Poemas

Amor Platónico

Poemas neste tema

Al Berto

Al Berto

Sabes por vezes queria beijar-te

sabes
por vezes queria beijar-te
sei que consentirias
mas se nos tivéssemos dado um ao outro ter-nos-íamos separado
porque os beijos apagam o desejo quando consentidos
foi melhor sabermos quanto nos queríamos
sem ousarmos sequer tocar nossos corpos
hoje tenho pena
parto com essa ferida
tenho pena de não ter percorrido teu corpo
como percorro os mapas com os dedos teria viajado em ti
do pescoço às mão da boca ao sexo
tenho pena de nunca ter murmurado teu nome no escuro
acordado
perto de ti as noites teriam sido de ouro
e as mãos teriam guardado o sabor de teu corpo.
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Robert Desnos

Robert Desnos

Se glisser dans ton ombre à la faveur de la nuit

Se glisser dans ton ombre à la faveur de la nuit

Suivre tes pas, ton ombre à la fenêtre.

Cette ombre à la fenêtre cest toi, ce nest pas une ombre, cest toi.

Nouvre pas cette fenêtre derrière les rideaux de laquelle tu bouges.

Ferme les yeux.

Je voudrais les fermer avec mes lèvres.

Mais la fenêtre souvre et le vent, le vent qui balance bizarrement la flamme et le drapeau entoure ma fuite de son manteau.

La fenêtre souvre : ce nest pas toi.

Je le savais bien.

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

ANÁLISE

Tão abstracta é a ideia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica melhor em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longamente,
E a ideia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.

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Heinrich Heine

Heinrich Heine

DU BIST WIE EINE BLUME

Tu és tal como uma flor,
Tão graciosa, e bela, e pura.
Contemplo-te, e uma tristeza
Ao coração me tritura.

Quisera pôr minhas mãos
Na tua fronte formosa,
Pedindo a Deus que te guarde
Tão pura, bela, e graciosa.

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Casimiro de Abreu

Casimiro de Abreu

Desejo

Desejo

Se eu soubesse que no mundo
Existia um coração,
Que só por mim palpitasse
De amor em terna expansão;
Do peito calara as mágoas,
Bem feliz eu era então!

Se essa mulher fosse linda
Como os anjos lindos são,
Se tivesse quinze anos,
Se fosse rosa em botão,
Se inda brincasse inocente
Descuidosa no gazão;

Se tivesse a tez morena,
Os olhos com expressão,
Negros, negros, que matassem,
Que morressem de paixão,
Impondo sempre tiranos
Um jugo de sedução;

Se as tranças fossem escuras,
Lá castanhas é que não,
E que caíssem formosas
Ao sopro da viração,
Sobre uns ombros torneados,
Em amável confusão;

Se a fronte pura e serena
Brilhasse dinspiração,
Se o tronco fosse flexível
Como a rama do chorão,
Se tivesse os lábios rubros,
Pé pequeno e linda mão;

Se a voz fosse harmoniosa
Como dharpa a vibração,
Suave como a da rola
Que geme na solidão,
Apaixonada e sentida
Como do bardo a canção;

E se o peito lhe ondulasse
Em suave ondulação,
Ocultando em brancas vestes
Na mais branda comoção
Tesouros de seios virgens,
Dois pomos de tentação;

E se essa mulher formosa
Que me aparece em visão,
Possuísse uma alma ardente,
Fosse de amor um vulcão;
Por ela tudo daria...
— A vida, o céu, a razão!

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D. Dinis

D. Dinis

Em Gram Coita, Senhor

Em gram coita, senhor,
que peior que mort'é,
vivo, per bõa fé;
e polo voss'amor
       esta coita sofr'eu
       por vós, senhor, que eu

vi polo meu gram mal;
e melhor mi será
de moirer por vós já;
e pois me Deus nom val,
       esta coita sofr'eu
       por vós, senhor, que eu

polo meu gram mal vi;
e mais mi val morrer
ca tal coita sofrer;
pois por meu mal assi
       esta coita sofr'eu
       por vós, senhor, que eu

vi por gram mal de mi,
pois tam coitad'and'eu.
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Manuel Botelho de Oliveira

Manuel Botelho de Oliveira

A Santa Maria Madalena aos Pés de Cristo

Soneto XCVII

Solicita, procura, reconhece,
com desvelo, com ânsia, com ventura,
sem temor, sem soberba, sem loucura,
a quem ama, a quem crê, por quem padece.

Ajoelha-se, chora, se enternece,
com pranto, com afeto, com ternura,
e se foi indiscreta, falsa, impura,
despe o mal, veste a graça, o bem conhece.

A seu Mestre, a seu Deus, a seu querido,
rega os pés, ais derrama, geme logo,
sem melindre, sem medo, sem sentido.

Por assombro, por fé, por desafogo,
nos seus olhos, na boca, no gemido,
água brota, ar respira, exala fogo.


In: OLIVEIRA, Manuel Botelho de. Lira sacra. Leitura paleográfica Heitor Martins. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1971. (Textos e documentos, 21)
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Florbela Espanca

Florbela Espanca

Quem?...

Não sei quem és. Já te não vejo bem...
E oiço-me dizer (ai, tanta vez!...)
Sonho que um outro sonho me desfez?
Fantasma de que amor? Sombra de quem?

Névoa? Quimera? Fumo? Donde vem?...
— Não sei se tu, Amor, assim me vês!...
Nossos olhos não são-nossos, talvez...
Assim, tu não és tu! Não és ninguém!...

És tudo e não és nada... És a desgraça...
És quem nem sequer vejo; és um que passa...
És sorriso de Deus que não-mereço...

És Aquele que vive e que morreu...
És Aquele que é quase um outro Eu...
És Aquele que nem sequer conheço...

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Florbela Espanca

Florbela Espanca

Mentira

Andava a procurar-te, ó doce Irmão!
E foi esta talvez a minha-sina:
Ter pra te dar minh’alma, alma divina,
E encontrar-te... e tudo ser em vão...

Dementa-me, alucina-me a expressão,
A linha altiva, desdenhosa e fina,
Romântica, perversa e feminina
Dessa boca que é sonho e perfeição.

Mas nem-um beijo quero, ó meu Amor!
Tu sabes lá amar seja quem for!...
Tu podes lá sentir amor, sequer!...

A minha boca em tua boca expira,
— Mas tudo é sonho, Amor! Tudo é mentira!
É mentira o que eu digo... Eu sou mulher!...

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

4 - SPELL

SPELL

From the moonlit brink of dreams
I stretch foiled hands to thee,
O borne down other streams
Than eye can think to see!
O crowned with spirit beams!
O veiled spirituality!

My dreams and thoughts abate
Their pennons at thy feet.
O angel born too late
For fallen man to meet!
In what new sensual state
Could our twined lives feel sweet?

What new emotion must
I dream to think thee mine?
What purity of lust?
O tendrilled as a vine
Around my caressed trust!
O dream-pressed spirit-wine!
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Antinoos

Sob o peso nocturno dos cabelos
Ou sob a lua diurna do teu ombro
Procurei a ordem intacta do mundo
A palavra não ouvida

Longamente sob o fogo ou sob o vidro
Procurei no teu rosto
A revelação dos deuses que não sei

Porém passaste através de mim
Como passamos através da sombra
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Há Jardins Invadidos de Luar

Há jardins invadidos de luar
Que vibram no silêncio como liras.
Segura o teu amor entre os teus dedos
Neste jardim de Abril em que respiras.

A vida não virá — as tuas mãos
Não podem colher noutras a doçura
Das flores baloiçando ao vento leve.

Fosse o teu corpo feito de luar,
Fosses tu o jardim cheio de lagos,
As árvores em flor, a profusão
Da sua sombra negra nos caminhos.
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Carlos Anísio Melhor

Carlos Anísio Melhor

Ode

Breves encontros
Contatos Leves
Não chegaram
com
ter
tua presença.

Mas é certeza solar
Que contém os fragmentos
por entre as horas e as horas
— Espaço aberto no tempo
Que tu existes aqui
Do teu múltiplo olhar.

E o mais
é
sentimento
Que esboça
Retrato
impresso
No ar.

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Jardim Perdido

Jardim perdido, a grande maravilha
Pela qual eternamente em mim
A tua face se ergue e brilha
Foi esse teu poder de não ter fim,
Nem tempo, nem lugar e não ter nome.

Sempre me abandonaste à beira duma fome.
As coisas nas tuas linhas oferecidas
Sempre ao meu encontro vieram já perdidas.

Em cada um dos teus gestos sonhava
Um caminho de estranhas perspectivas,
E cada flor no vento desdobrava
Um tumulto de danças fugitivas.

Os sons, os gestos, os motivos humanos
Passaram em redor sem te tocar,
E só os deuses vieram habitar
No vazio infinito dos teus planos.
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Julieta Lima

Julieta Lima

Ninguém vai saber

Ninguém vai saber
Do meu segredo.
Tenho um amante
Belo como Deus
E todo nu
Aqui deitado ao meu lado!
Seus beijos são azuis
E a sua voz vermelha como o lume!
Tenho um amante só meu
E ninguém vai saber,
Ninguém mo vai roubar,
Porque ele é meu, só meu:
É feito de poemas e de fumo...

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A ti eu canto

A ti eu canto e a mais ninguém,

Principe estranho por quem

Chamam as horas obscuras de delírio.

Senhor dos bailados, negro lírio

A ti eu canto e a mais ninguém.


Misto de ideal e lixo,

Semideus e semebicho

Fabuloso, mágico e lendário

E mais real do que as vozes da rua,

Em tudo a ti próprio contrário.


A tua luz é um sol escuro

E a tua sombra sempre da luz ao lado

Éo céu mais negro e mais sem lua

Mas o mais constelado.


E a ti eu canto e a mais ninguém,

Príncipe estranho, senhor dos bailados,

À luz dos lumes apagados.



Sophia de Mello Breyner Andresen | "Dia do mar", pág. 30 | Edições Ática, 1974

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Marly de Oliveira

Marly de Oliveira

Parecia um pássaro

Parecia um pássaro, um frêmito
de folha, uma líbélula,
uma coisa evanescente
e volátil:
não era nada, um pensamento / de amor? /
que se ensaiou na sombra
e desapareceu qual rã.

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Felicidade

Pela flor pelo vento pelo fogo
Pela estrela da noite tão límpida e serena
Pelo nácar do tempo pelo cipreste agudo
Pelo amor sem ironia — por tudo
Que atentamente esperamos
Reconheci tua presença incerta
Tua presença fantástica e liberta
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Mirella Márcia

Mirella Márcia

Primeiro Soneto

(À lembrança de Carlos Eduardo)
Meu amor que ainda não me viu
É um lago profundo onde eu vejo
Um mago que espelha em seu perfil
As águas que refletem meu desejo.

Meu amor que tanto eu procurei
Me procura hoje em seu delírio
E sábio de rotas que eu não sei
Ignora todo o meu martírio.

Meu amor que me pesquisa há tanto
Irá cansar-se e aforgar-se em pranto
Pois não suporta mais andar a esmo

E na própria lágrima com espanto
Vai encontrar as fontes do seu canto
Desligado de mim, fato em si mesmo.

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Pedro Homem de Mello

Pedro Homem de Mello

Obrigado

Por teu sorriso anônimo, discreto,
(O meu país é um reino sossegado...)

Pela ausência da carne em teu afeto,
Obrigado!

Pelo perdão que o teu olhar resume,
Por tua formosura sem pecado,
Por teu amor sem ódio e sem ciúme,
Obrigado!

Por no jardim da noite, a horas más,
A tua aparição não ter faltado,
Pelo teu braço de silêncio e paz,
Obrigado!

Por não passar um dia em que eu não diga
— Existo, sem futuro e sem passado.
Por toda a sonolência que me abriga...
Obrigado!

E tu, que hoje és meu íntimo contraste,
Ó mão que beijo por me haver cegado!
Ai! Pelo sonho intato que salvaste,
Obrigado! Obrigado! Obrigado!

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Quem És Tu Que Assim Vens Pela Noite Adiante

Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?

A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.

A história da noite é o gesto dos teus braços,
O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas.
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Alfonsina Storni

Alfonsina Storni

Sou essa flor

Tua vida é um grande rio, vai caudalosamente,
a sua beira, invisível, eu broto docemente.
Sou essa flor perdida entre juncos e achiras
que piedoso alimentas, mas acaso nem olhas.

Quando cresces me levas e morro em teu seio,
quando secas morro pouco a pouco no lodo;
Mas de novo volto a brotar docemente
quando nos dias belos vais caudalosamente.

Sou essa flor perdida que brota nas tuas margens
humilde e silenciosa todas as primaveras.

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Luis Romano

Luis Romano

Vida

A crioula que meus olhos beijaram a medo
predeu-se na confusão de um porto francês

Ela sorria continuamente, erguendo no seu riso uma cançaão extraordinária.

Não foi um romance de amor
nem mesmo um pequeno segredo entre ambos.

Somente, quando Ela falava ao pé de mim, eu sentia:
um aprazível devaneio
pela maravilha escultural duma Mulher Perfeita.

Depois,
a Vida separando Nós-Dois
a confusão, os ruidos, os braços agitando-se
e o vapor levando para outros mares,
outros portos,
a graça, o mistério, o perfume e os cantares
da crioula que meus olhos beijaram a medo
no tombadilho daquele vapor francês.
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Emílio de Menezes

Emílio de Menezes

Tuas Tranças

A'...

Tudo o que eu vejo, me rodeia e fala,
Desde o arrulo das pombinhas mansas
Até dos sinos o tanger monótono,
Venham falar-me de tuas longas tranças...

Ai quantas noites em que o luar flutua
E a brisa geme dos pinheirais nas franças...
Eu vou sozinho, soluçando a medo
Beijar a sobra de tuas negras tranças

Ai... a lembrança dessa noite infinda
Em que voavas na rapidez da valsa
Deixou minh'alma retalhada em dores
Presa nos elos que essa trança enlaça;

É que inda hoje eu conservo intactas
As doces frases do valsar em meio
É que inda agora julgo estar sentindo
Arfar teu seio em delirante anseio;

O doce hálito que exalavas rindo
As meigas falas... o teu sorrir de então
Ai... tudo... tudo para mim recorda
Louca esperança que alimentava em vão.

É que eu nutria essa esperança frívola,
Falsa quimera que se esvai e finda,
É que eu te adoro, te venero, santa
E curto em silêncio essa dor infinda

Por isso eu hei de como sempre amar-te
Preso nas chamas que do ar tu lanças
Dizer-te, sabes o que eu desejo, louco?
— Morrer envolto nas tuas negras tranças.

Dezenove de Dezembro, Curitiba, 28 mar. 1886. p. 3.


In: MENEZES, Emílio de. Obra reunida: Poemas da Morte, Poesias, Últimas Rimas, Mortalhas, Esparsos e Inéditos. Org. Cassiana Lacerda Carollo. Rio de Janeiro: J. Olympio; Curitiba: Secretaria da Cultura e do Esporte do Estado, 1980. Poema integrante da série Esparsos e Inéditos
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