madre em um estrado!
Nas graves coitas que hei de sofrer,
nom poderia outr'home viver;
nem eu fezera, temp'há i passado;
mais quando cuid'em qual mia senhor vi,
em tanto viv'e em tanto vivi,
e tenho m'en das coitas por pagado.
Empero quand'eu, eno meu cuidado,
cuido nas coitas que me faz haver,
cuido mia mort'e querria morrer
e cuid'em como fui mal dia nado;
mais quand'ar cuid'em qual mia senhor vi,
de quantas coitas por ela sofri,
muito m'en tenho por aventurado.
E em seu bem per mi seer loado
nom há mester d'eu ende mais dizer,
ca Deus la fez[o] qual melhor fazer
soub'eno mund'; e bem maravilhado
será, quem vir a senhor que eu vi,
pelo seu bem; e bem dirá per mi
que bem dev'end'a Deus a dar bom grado
de quantas coitas por ela sofri,
- se Deus mi a mostre como a já vi
seendo com sa madre em um estrado!
567
António de Carvalhal Esmeraldo
Pois me contento
Pois me contento só de idolatrar-te,
Oh, Belisa, permite o querer-te,
Ou que não chegue ao menos a ofender-te,
Pois que em nada hei podido contentar-te.
De que podes por ora recear-te?
E que posso eu fazer com pretender-te?
Temes que venha acaso a merecer-te;
Porque insisto penoso em venerar-te?
Mas o muito que peno não me engana,
Nada espero; bem que por ti padeço,
Pois certamente em nada eras humana.
Não tem para alcançar-te as penas peço,
Que como eras em tudo soberana,
Desvario é cuidar que te mereço.
Oh, Belisa, permite o querer-te,
Ou que não chegue ao menos a ofender-te,
Pois que em nada hei podido contentar-te.
De que podes por ora recear-te?
E que posso eu fazer com pretender-te?
Temes que venha acaso a merecer-te;
Porque insisto penoso em venerar-te?
Mas o muito que peno não me engana,
Nada espero; bem que por ti padeço,
Pois certamente em nada eras humana.
Não tem para alcançar-te as penas peço,
Que como eras em tudo soberana,
Desvario é cuidar que te mereço.
630
João Soares Coelho
Deus, Que Mi Hoj'aguisou de Vos Veer
Deus, que mi hoj'aguisou de vos veer
e que é da mia coita sabedor,
El sab'hoje que com mui gram pavor
vos dig'eu est'e já hei de dizer:
moir'eu, e moiro por alguém!
E nunca vos mais direi en.
E mentr'eu vi que podia viver
na mui gram coita 'm que vivo d'amor,
nom vos dizer rem tive per melhor;
mais dig'esto, pois me vejo morrer:
moir'eu, e moiro por alguém!
E nunca vos mais direi en.
E nom há no mundo filha de rei
a que d'atanto devess'a pesar,
nem estraĩdade d'hom'a filhar,
por quant'éste que vos ora direi:
moir eu, e moiro por alguém!
E nunca vos mais direi en.
e que é da mia coita sabedor,
El sab'hoje que com mui gram pavor
vos dig'eu est'e já hei de dizer:
moir'eu, e moiro por alguém!
E nunca vos mais direi en.
E mentr'eu vi que podia viver
na mui gram coita 'm que vivo d'amor,
nom vos dizer rem tive per melhor;
mais dig'esto, pois me vejo morrer:
moir'eu, e moiro por alguém!
E nunca vos mais direi en.
E nom há no mundo filha de rei
a que d'atanto devess'a pesar,
nem estraĩdade d'hom'a filhar,
por quant'éste que vos ora direi:
moir eu, e moiro por alguém!
E nunca vos mais direi en.
583
Joaqim Serra
A Minha Madona
Oh, tão formosa, custa crê-la humana!
(Macedo)
Alva, mais alva do que o branco cisne
Que lá nas ondas se mergulha e lava;
Alva como um vestido de noivado,
Mais alva, ainda mais alva...
Loira, mais loira do que a nuvem linda
Que o sol à tarde no poente doira;
Loira como uma virgem ossianesca,
Mais loira, ainda mais loira...
Bela, mais bela que o raiar da aurora
Após noite hibernal, negra procela;
Bela como uma cisma de poeta,
Mais bela, ainda mais bela...
Doce, mais doce que o gemer da brisa;
Como se deste mundo ela não fosse;
Doce como os cantares dos arcanjos,
Mais doce, ainda mais doce...
Casta, mais casta que a mimosa folha,
Que se constringe, que da mão se afasta;
Casta como a Madona imaculada,
Mais casta, ainda mais casta.
(Macedo)
Alva, mais alva do que o branco cisne
Que lá nas ondas se mergulha e lava;
Alva como um vestido de noivado,
Mais alva, ainda mais alva...
Loira, mais loira do que a nuvem linda
Que o sol à tarde no poente doira;
Loira como uma virgem ossianesca,
Mais loira, ainda mais loira...
Bela, mais bela que o raiar da aurora
Após noite hibernal, negra procela;
Bela como uma cisma de poeta,
Mais bela, ainda mais bela...
Doce, mais doce que o gemer da brisa;
Como se deste mundo ela não fosse;
Doce como os cantares dos arcanjos,
Mais doce, ainda mais doce...
Casta, mais casta que a mimosa folha,
Que se constringe, que da mão se afasta;
Casta como a Madona imaculada,
Mais casta, ainda mais casta.
908
João Soares Coelho
Meus Amigos, Quero-Vos Eu Mostrar
Meus amigos, quero-vos eu mostrar
com'eu querria bem da mia senhor,
e nom mi valha ela, nem Amor,
nem Deus, se vos verdade nom jurar:
bem querria que me fezesse bem,
pero nom bem u perdess'ela rem!
E mais vos direi: o que pod'e val
me nom valha, se querria viver
eno mundo, nem nẽum bem haver
dela, nem d'outrem, se fosse seu mal:
bem querria que me fezesse bem,
pero nom bem u perdess'ela rem!
Ca a mi semelha cousa sem razom:
pois algum home mais ama molher
ca si nem al, seu bem por seu mal quer?
E por aquest'é 'ssi meu coraçom:
bem querria que me fezesse bem,
pero nom bem u perdess'ela rem!
com'eu querria bem da mia senhor,
e nom mi valha ela, nem Amor,
nem Deus, se vos verdade nom jurar:
bem querria que me fezesse bem,
pero nom bem u perdess'ela rem!
E mais vos direi: o que pod'e val
me nom valha, se querria viver
eno mundo, nem nẽum bem haver
dela, nem d'outrem, se fosse seu mal:
bem querria que me fezesse bem,
pero nom bem u perdess'ela rem!
Ca a mi semelha cousa sem razom:
pois algum home mais ama molher
ca si nem al, seu bem por seu mal quer?
E por aquest'é 'ssi meu coraçom:
bem querria que me fezesse bem,
pero nom bem u perdess'ela rem!
231
José Saramago
De Violetas Se Cobre
De violetas se cobre o chão que pisas,
De aromas de nardo o ar assombra:
Nestas recurvas áleas, indecisas,
Olho o céu onde passa a tua sombra.
De aromas de nardo o ar assombra:
Nestas recurvas áleas, indecisas,
Olho o céu onde passa a tua sombra.
1 075
Joaquim Manuel de Macedo
Cântico: A Incógnita
(...)
"Quem és tu, dize, formosa,
"Que trazes figura humana?
"És de espécie mais soberana,
"Mais perfeita, mais mimosa?
"Ou já foste acaso rosa,
"Que pela brilhante cor,
"Pelo aroma encantador,
"Quis o gênio da ternura
"De mulher dar-te a figura
"Para triunfo de amor?
"Quem és tu para ser tão bela,
"E ter tão ardente olhar?
"Devo-te acaso julgar
"Do éter lúcida estrela?
"Teus arcanos menos zela,
"Dize, pra sossego meu,
"Serás tu anjo do céu,
"A quem o vôo faltou,
"E que na terra tombou
"Lá do alto empíreo?"
Disse; e suspiros saltam-me dos lábios...
Vejo encovar-se galantinho riso
Da bela em rubra face...
Juro amá-la... ela treme... corre... foge!...
Céus! e seu nome?... — Mas qu'importa um nome?...
Eu sei que adoro um anjo.
In: GUANABARA: revista mensal, artística, científica e literária. Rio de Janeiro, v.2, n.1, p.40. 185
"Quem és tu, dize, formosa,
"Que trazes figura humana?
"És de espécie mais soberana,
"Mais perfeita, mais mimosa?
"Ou já foste acaso rosa,
"Que pela brilhante cor,
"Pelo aroma encantador,
"Quis o gênio da ternura
"De mulher dar-te a figura
"Para triunfo de amor?
"Quem és tu para ser tão bela,
"E ter tão ardente olhar?
"Devo-te acaso julgar
"Do éter lúcida estrela?
"Teus arcanos menos zela,
"Dize, pra sossego meu,
"Serás tu anjo do céu,
"A quem o vôo faltou,
"E que na terra tombou
"Lá do alto empíreo?"
Disse; e suspiros saltam-me dos lábios...
Vejo encovar-se galantinho riso
Da bela em rubra face...
Juro amá-la... ela treme... corre... foge!...
Céus! e seu nome?... — Mas qu'importa um nome?...
Eu sei que adoro um anjo.
In: GUANABARA: revista mensal, artística, científica e literária. Rio de Janeiro, v.2, n.1, p.40. 185
2 354
Sophia de Mello Breyner Andresen
Quero
Nos teus quartos forrados de luar
Onde nenhum dos meus gestos faz barulho
Voltar.
E sentar-me um instante
Na beira da janela contra os astros
E olhando para dentro contemplar-te,
Tu dormindo antes de jamais teres acordado,
Tu como um rio adormecido e doce
Seguindo a voz do vento e a voz do mar
Subindo as escadas que sobem pelo ar.
Onde nenhum dos meus gestos faz barulho
Voltar.
E sentar-me um instante
Na beira da janela contra os astros
E olhando para dentro contemplar-te,
Tu dormindo antes de jamais teres acordado,
Tu como um rio adormecido e doce
Seguindo a voz do vento e a voz do mar
Subindo as escadas que sobem pelo ar.
1 635
Juião Bolseiro
Ai Mia Senhor! Tod'o Bem Mi a Mi Fal
Ai mia senhor! tod'o bem mi a mi fal,
mais nom mi fal gram coita, nem cuidar,
des que vos vi, nem mi fal gram pesar;
mais nom mi valha O que pod'e val,
se hoj'eu sei onde mi venha bem,
ai mia senhor, se mi de vós nom vem!
Nom mi fal coita, nem vejo prazer,
senhor fremosa, des que vos amei,
mais a gram coita que eu por vós hei,
já Deus, senhor, nom mi faça lezer,
se hoj'eu sei onde mi venha bem,
ai mia senhor, se mi de vós nom vem!
Nem rem nom podem veer estes meus
olhos no mund'[ond'] eu haja sabor,
sem veer vós; e nom mi val[h]'Amor,
nem mi valhades vós, senhor, nem Deus,
se hoj'eu sei onde mi venha bem,
ai mia senhor, se mi de vós nom vem!
mais nom mi fal gram coita, nem cuidar,
des que vos vi, nem mi fal gram pesar;
mais nom mi valha O que pod'e val,
se hoj'eu sei onde mi venha bem,
ai mia senhor, se mi de vós nom vem!
Nom mi fal coita, nem vejo prazer,
senhor fremosa, des que vos amei,
mais a gram coita que eu por vós hei,
já Deus, senhor, nom mi faça lezer,
se hoj'eu sei onde mi venha bem,
ai mia senhor, se mi de vós nom vem!
Nem rem nom podem veer estes meus
olhos no mund'[ond'] eu haja sabor,
sem veer vós; e nom mi val[h]'Amor,
nem mi valhades vós, senhor, nem Deus,
se hoj'eu sei onde mi venha bem,
ai mia senhor, se mi de vós nom vem!
640
Fernando Pessoa
Dorme enquanto eu velo...
Dorme enquanto eu velo...
Deixa-me sonhar...
Nada em mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.
A tua carne calma
É fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.
Dorme, dorme, dorme,
Vaga em teu sorrir...
Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir.
(Athena, nº 3, Dezembro de 1924)
Deixa-me sonhar...
Nada em mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.
A tua carne calma
É fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.
Dorme, dorme, dorme,
Vaga em teu sorrir...
Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir.
(Athena, nº 3, Dezembro de 1924)
4 534
Martha Medeiros
se você for
se você for
exatamente como imagino
igualzinho aos meus sonhos
eu vou embora
detesto desmancha-prazeres
exatamente como imagino
igualzinho aos meus sonhos
eu vou embora
detesto desmancha-prazeres
1 120
Maria da Saudade Cortesão Mendes
Primavera
A Musa que passava
Não era a que sabias.
Vinha em lua minguante
A espaços vestida
Por espelhos azuis
E narcisos de frio.
Que remanso tão meigo
Em seus peitos havia!
Que miosótis de leite
Em suas veias tíbias,
Três tangentes tocavam
O seu coração dúbio.
Não lhe soubeste o corpo —
Terra da madrugada
Que se dava ferida,
Nem os seus cursos de água.
Olhavas tão ao longe
Enquanto o amor te olhava.
Não era a que sabias.
Vinha em lua minguante
A espaços vestida
Por espelhos azuis
E narcisos de frio.
Que remanso tão meigo
Em seus peitos havia!
Que miosótis de leite
Em suas veias tíbias,
Três tangentes tocavam
O seu coração dúbio.
Não lhe soubeste o corpo —
Terra da madrugada
Que se dava ferida,
Nem os seus cursos de água.
Olhavas tão ao longe
Enquanto o amor te olhava.
747
Fernando Pessoa
Negue-me tudo a sorte, menos vê-la,
Negue-me tudo a sorte, menos vê-la,
Que eu, 'stóico sem dureza,
Na sentença gravada do Destino
Quero gozar as letras.
21/11/1928
Que eu, 'stóico sem dureza,
Na sentença gravada do Destino
Quero gozar as letras.
21/11/1928
2 663