Poemas neste tema

Memórias e Lembranças

Jorge Viegas

Jorge Viegas

Antecipadamente escorregadia

Nas sombras
do luar
O olhar enfeita o vazio
Símbolos alegremente sensíveis
Excitando a dimensão do equilíbrio

Alma volúvel
Que as lendas ancestrais
Diluíram docemente
Em simbioses sentimentais

O corpo ilumina-se
Mistura de ritmos e profecias
E ela enrola-se com o seu calor perfumado

Com os cabelos sombreados
Pelo reflexo dos mistérios
Murmura a canção da pérola apaixonada

Escorrega pelo passado
Criando misturas sensuais
Derretidas pela simetria da paixão
960
Martha Medeiros

Martha Medeiros

revendo assim rapidamente

revendo assim rapidamente
nossa história inacabada
fica um mal-estar
uma coisa meio deprimente
parece que nada aconteceu
de importante
e no entanto foi bom pra nós dois
e antes do depois teve muito durante
926
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Mediadora do Olvido

Não soam grandes vozes no olvido.
Move-se a água não sulcada
de viagens.
Marcas de luz percorrem o silêncio.

Não sinais já. Indícios esquivos.
Simples estar aqui flutuando
no inocente instante.
O eco de uma festa.

A sede de sentido, o ressurgir
no abandono da água do silêncio.
Gestação réptil.
Afirma-se o impenetrável na silenciosa memória.
892
Silvaney Paes

Silvaney Paes

Órfã

Trazemos
no peito a mesma magoa.
Sendo ela a perda, a saudade e a tristeza,
Que sempre verterá lagrimas,
Luminosas claras águas.
Para que nessas nossas almas
Constantemente lavadas,
Nunca cresçam ódio, ira ou raiva,
Tornando-nos criaturas
Amarguradas.

Da presença de teu pai
Foram nossas vidas amputadas,
Mais nunca nos será roubada
A lembrança ou a saudade,
Daquela amada alma,
Pois ficastes como toda a herança
E o espólio desta saga.

Lembrando nos teus tristes traços,
Nos da face ou nos da própria alma,
A passagem em nossas vidas
Daquele ente amado,
Que hoje em ti abraço
Vertendo Lágrimas.

906
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Reportagem Matinal

Subo a Santa Teresa
para ouvir o sino
que na praia não se faz escutar.
(O rumor das ondas o abafa
ou só se escuta no seio do mar?)

Vai comigo o Poeta
relatando a paisagem
de muros intatos.
(Mais depressa morrem os homens
do que as casas de Paula Matos.)

— Neste convento minha prima
vive. Em total recolhimento.

A manhã, nos altos pagos,
tem a claridade primeira.
Velhas coisas se inauguram
continuamente, na luz, novas.

Conhecer-se tão mal o Rio.
Conhecer-se tão pouco o ar.
Conhecer-se nada de tudo.

Eis que ouço a batida nítida
no azul rasgado ao meio
perto
longe
no tempo
em mim.

Quando a palavra já não vale
e os encantamentos se perderam,
resta um sino.

Quando não este, o antigo sineiro
desce o roído degrau da torre
para nunca mais tocar,
resta, pensativo, no adro verde,
o menino escutando o sino.
12/04/1963
1 142
Olegário Mariano

Olegário Mariano

Fulaninha

Foxtrotando pela rua
Vai Fulaninha, seminua,
Tem movimentos de onda do mar.
O corpo moço, a pele fresca,
Futurista, bataclanesca,
Chi! Eu gosto! Nem é bom falar...

Pisa a calçada, toc... toc...
No seu encalço vão a reboque
Peralvilhos, gênios do mal.
E ela nem liga... Continua
Foxtrotando pela rua...
Gentes, Que coisa mais fatal!

Figurino de dia cálido!
O seu semblante moreno-pálido
A mão de um gênio foi que compôs.
Como se chama? Vera? Estefânia?
Meu Luluzinho da Pomerânia,
Meu Luluzinho número 2!

Aonde vais, lindo vagalume?
— Vou ao Bazin comprar perfume...
Guerlain, Houbigant, Coty?
Todo o perfume é o mesmo, ardente,
E alucinante, e estuante, e quente,
Quando o perfume vem de ti.

— Meu bizarro João da Avenida!
Já ficou bom daquela ferida
Que lhe abriram no coração?
— Há muito tempo estou curado.
Por que falar-me do Passado?
E ela pôs os olhos no chão.

E dizer que tu foste... Perdoa...
— Pr'a que dizer? A lembrança é boa
— Lembrar é falta de educação.
— Mas a saudade purifica...
O sofrimento é o único bem que fica
Para a volúpia do perdão!


In: MARIANO, Olegário. Ba-Ta-Clan. Figurinhas de J. Carlos. Rio de Janeiro: B. Costallat & Micolis, 1924
1 031
Martha Medeiros

Martha Medeiros

tão urbana

tão urbana
de repente me falando
de galinhas, porcos, cavalos
fogos e figueiras
do ritual dos bois
no velório dos cachorros
no leite fresco
nas estrelas e nas primas
nos banquetes lá de fora
no frio, no vento
na emoção da natureza
andarilha
criança e nostálgica
romântica
verdadeira e surpreendente
minha mãe
649
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Lira de Jornal

E lá se foi Nehru — a cinza leve
de uma rosa vermelha presa à neve
da jaqueta. Corpo, jasmins ardendo,
e o pequeno Sanjoy, calado, vendo
a figura do avô que já se esfuma.
Eis que da grande vida resta a suma
incombustível, livre de aparência,
ideia pervagante, pura essência,
como a essência final da mesma rosa,
refolhada magia silenciosa.
Já os mortos de Lima, pobrezinhos,
quedarão esquecidos, e os caminhos
que eles pisaram, vaga sombra em muro,
não lhes repetirão o nome obscuro.
O futebol, essa alegria solta,
cede lugar à morte desenvolta,
a morte num estádio, no terror,
a morte sem qualquer gesto de amor.
Ah, corpos alinhados à revista
da tevê e do médico legista!
Mas viremos a página. É verdade
que está faltando açúcar à cidade?
Não creio, pois em cada apartamento
de açúcar há de sacos mais de um cento.
(A gente se defende, é claro.) Mas doçura
mais que todas surpreendo na criatura,
dona linda de casa?, em fila indiana,
rumo da mercearia, esta semana.
O seu olhar adoça qualquer travo,
melhor que a rapadura e que o mascavo.
Dá-me vontade de gritar assim:
— Derramai este açúcar sobre mim!
Mas qual o quê: a dama, olhos tranquilos,
quer é comprar mais oito ou nove quilos.
Volta a dançar, na tela, o Picolino.
— Conhece Fred Astaire? — Era menino
quando ele apareceu… Cine-saudade,
e não, como se quer, cine-verdade.
Seria ideal uma retrospectiva
de filmes e também da vida viva,
matinal, garimpando no cinema
e no mundo o segredo de um teorema!
Aquele fã que amava Greta Garbo
voltando ao velho amor e ao velho garbo…
Mas há outros prazeres no presente.
Este eu prolongo: ler gostosamente
o Brejo alegre que França de Lima
(Geraldo) imaginou em prosa fina.
Muitas vidas miúdas se entretecem,
de um alto amor as chamas resplandecem,
Rosa Maria beija-se em Joal
e acaba-se esta crônica, afinal.
31/05/1964
1 016
Paulo Setúbal

Paulo Setúbal

A Vila

Lembro-me bem dessa vilota rude,
Onde eu me fui, sem gosto e sem saúde,
Buscar um poiso para os meus cansaços.
Que terra triste! Triste e sertaneja:
A escola, a hospedaria, a antiga igreja,
E a capelinha do Senhor dos Passos...

Na esquina, em frente à Câmara, o barbeiro,
Logo depois, num colossal letreiro,
A "Loja Popular" do velho Lopes.
E é bem no largo da Matriz que fica
A sempiterna, a clássica botica,
Com seus reclames de óleos e xaropes...

Ah! Foi aí, nesse ermo de tristeza,
Nessa terreola fúnebre e burguesa,
Tão sem encantos, tão descolorida,
Que eu fui viver, com lágrimas e flores,
No mais cruel amor dos meus amores,
A página melhor da minha vida!


Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Floco de Espuma.

In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 196
2 392
Emídia Felipe

Emídia Felipe

A Janela do Teu Quarto

Da janela do teu quarto
Dá pra ver quase o mundo inteiro
E os teus retratos
Recortes e colagens
Que formam a paisagem de você
Deixa o sol entrar
Então posso lembrar
Que há um só lugar
Em que deveríamos estar
Posso ver até o que perdemos
Por deixar que o tempo
Fizesse a gente esquecer o que era sagrado
Que deixou a correnteza te levar
Pro lado errado
Coisas do passado
Promessas de melhoras
Beijos e abraços
Da janela do teu quarto.
854
João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

Escritos com o Corpo

I

Ela tem tal composição
e bem entramada sintaxe
que só se pode apreendê-la
em conjunto, nunca em detalhe.

Não se vê nenhum termo, nela,
em que a atenção mais se retarde,
e que, por mais significante,
possua, exclusivo, sua chave.

Nem é possível dividi-la,
como a uma sentença, em partes;
menos, do que nela é sentido,
se conseguir uma paráfrase.

E assim como, apenas completa,
ela é capaz de revelar-se,
apenas um corpo completo
tem, de apreendê-la, faculdade.

Apenas um corpo completo
e sem dividir-se em análise
será capaz do corpo a corpo
necessário a que, sem desfalque,

queira prender todos os temas
que pode haver no corpo frase:
que ela, ainda sem se decompor,
revela então, em intensidade.

II

De longe como Mondrians
em reproduções de revista
ela só mostra a indiferente
perfeição da geometria.

Porém de perto, o original
do que era antes correção fria,
sem que a câmara da distância
e suas lentes interfiram,

porém de perto, ao olho perto,
sem intermediárias retinas,
de perto, quando o olho é tato,
ao olho imediato em cima,

se descobre que existe nela
certa insuspeitada energia
que aparece nos Mondrians
se vistos na pintura viva.

E que porém um Mondrian
num ponto se diferencia:
em que nela essa vibração,
que era de longe impercebida,

pode abrir mão da cor acesa
sem que um Mondrian não vibra,
e vibrar com a textura em branco
da pele, ou da tela, sadia.

III

Quando vestido unicamente
com a macieza nua dela,
não apenas sente despido:
sim, de uma forma mais completa.

Então, de fato, está despido,
senão dessa roupa que é ela.
Mas essa roupa nunca veste:
despe de uma outra mais interna.

É que o corpo quando se veste
de ela roupa, da seda ela,
nunca sente mais definido
como com as roupas de regra.

Sente ainda mais que despido:
pois a pele dele, secreta,
logo se esgarça, e eis que ele assume
a pele dela, que ela empresta.

Mas também a pele emprestada
dura bem pouco enquanto véstia:
com pouco, ela toda também,
já se esgarça, se desespessa,

até acabar por nada ter
nem de epiderme nem de seda:
e tudo acabe confundido,
nudez comum, sem mais fronteira.

IV

Está, hoje que não está
numa memória mais de fora.
De fora: como se estivesse
num tipo externo de memória.

Numa memória para o corpo
externa ao corpo, como bolsa,
Que como bolsa, a certos gestos,
o corpo que a leva abalroa.

Memória exterior ao corpo
e não da que de dentro aflora;
E que, feita que é para o corpo,
carrega presenças corpóreas.

Pois nessa memória é que ela,
inesperada se incorpora:
na presença, coisa, volume,
imediata ao corpo, sólida,

e que ora é volume maciço,
entre os braços, neles envolta,
e que ora é volume vazio,
que envolve o corpo, ou o acoita:

como o de uma coisa maciça
que ao mesmo tempo fosse oca,
que o corpo teve, onde já esteve,
e onde o ter e o estar igual fora.
1 629
Jorge Viegas

Jorge Viegas

Saudade

Pairam ascendentes seduções
Nas formas cor de purpura
Da mística brisa distante.

Suaves recordações
Invisíveis fontes puras
Acordam na memória viajante.

Saudade,
Aquele calor sensível
Que se esconde no forro íntimo do sentimento

Aquela onda suave
Que refresca os horizontes da verdade

Aquele arrepio simples
Que se estende pelos sentidos da memória

Aquela fita silenciosa
Que se projecta no interior do peito

Aquele ardor nostálgico
Que se instala na serenidade do horizonte

Aquele murmúrio terno
Que ilumina a canção do olhar

Aquela seiva melancólica
Que alimenta os rios intermináveis do corpo

Há muito que não vejo
Aquele olhar radiante
Sorvendo a sensualidade do ar.

1 292
Luiz Felipe Coelho

Luiz Felipe Coelho

Fora da História

Loucos
monumentos de pedra e tijolo
erguidos a deuses cruéis e a reis insanos
guerras inglórias, impérios exaustos
heróis, profetas e santos
todos povoam o passado,
gravemente.

Tudo é lógico, tudo está registrado em pedras, em papéis, em lendas,
explicam guias turísticos e professores de História
enquanto olhamos pela janela.

Os poderosos venceram batalhas, construíram impérios
massacraram, escravizaram, consolidaram reinos,
salvaram seus povos, fizeram palácios, muralhas e estradas,
sua glória final erguida em pirâmides para os mortos,
gigantescos palácios, templos para os deuses que os protegeram.

Os práticos venceram a Natureza drenando pântanos,
lendo os calendários escritos pelas estrêlas,
ensinando o cultivo de plantas,
construindo canais e cidades,
buscando a imortalidade na cura das doenças,
reescrevendo a superfície da Terra.

Os bons e sábios venceram o Mal,
falaram com a voz da santidade,
convertendo milhões com a sua dor e a sua palavra
(quando tudo isto já for vaga memória
e a maldade tiver reconquistado as almas,
poderemos ainda olhar suas estátuas de olhar solene
e seus coloridos vitrais).

Mas, mas, mas
e os apaixonados felizes,
os que faziam loucuras à espera de um olhar,
que não entendiam diferenças
entre noite e dia, entre sonhar e viver,
e sua felicidade, incontáveis gotas de chuva
a se armazenar em secretos lençóis,
onde estão as lembranças de seus feitos?

E os amargurados,
a olhar sem ver as ondas em algum cais,
a beber sem notar um vinho entre estranhos,
e suas lembranças, reflexos do sol no orvalho
que temem perder com o calor do dia,
doloridas farpas infeccionadas que lhes restam,
em que estranhos templos suas memórias repousarão,
que ruínas conhecerão as suas sombras?

Mas a História a êles não registra,
aos que atravessaram o ar com palavras,
suaves promessas eternas,
para que macias mãos pousassem nas suas,
aos que possuíam longos silêncios
que não conseguiam mais carregar,
quadros de tristeza e dor pintados dentro de si
com lágrimas há muito secas.

Não eram poderosos,
não eram práticos,
não eram bons nem sábios,
nada sabemos deles
mas os entendemos
e estes, sim
fizeram tudo.

921
João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

Os Três Mal-Amados

O amor comeu meu nome, minha identidade,
meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade,
minha genealogia, meu endereço. O amor
comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos
os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas
camisas. O amor comeu metros e metros de
gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o
número de meus sapatos, o tamanho de meus
chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a
cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas
médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas,
minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus
testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de
poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações
em verso. Comeu no dicionário as palavras que
poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso:
pente, navalha, escovas, tesouras de unhas,
canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de
meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada
no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto
mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu
a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de
propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos
que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde
irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta,
cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas.
O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos,
e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua
chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba
de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam
sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas
de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a
água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os
mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde
ácido das plantas de cana cobrindo os morros
regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo
trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de
cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas
coisas de que eu desesperava por não saber falar
delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas
folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de
meu relógio, os anos que as linhas de minha mão
asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro
grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da
terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e
minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu
silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte”.
1 340
Luiz Felipe Coelho

Luiz Felipe Coelho

Talvez um conto de Andersen

Há silenciosos
bosques na memória,
tão solenes que lá os deuses não entram,
vida e morte congelados em denso nevoeiro
a confundir o eterno ciclo do tempo.

Tenebrosas fábulas os povoam
imagens de trevas, feitiços e bruxas
árvores que perderam a casca:
seu duro interior exposto rejeita marcas
de canivetes de namorados,
folhas sêcas não mais beijadas pela luz do Sol
esperam inutilmente ventos que as levarão
para longe,
para fora dos densos remansos,
para dentro do eterno reciclar dos insetos,
das bactérias e dos cogumelos,
galhos e troncos onde nunca crianças subirão
e que cansaram de se erguer para o céu.

Quando lá entramos
vindos dos longos corredores do sonho
sentimos o frio terror do reverso do espelho
e ouvimos o convite do cansaço
para deitar, para dormir,para o final.
831
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Volta

Enfim te vejo. Enfim no teu
Repousa o meu olhar cansado.
Quanto o turvou e escureceu
O pranto amargo que correu
Sem apagar teu vulto amado!

Porém já tudo se perdeu
No olvido imenso do passado:
Pois que és feliz, feliz sou eu.
Enfim te vejo!

Embora morra incontentado,
Bendigo o amor que Deus me deu.
Bendigo-o como um dom sagrado.
Como o só bem que há confortado
Um coração que a dor venceu!
Enfim te vejo!
1 033
Mariana Ianelli

Mariana Ianelli

Diário

No teu
rosto me contaste
Todas as noites de suicídio interminadas
As juras de amar tua mãe (todas quebradas)
A reconciliação de ti contigo
Na recordação do vaso dando
Milhões de rosas ressequidas
No tempo ultrapassado
Em que resolveste retornar a tua casa.
No teu rosto me revelaste
Todos os montes que galgaras
Num desfile infantil de marcar passo
Revelaste todo fim de tardinha
Em que o gás da rua não te quis iluminar,
Vejo nas tuas olheiras
Como levaste tempo em abraçar
Teu próprio busto,
Revolvidos, contundentes, os teus braços,
Na amizade de ti contigo...
No teu rosto vi os sinais da vergonha
Por teres desejado um filho
Que engordasse tuas ancas,
Vi os indícios desaforados da velhice
E dos pecados menores,
Reconheci nos teus beiços fechados
O amor sofrido que tiveste a ti mesmo
E aos teus ímpetos de inspiração
Para amar a alguém mais.
No teu rosto a carga que há
Por não teres mostrado
Que quiseste um abraço
Da tua maior amiga,
A carga que há por te arrependeres
Do pacto irresponsável
De te casares com um homem,
Como numa folia desastrada.
No teu rosto me contaste o teu rosto,
Gaze de pele vestindo a tua caveira
E esse é hoje nosso melhor segredo,
Eu juro.

978
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Elegia para Minha Mãe

Nesta quebrada de montanha, donde o mar
Parece manso como em recôncavo de angra,
Tudo o que há de infantil dentro em minh'alma sangra
Na dor de te ter visto, é Mãe, agonizar!

Entregue à sugestão evocadora do ermo,
Em pranto rememoro o teu lento martírio
Até quando exalaste, à ardente luz de um círio,
A alma que se transia atada ao corpo enfermo.

Relembro o rosto magro, onde a morte deixou
Uma expressão como que atônita de espanto.
(Que imagem de tão grave e prestigioso encanto
Em teus olhos já meio inânimes passou?)

Revejo os teus pequenos pés... A mão franzina...
Tão musical... A fronte baixa... A boca exangue...
A duas gerações passara já teu sangue,
— Eras avó —, e morta eras uma menina.

No silêncio daquela noite funeral
Ouço a voz de meu pai chamando por teu nome.
Mas não posso pensar em ti sem que me tome
Todo a recordação medonha de teu mal!

Tu, cujo coração era cheio de medos
— Temias os trovões, o telegrama, o escuro —
Ah, pobrezinha! um fim terrível, o mais duro,
É que te sufocou com implacáveis dedos.

Agora se me despedaça o coração
A cada pormenor, e o revivo cem vezes,
E choro neste instante o pranto de três meses
(Durante os quais sorri para tua ilusão!),

Enquanto que a buscar as solitárias ânsias,
As mágoas sem consolo, as vontades quebradas,
Voa, diluindo-se no longe das distâncias,
A prece vesperal em fundas badaladas!
2 383
Mariana Ianelli

Mariana Ianelli

Nostálgico

Tornas
às festas passadas
Com o jeito de quem velou
E pretendeu à risca uma prece difícil.
O perigo te apaixona tanto
Que num ímpeto frio por mudanças
Tu te fazes rebelde querendo outras vidas.
E para quê...
Logo voltas a tuas saudades antigas,
A teu largo acervo de ossos.
Porque és o teu regresso,
Nas tuas buscas iludidas
E no teu desamor.

841
Luiz Felipe Coelho

Luiz Felipe Coelho

Infância

Nuvens
da infância
se aglomeram a confabular
a ameaçar trovões, raios, inundações
a mudar de forma,
massinha de modelar amassada pelo vento,
nossos cúmplices a combinar travessuras.

Nas ruas alagadas,
nas poças dos quintais,
nos rios que surgiram nos meio-fios,
acontecem coisas interessantes, árvores caem
e todos se sujam de lama.

Talvez não haja aulas,
talvez falte luz
e possamos brincar acendendo velas
e fazendo sombras nas paredes.

824
Luiz Felipe Coelho

Luiz Felipe Coelho

As Palavras

As palavras
se assustam
quando as acordamos de seu sono
nas páginas fechadas da memória,
como se acendéssemos a luz de um quarto
e acordássemos lemingues engaiolados
a sonhar com tocas, com frios
e com a escuridão ártica.

Só então dizem a verdade
pois ainda não ensaiaram outra coisa
e estão espantadas com os palácios que construíram,
sós, sem a ajuda da realidade
e onde nunca poderão habitar.

904
Louise Glück

Louise Glück

O dilema de Telêmaco

Nunca consigo decidir
o que escrever
nas lápides de meus pais. Sei
o que ele quer: ele quer
amado, o que por certo
vai direto ao ponto, particularmente
se contarmos todas
as mulheres. Mas
isso deixa minha mãe
a descoberto. Ela me diz
que isto não lhe importa
para nada; ela prefere
ser representada por
suas próprias conquistas. Parece
pura falta de tato lembrar aos dois
que alguém não
honra aos mortos perpetuando
suas vaidades, suas
projeções sobre si mesmos.
Meu próprio gosto dita
precisão sem
tagarelice; eles são
meus pais, consequentemente
eu os vejo juntos,
às vezes inclinado a
marido e mulher, outras a
forças opostas.
892
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Moinho

A mó da morte mói
o milho teu dourado
e deixa no farelo
um ai deteriorado.

Mói a mó, mói a morte
em seu moer parado
o que era trigo eterno
e o nem sequer semeado.

Da morte a mó que mói
não mói todo o legado.
Fica, moendo a mó,
o vento do passado.
1 688
Lívia Araújo

Lívia Araújo

Longa Estrada

Longa
estrada de asfalto
Não separa, não é nada.
De nada, tudo se faz.
Se faz presente a ausente, se faz saudade.
Que todo gosto de última vez seja algo novo,
Prenúncio de coisas diferentes
De outras vidas e outros momentos
Que de tudo fica um pouco
De memória e impressão
De gestos e receios que não existem mais.
E só existe o agora
Não mais o desperdício.
Nada acabou.

779