Poemas neste tema

Memórias e Lembranças

D. Dinis

D. Dinis

de Que Morredes, Filha, a do Corpo Velido?

- De que morredes, filha, a do corpo velido?
- Madre, moiro d'amores que mi deu meu amigo.
        Alva é, vai liero.

- De que morredes, filha, a do corpo louçano?
- Madre, moiro d'amores que mi deu meu amado.
       Alva é, vai liero.

Madre, moiro d'amores que mi deu meu amigo,
quando vej'esta cinta que por seu amor cingo.
       Alva é, vai liero.

Madre, moiro d'amores que mi deu meu amado,
quando vej'esta cinta que por seu amor trago.
       Alva é, vai liero.

Quando vej'esta cinta que por seu amor cingo
e me nembra, fremosa, como falou conmigo.
       Alva é, vai liero.

Quando vej'esta cinta que por seu amor trago
e me nembra, fremosa, como falámos ambos.
       Alva é, vai liero.
893
Bernardo Pinto de Almeida

Bernardo Pinto de Almeida

O Deus da minha infância

O Deus da minha infância
era verde
verde como um fruto
amargo como um campo extenso
alargando-se até para lá do horizonte
corria montanhas e rios
descia suave pelas colinas
detinha-se nas ervas
nos riachos
anunciava nas árvores jovens
o rebentar da primavera.

O Deus da minha infância
era loiro
como trigo sereno ondulante
cavava fundo a terra
adormecida e as cigarras
cantavam nela ao fim da tarde:
explodia vivamente
em cada sol
nascia pela manhã e velava de noite
o meu sono
a solidão tranquila
do rosto moldado na almofada.

O Deus da minha infância
era azul
estava em todo o céu como o azul
era as gotas de orvalho
sobre as folhas
o ar muito fino e respirável
que a cada hora atravessava a folhagem
os ramos muito altos
e os enaltecia de verde.

O Deus da minha infância
era breve
colhia-se na tarde
ao calor
sob as árvores generosas como frutos
e apertava-se frio contra os dentes
imaturos
tornando-os rijos e brancos
luminosos
passando em cada gesto
como um sinal intenso.

O Deus da minha infância
ao descer da voz
ouvida ao longe
era um cavalo de prata
junto à minha janela
era um olhar fugaz
que se voltava para a sombra
e que julgava ver nela
todo o mistério do mundo
toda a violência das tardes
toda a ordem plasmada no cosmos
muito amplo
acima de todos
de cada um de nós.

O Deus da minha infância
brincava
com os gatos que saltavam dos telhados
com os cães que adormeciam ao sol
com as crianças
que rodopiavam em rodas
em torno do pião
que rodava.

O Deus da minha infância
era pobre
escutava as vozes das lareiras
comia a broa âzima
pousava sobre a mesa de castanho velho
e detinha-se nas linhas
fundas da madeira
nos seus nós escurecidos:
assomava às janelas
de vidro barato
coalhadas da humidade
descia pela garrafa de azeite espesso
misturava-se com o vapor acre do vinho
crepitava nas brasas entre castanhas e fumo
afundava-se nas rugas dos velhos
de mãos encarquilhadas
pelo frio e pela usura.

O Deus da minha infância
se acaso me visita
fala-me das vezes temerárias
em que me aventurava nas águas agitadas
de um rio
em que afundava o corpo
na terra ainda quente
e abraçando-me a ele
leva-me de volta ali
a esse lugar remoto de onde nunca parti
a essa funda origem
aonde O conheci.
549
Herberto Helder

Herberto Helder

62

o fôlego rouco irrompe nas pronúncias bárbaras
dos nós da língua:
voz, escrita:
linhas que se refractam umas nas outras,
bolhas cardíacas:
tanto louvor da terra movido a custo
na frase fracturada: o acordo entre
ritmo e
iluminação, enquanto as mãos intermináveis
lavram as obras, às meadas, ríspidas, rútilas, curtas, compridas, m
escuro, obra
que se ensinam a quem as saiba já na confusão da luz:
arcaicas
matérias, melancolias, memórias, magnificências,
quero esses dons e dias,
esses erros, se emendam o certo contemporâneo, quero-os todos,
esveltos, essoutros, exímios:
dor e estilo, quando são canhotos,
não os há mais vivos
881
Bernardo Pinto de Almeida

Bernardo Pinto de Almeida

Os mortos 1

Murmura-se pela casa
as crianças são afastadas para quartos
onde brincam e lhes pedem silêncio
graves criadas murmuram e restolham aventais
rangem as tábuas nos soalhos. Os mortos são assim
a tudo impõem sua regra de espanto
a morte é uma sucção de tudo à volta
como se a todos apontasse um dedo acusador.

Da sala para o quarto, do quarto para a cozinha
os passos avançam como se envergonhados. Morreu?
ainda está vivo? Ninguém sabe ao certo
quando as agulhas do relógio designam pontiagudas
horas que arrefecem nos cristais
sobre a toalha.

A mesa estava posta, os convidados próximos
vieram irmãos e familiares de longe
para saudar outra vez aquele que parte
não têm que dizer-se nesse encontro perplexo
que o tempo não ajustou senão por cerimónia
e olham-se uns aos outros numa vertigem cega
de se sentirem apoiados num qualquer sentimento,
um consentimento que os ligue a si, aos outros, ao seu tempo
porque aquele que morre os suga para dentro de outro tempo.

Assim a morte vai enchendo as nossas vidas
nem melhores nem piores, cada vez mais vazias,
vazias de si mesmas vazias de sentidos
que nos outros prolonguem o que já antes fomos:
numa fotografia entre laços, a infância,
nesta outra a correr e uma bola fugindo,
numa outra ainda um triciclo, depois no acampamento,
uma carta de curso, entre outros no quartel.

Mas inexorável o tempo nos apaga esses rostos
onde o espanto se fixava onde tudo era branco
nada se escrevia senão um gesto atento
uma delicadeza para com um outro olhar:
a mãe que se afastava, a namorada frágil
ou num grupo de amigos junto a um carro polido
um cigarro pendendo negligente dos lábios
um pull-over que ficou a preto e branco e
ela a sorrir ainda, a tia que se suicidou
antes do tempo.

Agora o morto está deitado sobre a cama
dir-se-ia que respira, dir-se-ia a sorrir,
mas no rictus imóvel ele já não está ali
partiu para qualquer lado deixa-nos de sobreaviso
vagos de nós mesmos como quartos devolutos
numa pensão de província que já ninguém frequenta.

Entre os vestidos pretos há um rosto que soluça
em que o silêncio faz de fogo cada lágrima
sob uma madeixa branca uma saudade traz
um qualquer suplemento a todo este vazio:
um filho que aproxima o corpo do pai ido
beijo que se troca de luto partilhado
abraço que ressoa do casaco apertado
da gravata com mofo no fundo de um armário.

A todos os convoca o morto neste dia
em que a todos dispensa silêncio por igual
pois todos se lhe tornam familiares na morte
mesmo o que passa ao acaso para entregar uma carta.

E uma porta se abre, uma janela que passa
deixa entrever um breve clarão de azul
um sol que cai a pique na hora do meio dia
faz destas horas graves um tempo quase esférico
de tão redondo, tão vazio,  
tão, para sempre, inapreensível.
666
Bernardo Pinto de Almeida

Bernardo Pinto de Almeida

Melancolia

Os papéis falam uns com os outros
Sobre esta mesa onde a sombra cai

A lâmpada esquecida tem remorsos
Da luz que antes lhe deu que se esvai.

Nas paredes que antes quadros coloriram
Sobre papel sedoso de ramagens

Ecoam dias em que vozes riram
Jarras de cristal com flores selvagens.

Já partidos os vidros nas janelas
A glicínia sobre os muros sinuosa

Conforme o sol ondula se reclina
Ervas crescem no jardim por elas

Pois já nenhuma mão colhe sua rosa.
Tudo se abandona a ser em ruína.
658
Herberto Helder

Herberto Helder

56

acima do cabelo radioso,
abaixo do cabelo,
sentado à mesa brilhando ou em pé brilhando muito,
acima de onde as obras,
abaixo de onde as obras se lavraram,
o dito assintáctico do poema, o exercício, o poema físico, o de abrupto
sentido, o poema absoluto,
acima da camisa sobre o sangue,
abaixo da camisa,
poema tão difícil aprendido até ao último erro,
e entre caos e melancolia,
a mão:
pela escrita da memória assoprada na folha:
a actividade prática,
rápida:
mão plenária apanhando o dia de cada sítio em cada sítio transborda
em nome de outra lição, outra
dor, outro júbilo, outro louvor, outra interpretação do mundo, outro amor do mundo,
outro tremor, outro mundo,
e os dedos trabalhados pela bic apanham tudo, o cru e o cozido, o aberto e o fechado, os elementos leves ar e fogo
e a ciência dos fenómenos:
a acerba, funda língua portuguesa,
poema revolvido a quente e resolvido
a frio entre os átomos,
o puro rebrilhar
irredutível, irreversível, imperecível: saber a quantas
translações estamos
entre sujeito e acto, a quanto preto bic do escrito,
auto de autor, a luz inteligente sobre o mundo,
magnificência,
e o mundo, entre visto e emendado e rescrito
978
Adélia Prado

Adélia Prado

A Poesia, a Salvação E a Vida Ii

Eu vivo sob um poder
que às vezes está no sonho,
no som de certas palavras agrupadas,
em coisas que dentro de mim
refulgem como ouro:
a baciinha de lata onde meu pai
fazia espuma com o pincel de barba.
De tudo uma veste teço e me cubro.
Mas, se esqueço a paciência,
me escapam o céu
e a margarida-do-campo.
1 529
Herberto Helder

Herberto Helder

Nenhuma Linha É Menos do Que Outrora

nenhuma linha é menos do que outrora
azougue, e basta:
é tudo só memória inverosímil,
sem proporção alguma: e nenhuma
consolação da forma
556
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Óleo de Manuel Baptista

Na parede as teias
a cor de uma adega
o vinho que cheira
de séculos e o sol
debaixo da terra
ouro subterrâneo
poente que dura
1 050
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Onde Ainda É Possível

A maravilha, onde a maravilha já perfeitamente deposta, na memória árida, onde luziu ela? Não luz agora nas faces agrestes, no testemunho voluntarioso das fés das parangonas. Não luz na solidão nem na amizade, não luz já no amor nem na poesia. A maravilha, nem na pobreza nem no chão nem na aridez nem na esperança. Um vazio se abre, e é vazio, um branco... aí respiras... aí onde ainda é vazio, onde ainda é pobreza, onde ainda é possível.
*
Não cantes vitorioso nem a galope: deixa as palavras virem ao nível do seu vagaroso peso, do seu chão de água. Planas, não cantarão. Não dirão a segurança de uma esperança invejosa e dura. Caídas, quase neutras, um vento de pobreza as percorre, pobre mistério da sua existência, da sua breve espessura trémula.
1 193
Herberto Helder

Herberto Helder

Tinha As Mãos de Gesso. Ao Lado, Os Mal

Tinha as mãos de gesso. Ao lado, os malmequeres. Tinha as veias
por cima das cadeiras, lá no alto.
Todo o gesso no alto: os malmequeres.
Ele dormia, dormia.
Aquele homem que as letras atravessavam tinha as mãos
de gesso sobre as cadeiras.

Por cima do alto — dormia, dormia.
As letras encostadas aos telhados, e ali começava
o livro da idade com as suas rosáceas.
Os malmequeres dormiam,
dormiam nas cadeiras. E os telhados
vinham devagar encostar-se às mãos,
nas rosáceas.
No alto, no alto — ele tinha as suas veias
de gesso como o sol
branco encostado.

Perguntei-lhe: aonde vais, caçador
com o arco-íris?
E ele estava coberto de letras encostado
às rosáceas, e disse:
eu dormia, dormia — com as cadeiras
encostadas ao livro da idade,
e agora sou caçador. As minhas mãos
de gesso lá no alto.

Ele tinha malmequeres, e velava
pelos telhados cheios de letras,
e dizia: as rosáceas encostadas ao meu nome,
as cadeiras encostadas,
as mãos de gesso encostadas ao meu nome.
E eu perguntei-lhe: caçador
de arco-íris encostado, aonde vais
assim com a morte encostada ao teu nome?

Ele tinha o gesso como os malmequeres
nas mãos, e disse:
eu dormia, dormia—e eis que as letras
da idade atravessaram a minha morte.
—Aonde vais, encostado à rosácea do teu nome?
Ele tinha, e disse:
com as minhas mãos de gesso,
encostei-me agora à minha morte, no alto.
1 165
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Pedro Nava a Partir do Nome

Nava
campo raso planície intermontana
onde os Nava plantaram seu brasão
Ponti di Nava
Nava del Rey
de chocolate e vinho incandescentes
Navas de Oviedo
manando água sulfúrea sob o olhar
de romanos de pés dominadores
Navas de Tolosa
onde os reis de Navarra, de Castela e de Aragão
dobraram para sempre
a cerviz dos almóadas
Navarino enseada helênica
de que partem os bélicos navarcos
em naves agressivas

Navarre
colégio douto modelando
o menino Bossuet, o garoto Richelieu
navajos
confinando a glória antiga nas reservas
de papel passado e desprezado pelos brancos
e nos filmes ferozes de Hollywood
Navarrete
(Domingo Hernandez) obstinado
teólogo debatedor de ritos chineses
Nava
navio sulcando europas maranhões
cearás alencarinos
cruzando mares de serras e cerrados
até chegar à angra tranquila
de Juiz de Fora
onde a 5 de julho de 1903
desembarca o infante Pedro Nava.

Nava
o novo sentido da palavra
agora poesia
de distintas maneiras naviexpressa
em verso múltiplo, eis salta do verbo
para navianimar membros rígidos inertes
de gente sofredora
e reacender-lhes o ritmo do gesto
no baile de viver.
Versa depois outro caminho e cria
na superfície nívea as formas coloridas
do objeto pictórico
assim como quem não quer, mas tão sabido
que a arte o denuncia em toda parte,
e regressando ao porto de partida
navioceanigráfico navega
a descobrir tesouros submersos insuspeitados
no mais fundo da língua portuguesa.

Nava navipoeta
naviprosista
que a névoa do tempo descerrando
exibe ao nosso pasmo
as navetas de prata da memória
onde em linhas de nuvem se condensam
os externos e internos movimentos
do corpo brasileiro repartido
em clãs, em escrituras, em sussurros
de alcova, que, navissutil,
Nava recolhe e grava:
sensível retrato do Brasil
pulsando em navicinza do passado.

Nava
fugindo n’alva dos setent’anos.
790
Herberto Helder

Herberto Helder

76

no ar vibram as colinas desse tempo, colinas
amarelas, vibram do chão
de onde se erguiam, o chão cruzam-no às cegas linhas
para cima: frias,
cruas fruticulturas, esse tempo que ponho agora sobre a mesa
não tem nada: nem colinas nem vibração, e o ar
está na cabeça, as colinas respiram
nela, a seiva onde se apoia a mesa,
a mão onde o sangue se apoia,
movem-se, alumiam-se,
o ar foi de outro dia, colinas nem sei se as houve, a seiva escoa-se,
mas estas coisas idas,
divididas, unem-se na frase cheia
de atmosfera,
e no tamanho da luz no papel, na mesa, agora, leio
a concordância do que não era, as colinas
desses dias trémulos e entreabertos,
e a madeira soprada: colinas
escritas, potentes, exímias, amarelas
1 144
Herberto Helder

Herberto Helder

79

basta que te dispas até te doeres todo,
retoma-te no tocado, no aceso,
e fica cego e,
por memória do tacto, desfaz os nós,
muitos, muito
atados uns nos outros,
e que inteiramente te alcance o ar e,
depois de te haver abraçado de alto a baixo, apareça já
inextricável, ar
falado, a fino ouvido: cacofónico,
mas de um modo exacto, acho,
música inquieta, inconjunta, impura,
isso: essa música
966
Herberto Helder

Herberto Helder

82

que poder de ensino o destas coisas quando
em idioma: um copo de água agreste plenamente na mesa,
só em linguagem o copo me inebria
— placa de gelo em que lóbulos
do cérebro? — e exalta-me a transparência, porque
fora, sob
administração
geral: ciência, literatura, economia, gramática,
nada, nenhum copo, nenhuma água na mesa,
me fazem sangrar aferida essencial, ou mover-me
às cegas e às avessas
até ao último reduto; só antes,
por trás, depois,
à frente, eu sinto que a membrana de vidro, reservando uma pouca
de água miraculadamente do caos
dos dicionários, me despedaça
como primeira palavra,
não apenas os dedos, mas dedos e memória, devotação de vida;
a lição do nome
que não tem Deus, e de que o nosso nome
diminuto se aproxima; basta aquela água delgada enquanto algures
ceifam na terra,
edificam; água colhida no verbo
copo ou em Deus advérbio
de modo,
e há um nó interno requeimado, um nó semântico, e um calafrio
trespassa a bic preta, e em nativo escrevo
a música de ouvido,
e o ar que está por cima enche
todo o caderno,
e equilibram-se
o copo sobre a toalha, transparência, plano de água,
e dedos e papel e script e trémula superfície da memória,
tudo passado a multíplice e ardente
979
Adélia Prado

Adélia Prado

Discurso

Não tinha um adjetivo para o dia e desejei ficar triste.
Fui moer lembranças,
remoê-las com a areia pobre mas grossa
de minha desmesurada moela.
Em mim, tanto faz meu coração ou estômago,
já que nem pra rezar eu sei partir-me.
Como quem junta espigas pro moinho,
juntei uns cheiros de alho, de álcool, de sabonete,
um cheiro-malva de talco, uns gritos,
fezes que se pisou ao redor da casa
com cheiro não tanto repudiável
— podia-se limpá-las, mas não eram execráveis —,
a incúria colateral de vários pâncreas,
o Trypanosoma cruzi, várias cruzes no sangue, no exame,
nas covas, nas torres, no cordãozinho de ouro,
na forma de levantar os braços e dizer:
“Ó Pai, duro é este discurso, quem poderá entendê-lo?”
Se abrisse um sol sobre este dia incômodo,
eu rapava com enxada os excrementos,
punha fogo no lixo
e demarcava mais fácil os contornos da vida:
aqui é dor, aqui é amor, aqui é amor e dor,
onde um homem projeta o seu perfil e pergunta atônito:
em que direção se vai?
É às vezes fazendo a barba
ou insistindo no vinco de sua calça branca
que ele quer saber.
É às vezes aparando as unhas,
em nem sempre escolhidas horas,
que ele tem a resposta.
Um adjetivo para o dia, explica.
1 214
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Frutuoso Viana

Era pequeno, era elegante, era discreto.
Não fez barulho na travessia terrestre.
Deixou apenas
um rastro de música apuradíssima.
1 211
Ruy Pereira e Alvim

Ruy Pereira e Alvim

Viagem de Reconhecimento

Procuro-me convicto
na luxúria tropical.
No corpo líquido
de minhas odisséias
no cerne de meu habitat
vegetal.

E só encontro areias,
arestas e restos de epopéias,
e velhos guerreiros
amarrados às ameias
de meus sonhos jovens de cristal.

858
Adélia Prado

Adélia Prado

Gênero

Desde um tempo antigo até hoje,
quando um homem segura minha mão,
saltam duas lembranças guarnecendo
a secreta alegria do meu sangue:
a bacia da mulher é mais larga que a do homem,
em função da maternidade.
O Osvaldo Bonitão está pulando o muro de dona Gleides.
A primeira, eu tirei de um livro de anatomia,
a segunda, de um cochicho de Maria Vilma.
Oh! por tão pouco incendiava-me?
Eu sou feita de palha,
mulher que os gregos desprezariam?
Eu sou de barro e oca.
Eu sou barroca.
1 277
Ernani Sátyro

Ernani Sátyro

Recife

(Recordando)
Oh que saudades que tenho
Da minha Rua da Aurora
Do rio naquela rua
Da aurora naquele rio
Daquele rio da aurora
Que as águas não trazem mais.
Oh que saudades que tenho
De meus sonhos tão branquinhos
Lavando as águas barrentas,
Das águas levando os sonhos
Que as águas não trazem mais.
Oh que saudades meu Deus
De meus passos na calçada
Acordando aquela estátua
Do Conde de Boa Vista,
Eu querendo ser estátua
Só não querendo morrer.
Oh que saudades também
Do meu amor em Olinda.
Navegava em pensamento
Nos navios que passavam
Mas nadava de verdade
Dando braçadas nas águas
E no corpo da amada.
Oh que saudades, já quantas,
Do Diário e do Comercio
Que só são bons de ser lidos
Bem quentinhos com o café
Numa pensão de estudantes
Vendidos por gazeteiros.

Oh que saudades que tenho
Da minha ama de leite
Joana Pé de Papagaio
Que não conheceu Recife
Mas cujo leite escorria
Nas águas daquele rio
Levado pelos meus olhos
Onde nunca ele secou
E ainda hoje umedece
Um certo modo de olhar.
A outra saudade grande
É dos sonhos bem sonhados
Bem pouco realizados.
E das frases preparadas
Pra serem ditas ao povo
a multidões inflamadas
Pela força do meu verbo
Mas que foi bom não ter dito
Porque eram ruins demais.
Minha saudade maior
É daquelas esperanças
De ser um bom promotor
Lá bem dentro do sertão
Discursando para o júri
Namorando as moças todas
Depois casando orgulhoso
Com a filha do coronel.
Se outras coisas alcancei
Tão boas e até melhores
Não são as coisas sonhadas
Com os passos firmes no chão
Os olhos bem para cima
Desfiando as estrelas
Que não sabiam de nada.
Oh que saudades que tenho
Da minha Rua da Aurora
Do rio naquela rua
Da aurora naquele rio
Daquele rio na aurora
Que as águas não trazem mais.
Saudades são mil saudades
Do rio que corre agora
Pra outros que não o vêem
Mas termina sempre em mim
Que eu é que sou seu mar.

970
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Vinte Anos

Pela campina as borboletas se amam ao estrépito das asas.
Tudo quietação de folhas. E um sol frio
Interiorizando as almas.

Mergulhado em mim mesmo, com os olhos errando na campina
Eu me lembro da minha juventude.
Penso nela como os velhos na mocidade distante:
— Na minha juventude…

Eu fui feliz nesse passado grato
Viviam então em mim forças que já me faltam.
Possuía a mesma sinceridade nos bons e maus sentimentos.
Aos frenesis da carne se sucediam os grandes misticismos quietos.
Era um pequeno condor que ama as alturas
E tem confiança nas garras.
Tinha fé em Deus e em mim mesmo
Confessava-me todo domingo
E tornava a pecar toda segunda-feira
Tinha paixão por mulheres casadas
E fazia sonetos sentimentais e realistas
Que catalogava num grande livro preto
A que tinha posto o nome de Fœderis Arca.

A minha juventude...
Onde eu seguia ansioso Tartarin pelos Alpes
E Júlio Verne foi o mais audaz de todos os cérebros...
Onde Mr. Pickwick era a alegria das noites de frio
E Athos o mais perfeito de todos os homens...
A minha juventude
Onde Cervantes não era o filósofo de D. Quixote...

A minha juventude
E a noite passada em claro chorando Jean Valjean que Victor Hugo matara...

Como vai longe tudo!
Pesa-me como uma sufocação meus próximos vinte anos
E esta experiência das coisas que aumenta a cada dia.

Medo de ser jovem agora e ser ridículo
Medo da morte futura que a minha juventude desprezava
Medo de tudo, medo de mim próprio
Do tédio das vigílias e do tédio dos dias...
Virá para mim uma velhice como vem para os outros
Que me dissecará na experiência?

Da campina verde voaram as borboletas...

Só a quietação das folhas
E o meu turbilhão de pensamentos.
1 124
Adélia Prado

Adélia Prado

Endecha

Embora a velha roseira insista neste agosto
e confirmem o recomeço estas mulheres grávidas,
eu sofro de um cansaço, intermitente como certas febres.
Me acontece lavar os cabelos e ir secá-los ao sol,
desavisada. Ocorre até que eu cante.
Mas pousa na canção a negra ave e eu desafino rouca,
em descompasso, uma perna mais curta,
a ausência ocupando todos os meus cômodos,
a lembrança endurecida no cristal
de uma pedra na uretra.
1 045
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Queimando E Queimando E Queimando

eu costumava cruzar com um holandês num bar da Filadélfia
ele botava 3 ovos crus na cerveja,
71, ainda
trabalhando,
forte,
e então eu sentava ali
a 4 ou 5 bancos de distância dele
em meus 20
assustado
suicida
mal-amado.
bem, você sabe, as mágoas se reproduzem
as mágoas
queimando e queimando e queimando,
então alguma outra coisa toma o seu
lugar.
não estou dizendo que seja bom
mas é com certeza
mais confortável,
e em muitas noites agora
penso naquele velho holandês –
é como rever quase uma vida
inteira –
ainda assim me lembro dele lá
meu mestre, então e
agora.
996
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Morte de Um Idiota

ele falava com camundongos e pardais
e seu cabelo já era branco quando tinha 16.
seu pai dava-lhe surras todos os dias e sua mãe
acendia velas na igreja.
sua avó vinha enquanto o garoto dormia
e rezava para que o diabo afrouxasse as garras que o
prendiam
enquanto sua mãe ouvia e chorava sobre a
bíblia.
ele parecia não dar bola para as garotas
parecia não dar bola para os jogos dos garotos
não havia muita coisa para que ele desse bola
ele apenas não parecia interessado.
ele tinha uma boca enorme, feia e seus dentes
saltavam para fora
e seus olhos eram pequenos e opacos.
seus ombros eram caídos e suas costas curvas
como se vê num velho.
vivia em nossa vizinhança.
falávamos dele quando nos entediávamos e logo
passávamos para coisas mais interessantes.
era raro ele sair de casa. nós gostaríamos de tê-lo
torturado
mas seu pai
que era um homem descomunal e terrível
já fazia o serviço para
e gente.
um dia o garoto morreu. aos 17 ele ainda parecia um
menino. uma morte numa pequena vizinhança é percebida com
vivacidade, e então esquecida em 3 ou 4 dias
depois.
mas a morte deste garoto pareceu ficar em cada um de nós.
chorávamos ao falar disso
com nossas vozes que estavam mudando
às seis da tarde um pouco antes de escurecer
um pouco antes do jantar.
e toda vez que eu dirijo através da vizinhança
mesmo décadas depois
continuo pensando em sua morte
quando já me esqueci de todas as outras mortes
e tudo mais o que acontecera
então.
1 187