Amor Platónico
Ricardo Moraes Ferreira
Soneto em Sonho
bosque viçoso que douro se enchia
Um céu de esmeralda espelhava o semblante
Da deusa Diana que em plumas dormia
Passeavas desfilando galhardias
Seduzindo a natureza esplendorosa
E a lua que outrora então dormia
Se oferece - nua, branca, indecorosa.
Raios brancos tosam nuvens espaçadas
Conduzindo à nau estrelas naufragadas
Qual um tolo te adoro e não reparo
Seus olhares que por mim tão distraídos
Belas flores em jardins imaginários,
Verdes olhos - firmamento esquecidos.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Partida
Como uma flor incerta entre os teus dedos
Há harmonia de um bailar sem fim,
E tens o silêncio indizível dum jardim
Invadido de luar e de segredos.
II
Nas tuas mãos trazias o meu mundo.
Para mim dos teus gestos escorriam
Estrelas infinitas, mar sem fundo
E nos teus olhos os mitos principiam.
Em ti eu conheci jardins distantes
E disseste-me a vida dos rochedos
E juntos penetrámos nos segredos
Das vozes dos silêncios dos instantes.
III
Os teus olhos são lagos e são fontes,
E em todo o teu ser existe
O sonho grave, nítido e triste
De uma paisagem de pinhais e montes.
Na tua voz as palavras são nocturnas
E todas as coisas graves, grandes, taciturnas
A ti são semelhantes.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Abril
Mais leve do que a dança
Como seguindo o sonho que balança
Através das ramagens inspiradas.
E o jardim tremeu,
Pálido de esperança.
Nauro Machado
A Rosa Total
ilusão do gesto,
a presença que se desfaz,
para florescer de novo
sobre o inexaurível nada.
Amo, como debalde quero,
apenas o odor do ser:
essa presença, breve e etérea,
logo restrita á eternidade.
Armindo Trevisan
Uma Mulher
olhos escondidos
no meio das pedras.
Ali o regato
brota de cerejas envelhecidas.
Suas mãos apanham o ar.
Caminha de leve
sobre as palavras.
É exata.
Ninguém lhe adivinha a nudez.
Muitos, muitos a amam.
a ninguém deu o amor.
Em seu corpo ela permanece,
a alma lhe exige um corpo tão diferente
que não sabe onde esperá-lo.
Armindo Trevisan
Amor é Teu
Amor é
teu olhar que sobe
E desce torna a subir ao ramo
Desce ao poço detém-se
Na água porque a sede avança
E torna a subir em carícia
Pelo braço compraz-se
Em resvalar pelo declive
Do corpo em balanço
Como o movimento de um
Pêndulo e assim nunca
Sabes se o caminho
para ele é ascensão
ou simplesmente espera
sobre um trilho de pedras
mais do que uma ideia
sentimento porque
o subir e o descer crescem
na viagem indiferentes
ao amor até que a ames
como se nunca a tivesses
conhecido somente
fora do teu alcance.
Sérgio Mattos
A Musa
sem nenhum disfarce,
eu a vi cheia de graça.
Lúcio José Gusman
Obsessão
mora nos teus olhos
e me fita atentamente.
Quando moves as pupilas
e semicerras as pálpebras,
vejo-a
num espiral frenético
a me chamar e enfeitiçar.
Uma borboleta linda
mora nos teus olhos
e me fita atentamente.
E eu fico a contemplá-la
extasiado, mudo e triste,
com vontade de acompanhá-la.
Uma borboleta linda
mora nos teus olhos
e me fita atentamente.
E eu fico a contemplá-la,
extasiado, mudo e triste,
sem poder acompanhar-lhe o vôo.
Uma borboleta linda
mora nos teus olhos.
Uma borboleta linda...
linda... linda...
Florbela Espanca
Súplica
Quando ele passa:
Ave-Maria
Cheia de graça!
E quando ainda
Mal posso vê-lo:
Bendito Deus
Como ele é belo!
Embalada num sonho aurifulgente
Sei apenas que sonho vagamente,
Ao avistar, amor, teus olhos belos,
Em castelãs altivas, medievais,
Que choram às janelas ogivais,
Perdidas em românticos castelos!
Mário Hélio
22-II(Poema para ayer)
grandes e dois
uma lâmpada de neon
fonte estranha e incompreendida
ponte achada e para sempre perdida
como um matagal de idéias incontaminadas
por isso incompreendidas
por um grito maior que a própria voz
por isso inaudível
por um amor sem nomes nem partidos
por isso tolo e desinteressante
por um grande mistério claro e simples
por isso profundo e sem sentido
Florbela Espanca
Anda o luar
Cantando urna canção ás doces águas...
Assim eu ando á tua imagem doce
Cantando a oração das minhas mágoas...
Adalgisa Nery
Escultura
Pelo teu ar triste e decadente dos vencidos,
Pelo teu olhar vago e incerto
Como o dos que não pararam no riso e na alegria.
Te amava por todos os teus complexos de derrota,
Pelo teu jeito contrastando com a glória dos atletas
E até pela indecisão dos teus gestos sem pressa.
Te falei um dia fora da fotografia
Te amei com a mesma ternura
Que há num carinho rodeado de silêncio
E não sentiste quantas vezes
Minhas mãos usaram meu pensamento,
Afagando teus cabelos num êxtase imenso.
E assim te amo, vendo em tua forma e teu olhar
Toda uma existência trabalhada pela força e pela angústia
Que a verdade da vida sempre pede
E que interminavelmente tens que dar!...
(Adalgisa Nery)
Amália Bautista
Os meus melhores desejos
Que a vida te pareça suportável.
Que a culpa não afogue a esperança.
Que não te rendas nunca.
Que o caminho que sigas seja sempre escolhido entre dois pelo menos.
Que te interesse a vida tanto como tu a ela.
Que não te apanhe o vício de prolongar as despedidas.
E que o peso da terra seja leve sobre os teus pobres ossos.
Que a tua recordação ponha lágrimas nos olhos de quem nunca te disse que te amava.
Jorge Luis Borges
Baruch Spinoza
la ventana. El asiduo manuscrito
aguarda, ya cargado de infinito.
Alguien construye a Dios en la penumbra.
Un hombre engendra a Dios. Es un judío
de tristes ojos y de piel cetrina;
lo lleva el tiempo como lleva el río
una hoja en el agua que declina.
No importa. El hechicero insiste y labra
a Dios con geometría delicada;
desde su enfermedad, desde su nada,
sigue erigiendo a Dios con la palabra.
El más pródigo amor le fue otorgado,
el amor que no espera ser amado.
Jorge Luis Borges | "Poesía Completa", pág. 461 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Carlos Drummond de Andrade
Aspiração
de amar.
Quando alcançaremos
o limite, o ápice
de perfeição,
que é nunca mais morrer,
nunca mais viver
duas vidas em uma,
e só o amor governe
todo além, todo fora de nós mesmos?
O absoluto amor,
revel à condição de carne e alma.
Eugénia Tabosa
Paris
o corpo solto
quase displicente
à volta do rosto
cabelos dourados
pelo sol poente.
Imaginei-te nu
qual estátua viva
apenas saída
do museu em frente.
E ali fiquei parada
no banco da praça
olhando esquecida
de encobrir o olhar.
E fui te despindo
sonhando acordada
sem me perguntar
de tua vontade…
Passaste sorrindo
atrasando o andar,
como se estiveras
num espelho a entrar.
Fernando Pessoa
Tem a filha da caseira
Rosas na caixa que tem.
Toda ela é uma rosa inteira
Mas não a cheira ninguém.
António Ramos Rosa
Agora És Mesmo Tu… (Se Eu o Dissesse?)
Mas quanto mais real te invoco,
sei bem que te construo em vão.
Ó falha inexorável, tu, sim, és bem real.
E o banal clamor é frio, os outros todos,
no alheio de o serem, e a própria vida
de si ignorante, perdida, sem cavalo.
— Mas que força, de súbito, o proclama?
Só minha vontade te constrói. Se fosses tu,
ah, se fosses tu, cavalo, mulher ou sonho,
a terra mais real sob as estrelas frias!
Fernando Pessoa
Moreninha, moreninha,
Com olhos pretos a rir.
Sei que nunca serás minha,
Mas quero ver-te sorrir.
Fernando Pessoa
Não sei que flores te dar
Para os dias da semana.
Tens tanta sombra no olhar
Que o teu olhar sempre engana.
Fernando Pessoa
Loura dos olhos dormentes,
Que são azuis e amarelos,
Se as minhas mãos fossem pentes,
Penteavam-te os cabelos.
Amália Bautista
Nu de mulher
Para ti nunca passei de um bloco
de mármore. Esculpiste nele o meu corpo,
um corpo de mulher branco e formoso,
em que não viste nada a não ser pedra
e o orgulho, isso sim, do teu trabalho.
Nunca imaginaste que eu te amava
e que tremia quando, docemente,
me modelavas os seios e os ombros,
ou alisavas as coxas e o ventre.
Hoje, estou num jardim, onde suporto
os rigores do frio pelo Inverno,
e no Verão aqueço de tal modo
que nem sequer os pardalitos vêm
pousar nas minhas mãos pois estas queimam.
Mas, de tudo isto, o que mais me dói
é baixar a cabeça e ver a placa:
”Nu de mulher”, como há tantas outras.
Nem te lembraste de me dar um nome.
Fernando Pessoa
45 - THE LOOPHOLE
For when thou call'st I am with thee.
When I think of thee, within me
Thyself art, and thy thought self’s all.
Thy presence is thy absence drest
In thy body that hides thy soul.
Tis in me that thou art possessed,
'Tis in my thoughts that thou art whole.
Outside thee, given to time and space,
Thy body, thy mere loss to me,
Partakes of change and age and place?
Belongs to other laws than thee.
In my dream of thee nothing changes
Thyself to other than thou art.
Thy corporal presence is that part
Of thee that thee from thee estranges.
Therefore call me, but await not.
Thy voice, summed to my dreaming thee,
Shall put new beauty on that thought
Of thy body that dwells in me.
Thy voice heard from afar shall bring
Nearer to me thy presence dreamed.
Brighter and clearer than it seemed
It grow'th in my imagining.
Then call no more. Thy voice twice heard
Along the real space would be
Too near now to reality.
Thy second voice were thy first blurred.
Call me but once. I close mine eyes
And let the second call be dreamed,
Thy body's vision lightly gleamed
On my seeing memory of thy cries.
The rest, eyes shut lest thou appear.
Shall be thy clear continuance
In my dream's constancy askance.
Keep far, keep silent, come not here,
For thou wouldst come too near for sight
And out of my thoughts step to thee,
Putting on thy dreamed body in me
(Thy body's form‑dream infinite)
Thy limit, visibility.
Amália Bautista
Dream a little dream of me
Convida-me para o teu sonho,
deixa-me partilhar esse filme
onde o tempo é disforme e o desejo se cumpre.
Sonha um pouco comigo e eu prometo
ser a mulher perfeita
para ti, enquanto viveres de olhos fechados.
Hei-de beijar-te com lábios de cereja,
misturar sabiamente paixão e ternura
e quando vier a aurora partirei sem fazer barulho.