Poemas neste tema

Amor Platónico

Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Maísa

Um dia pensei um poema para Maísa
"Maísa não é isso
Maísa não é aquilo
Como é então que Maísa me comove me sacode me buleversa me hipnotiza?

Muito simplesmente
Maísa não é isso mas Maísa tem aquilo
Maísa não é aquilo mas Maísa tem isto
Os olhos de Maísa são dois não sei quê dois não sei como diga dois Oceanos Não-Pacíficos

A boca de Maísa é isto isso e aquilo
Quem fala mais em Maísa a boca ou os olhos?
Os olhos e a boca de Maísa se entendem os olhos dizem uma coisa e a boca de Maísa se condói se contrai se contorce como a ostra viva em que se pingou uma gota de limão.
A boca de Maísa escanteia e os olhos de Maísa ficam sérios meu Deus como os olhos de Maísa podem ser sérios e como a boca de Maísa pode ser amarga!
Boca da noite (mas de repente alvorece num sorriso infantil inefável)"
Cacei imagens delirantes
Maísa podia não gostar
Cassei o poema.

Maísa reapareceu depois de longa ausência
Maísa emagreceu
Está melhor assim?
Nem melhor nem pior
Maísa não é um corpo
Maísa são dois olhos e uma boca
Essa é a Maísa da televisão
A Maísa que canta
A outra eu não conheço não
Não conheço de todo
Mas mando um beijo para ela.
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Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Boda Espiritual

Tu não estás comigo em momentos escassos:
No pensamento meu, amor, tu vives nua
— Toda nua, pudica e bela, nos meus braços.

O teu ombro no meu, ávido, se insinua.
Pende a tua cabeça. Eu amacio-a... Afago-a...
Ah, como a minha mão treme... Como ela é tua...

Põe no teu rosto o gozo uma expressão de mágoa.
O teu corpo crispado alucina. De escorço
O vejo estremecer como uma sombra n'água.

Gemes quase a chorar. Suplicas com esforço.
E para amortecer teu ardente desejo
Estendo longamente a mão pelo teu dorso...

Tua boca sem voz implora em um arquejo.
Eu te estreito cada vez mais, e espio absorto
A maravilha astral dessa nudez sem pejo...

E te amo como se ama um passarinho morto.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Retrolâmpago de Amor Visual

Namoradas mortas
tenho mais de cem:
Barbara La Marr
e Louise Fazenda,
tenho Theda Bara
e Olive Borden,
Bessie Barriscale
e Virginia Valli.
Tenho Marion Davies,
tenho Clara Bow,
tenho Alice Calhoun,
tenho Betty Compson,
tenho Nancy Carroll,
e Norma Talmadge
e Anita Stewart,
e Mildred Harris
e Lya de Putti,
que se suicidou,
como Lupe Velez.
Tenho Nazimova,
Mae Murray, Mae Marsch
e ainda Mae Busch
e Edna Purviance,
Ruth Roland, Ruth
Chatterton, Julia Faye,
tenho Ethel Clayton,
tenho Kathlyn Williams,
tenho Gladys Brockwell,
morta num desastre.
Eis Anna May Wong
com Alice Joyce
e Constance Bennett.
Tenho Agnes Ayres
e Elissa Landi,
tenho Mary Bryan
e Dorothy Gish
e Alice Brady
e Renée Adorée.
Guardo bem o nome
de Marie Prévost
e de Phyllis Haver,
o de Mabel Normand,
o de Fanny Ward,
o de Helen Costello,
o de Pearl White.
E de Alma Rubens
nunca mais me esqueço.
Lembro Nita Naldi,
Pauline Frederick,
Geraldine Farrar,
Clara Kimball Young,
lembro Elsie Ferguson
distantes, distantes.
E lembro Ann Sheridan
e Kay Francis lembro
e Carole Lombard
morta no avião
como Linda Darnell
morta no incêndio.
Tenho namoradas
que outros não namoram,
como Zasu Pitts,
Maria Ouspenskaya
e Marie Dressler.
Namoradas mortas?
Tenho mais de mil.
E das sem notícias
tenho outras tantas.
Onde se esconderam
Aileen Pringle, Viola
Dana, Louise Brooks?
Não sei onde foram
nem Pauline Starke
nem Blanche Sweet
nem Madge Bellamy
nem Gloria Stuart.
Ainda sinto falta
de Corinne Griffith,
de Louise Glaum
e de Anita Page,
de Olga Petrova
e de Mary Philbin,
de Virginia Pearson,
e Mary Miles Minter,
de Claudette Colbert
e Karen Morley,
de Irene Castle
e de Billie Dove.
Que é de Irene Rich,
onde vai Kay Johnson?
Ah, Dorothy Dalton
e Leatrice Joy!
May Mac Avoy
e Dorothy Mackaill,
Eleonor Boardman
e Alice Terry,
Margaret Livingstone
e Claire Windsor,
a todas recordo
e sumiram todas.
Sumiu Lila Lee,
sumiu Lois Wilson.
Florence Vidor
nunca mais voltou.
Sumiu Colleen Moore.
Nunca mais voltou
Madlaine Traverse.
Nunca mais voltaram
Madleine Carrol
e Bebé Daniels
e Evelyn Brent.
Quem dará notícia
de Carmel Myers?
De June Caprice
e de Estelle Taylor?
de Betty Blytte,
de Priscilla Dean?
Onde, Shirley Mason?
Ann Dvorak, onde?
Onde Pola Negri
e Laura La Plante?
Quem viu Esther Ralston,
Arlette Marchal,
também Vilma Banky?
Ai, namoradas
desaparecidas
tenho não sei quantas.
Obrigado, Alex
Viany, escusa
de contar-me certo
o fim que levaram.
Melhor não saber,
ou fazer que não.
Em frente da tela
branca para os outros,
para mim repleta
de signos e signos
tão indestrutíveis
que nem meu cansaço
de velho olhador
logra dissipá-los,
sem timbre nostálgico,
atual e sempre,
mantenho a leitura
deste sentimento
de amor visual.
650
Renato Russo

Renato Russo

Love Song

Pois nasci nunca vi Amor
e ouço del sempre falar
Pero sei que me quer matar
mais rogarei a mia senhor
que me mostr aquel matador
ou que m ampare del melhor

907
Louise Glück

Louise Glück

Ítaca

O ser amado não
precisa viver. O ser amado
vive na cabeça. O tear
é para os pretendentes, suspenso
como uma harpa de brancos filamentos.

Ele era duas pessoas.
Era corpo e voz, o fácil
magnetismo de um homem vivo, e então
o sonho revelado ou a imagem
formada pela mulher manejando o tear,
ali sentada num salão cheio
de homens de mentes literais. 

Se te causa pena
o mar enganado que tentou
levá-lo para sempre
e devolveu apenas o primeiro,
o verdadeiro marido, deverias
sentir pena desses homens: eles não sabem
para o que estão olhando;
eles não sabem que quando alguém ama dessa maneira
o manto se torna um vestido de casamento. 
651
D. Dinis

D. Dinis

Senhor Fremosa, Por Qual Vos Deus Fez

Senhor fremosa, por qual vos Deus fez
e por quanto bem em vós quis poer,
se m'agora quiséssedes dizer
o que vos já preguntei outra vez,
tenho que mi faríades gram bem:
de mi dizerdes quanto mal mi vem
por vós, se vos éste loor ou prez.

Ca se vos fosse ou prez ou loor,
de me matardes seria razom
e nom diria eu por en de nom;
mais d'atanto seede sabedor:
que nẽum prez nem loor nom vos é,
ant'errades muito, per bõa fé,
de me matardes, fremosa senhor.

E sabem quantos sabem vós e mi
que nunca cousa come vós amei;
des i sabem que nunca vos errei
[e] er sabem que sempre vos servi
o melhor que pud'e soubi cuidar;
e por en fazedes de me matar
mal, pois vo-l'eu, senhor, nom mereci.
656
D. Dinis

D. Dinis

Mesura Seria, Senhor

Mesura seria, senhor,
de vos amercear de mi,
que vos em grave dia vi;
e en mui grav'é voss'amor:
tam grave, que nom hei poder
daquesta coita mais sofrer
de que, muit'há, fui sofredor.

Pero sabe Nostro Senhor
que nunca vo-l'eu mereci,
mais sabe bem que vos servi,
des que vos vi, sempr'o melhor
que nunca [eu] pudi fazer;
por en querede-vos doer
de mim, coitado, pecador.

Mais Deus, que de tod'é senhor,
me queira põer conselh'i,
ca se meu feito vai assi
e m'El nom for ajudador
contra vós, que El fez valer
mais de quantas fezo nacer,
moir'eu, mais nom merecedor.

Pero se eu hei de morrer
sem vo-lo nunca merecer,
nom vos vej'i prez nem loor.
947
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Imagens de Juiz de Fora

I
Vejo-a dançando tão leve e linda,
Tão linda e leve como nenhuma
Não dança, voa como uma pluma
Largada ao vento.
E quando passa, dançando ainda,
Leva consigo meu pensamento.

II

Entras, mimosa e cândida,
E enleado em teu perfume
Gagueja um poeta pálido:
Du bist wie eine Blume...

III

Soltos, desnastros,
Esvoaçantes,
Num fulgor de astros,
Quem dera vê-los,
Nas madrugadas,
Os teus cabelos,
Loucos, errantes,
Sobre as espáduas maravilhadas!...

IV

Qual o mistério de terdes
Uns olhos que tanto encantam?
Que sereias é que cantam
Na água desses olhos verdes?

V

Aparece... E uma luz irradia na sala
Como de uma primeira estrela em céu de opala.
1 088
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Edmée

Que delícia na mata o fio d'água
Da fresca fonte para a sede grande!
(Assim a tua voz, límpida água
Para outra sede, Edmée Brandi.)
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D. Dinis

D. Dinis

Preguntar-Vos Quero, Por Deus

Preguntar-vos quero, por Deus,
senhor fremosa, que vos fez
mesurada e de bom prez,
que pecados forom os meus
       que nunca tevestes por bem
       de nunca mi fazerdes bem.

Pero sempre vos soub'amar
des aquel dia que vos vi,
mais que os meus olhos em mi;
e assi o quis Deus guisar
       que nunca tevestes por bem
       de nunca mi fazerdes bem.

Des que vos vi, sempr'o maior
bem que vos podia querer,
vos quigi, a todo meu poder;
e pero quis Nostro Senhor
       que nunca tevestes por bem
       de nunca mi fazerdes bem.

Mais, senhor, a vida com bem
se cobraria: bem por bem.
822
D. Dinis

D. Dinis

Que Estranho Que Mi É, Senhor

Que estranho que mi é, senhor,
e que gram coita d'endurar,
quando cuid'em mi, de nembrar
de quanto mal fui sofredor
des aquel dia que vos vi;
       e tod'este mal eu sofri
       por vós e polo voss'amor.

Ca des aquel tempo, senhor,
que vos vi e oí falar,
nom perdi coitas e pesar,
nem mal, nom podia maior,
e aquesto passou assi:
       e tod'este mal sofri
       por vós e polo voss'amor.

E por en seria, senhor,
gram bem de vos amercear
de mim, que hei coita sem par,
de qual vós sodes sabedor
que passou e passa per mi;
       e tod'este mal sofri
       por vós e polo voss'amor.
759
D. Dinis

D. Dinis

De Muitas Coitas, Senhor, Que Levei

De muitas coitas, senhor, que levei
des que vos soubi mui gram bem querer,
par Deus, nom poss'hoj'eu mi escolher
end'a maior; mais per quant'eu passei,
       de mal em mal e peior de peior,
       nom sei qual é maior coita, senhor.

Tantas coitas levei e padeci
des que vos vi, que nom poss'hoj'osmar
end'a maior, tantas forom sem par;
mais de tod'esto que passou per mi,
       de mal em mal e peior de peior,
       nom sei qual é maior coita, senhor.

Tantas coitas passei dê'la sazom
que vos eu vi, [senhor], per bõa fé,
que nom poss'osmar a maior qual é;
mais das que passei, se Deus mi perdom,
       de mal em mal e peior de peior,
       nom sei qual é maior coita, senhor.
722
D. Dinis

D. Dinis

Nostro Senhor, Se Haverei Guisado

Nostro Senhor, se haverei guisado
de mia senhor mui fremosa veer,
que mi nunca fez[o] nẽum prazer
e de que nunca cuid'haver bom grado;
pero filhar-lh'-ia por galardom
de a veer, se soubesse que nom
lh'era tam grave, Deus foss'en loado!

Ca mui gram temp'há que ando coitado,
se eu podesse, pola ir veer,
ca depois nom me pod'escaecer
qual eu [a] vi, u houvi Deus irado;
ca verdadeiramente des entom
nom trago mig'aqueste coraçom,
nem er sei de mim parte nem mandado.

Ca me tem seu amor tam aficado,
des que se nom guisou de a veer,
que nom hei em mim força nem poder,
nem dórmio rem, nem hei em mim recado;
e porque viv'em tam gram perdiçom,
que mi dê morte, peç'a Deus per dom,
e perderei meu mal e meu cuidado.
711
D. Dinis

D. Dinis

Que Grave Coita, Senhor, É

Que grave coita, senhor, é
a quem [há] sempr'a desejar
o vosso bem, que nom há par,
com'eu faç'! E, per bõa fé,
       se eu a Deus mal mereci,
       bem se vinga per vós em mi.

Tal coita mi dá voss'amor
e faz-me levar tanto mal,
que esto m'é coita mortal
de sofrer; e por en, senhor,
       se eu a Deus mal mereci,
       bem se vinga per vós em mi.

Tal coita sofr', há gram sazom,
e tanto mal e tant'afã
que par de morte m'é de pram;
e senhor, por esta razom,
       se eu a Deus mal mereci,
       bem se vinga por vós em mi.

E quer-se Deus vingar assi,
como Lhi praz, per vós em mi.
789
D. Dinis

D. Dinis

Senhor Fremosa, Pois No Coraçom

Senhor fremosa, pois no coraçom
nunca posestes de mi fazer bem,
nem mi dar grado do mal que mi vem
por vós, siquer teede por razom,
       senhor fremosa, de vos nom pesar
       de vos veer, se mi o Deus [a]guisar.

Pois vos nunca no coraçom entrou
de mi fazerdes, senhor, senom mal,
nem ar atendo jamais de vós al,
teede por bem, pois assi passou,
       senhor fremosa, de vos nom pesar
       de vos veer, se mi o Deus [a]guisar.

Pois que vos nunca doestes de mi,
er sabedes quanta coita passei
por vós e quanto mal lev'e levei,
teede por bem, pois que est assi,
       senhor fremosa, de vos nom pesar
       de vos veer, se mi o Deus [a]guisar.

E assi me poderedes guardar,
senhor [fremosa], sem vos mal estar.
738
D. Dinis

D. Dinis

Nunca Vos Ousei a Dizer

Nunca vos ousei a dizer
o gram bem que vos sei querer,
       senhor deste meu coraçom;
       mais aque m'em vossa prisom:
do que vos praz de mi fazer.

Nunca vos dixi nulha rem
de quanto mal mi por vós vem,
       senhor deste meu coraçom;
       mais aque m'em vossa prisom:
de mi fazerdes mal ou bem.

Nunca vos ousei a contar
mal que mi fazedes levar,
       senhor deste meu coraçom;
       mais aque m'em vossa prisom:
de me guarir ou me matar.

E, senhor, coita e al nom
me forçou de vos ir falar.
977
D. Dinis

D. Dinis

Senhor, Que de Grad'hoj'eu Querria,

Senhor, que de grad'hoj'eu querria,
se a Deus e a vós aprouguesse,
que, u vós estades, estevesse
convosc'e por esto me terria
       por tam bem andante
       que por rei nem ifante
       des ali adeante
       nom me cambiaria.

E sabendo que vos prazeria
que, u vós morássedes, morasse
e que vos eu viss'e vos falasse,
terria-me, senhor, todavia
       por tam bem andante
       que por rei nem ifante
       des ali adeante
       nom me cambiaria.

Ca, senhor, em gram bem viveria,
se u vós vivêssedes, vivesse
e sol que de vós est'entendesse,
terria-me, e razom faria,
       por tam bem andante
       que per rei nem ifante
       des ali adeante
       nom me cambiaria.
926
D. Dinis

D. Dinis

Bem Me Podedes Vós, Senhor

Bem me podedes vós, senhor,
partir deste meu coraçom
graves coitas; mas sei que nom
mi poderíades tolher,
per bõa fé, nẽum prazer:
ca nunca o eu pud'haver
des que vos eu nom vi, senhor.

Podedes-mi partir gram mal
e graves coitas que eu hei
por vós, mia senhor; mas bem sei
que me nom podedes per rem
tolher prazer nem nẽum bem:
pois end'eu nada nom houv'en,
des que vos vi, senom mal.

Graves coitas e grand'afã
mi podedes, se vos prouguer,
partir mui bem, senhor; mais er
sei que nom podedes tolher,
o que em mi nom há: prazer,
des que vos nom pudi veer,
mais grave coit'e grand'afã.
701
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

METEMPSICOSE

Quando a vi o outro dia longe passeando,
Formosa como nunca, a sua formosura
Traduziu-se em minh'alma em mística ternura,
Tirou da minha mente o que era vil, nefando.

Eu senti que m'estava logo dominando
Aquel' celeste olhar de suprema candura
E que d'esta minh'alma a noite sempre escura
Se tomou como o dia com o sol brilhando!

Aquele olhar tirou as ideias fatais
Da pobre minha mente que agora fremita
Sob impulsos mais puros, ardentes, leais;

E se só pelo bem meu coração palpita,
Se sonha minha mente sonhos ideais,
É a sua alma pura que em minha alma habita!!
942
D. Dinis

D. Dinis

Senhor, Que Bem Parecedes

Senhor, que bem parecedes,
se mi contra vós valvesse
Deus, que vos fez, e quisesse
do mal que mi fazedes
mi fezéssedes enmenda...
E vedes, senhor, quejenda:
que vos viss'e vos prouguesse.

Bem parecedes, sem falha,
que nunca viu homem tanto,
por meu mal e meu quebranto;
mais, senhor, que Deus vos valha,
por quanto mal hei levado
por vós, haja en, por grado,
veer-vos siquer já quanto.

Da vossa gram fremosura,
ond'eu, senhor, atendia
gram bem e grand'alegria,
mi vem gram mal sem mesura;
e pois hei coita sobeja,
praza-vos já que vos veja
no ano ũa vez d'um dia.
817
D. Dinis

D. Dinis

Senhor, Que Mal Vos Nembrades

Senhor, que mal vos nembrades
de quanto mal por vós levei
e levo, ben'o creades,
que, par Deus, já poder nom hei
de tam grave coita sofrer;
mais Deus vos leixe part'haver
da mui gram coita que mi dades.

E se Deus quer que hajades
parte da mia coita, bem sei,
pero m'ora desamades,
log'entom amado serei
de vós, e podedes saber
qual coita é de padecer
aquesta de que me matades.

E senhor, certa sejades
que des entom nom temerei
coita que mi dar possades,
e tod'o meu sem cobrarei
que mi vós fazedes perder;
e vós cobrades conhocer,
tanto que m'algum bem façades.
553
D. Dinis

D. Dinis

Senhor, Aquel Que Sempre Sofre Mal

Senhor, aquel que sempre sofre mal,
mentre mal há, nom sabe que é bem;
e o que sofre bem sempr', outro tal
do mal nom pode saber nulha rem;
por en querede, pois que eu, senhor,
por vós fui sempre de mal sofredor,
que algum tempo sábia que é bem.

Ca o bem, senhor, nom poss'eu saber
senom per vós, per que eu o mal sei;
des i o mal non'o posso perder
se per vós nom; e poilo bem nom hei,
quered'ora, senhor, vel por Deus já,
que em vós pôs quanto bem no mund'há,
que o bem sábia, pois que [o] nom sei.

Ca se nom souber algũa sazom
o bem por vós, por que eu mal sofri,
nom tenh'eu já i se morte nom
e vós perdedes mesura em mi;
por en querede, por Deus que vos deu
tam muito bem, que por vós sábia eu
o bem, senhor, por quanto mal sofri.
753
João Soares Coelho

João Soares Coelho

A158 Em grave dia

Em grave dia, senhor, que vos vi,
por mi e por quantos me querem bem!
E por Deus, senhor, que vos nom pês en!
E direi-vos quanto per vós perdi:
perdi o mund'e perdi-me com Deus,
e perdi-me com estes olhos meus,
e meus amigos perdem, senhor, mim.
  
E, mia senhor, mal dia eu naci
por tod'este mal que me por vós vem!
Ca per vós perdi tod'est'e o sem
e quisera morrer e nom morri;
ca me nom quiso Deus leixar morrer
por me fazer maior coita sofrer,
por muito mal que me lh'eu mereci.
  
Ena mia coita, pero vos pesar
seja, senhor, já quê vos falarei,
ca nom sei se me vos ar veerei:
tanto me vej'em mui gram coit'andar
que morrerei por vós, u nom jaz al.
Catade, senhor, nom vos éste mal,
ca polo meu nom vos venh'eu rogar.
  
E ar quero-vos ora conselhar,
per bõa fé, o melhor que eu sei
- metede mentes no que vos direi:
quem me vos assi vir desamparar
e morrer por vós, pois eu morto for,
tam bem vos dirá por mi "traedor"
come a mim por vós, se vos matar.
  
E de tal preço guarde-vos vós Deus,
senhor e lume destes olhos meus,
se vos vós en nom quiserdes guardar!
724
D. Dinis

D. Dinis

De Mi Valerdes Seria, Senhor

De mi valerdes seria, senhor,
mesura, por quant'há que vos servi;
mais pois vos praz de nom seer assi
e do mal hei de vós sempr'o peior,
veed'ora se seria melhor,
       como vos praz de me leixar morrer,
       de vos prazer de mi querer valer.

De mi valerdes, senhor, nulha rem
nom errades, pois vos sei tant'amar
como vos am'; e pois vos é pesar,
e sofr'eu mal de que moir', e por en
veed'agora se seria bem,
       como vos praz de me leixar morrer,
       de vos prazer de mi querer valer.

De mi valerdes era mui mester,
porque perço quanto vos [eu] direi:
o corp'e Deus; e nunca vos errei
e pero praz-vos do meu mal; mais er
veede se é bem, se vos prouguer,
       como vos praz de me leixar morrer,
       de vos prazer de mi querer valer.

De mi valerdes, Deus nom mi perdom,
se vós perdedes do vosso bom prez,
pois vos tant'am'; e por Deus que vos fez
valer mais de quantas no mundo som,
ve[e]d'agora se nom é razom,
       como vos praz de me leixar morrer,
       de vos prazer de mi querer valer.

E pois, senhor, em vós é o poder,
par Deus, quered'o melhor escolher.
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