Poemas neste tema
Memórias e Lembranças
Marta Gonçalves
O Retrato de Biel
(Em memória do Poeta e Professor
Gabriel Archanjo de Mendonça)
Vestia o inverno, na foto marcando viagem. Os olhos vinham das águas, do rio, dos pássaros que voavam em seu corpo. A voz cantava uma canção. Canção embrenhada na distância. No silêncio, a risada de Biel. Existia um olhar aberto à procura dos seres que formavam o caule da vida. Reencontro de amigos. O mistério do espírito se preparando ao hiato da ausência. Biel desenhava no porão. Os olhos em vigília. Olhava os campos calcinados, onde borboletas secas dormiam. Biel, inflexão do corpo criando versos de origem, criando grãos no espaço. Biel menino. Ah, os cabelos de Biel! O canário nos dedos trazia o sol. Biel, viajante de tudo que já foi visto. Rindo, rindo, rindo, do barco à espera. Tantas flores chegando. A festa de Biel
O desamparo arrastando o sino. Formigas retalhando memórias. O desgaste no oco dos olhos. Poemas guardados em álbuns amarelados, trazendo emoções. Fazia frio no dia 31 de julho de 1996. Tarde de Biel. De poemas. À margem da praia distante vejo o texto crescendo. Uma flor azul entre as pedras dorme o fim. Biel menino, poeta, desenhista, cantor de canções perdidas. Nada explica o professor do vento da velha São João Nepomuceno.
Leio sua poesia, vejo o retrato vestido de inverno. Encarno a geografia de sua vida. O vôo não foi rasteiro. Plantaram a semente. Depois o pânico do silêncio. Lá fora a chuva marca o nascimento do poeta.
Gabriel Archanjo de Mendonça)
Vestia o inverno, na foto marcando viagem. Os olhos vinham das águas, do rio, dos pássaros que voavam em seu corpo. A voz cantava uma canção. Canção embrenhada na distância. No silêncio, a risada de Biel. Existia um olhar aberto à procura dos seres que formavam o caule da vida. Reencontro de amigos. O mistério do espírito se preparando ao hiato da ausência. Biel desenhava no porão. Os olhos em vigília. Olhava os campos calcinados, onde borboletas secas dormiam. Biel, inflexão do corpo criando versos de origem, criando grãos no espaço. Biel menino. Ah, os cabelos de Biel! O canário nos dedos trazia o sol. Biel, viajante de tudo que já foi visto. Rindo, rindo, rindo, do barco à espera. Tantas flores chegando. A festa de Biel
O desamparo arrastando o sino. Formigas retalhando memórias. O desgaste no oco dos olhos. Poemas guardados em álbuns amarelados, trazendo emoções. Fazia frio no dia 31 de julho de 1996. Tarde de Biel. De poemas. À margem da praia distante vejo o texto crescendo. Uma flor azul entre as pedras dorme o fim. Biel menino, poeta, desenhista, cantor de canções perdidas. Nada explica o professor do vento da velha São João Nepomuceno.
Leio sua poesia, vejo o retrato vestido de inverno. Encarno a geografia de sua vida. O vôo não foi rasteiro. Plantaram a semente. Depois o pânico do silêncio. Lá fora a chuva marca o nascimento do poeta.
1 180
Marta Gonçalves
Chuva na Quilha
A chuva vem de longe, abriga
o fim do ano. No arroio,
memórias memórias
trituradas nas tardes outonais.
Vem chuva na campina da alma.
Guardamos os anéis usados nos dias
do calendário. A água repõe salivas
e lembramos as flores idas na maré.
Esperamos os sóis que virão marcados
de cruzes. A madeira pesa o corpo
e levará o corpo. Somos sobreviventes
do oceano. Sua água chega na porta da casa
mesmo que se faça distante.
A chuva cinza os olhos.
O canto é anterior aos que sobrevivem.
Ainda que se conte o tempo.
Ainda que nas mãos o adeus.
Os mortos virão para o Ano Novo.
Estão sentados à mesa,
vestem linho.
Descerão na aurora
e quando o dia nascer
ficaremos só com a túnica
e a tempestade na quilha.
E o vento o vento presságios
nos olhos
trazendo cardumes. Trazendo a ferrugem
dos números.
o fim do ano. No arroio,
memórias memórias
trituradas nas tardes outonais.
Vem chuva na campina da alma.
Guardamos os anéis usados nos dias
do calendário. A água repõe salivas
e lembramos as flores idas na maré.
Esperamos os sóis que virão marcados
de cruzes. A madeira pesa o corpo
e levará o corpo. Somos sobreviventes
do oceano. Sua água chega na porta da casa
mesmo que se faça distante.
A chuva cinza os olhos.
O canto é anterior aos que sobrevivem.
Ainda que se conte o tempo.
Ainda que nas mãos o adeus.
Os mortos virão para o Ano Novo.
Estão sentados à mesa,
vestem linho.
Descerão na aurora
e quando o dia nascer
ficaremos só com a túnica
e a tempestade na quilha.
E o vento o vento presságios
nos olhos
trazendo cardumes. Trazendo a ferrugem
dos números.
1 116
Antero Coelho Neto
A Criança do meu Passado
A criança chorou longe,
enquanto o tempo de hoje
se fez presente em mim.
Assim o fato de agora
perturba o homem em si
e a criança chora longe.
Sinto o choro distante,
cada vez mais, na imagem
do passado que lembro.
São soluços e são gritos
de fome, raiva e desespero
que hoje ainda persistem.
São diferentes os sentimentos,
mas continuam os mesmos
soluços e gritos da alma.
A criança de ontem
perde-se muito na lembrança,
mas é a mesma que chora agora
enquanto o tempo de hoje
se fez presente em mim.
Assim o fato de agora
perturba o homem em si
e a criança chora longe.
Sinto o choro distante,
cada vez mais, na imagem
do passado que lembro.
São soluços e são gritos
de fome, raiva e desespero
que hoje ainda persistem.
São diferentes os sentimentos,
mas continuam os mesmos
soluços e gritos da alma.
A criança de ontem
perde-se muito na lembrança,
mas é a mesma que chora agora
1 486
Marta Gonçalves
Lições de Vida
Nos lábios, secura de fome espera
o rio manso das palavras. Ando
soltando pássaros verdes e descubro
nos ninhos lições de vida. O galho
do salgueiro conversa com o vento.
No corpo, marcas de ferro. Nas cavernas,
lembranças embalsamadas.
Tudo o que escrevo está em mim.
o rio manso das palavras. Ando
soltando pássaros verdes e descubro
nos ninhos lições de vida. O galho
do salgueiro conversa com o vento.
No corpo, marcas de ferro. Nas cavernas,
lembranças embalsamadas.
Tudo o que escrevo está em mim.
1 004
Marta Gonçalves
O Coração se Redime
Maurício chegou nas nuvens
andava entre velhos eucaliptos.
Trazia na pele a quentura do mês
de janeiro. Me olhava manso. O chapéu
longo escondia a cor dos olhos. Era
longa a viagem de Maurício. Suas
mãos buscavam o sol. Sempre o sol.
Na tarde morna Maurício desenhou
um leque, depois outro, dezenas.
Neste desenhar ficou longe a sombra
do rosto.
A ferida nas mãos fechou nas asas dos pássaros.
Os leques ficaram esquecidos. Uma ternura passava
na alma. A dor morreu na pele. Maurício andava no mundo
com um velho violino. Crescia meu corpo. Nas manhãs de chuva
o coração se redime. A lucidez volta nos olhos e vejo Maurício
nas nuvens.
andava entre velhos eucaliptos.
Trazia na pele a quentura do mês
de janeiro. Me olhava manso. O chapéu
longo escondia a cor dos olhos. Era
longa a viagem de Maurício. Suas
mãos buscavam o sol. Sempre o sol.
Na tarde morna Maurício desenhou
um leque, depois outro, dezenas.
Neste desenhar ficou longe a sombra
do rosto.
A ferida nas mãos fechou nas asas dos pássaros.
Os leques ficaram esquecidos. Uma ternura passava
na alma. A dor morreu na pele. Maurício andava no mundo
com um velho violino. Crescia meu corpo. Nas manhãs de chuva
o coração se redime. A lucidez volta nos olhos e vejo Maurício
nas nuvens.
1 027
Pablo Neruda
Datitla
Amor, bem-amada, na luz solitária e na areia do inverno
recordas Datitla? Os pinheiros escuros, a chuva uruguaia que molha o grasnido
dos bem-te-vis, a súbita luz da natureza
que crava com raios a noite e a enche de pálpebras rotas
e de foguetadas e supersticiosos relâmpagos verdes
até que cegos pelo resplendor de seus livros elétricos
dávamos voltas em sonhos que o céu perfurava e cobria.
Os Mántaras foram presença e ausência, arvoredo invisível
de frutos visíveis, a casa copiosa da solidão,
os códigos de amigo e amiga punham sua marca no muro
com o natural generoso que envolve na flor a ambrosia
ou como no ar sustém seu voo noturno
a estrela brunida e brilhante afirmada em sua própria pureza
e ali o aroma espargido nas baixas ribeiras
tu e eu recolhemos mentrastos, oréganos, menzelia, espadanas:
o herbário interregno que só o amor recupera nas costas do mundo.
recordas Datitla? Os pinheiros escuros, a chuva uruguaia que molha o grasnido
dos bem-te-vis, a súbita luz da natureza
que crava com raios a noite e a enche de pálpebras rotas
e de foguetadas e supersticiosos relâmpagos verdes
até que cegos pelo resplendor de seus livros elétricos
dávamos voltas em sonhos que o céu perfurava e cobria.
Os Mántaras foram presença e ausência, arvoredo invisível
de frutos visíveis, a casa copiosa da solidão,
os códigos de amigo e amiga punham sua marca no muro
com o natural generoso que envolve na flor a ambrosia
ou como no ar sustém seu voo noturno
a estrela brunida e brilhante afirmada em sua própria pureza
e ali o aroma espargido nas baixas ribeiras
tu e eu recolhemos mentrastos, oréganos, menzelia, espadanas:
o herbário interregno que só o amor recupera nas costas do mundo.
1 079
Marta Gonçalves
O Vento no Rosto
Descalços, andávamos no campo,
molhávamos os pés na relva verde.
Íamos atrás do vento.
Sentávamos, todas as tardes, no alpendre,
a olhar os passarinhos
apanhando migalhas.
- Esperando encontrar o que nos resta
do corpo.
molhávamos os pés na relva verde.
Íamos atrás do vento.
Sentávamos, todas as tardes, no alpendre,
a olhar os passarinhos
apanhando migalhas.
- Esperando encontrar o que nos resta
do corpo.
1 031
Marta Gonçalves
Sutilezas
Brinco com seus lábios
já ausentes de meus olhos.
Imagino o relógio de sol
marcando peles brancas.
Lembranças envolvem sutilezas
que suas mãos ofereciam.
Doçuras carregam água de geleiras
e em cada verso que te oferto vejo
minha morte.
já ausentes de meus olhos.
Imagino o relógio de sol
marcando peles brancas.
Lembranças envolvem sutilezas
que suas mãos ofereciam.
Doçuras carregam água de geleiras
e em cada verso que te oferto vejo
minha morte.
988
Pablo Neruda
XLIII
Quem era aquela que te amou
no sonho, quando dormias?
Onde vão as coisas do sonho?
Vão para o sonho dos outros?
E o pai que vive nos sonhos
volta a morrer quando despertas?
Florescem as plantas do sonho
e maduram seus graves frutos?
no sonho, quando dormias?
Onde vão as coisas do sonho?
Vão para o sonho dos outros?
E o pai que vive nos sonhos
volta a morrer quando despertas?
Florescem as plantas do sonho
e maduram seus graves frutos?
593
Marta Gonçalves
Meninas de Tamancos
Cirandas jogando tempo
em calçadas antigas
Meninas de tamancos
rodando pião
Alecrim crescendo na janela
O estafeta visitando
velhas casas
Maria das Dores fugindo no sol
O barulho da memória acorda a alma.
em calçadas antigas
Meninas de tamancos
rodando pião
Alecrim crescendo na janela
O estafeta visitando
velhas casas
Maria das Dores fugindo no sol
O barulho da memória acorda a alma.
1 136
Jean-Baptiste Tati Loutard
Notícias de minha mãe
Me alço alto agora na árvore das estações;
Embaixo, contemplo a terra firme do passado.
Quando os campos se abriam às semeaduras,
Antes que o baobá não ofereça o ombro ao passarinhos
Ao primeiro sinal do sol,
São esses os passos que cantavam ao meu redor:
Grãos de sininhos ritmando minhas abluções.
Me alço alto agora na árvore das estações.
Saiba através desse décimo quinto dia de lua
Que são as lágrimas – até aqui –
Que coroam tua ausência,
Alegam gota a gota tua imagem
Tão pesada sobre minha pupila;
À noite em minha esteira eu velo toda encharcada de ti
Como se tu me habitasses uma segunda vez.
(tradução de Leo Gonçalves)
:
Nouvelles de ma mère
Jean-Baptiste Tati Loutard
Je suis maintenant très haut dans l’arbre des saiasons;
En bas je contemple la terre ferme du passé.
Quando les champs s’ouvraient aux semailles,
Avant que le baobab n’épaule quelques oiseaux
Au premier signal du soleil,
Ce sont tes pas qui chantaient autor de moi:
Grains de clochettes rythmant mes ablutions.
Je suis maintenant très haut dans l’arbre des saisons.
Apprends par ce quinzième jour de lune,
Que ce sont les larmes – jusqu’ici –
Qui comblent ton absence,
Allègent goutte à goutte ton image
Trop lourde sur ma pupille;
Le soir sur ma natte je veille toute trempée de toi
Comme si tu m’habitais une seconde fois.
(do livro Poèmes de la mer, 1968)
.
.
.
923
Luiz de Aquino
Mudanças
Mudanças
Eu tenho uma vaga lembrança
deste prédio, desta casa.
Fui feliz aqui, eu sei,
mas me lembro pouco de ter estado aqui,
me lembro pouco de ter-te assim
tão próxima
e até de ter sido feliz.
Eu tenho uma vaga lembrança
de ter estado aqui
mas gosto de estar aqui.
E te convido para estar comigo
sempre
para estar comigo ao meu lado,
do meu lado,
onde estou daqui para sempre.
Eu tenho uma vaga lembrança
deste prédio, desta casa.
Fui feliz aqui, eu sei,
mas me lembro pouco de ter estado aqui,
me lembro pouco de ter-te assim
tão próxima
e até de ter sido feliz.
Eu tenho uma vaga lembrança
de ter estado aqui
mas gosto de estar aqui.
E te convido para estar comigo
sempre
para estar comigo ao meu lado,
do meu lado,
onde estou daqui para sempre.
949
Pablo Neruda
Solidão
Viajante, estou só na Rua da Huchette. É manhã.
Nem um só vestígio de ontem ficou colado nos muros.
Prepara-se o depois de amanhã na noite ruidosa
que passa enredada na névoa que sobe das cabeleiras.
Há um vago silêncio apoiado por uma guitarra tardia.
E compreendo que nesta minúscula ruela tortuosa
alguém toca a rebater o metal invisível
de um agudo sino que estende na noite seu círculo
e no mapa redondo baixando a vista descubro
caminhos de formiga que vêm sulcando o outono e os mares
e vão deslizando figuras que caem do mapa da Austrália,
que descem da Suécia nos trens da madrugada deserta,
pequenos caminhos de inseto que perfuram o ar e a terra
e que se desprenderam da Espanha, da Escócia, do Golfo do México,
tradeando buracos que tarde ou cedo penetram a terra
e aqui à meia-noite destapa a noite seu frio orifício
e assoma a fronte de algum colombiano que amarra no cinto
tua velha pistola e a louca guitarra dos guerrilheiros.
Talvez Aragón junto a Elsa estendeu o arquipélago
de seus sonhos povoados por amplas sereias que penteiam a música
e sobre a Rua de Varennes uma estrela, a única do céu vazio,
abre e fecha suas pálpebras de diamante e platina,
e mais longe o traje fragrante da França se guarda em uma arca
porque dormem as vinhas e o vinho nos barris prepara
a saída do sol, professor de francês no céu.
Para Menilmontant, nos meus tempos, para os acordeões
do ano de milnovecentosevinte acudíamos: era sério o encontro
com a malandragem de guimba na boca e brutal aparência.
Eu dancei com Friné Lavatier, com Marise e com quem?
Ah com quem? Fogem-me os nomes do baile
mas continuo dançando a “java” no impuro subúrbio
e viver era então tão fácil como o pão que se come nos trens,
como andar no campo assobiando, festejado pela primavera.
Nem um só vestígio de ontem ficou colado nos muros.
Prepara-se o depois de amanhã na noite ruidosa
que passa enredada na névoa que sobe das cabeleiras.
Há um vago silêncio apoiado por uma guitarra tardia.
E compreendo que nesta minúscula ruela tortuosa
alguém toca a rebater o metal invisível
de um agudo sino que estende na noite seu círculo
e no mapa redondo baixando a vista descubro
caminhos de formiga que vêm sulcando o outono e os mares
e vão deslizando figuras que caem do mapa da Austrália,
que descem da Suécia nos trens da madrugada deserta,
pequenos caminhos de inseto que perfuram o ar e a terra
e que se desprenderam da Espanha, da Escócia, do Golfo do México,
tradeando buracos que tarde ou cedo penetram a terra
e aqui à meia-noite destapa a noite seu frio orifício
e assoma a fronte de algum colombiano que amarra no cinto
tua velha pistola e a louca guitarra dos guerrilheiros.
Talvez Aragón junto a Elsa estendeu o arquipélago
de seus sonhos povoados por amplas sereias que penteiam a música
e sobre a Rua de Varennes uma estrela, a única do céu vazio,
abre e fecha suas pálpebras de diamante e platina,
e mais longe o traje fragrante da França se guarda em uma arca
porque dormem as vinhas e o vinho nos barris prepara
a saída do sol, professor de francês no céu.
Para Menilmontant, nos meus tempos, para os acordeões
do ano de milnovecentosevinte acudíamos: era sério o encontro
com a malandragem de guimba na boca e brutal aparência.
Eu dancei com Friné Lavatier, com Marise e com quem?
Ah com quem? Fogem-me os nomes do baile
mas continuo dançando a “java” no impuro subúrbio
e viver era então tão fácil como o pão que se come nos trens,
como andar no campo assobiando, festejado pela primavera.
1 261
Marta Gonçalves
Noite
Tenho nos olhos suas mãos
olhando açucenas na jarra.
O tempo vai multiplicar a noite.
olhando açucenas na jarra.
O tempo vai multiplicar a noite.
1 001
Marta Gonçalves
Retrato do Poeta
Companheiro do vento, rosto de sal.
Ontem existia energia nos olhos.
O pórtico do tempo aberto ao silêncio
da alma.
Nossos fracassos nossos fracassos
desenhados na imaginação.
Ontem existia energia nos olhos.
O pórtico do tempo aberto ao silêncio
da alma.
Nossos fracassos nossos fracassos
desenhados na imaginação.
1 033
Marta Gonçalves
O canário da Menina
Menina na calçada olhava os passarinhos
Seu Lolô, de gravata borboleta, descia a rua:
Vou trazer um canário pra menina.
Na avenida, o bonde passava, a enxurrada passava.
Tempo de manga, tempo de goiaba, tempo de papagaios.
Menina na calçada, seu Lolô descendo a rua.
No amor, a menina bateu asas.
Voou nos rostos. Beijou faces.
Sonhou com o mar. Descobriu o infinito vôo
da gaivota.
Tanto passarinho tantos vôos tanta saudade.
Seu Lolô, de gravata borboleta, descia a rua:
Vou trazer um canário pra menina.
Na avenida, o bonde passava, a enxurrada passava.
Tempo de manga, tempo de goiaba, tempo de papagaios.
Menina na calçada, seu Lolô descendo a rua.
No amor, a menina bateu asas.
Voou nos rostos. Beijou faces.
Sonhou com o mar. Descobriu o infinito vôo
da gaivota.
Tanto passarinho tantos vôos tanta saudade.
1 087
Nóbrega e Sousa
Procuro e não te encontro
Procuro e não te encontro
não paro, nem volto atrás
Eu sei, dizem todos que é loucura
Eu andar à tua procura
Sabendo bem onde tu estás!
Procuro e não te encontro
Procuro nem sei o quê!
Só sei, que por vezes ficamos frente a frente
E ao ver-te ali finalmente
Procuro, mas não te encontro!
Preferes a outra e queres
Que eu nunca, vá ter contigo
Por isso, tenho um caminho marcado
E vou procurar-te ao passado
Para lembrar o amor antigo
Procuro e não te encontro,
Procuro, nem sei o quê
Só sei, que por vezes ficamos frente a frente
E ao ver-te ali finalmente
Procuro, mas... não te encontro!
não paro, nem volto atrás
Eu sei, dizem todos que é loucura
Eu andar à tua procura
Sabendo bem onde tu estás!
Procuro e não te encontro
Procuro nem sei o quê!
Só sei, que por vezes ficamos frente a frente
E ao ver-te ali finalmente
Procuro, mas não te encontro!
Preferes a outra e queres
Que eu nunca, vá ter contigo
Por isso, tenho um caminho marcado
E vou procurar-te ao passado
Para lembrar o amor antigo
Procuro e não te encontro,
Procuro, nem sei o quê
Só sei, que por vezes ficamos frente a frente
E ao ver-te ali finalmente
Procuro, mas... não te encontro!
1 510
Luiz de Aquino
Precognição
Precognição
Gosto da vida e deixo
que a noite me vista
de escuro.
Nem sempre é de justo
mostrar-se às claras:
hoje sou como era
quando ainda sonhava
com o futuro.
Pode ser que ainda cresça,
mas é bom ser criança
de gris e de rugas.
Gosto da vida e deixo
que a noite me vista
de escuro.
Nem sempre é de justo
mostrar-se às claras:
hoje sou como era
quando ainda sonhava
com o futuro.
Pode ser que ainda cresça,
mas é bom ser criança
de gris e de rugas.
916
Marta Gonçalves
Morreram as Videiras na Quinta
I
Jogávamos vôlei na beira da tarde
o cabelo era louro o dolmã verde.
Amava o verde da veste. Havia cheiro
de maçã. Havia amor pelo moço de dolmã.
II
Os pássaros em muitas tardes se foram.
Vieram anos de silêncio. Celas de solidão
e medo. Março secou o mar a areia cobriu
palavras. A giesta formou sangue no fim da noite.
III
As árvores verdes marcaram o tempo
marcaram o cansaço o temor da morte.
IV
A música chegava quebrada nas montanhas.
A poesia era o uivo do lobo no amanhecer.
V
Chegaste trazendo o sol nos olhos.
Lembrei o moço de dolmã. Lembrei
o verde crucificado. Lembrei os corpos
enterrados em valas profundas.
VI
Viste com o beijo nos lábios. Nas mãos
o afeto. Havia água cobrindo a febre.
Habitava o verde-oliva nas manhãs.
Verde pântano no porto da alma.
VII
Quando vi a patente em seu casaco,
quando vi o sangue dos meus irmãos
nos porões, morreram as videiras na quinta.
Parti
não entendeste minha ida.
Eras bom e o céu escuro
vestia verdevestia verde.
Jogávamos vôlei na beira da tarde
o cabelo era louro o dolmã verde.
Amava o verde da veste. Havia cheiro
de maçã. Havia amor pelo moço de dolmã.
II
Os pássaros em muitas tardes se foram.
Vieram anos de silêncio. Celas de solidão
e medo. Março secou o mar a areia cobriu
palavras. A giesta formou sangue no fim da noite.
III
As árvores verdes marcaram o tempo
marcaram o cansaço o temor da morte.
IV
A música chegava quebrada nas montanhas.
A poesia era o uivo do lobo no amanhecer.
V
Chegaste trazendo o sol nos olhos.
Lembrei o moço de dolmã. Lembrei
o verde crucificado. Lembrei os corpos
enterrados em valas profundas.
VI
Viste com o beijo nos lábios. Nas mãos
o afeto. Havia água cobrindo a febre.
Habitava o verde-oliva nas manhãs.
Verde pântano no porto da alma.
VII
Quando vi a patente em seu casaco,
quando vi o sangue dos meus irmãos
nos porões, morreram as videiras na quinta.
Parti
não entendeste minha ida.
Eras bom e o céu escuro
vestia verdevestia verde.
913
Luiz de Aquino
Discurso de posse
A cidade — era assim que a chamávamos — não era mais que meia dúzia de ruas casca-lhadas, vermelhas, determinadas por casas hu-mildes onde habitavam pessoas igualmente hu-mildes, além de uns poucos e austeros senhores que jamais imaginávamos em mangas de cami-sa. Na praça, a única praça, o maior edifício era a igreja, mutilada em uma das torres, presidindo o largo onde, poucos anos antes, um jovem prefeito começara a construir o jardim. Aborta-do o projeto pela redemocratização que se se-guiu ao término da Segunda Grande Guerra, fi-cou apenas um calçamento em quadrado, já de-lineadas as alas de travessia.
Aquele começo de urbanização do único logradouro público de convívio e lazer — início inevitável de dezenas de novas famílias e que se resumia ao quadrado de cimento, postes orna-mentais e mudas crescentes de fícus em cada canto — é o cartão-postal que mais evoca a in-fância na remota e esquecida Caldas Novas das boas imagens. O despertar para o turismo nos anos 20 de mim, ou, se preferirem, a casa do tempo que vai de 1965 a 1975, foi significativo. Amadureceu o homem, transfigurou a cidadela.
Hoje, a lembrança dos anos verdes não confere com o cartão-postal que lhe deveria equivaler. As lembranças da paisagem são re-motas. Ficou o recordar do modo de sentir, do jeito de crescer. Há a lembrança das histórias contadas por minha mãe e que serviam para evocar o sono, um livro de páginas amareladas e capa dura, os Contos da Carochinha lidos com voz de acalanto, o beijo na testa, a oração de pedir que Deus nos protegesse e de esperar per-dão pelo dia de alegrias, como se fosse pecado ser criança e feliz.
Desde os mais tenros anos, os acordes em saraus musicais e suas inevitáveis conseqüênci-as, as serenatas, mostravam a carícia dos versos, vestidos em vestes as mais nobres, quais sejam as linhas melódicas. Era ainda um tempo de re-viver preciosidades de Chiquinha Gonzaga, Er-nesto Nazaré, Zequinha de Abreu, Noel Rosa e Lamartine Babo, mas sem desprezar as novida-des, e a novidade mais interessante era Luiz Gonzaga, cantando versos de Humberto Teixei-ra.
A esse ambiente, atribuo a razão de fugir das escalações para o joguinho de bola ao lado da igreja, preferindo dedicar-me a um novo e solitário passatempo, a leitura de imensas pilhas de gibis, descobertos entre os tesouros do primo Rogério, estudante interno em Araguari. Aquele acervo me convenceria, anos depois, que seu dono não teria sido um aluno 0brilhante, mas sempre o respeitaria por ser o responsável, entre outras qualidades e valores morais, pelo prazer descoberto do manuseio dessas coisas feitas em papel e tinta, pelas inebriantes viagens pelo des-conhecido e pelo inusitado a partir das páginas dos livros.
Tanta delonga sobre a infância para tentar justificar o ofício de escriba, a qualidade que me permitiu a sobrevivência nesta terra em que o berro do boi e a extensão monótona dos arais e dos vergéis valem mais que o cultivo das letras.
Acredito nas letras e nas mulheres e ho-mens de letras. E essa crença remonta aos anos dos primeiros aprendizados. Sou do tempo em que estudar os versos era indispensável, mas versejar era considerado uma prática afeminada. Nos primórdios do curso ginasial, no sempre amado Colégio Pedro II, questionava esse con-ceito ao observar que os versos que nos davam de beber foram, em sua quase totalidade abso-luta, criados por homens. E homens que tiveram força na história e geraram famílias que deles se orgulhavam. Já naquela época, no chacoalhar do trem de todos os dias a caminho do colégio, o ritmo das rodas duras sobre os rijos trilhos e o jogar inquieto dos vagões insinuavam versos. Imaginava-me Bandeira a criar a onomotopéia: "Café-com-pão, café-com-pão, café-com-pão... Voa fumaça, corre cerca, ai, seu foguista, bota fogo na fornalha que eu preciso muita força, muita força, muita força..."
Sim, o menino precisava força. Não a for-ça dos tenazes conquistadores de espaços geo-gráficos, nem a força dos que erguem obras físi-cas ou constroem impérios. Geógrafo de forma-ção, parece que nasci para historiar. E como a força de que precisava não era para construir maravilhas da engenharia, o jornalismo foi cres-cendo como opção e prazer, tornando-se profis-são pouco após ter vindo a lume meu livro de estréia.
Leitor de colunistas como Adalgiza Nery, Stanislaw Ponte Preta e Nelson Rodrigues, em tempos da vivência adolescente na velha capital federal, encontrei em Anatole Ramos e Carmo Bernardes meus preferidos após o retorno ao Planalto Central, ambos cronistas no semanário Cinco de Março, depois no matutino O Popu-lar, teimosos em contestar o regime, hábeis em dizer pensamentos em letras de forma de modo a engambelar os censores.
Com o tempo, aprenderia a apreciar ou-tros notáveis homens de letras de nossa terra, em textos de jornais e de livros, e vou restringi-los aos membros desta Casa para não fazer desta peça, escrita para a fala, um enfadonho desfilar de nomes a que sou grato pelo bem que me fizeram ao espírito e pelo aprendizado. Fi-quemos, pois, em Bariani, Eli, Bernardo, Castro Quinta, os irmãos Mendonça Teles, meu velho amigo Coelho Vaz, meu quase irmão Brasigóis, Eliézer Penna — meu editor no já citado Cinco de Março —, Asmar e Bittencourt — compa-nheiros na Folha de Goiaz — e Eurico Barbosa — com quem convivi no Diário da Manhã.
A Carmo Bernardes atribuo o ato da pro-vocação para que me oferecesse ante as senho-ras e os senhores membros desta Academia. Demorei-me a tomar a decisão, e o fiz no mo-mento em que vagava a Cadeira número 8, do meu velho mestre José Sizenando Jayme, sendo vencido pelo notável Isócrates de Oliveira, vigá-rio de minha infância na pacata Caldas Novas. Naquela disputa, uma certeza nos norteava — assegurar um lampejo de continuidade na Cadei-ra, pois que o eleito, como seu antecessor, nas-ceram em Pirenópolis, cidade natal de meu pai e meu torrão preferido pelo sedimento das ori-gens.
Acredito que o fato de vir a ocupar a Ca-deira número 10, a mesma que ocupava Carmo Bernardes, cumpre uma ação de destino. Acom-panhei seus escritos de resistência desde os primórdios de 1963; preocupei-me quando de seu exílio nas lezírias do Araguaia, nos tempos tumultuados do golpe militar de 1964, e pude rir, feliz, ao ouvir que o general Riograndino Kruel, um dos líderes do sectário golpe, o teve por guia de pescaria, sem saber de sua vida. So-zinhos, na solidão dos lagos piscosos do Bana-nal, no limitado espaço de uma canoa, tendo entre ambos não mais que varas, linhas, iscas e molinete e uma espingarda. Talvez providencial, fosse Carmo sanguinário.
Carmo Bernardes trazia na índole a tradi-ção do bom mineiro, o homem da terra, o caipi-ra, na mais pura das acepções do termo, o ho-mem silencioso, observador, que pisa com segu-rança o terreno porque sabe que o mato reserva surpresas ao pé descalço. Mas corajoso o bas-tante para expor sua opinião, espalhar ao mundo sua indignação e mostrar aos que se julgam po-derosos que o poder de verdade é maior que a chance que conseguem alguns de manipular o patrimônio público a bel-prazer. A estes, a his-tória reserva a verdade de suas naturezas; a ho-mens como Carmo, fica assegurado o lugar que lhes cabe por direito de vida, qual seja o reco-nhecimento e o respeito de seus pósteros.
Não gostaria de biografá-lo; muito já se escreveu sobre ele.
Não tenho estatura crítica para apreciar sua obra, e isto já se fez no âmbito acadêmico, até mesmo em redações de mestrado e teses de doutorado. Nunca fui mais que um mero leitor , aprendiz de sua verve. Com ele, em suas crôni-cas e artigos da década de 60, tive excelentes lições de jornalismo — a principal delas talvez seja a prática que cultivo de não pôr em letras de forma o nome de quem não o mereça.
Por patrono, tenho o também jornalista Moisés Augusto de Santana. Vilaboense, nasci-do no dia 7 de fevereiro de 1879, quis ser mili-tar. O temperamento irrequieto e a indisciplina de homem
Aquele começo de urbanização do único logradouro público de convívio e lazer — início inevitável de dezenas de novas famílias e que se resumia ao quadrado de cimento, postes orna-mentais e mudas crescentes de fícus em cada canto — é o cartão-postal que mais evoca a in-fância na remota e esquecida Caldas Novas das boas imagens. O despertar para o turismo nos anos 20 de mim, ou, se preferirem, a casa do tempo que vai de 1965 a 1975, foi significativo. Amadureceu o homem, transfigurou a cidadela.
Hoje, a lembrança dos anos verdes não confere com o cartão-postal que lhe deveria equivaler. As lembranças da paisagem são re-motas. Ficou o recordar do modo de sentir, do jeito de crescer. Há a lembrança das histórias contadas por minha mãe e que serviam para evocar o sono, um livro de páginas amareladas e capa dura, os Contos da Carochinha lidos com voz de acalanto, o beijo na testa, a oração de pedir que Deus nos protegesse e de esperar per-dão pelo dia de alegrias, como se fosse pecado ser criança e feliz.
Desde os mais tenros anos, os acordes em saraus musicais e suas inevitáveis conseqüênci-as, as serenatas, mostravam a carícia dos versos, vestidos em vestes as mais nobres, quais sejam as linhas melódicas. Era ainda um tempo de re-viver preciosidades de Chiquinha Gonzaga, Er-nesto Nazaré, Zequinha de Abreu, Noel Rosa e Lamartine Babo, mas sem desprezar as novida-des, e a novidade mais interessante era Luiz Gonzaga, cantando versos de Humberto Teixei-ra.
A esse ambiente, atribuo a razão de fugir das escalações para o joguinho de bola ao lado da igreja, preferindo dedicar-me a um novo e solitário passatempo, a leitura de imensas pilhas de gibis, descobertos entre os tesouros do primo Rogério, estudante interno em Araguari. Aquele acervo me convenceria, anos depois, que seu dono não teria sido um aluno 0brilhante, mas sempre o respeitaria por ser o responsável, entre outras qualidades e valores morais, pelo prazer descoberto do manuseio dessas coisas feitas em papel e tinta, pelas inebriantes viagens pelo des-conhecido e pelo inusitado a partir das páginas dos livros.
Tanta delonga sobre a infância para tentar justificar o ofício de escriba, a qualidade que me permitiu a sobrevivência nesta terra em que o berro do boi e a extensão monótona dos arais e dos vergéis valem mais que o cultivo das letras.
Acredito nas letras e nas mulheres e ho-mens de letras. E essa crença remonta aos anos dos primeiros aprendizados. Sou do tempo em que estudar os versos era indispensável, mas versejar era considerado uma prática afeminada. Nos primórdios do curso ginasial, no sempre amado Colégio Pedro II, questionava esse con-ceito ao observar que os versos que nos davam de beber foram, em sua quase totalidade abso-luta, criados por homens. E homens que tiveram força na história e geraram famílias que deles se orgulhavam. Já naquela época, no chacoalhar do trem de todos os dias a caminho do colégio, o ritmo das rodas duras sobre os rijos trilhos e o jogar inquieto dos vagões insinuavam versos. Imaginava-me Bandeira a criar a onomotopéia: "Café-com-pão, café-com-pão, café-com-pão... Voa fumaça, corre cerca, ai, seu foguista, bota fogo na fornalha que eu preciso muita força, muita força, muita força..."
Sim, o menino precisava força. Não a for-ça dos tenazes conquistadores de espaços geo-gráficos, nem a força dos que erguem obras físi-cas ou constroem impérios. Geógrafo de forma-ção, parece que nasci para historiar. E como a força de que precisava não era para construir maravilhas da engenharia, o jornalismo foi cres-cendo como opção e prazer, tornando-se profis-são pouco após ter vindo a lume meu livro de estréia.
Leitor de colunistas como Adalgiza Nery, Stanislaw Ponte Preta e Nelson Rodrigues, em tempos da vivência adolescente na velha capital federal, encontrei em Anatole Ramos e Carmo Bernardes meus preferidos após o retorno ao Planalto Central, ambos cronistas no semanário Cinco de Março, depois no matutino O Popu-lar, teimosos em contestar o regime, hábeis em dizer pensamentos em letras de forma de modo a engambelar os censores.
Com o tempo, aprenderia a apreciar ou-tros notáveis homens de letras de nossa terra, em textos de jornais e de livros, e vou restringi-los aos membros desta Casa para não fazer desta peça, escrita para a fala, um enfadonho desfilar de nomes a que sou grato pelo bem que me fizeram ao espírito e pelo aprendizado. Fi-quemos, pois, em Bariani, Eli, Bernardo, Castro Quinta, os irmãos Mendonça Teles, meu velho amigo Coelho Vaz, meu quase irmão Brasigóis, Eliézer Penna — meu editor no já citado Cinco de Março —, Asmar e Bittencourt — compa-nheiros na Folha de Goiaz — e Eurico Barbosa — com quem convivi no Diário da Manhã.
A Carmo Bernardes atribuo o ato da pro-vocação para que me oferecesse ante as senho-ras e os senhores membros desta Academia. Demorei-me a tomar a decisão, e o fiz no mo-mento em que vagava a Cadeira número 8, do meu velho mestre José Sizenando Jayme, sendo vencido pelo notável Isócrates de Oliveira, vigá-rio de minha infância na pacata Caldas Novas. Naquela disputa, uma certeza nos norteava — assegurar um lampejo de continuidade na Cadei-ra, pois que o eleito, como seu antecessor, nas-ceram em Pirenópolis, cidade natal de meu pai e meu torrão preferido pelo sedimento das ori-gens.
Acredito que o fato de vir a ocupar a Ca-deira número 10, a mesma que ocupava Carmo Bernardes, cumpre uma ação de destino. Acom-panhei seus escritos de resistência desde os primórdios de 1963; preocupei-me quando de seu exílio nas lezírias do Araguaia, nos tempos tumultuados do golpe militar de 1964, e pude rir, feliz, ao ouvir que o general Riograndino Kruel, um dos líderes do sectário golpe, o teve por guia de pescaria, sem saber de sua vida. So-zinhos, na solidão dos lagos piscosos do Bana-nal, no limitado espaço de uma canoa, tendo entre ambos não mais que varas, linhas, iscas e molinete e uma espingarda. Talvez providencial, fosse Carmo sanguinário.
Carmo Bernardes trazia na índole a tradi-ção do bom mineiro, o homem da terra, o caipi-ra, na mais pura das acepções do termo, o ho-mem silencioso, observador, que pisa com segu-rança o terreno porque sabe que o mato reserva surpresas ao pé descalço. Mas corajoso o bas-tante para expor sua opinião, espalhar ao mundo sua indignação e mostrar aos que se julgam po-derosos que o poder de verdade é maior que a chance que conseguem alguns de manipular o patrimônio público a bel-prazer. A estes, a his-tória reserva a verdade de suas naturezas; a ho-mens como Carmo, fica assegurado o lugar que lhes cabe por direito de vida, qual seja o reco-nhecimento e o respeito de seus pósteros.
Não gostaria de biografá-lo; muito já se escreveu sobre ele.
Não tenho estatura crítica para apreciar sua obra, e isto já se fez no âmbito acadêmico, até mesmo em redações de mestrado e teses de doutorado. Nunca fui mais que um mero leitor , aprendiz de sua verve. Com ele, em suas crôni-cas e artigos da década de 60, tive excelentes lições de jornalismo — a principal delas talvez seja a prática que cultivo de não pôr em letras de forma o nome de quem não o mereça.
Por patrono, tenho o também jornalista Moisés Augusto de Santana. Vilaboense, nasci-do no dia 7 de fevereiro de 1879, quis ser mili-tar. O temperamento irrequieto e a indisciplina de homem
898
Maurício Batarce
Desventuras
Ao longe meus olhos encerram,
Na língua do martírio,
Um sorriso novo ao longo
Do mundo que giro...
Nas vozes loucas,
Em meio à vida,
Recebo um sonho
De despedidas...
Nunca senti a voz da tortura.
Nem uma turva idéia errante.
Sempre busquei nas amarguras,
As faces de minha vida infante...
Música se ouve
E o amor me vem.
Estou só comigo mesmo,
Mas ainda assim tenho alguém...
Na língua do martírio,
Um sorriso novo ao longo
Do mundo que giro...
Nas vozes loucas,
Em meio à vida,
Recebo um sonho
De despedidas...
Nunca senti a voz da tortura.
Nem uma turva idéia errante.
Sempre busquei nas amarguras,
As faces de minha vida infante...
Música se ouve
E o amor me vem.
Estou só comigo mesmo,
Mas ainda assim tenho alguém...
808
Albano Dias Martins
As palavras
em trânsito
Resvalas neste sopro.
Sabes
que tens o olhar ferido
desde sempre, que o incêndio
das palavras em trânsito celebra
prescritas sílabas, ancorados
ritos, desprevenidos
equinócios.
Dantes,
havia um mar crispado
na fissura dos lábios. Hoje, apenas
algumas gotas de sal.
in:O Mesmo
Nome(1996)
Resvalas neste sopro.
Sabes
que tens o olhar ferido
desde sempre, que o incêndio
das palavras em trânsito celebra
prescritas sílabas, ancorados
ritos, desprevenidos
equinócios.
Dantes,
havia um mar crispado
na fissura dos lábios. Hoje, apenas
algumas gotas de sal.
in:O Mesmo
Nome(1996)
1 252
Gonzalo Rojas
A lepra
Ainda lembro a minha aula de Retórica.
Cerimônia do Juízo Final. Um grande silêncio
até que o Professor irrompia: “Sentem-se”.
“Trago-lhes carne fresca”. E esvaziava um pacote
de algo mole e viscoso
envolto em jornais velhos como um peixe cru
sobre a mesa em que celebrava sua missa.
“Capítulo Primeiro”. “O estilo do homem
corresponde a um defeito em sua língua”. E mostrava
uma língua comida por moscas de ataúde
para ilustrar sua tese com a luz do exemplo.
“Olhem: a língua inglesa não é a língua espanhola”.
“Aqui tenho a língua de Cervantes. Sua forma
de espada não coincide com o eco do paladar”. O Professor falava
de condições, traços, influências,
metáforas, estrofes. E cada afirmação
era provada pela Crítica.
Ora, os pontos de vista da Crítica
– pobres vasilhas vazias –
eram toda essa carne palpitante
saqueada dos mais diferentes cemitérios:
línguas, dentes, narizes, pulmões, ventres, mãos,
que um dia foram órgãos dos grandes autores,
hoje, tumores malignos servidos em bandejas
por professores-asnos a discípulos-asnos
dentro de uma sala-esgoto.
Garotos e garotas extasiados
copiavam em “papéis” todas as proporções
de uma obra-prima: as leis da lírica,
da épica e do dramática, causas e conseqüências,
a decadência, o desenvolver
das literaturas.
Ante tal entusiasmo,
o cheiro dos restos dos grandes autores
mesclava-se ao cheiro desses belos defuntos
sentados na cadeira do seu próprio excremento,
e a corrente de ar era uma imundície só,
enquanto a admiração chegava ao descomedido
quando esse Professor: “Se aprenderem – dizia-nos –
os requisitos da criação,
serão fortes rivais de Goethe. E superiores.”
E encerrava sua aula.
Guardava todos os despojos nojentos
em seu pacote e, com a cabeça erguida,
coroado com louros pelo bom êxito,
virava-nos as costas como um Deus do Olimpo
que regressa à sua concha.
Ainda recordo minha aula de Retórica
em que a vida e a beleza
eram um prato de carne podre.
Tive que cortar a língua na raiz
para livrar-me da lepra.
(tradução de Fabiano Calixto, publicada originalmente no primeiro número impresso da Modo de Usar & Co., novembro de 2007.)
:
LA LEPRA: Todavía recuerdo mi clase de Retórica. / Ceremonia del Juicio Final. Un gran silencio / hasta que el Profesor irrumpía: “Sentaos”. / “Os traigo carne fresca”. Y vaciaba un paquete / de algo blando y viscoso / envuelto en diarios viejos como un pescado crudo, / sobre la mesa en que él oficiaba su misa. // “Capítulo Primero”. / “El estilo del hombre / corresponde a un defecto de su lengua”. Y mostraba / una lengua comida por moscas de ataúd / para ilustrar su tesis con la luz del ejemplo. // “Mirad: la lengua inglesa no es la lengua española” / “Aquí tengo la lengua de Cervantes. Su forma / de espada no coincide con el hueco del paladar”. El Profesor hablaba / de condiciones, rasgos, influencias, / metáforas, estrofas. Y cada afirmación / era probada por la Crítica // Ahora bien, los puntos de vistas de la Crítica / – pobres cuencas vacías – / eran toda esa carne palpitante / saqueada a los distintos cementerios: / lenguas, dientes, narices, pulmones, vientres, manos / que un día fueron órganos de los grandes autores, / hoy tumores malignos servidos en bandejas / por profesores-asnos a discípulos-asnos / adentro de una sala-alcantarilla. // Donceles y doncellas extasiados / copiaban en “papeles” todas las proporciones / de una obra maestra: las leyes de la lírica / la épica u dramática, causas y consecuencias, / la decadencia, el desarrollo / de las literaturas. // Ante tal entusiasmo, / el olor de los restos de los grandes autores / se mezclaba al olor de esos bellos difuntos / sentados en la silla de su propio excremento, / y una sola corriente de inmundicia era el aire, / mientras la admiración llegaba a al desenfreno / cuando ese Profesor: “Si aprendéis – nos decía – / los requisitos de la creación, / seréis fieros rivales de Goethe, y superiores.” // Y cerraba su clase. / Guardaba todos los despojos nauseabundos / en su paquete, y con la frente en alto, / coronado en laurel por su buen éxito / nos volvía la espalda como un Dios del Olimpo / que regresa a su concha. // Todavía recuerdo mi clase de Retórica / en que la vida y la belleza / eran un plato de carne podrida. // Yo tuve que cortarme la lengua en la raíz / para librarme de la lepra.
Cerimônia do Juízo Final. Um grande silêncio
até que o Professor irrompia: “Sentem-se”.
“Trago-lhes carne fresca”. E esvaziava um pacote
de algo mole e viscoso
envolto em jornais velhos como um peixe cru
sobre a mesa em que celebrava sua missa.
“Capítulo Primeiro”. “O estilo do homem
corresponde a um defeito em sua língua”. E mostrava
uma língua comida por moscas de ataúde
para ilustrar sua tese com a luz do exemplo.
“Olhem: a língua inglesa não é a língua espanhola”.
“Aqui tenho a língua de Cervantes. Sua forma
de espada não coincide com o eco do paladar”. O Professor falava
de condições, traços, influências,
metáforas, estrofes. E cada afirmação
era provada pela Crítica.
Ora, os pontos de vista da Crítica
– pobres vasilhas vazias –
eram toda essa carne palpitante
saqueada dos mais diferentes cemitérios:
línguas, dentes, narizes, pulmões, ventres, mãos,
que um dia foram órgãos dos grandes autores,
hoje, tumores malignos servidos em bandejas
por professores-asnos a discípulos-asnos
dentro de uma sala-esgoto.
Garotos e garotas extasiados
copiavam em “papéis” todas as proporções
de uma obra-prima: as leis da lírica,
da épica e do dramática, causas e conseqüências,
a decadência, o desenvolver
das literaturas.
Ante tal entusiasmo,
o cheiro dos restos dos grandes autores
mesclava-se ao cheiro desses belos defuntos
sentados na cadeira do seu próprio excremento,
e a corrente de ar era uma imundície só,
enquanto a admiração chegava ao descomedido
quando esse Professor: “Se aprenderem – dizia-nos –
os requisitos da criação,
serão fortes rivais de Goethe. E superiores.”
E encerrava sua aula.
Guardava todos os despojos nojentos
em seu pacote e, com a cabeça erguida,
coroado com louros pelo bom êxito,
virava-nos as costas como um Deus do Olimpo
que regressa à sua concha.
Ainda recordo minha aula de Retórica
em que a vida e a beleza
eram um prato de carne podre.
Tive que cortar a língua na raiz
para livrar-me da lepra.
(tradução de Fabiano Calixto, publicada originalmente no primeiro número impresso da Modo de Usar & Co., novembro de 2007.)
:
LA LEPRA: Todavía recuerdo mi clase de Retórica. / Ceremonia del Juicio Final. Un gran silencio / hasta que el Profesor irrumpía: “Sentaos”. / “Os traigo carne fresca”. Y vaciaba un paquete / de algo blando y viscoso / envuelto en diarios viejos como un pescado crudo, / sobre la mesa en que él oficiaba su misa. // “Capítulo Primero”. / “El estilo del hombre / corresponde a un defecto de su lengua”. Y mostraba / una lengua comida por moscas de ataúd / para ilustrar su tesis con la luz del ejemplo. // “Mirad: la lengua inglesa no es la lengua española” / “Aquí tengo la lengua de Cervantes. Su forma / de espada no coincide con el hueco del paladar”. El Profesor hablaba / de condiciones, rasgos, influencias, / metáforas, estrofas. Y cada afirmación / era probada por la Crítica // Ahora bien, los puntos de vistas de la Crítica / – pobres cuencas vacías – / eran toda esa carne palpitante / saqueada a los distintos cementerios: / lenguas, dientes, narices, pulmones, vientres, manos / que un día fueron órganos de los grandes autores, / hoy tumores malignos servidos en bandejas / por profesores-asnos a discípulos-asnos / adentro de una sala-alcantarilla. // Donceles y doncellas extasiados / copiaban en “papeles” todas las proporciones / de una obra maestra: las leyes de la lírica / la épica u dramática, causas y consecuencias, / la decadencia, el desarrollo / de las literaturas. // Ante tal entusiasmo, / el olor de los restos de los grandes autores / se mezclaba al olor de esos bellos difuntos / sentados en la silla de su propio excremento, / y una sola corriente de inmundicia era el aire, / mientras la admiración llegaba a al desenfreno / cuando ese Profesor: “Si aprendéis – nos decía – / los requisitos de la creación, / seréis fieros rivales de Goethe, y superiores.” // Y cerraba su clase. / Guardaba todos los despojos nauseabundos / en su paquete, y con la frente en alto, / coronado en laurel por su buen éxito / nos volvía la espalda como un Dios del Olimpo / que regresa a su concha. // Todavía recuerdo mi clase de Retórica / en que la vida y la belleza / eran un plato de carne podrida. // Yo tuve que cortarme la lengua en la raíz / para librarme de la lepra.
1 331
Moniz Bandeira
Canto do Outubro
Que ficou de teu mundo?
Onde aqueles que te ajudaram a construí-lo?
Os muros tragaram balas e palavras
e a erva cresceu sobre os lábios dos mortos
que a noite ocultou.
Sempre noite, sempre inverno,
flocos de neve caindo
na memória dos que marcaram
as estradas do tempo.
Os mortos.
Sangue, pólvora, cinza, pedra,
e um século preso nos seus dentes.
Vê a alvorada,
a alvorada que vem,
que ainda vem,
que surgirá de lágrimas e de sonhos,
quando nos campos,
verdes campos,
hoje cobertos de neve,
as sementes brotarem e as árvores florescerem.
quando todas as vozes,
rasgando túmulos e quebrando espelhos,
vibrarem nos subterrâneos do mundo.
Vê quantos homens
caminham pela madrugada.
Eles esperam por ti.
Esperam que os relógios sangrem
à dor das horas.
Que os rios contidos
desemboquem pela boca dos mortos
despertados ao canto das aves
e dos clarins de fogo da alvorada.
E o sol,
O sol que tu levaste nas mãos,
será de todos.
Onde aqueles que te ajudaram a construí-lo?
Os muros tragaram balas e palavras
e a erva cresceu sobre os lábios dos mortos
que a noite ocultou.
Sempre noite, sempre inverno,
flocos de neve caindo
na memória dos que marcaram
as estradas do tempo.
Os mortos.
Sangue, pólvora, cinza, pedra,
e um século preso nos seus dentes.
Vê a alvorada,
a alvorada que vem,
que ainda vem,
que surgirá de lágrimas e de sonhos,
quando nos campos,
verdes campos,
hoje cobertos de neve,
as sementes brotarem e as árvores florescerem.
quando todas as vozes,
rasgando túmulos e quebrando espelhos,
vibrarem nos subterrâneos do mundo.
Vê quantos homens
caminham pela madrugada.
Eles esperam por ti.
Esperam que os relógios sangrem
à dor das horas.
Que os rios contidos
desemboquem pela boca dos mortos
despertados ao canto das aves
e dos clarins de fogo da alvorada.
E o sol,
O sol que tu levaste nas mãos,
será de todos.
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