Poemas neste tema

Memórias e Lembranças

Fiama Hasse Pais Brandão

Fiama Hasse Pais Brandão

Os amigos que morrem

Os amigos que morrem são arbóreos,
plantados e memoráveis como freixos.
Um freixo, que vejo entre árvores
como a aura, o tronco novo
sulcado de rasgões, a raiz curta
comparável à memória viva enterrada.
Têm uma única forma até à morte, próximos do Sol,
que torna as outras árvores mais ténues que os isolados freixos.
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Luís Filipe Maçarico

Luís Filipe Maçarico

No Cripto-pórtico de Mértola

I
Quantos ditosos
trazendo flor de oliva
em seus cabelos
provaram do teu pão,
ó prodigioso celeiro?

II
Quantas bocas
sarracenas se
dessedentaram
em tua água silvestre,
ó rumorosa cisterna?

III
Quanta fatal decisão
em nome da Santa Cruz
no teu ventre vazou
proscritos,
ó sombria prisão?

(Mértola, 1994)
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Sol o Muro o Mar

O olhar procura reunir um mundo que foi destroçado pelas fúrias.
Pequenas cidades: muros caiados e recaiados para manter intacto o alvoroço do início.
Ruas metade ao sol metade à sombra.
Janelas com as portadas azuis fechadas: violento azul sem nenhum rosto.
Lugares despovoados, labirinto deserto: ausência intensa como o arfar de um toiro.
Exterior exposto ao sol, senhor dos muros dos pátios dos terraços.
Obscuros interiores rente à claridade, secretos e atentos: silêncio vigiando o clamor do sol sobre as pedras da calçada.
Diz-se que para que um segredo não nos devore é preciso dizê-lo em voz alta no sol de um terraço ou de um pátio.
Essa é a missão do poeta: trazer para a luz e para o exterior o medo.
Muros sem nenhum rosto morados por densas ausências.
Não o homem mas os sinais do homem, a sua arte, os seus hábitos, o seu violento azul, o espesso amarelo, a veemência da cal.
Muro de taipa que devagar se esboroa — tinta que se despinta — porta aberta para o pátio de chão verde: soleira do quotidiano onde a roupa seca e espaço de teatro. Mas também pórtico solene aberto para a vida sagrada do homem.
Muro branco que se descaia e azula irisado de manchas nebulosas e sonhadoras.
A porta desenha sua forma perfeita à medida do homem: as cores do cortinado de fitas contam a nostalgia de uma festa.
Lá dentro a penumbra é fresca e vagarosa.
Nenhum rosto, nenhum vulto.
As marcas do homem contando a história do homem.
No promontório o muro nada fecha ou cerca.
Longo muro branco entre a sombra do rochedo e as lâmpadas das águas.
No quadrado aberto da janela o mar cintila coberto de escamas e brilhos como na infância.
O mar ergue o seu radioso sorrir de estátua arcaica.
Toda a luz se azula.
Reconhecemos nossa inata alegria: a evidência do lugar sagrado.
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Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Pequena elegia de setembro

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.

Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.


de Coração de Dia
9 485 4
Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Casa na chuva

A chuva,outra vez a chuva sobre as oliveiras.
Não sei por que voltou esta tarde
se minha mãe já se foi embora,
já não vem à varanda para a ver cair,
já não levanta os olhos da costura
para perguntar:Ouves?
Oiço,mãe,é outra vez a chuva,
a chuva sobre o teu rosto.


de Escrita da Terra
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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Casa Branca

Casa branca em frente ao mar enorme,
Com o teu jardim de areia e flores marinhas
E o teu silêncio intacto em que dorme
O milagre das coisas que eram minhas.
… … … … … … … … … … … …

A ti eu voltarei após o incerto
Calor de tantos gestos recebidos
Passados os tumultos e o deserto
Beijados os fantasmas, percorridos
Os murmúrios da terra indefinida.

Em ti renascerei num mundo meu
E a redenção virá nas tuas linhas
Onde nenhuma coisa se perdeu
Do milagre das coisas que eram minhas.
6 406 4
Castro Alves

Castro Alves

A Maria Candinha

QUANW EU leio o teu nome embalsamado

Das magnólias do sul sinto o perfume,

Ouço a harmonia do violão magoado,

Vejo a luz singular do vaga-lume!

3 312 4
Carlos Gildemar Pontes

Carlos Gildemar Pontes

A Palma da Minha Mão

na palma da minha mão
trago mais de mil segredos
outros tantos mil enredos
e mais dois mil arremedos

na palma da minha mão
tem o m de maria
e muitos sinais que um dia
uma cigana apontou

na palma da minha mão
trago a linha do destino
um longo arco e um caminho
que parte do coração

na palma da minha mão
há traços que se entrelinham
formando largos bordados
mostrando novos caminhos

da palma da minha mão
saltam cinco longos dedos
cada um com a missão:
libertar-me dos degredos

minha mão tem muitas marcas
pontos brancos e vermelhos
riscos e uma cicatriz
que trago desde menino

a palma da minha mão
com tudo que nela há
guarda o signo de um mistério
que alimenta o meu sonhar

2 131 3
Guilherme de Almeida

Guilherme de Almeida

Haicai

Infância

Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se "Agora".

Cigarra

Diamante. Vidraça.
Arisca, áspera asa risca
o ar. E brilha. E passa.

4 360 4
Wisława Szymborska

Wisława Szymborska

Amor à primeira vista

Ambos estão convencidos
que os uniu uma paixão súbita.
É bela esta certeza,
mas a incerteza é mais bela ainda.
Julgam que por não se terem encontrado antes,
nada entre eles nunca ainda se passara.
E que diriam as ruas, as escadas, os corredores
onde se podem há muito ter cruzado?
Gostaria de lhes perguntar
se não se lembram —
talvez nas portas giratórias,
um dia, face a face?
algum “desculpe” num grande aperto de gente?
uma voz de que “é engano” ao telefone?
— mas sei o que respondem.
Não, não se lembram.
Muito os admiraria
saber que desde há muito
se divertia com eles o acaso.
Ainda não completamente preparado
para se transformar em destino para eles,
aproximou-os e afastou-os,
barrou-lhes o caminho
e, abafando as gargalhadas,
lá seguiu saltando ao lado deles.
Houve marcas, sinais,
que importa se ilegíveis.
Haverá talvez três anos
ou terça-feira passada,
certa folhinha esvoaçante
de um braço a outro braço.
Algo que se perdeu e encontrou?
Quem sabe se já uma bola
nos silvados da infância?
Punhos de poeta e campainhas
onde a seu tempo o toque
de uma mão tocou o outro toque.
As malas lado a lado no depósito.
Talvez acaso até um mesmo sonho
que logo o acordar desvaneceu.
Porque cada início
é só continuação,
e o livro das ocorrências
está sempre aberto ao meio.
tradução de Júlio Sousa Gomes
11 678 4
Jorge Luis Borges

Jorge Luis Borges

Límites

De estas calles que ahondan el poniente,
una habrá (no sé cuál) que he recorrido
ya por última vez, indiferente
y sin adivinarlo, sometido

a quien prefija omnipotentes normas
y una secreta y rígida medida
a las sombras, los sueños y las formas
que destejen y tejen esta vida.

Si para todo hay término y hay tasa
y última vez y nunca más y olvido
¿Quién nos dirá de quién, en esta casa,
sin saberlo, nos hemos despedido?

Tras el cristal ya gris la noche cesa
y del alto de libros que una trunca
sombra dilata por la vaga mesa,
alguno habrá que no leeremos nunca.

Hay en el Sur más de un portón gastado
con sus jarrones de mampostería
y tunas, que a mi paso está vedado
como si fuera una litografía.

Para siempre cerraste alguna puerta
y hay un espejo que te aguarda en vano;
la encrucijada te parece abierta
y la vigila, cuadrifronte, Jano*.

Hay, entre todas tus memorias, una
que se ha perdido irreparablemente;
no te verán bajar a aquella fuente
ni el blanco sol ni la amarilla luna.

No volverá tu voz a lo que el persa
dijo en su lengua de aves y de rosas,
cuando al ocaso, ante la luz dispersa,
quieras decir inolvidables cosas.

¿Y el incesante Ródano y el lago,
todo ese ayer sobre el cual hoy me inclino?
Tan perdido estará como Cartago
que con fuego y con sal borró el latino*.

Creo en el alba oír un atareado
rumor de multitudes que se alejan;
son lo que me ha querido y olvidado;
espacio, tiempo y Borges ya me dejan.

(1960)

* Cuadrifonte Jano: En la antigua mitología romana, Jano es el dios de los comienzos, las transiciones, las puertas y el tiempo. Usualmente se representa con dos caras, una mirando al futuro y la otra al pasado. En este caso, Borges usa el término "cuadrifronte" (cuatro frentes) para describirnos un Jano con cuatro caras.

* Latino: Se refiere a los romanos en la toma y destrucción del imperio cartaginés.

"El otro, el mismo" (1964)



Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 187 e 188 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
29 086 4
Ferreira Gullar

Ferreira Gullar

No corpo

De que vale tentar reconstruir com palavras
o que o verão levou
entre nuvens e risos
junto com o jornal velho pelos ares?

O sonho na boca, o incêndio na cama.
o apelo na noite
agora são apenas esta
contração (este clarão)
de maxilar dentro do rosto.

A poesia é o presente.

4 261 3
Ana Luísa Amaral

Ana Luísa Amaral

Assim se Revisita o Coração

Só mal tocando as cordas
Da memória
Consegue o coração ressuscitar

Porque era este lugar
que eu precisava agora
como em deserto até
ao infinito,
e de repente,
uma gravidez imensa,
um cacto verde e limpo

Porque os olhos conhecem
estes sons
de dar à luz o vento
e são-lhe amantes
de tangível luz

Só mal tangendo as cordas
da memória
como estas flores
se tingem de alegria

Porque era neste azul
que eu me queria
como a rocha transpira
e se resolve
em mar
5 048 4
Herberto Helder

Herberto Helder

V D

Quem anel a anel há-de pôr-me a nu os dedos,
quando me arrancarão a camisa,
quando se verá torso e braço a braço
todo o peso
apoiado à luz?
Alguém me tocará para que eu estanque.
Se tivesse escondido entre objectos exaltados
uma estrela e o seu combustível.
Desfaçam devagar o que me liga
primeiro a cada estado do mundo,
depois à memória.
Desfaçam-me do nome, o grande coágulo de sangue,
umbigo que habilmente se desamarra.
Todas as coisas pequenas que me cercam, para que servem
elas? Desembaracem-me:
o cântaro cheio da força das dedadas,
o copo coriscando,
garfos e o seu fogo, facas e o seu fogo, a carne
profunda na minha carne pela boca devoradora,
louça e o seu fogo.
Alguém há-de saber de tanto fôlego junto.
Basta a mão direita para quebrar a água
misteriosamente, a mão
para devolver-me à fonte.
Não é preciso que seja raiada, essa pessoa
leve e potente, só
que finque no meio da dança um pau em brasa
com a floração: quero que me pare, que me abra.
Que use a chave da minha obscuridade.
Antes de me terem chamado com água dentro da pedra,
gosto amargo, unhas
e dentes.
A seda com que teci a malha entre os pedaços humanos:
membros criando um espaço, respiradouros, anéis rudes
nas cabeças, uma
beleza viva.
Alguém há-de tocar-me com um dedo, alguém
há-de pôr-me um selo.
9 600 4
Stéphane Mallarmé

Stéphane Mallarmé

PROSA

Hipérbole! desta memória
Triunfalmente não tens tido
Como erguer-te, hoje obscura história
Em livro de ferro vestido:

Pois instalo, pela ciência,
O hino de almas espirituais
Na obra de minha paciência,
Atlas, herbários e rituais.

Passeávamos nosso semblante
( Éramos dois, posso afirmar)
Nos encantos da cena adiante,
Ó irmã, para os teus reafirmar.

Turva-se a era de autoridade
Quando, sem motivo, se fala
Desse sul que a duplicidade
De nossa inconsciência assinala

Que, chão multíris, seu lugar,
Se existiu o deverão
Saber, não traz nome que ecoar
O ouro da trompa de Verão.

Sim, em uma ilha que o ar
Enche não de visões mas vista
Toda flor se abria invulgar
Sem em conversa ser revista.

Tais, imensas, que oportuna
Cada uma se preparou
Com lúcido entorno, lacuna
Que dos jardins a separou.

Idéias, glória do desejo,
Tudo em mim se exaltou de ver
As irídeas em cortejo
Surgir para o novo dever,

Mas seu olhar, terna e tranqüila,
Não o levou esta irmã
Além do sorriso e, a ouvi-la,
Cuido de meu antigo afã.

Oh! o Espírito de porfia
Saiba, quando estamos silentes,
Que a haste de mil lírios crescia
Por demais para nossas mentes

E não como a margem chora,
Se o jogo monótono mente
E quer a amplitude afora
Neste meu susto viridente

De ouvir todo o céu e a carta
Firmados em meus passos mil
Vezes, pela onda que se aparta,
Que esse país não existiu.

A criança do êxtase abdica
E douta já pelos caminhos
- Anastásio, é o que ela indica,
Criado p'ra eternos pergaminhos,

Antes de um túmulo rir em
Qualquer clima, seu antepassado,
Do nome - Pulquéria! - que tem,
Pelo alto gladíolo ocultado.


3 855 4
Pedro Kilkerry

Pedro Kilkerry

É o Silêncio

É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.
Olha-me a estante em cada livro que olha.
E a luz nalgum volume sobre a mesa...
Mas o sangue da luz em cada folha.

Não sei se é mesmo a minha mão que molha
A pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.
Penso um presente, num passado. E enfolha
A natureza tua natureza.
Mas é um bulir das cousas... Comovido
Pego da pena, iludo-me que traço
A ilusão de um sentido e outro sentido.
Tão longe vai!
Tão longe se aveluda esse teu passo,
Asa que o ouvido anima...
E a câmara muda. E a sala muda, muda...
Àfonamente rufa. A asa da rima
Paira-me no ar. Quedo-me como um Buda
Novo, um fantasma ao som que se aproxima.
Cresce-me a estante como quem sacuda
Um pesadelo de papéis acima...
.......................................................................
E abro a janela. Ainda a lua esfia
últimas notas trêmulas... O dia
Tarde florescerá pela montanha.

E ó minha amada, o sentimento é cego...
Vês? Colaboram na saudade a aranha,
Patas de um gato e as asas de um morcego.

5 582 4
Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Há dias

Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo
nos cai em cima
depois
ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam
não lhes sei o nome
uma ou outra parece-me comigo
quero eu dizer :
com o que fui
quando cheguei a ser luminosa
presença da graça
ou da alegria
um sorriso abre-se então
num verão antigo
e dura
dura ainda.


de Os lugares de Lume
9 107 3
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Cantigas Leva-As o Vento...

A lembrança dos teus beijos
Inda na minh’alma existe,
Como um perfume perdido,
Nas folhas dum livro triste.

Perfume tão esquisito
E de tal suavidade,
Que mesmo desapar’cido
Revive numa saudade!
6 263 3
Al Berto

Al Berto

eras novo ainda

mal sabia reconhecer os teus própios erros
e o uso violento que de noite eu fazia deles
esta cama de minerais acesos
escrevo para despertar a fera de sol pelo corpo
escorrem aves de cuspo para a adolescência da boca
e junto ao mar existe ainda aquele lugar perdido
onde a memória te imobilizou
enumero as casas abandonadas ao sangue dos répteis
surpreendo-te quando me surpreendes
pela janela espio a paisagem destruída
e o coração triste dos pássaros treme
quando escrevo mar
o mar todo entra pela janela
onde debruço a noite do rosto tocado...me despeço
7 267 3
Humberto de Campos

Humberto de Campos

Miritiba

É o que me lembra: uma soturna vila
olhando um rio sem vapor nem ponte;
Na água salobra, a canoada em fila...
Grandes redes ao sol, mangais defronte...

De um lado e de outro, fecha-se o horizonte...
Duas ruas somente... a água tranqüila...
Botos no prea-mar... A igreja... A fonte
E as grandes dunas claras onde o sol cintila.

Eu, com seis anos, não reflito, ou penso.
Põem-me no barco mais veleiro, e, a bordo,
Minha mãe, pela noite, agita um lenço...

Ao vir do sol, a água do mar se alteia.
Range o mastro... Depois... só me recordo
Deste doido lutar por terra alheia!

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Hélder Muteia

Hélder Muteia

Aí, o mar

As palavras que desenhei na areia
O mar as levou em lembrança
Os meus segredos de criança
O mar os contou à sereia.

As conchas do mar também ficaram
Com os meus segredos do anoitecer
Tudo o que os meus avós me sussurraram
Ainda estava por tecer.

Os estilhaços da minha infância
Ficaram emulsionados na forca da água
Os versos feitos em minhas mágoas
Também ficaram em turbulência.

O mar levou o meu amor
A filha do gra-marinheiro
Pois ela partiu primeiro
Sem escutar o meu clamor.
1 908 3
J. Veiga

J. Veiga

A Espingarda do Rei da Síria

A vida não estava tratando bem o Juventino Andas desde que ele perdera a espingarda numa espera. Para um caçador de fama e rama, perder a espingarda numa espera pode parecer um feito desonroso — mas é preciso atentar para as circunstâncias. Ninguém esperava chuva aquela noite, e choveu; a lanterna, que ele havia experimentado antes de sair de casa, falhou no mato; e o cavalo, assustado por alguma onça, arrebentou o cabresto e fugiu. Foi quando procurava o cavalo na noite escura que Juventino rolou numa grota, perdeu a espingarda e ainda destroncou um braço. No outro dia o cavalo apareceu na porteira de Seu Ângelo Furnas com a sela quase na barriga e a crina cheia de carrapicho. Seu Ângelo reconheceu-o e o recolheu e mandou recado para Juventino.
Sendo homem sem malícia, apesar de caçador, Juventino achou que devia agradecer a gentileza contando candidamente como se apartara do cavalo. Ângelo ouviu com simpatia, fez uma pergunta aqui outra ali, não mostrou ter achado graça, e nada disse que pudesse ferir a reputação do amigo; mas depois de uma visita que fez à cidade um ou dois dias mais tarde, todo mundo estava gozando o lado cômico do episódio. Juventino não percebeu de logo o que era que lhe estava acontecendo, e até contribuiu para o riso geral acrescentando uma ou outra informação que havia omitido na conversa com Seu Ângelo; mas quando desconfiou que ao assunto estava rendendo mais do que a sua importância justificava, já era tarde para recolocar as coisas na sua exata perspectiva. Aos olhos dos amigos ele era agora como um soldado que perdeu a arma na guerra. Tudo o que ele dissesse teria que ser pesado contra esse único e singelo episódio. Juventino achou que o mais acertado naquelas circunstâncias era viver mais para si e evitar locais como a farmácia de Seu Castiço, que era uma espécie de bolsa de comentários sobre caçadas.
Mas a perda do prestígio de caçador não foi o único aborrecimento de Juventino; havia outro igualmente grande: a privação de caçar, por falta de espingarda. Enquanto aos sábados os outros preparavam seus cartuchos, arreavam seus cavalos e saíam para o Ouro-Fino, os Peludos ou a Mandaquinha, ele ficava em sua janela fumando cigarros de palha, cuspindo nas pedras da calçada e olhando as beatas passarem para o terço. Uma vez, quando a coceira que dizem dar na nunca dos caçadores ficou muito forte, Juventino venceu o escrúpulo e foi pedir a espingarda da Manuel Davém, que ele sabia estar de cama com a ciática. Manuel arregalou os olhos e rebateu quase desesperado:
— Emprestar a minha espingarda? Não, Seu Juventino. O senhor me desobrigue, isso eu não posso. Empresto o cavalo, os arreios, se o senhor quiser. A espingarda não.
Havia também os que se fingiam de inocentes, passavam e perguntavam como se não soubessem de nada:
— Uai, Seu Juventino, o senhor brigou com as pacas?
Mas isso só acontecia porque ele não gostava de criar questão. Se ele fosse como o tenente Aurélio, daria uma resposta arrepiada, e quem não gostasse que corresse dentro. Alguém ia querer briga com tenente Aurélio? Se tenente Aurélio tivesse perdido a espingarda, que teria acontecido? Nada. Nada. Teria comprado outra, se não ganhasse de presente. Foi esperar, choveu, a lanterna zangou, a onça espantou o cavalo, o caçador rolou numa grota, perdeu a espingarda. Não pode acontecer? Alguém ia rir? Ia!
Mas uma coisa dessas só é natural quando acontece a quem pode comprar outra arma no dia seguinte; a graça está justamente quando o caçador não tem recurso e fica impossibilitado de praticar o seu divertimento, isso é que é engraçado e dá assunto. Se Juventino não fosse como era não haveria problema nenhum. Ele iria ao Dr. Amoedo e mandaria suspender o trabalho da dentadura porque precisava do dinheiro para comprar uma espingarda; mas com o trabalho já começado era preciso coragem para fazer isso.
De sorte que naquela ocasião a vida de Juventino girava em volta de uma espingarda, ou da falta de uma espingarda. Por caminhos ocultos o seu pensamento voltava sempre ao mesmo assunto. As pessoas que conheciam o seu problema — eram quase todos na vila — podiam acompanhar os seus silêncios, os seus suspiros, os seus sorrisos secretos e ver na frente uma espingarda.
Como daquela vez que ele entrou na loja de Seu Gontijinho para comprar um par de ligas e estava lá um cometa. Seu Gontijinho era um homem muito delicado, um dos poucos que não caçoavam de Juventino pela perda da espingarda. Era pequenino, usava óculos sem aro e piscava avidamente.
Seu Gontijinho pediu a opinião de Juventino sobre determinado artigo que o cometa estava oferecendo, Juventino gostou da consideração e demorou-se mais do que de costume. O cometa também era simpático, chamava as pessoas pelo nome e tinha sempre coisas engraçadas para dizer. Quando chegou aos mostruários dos cachimbos ele escolheu o mais bonito e deu-o a Juventino para admirar e aproveitou a ocasião para contar que os colonizadores ingleses na África arranjaram uma maneira muito prática de curtir cachimbo novo: retiram o canudo e dão o cachimbo para um preto fumar; quando o cachimbo está bem curtido tomam-no de volta e colocam novamente o canudo novo.
Juventino ouviu a história e ficou muito tempo com o cachimbo na mão, os olhos parados longe. Depois, sem perceber que era observado, ergueu o cachimbo à altura do rosto, segurando-o pelo bojo, fechou um olho em pontaria e deu um estalo com a boca.
O cometa olhou desconfiado e tratou de recuperar o cachimbo para o mostruário. Seu Gontijinho olhou, piscou e perguntou a Juventino o que ele achava de uns borzeguins de bico fino que o cometa havia oferecido antes a preço de saldo. Juventino pensou e disse que era capaz de encalhar, todo mundo agora estava querendo era sapato bico de pato, era a moda. Seu Gontijinho concordou e encomendou só meia dúzia de pares para atender os fregueses mais velhos.
Juventino estava sentado em sua mesa no cartório fumando um cachimbo, e apesar de ser pela primeira vez ele não tossia, nem engasgava, nem sentia nada do que dizem sentir o cachimbeiro principiante, achava até bom; e como o cachimbo não era dele, ele já sentia pena de ter de devolvê-lo mais cedo ou mais tarde. Provavelmente por isso ele queria aproveitar ao máximo o cachimbo, chupando-o sem parar nem mesmo para descansar e enchendo-o de cada vez que ele começava a chiar e pipocar e que o ar quente que saía pelo canudo ameaçava queimar-lhe a língua.
Tão calmante era o efeito do cachimbo que Juventino sentia-se leve e otimista, e até um tanto importante. O problema que o vinha preocupando nos últimos tempos, e que lhe pesara tanto na cabeça ainda no dia anterior, agora parecia primário e distante. De pernas esticadas, pés cruzados na mesa, as costas no descanso da cadeira, ele olhava pela janela e via o largo muito verde pendendo em brando declive até quase tocar os telhados da rua lá embaixo, animais pastando peados entre os pés de vassourinhas. Era engraçado vê-los de longe movendo-se aos saltos como se brincassem de pular de pés juntos. Se não fosse maldade, nem desse processo, ele podia derrubá-los todos um a um sem se levantar do lugar; bastava esticar a mão e apanhar a espingarda que descansava no estojo de couro no chão ao pé da mesa. Mas naturalmente ele não ia fazer isso, era preciso fazer bom uso da esp8ngarda, como dissera Sua Majestade na carta.
Juventino abriu a gaveta, tirou a carta e leu-a mais uma vez, apesar de já sabê-la de cor. Cada vez que ouvia o eco daquelas palavras e pensava na espingarda brilhando em seu estojo, ele gostava porque sentia estar vivendo. Antes, mesmo quando ainda tinha a velha espingarda, ele estava sempre adiando o momento de viver; mas agora era diferente, agora o presente era mais importante do que o futuro.
Mas é claro que nenhum homem pode viver por muito tempo contente apenas com as ofertas do presente; o futuro é tão tentador que acaba sempre metendo a cab
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Víctor Jara

Víctor Jara

Te recordo Amanda

Te recordo Amanda, a rua molhada,
Correndo à fábrica, onde trabalhava Manuel...
O sorriso largo, a chuva no cabelo
Não importava nada, ias a encontrar-te com ele...
Com ele, com ele, com ele, com ele...
São cinco minutos,

Soa a sirene, de volta ao trabalho
E tu... caminhando o iluminas todo,
Os cinco minutos te fazem florescer

Te recordo Amanda, a rua molhada,
Correndo à fábrica onde trabalhava Manuel...
O sorriso largo, a chuva no cabelo
Não importava nada, ias a encontrar-te com ele...
Com ele, com ele, com ele, com ele...

Que marchou para a serra,
Que nunca fez dano, que marchou para a serra,
E em cinco minutos ficou destroçado...
Soa a sirene, de volta ao trabalho
Muitos não voltaram...tão pouco Manuel.

Te recordo Amanda, a rua molhada
Correndo à fábrica onde trabalhava Manuel...

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Bruno de Menezes

Bruno de Menezes

Romantismo de um Poema Proletário

Não fosse a alma romântica de nossa raça,
doentia evocação ou uma simples lembrança,
eu não estaria dando vida a estas líricas palavras,
para rever agora a tua imagem sucumbida.

À maneira dos Poetas tísicos e melancólicos,
das Marílias, que aos seus amores
ofereciam violetas e madeixas,
nós repetimos a velha e sempre nova comédia...

E é por isso, que do teu antigo retrato,
onde estás exuberante e sadia,
sorrindo com os teus lábios de polpa sumarosa,
(como se não dormisses à luz dos vagalumes)
se evola para mim o mesmo sândalo de tua carne,
que era rija e colorida como a dos frutos sazonados.

É por isso, que a mecha dos teus cabelos,
negros e capitosos como sabias trazê-los,
e que deixaste como prova de tua faceirice,
parece ainda agitar-se na tua cabeça de Lindóia,
e se encrespa, como um punhado de treva,
entre os meus dedos paralisados.

Talvez seja por isso...
Ou porque não foste a terra inteiramente conquistada,
que os homens espreitavam gulosos e alucinados...

Ou porque, a tua rústica mocidade,
cheirando ao mato e ao rio,
que te viram nua, na tua infância roceira
fizeram de ti uma força jovem;
e como os braços de tantas irmãs-proletárias,
afeitos a lidar com maquinismos e teares,
também terminaste nos necrológios sem leitores...


Publicado no livro Lua Sonâmbula: poemas (1953). Poema integrante da série Poemas a Ismael Nery.

In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.339-340. (Lendo o Pará, 14
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