Poemas neste tema

Memórias e Lembranças

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Companheiro

No 80o aniversário de Pedro Nava


Esse mocinho Nava, tão levado,
que nos cafés-sentados deixa a marca
de desenhista baudelairiano
entre cruel e místico, requinte
à Whistler, à Beardsley, a ele mesmo,
em apagadiço mármore de instante,
e na minha aloucada companhia
noturna, entre magnólias de silêncio,
emudece douradas campainhas
de casas transplantadas de Ouro Preto,
onde castos jardins cercam as virgens
de religiosas essências nupciais,
ou vai trocando as coisas de lugar,
a placa do causídico eminente
levando para a porta do dentista,
e a do médico ilustre despejando
no barrento fluir do ribeirão
Arrudas! e mais feitos, não me lembra
(mentira: oh se me lembro e quanto
ao tilintar avaro de memórias
como se moedas fossem, por que não?);
esse Pedro abancado à triste banca
de emprego burocrático vigiado
por severo doutor nada poético:
fugindo à mornidão do expediente
para a aula de anatomia — grande aluno —
ou para o Rio de Janeiro a ver — rever —
imagens que ninguém como ele viu
de velhas ruas, morros e pessoas,
descobrindo, em estético relance,
o nariz grego, a máscara romana,
os retratos de Proust ou Van Leyden
implantados em medíocres semblantes;
esse Pedro que é dois, que é três, é cinco,
aplicado estudante, insano jovem,
esse Pedro quem é? Quem o descobre
completo
lúdico
sério
imprevisível?
senão ele mesmo um dia vai mostrar-se
no desdobrado amor da medicina,
Pedro enrustido no primeiro Pedro
que belo-horizontinamente se aprestava
para o serviço do sofrimento humano
pela manhã — e à noite se entregava
aos anárquicos, doidos exercícios
de nossa boemia antimineira
e tão mineira, sim! em seu desgarre
de sufocadas, montanhosas forças
em luta desigual com o inamovível
senso grave dos queijos e da ordem?
Esse Pedro,
penso às vezes que fui seu lado esquerdo
em tão saudosos, hoje, magros tempos
de busca, de revolta, de amarugem,
de desvairado humor sem rumo certo,
a desviá-lo do seu bom caminho…
Alguns meses mais velho, e má presença
de subversivo incompetente e aéreo,
sem rabo de diabo mas diabólico,
era eu, talvez, seu anjo de desguarda?
Ele se ri de minha culpa, assume-a,
e seguimos os dois, jogando pedras
(oitent’anos vividos, revividos,
transvividos no açúcar da saudade),
e seguimos e estacamos e fugimos
incendiando (ou quase) residências,
no estrelado silêncio de magnólias
ou de damas-da-noite (tanto faz),
pavor de velhos, beijo de meninas,
assunto de censória indignação,
arremetendo
contra o inimigo burguês que nos despreza…
Esse Nava, querido companheiro.
657
Martha Medeiros

Martha Medeiros

era verão ou qualquer troço assim

era verão ou qualquer troço assim
lua cheia ou algo parecido
uma saudade ou quase a mesma coisa
era amor ou mais ou menos isso
1 134
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Flor que não dura

Flor que não dura
Mais do que a sombra dum momento
Tua frescura
Persiste no meu pensamento.

Não te perdi
No que sou eu,
Só nunca mais, ó flor, te vi
Onde não sou senão a terra e o céu.


1924
3 916
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Como às vezes num dia azul e manso

Como às vezes num dia azul e manso
No vivo verde da planície calma
Duma súbita nuvem o avanço
Palidamente as ervas escurece
Assim agora em minha pávida alma
Que súbito se evola e arrefece
A memória dos mortos aparece...


10/11/1925
4 199
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

O CONTRA-SÍMBOLO

O CONTRA-SÍMBOLO

Uma só luz sombreia o cais
Há um som de barco que vai indo.
Horror! Não nos vemos mais!
A maresia vem subindo.

E o cheiro prateado a mar morto
Cerra a atmosfera de pensar
Até tomar-se este como porto
E este cais a bruxulear

Um apeadeiro universal
Onde cada um espera isolado
Ao ruído – mar ou pinheiral? –
O expresso inútil atrasado.

E no desdobre da memória
O viajante indefinido
Ouve contar-se só a história
Do cais morto do barco ido.


30/01/1926
4 625
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Volto À Casa de Helena

A casa de Helena é a casa de daqui a 20 anos,
de daqui a 50, ao incontável.
É uma casa pousada em nós, em nosso sangue.
Podemos torná-la real: o risco arquitetônico de Helena
fica estampado na consciência.
E, quando Helena se cala
na aparência mortal,
seu risco viçoso e alegre e delicado perdura,
lição de Helena Antipoff mineira universal.
1 419
Martha Medeiros

Martha Medeiros

eu tinha por ti amor

eu tinha por ti amor
e ainda não havia lido
nem escrito nem vivido nada igual
eu tinha por ti um sentimento
que não havia sido previsto, intuído
não havia sinal de reconhecimento
por isso ainda deixo a porta aberta
não entra você, entra o vento
todo amor desconhecido
precisa se entender com o tempo
1 154
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Corpo Desenhado

Talvez a linha se acenda e continue
ondeando a página e sendo nós só margem
de um domínio onde fulge a inocência,
talvez se revele a transparência inicial
em que a luz de estar a ver seja a palavra mesma.

Vêm figuras que se espraiam e crescem
até serem apenas ondulada memória.
Adensam-se outros corpos e enterram-se no fogo.
As linhas enovelam-se num delírio exacto.
A alegria ilumina penumbras de volumes.

Em tensos membros lúcidos e redondos
move-se o desenhado corpo ligeiro
e lento. Aumenta a densidade até ao centro
de um deus que diz o esplendor silencioso.
Ou só o ar ondeia num planalto de vento.
942
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Reunião Em Dezembro

Dezembro, e dói (ou não?) um pouco
esse abrir os braços para abraçar
o corpo, ou o sem-corpo, de uma espera
nervosa.

Dezembro, e não te lembra
os que não estão mais para jogar
o jogo repetido da esperança?

Oh, não te faças de amargo.
Joga também, mas chama
ao balcão da memória
e junto do teu corpo
aqueles companheiros dispersados
em não sei que país não mapeado,
pois sem nome e latitude,
onde o tempo sem número é repleto
(ou deserto) de todo pensamento.
E reserva
poltronas especiais para os que ainda há pouco
se foram. Não estão acostumados
ainda ao novo lar, ou somos nós
que de perdê-los não nos demos conta?
Repara: a teu aceno
as perdas deste ano se transformam
em nova relação interior.
Ganhamos o perdido. Vem chegando
cada um no seu passo costumeiro,
no seu modo de ser e de existir.

Esta
é Ana Amélia, rainha sem diadema.
Reina em doçura entre estudantes
e anjos barrocos. Calmos decassílabos
fluem de suas mãos e vão voando
para onde a poesia se concentra
em bondade e beleza:
sinônimo de alma.

Para um instante, Murilo; olha, Miranda,
quanta coisa fizeste na inquietude
de fazer coisas. Pois não basta, homem?
As artes mais as letras te agradecem
quanto penaste por amor de sonhos
culturais, que no esquecimento somem.

Mas que rumor é este, que risada
rouca, feliz, irada, insubmissa,
entre as festas do povo se anuncia?
É carnaval, folclore, são vivências
de um gato, da Amazônia, que sei mais?
O furacão chamado Eneida
tem garras verdes e quedou tranquilo.

Pelo telefone, a voz te pede
a colaboração do suplemento.
Anos a fio, vida a fio.
José Condé faz o jornal,
mas seu coração foge ao plantão
e perfura, no chão natal,
o poço dorido-alegre
de imagens pernambucanas.

Willy Lewin, viola ou violino
afinadíssimo, ouvido apenas
em surdina de câmara e recato.
Que requinte no seu sigilo,
seu desencanto modulado:

a melhor poesia é um signo
abafado.

Brumoso Luís Santa Cruz: a cruz,
entre súcubos a espicaçá-lo,
exorciza lêmures. Vago,
fantasmal ele próprio, ouvindo-lhe
a voz baixa, é o sussurro que ouves
de um mundo abissal, de sombras.

Por último vem teu compadre
e teu irmão Emílio, o doce
mavioso Moura irmão mineiro. Sorrindo,
como a pedir desculpas de uma falta:
“Fui proibido de beber
e de pitar um cigarrinho”
e de outra falta, mais grave:
“Fui-me embora, deixei você falando
sozinho”.

Dezembro, e o que perdido
foi neste ano, volta, iluminado
pelo claro pensar,
e reanima-se
o jogo eterno (e vão?), o jogo
da vida renascendo de si mesma.

02/12/1971
1 190
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

I - Paira no ambíguo destinar-se

POESIAS DOS DOIS EXÍLIOS

I

Paira no ambíguo destinar-se
Entre longínquos precipícios,
A ânsia de dar-se preste a dar-se
Na sombra vaga entre suplícios,

Roda dolente do parar-se
Para, velados sacrifícios,
Não ter terraços sobre errar-se
Nem ilusões com interstícios,

Tudo velado e o ócio a ter-se
De leque em leque, a aragem fina
Com consciência de perder-se,

Tamanha a flava e pequenina
Pensar na mágoa japonesa
Que ilude as sirtes da Certeza

II

Dói viver, nada sou que valha ser.
Tardo-me porque penso e tudo rui.
Tento saber, porque tentar é ser.
Longe de isto ser tudo, tudo flui.

Mágoa que, indiferente, faz viver.
Névoa que, diferente, em tudo influi.
O exílio nada do que foi sequer
Ilude, fixa, dá, faz ou possui.

Assim, nocturna, a áreas indecisas,
O prelúdio perdido traz à mente
O que das ilhas mortas foi só brisas,

E o que a memória análoga dedica
Ao sonho, e onde, lua na corrente,
Não passa o sonho e a água inútil fica.

III

Análogo começo,
Uníssono me peço,
Gaia ciência o assomo –
Falha no último tomo,

Onde prolixo ameaço
Paralelo transpasso
O entreaberto haver
Diagonal a ser.

O interlúdio vernal,
Conquista do fatal,
Onde, veludo, afaga
A última que alaga.

Timbre do vespertino,
Ali, carícia, o hino
Outonou entre preces
Antes que, água, comeces.

IV

Doura o dia. Silente, o vento dura.
Verde as árvores, mole a terra escura,
Onde flores, vazia a álea e os bancos.
No pinhal erva cresce nos barrancos.
Nuvens vagas no pérfido horizonte.
O moinho longínquo no ermo monte.
Eu alma, que contempla tudo isto,
Nada conhece e tudo reconhece.
Nestas sombras de me sentir existo,
E é falsa a teia que tecer me tece.


24/09/1923
4 528
Alberto da Costa e Silva

Alberto da Costa e Silva

Outro Adeus

Sob o teto e a ferrugem
do mercado, em Fortaleza,
ele tocava a rabeca
e era cego. Tocava

com a cabeça inclinada,
esta mesma que vejo
na fieira de músicos
sobre a porta da igreja

larga e ocre de Sória,
os mesmos pés descalços
e chagados na pedra,

e a voz que me chega,
baixa, rouca, irritante,
toda sujo e pobreza.

Como dizer a outrem
o que está no meu sangue?
Que levei ao curral
os corcéis de Patroclo
e deitei minha nuca
sobre um colo de espinhos?

Mas, em Medinaceli,
Alberca e entardeceres,
senti o mesmo cheiro
de palha, urina e pêlo
de um jumento suado
sob o sol de Sobral
e o rancor da saudade
e a saudade sonhada.

Por que reparo tanto
em cada coisa, atento
ao poro, ao grão, ao risco,
ao veio, à sombra e ao brilho?

Para me amanhecer.
E não ter, à distância
de outro chão e outra luz,
esta carne. Contemplo

o cego e o céu do tempo:
um odor de farelo
repousa a servidão

deste corpo em que perco
o que em nós há de encontro
entre o ausente e o eterno.



In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. Poema integrante da série As Linhas da Mão.
1 459
Alberto da Costa e Silva

Alberto da Costa e Silva

O Menino a Cavalo

(...)

3

A mão de meu pai sobre o papel desenha,
quase num só traço, o menino a cavalo.

Sai de sua mão a mão com que lhe aceno,
e vai sobre o papel o menino a cavalo.

Choro sobre o colo do triste, e órfão, e cego,
para tudo o que atado estava à vida, vivo,

mas sem sonho e sem carne, a falar-me sem nexo
sobre um céu e um sol de que foi desterrado,

mas que punha ao redor do menino a cavalo.

O rosto longo e só, rasgado pelas rugas,
o olhar a rever o que perpétuo tinha,

e que nunca me disse, em seu pensar cortado
do dia em que vivia (no seu convívio raro

com a cadeira de braços, o pijama, os seus pássaros,
a cinza e a rotina de estar morto, acordado),

no papel ele unia a mão que desenhava
à mão com que acenava ao menino a cavalo,

neste adeus em que estou, desde então, ao seu lado,
o menino que volta, a chorar, a cavalo.


In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. Poema integrante da série As Linhas da Mão.

NOTA: Poema composto de 3 parte
2 104
Ruy Belo

Ruy Belo

Declaração de amor a uma romana do século segundo

Um dia passarão pelos meus versos
Como eu agora passo por diante destas esculturas
que não merecem mais que um apressado olhar
Mas na tua presença eu tenho de parar
dama desconhecida com certeza viva mais aqui
que no segundo século em Roma onde viveste
Moldaram-te esse rosto abriram-te esse olhar
decerto impressionante para que uns dezoito séculos mais tarde
te pudesse encontrar quem mais que tu morreu
mas te ama ó mulher perdidamente
Não mais te esquecerei hei-de sonhar contigo
sei que te conquistei e libertei
de qualquer compromisso que tivesses
Ninguém sabe quem eras nem eu próprio
não tens sequer um nome uns apelidos
nada se sabe acerca do teu estado civil
Sei mais que tudo isso porque sei
que atravessaste séculos na forma de escultura
só para um dia nós nos encontrarmos
Tenho mulher e filhos sou de longe
a lei é rígida e severa a sociedade
Não te importes mulher deixa-te estar
não penses não te mexas podes estar certa
de que me deste mais do que tudo o demais que me pudesses dar
pois para ser diferente de quem era
bastou-me ver teu rosto e mais que ver olhar


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, págs. 34 e 35 | Editorial Presença Lda., 1981
2 563
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Presença de Mira

A Stefan Baciu


O errante colar de lembranças e metáforas
apaga-se no colo de Mira.
Maintenant je ne serais nulle part.
Quem sabe?
Mira, hei de encontrá-la sempre em alguns versos
que falam da criança construindo na areia
palácios e jardins da pátria proibida;
que contam do domingo, cesta de solidão,
e da mulher agitando um xale imaginário,
e do esquecimento, que é um papagaio de papel.

Não preciso escutar
o tambor do corcunda anunciando as notícias
para saber de Mira.
Neste grão de café encontro Mira pensando no Brasil.
1 056
Ruy Belo

Ruy Belo

Poema do burguês na praia

Há mãos de mãe sobre a seara
que às três da tarde ondula no seu gesto
Já tudo tem um rosto
e o amor de que ele gasta resto

O mar faz-lhe lembrar um cego horizontal
de olhar embaciado

Veio de lisboa para o seu passado
está de acordo com tudo


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 51 | Editorial Presença Lda., 1984
1 269
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Tim-Tim Para Luís Martins

I

Caro Luís inspetor federal de colégios
sem colégios para inspecionar
(padre sem igreja, maquinista sem locomotiva, amante sem amada)
no ano-fumaça — lembra-se? — de 38.
Designam você para Jaú,
solução mais perto, mais amável.
Lá vai o inspetor com uma camisa na pasta
e a convicção de que Jaú é pertíssimo.
Chega nove horas e meia depois:
uma hora a cavalo, da fazenda à estação,
uma hora de trem a Jundiaí,
quatro horas e meia de Jundiaí a Ityrapina
(com y, que agrava a distância),
finalmente três horas até Jaú.
Gasta você na brincadeira
com passagens, hotel e refeições
mais da metade do mesquinho ordenado futuro
e terá de voltar três vezes por semana…
Ser funcionário às vezes dói
como canelada. Ou faca no estômago.

II

Como, não sei, você surge em Minas (jornalista?)
na posse do ilustríssimo Governador-Mor Valadares
entre luminárias bailes populares festança grossa.
De manhã, excursão
ao sonho barroco de Ouro Preto, Congonhas, Tiradentes,
à qual, que lástima, você não comparece,
pois é de dormir tarde ou mesmo não dormir
quando a cimitarra da lua ceifa a imensidão mineira.
Suas noites são de prosear com amigos em torno de honesta cerveja
e as manhãs para o sono velado pelo Deus dos boêmios.
Ir a Minas e não ver o Aleijadinho!
Muitos anos lhe punge n’alma esse pecado.

III

De novo em Belo Horizonte. Desta vez, o Congresso
de Escritores estentóricos discutindo o porvir nacional.
Salvemos a Pátria mediante nossas prosopopeias!
Gosto de quedar a seu lado no Bar Pinguim
noites seguidas e melodiosas, alheios à retórica,
em doce paz de consciência.
Você imita Segall à perfeição
e eu admiro sua digna mansuetude entre os paladinos adversos.
Ensina (sem pretensão) a gentil dignidade.

IV

Lembro coisas assim a esmo
para conjurar a acidez da notícia de sua morte,
a mais injusta, a mais absurda para alguém como você,
que viveu em doçura, sem atropelar ninguém
no pensamento ou na vida.
Quis restaurar sua presença no bar, em minha casa, na rua.
Conservar você perto da gente, malgrado o final.
Este não é um protesto. É um tim-tim no copo cheio de saudade.

23/04/1981
1 281
Ruy Belo

Ruy Belo

Génese e desenvolvimento do poema

Vozes vizinhas vindas da infância
através do sotaque de quem fala aqui ao lado
o sol inexorável sobre as águas
pressentimentos vindos com o vento
a velha fortaleza a vista da baía
a maré cheia a tarde as nuvens o azul
memória disto tudo noutro verão noutro lugar
e pelo meu olhar visivelmente vitimado
tudo possível pela mesa e pela esferográfica
pelo papel desculpa ó minha amiga pelo bar
a solidão assegurada pela multidão
a luz a hora as lérias o domingo
o cruzeiro de pedra o largo o automóvel
tudo isto não importa importam só
as mínimas e únicas palavras que me ficam
disto tudo
e tudo isto fixam: «tempo suspenso» ou «mar
imóvel»
ou «sinto-me bem» ou - que sei eu? - «alguém
morreu»




Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, págs. 36 e 37 | Editorial Presença Lda., 1981
2 218
Ruy Belo

Ruy Belo

O jogo do chinquilho

Renasce neste largo a minha infância
a minha vida.tem aqui nova nascente
e jorra de repente com o ímpeto do início
O tempo não passou ou só a consciência
que provisoriamente sinto de voltar alguns anos atrás
a sensação que sei de reflectir sobre esse tempo
de ser um espectador de sucessivos sucedidos dias
de não viver apenas não viver sem sequer saber que vivo
num espaço demarcado onde as coisas e os homens
eram tanto que eram simplesmente
só essa consciência e sensação me fazem suspeitar
de que passou o tempo que nunca passou
O adro o fim da tarde o jogo do chinquilho
o ruído das malhas os paulitos
o sol poente sobre si redondo como simples
malha atirada por alguém pelo espaço do dia
e prestes a cair no mar como nas tábuas
o gesto perdulário e impensado de jogar
a malha como quem num gesto joga a vida
as silhuetas hirtas dos que assistem
de boné ou barrete na cabeça e mãos nos bolsos
tudo se passa aqui ali há trinta e cinco anos
como se aqui ninguém houvesse envelhecido
nem sofrido ou morrido ou suportado
toda a imensa fome requerida para produzir um rico
como se aqui ninguém tivesse demandado
longe de aqui o seu país noutros países
Tudo é o mesmo adro a mesma tarde o mesmo jogo
Até este café onde sentado olho e penso por olhar
é afinal o mesmo onde bebi a meias com meu pai
a primeira cerveja uma cerveja vinda
através do calor do dia de verão
nesse cesto de vime nesse poço mergulhado
É o mesmo o sabor que sempre sinto nesta boca
há muitos anos já mordendo o vinho o pão a vida
o sabor das mulheres das raparigas
inacessíveis sempre como um absoluto
sempre impossível tido no entanto por possível
o sabor da derrota ou o sabor da terra
sensível dia a dia nos meus dedos
e um dia susceptível de me encher a boca para sempre
Envelheci eu sei e só ganhei
o que perdi. Sou de uma adulta idade
E entretanto tudo a noite rodeou e o jogo acabou
e pelo céu do tempo houve um homem que passou
ou uma certa malha arremessada por acaso à vida
e viva na precária trajectória antes de caída.


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, págs. 39 e 40 | Editorial Presença Lda., 1981
1 243
João Apolinário

João Apolinário

os infinitos íntimos

Não me cinjas
a voz
não me limites

não me queiras
assim
antecipado

Eu não existo
onde me pensas

Eu estou aqui
agora
é tudo
____

Esta causa
Que me retoma
Em cada dia

Age na esperança
Em que respira
Esta necessidade
De estar vivo
____

No círculo
em que se fecha
o que em mim
respira
há um suicídio
de memórias
que não cabem
no que em mim
existe
____

Já fui longe demais
matando-me nas pedras
que atiro contra mim
sentindo o que não sei
____

Há por aí alguém
que queira vir comigo
atrás do que seremos
quando tivermos sido?
____

O que resta de nós
Dorme a noite invisível
Que ainda nos sobra
____

O que me cansa
é o diabo da esperança
____

O que ficará de mim
nos restos digitais
do tempo
quando chegar
o fim
de que me ausento

1 192
Ruy Belo

Ruy Belo

Última vontade

Quando a sereia se ouvir
no coração desolado como uma cidade
recorda que te procurámos através das árvores
E tu escondias-te por trás dos frutos
e recolhíamos as mãos
cheias apenas de tempo
Sempre brincaste connosco
desde os dias da nossa juventude
Puseste-nos nos olhos
estação sobre estação e a vida dava as mãos
de árvore para árvore à volta da terra
Ia de ramo morto para ramo vivo
como um pássaro mais e nós ríamos
na tua transparência

Fechem-se-te agora os lábios
sobre a palavra que somos
Perdoa se algum dia
errámos com o coração
Não nos deixes morrer longe de jerusalém



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 30 e 31 | Editorial Presença Lda., 1984
1 298
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

IV - I could not think of thee as piecèd rot,

IV

I could not think of thee as piecèd rot,
Yet such thou wert, for thou hadst been long dead;
Yet thou liv'dst entire in my seeing thought
And what thou wert in me had never fled.
Nay, I had fixed the moments of thy beauty —
Thy ebbing smile, thy kiss's readiness,
And memory had taught my heart the duty
To know thee ever at that deathlessness.
But when I came where thou wert laid, and saw
The natural flowers ignoring thee sans blame,
And the encroacbing grass, with casual flaw,
Framing the stone to age where was thy name,
I knew not how to feel, nor what to be
Towards thy fate's material secrecy.
1 342
Vasco Graça Moura

Vasco Graça Moura

Junto ao retrato

era vermelha a rosa
que a minha mulher cortou para pôr junto ao retrato
de minha mãe, que fazia anos ontem.
era de um fulgor surdo e recatado,
a implodir tantas coisas já sem nome
para o interior macio das pétalas.

"pus uma rosa do jardim junto ao retrato
da tua mãe", disse ela então ao telefone,
"uma rosa vermelha muito bonita", acrescentou
com uma leve sombra na voz e era sombria
a rosa, mesmo ao telefone, por ser o dia 
dos seus anos. e era sombrio recordá-la.

uma flor pode ser de uma obscura incandescência
junto de alguém. prende-se a delicados filamentos da memória
como a cabelos enredados. era sombria a rosa
sobre a cabeça branca, o olhar bondoso, as feições plácidas,
o que de minha mãe não se desfigorou
e a rosa iluminava devagar, 
junto ao retrato. 
2 256
Vasco Graça Moura

Vasco Graça Moura

Lâmpada votiva

1.
teve longa agonia a minha mãe: 
seu ser tornou-se um puro sofrimento 
e a sua voz apenas um lamento 
sombrio e lancinante, mas ninguém 

podia fazer nada, era novembro, 
levou-a o sol da tarde quando a face 
lhe serenou, foi como se acordasse 
outra espessura dela em mim. relembro 

sombras e risos, coisas pequenas, nadas, 
e horas graves da infância e idade adulta 
que este silêncio oculta e desoculta 
nessas pobres feições desfiguradas. 

quanta canção perdida se procura, 
quanta encontrada em lágrimas murmura. 

2.
e não queria ser vista e foi envolta 
num lençol branco em suas dobras leves, 
pus junto dela algumas rosas breves 
e a lembrança represa ficou solta 

e foi à desfilada. De repente, 
a minha mãe já não estava morta: 
era o vulto que à noite se recorta 
na luz do corredor, se está doente 

algum de nós, a mão que pousa e traz 
algum sossego à fronte, a voz que chama 
para o almoço, ou nos tira da cama, 
quem nos trata das roupas, ou nos faz, 

bolos de anos e as malas, na partida, 
e a quem a voz tremia à despedida. 

3.
agora deu-se à terra o que é da terra 
e as flores amontoam-se em sinal 
de ser fugaz a vida, sobre a cal. 
e enquanto cada dia desaferra, 

com seu sopro bravio virão ventos 
e as gaivotas, levando-lhe outras vozes, 
uivos do mar, pios, metamorfoses, 
nada ela escutará nesses momentos. 

haverá fumo e fogo, deslembranças, 
ecos, recordações, nuvens, ruídos, 
outros cortejos tristes, recolhidos, 
ali por perto hão-de brincar crianças 

num jogo descuidado, um grupo vence-o. 
mas fica a minha mãe posta em silêncio. 

4.
agora dorme e vai ficar assim, 
imóvel e coberta. Já regressa 
o carro que avançava tão depressa 
na estrada por que vou e por que vim 

às tantas da manhã, e tresnoitados 
meus irmãos aguardavam-me à chegada, 
sem esperança ou alegria, sem mais nada, 
senão minutos tensos e contados. 

depois os rituais, o respirar 
tão a custo, os membros que se arqueiam 
e distendem, e os vultos que rodeiam 
a muda sombra vindo devagar. 

beijei-lhe a fronte e fiz-lhe um leve afago: 
do pouco que levei, tudo o que trago. 

5.
poderá ter morrido, ressuscita 
neste lugar humano, pobre fio 
de água verbal que vai a medo, hesita, 
e teme desmedir-se como um rio. 

e muita coisa nele se derrama, 
dita e não dita, pressentida, densas 
aluviões, emaranhada trama 
de obscuras raízes e presenças. 

virão dias, semanas, meses, anos, 
e os ciclos dos astros indiferentes, 
mover-se-ão na mesma os oceanos 
e as placas que sustentam continentes. 

mola do mundo, o coração aviva 
a chama desta lâmpada votiva. 
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Angélica Torres Lima

Angélica Torres Lima

Fazenda Dois Irmãos

Fazenda Dois Irmãos

para Antônio
no casamento
da árvore com a terra
a minha crença na vida

na sua sobrevivência
sem cuidados humanos
a reverência
aos elementos

no seu crescimento para o alto
serenamente imponente
o ensinamento vivo
de u`a meta
e um comportamento

no trabalho das raízes
e no vôo das folhas
a compreensão
de que aos pés deu-se o chão
a mente o infinito

no gosto do fruto
presença de água e mel
drink ligeiro dos pássaros
cheiro de infância
na minha saudade

Olhar léguas e mais léguas verdes
cercanias de matas, vento
cantando baixinho
no ouvido, na fazenda
da miaha infância

Tanto verde em redor do Morro Alto
lado a lado no topo
dois bambuzais solitários
irmãos companheiros

No céu rastos vermelhos
restos de sol
No ar o cheiro do mato
a transparência da noite invadindo

No centro do reino verde
o cavalo e eu
a descer a calmaria
da velha natureza
lentamente

O som do trotar de Cacique
nas pedras friinhas
u`a melodia pura
os meus desejos ocultos
os sonhos puros de criança
riquezas simples da infância

Sensação de cria da terra
de filha do vento
Impressão de ser folha
de ser mato
Certeza de ter brotado
de solo fértil
feito flor

Ah, os campos, os pastos
os córregos de água fresquinha
o curral, a casa grande, o quintal
a goiabeira perto da bica
o milharal e as jaboticabeiras
o prazer de beber com as mãos em concha
a água pura da cacimba

No parque das altas mangueiras
perto do córrego sombrio
a morada sagrada
das fadas, gnomos, duendes, sacis
o meu recanto predileto
repleto de mistério amigo
onde os sonhos conversavam comigo

E eu a comer cajamanga
verde, azedo, com sal, contemplando
a beleza rústica do engenho
cana, garapa, rapadura

A casa do vaqueiro
escondia em mim eu mesma:
ela era o cenário imaginário
de minhas estórias
de príncipes e princesas

No jardim da casa-grande
as rosas e os cravos
por meu pai cultivados
com tanto amor
Na escadaria dos fundos
a vista do Morro Alto
com os bambuzais irmãos
e o requeijão quente
da Lucinda, tentando a gente

Da varanda, a beleza vermeLha dos
enormes flamboaiãs, o curral do gado tratado
o leite gostoso, na hora tirado
Na janela do meu quarto
tinha sempre visita de um colibri
Não muito longe, no riacho
o ensaio dos sapos para a noturna sinfonia

Ah, fazenda querida
bordei você na lembrança
como foram no céu as estrelas bordadas
nas suas noites de verão

Guardei você, eom cuidado,
no pór do sol de Goiás
pra que todo dia sua presença reviva
e eu a enterre imortal
dentro de mim

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