Poemas neste tema
Amor Platónico
D. Dinis
Senhor, Em Tam Grave Dia
Senhor, em tam grave dia
vos vi que nom poderia
mais; e, por Santa Maria,
que vos fez tam mesurada,
doede-vos algum dia
de mi, senhor bem talhada.
Pois sempr'há em vós mesura
e todo bem e cordura,
que Deus fez em vós feitura
qual nom fez em molher nada,
doede-vos por mesura
de mim, senhor bem talhada.
E por Deus, senhor, tomade
mesura por gram bondade
que vos El deu, e catade
qual vida vivo coitada
e algum doo tomade
de mi, senhor bem talhada.
vos vi que nom poderia
mais; e, por Santa Maria,
que vos fez tam mesurada,
doede-vos algum dia
de mi, senhor bem talhada.
Pois sempr'há em vós mesura
e todo bem e cordura,
que Deus fez em vós feitura
qual nom fez em molher nada,
doede-vos por mesura
de mim, senhor bem talhada.
E por Deus, senhor, tomade
mesura por gram bondade
que vos El deu, e catade
qual vida vivo coitada
e algum doo tomade
de mi, senhor bem talhada.
387
Silva Avarenga
Madrigal VII
Ó sombra deleitosa,
Onde Glaura se abriga pela sesta,
Enquanto o ardor do Sol os prados cresta,
Ah! defende estes lírios e esta rosa.
E se a Ninfa mimosa
Perguntar quem colheu as lindas flores,
Ó sombra deleitosa,
Dize-lhe que os amores
E a tímida ternura
Do Pastor namorado e sem ventura.
Onde Glaura se abriga pela sesta,
Enquanto o ardor do Sol os prados cresta,
Ah! defende estes lírios e esta rosa.
E se a Ninfa mimosa
Perguntar quem colheu as lindas flores,
Ó sombra deleitosa,
Dize-lhe que os amores
E a tímida ternura
Do Pastor namorado e sem ventura.
899
Afonso Lopes de Baião
O Meu Senhor [Deus] Me Guisou
O meu Senhor [Deus] me guisou
de sempr'eu já coita sofrer,
enquanto no mundo viver,
u m'El atal dona mostrou
que me fez filhar por senhor,
e nom lh'ouso dizer "senhor".
E se Deus houve gram prazer
de me fazer coita levar,
que bem s'end'El soube guisar
u m'El fez tal dona veer,
que me fez filhar por senhor,
e nom lh'ouso dizer "senhor".
Se m'eu a Deus mal mereci,
nom vos quis El muito tardar
que se nom quisesse vingar
de mi, u eu tal dona vi
que me fez filhar por senhor,
e nom lh'ouso dizer "senhor".
de sempr'eu já coita sofrer,
enquanto no mundo viver,
u m'El atal dona mostrou
que me fez filhar por senhor,
e nom lh'ouso dizer "senhor".
E se Deus houve gram prazer
de me fazer coita levar,
que bem s'end'El soube guisar
u m'El fez tal dona veer,
que me fez filhar por senhor,
e nom lh'ouso dizer "senhor".
Se m'eu a Deus mal mereci,
nom vos quis El muito tardar
que se nom quisesse vingar
de mi, u eu tal dona vi
que me fez filhar por senhor,
e nom lh'ouso dizer "senhor".
785
Afonso Mendes de Besteiros
Oimais Nom Há Rem Que Mi Gradecer
Oimais nom há rem que mi gradecer
a mi a mui fremosa mia senhor
de a servir já, mentr'eu vivo for,
ca, de pram, assi me tem em poder
que nom poss'end'o coraçom partir;
e pero mi pês, hei-a já de servir.
[...]
a mi a mui fremosa mia senhor
de a servir já, mentr'eu vivo for,
ca, de pram, assi me tem em poder
que nom poss'end'o coraçom partir;
e pero mi pês, hei-a já de servir.
[...]
621
D. Dinis
Em Grave Dia, Senhor, Que Vos Oí
– Em grave dia, senhor, que vos oí
falar, e vos virom estes olhos meus!
– Dized', amigo, que poss'eu fazer i
em aqueste feito, se vos valha Deus?
– Faredes mesura contra mi, senhor?
- Farei, amigo, fazend'eu o melhor.
– U vos em tal ponto eu oí falar,
senhor, que nom pudi depois bem haver!
– Amigo, quero-vos ora preguntar
que mi digades o que poss'i fazer.
– Faredes mesura contra mi, senhor?
– Farei, amigo, fazend'eu o melhor.
– Des que vos vi e vos oí falar, [nom]
vi prazer, senhor, nem dormi, nem folguei.
– Amigo, dizede, se Deus vos perdom,
o que eu i faça, ca eu non'o sei.
– Faredes mesura contra mi, senhor?
– Farei, amigo, fazend'eu o melhor.
falar, e vos virom estes olhos meus!
– Dized', amigo, que poss'eu fazer i
em aqueste feito, se vos valha Deus?
– Faredes mesura contra mi, senhor?
- Farei, amigo, fazend'eu o melhor.
– U vos em tal ponto eu oí falar,
senhor, que nom pudi depois bem haver!
– Amigo, quero-vos ora preguntar
que mi digades o que poss'i fazer.
– Faredes mesura contra mi, senhor?
– Farei, amigo, fazend'eu o melhor.
– Des que vos vi e vos oí falar, [nom]
vi prazer, senhor, nem dormi, nem folguei.
– Amigo, dizede, se Deus vos perdom,
o que eu i faça, ca eu non'o sei.
– Faredes mesura contra mi, senhor?
– Farei, amigo, fazend'eu o melhor.
749
Vinicius de Moraes
Romanza
Branca mulher de olhos claros
De olhar branco e luminoso
Que tinhas luz nas pupilas
E luz nos cabelos louros
Onde levou-te o destino
Que te afastou para longe
Da minha vista sem vida
Da minha vida sem vista?
Andavas sempre sozinha
Sem cão, sem homem, sem Deus
Eu te seguia sozinho
Sem cão, sem mulher, sem Deus
Eras a imagem de um sonho
A imagem de um sonho eu era
Ambos levando a tristeza
Dos que andam em busca do sonho.
Ias sempre, sempre andando
E eu ia sempre seguindo
Pisando na tua sombra
Vendo-a às vezes se afastar
Nem sabias quem eu era
Não te assustavam meus passos
Tu sempre andando na frente
Eu sempre atrás caminhando.
Toda a noite em minha casa
Passavas na caminhada
Eu te esperava e seguia
Na proteção do meu passo
E após o curto caminho
Da praia de ponta a ponta
Entravas na tua casa
E eu ia, na caminhada.
Eu te amei, mulher serena
Amei teu vulto distante
Amei teu passo elegante
E a tua beleza clara
Na noite que sempre vinha
Mas sempre custava tanto
Eu via a hora suprema
Das horas da minha vida.
Eu te seguia e sonhava
Sonhava que te seguia
Esperava ansioso o instante
De defender-te de alguém
E então meu passo mais forte
Dizia: quero falar-te
E o teu, mais brando, dizia:
Se queres destruir... vem.
Eu ficava. E te seguia
Pelo deserto da praia
Até avistar a casa
Pequena e branca da esquina.
Entravas. Por um momento
Esperavas que eu passasse
Para o olhar de boa-noite
E o olhar de até-amanhã.
Quase um ano o nosso idílio.
Uma noite... não passaste.
Esperei-te ansioso, inquieto
Mas não vieste. Por quê?
Foste embora? Procuraste
O amor de algum outro passo
Que em vez de seguir-te sempre
Andasse sempre ao teu lado?
Eu ando agora sozinho
Na praia longa e deserta
Eu ando agora sozinho
Por que fugiste? Por quê?
Ao meu passo solitário
Triste e incerto como nunca
Só responde a voz das ondas
Que se esfacelam na areia.
Branca mulher de olhos claros
Minha alma ainda te deseja
Traze ao meu passo cansado
A alegria do teu passo
Onde levou-te o destino
Que te afastou para longe
Da minha vista sem vida
Da minha vida sem vista?
De olhar branco e luminoso
Que tinhas luz nas pupilas
E luz nos cabelos louros
Onde levou-te o destino
Que te afastou para longe
Da minha vista sem vida
Da minha vida sem vista?
Andavas sempre sozinha
Sem cão, sem homem, sem Deus
Eu te seguia sozinho
Sem cão, sem mulher, sem Deus
Eras a imagem de um sonho
A imagem de um sonho eu era
Ambos levando a tristeza
Dos que andam em busca do sonho.
Ias sempre, sempre andando
E eu ia sempre seguindo
Pisando na tua sombra
Vendo-a às vezes se afastar
Nem sabias quem eu era
Não te assustavam meus passos
Tu sempre andando na frente
Eu sempre atrás caminhando.
Toda a noite em minha casa
Passavas na caminhada
Eu te esperava e seguia
Na proteção do meu passo
E após o curto caminho
Da praia de ponta a ponta
Entravas na tua casa
E eu ia, na caminhada.
Eu te amei, mulher serena
Amei teu vulto distante
Amei teu passo elegante
E a tua beleza clara
Na noite que sempre vinha
Mas sempre custava tanto
Eu via a hora suprema
Das horas da minha vida.
Eu te seguia e sonhava
Sonhava que te seguia
Esperava ansioso o instante
De defender-te de alguém
E então meu passo mais forte
Dizia: quero falar-te
E o teu, mais brando, dizia:
Se queres destruir... vem.
Eu ficava. E te seguia
Pelo deserto da praia
Até avistar a casa
Pequena e branca da esquina.
Entravas. Por um momento
Esperavas que eu passasse
Para o olhar de boa-noite
E o olhar de até-amanhã.
Quase um ano o nosso idílio.
Uma noite... não passaste.
Esperei-te ansioso, inquieto
Mas não vieste. Por quê?
Foste embora? Procuraste
O amor de algum outro passo
Que em vez de seguir-te sempre
Andasse sempre ao teu lado?
Eu ando agora sozinho
Na praia longa e deserta
Eu ando agora sozinho
Por que fugiste? Por quê?
Ao meu passo solitário
Triste e incerto como nunca
Só responde a voz das ondas
Que se esfacelam na areia.
Branca mulher de olhos claros
Minha alma ainda te deseja
Traze ao meu passo cansado
A alegria do teu passo
Onde levou-te o destino
Que te afastou para longe
Da minha vista sem vida
Da minha vida sem vista?
1 267
Vinicius de Moraes
A Esposa
Às vezes, nessas noites frias e enevoadas
Onde o silêncio nasce dos ruídos monótonos e mansos
Essa estranha visão de mulher calma
Surgindo do vazio dos meus olhos parados
Vem espiar minha imobilidade.
E ela fica horas longas, horas silenciosas
Somente movendo os olhos serenos no meu rosto
Atenta, à espera do sono que virá e me levará com ele.
Nada diz, nada pensa, apenas olha — e o seu olhar é como a luz
De uma estrela velada pela bruma.
Nada diz. Olha apenas as minhas pálpebras que descem
Mas que não vencem o olhar perdido longe.
Nada pensa. Virá e agasalhará minhas mãos frias
Se sentir frias suas mãos.
Quando a porta ranger e a cabecinha de criança
Aparecer curiosa e a voz clara chamá-la num reclamo
Ela apontará para mim pondo o dedo nos lábios
Sorrindo de um sorriso misterioso
E se irá num passo leve
Após o beijo leve e roçagante...
Eu só verei a porta que se vai fechando brandamente...
Ela terá ido, a esposa amiga, a esposa que eu nunca terei.
Onde o silêncio nasce dos ruídos monótonos e mansos
Essa estranha visão de mulher calma
Surgindo do vazio dos meus olhos parados
Vem espiar minha imobilidade.
E ela fica horas longas, horas silenciosas
Somente movendo os olhos serenos no meu rosto
Atenta, à espera do sono que virá e me levará com ele.
Nada diz, nada pensa, apenas olha — e o seu olhar é como a luz
De uma estrela velada pela bruma.
Nada diz. Olha apenas as minhas pálpebras que descem
Mas que não vencem o olhar perdido longe.
Nada pensa. Virá e agasalhará minhas mãos frias
Se sentir frias suas mãos.
Quando a porta ranger e a cabecinha de criança
Aparecer curiosa e a voz clara chamá-la num reclamo
Ela apontará para mim pondo o dedo nos lábios
Sorrindo de um sorriso misterioso
E se irá num passo leve
Após o beijo leve e roçagante...
Eu só verei a porta que se vai fechando brandamente...
Ela terá ido, a esposa amiga, a esposa que eu nunca terei.
1 332
Estêvão da Guarda
Do Que Bem Serve Sempr'oí Dizer
Do que bem serve sempr'oí dizer
que bem pede; mais digo-vos de mi:
pero que eu, gram temp'há, bem servi
ũa dona que me tem em poder,
que nom tenho que, per meu bem servir,
eu razom hei de lhi por en pidir
o maior bem dos que Deus quis fazer.
Bem entend'eu que logar deve haver
o que bem serve de pidir por en
bem com razom (mais éste tam gram bem
que lhi nom pod'outro bem par seer);
pois d'eu bem servir ũa dona tal,
por lhi pedir bem que tam muito val,
sol non'o dev'em coraçom poer.
E, meus amigos, quem bem cousecer
o mui gram bem que Nostro Senhor deu
a esta dona, bem certo sei eu,
se houver sem, que bem pode entender
que, per servir, quantos no mundo som
nom devem sol põer em coraçom
que pedir possa em tal bem caber.
Por end'a mim convém, querend'ou nom,
de servir bem, sem havendo razom
que, per servir, haja bem d'atender.
que bem pede; mais digo-vos de mi:
pero que eu, gram temp'há, bem servi
ũa dona que me tem em poder,
que nom tenho que, per meu bem servir,
eu razom hei de lhi por en pidir
o maior bem dos que Deus quis fazer.
Bem entend'eu que logar deve haver
o que bem serve de pidir por en
bem com razom (mais éste tam gram bem
que lhi nom pod'outro bem par seer);
pois d'eu bem servir ũa dona tal,
por lhi pedir bem que tam muito val,
sol non'o dev'em coraçom poer.
E, meus amigos, quem bem cousecer
o mui gram bem que Nostro Senhor deu
a esta dona, bem certo sei eu,
se houver sem, que bem pode entender
que, per servir, quantos no mundo som
nom devem sol põer em coraçom
que pedir possa em tal bem caber.
Por end'a mim convém, querend'ou nom,
de servir bem, sem havendo razom
que, per servir, haja bem d'atender.
614
João Airas de Santiago
Tam Grave M'é, Senhor, Que Morrerei
Tam grave m'é, senhor, que morrerei,
a mui gram coita que, per boa fé,
levo por vós, e a vós mui grav'é;
pero, senhor, verdade vos direi:
se vos grave é de vos eu bem querer,
tam grav'é a mi, mais nom poss'al fazer.
Tam grave m'é esta coita em que me tem
o voss'amor, que nom lh'hei de guarir,
e a vós grav'é sol de o oir;
pero, senhor, direi-vos que mi avém:
se vos grave é de vos eu bem querer,
tam grav'é a mi, mais nom poss'al fazer.
Tam grave m'é, que nom atendo já
de vós senom mort'ou mui gram pesar,
e grav'é a vós de vos [eu] coitar;
pero, senhor, direi-vos quant'i há:
se vos grave é de vos eu bem querer,
tam grav'é a mi, mais nom poss'al fazer.
a mui gram coita que, per boa fé,
levo por vós, e a vós mui grav'é;
pero, senhor, verdade vos direi:
se vos grave é de vos eu bem querer,
tam grav'é a mi, mais nom poss'al fazer.
Tam grave m'é esta coita em que me tem
o voss'amor, que nom lh'hei de guarir,
e a vós grav'é sol de o oir;
pero, senhor, direi-vos que mi avém:
se vos grave é de vos eu bem querer,
tam grav'é a mi, mais nom poss'al fazer.
Tam grave m'é, que nom atendo já
de vós senom mort'ou mui gram pesar,
e grav'é a vós de vos [eu] coitar;
pero, senhor, direi-vos quant'i há:
se vos grave é de vos eu bem querer,
tam grav'é a mi, mais nom poss'al fazer.
777
João Airas de Santiago
Vi Eu Donas, Senhor, Em Cas D'el-Rei
Vi eu donas, senhor, em cas d'el-rei,
fremosas e que pareciam bem,
e vi donzelas muitas u andei;
e, mia senhor, direi-vos ũa rem:
a mais fremosa de quantas eu vi,
long'estava de parecer assi
come vós. Eu muitas vezes provei
se ac[h]aria de tal parecer
algũa dona, senhor, u andei;
e mia senhor, quero-vos al dizer:
a mais fremosa de quantas eu vi,
long'estava de parecer assi
come vós. E, mia senhor, preguntei
por donas muitas, que oí loar
de parecer, nas terras u andei;
e, mia senhor, pois mi as fo[rom] mostrar:
a mais fremosa de quantas eu vi,
long'estava de parecer assi.
fremosas e que pareciam bem,
e vi donzelas muitas u andei;
e, mia senhor, direi-vos ũa rem:
a mais fremosa de quantas eu vi,
long'estava de parecer assi
come vós. Eu muitas vezes provei
se ac[h]aria de tal parecer
algũa dona, senhor, u andei;
e mia senhor, quero-vos al dizer:
a mais fremosa de quantas eu vi,
long'estava de parecer assi
come vós. E, mia senhor, preguntei
por donas muitas, que oí loar
de parecer, nas terras u andei;
e, mia senhor, pois mi as fo[rom] mostrar:
a mais fremosa de quantas eu vi,
long'estava de parecer assi.
651
João Airas de Santiago
Senhor Fremosa, Hei-Vos Grand'amor
Senhor fremosa, hei-vos grand'amor,
e os que sabem que vos quero bem
têm que vos pesa mais doutra rem;
e eu tenho, fremosa mia senhor,
mui guisado de vos fazer pesar,
se vos pesa de vos eu muit'amar.
Ca já vos sempr'haverei de querer
bem, e estas gentes que aqui som
têm que vos pesa de coraçom;
e eu tenho já, enquanto viver,
mui guisado de vos fazer pesar,
se vos pesa de vos eu muit'amar.
Ca, mia senhor, sempre vos bem querrei,
e aquestas gentes que som aqui
têm que vos faço gram pesar i;
e [eu] tenh'ora, e sempre terrei,
mui guisado de vos fazer pesar,
se vos pesa de vos eu muit'amar.
Ca vos nom posso, senhor, desamar,
nem poss'amor, que me força, forçar.
e os que sabem que vos quero bem
têm que vos pesa mais doutra rem;
e eu tenho, fremosa mia senhor,
mui guisado de vos fazer pesar,
se vos pesa de vos eu muit'amar.
Ca já vos sempr'haverei de querer
bem, e estas gentes que aqui som
têm que vos pesa de coraçom;
e eu tenho já, enquanto viver,
mui guisado de vos fazer pesar,
se vos pesa de vos eu muit'amar.
Ca, mia senhor, sempre vos bem querrei,
e aquestas gentes que som aqui
têm que vos faço gram pesar i;
e [eu] tenh'ora, e sempre terrei,
mui guisado de vos fazer pesar,
se vos pesa de vos eu muit'amar.
Ca vos nom posso, senhor, desamar,
nem poss'amor, que me força, forçar.
620
João Airas de Santiago
Andei, Senhor, Leon E Castela
Andei, senhor, Leon e Castela
depois que m'eu desta terra quitei,
e nom foi i dona nem donzela
que eu nom viss', e mais vos en direi:
quantas mais donas, senhor, alá vi,
tanto vos eu mui mais precei des i.
[E] quantas donas eu vi, des quando
me foi daqui, punhei de as cousir,
e, poilas vi, estive cuidando
em vós, senhor, e por vos nom mentir,
quantas mais donas, senhor, alá vi,
tanto vos eu mui mais precei des i.
E as que alá maior prez haviam
em todo bem, tôdalas fui veer,
e cousi-as, e bem pareciam,
pero, senhor, quero-vos al dizer:
quantas mais donas, senhor, alá vi,
tanto vos eu mui mais precei des i.
depois que m'eu desta terra quitei,
e nom foi i dona nem donzela
que eu nom viss', e mais vos en direi:
quantas mais donas, senhor, alá vi,
tanto vos eu mui mais precei des i.
[E] quantas donas eu vi, des quando
me foi daqui, punhei de as cousir,
e, poilas vi, estive cuidando
em vós, senhor, e por vos nom mentir,
quantas mais donas, senhor, alá vi,
tanto vos eu mui mais precei des i.
E as que alá maior prez haviam
em todo bem, tôdalas fui veer,
e cousi-as, e bem pareciam,
pero, senhor, quero-vos al dizer:
quantas mais donas, senhor, alá vi,
tanto vos eu mui mais precei des i.
591
João Airas de Santiago
Nom Vi Molher, Des Que Naci
Nom vi molher, des que naci,
tam muito guardada com'é
a mia senhor, per boa fé;
mais, pero a guardam assi,
quantos dias no mundo som,
alá vai o meu coraçom.
De sa madre sei ũa rem:
que a manda muito guardar
de mi e d'outrem alá entrar;
mais, pero a guarda mui bem,
quantos dias no mundo som,
alá vai o meu coraçom.
Do[s] que a guardam sei eu já
que lhis nom pod'home alá ir;
mais direi-vos, per nom mentir,
pero mui guardada está,
quantos dias no mundo som,
alá vai o meu coraçom.
E pesa-mi a mim, porque nom
posso ir u vai meu coraçom.
tam muito guardada com'é
a mia senhor, per boa fé;
mais, pero a guardam assi,
quantos dias no mundo som,
alá vai o meu coraçom.
De sa madre sei ũa rem:
que a manda muito guardar
de mi e d'outrem alá entrar;
mais, pero a guarda mui bem,
quantos dias no mundo som,
alá vai o meu coraçom.
Do[s] que a guardam sei eu já
que lhis nom pod'home alá ir;
mais direi-vos, per nom mentir,
pero mui guardada está,
quantos dias no mundo som,
alá vai o meu coraçom.
E pesa-mi a mim, porque nom
posso ir u vai meu coraçom.
720
João Airas de Santiago
Maravilho-M'eu, Si Deus Mi Dê Bem
Maravilho-m'eu, si Deus mi dê bem,
senhor, por quanto vos vejo rogar
Nostro Senhor, e vim-vos preguntar
que mi digades, por Deus, ũa rem:
em que vos podia Nostro Senhor
fazer mais bem do que vos fez, senhor?
Fez-vos bem falar e bem parecer
e comprida de bem, per bõa fé,
e rogades Deus, nom sei por que é;
e, mia senhor, quero de vós saber
em que vos podia Nostro Senhor
fazer mais bem do que vos fez, senhor?
Ca vos fez mansa e de mui bom prez,
e já em vós mais bem nom poderá
haver; pois por que O rogades já?
Ca, pois que vos El tam muito bem fez,
em que vos podia Nostro Senhor
fazer mais bem do que vos fez, senhor?
Eu, cativo, mui coitado d'amor,
havia que rogar Nostro Senhor,
que m[i] fez sempre viver sem sabor,
e sem vosso bem-fazer, mia senhor.
senhor, por quanto vos vejo rogar
Nostro Senhor, e vim-vos preguntar
que mi digades, por Deus, ũa rem:
em que vos podia Nostro Senhor
fazer mais bem do que vos fez, senhor?
Fez-vos bem falar e bem parecer
e comprida de bem, per bõa fé,
e rogades Deus, nom sei por que é;
e, mia senhor, quero de vós saber
em que vos podia Nostro Senhor
fazer mais bem do que vos fez, senhor?
Ca vos fez mansa e de mui bom prez,
e já em vós mais bem nom poderá
haver; pois por que O rogades já?
Ca, pois que vos El tam muito bem fez,
em que vos podia Nostro Senhor
fazer mais bem do que vos fez, senhor?
Eu, cativo, mui coitado d'amor,
havia que rogar Nostro Senhor,
que m[i] fez sempre viver sem sabor,
e sem vosso bem-fazer, mia senhor.
712
João Airas de Santiago
Desej'eu Bem Haver de Mia Senhor
Desej'eu bem haver de mia senhor,
mais nom desej'haver bem dela tal,
por seer meu bem, que seja seu mal;
e por aquesto, par Nostro Senhor,
nom queria que mi fezesse bem
em que perdesse do seu nulha rem,
ca nom é meu bem o que seu mal for.
Ante cuid'eu que o que seu mal é
que meu mal est, e cuido gram razom;
por en desejo no meu coraçom
haver tal bem dela, per bõa fé,
em que nom perça rem de seu bom prez,
nem lh'ar diga nulh'home que mal fez,
e outro bem Deus dela nom mi dé.
E já eu muitos namorados vi
que nom davam nulha rem por haver
sas senhores mal, pois a si prazer
faziam, e por esto dig'assi:
se eu mia senhor amo polo meu
bem e nom cato a nulha rem do seu,
nom am'eu mia senhor, mais amo mi.
E mal mi venha se atal fui eu,
ca, des que eu no mund'andei por seu,
amei sa prol muito mais ca de mi.
mais nom desej'haver bem dela tal,
por seer meu bem, que seja seu mal;
e por aquesto, par Nostro Senhor,
nom queria que mi fezesse bem
em que perdesse do seu nulha rem,
ca nom é meu bem o que seu mal for.
Ante cuid'eu que o que seu mal é
que meu mal est, e cuido gram razom;
por en desejo no meu coraçom
haver tal bem dela, per bõa fé,
em que nom perça rem de seu bom prez,
nem lh'ar diga nulh'home que mal fez,
e outro bem Deus dela nom mi dé.
E já eu muitos namorados vi
que nom davam nulha rem por haver
sas senhores mal, pois a si prazer
faziam, e por esto dig'assi:
se eu mia senhor amo polo meu
bem e nom cato a nulha rem do seu,
nom am'eu mia senhor, mais amo mi.
E mal mi venha se atal fui eu,
ca, des que eu no mund'andei por seu,
amei sa prol muito mais ca de mi.
663
João Airas de Santiago
A Mia Senhor, Que Me Tem Em Poder
A mia senhor, que me tem em poder
e que eu sei mais doutra rem amar,
sempr'eu farei quanto m'ela mandar
a meu grado, que eu possa fazer;
mais nom lhi posso fazer ũa rem:
quando mi diz que lhi nom que[i]ra bem,
ca o nom posso comigo poer.
Ca se eu migo podesse poer,
se Deus mi valha, de a nom amar,
ela nom havia que mi rogar,
ca eu rogad'era de o fazer;
mais nom posso querer mal a quem
Nostro Senhor quis dar tam muito bem
como lh'El deu, e tam bom parecer.
Sa bondad'e seu bom parecer
mi faz a mim mia senhor tant'amar
e seu bom prez e seu mui bom falar,
que nom poss'eu, per rem, i al fazer;
mais ponha ela consigo ũa rem:
de nunca jamais mi parecer bem,
porrei mig'eu de lhi bem nom querer.
e que eu sei mais doutra rem amar,
sempr'eu farei quanto m'ela mandar
a meu grado, que eu possa fazer;
mais nom lhi posso fazer ũa rem:
quando mi diz que lhi nom que[i]ra bem,
ca o nom posso comigo poer.
Ca se eu migo podesse poer,
se Deus mi valha, de a nom amar,
ela nom havia que mi rogar,
ca eu rogad'era de o fazer;
mais nom posso querer mal a quem
Nostro Senhor quis dar tam muito bem
como lh'El deu, e tam bom parecer.
Sa bondad'e seu bom parecer
mi faz a mim mia senhor tant'amar
e seu bom prez e seu mui bom falar,
que nom poss'eu, per rem, i al fazer;
mais ponha ela consigo ũa rem:
de nunca jamais mi parecer bem,
porrei mig'eu de lhi bem nom querer.
654
João Airas de Santiago
Senhor Fremosa do Bom Parecer
Senhor fremosa do bom parecer,
pero que moiro querendo-vos bem,
se vos digo que muito mal mi vem
por vós, nom mi queredes rem dizer,
pero no mundo nom sei eu molher
que tam bem diga o que dizer quer.
E, mia senhor fremosa, morrerei
com tanto mal como mi faz Amor
por vós, e se vo-lo digo, senhor,
nom mi dizedes o que i farei;
pero no mundo nom sei eu molher
que tam bem diga o que dizer quer.
[E] estas coitas grandes que sofr'i
por vós, se mi vos en venho queixar,
come se nom soubéssedes falar,
nom mi dizedes o que faça i;
pero no mundo nom sei eu molher
que tam bem diga o que dizer quer.
E pois nom fala quem bem diz que quer,
como falará bem quem nom souber?
pero que moiro querendo-vos bem,
se vos digo que muito mal mi vem
por vós, nom mi queredes rem dizer,
pero no mundo nom sei eu molher
que tam bem diga o que dizer quer.
E, mia senhor fremosa, morrerei
com tanto mal como mi faz Amor
por vós, e se vo-lo digo, senhor,
nom mi dizedes o que i farei;
pero no mundo nom sei eu molher
que tam bem diga o que dizer quer.
[E] estas coitas grandes que sofr'i
por vós, se mi vos en venho queixar,
come se nom soubéssedes falar,
nom mi dizedes o que faça i;
pero no mundo nom sei eu molher
que tam bem diga o que dizer quer.
E pois nom fala quem bem diz que quer,
como falará bem quem nom souber?
800
Diamond
Celular
Muito estranho esse amor virtual !
Cujo o rosto eu não conheço, profano e temporal.
Parece adoçante sintético. Do qual só sinto o doce,
Não a vejo onde vou. Nem imagino você
Mas, o dia que a encontrar, mesmo que eu
Não saiba quem você é, o meu coração saberá
E feito um louco celular, no bolso do meu peito,
Tremendo aflito, me comunicará a sua mágica presença.
Trimmmm
Cujo o rosto eu não conheço, profano e temporal.
Parece adoçante sintético. Do qual só sinto o doce,
Não a vejo onde vou. Nem imagino você
Mas, o dia que a encontrar, mesmo que eu
Não saiba quem você é, o meu coração saberá
E feito um louco celular, no bolso do meu peito,
Tremendo aflito, me comunicará a sua mágica presença.
Trimmmm
1 012
João Airas de Santiago
O Meu Amigo Nom Pod'haver Bem
O meu amigo nom pod'haver bem
de mi, amiga, vedes por que nom:
el nom mi o diz, assi Deus mi perdom,
nem lho dig'eu, e assi nos avém:
el com pavor nom mi o ousa 'mentar;
eu, amiga, non'o posso rogar.
E gram sazom há já, per bõa fé,
que el [o] meu bem podera haver
e jamais nunca mi o ousou dizer
e o preito direi-vos eu com'é:
el com pavor nom mi o ousa 'mentar;
eu, amiga, non'o posso rogar.
E gram temp'há que lh[o] eu entendi,
ca mi o disserom, mais houvi pavor
de mi pesar e, par Nostro Senhor,
prouguera-m'end'e [e]stamos assi:
el com pavor nom mi o ousa 'mentar;
eu, amiga, non'o posso rogar.
E o preito guisad'em se chegar
era, mais nom há quen'o começar.
de mi, amiga, vedes por que nom:
el nom mi o diz, assi Deus mi perdom,
nem lho dig'eu, e assi nos avém:
el com pavor nom mi o ousa 'mentar;
eu, amiga, non'o posso rogar.
E gram sazom há já, per bõa fé,
que el [o] meu bem podera haver
e jamais nunca mi o ousou dizer
e o preito direi-vos eu com'é:
el com pavor nom mi o ousa 'mentar;
eu, amiga, non'o posso rogar.
E gram temp'há que lh[o] eu entendi,
ca mi o disserom, mais houvi pavor
de mi pesar e, par Nostro Senhor,
prouguera-m'end'e [e]stamos assi:
el com pavor nom mi o ousa 'mentar;
eu, amiga, non'o posso rogar.
E o preito guisad'em se chegar
era, mais nom há quen'o começar.
509
Adélia Prado
Uma Vez Visto
Para o homem com a flauta,
sua boca e mãos,
eu fico calada.
Me viro em dócil,
sábia de fazer com veludos
uma caixa.
O homem com a flauta
é meu susto pênsil
que nunca vou explicar,
porque flauta é flauta,
boca é boca,
mão é mão.
Como os ratos da fábula eu o sigo
roendo inroível amor.
O homem com a flauta existe?
sua boca e mãos,
eu fico calada.
Me viro em dócil,
sábia de fazer com veludos
uma caixa.
O homem com a flauta
é meu susto pênsil
que nunca vou explicar,
porque flauta é flauta,
boca é boca,
mão é mão.
Como os ratos da fábula eu o sigo
roendo inroível amor.
O homem com a flauta existe?
1 427
Vinicius de Moraes
Ária Para Assovio
Inelutavelmente tu
Rosa sobre o passeio
Branca! e a melancolia
Na tarde do seio
As cássias escorrem
Seu ouro a teus pés
Conheço o soneto
Porém tu quem és?
O madrigal se escreve:
Se é do teu costume
Deixa que eu te leve
(Sê... mínima e breve
A música do perfume
Não guarda ciúme)
Rio, 1936
Rosa sobre o passeio
Branca! e a melancolia
Na tarde do seio
As cássias escorrem
Seu ouro a teus pés
Conheço o soneto
Porém tu quem és?
O madrigal se escreve:
Se é do teu costume
Deixa que eu te leve
(Sê... mínima e breve
A música do perfume
Não guarda ciúme)
Rio, 1936
1 068
João Baveca
Cuidara Eu a Mia Senhor Dizer
Cuidara eu a mia senhor dizer
o mui gram bem que lhi quer'e pavor
houvi d'estar com ela mui peor
ca estava, e nom lh'ousei dizer
de quanta coita por ela sofri,
nem do gram bem que lhe quis, poila vi.
E nom cuidei haver de nulha rem
med'e, por esto m'esforcei entom
e foi ant'ela, se Deus mi perdom,
por lho dizer, mais nom lhi dixi rem
de quanta coita por ela sofri,
nem do gram bem que lhe quis, poila vi.
Bem esforçado fui por lhi falar
na mui gram coita que por ela hei,
e fui ant'ela, e siv'e cuidei
e catei-a, mais nom lh'ousei falar
de quanta coita por ela sofri,
nem do gram bem que lhe quis, poila vi,
e quer'e querrei sempre des aqui.
o mui gram bem que lhi quer'e pavor
houvi d'estar com ela mui peor
ca estava, e nom lh'ousei dizer
de quanta coita por ela sofri,
nem do gram bem que lhe quis, poila vi.
E nom cuidei haver de nulha rem
med'e, por esto m'esforcei entom
e foi ant'ela, se Deus mi perdom,
por lho dizer, mais nom lhi dixi rem
de quanta coita por ela sofri,
nem do gram bem que lhe quis, poila vi.
Bem esforçado fui por lhi falar
na mui gram coita que por ela hei,
e fui ant'ela, e siv'e cuidei
e catei-a, mais nom lh'ousei falar
de quanta coita por ela sofri,
nem do gram bem que lhe quis, poila vi,
e quer'e querrei sempre des aqui.
601
Bernardo Bonaval
A dona que eu amo
A dona que eu amo e tenho por Senhor
amostra-me-a Deus, se vos en prazer for,
se non dade-me-a morte.
A que tenh'eu por lume d'estes olhos meus
e porque choran sempr(e) amostrade-me-a Deus,
se non dade-me-a morte.
Essa que Vós fezestes melhor parecer
de quantas sei, a Deus, fazede-me-a veer,
se non dade-me-a morte.
A Deus, que me-a fizestes mais amar,
mostrade-me-a algo possa con ela falar,
se non dade-me-a morte.
amostra-me-a Deus, se vos en prazer for,
se non dade-me-a morte.
A que tenh'eu por lume d'estes olhos meus
e porque choran sempr(e) amostrade-me-a Deus,
se non dade-me-a morte.
Essa que Vós fezestes melhor parecer
de quantas sei, a Deus, fazede-me-a veer,
se non dade-me-a morte.
A Deus, que me-a fizestes mais amar,
mostrade-me-a algo possa con ela falar,
se non dade-me-a morte.
2 881
José Saramago
Química
Sublimemos, amor. Assim as flores
No jardim não morreram se o perfume
No cristal da essência se defende.
Passemos nós as provas, os ardores:
Não caldeiam instintos sem o lume
Nem o secreto aroma que rescende.
No jardim não morreram se o perfume
No cristal da essência se defende.
Passemos nós as provas, os ardores:
Não caldeiam instintos sem o lume
Nem o secreto aroma que rescende.
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