Poemas neste tema

Memórias e Lembranças

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

6. Aquela Linha Ou Esta ——

6
Aquela linha ou esta ——
para a figura aberta para o voo
da figura destruída ou destruída folha.

Ontem era manhã da mão e ave
emboscada na folhagem e agora o que
resta do acto ainda é o acto aqui acto do pássaro.

Vi-o. Não o vi na visão gasta. Aqui
sem número no escuro da mão desgasta
finda destruindo o nome — pássaro.
981
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Do sal aos tabuleiros de xadrez

Percamo-nos no sal que o sal nos vest
e há nos levar ao reino das janelas
onde os brinquedos pendem do cipreste
nascido sobre as manchas amarelas.

E onde os ventos que sopram de nordeste
fazem-se mãos e ritmos como aquelas
mãos que teceram fio azul-celeste
levando ao mar as mais que nossas velas.

Mas não houve, e houve volta a essas vulgares
coisas, que não de vento e não de mares,
de quartos e silêncios prolongados.

Quando as damas e os bispos preto e branco
seguiam mais o rei que esse era manco
peões que eram de chumbo e eram soldados
673
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Canções em terra estranha

Junto dos rios nossos pés fendidos,
flores de murchas pétalas de sono,
e as mãos, as mãos de barro, desmanchadas
nas corolas das lágrimas presentes;
nós, sem canções, que as últimas ficaram
nas terras da distância e da alegria,
presas no vento norte que não sopra
nestas terras de sangue e cativeiro.

- Os nossos pés são pedras, sabes?, mortas
pelas águas de meses e semanas,
nossas mãos como vidro, e em consequência
já cânticos não somos, que há perigo
de que alhures e irremediavelmente
partam-se presto ao trêmulo das cordas.

E havia de salgueiros, nossas harpas
todas singularmente penduradas
neles que em pé restavam, beira-rio,
e nós já não de pé, faltando tudo.
A que floresçam logo, se tem força
a seiva de silêncio que os rodeia,
que nós não temos voz, se longe somos,
que nós não temos voz, entre a lembrança,
que nós não temos voz, se não nos falam
as vozes de Sião.

                            Às bocas podres
só nos dão de pedidos que é costume
que deem os que não têm aos que têm tudo.
E pedem-nos canções que não podemos
canções de nossa terra em terra estranha.
Hoje somos silêncio, a boca muda,
o olhar sem voo, o cérebro sem passo,
se nos levam cativos não nos dando
pedaço que em direito nos cabia:
mas pedem-nos canções, canções daquelas
dos tempos de Sião terra distante
pátria que os ventos bons trazem por longe
desta terra de sangue e cativeiro.

Em Sião era o amor. 0 tempo vinha
de gosto como tâmaras maduras,
era a noite de estrela, o rio calmo,
a carícia da espiga amadurando,
tanto havia de messe e vinho amigo
e mosto fermentando nos lagares,
que era olhar como luz, de fino e leve,
que eram leves, na praça, os instrumentos.

Diferente de tudo alheia terr
não sabe a nós com gosto do que nosso
nem de fruto e bebida espirituosa.
Se nos pedem canções nós não daremos
por mais queiramos dar. 0 canto nasce
como a semente brota e o vento venta.

- Não sopra o vento bom, soar não podem
as canções do Senhor em terra estranha.
735
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

20. de Amor — Na Pedra E Cinza Verde

20
De amor — na pedra e cinza verde
o corpo no húmus sem jardim
memória que perdeu o azul anel.

De amor por ela e por ele, o sim
da ausência neste espaço não
iluminado mas branco, imune
por amor do amor no vazio amado.

Qualidade do instante na boca, língua
de palpitante sede que ressurge o corpo
para além da memória, na pedra do incesto.
901
Luís Guimarães Júnior

Luís Guimarães Júnior

Paulo e Virgínia

Fomos um dia alegres, estouvados,
Ao clarão matinal do sol nascente,
Colher as flores do vergel ridente
E as primeiras amoras dos cercados.

Venturosos, risonhos, namorados,
Cada qual mais feliz e mais contente,
Esquecemos a terra inteiramente:
Doidos de amor, de gozo embriagados.

Seus cabelos — enquanto ela corria,
Voavam, loiros como a luz, dispersos!
Eu a chamava e ela me fugia.

Por fim voltamos — em prazer imersos:
E das venturas todas desse dia...
Resta a saudade que inspirou meus versos.


Poema integrante da série Primeira Parte.

In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Liv. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
1 901
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Balada dos cavalos de infância

Os nossos cavalos brancos
de sete palmos de altura
os nossos cavalos negros
que triste encanto os levou?
Rói-nos a mágoa ficada,
maior que as mágoas antigas,
que os nossos cavalos baios,
de sete palmos de altura
ai, seriam nossas pernas
na viagem de amanhã.

Sem eles não somos nada
nossos pés não valem muito,
e então comeremos cinza
para nos envenenar,
se os nossos cavalos idos
por conta da força alheia
não forem tornados breve
a bem da nossa fraqueza

Trotando a sua elegância
por paços desconhecidos
devem de estar neste instante
de infinito desespero,
diferente o tempo é feito
posto que na madrugada
trotavam seu trote manso
num país chamado Infância.

Procurai-os, procurai-os,
manda o rei que a vós vos diga,
procurai-os, procurai-os
pelos caminhos do sul,
depois por norte e por leste,
e pelo ocaso afinal,
se as leves portas da noite
a tanto extremo os levar.

Têm ferraduras de prata,
panos do linho mais fino,
jaezes de ouro e de pedras
vindas das minas do rei,
e não têm outro sinal
senão a própria beleza,
mas são tão belos que todo
que os vir os conhecerá.

Procurai-os, procurai-os pelos caminhos da noite.
Tudo o que resta de Infância
no resto de vida nosso
faz-se no instante presente
de indescritível cuidado,
apuremos os ouvidos
pela espessura do espaço
para o tinido dos cascos
que noutro campo se escuta.

Pelos caminhos da noite
procurai-os, procurai-os.

Se fora a fuga na Infância
talvez nunca se notasse,
mas nesta quadra presente
salta aos olhos e magoa.
Que da outra quadra só resta
uma ternura tão íntima
que de ser assim profunda
por certo ninguém suspeita.

Procurai-os, procurai-os
em nome do nosso rei,
que vos darão ouro e prata
mais o sangue de Aragão,
seus sinais particulares
são sua própria beleza
pois são tão belos que todo
que os vir os conhecerá.

Pelo que resta de Infância
na vida de todos vós,
manda o rei, pede a rainha,
procurai-os, procurai-os.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

32. o Curso No Abandono Na Erva

32
O curso no abandono na erva
sob a curva do seio: a figura
do desenho, luz ou folhagem.

Pomba presente viajando em ramos
de pobreza e solidão ausente
será fatal sua presença branca.

Este o aspecto o solitário incêndio
da parede que restava com as letras vivas
chamas de sangue que ainda sangram vivas.
1 049
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

30. Há Uma Luz Sobre As Arcadas

30
Há uma luz sobre as arcadas
e os indecisos contornos na agonia
nos limites que não resistem

e que resistem sílaba a sílaba
milimetricamente sinais de
uma preciosa intensidade de infância ardente.

Foi no súbito acesso na agonia
dos sinais que os sinais agregam
que a destruição não se destruiu
no seio inverso regressão da árvore.
1 094
Rogério Bessa

Rogério Bessa

Memórias da Cidade

De São Sebastião do Rio de Janeiro

uma cidade aos pedaços:
um trecho aqui, outro lá,
impossíveis de mapear
na memória adventícia.

uma cidade aos pedaços:
viadutos estendidos,
curvos e bem retesados
e suspensos sobre rios

invisíveis, que desembocam
em nada, mas que vez por outra
dão com túneis que os engolem
na embocadura dos morros.

uma cidade debrum:
maritimamente orlada,
Flamengo, Botafogo etc.
imbricando-se em toda a volta.

impossível saber de cor
essa estranha geografia,
cujos pedaços só os mapas
seguramente memorizam.

819
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Navegações Descobrimento-Encobrimento

Pecados cupidez crua violência
Inaceitáveis memórias ensombrando
O puro emergir e a flor da transparência
1 184
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Canção do Amor Primeiro

Tão jovem o Tempo
Tudo amanhecia
O loiro do rosto
Sob o negro da noite
Desde sempre o sabia

O loiro do rosto
A dança do cabelo
Doirado sobre a testa
Sob o choupo escondidos
Como sob floresta

E o loiro do cabelo
A voar na testa
E o linho do rosto
Entre os brilhos da festa

Tão jovem o Tempo
Que tudo luzia
De espanto e surpresa
Redonda a maçã
Que parecia acesa

Era Junho e o perfume
Da rosa e seu lume
1 237
Edmir Domingues

Edmir Domingues

soneto XXIV - Ébrio de medos

Ai, nunca me perdesse entre os vinhedos
se bêbedo de vinho, ébrio de medos,
falei de nossos íntimos segredos
e na neve enterrei velhos brinquedos.

Que a lua iluminava com ternura
rosas de sangue sobre a estrada escura,
e todos conheceram da amargura
que eu vestia de sonho e de aventura.

Constrangimento então, loucura quase,
olhos cobertos de invisível gaze,
sentimento de culpa e confusão.

Sei que havia violões e sei de banjos,
e lembro os que de mim fugiam, anjos.
Talvez quisessem-me eles e eu os não.
596
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Soneto com jeito de chegança

Ventos do mar que não peninsulares
trouxeram nossas vozes de chegança,
navegantes de barcos de esperança
na roupa das cantigas seculares.

Lembrávamos Lisboa, os mansos lares,
as cachopas pousadas na lembrança,
as vagas que nem sempre de bonança,
na saudade da copla e dos cantares.

Outros, os capitães-de-mar-e-guerra,
tristes de ver o barco agora em terra
descem do rito náutico aos lamentos.

Sem curva de marés nos decompomos
porquanto marinheiros já não somos
mas o gesto e a canção dos movimentos.
690
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Aqui As Sombras Se Misturam Com As Luzes

Cavas roucas recônditas as vozes
Do interior do tempo os rostos surgem
1 Dezembro 1991
1 141
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Elsinore

1
Cheirava a mar em Elsinore
Um leve cheiro a mar misturado
Com o aroma primaveril de ervas e arvoredo
O castelo fora por várias vezes reconstruído
E uma vez purificado pelo fogo
Tudo fora lavado e pintado
Passado a limpo exorcizado
No entanto
Numa das salas do castelo
Um quadro do século dezoito mostrava
Uma rainha bela imperiosa arrogante
E no seu rosto a sombra de outro se espelhava
E também as muralhas vermelhas de tijolo
Sobre as águas obscuras do fosso projectavam
Uma sombra muito antiga e cor de sangue
2
Cá fora o mar era de um azul claríssimo
Crianças brincavam na relva à luz do sol
E famílias felizes de perto as olhavam
Porém a guia disse que o passado mora do outro lado do castelo
E que o pano só sobe depois do sol descer
E que as palavras só se cruzam como facas
Quando soa a hora em que se embruxa a noite
E eu entre barco e avião cheguei desencontrada
Nada vi da profunda e visionária noite
1 294
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Flautas e mar

Que noite pode ser, conquanto dia
se veja de aparência e circunstância
e se faça um perfume de distância
quando o perto que está se não queria.

Que em fumo se transforme rosa fria
fulminada nos gelos a fragrância,
e em países distantes como a Infância
à sombra saiba a luz, de fugidia.

Mas ainda há ternura em nossos dedos,
há pedaços de infância nos brinquedos
a par de ouvida música de mágoas.

Sempre há flautas e mar, diante do muro,
e ê possível se grite contra o escuro
que os poetas se nutrem dessas águas.
523
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Canção dos exilados de infância


Exilados de uma terra
que Infância por nome tem
vivemos comendo espera
não sei de que nem de quem.
Murcham-se mastros e velas
morrem convites de além
e de Infância, ai, de Infância
nada a nós jamais nos vem. 

Infância dorme na sombra
de um campo molhado e bom
na geografia das cores
nos cantos de leve som,
e é tão distante plantada
que a ela só se vai com
barcos de quilhas de fumo
velas de papel crepom.

País que todos procuram
sem nunca ninguém cansar
cansaço é desesperança
e é sempre bom se esperar,
vestem-se os homens de busca
e seguem rotas de mar
mas há que o mar nunca os leva
jamais a nenhum lugar.

Colecionando horizontes
nas terras mortas de Não
terras de Infância procuram
que nunca mais acharão,
a sombra azul da distância
se derrama pelo chão,
e de Infância, ai, de Infância
nem canto nem sugestão.

Inspira os passos andados
por campo caminho e mar
inusitada evidência
que a ninguém se pode dar,
os que vivem de procura
não têm nada que encontrar
porque os homens sempre sentem
saudades de outro lugar.

Ai, que sempre nos maltratam
as lembranças que nos vêm
dos paraísos perdidos
das terras de mais além.
Se esses países residem
distantes de nós, porém,
somente o clima de Infância
nos poderá fazer bem.

Os povos que Infância buscam
nunca à Infância chegarão,
muda-se o rumo das coisas
nestes campos onde estão,
mas nada morre no entanto
do clima da turbação
porquanto o povo vencido
tem sempre a melhor canção.

Se nada morre no entanto
do clima da turbação,
se aquele povo vencido
tem sempre a melhor canção,
só nos resta esse horizonte
das terras mortas de Não
pois de Infância, ai, de Infância
nem canto nem sugestão.
532
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Soneto feito com água do mar

Hoje que o barco é nosso, e no recôncavo
desmancha-se a ternura em mãos de vento,
pressinto as vibrações contidas entre
lavarinto o cordão nas verdes ondas.

Pois somos como as coisas de silêncio
deixadas no outro dia, em céus de longe,
pelas angras sem fim de velhos sonhos,
quanto mais velhos tanto mais idênticos.

Que a vida volta, e as noites antiquíssimas
nunca serão passados e absolutos
mas tornarão nas íntimas carícias.

Levagantes e polvos não são tudo.
Há mistério nos mares e nos vícios
e mundos abissais nos cantos surdos.
746
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Quem Me Roubou o Tempo Que Era Um

quem me roubou o tempo que era meu
o tempo todo inteiro que sorria
onde o meu Eu foi mais limpo e verdadeiro
e onde por si mesmo o poema se escrevia
Setembro de 2001
1 635
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Canción de los que se van a Sierra Morena.

A Sierra Morena iremos
aünque tarde ya sea,
a llorar entre las yedras
ausências de Dulcinea;
se ya nos comen, nos matan,
heridas de mucho amor,
a Sierra Morena iremos
a ofrecer nuestro dolor.

Cubierta de panos tristes
la vieja y triste figura
que quiere vivir la vida
(lo que tiene de aventura)
se rinde a amor encendido
que de amor no tiene ayuda,
vestida de medio arriba
de medio abajo desnuda.

Entonces, en la distancia,
bajo la dulce armonía,
cuando la noche se llegue
o mientras se llegue el dia,
sepa de nuestra locura
la voz lejana dei viento,
nuestro amor, nuestra memória,
deseos de atrevimiento.

Y en penitencia, senora
de no turbada hermosura,
de frente clara de diosa,
ojos de bella pintura,
sea luz, presencia en sueno
reposada em nuestra mono,
sonrisa de suave aliento
tornando al enfermo en sano.

Mejor que la Pena Pobre
Sierra Morena nos es,
duerme la amada lejana
el mundo todo a sus pies,
nosotros em pobre sierra,
en singular penitencia
porque la lucha se acabe,
después se acabe la ausência.

Pues Sierra Morena tenga
nuestros pies de noche y lana,
que a Sierra Morena iremos
manana, por la manana;
en la distancia se oyen
viejas condones de cuna.

Nuestros alas ya se mueren
tintas de sangre y de luna.
882
Rogério Bessa

Rogério Bessa

Do Canto II:

A Saída do Poema:
Fuga e Despedida das Melomanias Antiórficas

essa coita que me invade,
gran coyta que damor ey,
foi a que, vivendo El-Rey,
experimentou Guilhade.

os olhos verdes damiga
me fazen ora pensar:
se azuis não eram, cantiga
só, quem dela saberá!

sei que cantiga damigo
decanta os olhos dalguém
do hoje outrora que consigo
lembrar por mal e por bem.

1 163
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Um contratempo num rever amigos

E eis que fomos no passo da aventura
para rever amigos na distância
e era um campo de mar, e era fragrância
de maresia a rota da procura.

Fomos os três na sombra, e dentro em breve
éramos cinco a um passo da alimária
pendida, a conversarmos sobre a vária
fortuna que tão longe nos deteve.

Ao pouso onde restava o olhar cansado
a noite imensa vinha, e o mar nos vinha
como ao beiral na chuva essa andorinha

cantada pelos versos do passado.
Quanto apesar de tudo noite rara
porquanto o tê-los visto compensara.
677
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Fome de amor

Acordarei com fome nesta noite.
Fome do teu amor distante e vago
que repousa na borda de algum lago
que em seu silêncio todo acaso açoite

o teu repouso injusto, enquanto pago
um preço de recusa, enquanto foi-te
dado amor de vigília, de pernoite,
de uma insônia insuspeita. Entanto afago

a lembrança restante nesta quadra
ao passo que no lado escuro ladra
cão, demônio, orixá de bruxaria.

Dama do lago, antiga mas presente,
no tempo de esperar constantemente,
que há séculos se esquiva e renuncia.
730
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Memória de amor

Um grande amor resiste aos sofrimentos
com o tranquilo olhar dos bois no pasto,
e se já não resiste e tem lamentos
já deixou de ser grande, de tão gasto.

Um grande amor resiste ao tempo vasto,
ao frio, à chuva, a um mundo de tormentos,
e quando acaso passa deixa um rasto
na memória das águas e dos ventos.

Assim possa dizer do nosso, o sal
do mar, como o cair da chuva em pingos,
os segredos do alísio e do terral,

o mosto a fermentar nas igaçabas,
do nosso antigo amor, sempre aos domingos,
num campo de cajus e de mangabas.
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