Poemas neste tema

Amor Platónico

Fernão Garcia Esgaravunha

Fernão Garcia Esgaravunha

N?Um Conselho, Senhor, Nom Me Sei

Nẽum conselho, senhor, nom me sei
a esta coita que me faz haver
esse vosso fremoso parecer;
e pois aqui tamanha coita hei
       u vos vejo, fremosa mia senhor,
       que farei já des que m'eu daqui for?

E perdud'hei o dormir e o sem
perderei ced', aquant'é meu coidar,
que nom sei i conselho que filhar;
e pois mi aqui tamanha coita vem,
       u vos vejo, fremosa mia senhor,
       que farei já des que m'eu daqui for?

E nunca eu tamanha coita vi
haver a home, si Deus me perdom,
aqual hoj'eu hei no meu coraçom
por vós; e pois tal coita hei aqui
       u vos vejo, fremosa mia senhor,
       que farei já des que m'eu daqui for?
610
Nuno Fernandes Torneol

Nuno Fernandes Torneol

Quer'eu a Deus Rogar de Coraçom

Quer'eu a Deus rogar de coraçom,
com'home que é coitado d'amor,
que El me leixe veer mia senhor
mui ced'; e se m'El nom quiser oir,
logo lh'eu querrei outra rem pedir:
       que me nom leixe no mundo viver!

E se m'El há de fazer algum bem,
oir-mi-á 'questo que Lh'eu rogarei
e mostrar-mi-á quanto bem no mund'hei.
E se mi o El nom quiser amostrar,
logo Lh'eu outra rem querrei rogar:
       que me nom leixe no mundo viver!

E se m'El amostrar a mia senhor,
que am'eu mais ca o meu coraçom,
vedes o que Lhe rogarei entom:
que me dê seu bem, que m'é mui mester;
e rogá'-Lh'-ei que, se o nom fezer,
       que me nom leixe no mundo viver!

E rogá'-Lh'-ei, se me bem há fazer,
que El me leixe viver em logar
u a veja e lhe possa falar,
por quanta coita me por ela deu;
senom, vedes que Lhe rogarei eu:
       que me nom leixe no mundo viver!
635
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Teus olhos de quem não fita

Teus olhos de quem não fita
Vagueiam, estão na distância.
Se fosses menos bonita,
Isso não tinha importância.
1 310
Nuno Fernandes Torneol

Nuno Fernandes Torneol

Ai Eu! E de Mim Que Será?

Ai eu! e de mim que será?
Que fui tal dona querer bem
a que nom ouso dizer rem
de quanto mal me faz haver!
E feze-a Deus parecer
melhor de quantas no mund'há!

Mais em grave dia naci,
se Deus conselho nom mi der;
ca destas coitas qual xe quer
m'é-mi mui grave d'endurar:
como nom lh'ousar a falar
e ela parecer assi.

Ela, que Deus fez por meu mal!
Ca já lh'eu sempre bem querrei
e nunca end'atenderei
com que folg'o meu coraçom,
que foi trist', há i gram sazom,
polo seu bem, ca nom por al.
1 265
Nuno Fernandes Torneol

Nuno Fernandes Torneol

Preguntam-Me Por Que Ando Sandeu

Preguntam-me por que ando sandeu,
e nom lhe'lo quer'eu já mais negar;
e pois me deles nom poss'amparar,
nem me leixam encobrir com meu mal,
direi-lhes eu a verdad'e nom al:
       direi-lhes ca ensandeci
       pola melhor dona que vi.

Nem mais fremosa, lhes direi, de pram,
(ca lhes nom quero negar nulha rem
de mia fazenda – ca lhes quero bem),
nem pola que hoj'eu sei mais de prez.
E se m'ar preguntarem outra vez,
       direi-lhes ca ensandeci
       pola melhor dona que vi.

E Deu'lo sabe quam grav'a mi é
de lhes dizer o que sempre neguei;
mais pois me coitam, dizer-lhe-la-ei
a meus amigos, e a outros nom,
mui gram verdade, si Deus mi perdom!:
       direi-lhes ca ensandeci
       pola melhor dona que vi.

E se a eles virem, creerám
ca lhes dig'eu verdade, u al nom há,
e leixar-m'-am de me preguntar já;
e se o nom ar quiserem fazer,
querê'-lhes-ei a verdade dizer:
       direi-lhes ca ensandeci
       pola melhor dona que vi.
713
Nuno Fernandes Torneol

Nuno Fernandes Torneol

Pois Naci Nunca Vi Amor

Pois naci nunca vi Amor
e ouço del sempre falar;
pero sei que me quer matar,
mais rogarei a mia senhor:
       que me mostr'aquel matador,
       ou que m'ampare del melhor.

Pero nunca lh'eu fige rem
por que m'el haja de matar,
mais quer'eu mia senhor rogar,
pola gram coit'em que me tem:
       que me mostr'aquel matador,
       ou que m'ampare del melhor!

Nunca me lh'eu ampararei,
se m'ela del nom amparar;
mais quer'eu mia senhor rogar,
polo gram medo que del hei:
       que mi amostr'aquel matador,
       ou que mi ampare del melhor.

E pois Amor há sobre mi
de me matar tam gram poder
e eu non'o posso veer,
rogarei mia senhor assi:
       que mi amostr'aquel matador,
       ou que m'ampare del melhor.
485
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Todos te dizem que és linda.

Todos te dizem que és linda.
Todos to dizem a sério.
Como o não sabes ainda
Agradecer é mistério.
1 451
Pero da Ponte

Pero da Ponte

Senhor do Corpo Delgado

Senhor do corpo delgado,
       em forte pont'eu fui nado
que nunca perdi coidado
nem afã, des que vos vi:
       em forte pont'eu fui nado
       senhor, por vós e por mi!

Com est'afã tam longado,
       em forte pont'eu fui nado,
que vos amo sem meu grado
e faç'a vós pesar i:
       em forte pont'eu fui nado,
       senhor, por vós e por mi!

Ai eu, cativ'e coitado,
       em forte pont'eu fui nado!,
que servi sempr'endõado
ond'um bem nunca prendi:
       em forte pont'eu fui nado,
       senhor, por vós e por mi!
643
Pero da Ponte

Pero da Ponte

A Mia Senhor, Que Eu Mais Doutra Rem

A mia senhor, que eu mais doutra rem
desejei sempr'e amei e servi,
que nom soía dar nada por mi,
preito me trage de me fazer bem:
       ca meu bem é d'eu por ela morrer,
       ante ca sempr'em tal coita viver.

Em qual coita me seus desejos dam
tod'a sazom! Mais, des agora já,
por quanto mal me faz, bem me fará,
ca morrerei e perderei afã:
       ca meu bem é d'eu por ela morrer,
       ante ca sempr'em tal coita viver.

E quanto mal eu por ela levei,
ora mi o cobrarei, se Deus quiser;
ca, pois eu por ela morte preser,
nom mi dirám que dela bem nom hei:
       ca meu bem é d'eu por ela morrer,
       ante ca sempr'em tal coita viver.

Tal sazom foi que me tev'em desdém,
quando me mais forçava seu amor;
e ora, mal que pês a mia senhor,
bem me fará e mal grad'haja en:
       ca meu bem é d'eu por ela morrer,
       ante ca sempr'em tal coita viver.
541
Affonso Romano de Sant'Anna

Affonso Romano de Sant'Anna

A Bela do Avião

Mereço tocar em teus cabelos,
loira e anelada mulher
que não me conheces
e estás sentada a dois metros de mim neste avião.
Te contemplo com intimidade. Sei
teus contornos e perfumes.
Reclinas teu assento para dormir
e fechados os olhos viajas
para alguém que te espera, ou não,
sem saber que eu merecia tocar em teus cabelos,
em tua boca perfeita,
teu sublime nariz,
sem saber que conheço teu corpo
com uma intimidade absoluta.
Estou te vendo, com extremado pudor,
em peças íntimas no quarto,
sei da ponta de teus seios
e do grito que lanças ao gozar.
Como deve ser importuno
carregar continuamente
essa beleza
publicamente cobiçada!
Poderia te falar
mas te sentirias imediatamente punida
por seres linda.
Vai, colhe poemas, cobiças e suspiros
à tua passagem,
pois carregas o fastio da beleza
esse ornamento difícil de ostentar.
Nunca saberás que um poeta
assim te contemplou.
Nunca saberás que estás aqui descrita.
Nunca poderás te valer destes meus versos,
quando, sendo bela, chorares como as feias
e aviltada quiseres morrer
na hora da traição.
1 166
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Bem sei que ela era a Rainha.

Bem sei que ela era a Rainha.
Tantas vezes a sonhei
Que julguei até que a tinha
Com quanto a imaginei…

Porque a gente, por pensar,
Talvez que pode querer,
Até sentir que sonhar
É pensar sem poder ter.

Bem sei. Mas era a Rainha
E não abdico encontrá-la.
Faltam-me o ser ela minha
E as condições e a sala.
1 750
José Bonifácio de Andrada e Silva

José Bonifácio de Andrada e Silva

Sonetos

Eu vi Narcina um dia, que folgava
Na fresca borda de uma fonte clara:
Os peitos, em que Amor brinca e se ampara,
Com aljofradas gotas borrifava.

O colo de alabastro nu mostrava
A meu desejo ardente a incauta avara.
Com ponteagudas setas, que ela ervara,
Bando de Cupidinhos revoava.

Parte da linda coxa regaçado
O cândido vestido descobria;
Mas o templo de amor ficou cerrado:

Assim eu vi Narcina. — Outra não cria
O poder da Natura, já cansado;
E se a pode fazer, que a faça um dia.


Publicado no livro Poesias Avulsas de Américo Elísio (1825).

In: BONIFÁCIO, José. Poesias. Edição fac-similar da principe, de 1825, extremamente rara; com as poesias ajuntadas na edição de 1861, muito rara; com uma contribuição inédita. Rio de Janeiro: Publicações da Academia Brasileira, 1942. p.77. (Coleção Afrânio Peixoto
1 636
Pero da Ponte

Pero da Ponte

Dom Garcia Martiins, Saber

- Dom Garcia Martĩins, saber
queria de vós ũa rem:
de quem dona quer m[u]i gram bem
e lhi rem nom ousa dizer
com medo que lhi pesará
e non'o possa mais sofrer,
dizede-mi se lho dirá,
ou que mandades i fazer.

- Pero de Ponte, responder
vos quer'eu e dizer meu sem:
se ela pode, per alguém,
o bem que lh'el quer, aprender,
sol nom lho diga; mais se já
por al non'o pod'entender,
este pesar dizer-lho-á,
e pois servir e atender.

- Dom Garcia, como direi,
a quem sempr'[a]mei e servi,
atal pesar, por que des i
perça quanto bem no mund'hei:
de a veer e de lhi falar?
Ca sol viver nom poderei,
pois m'ela de si alongar.
E desto julgue-nos el-rei.

- Pero de Ponte, julgar-m'-ei
ant'el-rei vosc'e dig'assi:
pois que per outrem, nem per mi,
mia coita nom sabe, querrei
dizê-la; e se s'en queixar,
atam muito a servirei;
que, per servir, cuid'acabar
quanto bem sempre desejei.

- Dom Garcia, nom poss'osmar
com'o diga, nen'o direi;
a que[m] servi sempr'e amei,
como direi tam gram pesar?

- Pero de Ponte, se m'ampar
Deus, praz-mi que nos julgu'el-rei.
687
Airas Nunes

Airas Nunes

Nostro Senhor! E Por Que Foi Veer

Nostro Senhor! e por que foi veer
ũa dona que eu quero gram bem
e querrei sempre já mentr'eu viver,
e que me faz por si perder o sem?
Pero ela faça quanto quiser
contra mim, já, pero me bem nom quer,
nom leixarei de a servir por en.

[...]
772
Bernardo Bonaval

Bernardo Bonaval

Senhor Fremosa, Pois Assi Deus Quer

Senhor fremosa, pois assi Deus quer
que já eu sempre no meu coraçom
deseje de vós bem e d'alhur nom,
rogar-vos-ei, por Deus, se vos prouguer,
       que vos nom pês de vos eu muit'amar,
       pois que vos nom ouso por al rogar.

E já que eu sempr'a desejar hei
o vosso bem e nom cuid'a perder
coita, senom per vós ou per morrer,
por Deus, oíde-m': e rogar-vos-ei
       que vos nom pês de vos eu muit'amar,
       pois que vos nom ouso por al rogar.

E pois m'assi tem em poder Amor,
que me nom quer leixar per nulha rem
partir de vos já sempre querer bem,
rogar-vos quero, por Deus, mia senhor,
       que vos nom pês de vos eu muit'amar,
       pois que vos nom ouso por al rogar.
802
Bernardo Bonaval

Bernardo Bonaval

Ai Deus! E Quem Mi Tolherá

Ai Deus! e quem mi tolherá
gram coita do meu coraçom
no mundo, pois mia senhor nom
quer que eu perça coita já?
E direi-vos como nom quer:
leixa-me, sem seu bem, viver
coitad'; e se mi nom valer
ela, que mi pode valer,

no mund'outra cousa nom há
que me coita nulha sazom
tolha, se Deus ou morte nom,
ou mia senhor, que nom querrá
tolher-ma. E pois eu hoer
por mia senhor mort'a prender,
Deus, meu Senhor, se lhi prouguer,
mi a leix'ant'ũa vez veer.

E se mi Deus quiser fazer
este bem, que m'é mui mester,
de a veer, pois eu poder
veer o seu bom parecer,
por en gram bem mi per fará
– se m'El mostrar ũa razom,
de quantas end'eu cuid'acá
a dizer, que lhi diga entom.
797
Bernardo Bonaval

Bernardo Bonaval

Pero Me Vós Dizedes, Mia Senhor,

Pero me vós dizedes, mia senhor,
que nunca per vós perderei
a mui gram coita que eu por vós hei,
entanto com'eu vivo for,
al cuid'eu de vós e d'Amor:
       que mi haveredes mui ced'a tolher
       quanta coita me fazedes haver.

E, mia senhor, ũa rem vos direi,
[por] nom estar de vós melhor:
quant'eu houver por vós coita maior,
tanto me mais aficarei
[...........................]
       que mi haveredes mui ced'a tolher
       quanta coita me fazedes haver.
786
Fontoura Xavier

Fontoura Xavier

Loura e Branca

I

Loura e branca, de lírio na brancura
Parece filha dum pincel divino!...
A gente, ao vê-la, lembra-se de Urbino
Tem ímpetos de pôr-lhe uma moldura.

Um garbo de velhice prematura
Nevou de leve a coma d'ouro fino...
Meneio e gesto lânguido e felino.
Firme e correta a linha da cintura.

Não sei quem fez daquilo um ser humano!
Sanzio, juntando um resplendor de aurora,
Faria a estância de seu gênio ufano!

Dante... não sei o que faria agora:
Mas Virgílio se a visse, o Mantuano
Fazia a Deusa que minh'alma adora!...

II

Eleva-me, arrebata-me os sentidos
Se a vejo ou se a contemplo um só momento!
De seu passo o mais leve movimento
Ecoa como um canto em meus ouvidos.

Ouço-lhe as formas, num deslumbramento,
A sonata do belo; e nos rugidos
Da cambraia e do linho dos vestidos
Vibram acordes de acompanhamento.

Todo seu corpo musical e adornos,
Na cadência dum ritmo que embala,
Estrugem na harmonia dos contornos!...

Caminha! — e o canto uníssono trescala,
Como por noites de langores mornos,
Toda a volúpia dum luar de opala!...


In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.75-76. Poema integrante da série Ruínas.

NOTA: Urbino = cidade natal do pintor italiano Rafael Sanzi
1 011
Bernardo Bonaval

Bernardo Bonaval

Pero Vejo Donas Mui Bem Parecer

Pero vejo donas mui bem parecer
e falar bem e fremoso catar,
nom poss'eu por esto desejos perder
da que mi Deus nom houver'a mostrar
u mi a mostrou por meu mal. Ca des i
nunc'ar fui led'e, cuidando, perdi
desejos de quant'al fui amar.

A que eu vi mais fremoso parecer
de quantas eno mundo pud'achar,
essa foi eu das do mund'escolher
[...................................ar]
E pois mi a Deus faz desejar assi,
nom mi o fez El, senom por mal de mim,
cometer o que nom hei d'acabar.

Se eu foss'atal senhor bem querer
com que podesse na terra morar,
ou a que ousasse mia coita dizer,
log'eu podera meu mal endurar;
mais tal senhor am'eu que, poila vi,
sempre por ela gram coita sofri
e pero nunca lh'end'ousei falar.
524
D. Dinis

D. Dinis

Praz-Mi a Mi, Senhor, de Morrer

Praz-mi a mi, senhor, de morrer
e praz-m'ende por vosso mal,
ca sei que sentiredes qual
míngua vos pois hei de fazer;
ca nom perde pouco senhor
quando perde tal servidor
qual perdedes em me perder.

E com mia mort'hei eu prazer
porque sei que vos farei tal
míngua qual faz homem leal,
o mais que podia seer,
a quem ama, pois morto for;
e fostes vós mui sabedor
d'eu por vós atal mort'haver.

E pero que hei de sofrer
a morte mui descomunal,
com mia mort'oimais nom m'en chal,
por quanto vos quero dizer:
ca meu serviç'e meu amor
será-vos d'escusar peior
que a mim d'escusar viver.

E certo podedes saber
que, pero s'o meu tempo sal
per morte, nom há já i al,
que me nom quer'end'eu doer:
porque a vós farei maior
míngua que fez Nostro Senhor
de vassal'a senhor prender.
735
D. Dinis

D. Dinis

Se Hoj'em Vós Há N?Um Mal, Senhor

Se hoj'em vós há nẽum mal, senhor,
mal mi venha d'Aquel que pod'e val,
senom que matades mi, pecador,
que vos servi sempr'e vos fui leal
e serei já sempr'enquant'eu viver;
e, senhor, nom vos venh'esto dizer
polo meu, mais porque vos está mal.

Ca, par Deus, mal vos per está, senhor!
Des i é cousa mui descomunal
de matardes mim, que merecedor
nunca vos foi de mort'; e pois que al
de mal nunca Deus em vós quis poer,
por Deus, senhor, nom queirades fazer
em mim agora que vos estê mal.
798
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Talvez não seja mais do que o meu sonho...

Talvez não seja mais do que o meu sonho...
Esse sorriso será para outro, ou a propósito de outro,
Loura débil...
Esse olhar para mim casual como um calendário...
Esse agradecer-me quando a não deixei cair do eléctrico
Um agradecimento...
Perfeitamente...
Gosto de lhe ouvir em sonho o seguimento que não houve
De coisas que não chegou a haver,
Há gente que nunca é adulta sem [...]!
Creio mesmo que pouca gente chega a ser adulta — pouca —
E a que chega a ser adulta de facto morre sem dar por nada.

Loura débil, figura de inglesa absolutamente portuguesa,
Cada vez que te encontro lembro-me dos versos que esqueci...
É claro que não me importo nada contigo
Nem me lembro de te ter esquecido senão quando te vejo,
Mas o encontrar-te dá som ao dia e ao desleixo
Uma poesia de superfície,
Uma coisa a mais no a menos da improficuidade da vida...
Loura débil, feliz porque não és inteiramente real,
Porque nada que vale a pena ser lembrado é inteiramente real,
E nada que vale a pena ser real vale a pena.
1 346
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Como Todo o Amor Humano

Eras impuro, falso e vil,
Mas eu ergui a perfeição do teu perfil
Na manhã d’hoje em frente do Oceano.
1 196
Marguerite Duras

Marguerite Duras

As mãos negativas (excerto)

Chamam-se “mãos negativas” as pinturas de mãos encontradas nas grutas magdalenienses da Europa Sul-Atlântica. O contorno dessas mãos – espalmadas sobre a pedra – era recoberto de cor. O mais frequente de azul, de preto. Às vezes, de vermelho. Nenhuma explicação foi encontrada para esta prática.
Diante do oceano
sob a falésia
sobre a parede de granito
essas mãos
abertas
Azuis
E pretas
Do azul da água
Do preto da noite
O homem veio sozinho na gruta
de frente para o oceano
Todas as mãos têm o mesmo tamanho
ele estava sozinho
O homem sozinho na gruta olhou
no barulho
no barulho do mar
a imensidão das coisas
E ele gritou
Tu que tens um nome e uma identidade eu
te amo
Essas mãos
do azul da água
do preto do céu
Planas
Colocadas divididas sobre o granito cinza
Para que alguém as visse
Eu sou aquele que chama
Eu sou aquele que chamava que gritava há trinta
mil anos
Eu te amo
Eu grito que eu quero te amar, eu te amo
Eu amarei quem quer que escute o meu grito
Sobre a terra vazia ficarão essas mãos sobre a parede de
granito de frente para o fragor do oceano
Insustentável
Ninguém escutará mais
Ninguém verá
Trinta mil anos
Estas mãos, pretas
A refração da luz sobre o mar faz tremer
a parede da pedra
Eu sou alguém eu sou aquele que chamava que
gritava nessa luz branca
O desejo
a palavra ainda não foi inventada
Ele olhou a imensidão das coisas no fragor
das ondas, a imensidão de sua força
e depois gritou
Acima dele as florestas da Europa,
sem fim
Ele se segurou no centro da pedra
dos corredores
das vias de pedra
de todas as partes
Tu que tens um nome e uma identidade eu
te amo com um amor indefinido
Seria necessário descer a falésia
vencer o medo
O vento sopra do continente ele empurra
o oceano
As ondas lutam contra o vento
Elas avançam
abrandadas por sua força
e pacientemente alcançam
a parede
Tudo se esmaga
Eu te amo mais longe do que tu
Eu amarei quem quer que escutará que eu grito que eu
te amo
Trinta mil anos
Eu chamo
Eu chamo aquele que me responder
Eu quero te amar eu te amo
Há trinta mil anos eu grito em frente ao mar o
espectro branco
Eu sou aquele que gritava que te amava, tu
(tradução de Érica Zíngano e Marcela Vieira)
:
Les mains négatives(1979)
Margueirte Duras
On appelle mains négatives les peintures de mains trouvées dans les grottes magdaléniennes de l'Europe Sud-Atlantique. Le contour des ces mains – posées grandes ouvertes sur la pierre – était enduit de couleur. Le plus souvent de bleu, de noir. Parfois de rouge. Aucune explication n'a été trouvée à cette pratique.
Devant l'océan
sous la falaise
sur la paroi de granit
ces mains
ouvertes
Bleues
Et noires
Du bleu de l'eau
Du noir de la nuit
L'homme est venu seul dans la grotte
face à l'océan
Toutes les mains ont la même taille
il était seul
L'homme seul dans la grotte a regardé
dans le bruit
dans le bruit de la mer
l'immensité des choses
Et il a crié
Toi qui es nommée toi qui es douée d'identité je
t'aime
Ces mains
du bleu de l'eau
du noir du ciel
Plates
Posées écartelées sur le granit gris
Pour que quelqu'un les ait vues
Je suis celui qui appelle
Je suis celui qui apellait qui criait il y a trente
mille ans
Je t'aime
Je crie que je veux t'aimer, je t'aime
J'aimerai quiconque entrendra que je crie
Sur la terre vide resteront ces mains sur la paroi de
granit face au fracas de l'océan
Insoutenable
Personne n'entendra plus
Ne verra
Trente mille ans
Ces mains-là, noires
La réfraction de la lumière sur la mer fait frémir
la paroi de la pierre
Je suis quelqu'un je suis celui qui appelait qui
criait dans cette lumière blanche
Le désir
le mot n'est pas encore inventé
Il a regardé l'immensité des choses dans le fracas
des vagues, l'immensité de sa force
et puis il a crié
Au-dessus de lui les fôrets d'Europe,
sans fin
Il se tient au centre de la pierre
des couloirs
des voies de pierre
de toutes parts
Toi qui es nommée toi qui es douée d'identité je
t'aime d'un amour indéfini
Il fallait descendre la falaise
vaincre la peur
Le vent souffle du continent il repousse
l'océan
Les vagues luttent contre le vent
Elles avancent
ralenties par sa force
et patiemment parviennent
à la paroi
Tout s'écrase
Je t'aime plus loin que toi
J'amearai quiconque entendra que je crie que je
t'aime
Trente mille ans
J'appelle
J'appelle celui qui me répondra
Je veux t'aimer je t'aime
Depuis trente mille ans je crie devant la mer le
spectre blanc
Je suis celui qui criait qu'il t'aimait, toi
.
.
.
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