Poemas neste tema

Memórias e Lembranças

Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

PÁLIDA IMAGEM

Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte

- J'ai cru que j'oublierais; mais j'avais mal sondé
Les abîmes du coeur que remplit un seul rêve:
Le souvenir est là, le souvenir se lève
Flot toujours renaissant et toujours débordé.
TURQUÉTY

No delírio da ardente mocidade
Por tua imagem pálida vivi!
A flor do coração no amor dos anjos
Orvalhei-a por ti!

O expirar de teu canto lamentoso
Sobre teus lábios que o palor cobria,
Minhas noites de lágrimas ardentes
E de sonhos enchia!

Foi por ti que eu pensei que a vida inteira
Não valia uma lágrima... sequer,
Senão num beijo trêmulo de noite...
Num olhar de mulher!

Mesmo nas horas de um amor insano,
Quando em meus braços outro seio ardia,
A tua imagem pálida passando
A minh'alma perdia.

Sempre e sempre teu rosto! as negras tranças,
Tua alma nos teus olhos se expandindo!
E o colo de cetim que pulsa e geme
E teus lábios sorrindo!

Nas longas horas do sonhar da noite
No teu peito eu sonhava que dormia;
Pousa em meu coração a mão de neve......
Treme... como tremia.

Como palpita agora se afogando
Na morna languidez do teu olhar...
Assim viveu e morrerá sonhando
Em teus seios amar!

Se a vida é lírio que a paixão desflora,
Meu lírio virginal eu conservei...
Somente no passado tive sonhos
E outrora nunca amei!

Foi por ti que na ardente mocidade
Por uma imagem pálida vivi!
E a flor do coração no amor dos anjos
Orvalhei... só por ti!

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Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

LENÇO DELA

Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte

Quando, a primeira vez, da minha terra
Deixei as noites de amoroso encanto,
A minha doce amante suspirando
Volveu-me os olhos úmidos de pranto.

Um romance cantou de despedida,
Mas a saudade amortecia o canto!
Lágrimas enxugou nos olhos belos...
E deu-me o lenço que molhava o pranto.

Quantos anos, contudo, já passaram!
Não olvido porém amor tão santo!
Guardo ainda num cofre perfumado
O lenço dela que molhava o pranto...

Nunca mais a encontrei na minha vida,
Eu contudo, meu Deus, amava-a tanto!
Oh! quando eu morra estendam no meu rosto
O lenço que eu banhei também de pranto!

2 533
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Vita Nuova

De onde me veio esse tremor de ninho
A alvorecer na morta madrugada?
Era todo o meu ser... Não era nada,
Senão na pele a sombra de um carinho.

Ah, bem velho carinho! Um desalinho
De dedos tontos no painel da escada...
Batia a minha cor multiplicada,
— Era o sangue de Deus mudado em vinho!

Bandeiras tatalavam no alto mastro
Do meu desejo. No fervor da espera
Clareou a distância o súbito alabastro.

E na memória, em nova primavera,
Revivesceu, candente como um astro,
A flor do sonho, o sonho da quimera.
1 343
Felipe Vianna

Felipe Vianna

AMOR EM VERSO

Quando te conheci
Criamos nosso beijo,
Nosso som.
Flor do belo
Numa noite de verão
Que há de cruzar os mares, ares,
Décadas e milênios
Imortalizado nesse verso
Pois a pena é mais forte que a bala
E mais fiel que a pedra.

800
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

OXFORD SHORES'

OXFORD SHORES'

Quero o bem, e quero o mal, e afinal não quero nada.
Estou mal deitado sobre a direita, e mal deitado sobre a esquerda
E mal deitado sobre a consciência de existir.
Estou universalmente mal, metafisicamente mal,
Mas o pior é que me dói a cabeça.
Isso é mais grave que a significação do universo.

Uma vez, ao pé de Oxford, num passeio campestre,
Vi erguer-se, de urna curva da estrada, na distância próxima
A torre-velha de uma igreja acima de casas da aldeia ou vila.
Ficou-me fotográfico esse incidente nulo
Como uma dobra transversal escangalhando o vinco das calças.
Agora vem a propósito...
Da estrada eu previa espiritualidade a essa torre de igreja
Que era a fé de todas as eras, e a eficaz caridade.
Da vila, quando lá cheguei, a torre da igreja era a torre da igreja,
E, ainda por cima, estava ali.

É - se feliz na Austrália, desde que lá se não vá.
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Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

MINHA MUSA

Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte

Minha musa é a lembrança
Dos sonhos em que eu vivi,
É de uns lábios a esperança
E a saudade que eu nutri!
É a crença que alentei,
As luas belas que amei
E os olhos por quem morri!

Os meus cantos de saudade
São amores que eu chorei,
São lírios da mocidade
Que murcham porque te amei!
As minhas notas ardentes
São as lágrimas dementes
Que em teu seio derramei!

Do meu outono os desfolhos,
Os astros do teu verão,
A languidez de teus olhos
Inspiram minha canção...
Sou poeta porque és bela,
Tenho em teus olhos, donzela,
A musa do coração!

Se na lira voluptuosa
Entre as fibras que estalei
Um dia atei uma rosa
Cujo aroma respirei...
Foi nas noites de ventura,
Quando em tua formosura
Meus lábios embriaguei!

E se tu queres, donzela,
Sentir minh'alma vibrar,
Solta essa trança tão bela,
Quero nela suspirar!
E dá repousar-me teu seio...
Ouvirás no devaneio
A minha lira cantar!

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Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Passeio em São Paulo

Settembre. Andiamo. E tempo di migrare.
A rainha, em São paulo, chama-me.
É agora Maria Cacilda Stuart
E fala com sotaque voluntarioso,
Não paulista nem catarinense:
Acento beckeriano (com ck, não cqu),
Que suscita infartos de alma,
Tão imperativos quanto os de miocárdio.

Saio do hotel com quatro olhos,
— Dois do presente,
Dois do passado.
Anhangabaú que já não é dos suicídios passionais!
O Hotel Esplanada virou catacumba.
Enfim a Rua Direita!
A minha Rua Direita:
Que saudades tinha dela!
Ainda existe a Casa Kosmos, mas
Não tem impermeáveis em liquidação.
Praça Antônio Prado, onde
Tudo é novo, salvo aquela meia dúzia de sobradinhos.
Montanha-russa da Avenida de São João!
O anjo cor-de-rosa não é mais cor-de-rosa:
O tempo patinou-o de negro.

Almoço com Di,
Que hoje é Emiliano di Cavalcanti.
Volto ao hotel pelo Anhangabaú.
Onde as Juvenilidades auriverdes? Onde
A passiflora? o espanto? a loucura? o desejo?
Ubi sunt?
Ubi sum?

— Obrigado, Mário, pela tua companhia.
1 164
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Migração

Crescem
ultimamente
na ponta dos meus dedos
unhas
que a princípio pensei
não fossem minhas.
Estriadas
espessas
comandando um feitio outro que a pele
pequenos cascos quase
embora claros.
A memória
depois
entregou-me
a visão das mesmas unhas
na ponta de uma mão mais delicada,
a mão da minha avó.
Como andorinhas
as unhas
migraram da mão dela
à minha
de um verão apagado
a um resto de verão.
Rijos bicos sem asas
legado
que em nossa descendência
faz seu ninho.
1 189
Marina Colasanti

Marina Colasanti

De quem hoje penso

Olhando os velhos
- aqueles que eu ontem dizia velhos
e de quem hoje penso: nós -
olhando os velhos
em suas fotografias de juventude
constato
com nova melancolia
que todos eles
todos
foram mais belos
um dia.
1 095
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Antônia

Amei Antônia de maneira insensata.
Antônia morava numa casa que para mim não era casa, era um empíreo. Mas os anos foram passando.
Os anos são inexoráveis.
Antônia morreu.
A casa em que Antônia morava foi posta abaixo.
Eu mesmo já não sou aquele que amou Antônia e que Antônia não amou. Aliás, previno, muito humildemente, que isto não é crônica nem poema. E, apenas
Uma nova versão, a mais recente, do tema ubi sunt,
Que dedico, ofereço e consagro
A meu dileto amigo Augusto Meyer.
1 478
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Da Passeggiata Archeologica, em Roma

A casa do meu avô
veio pelo correio.
Chegou envolta em tapetes
- passado devolvido entre
arabescos de desenhos persas
e traços de nanquim na folha branca -
a vila
que sempre ouvi chamar
La Madonnella.

Não conheci o avô
mas lembro a casa
o poço medieval
a amendoeira
os fragmentos romanos nas paredes
e o piso de madeiras coloridas
vindas do Paraná
presente do meu tio.

A vila foi vendida há muitos anos
e o que dela restou
acabou de afundar em outra morte.
Foi-se tudo
o que à casa pertenceu
no entanto
aqui está ela intacta novamente
emoldurada acima da lareira.

A vila da Passeggiata Archeologica
recolhe enfim as velas
entre jovens paredes
em Mury,
casa
que em outra casa
faz seu porto.
991
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Sonho Branco

Não pairas mais aqui. Sei que distante
Estás de mim, no grêmio de Maria
Desfrutando a inefável alegria
Da alta contemplação edificante.

Mas foi aqui que ao sol do eterno dia
Tua alma, entre assustada e confiante,
Viu descender à paz purificante
Teu corpo, ainda cansado da agonia.

Senti-te as asas de anjo em mesto arranco
Voejar aqui, retidas pelo aceno
Do irmão, saudoso de teu riso franco.

Quarenta anos lá vão. De teu moreno
Encanto hoje que resta? O eco pequeno,
Pequeno de teu sonho — um sonho branco!
878
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

SOUVENIR

How sweetly sad it is sometimes to hear
Some old loved sound to memory recalled,
To see, an if in dreams, some old dear face,
Some landscape's stretch, some field, some dale, some stream

A memory so sudden, sad and pleasant,
Aught that recalls the days of happy youth.
        Then spring in happy pain the tears that wait,
Those subtle tears that wait on thought, and all -
Field stream and voice - all that we hear or see -
Goes from the sense, adorned with mem’ry’s hand
And merges slowly into dreamy light.

        I wake; alas! by dreams l was betrayed.
Tis but a semblance that l feel and hear
Because the past, alas! cannot return.
These fields are not the fields I knew, these sounds
Are not the sounds I knew: all those are gone,
And all the past - alas! cannot return.
1 506
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Epílogo?

(Fausto (numa cama) acordando, abre as olhos)

Vivo! Pois vivo ainda! Torno a ver-te,
Pálida luz, silente luz da tarde,
Que ora me enleias dum calado horror!
Onde estou? Onde estive? Ferve em mim,
Numa quietação indefinida,
Um eco de tumultos e de sombras
E uma coorte como de fantasmas
Oscilantes. E luzes, cantos, gritos,
Desejos, lágrimas, chamas e corpos,
Num referver (...) e misturado
Numa esvaída confusão nocturna,
Como tendo piedade de deixar-me
Sinto passar em mim, como visões.
Nem com esforço recordar-me posso
Se são fantasmas ou vagas lembranças;
Não me lembro de vida alguma minha
E o necessário esforço desejado
P'ra recordar-me não o posso ter.

A forte central luz do meu pensar
Qu'iluminando forte e unamente
Fazia o meu ser um, já se apagou.
Restam-me sombras e dispersas luzes
Tremeluzentes vãs cintilações
Que me cansam de vagas e ilusórias.
Para quê sofrer mais? Não haverei
Ainda o sono que me pede a mente
Atormentada de febrilidades
E erros esvaídos de sentir?
Já me cansa e me doi sentir-me a mim,
E perceber que existo e que há uma vida
Comigo, vaga e desprendidamente,
Qual vinho numa taça. E já não tenho
Força para entornar a taça e enfim
Acabar. Nem desejo nem espero
Nem temo, n'apatia do meu ser.
Para que pois viver? Quero a morte,
E ao sentir os seus passos
Alegremente e apagadamente,
Me voltarei lento para o seu lado
Deixando enfim cair sobre o meu braço
Minha cabeça, olhos cerrados, quentes
De choro vago já meio esquecido.

Mas onde estou? Que casa é esta? Quarto
Rude, simples — não sei, não tenho força
Para observar — quarto cheio de luz
Escura e demorada que na tarde
Outr'ora eu... Mas qu'importa? A luz é triste,
Eu conheço-a.
1 443
Eduardo Alves da Costa

Eduardo Alves da Costa

Quero que o saibas

Quero que o saibas, linda Inês:
meu coração é português.
E dentro do peito fareja latidos
da alma que há muito me fugiu.

Ando sem alma, já se vê,
à procura de não sei quê.
Talvez um cheiro, uma cor, um som
- memória do tempo em que eu,
cidadão de Viseu,
vivia na bolsa seminal de meu pai.

O que foi ele buscar no mundo?
O azul profundo que há nos mares
quando se os tem interiores;
novos amores, terras mais vastas.
Não são assim os descobridores?

Pois meu coração é assim:
navegante à deriva, naufrago em mim!
1 448
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Passado, Presente e Futuro

Só o passado verdadeiramente nos pertence.
O presente... O presente não existe:
Le moment ou je parle est déjà loin de moi.
O futuro diz o povo que a Deus pertence.
A Deus... Ora, adeus!
1 621
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Peregrinação

Quando olhada de face, era um abril.
Quando olhada de lado, era um agosto.
Duas mulheres numa: tinha o rosto
Gordo de frente, magro de perfil.

Fazia as sobrancelhas como um til;
A boca, como um o (quase). Isto posto,
Não vou dizer o quanto a amei. Nem gosto
De me lembrar, que são tristezas mil.

Eis senão quando um dia... Mas, caluda!
Não me vai bem fazer uma canção
Desesperada, como fez Neruda.

Amor total e falho... Puro e impuro...
Amor de velho adolescente... E tão
Sabendo a cinza e a pêssego maduro...
1 005
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Seio

O teu seio que em minha mão
Tive uma vez, que vez aquela!
Sinto-o ainda, e ele é dentro dela
O seio-idéia de Platão.
1 422
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

POEMA DE CANÇÃO SOBRE A ESPERANÇA

POEMA DE CANÇÃO SOBRE A ESPERANÇA

               I

Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios —
Os melhores lírios —
E as melhores rosas
Sem receber nada.
A não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.

                II

Usas um vestido
Que é uma lembrança
Para o meu coração.
Usou-o outrora
Alguém que me ficou
Lembrada sem vista.
Tudo na vida
Se faz por recordações.
Ama-se por memória.
Certa mulher faz-nos ternura
Por um gesto que lembra a nossa mãe.
Certa rapariga faz-nos alegria
Por falar como a nossa irmã.
Certa criança arranca-nos da desatenção
Porque amámos uma mulher parecida com ela
Quando éramos jovens e não lhe falávamos.
Tudo é assim, mais ou menos,
O coração anda aos trambulhões.
Viver é desencontrar-se consigo mesmo.
No fim de tudo, se tiver sono, dormirei.
Mas gostava de te encontrar e que falássemos.
Estou certo que simpatizaríamos um com o outro.
Mas se não nos encontrarmos, guardarei o momento
Em que pensei que nos poderíamos encontrar.
Guardo tudo,
(Guardo as cartas que me escrevem,
Guardo até as cartas que não me escrevem —
Santo Deus, a gente guarda tudo mesmo que não queira,
E o teu vestido azulinho, meu Deus, se eu te pudesse atrair
Através dele até mim!
Enfim, tudo pode ser...
És tão nova — tão jovem, como diria o Ricardo Reis —
E a minha visão de ti explode literariamente,
E deito-me para trás na praia e rio como um elemental inferior,
Arre, sentir cansa, e a vida é quente quando o sol está alto.
Boa noite na Austrália!
1 653
Marina Colasanti

Marina Colasanti

PALAZZO D'ACCURSIO

De que cor era a porta
do ateliê de Morandi?
Azul, diz a memória.
Mas a memória pode estar errada.
Azul, verde, cinzenta
qualquer me serve
desde que na parede o fio da luz
suba como nanquim até a tomada
e o papel pardo que recobre a mesa
tenha marcado em circulos e traços
o lugar certo
o único lugar de cada objeto.

Dormem sono de seda
nas vitrinas
as rosas falsas,
as garrafas esperam verticais
os goivos jazem.
A um canto
a estufa conta de um calor passado.
O ateliê, como os quadros,
foi transformado em peça de museu.

Gravada nos sulcos
das chapas de zinco
percorre o silêncio das salas
a voz da água forte.

Bolonha 1994
728
Mario Benedetti

Mario Benedetti

Ontem

Ontem passou o passado lentamente
com sua vacilação definitiva
sabendo-te infeliz à deriva
com tuas dúvidas estampadas na testa.

Ontem passou o passado pela ponte
e levou tua liberdade prisioneira
trocando seu silêncio em carne viva
por teus leves alarmes de inocente.

Ontem passou o passado com sua história
e sua desfiada incerteza
com sua pegada de espanto e de reprovação.

Foi fazendo da dor um costume
semeando de fracassos tua memória
e deixando-te a sós com a noite.

2 996
Marina Colasanti

Marina Colasanti

UM DOS ÚLTIMOS DA SUA ESPÉCIE

Chamava-se Giulio e era conde
o amigo da minha mãe.
Gomalina e colônia
boas maneiras
um hotel elegante com brocados
e o barbeiro que vinha
todo dia
escanhoar-lhe o rosto
ainda na cama.
Nunca ninguém o viu fazer
algo de útil.
Sabia beber
jogar
dobrar com elegância o lenço
no bolsinho.
Gastar também sabia
comeu trigais
vinhedos
a vila avita
as pérolas da mãe.
Mas eu gostava dele
do seu jeito sem âncora
e sem pressa
e porque às vezes
ganhando no baralho
me dava algum dinheiro,
e os adultos, empenhados no jogo,
me deixavam sair
já noite alta
para ir sozinha até a confeitaria
buscar balas, torrone,
e a primeira experiência de perigo.


1 015
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

A Dama Branca

A Dama Branca que eu encontrei,
Faz tantos anos,
Na minha vida sem lei nem rei,
Sorriu-me em todos os desenganos.

Era sorriso de compaixão?
Era sorriso de zombaria?
Não era mofa nem dó. Senão,
Só nas tristezas me sorriria.

E a Dama Branca sorriu também
A cada júbilo interior.
Sorria como querendo bem.
E todavia não era amor.

Era desejo? — Credo! De tísicos?
Por histeria... quem sabe lá?...
A Dama tinha caprichos físicos:
Era uma estranha vulgívaga.

Ela era o gênio da corrupção.
Tábua de vícios adulterinos.
Tivera amantes: uma porção.
Até mulheres. Até meninos.

Ao pobre amante que lhe queria,
Se lhe furtava sarcástica.
Com uns perjura, com outros fria,
Com outros má,

— A Dama Branca que eu encontrei,
Há tantos anos,
Na minha vida sem lei nem rei,
Sorriu-me em todos os desenganos.

Essa constância de anos a fio,
Sutil, captara-me. E imaginai!
Por uma noite de muito frio
A Dama Branca levou meu pai.
1 803 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não poder Tarde

Não poder Tarde
Adivinhar (...) o teu segredo
E o teu mistério ilúcido ignorar
E o que tens que (...) esta emoção
Encontrar   (...)    e o sentido,
Vaga desesperança quase amarga,
Da sensação que dás. Dás-me um aumento
Da muda comoção indefinida
Que sonha dentro em mim, uma ânsia como
Que um esquecer de mal lembradas cousas,
Ou de esquecidas vago relembrar,
Intensas, rumorosas, torturadas,
Mágoas de quem (a) existir se sente,
Inconsolável desesperação,
Vazia plenitude do sofrer.
1 174