Poemas neste tema
Memórias e Lembranças
Carlito Azevedo
BANHISTA
Apenas
em frente
ao mar
um dia de verão -
quando tua voz
acesa percorresse,
consumindo-o,
o pavio de um verso
até sua última
sílaba inflamável -
quando o súbito
atrito de um nome
em tua memória te
incendiasse os cabelos -
(e sobre tua pele
de fogo a
brisa fizesse
rasgaduras
de água)
em frente
ao mar
um dia de verão -
quando tua voz
acesa percorresse,
consumindo-o,
o pavio de um verso
até sua última
sílaba inflamável -
quando o súbito
atrito de um nome
em tua memória te
incendiasse os cabelos -
(e sobre tua pele
de fogo a
brisa fizesse
rasgaduras
de água)
805
Carlos Drummond de Andrade
Cemitério do Rosário
À beira do córrego, à beira do ouro,
à beira da história,
à beira da beira, os mais esquecidos
inominados
de todos os mortos antigos
dissolvem a ideia de morte
em ausência deliciosa,
lembrança de vinho
em garrafão translúcido.
à beira da história,
à beira da beira, os mais esquecidos
inominados
de todos os mortos antigos
dissolvem a ideia de morte
em ausência deliciosa,
lembrança de vinho
em garrafão translúcido.
1 632
Renato Russo
Love in the afternoon
É tão estranho
Os bons morrem jovens
Assim parece ser
Quando me lembro de você
Que acabou indo embora
Cedo demais
Quando eu lhe dizia
- Me apaixono todo dia
E é sempre a pessoa errada,
Você sorriu e disse:
- Eu gosto de você também
Só que você foi embora cedo demais
Eu continuo aqui, com meu trabalho e meus amigos
E me lembro de você em dias assim
Um dia de chuva, um dia de sol
E o que sinto não sei dizer
- Vai com os anjos ! Vai em paz
Era assim todo dia tarde
A descoberta da amizade da amizade até a próxima vez
É tão estranho
Os bons morrem antes
Me lembro de você
E de tanta gente que se foi
Cedo demais
E cedo demais
Eu aprendi a ter tudo o que sempre quis
Só não aprendi a perder
E eu, que tive um começo feliz
Do resto não sei dizer
Lembro das tardes que passamos juntos
Não é sempre, mas eu sei
Que você está bem agora
É só que este ano
O verão acabou
Cedo demais
Os bons morrem jovens
Assim parece ser
Quando me lembro de você
Que acabou indo embora
Cedo demais
Quando eu lhe dizia
- Me apaixono todo dia
E é sempre a pessoa errada,
Você sorriu e disse:
- Eu gosto de você também
Só que você foi embora cedo demais
Eu continuo aqui, com meu trabalho e meus amigos
E me lembro de você em dias assim
Um dia de chuva, um dia de sol
E o que sinto não sei dizer
- Vai com os anjos ! Vai em paz
Era assim todo dia tarde
A descoberta da amizade da amizade até a próxima vez
É tão estranho
Os bons morrem antes
Me lembro de você
E de tanta gente que se foi
Cedo demais
E cedo demais
Eu aprendi a ter tudo o que sempre quis
Só não aprendi a perder
E eu, que tive um começo feliz
Do resto não sei dizer
Lembro das tardes que passamos juntos
Não é sempre, mas eu sei
Que você está bem agora
É só que este ano
O verão acabou
Cedo demais
1 593
Renato Russo
Vamos fazer um filme
Achei um 3x4 teu e não quis acreditar
Que tinha sido há tanto tempo atrás
Um exemplo de bondade e respeito
Do que o verdadeiro amor é capaz
A minha escola não tem personagem
A minha escola tem gente de verdade
Alguém falou do fim-do-mundo
O fim-do-mundo já passou
Vamos começar de novo:
Um por todos, todos por um
- O sistema é maus, mas minha turma é legal
Viver é foda, morrer é difícil
Te ver é uma necessidade
Vamos fazer um filme
E hoje em dia, como é que se diz: "- Eu te amo" ?
Sem essa de que: "- Estou sozinho"
Somos muito mais que isso
Somos pinguim, somos golfinho
Homem, sereia e beija-flor
Leão, leoa e leão-marinho
Eu preciso e quero ter carinho, liberdade e respeito
Chega de opressão
Quero viver a minha vida em paz
Quero um milhão de amigos
Quero irmãos e irmãs
Deve ser cisma minha
Mas a única maneira ainda
De imaginar a minha vida
É vê-la como um musical dos anos trinta
E no meio de uma depressão
Te ver e ter beleza e fantasia
E hoje em dia, como é que se diz: "- Eu te amo" ?
Vamos fazer um filme
Eu te amo
Eu te amo
Eu te amo
Que tinha sido há tanto tempo atrás
Um exemplo de bondade e respeito
Do que o verdadeiro amor é capaz
A minha escola não tem personagem
A minha escola tem gente de verdade
Alguém falou do fim-do-mundo
O fim-do-mundo já passou
Vamos começar de novo:
Um por todos, todos por um
- O sistema é maus, mas minha turma é legal
Viver é foda, morrer é difícil
Te ver é uma necessidade
Vamos fazer um filme
E hoje em dia, como é que se diz: "- Eu te amo" ?
Sem essa de que: "- Estou sozinho"
Somos muito mais que isso
Somos pinguim, somos golfinho
Homem, sereia e beija-flor
Leão, leoa e leão-marinho
Eu preciso e quero ter carinho, liberdade e respeito
Chega de opressão
Quero viver a minha vida em paz
Quero um milhão de amigos
Quero irmãos e irmãs
Deve ser cisma minha
Mas a única maneira ainda
De imaginar a minha vida
É vê-la como um musical dos anos trinta
E no meio de uma depressão
Te ver e ter beleza e fantasia
E hoje em dia, como é que se diz: "- Eu te amo" ?
Vamos fazer um filme
Eu te amo
Eu te amo
Eu te amo
1 148
Manuel Bandeira
Elegia de Verão
O sol é grande. O coisas
Todas vas, todas mudaves!
(Como esse "mudaves",
Que hoje é "mudáveis"
E já não rima com "aves".)
O sol é grande. Zinem as cigarras
Em Laranjeiras.
Zinem as cigarras: zino, zino, zino...
Como se fossem as mesmas
Que eu ouvi menino.
Ó verões de antigamente!
Quando o Largo do Boticário
Ainda poderia ser tombado.
Carambolas ácidas, quentes de mormaço;
Água morna das caixas-d'água vermelha de ferrugem;
Saibro cintilante...
O sol é grande. Mas, ó cigarras que zinis,
Não sois as mesmas que eu ouvi menino.
Sois outras, não me interessais...
Dêem-me as cigarras que eu ouvi menino.
Todas vas, todas mudaves!
(Como esse "mudaves",
Que hoje é "mudáveis"
E já não rima com "aves".)
O sol é grande. Zinem as cigarras
Em Laranjeiras.
Zinem as cigarras: zino, zino, zino...
Como se fossem as mesmas
Que eu ouvi menino.
Ó verões de antigamente!
Quando o Largo do Boticário
Ainda poderia ser tombado.
Carambolas ácidas, quentes de mormaço;
Água morna das caixas-d'água vermelha de ferrugem;
Saibro cintilante...
O sol é grande. Mas, ó cigarras que zinis,
Não sois as mesmas que eu ouvi menino.
Sois outras, não me interessais...
Dêem-me as cigarras que eu ouvi menino.
1 287
Renato Russo
Giz
E mesmo sem te ver
Acho até que estou indo bem
Só apareço, por assim dizer
Quando convém
Aparecer ou quando quero
Desenho toda a calçada
Acaba o giz tem tijolo de construção
Eu rabisco o sol que a chuva apagou
Quero que saibas que me lembro
Queria até que pudesse me ver
Es parte ainda do que me faz forte
E, prá ser honesto
Só um pouquinho infeliz
Mas tudo bem
tudo bem
tudo bem
Lá vem lá vem lá vem
De novo:
Acho que estou gostando de alguém
E é de ti não me esquecerei
Acho até que estou indo bem
Só apareço, por assim dizer
Quando convém
Aparecer ou quando quero
Desenho toda a calçada
Acaba o giz tem tijolo de construção
Eu rabisco o sol que a chuva apagou
Quero que saibas que me lembro
Queria até que pudesse me ver
Es parte ainda do que me faz forte
E, prá ser honesto
Só um pouquinho infeliz
Mas tudo bem
tudo bem
tudo bem
Lá vem lá vem lá vem
De novo:
Acho que estou gostando de alguém
E é de ti não me esquecerei
1 338
Carlos Drummond de Andrade
Retrolâmpago de Amor Visual
Namoradas mortas
tenho mais de cem:
Barbara La Marr
e Louise Fazenda,
tenho Theda Bara
e Olive Borden,
Bessie Barriscale
e Virginia Valli.
Tenho Marion Davies,
tenho Clara Bow,
tenho Alice Calhoun,
tenho Betty Compson,
tenho Nancy Carroll,
e Norma Talmadge
e Anita Stewart,
e Mildred Harris
e Lya de Putti,
que se suicidou,
como Lupe Velez.
Tenho Nazimova,
Mae Murray, Mae Marsch
e ainda Mae Busch
e Edna Purviance,
Ruth Roland, Ruth
Chatterton, Julia Faye,
tenho Ethel Clayton,
tenho Kathlyn Williams,
tenho Gladys Brockwell,
morta num desastre.
Eis Anna May Wong
com Alice Joyce
e Constance Bennett.
Tenho Agnes Ayres
e Elissa Landi,
tenho Mary Bryan
e Dorothy Gish
e Alice Brady
e Renée Adorée.
Guardo bem o nome
de Marie Prévost
e de Phyllis Haver,
o de Mabel Normand,
o de Fanny Ward,
o de Helen Costello,
o de Pearl White.
E de Alma Rubens
nunca mais me esqueço.
Lembro Nita Naldi,
Pauline Frederick,
Geraldine Farrar,
Clara Kimball Young,
lembro Elsie Ferguson
distantes, distantes.
E lembro Ann Sheridan
e Kay Francis lembro
e Carole Lombard
morta no avião
como Linda Darnell
morta no incêndio.
Tenho namoradas
que outros não namoram,
como Zasu Pitts,
Maria Ouspenskaya
e Marie Dressler.
Namoradas mortas?
Tenho mais de mil.
E das sem notícias
tenho outras tantas.
Onde se esconderam
Aileen Pringle, Viola
Dana, Louise Brooks?
Não sei onde foram
nem Pauline Starke
nem Blanche Sweet
nem Madge Bellamy
nem Gloria Stuart.
Ainda sinto falta
de Corinne Griffith,
de Louise Glaum
e de Anita Page,
de Olga Petrova
e de Mary Philbin,
de Virginia Pearson,
e Mary Miles Minter,
de Claudette Colbert
e Karen Morley,
de Irene Castle
e de Billie Dove.
Que é de Irene Rich,
onde vai Kay Johnson?
Ah, Dorothy Dalton
e Leatrice Joy!
May Mac Avoy
e Dorothy Mackaill,
Eleonor Boardman
e Alice Terry,
Margaret Livingstone
e Claire Windsor,
a todas recordo
e sumiram todas.
Sumiu Lila Lee,
sumiu Lois Wilson.
Florence Vidor
nunca mais voltou.
Sumiu Colleen Moore.
Nunca mais voltou
Madlaine Traverse.
Nunca mais voltaram
Madleine Carrol
e Bebé Daniels
e Evelyn Brent.
Quem dará notícia
de Carmel Myers?
De June Caprice
e de Estelle Taylor?
de Betty Blytte,
de Priscilla Dean?
Onde, Shirley Mason?
Ann Dvorak, onde?
Onde Pola Negri
e Laura La Plante?
Quem viu Esther Ralston,
Arlette Marchal,
também Vilma Banky?
Ai, namoradas
desaparecidas
tenho não sei quantas.
Obrigado, Alex
Viany, escusa
de contar-me certo
o fim que levaram.
Melhor não saber,
ou fazer que não.
Em frente da tela
branca para os outros,
para mim repleta
de signos e signos
tão indestrutíveis
que nem meu cansaço
de velho olhador
logra dissipá-los,
sem timbre nostálgico,
atual e sempre,
mantenho a leitura
deste sentimento
de amor visual.
tenho mais de cem:
Barbara La Marr
e Louise Fazenda,
tenho Theda Bara
e Olive Borden,
Bessie Barriscale
e Virginia Valli.
Tenho Marion Davies,
tenho Clara Bow,
tenho Alice Calhoun,
tenho Betty Compson,
tenho Nancy Carroll,
e Norma Talmadge
e Anita Stewart,
e Mildred Harris
e Lya de Putti,
que se suicidou,
como Lupe Velez.
Tenho Nazimova,
Mae Murray, Mae Marsch
e ainda Mae Busch
e Edna Purviance,
Ruth Roland, Ruth
Chatterton, Julia Faye,
tenho Ethel Clayton,
tenho Kathlyn Williams,
tenho Gladys Brockwell,
morta num desastre.
Eis Anna May Wong
com Alice Joyce
e Constance Bennett.
Tenho Agnes Ayres
e Elissa Landi,
tenho Mary Bryan
e Dorothy Gish
e Alice Brady
e Renée Adorée.
Guardo bem o nome
de Marie Prévost
e de Phyllis Haver,
o de Mabel Normand,
o de Fanny Ward,
o de Helen Costello,
o de Pearl White.
E de Alma Rubens
nunca mais me esqueço.
Lembro Nita Naldi,
Pauline Frederick,
Geraldine Farrar,
Clara Kimball Young,
lembro Elsie Ferguson
distantes, distantes.
E lembro Ann Sheridan
e Kay Francis lembro
e Carole Lombard
morta no avião
como Linda Darnell
morta no incêndio.
Tenho namoradas
que outros não namoram,
como Zasu Pitts,
Maria Ouspenskaya
e Marie Dressler.
Namoradas mortas?
Tenho mais de mil.
E das sem notícias
tenho outras tantas.
Onde se esconderam
Aileen Pringle, Viola
Dana, Louise Brooks?
Não sei onde foram
nem Pauline Starke
nem Blanche Sweet
nem Madge Bellamy
nem Gloria Stuart.
Ainda sinto falta
de Corinne Griffith,
de Louise Glaum
e de Anita Page,
de Olga Petrova
e de Mary Philbin,
de Virginia Pearson,
e Mary Miles Minter,
de Claudette Colbert
e Karen Morley,
de Irene Castle
e de Billie Dove.
Que é de Irene Rich,
onde vai Kay Johnson?
Ah, Dorothy Dalton
e Leatrice Joy!
May Mac Avoy
e Dorothy Mackaill,
Eleonor Boardman
e Alice Terry,
Margaret Livingstone
e Claire Windsor,
a todas recordo
e sumiram todas.
Sumiu Lila Lee,
sumiu Lois Wilson.
Florence Vidor
nunca mais voltou.
Sumiu Colleen Moore.
Nunca mais voltou
Madlaine Traverse.
Nunca mais voltaram
Madleine Carrol
e Bebé Daniels
e Evelyn Brent.
Quem dará notícia
de Carmel Myers?
De June Caprice
e de Estelle Taylor?
de Betty Blytte,
de Priscilla Dean?
Onde, Shirley Mason?
Ann Dvorak, onde?
Onde Pola Negri
e Laura La Plante?
Quem viu Esther Ralston,
Arlette Marchal,
também Vilma Banky?
Ai, namoradas
desaparecidas
tenho não sei quantas.
Obrigado, Alex
Viany, escusa
de contar-me certo
o fim que levaram.
Melhor não saber,
ou fazer que não.
Em frente da tela
branca para os outros,
para mim repleta
de signos e signos
tão indestrutíveis
que nem meu cansaço
de velho olhador
logra dissipá-los,
sem timbre nostálgico,
atual e sempre,
mantenho a leitura
deste sentimento
de amor visual.
653
Charles Bukowski
A Belíssima Editora
ela era uma mulher belíssima, eu costumava ver fotografias
dela nas revistas literárias daquele
tempo.
eu era jovem mas estava sempre sozinho – eu sentia que precisava de
tempo para realizar algo e a única coisa que me permitia comprar tempo
era a
pobreza.
eu trabalhava não tanto com técnica mas mais com registrar
aquilo que me empurrava rumo à beira da loucura – e eu tinha
lampejos de sorte, mas estava longe de ser uma existência
prazerosa.
acho que dei mostras de uma bela resistência mas aí lentamente
a saúde e a coragem começaram a ir pelo ralo.
e chegou a noite em que tudo desmoronou – e
o medo, a dúvida e a humilhação apareceram...
e eu escrevi algumas cartas usando meus últimos selos
contando para poucas e seletas pessoas que eu havia cometido um
erro, que eu estava passando fome e vivendo aprisionado numa pequena
e congelante cabana das trevas numa cidade estranha num
estado
estranho.
eu enviei as cartas e aí esperei por intermináveis dias e noites de
loucura, torcendo, ansiando afinal por uma resposta
decente.
somente duas cartas vieram – no mesmo dia –
e eu abri as páginas e sacudi as páginas à procura de
dinheiro mas não havia
nada.
uma carta era do meu pai, seis páginas me dizendo que
eu merecia o que estava acontecendo, que eu devia ter me tornado
um engenheiro como ele me aconselhou, e que ninguém jamais leria
o tipo de coisa que eu escrevia, e isso e aquilo, nesse
tom.
a outra carta era da belíssima editora, impecavelmente datilografada em
caro papel de carta, e ela dizia que não estava mais
publicando sua revista literária, ela tinha encontrado Deus e estava
morando em um castelo numa colina na Itália e ajudando os pobres, e
ela assinava seu famoso nome com um “Deus o abençoe” e era
isso.
ah, você não faz ideia, naquela cabana escura e gélida, de como eu queria
ser pobre na Itália e não em Atlanta, ser um camponês pobre,
sim, ou até mesmo um cachorro na colcha dela, ou até mesmo uma pulga naquele
cachorro naquela
colcha: como eu queria o mais ínfimo
calor.
a dama havia me publicado junto com Henry Miller, Sartre, Céline,
outros.
eu jamais deveria ter pedido dinheiro num mundo em que milhões de
camponeses rastejavam pelas ruas
famintas
e mesmo alguns anos depois quando a editora
morreu
eu ainda a considerava
belíssima.
dela nas revistas literárias daquele
tempo.
eu era jovem mas estava sempre sozinho – eu sentia que precisava de
tempo para realizar algo e a única coisa que me permitia comprar tempo
era a
pobreza.
eu trabalhava não tanto com técnica mas mais com registrar
aquilo que me empurrava rumo à beira da loucura – e eu tinha
lampejos de sorte, mas estava longe de ser uma existência
prazerosa.
acho que dei mostras de uma bela resistência mas aí lentamente
a saúde e a coragem começaram a ir pelo ralo.
e chegou a noite em que tudo desmoronou – e
o medo, a dúvida e a humilhação apareceram...
e eu escrevi algumas cartas usando meus últimos selos
contando para poucas e seletas pessoas que eu havia cometido um
erro, que eu estava passando fome e vivendo aprisionado numa pequena
e congelante cabana das trevas numa cidade estranha num
estado
estranho.
eu enviei as cartas e aí esperei por intermináveis dias e noites de
loucura, torcendo, ansiando afinal por uma resposta
decente.
somente duas cartas vieram – no mesmo dia –
e eu abri as páginas e sacudi as páginas à procura de
dinheiro mas não havia
nada.
uma carta era do meu pai, seis páginas me dizendo que
eu merecia o que estava acontecendo, que eu devia ter me tornado
um engenheiro como ele me aconselhou, e que ninguém jamais leria
o tipo de coisa que eu escrevia, e isso e aquilo, nesse
tom.
a outra carta era da belíssima editora, impecavelmente datilografada em
caro papel de carta, e ela dizia que não estava mais
publicando sua revista literária, ela tinha encontrado Deus e estava
morando em um castelo numa colina na Itália e ajudando os pobres, e
ela assinava seu famoso nome com um “Deus o abençoe” e era
isso.
ah, você não faz ideia, naquela cabana escura e gélida, de como eu queria
ser pobre na Itália e não em Atlanta, ser um camponês pobre,
sim, ou até mesmo um cachorro na colcha dela, ou até mesmo uma pulga naquele
cachorro naquela
colcha: como eu queria o mais ínfimo
calor.
a dama havia me publicado junto com Henry Miller, Sartre, Céline,
outros.
eu jamais deveria ter pedido dinheiro num mundo em que milhões de
camponeses rastejavam pelas ruas
famintas
e mesmo alguns anos depois quando a editora
morreu
eu ainda a considerava
belíssima.
1 130
Herberto Helder
Já Me Custa No Chão do Inferno
já me custa no chão do inferno,
num volteio,
o lenço de Beatriz,
não é fácil que se despenhe da prateleira o apocalipse encadernado a púrpura,
aos oitenta é trabalhoso lidar com a revelação
e o pensamento puro,
também não posso por razões tipográficas conhecer a lei nos livros de bolso,
os dentes-de-leão quando bate a primavera,
estrelas enxameando o vento,
não posso,
vejo-as fugindo para trás sobre o meu ombro esquerdo,
e logo abaixo uma pancada de sangue,
não apanho lenços,
não apanho livros,
não apanho o ritmo fechado sobre si mesmo como a unha fecha o dedo,
já não tenho engenho para reaver aquela rosa esquerda que um dia me
roubaram,
já não apanho o ritmo,
eu que me interessei pelas origens trágicas da erudição,
com os pés sobre a terra sentia a água de cima até ao fundo,
sentia-lhe o leve e frio
movimento, tecia nos redutos do sono
os fios da seda, e agora mal adormeço o mel mortal vibra nos alvéolos,
sempre sempre sempre,
nunca sonhei com o sangue que se escrevia a si mesmo
como um poema trémulo,
porque só à primeira metade do poema assistia o mistério da respiração,
e o júbilo, esse mistério insoluto
oh porque me arrebatou tudo isso,
e me não sopra agora no escuro dos quartos,
quando já não há ninguém,
de uma só vez, nas pálpebras, nos ouvidos, na boca,
quando sou mudo e cego e surdo,
e porque não sinto estremecer-me a garganta,
e se não torna límpida nunca a erudição,
nas trevas nas trevas,
porque Alexandria não será jamais a minha pátria,
se já tudo se depurou enfim nos confins da leitura?
substantivos ar e fogo, agarrei-os
num arrebatamento,
unhas sangrando entre os buracos do papel salgado,
e uma palavra apenas, neologismo, arcaísmo há muito muito fora de uso,
nunca me abandonou em nenhuma cidade do mundo,
porque todos os poemas são trémulos,
oh nos curtumes dos dedos,
e por uma irónica razão nos curtumes crus da alma
Bibliografia dispensável:
Les origines tragiques de l’érudition. Une histoire de la note
en bas de page. Anthony Grafton (trad. Antoine Fabre).
num volteio,
o lenço de Beatriz,
não é fácil que se despenhe da prateleira o apocalipse encadernado a púrpura,
aos oitenta é trabalhoso lidar com a revelação
e o pensamento puro,
também não posso por razões tipográficas conhecer a lei nos livros de bolso,
os dentes-de-leão quando bate a primavera,
estrelas enxameando o vento,
não posso,
vejo-as fugindo para trás sobre o meu ombro esquerdo,
e logo abaixo uma pancada de sangue,
não apanho lenços,
não apanho livros,
não apanho o ritmo fechado sobre si mesmo como a unha fecha o dedo,
já não tenho engenho para reaver aquela rosa esquerda que um dia me
roubaram,
já não apanho o ritmo,
eu que me interessei pelas origens trágicas da erudição,
com os pés sobre a terra sentia a água de cima até ao fundo,
sentia-lhe o leve e frio
movimento, tecia nos redutos do sono
os fios da seda, e agora mal adormeço o mel mortal vibra nos alvéolos,
sempre sempre sempre,
nunca sonhei com o sangue que se escrevia a si mesmo
como um poema trémulo,
porque só à primeira metade do poema assistia o mistério da respiração,
e o júbilo, esse mistério insoluto
oh porque me arrebatou tudo isso,
e me não sopra agora no escuro dos quartos,
quando já não há ninguém,
de uma só vez, nas pálpebras, nos ouvidos, na boca,
quando sou mudo e cego e surdo,
e porque não sinto estremecer-me a garganta,
e se não torna límpida nunca a erudição,
nas trevas nas trevas,
porque Alexandria não será jamais a minha pátria,
se já tudo se depurou enfim nos confins da leitura?
substantivos ar e fogo, agarrei-os
num arrebatamento,
unhas sangrando entre os buracos do papel salgado,
e uma palavra apenas, neologismo, arcaísmo há muito muito fora de uso,
nunca me abandonou em nenhuma cidade do mundo,
porque todos os poemas são trémulos,
oh nos curtumes dos dedos,
e por uma irónica razão nos curtumes crus da alma
Bibliografia dispensável:
Les origines tragiques de l’érudition. Une histoire de la note
en bas de page. Anthony Grafton (trad. Antoine Fabre).
540
Herberto Helder
Os Ritmos 3
Uma mulher está sentada junto à sua janela.
Por detrás fica a casa.
Ainda hoje não entendo isso.
Porque venho através dos corredores, eu, o mensageiro ardente e desordenado, e caio naquele espaço de silêncio, e quando digo mãe, ela volta-se e sorri do fundo de uma terrível sabedoria.
Os olhos são límpidos e de uma beleza dolorosa.
Sim, sim, diz a mulher, e sorri sempre.
Agora a memória é a minha tarefa, e tantos anos de trabalho assíduo não me levam a grande coisa.
Sou um homem de pouca qualidade.
Lento.
A cabeça da mãe, essa, é tremendamente alta, no meio da luz.
Não compreendo.
Mas vejo que há distâncias, e a distância é uma dor.
A maturidade, uma dor: apenas isso.
A grande maravilha é a tal cabeça muito alta que a luz ataca por todos os lados.
Na casa é tudo assim, e eu sou a única criatura que possui uma velocidade cega.
Uma criança voraz batendo contra o implacável fulgor de todas as coisas.
E então não tenho o amor das palavras e significações, e quando chego as pessoas sorriem e são pacientes comigo.
Param, andam devagar: o seu ritmo é inacessível.
Eu desejaria saber alguma coisa mais acerca dos ritmos.
Talvez quisesse, digo.
Hoje, o meu ofício tornou-se a lentidão, e o meu ritmo é escrever sobre a veloz cegueira de um ano mais antigo.
Eu tinha oito anos, parece-me que é bom dizer isto, e a casa ficava por detrás da mãe, e agora acho que me vou pôr a falar da casa.
A qual parece uma grande esponja.
Atravessam-na múltiplos, longos e estreitos corredores, lançados em todos os sentidos.
É por aí que eu corro, gritando as palavras bárbaras.
Não, não é a infância.
Refiro-me às musas inquietantes, e a mãe, como o carneiro de fogo, a tremenda força animal, arrasta tudo atrás de si.
A mulher sentada — essa bela criatura destruída — ela, imaginem, o carneiro de fogo.
E é.
A casa que tem pregada às costas é o meu amargo, exaltante e inútil prodígio.
Não tenciono ser demasiado claro a respeito de coisa alguma.
Falo da casa.
Trata-se de uma grande casa.
O que há mais são corredores e escadas, e vastos quartos onde irrompe a luz abrupta.
Tenho uma teoria acerca desta casa.
Falsa, sim.
Mas está certa com o espírito de tudo, quero dizer: com as regras da memória.
A minha teoria é que os quartos esmagam os corredores.
Segundo as leis da memória, eles desenvolvem-se como seres vivos, e os corredores e escadas são apenas consentidos acessos, um pouco ambíguos, à inacessível alma dos quartos.
Porque os quartos são adultos.
Caminho pelos corredores e escadas e procuro atingir a mãe que sorri na sua violenta mas imóvel força, e a avó completamente enigmática, e as irmãs e primas que, vou dizê-lo, são assim como cercadas de uma atmosfera de irrespirável beleza.
Amo-as em pânico.
Este amor oblíquo, vejam, não o escrevo com qualquer tergiversão lírica.
Os meus oito anos são monstruosos, mesmo com a distância dita transfiguração, ou dor, se quiserem, ou talento.
Qualquer desses erros é cuidadosamente implacável, porque escrevo.
Escrever não é uma simples volúpia, ou uma responsabilidade moral.
Deve ser um acto de cruel religiosidade, uma espécie de inteligentíssima expiação do crime obscuro de não ter morrido.
E quando se escreve sobre o que eu amaria chamar de temas centrais, há que saber cometer bem os bons erros.
Falo de musas, e a casa — segundo o que penso — é uma esponja.
Ando pelos corredores como para ter acesso à dor incompreensível.
A casa desenvolve-se a partir do quarto grande, o da frente, voltado para o mar, e de onde quase nunca sai a mãe.
A força concentra-se ali e é por um impulso secreto que os outros quartos se desdobram, empurrando-se uns aos outros e abrindo altas portas estreitas para os corredores esmagados.
Há muitas escadas que exprimem um atento esforço para tudo ligar, na linguagem exterior da utilidade.
Porque, afinal, tudo é unido através daquele coração nuclear.
O quarto da mãe.
E então foi-me dado o labirinto e a minha tarefa é dura e fascinante.
Encontrar chaves, decifrar enigmas, descobrir pistas.
Porque estas mulheres que me amam, e que eu amo num segredo doloroso, não me ajudam.
O seu auxílio executa-se em planos inextricáveis.
Ensinam-me os nomes, narram as fábulas e apresentam-me a tradição.
Em certo sentido, conheço tudo.
Mas sou um sôfrego: tenho o talento do amor.
Desejo tocar os vestidos das mulheres, vê-las pentear-se, saber as mínimas razões dos seus movimentos, e o que é aquilo, aquilo — o silêncio delas, a pausa e a luz fixa dos olhos.
A mãe está a essa janela.
Eu cresço, durmo só.
Ouço de noite os ruídos da casa contra o fundo do mar.
Nada é simples, mas todos dizem que eu cresço, e sinto-me crescer.
Não sei o que vou fazer do meu crescimento, senão que agora é mais difícil fazer qualquer coisa, pois as irmãs também crescem e de um modo fulminante.
Porque sinto que se retiram e não posso segui-las.
Muitas vezes mandam-me embora, e os seus vestidos tornam-se de repente deslumbrantes.
Passo os dias a procurá-las pela casa.
Vejo-as, ora uma ora outra, no alto das escadas, e desaparecem.
Minhas primas voltam das aulas e riem loucamente, a cabeça para trás, e depois ficam muito sérias.
A avó diz: raparigas, raparigas.
E então, uma noite, estou sentado no chão, num dos corredores, com as costas junto à parede.
No quarto ao fundo do corredor, por cuja porta aberta sai a luz quente e o murmúrio curvo das vozes, as mulheres trabalham.
Eu ouço.
Das sombras, da luz, das vozes — sobretudo daquele calor como que distante — nasce uma súbita razão.
Em mim, uma alegria tão forte que se torna necessário fazer qualquer coisa.
Tiro do bolso o meu pequeno canivete e, no braço nu, traço um golpe fundo.
Vejo o sangue correr, o meu sangue.
Desliza pela carne, pinga para o soalho.
E as vozes continuam, mornas e ricas, e a luz e as sombras no corredor são as mesmas.
Distingo até o ruído leve de alguns movimentos das mulheres, e o seu riso abafado.
Levanto-me devagar, atravessado de alto a baixo por essa incoerente alegria que, parece, não deverá nunca mais extinguir-se.
Não tiro os olhos do sangue, mais abundante agora.
Sei que é o meu sangue.
Meu.
De pé, fico encostado à parede.
E depois ponho-me a rodar sobre mim mesmo, ao longo do corredor.
Deixo na cal marcas de sangue.
Sinto na cara, a cada volta, a frescura da parede.
É uma lenta marcha que cumpro ritualmente, às vezes beijando a parede, premindo contra ela o braço rasgado.
O sangue corre.
Devo estar bêbedo.
As vozes parecem agora mais altas, a luz mais intensa, e a minha alegria torna-se inseparável de uma confusa e decisiva dor.
Uma dor conquistada com inspiração e sacrifício.
Depois é o meu espectáculo.
E o monstro aparece em cena.
Em frente da porta, vejo as mulheres dobradas sobre os bordados.
A mãe lê.
Num canto, à mesa, as primas estudam.
Levanta-se uma cabeça.
Um grito, o começo do triunfo.
Estou ali, diante de todas as mulheres que me amam, e sangro por mim e por elas, e para elas.
Estou coberto de sangue.
É a glória.
Por detrás fica a casa.
Ainda hoje não entendo isso.
Porque venho através dos corredores, eu, o mensageiro ardente e desordenado, e caio naquele espaço de silêncio, e quando digo mãe, ela volta-se e sorri do fundo de uma terrível sabedoria.
Os olhos são límpidos e de uma beleza dolorosa.
Sim, sim, diz a mulher, e sorri sempre.
Agora a memória é a minha tarefa, e tantos anos de trabalho assíduo não me levam a grande coisa.
Sou um homem de pouca qualidade.
Lento.
A cabeça da mãe, essa, é tremendamente alta, no meio da luz.
Não compreendo.
Mas vejo que há distâncias, e a distância é uma dor.
A maturidade, uma dor: apenas isso.
A grande maravilha é a tal cabeça muito alta que a luz ataca por todos os lados.
Na casa é tudo assim, e eu sou a única criatura que possui uma velocidade cega.
Uma criança voraz batendo contra o implacável fulgor de todas as coisas.
E então não tenho o amor das palavras e significações, e quando chego as pessoas sorriem e são pacientes comigo.
Param, andam devagar: o seu ritmo é inacessível.
Eu desejaria saber alguma coisa mais acerca dos ritmos.
Talvez quisesse, digo.
Hoje, o meu ofício tornou-se a lentidão, e o meu ritmo é escrever sobre a veloz cegueira de um ano mais antigo.
Eu tinha oito anos, parece-me que é bom dizer isto, e a casa ficava por detrás da mãe, e agora acho que me vou pôr a falar da casa.
A qual parece uma grande esponja.
Atravessam-na múltiplos, longos e estreitos corredores, lançados em todos os sentidos.
É por aí que eu corro, gritando as palavras bárbaras.
Não, não é a infância.
Refiro-me às musas inquietantes, e a mãe, como o carneiro de fogo, a tremenda força animal, arrasta tudo atrás de si.
A mulher sentada — essa bela criatura destruída — ela, imaginem, o carneiro de fogo.
E é.
A casa que tem pregada às costas é o meu amargo, exaltante e inútil prodígio.
Não tenciono ser demasiado claro a respeito de coisa alguma.
Falo da casa.
Trata-se de uma grande casa.
O que há mais são corredores e escadas, e vastos quartos onde irrompe a luz abrupta.
Tenho uma teoria acerca desta casa.
Falsa, sim.
Mas está certa com o espírito de tudo, quero dizer: com as regras da memória.
A minha teoria é que os quartos esmagam os corredores.
Segundo as leis da memória, eles desenvolvem-se como seres vivos, e os corredores e escadas são apenas consentidos acessos, um pouco ambíguos, à inacessível alma dos quartos.
Porque os quartos são adultos.
Caminho pelos corredores e escadas e procuro atingir a mãe que sorri na sua violenta mas imóvel força, e a avó completamente enigmática, e as irmãs e primas que, vou dizê-lo, são assim como cercadas de uma atmosfera de irrespirável beleza.
Amo-as em pânico.
Este amor oblíquo, vejam, não o escrevo com qualquer tergiversão lírica.
Os meus oito anos são monstruosos, mesmo com a distância dita transfiguração, ou dor, se quiserem, ou talento.
Qualquer desses erros é cuidadosamente implacável, porque escrevo.
Escrever não é uma simples volúpia, ou uma responsabilidade moral.
Deve ser um acto de cruel religiosidade, uma espécie de inteligentíssima expiação do crime obscuro de não ter morrido.
E quando se escreve sobre o que eu amaria chamar de temas centrais, há que saber cometer bem os bons erros.
Falo de musas, e a casa — segundo o que penso — é uma esponja.
Ando pelos corredores como para ter acesso à dor incompreensível.
A casa desenvolve-se a partir do quarto grande, o da frente, voltado para o mar, e de onde quase nunca sai a mãe.
A força concentra-se ali e é por um impulso secreto que os outros quartos se desdobram, empurrando-se uns aos outros e abrindo altas portas estreitas para os corredores esmagados.
Há muitas escadas que exprimem um atento esforço para tudo ligar, na linguagem exterior da utilidade.
Porque, afinal, tudo é unido através daquele coração nuclear.
O quarto da mãe.
E então foi-me dado o labirinto e a minha tarefa é dura e fascinante.
Encontrar chaves, decifrar enigmas, descobrir pistas.
Porque estas mulheres que me amam, e que eu amo num segredo doloroso, não me ajudam.
O seu auxílio executa-se em planos inextricáveis.
Ensinam-me os nomes, narram as fábulas e apresentam-me a tradição.
Em certo sentido, conheço tudo.
Mas sou um sôfrego: tenho o talento do amor.
Desejo tocar os vestidos das mulheres, vê-las pentear-se, saber as mínimas razões dos seus movimentos, e o que é aquilo, aquilo — o silêncio delas, a pausa e a luz fixa dos olhos.
A mãe está a essa janela.
Eu cresço, durmo só.
Ouço de noite os ruídos da casa contra o fundo do mar.
Nada é simples, mas todos dizem que eu cresço, e sinto-me crescer.
Não sei o que vou fazer do meu crescimento, senão que agora é mais difícil fazer qualquer coisa, pois as irmãs também crescem e de um modo fulminante.
Porque sinto que se retiram e não posso segui-las.
Muitas vezes mandam-me embora, e os seus vestidos tornam-se de repente deslumbrantes.
Passo os dias a procurá-las pela casa.
Vejo-as, ora uma ora outra, no alto das escadas, e desaparecem.
Minhas primas voltam das aulas e riem loucamente, a cabeça para trás, e depois ficam muito sérias.
A avó diz: raparigas, raparigas.
E então, uma noite, estou sentado no chão, num dos corredores, com as costas junto à parede.
No quarto ao fundo do corredor, por cuja porta aberta sai a luz quente e o murmúrio curvo das vozes, as mulheres trabalham.
Eu ouço.
Das sombras, da luz, das vozes — sobretudo daquele calor como que distante — nasce uma súbita razão.
Em mim, uma alegria tão forte que se torna necessário fazer qualquer coisa.
Tiro do bolso o meu pequeno canivete e, no braço nu, traço um golpe fundo.
Vejo o sangue correr, o meu sangue.
Desliza pela carne, pinga para o soalho.
E as vozes continuam, mornas e ricas, e a luz e as sombras no corredor são as mesmas.
Distingo até o ruído leve de alguns movimentos das mulheres, e o seu riso abafado.
Levanto-me devagar, atravessado de alto a baixo por essa incoerente alegria que, parece, não deverá nunca mais extinguir-se.
Não tiro os olhos do sangue, mais abundante agora.
Sei que é o meu sangue.
Meu.
De pé, fico encostado à parede.
E depois ponho-me a rodar sobre mim mesmo, ao longo do corredor.
Deixo na cal marcas de sangue.
Sinto na cara, a cada volta, a frescura da parede.
É uma lenta marcha que cumpro ritualmente, às vezes beijando a parede, premindo contra ela o braço rasgado.
O sangue corre.
Devo estar bêbedo.
As vozes parecem agora mais altas, a luz mais intensa, e a minha alegria torna-se inseparável de uma confusa e decisiva dor.
Uma dor conquistada com inspiração e sacrifício.
Depois é o meu espectáculo.
E o monstro aparece em cena.
Em frente da porta, vejo as mulheres dobradas sobre os bordados.
A mãe lê.
Num canto, à mesa, as primas estudam.
Levanta-se uma cabeça.
Um grito, o começo do triunfo.
Estou ali, diante de todas as mulheres que me amam, e sangro por mim e por elas, e para elas.
Estou coberto de sangue.
É a glória.
1 039
Herberto Helder
Os Ritmos 1
Vejo-lhes o rosto sem sombras, um pequeno rosto branco que tem raízes em águas lisas.
A peste neles é uma tarefa tranquila.
As raízes bebem-na na própria paz, e o sono não dá conta.
Sólido sono que nenhum pavor atravessa.
Um dia hei-de falar melhor deste sono, desse distraído e falso equilíbrio que regras estéreis secretamente alimentam.
Eu via esses rostos, esse sono, e não tinha paz.
Sabem como é?
Começamos por reconhecer aí os seres do nosso amor e gentileza — sei lá — a mãe, as irmãs, a rapariga cujas altas ancas atravessavam os quartos obscuros, atravancavam corredores, e onde a luz viva se quebrava.
Nas fotografias antigas, com forma oval e uma cor ambígua, a três quartos, de frente, de perfil — sim, reconhecemos isso.
São rostos brancos, e dormem.
Dormem o sono onde a lepra estremece: a tenebrosa semente.
Depois vemos que tudo era vazio, lá dentro: era uma casca — e, precisamente, nada significava.
Mãe — dizemos nós.
Mas a mãe fora tomada por aquela grande desatenção.
E chamamos pela jovem tremendamente irradiante e íntima.
Mas nada há, além de um nome inventado pelo nosso tempo e colocação, o nosso próprio mistério.
Fazemos um apelo aos retratos, cercamo-los de uma quente expectativa, e temos sobre eles uma teoria emocionante.
Contudo, é forçoso deixá-los: dormem daquele sono.
Estou rodeado por dezenas de cabeças assim — calmas e vazias.
Vou para os lugares do norte — é talvez um projecto.
Sim, tenho esse projecto.
No norte a neve é grande, e eu andarei sobre ela, possivelmente descalço.
Lá em cima, se me aplicar bastante, segundo uma regra minha interior que hei-de descobrir, ficarei com os pés queimados.
Quando voltar a ver as antigas memórias, terei os pés cobertos de cicatrizes.
Que pensarão de mim?
Que sou um mártir? um vagabundo a quem faltaram os sapatos? um homem a quem faltou a prudência?
Deixemos-lhes os alvitres, os sensos morais.
Temos de pensar nos nossos pés.
Não para lamentos.
Porque, evidentemente, quem possui pés marcados não pode deixar de ser suspeito.
Quero eu dizer: se a neve e o gelo os marcaram, como fogo, é porque o coração tinha o seu crime, a sua regra violenta.
Escutem vocês.
Não temos família, nem amor, nem paz, nem casa, nem país, nem fraternidade, nem.
Realmente nem isso.
Nem projecto.
Quando eu disse muito baixo: mãe.
Sabem vocês o que aconteceu?
Veio aquela mulher muito velha, sonâmbula, que sorria estupidamente, que deveria estar a dormir.
Aposto em que era oca, igual ao ovo de avestruz que havia na horrível sala de jantar.
Bem sei: a minha versão era outra.
Uma mulher silenciosa, sentada junto a uma janela com cortinas brancas onde batia o vento marinho.
A criatura gentil e atenta, cuja melancolia era uma espécie de inteligência subterrânea que todas as coisas, e uma memória oculta, ajudavam no silêncio.
Mas a velha oca sorria, e a inteligência dela era apenas andar pela casa.
Uma galinha.
Vejo-a a esgravatar a terra, a morrer da sua peste, com a cabeça dormente sobre as curtas asas.
O que eu digo é bastante simples: a gente precisa de encontrar o seu verdadeiro lugar para morrer.
Aí é que se vive.
Não é junto de fotografias amarelas, de mães empestadas, de raparigas esplêndidas guardando com ignorância o seu cancro fatal.
Onde é bom para morrer, não há perigo.
Está limpo, é definitivo.
Oh, deixemo-nos de invenções menores.
Já somos puros e responsáveis, depois de tudo o que sucedeu: as pessoas que dormem embrulhadas em volta da sua tenebrosa doença, os retratos oblíquos, inclinando o seu suspeito sorriso e a sua seriedade gramatical.
Merda para os espantalhos.
Estamos sós, libertos dos bons sentimentos, das pequenas grandezas de alma, das vozes solícitas.
Fomos ao norte ou, se não fomos, havemos de ir — isso é o menos.
E aquela dos pés descalços sobre a neve, o diabo tece-as.
Pode bem vir a ser uma verdade.
Não seria assim uma coisa como que heróica, hein?
Uma espécie de santidade, martírio, ou crime exemplar?
Às vezes penso mesmo que é necessário assassinar alguém, ter as mãos cobertas de sangue.
Não que isto possa vir a ser o começo de uma ressurreiçãozinha, mas apenas porque há a necessidade de algo bastante concreto.
Temos contas a liquidar, e o sangue continua a ser, vindo da simbologia antiga, um sinal indiscutível.
Não melhoraria coisa alguma, não senhores.
Mas — enfim — havíamos actuado, tínhamos esse acto como reserva de consciência.
Afinal a mãe estava morta, e a avó que empestava a casa estava morta, e morta estava aquela extraordinária rapariga de ancas altas, a que andava pela obscuridade, essa tinha a sua doença repugnante e estava morta.
Chegámos aqui a um ponto importante.
A minha teoria é a seguinte.
Matá-los não era possível, pois eles estavam todos mortos, sorrindo nos corredores, nas janelas, nos retratos.
Mas nós devíamo-nos sentir os executores.
A sua justa morte, posterior, deveria ter sido obra nossa, milagre, violência nossa.
E então partíamos para a neve, com uma alegria feroz, uma essência pura — libertos por nossas próprias mãos.
Que esplêndidos pés marcados.
Mas afinal sentamo-nos a uma mesa e escrevemos as palavras ambíguas para que haverá todos os sentidos, aqueles mesmo por onde escapará a pequena parte de nobreza que era a nossa intenção.
E agora, para mais, assaltam-me imagens de uma beleza terrível e degradante para o que tenho pela minha alta vocação: o esquecimento.
Sabem o que vejo?
Mãos quentes e seguras que fazem desenhos sobre a mesa, no ar, na conversa.
Irmãs, primas, mulheres que atravessam um frio e nítido pomar de laranjeiras anãs, o cabelo húmido, o rosto grande aberto, o olhar muito vivo.
Enquanto sufoco com tanta beleza, eu, criança comovida, pequeno monstro sensível entregue às ciladas da falsa memória.
Na realidade, eu deveria estar no deserto, de pé, porque tudo é impiedoso, e eu sou impiedoso.
É preciso deitar fogo às ervas, as ervas altas, estar sobre areia, sobre cal.
Há uma pureza, decerto.
E não será feita com detritos, emoções fáceis, figuras repetindo gestos a que nos aplicámos a dar uma virtude — e que constituem depois o exemplo do tempo, do lugar, do acto.
A história que eu conto é esta.
Houve um engano nos nossos pensamentos, e do engano fizemos a alegria e a tristeza, chegámos a fazer a nossa força.
A pureza não deve ser a ingenuidade e a segurança com que a podemos ter.
Por isso falo de uma viagem onde é possível perder o próprio nome, e morrer disso.
E então viver.
Não dormindo, como as nossas bestas respeitáveis.
Viver — digo eu.
E que o nosso afastamento, o silêncio vibrante, a grande morte pensada e amada nas profundidades — fossem bastante para vergar as bestas todas, empurrá-las pelo seu próprio sono abaixo, afundá-las até ao inferno.
Gostaria de cantar quando o ar estivesse completamente límpido.
Mas não passo de um fraco — nem sequer matei os prestigiosos monstros do meu tempo: todas essas criaturas que me entregam uma velhice pecaminosa, essas obscenas figuras de retórica que são as descobertas da intimidade.
Todos os dias os mortos ressuscitam e bebem o meu sangue de homem, e eu sorrio-lhes, cheio de gratidão e amor.
Grande filho de puta.
A peste neles é uma tarefa tranquila.
As raízes bebem-na na própria paz, e o sono não dá conta.
Sólido sono que nenhum pavor atravessa.
Um dia hei-de falar melhor deste sono, desse distraído e falso equilíbrio que regras estéreis secretamente alimentam.
Eu via esses rostos, esse sono, e não tinha paz.
Sabem como é?
Começamos por reconhecer aí os seres do nosso amor e gentileza — sei lá — a mãe, as irmãs, a rapariga cujas altas ancas atravessavam os quartos obscuros, atravancavam corredores, e onde a luz viva se quebrava.
Nas fotografias antigas, com forma oval e uma cor ambígua, a três quartos, de frente, de perfil — sim, reconhecemos isso.
São rostos brancos, e dormem.
Dormem o sono onde a lepra estremece: a tenebrosa semente.
Depois vemos que tudo era vazio, lá dentro: era uma casca — e, precisamente, nada significava.
Mãe — dizemos nós.
Mas a mãe fora tomada por aquela grande desatenção.
E chamamos pela jovem tremendamente irradiante e íntima.
Mas nada há, além de um nome inventado pelo nosso tempo e colocação, o nosso próprio mistério.
Fazemos um apelo aos retratos, cercamo-los de uma quente expectativa, e temos sobre eles uma teoria emocionante.
Contudo, é forçoso deixá-los: dormem daquele sono.
Estou rodeado por dezenas de cabeças assim — calmas e vazias.
Vou para os lugares do norte — é talvez um projecto.
Sim, tenho esse projecto.
No norte a neve é grande, e eu andarei sobre ela, possivelmente descalço.
Lá em cima, se me aplicar bastante, segundo uma regra minha interior que hei-de descobrir, ficarei com os pés queimados.
Quando voltar a ver as antigas memórias, terei os pés cobertos de cicatrizes.
Que pensarão de mim?
Que sou um mártir? um vagabundo a quem faltaram os sapatos? um homem a quem faltou a prudência?
Deixemos-lhes os alvitres, os sensos morais.
Temos de pensar nos nossos pés.
Não para lamentos.
Porque, evidentemente, quem possui pés marcados não pode deixar de ser suspeito.
Quero eu dizer: se a neve e o gelo os marcaram, como fogo, é porque o coração tinha o seu crime, a sua regra violenta.
Escutem vocês.
Não temos família, nem amor, nem paz, nem casa, nem país, nem fraternidade, nem.
Realmente nem isso.
Nem projecto.
Quando eu disse muito baixo: mãe.
Sabem vocês o que aconteceu?
Veio aquela mulher muito velha, sonâmbula, que sorria estupidamente, que deveria estar a dormir.
Aposto em que era oca, igual ao ovo de avestruz que havia na horrível sala de jantar.
Bem sei: a minha versão era outra.
Uma mulher silenciosa, sentada junto a uma janela com cortinas brancas onde batia o vento marinho.
A criatura gentil e atenta, cuja melancolia era uma espécie de inteligência subterrânea que todas as coisas, e uma memória oculta, ajudavam no silêncio.
Mas a velha oca sorria, e a inteligência dela era apenas andar pela casa.
Uma galinha.
Vejo-a a esgravatar a terra, a morrer da sua peste, com a cabeça dormente sobre as curtas asas.
O que eu digo é bastante simples: a gente precisa de encontrar o seu verdadeiro lugar para morrer.
Aí é que se vive.
Não é junto de fotografias amarelas, de mães empestadas, de raparigas esplêndidas guardando com ignorância o seu cancro fatal.
Onde é bom para morrer, não há perigo.
Está limpo, é definitivo.
Oh, deixemo-nos de invenções menores.
Já somos puros e responsáveis, depois de tudo o que sucedeu: as pessoas que dormem embrulhadas em volta da sua tenebrosa doença, os retratos oblíquos, inclinando o seu suspeito sorriso e a sua seriedade gramatical.
Merda para os espantalhos.
Estamos sós, libertos dos bons sentimentos, das pequenas grandezas de alma, das vozes solícitas.
Fomos ao norte ou, se não fomos, havemos de ir — isso é o menos.
E aquela dos pés descalços sobre a neve, o diabo tece-as.
Pode bem vir a ser uma verdade.
Não seria assim uma coisa como que heróica, hein?
Uma espécie de santidade, martírio, ou crime exemplar?
Às vezes penso mesmo que é necessário assassinar alguém, ter as mãos cobertas de sangue.
Não que isto possa vir a ser o começo de uma ressurreiçãozinha, mas apenas porque há a necessidade de algo bastante concreto.
Temos contas a liquidar, e o sangue continua a ser, vindo da simbologia antiga, um sinal indiscutível.
Não melhoraria coisa alguma, não senhores.
Mas — enfim — havíamos actuado, tínhamos esse acto como reserva de consciência.
Afinal a mãe estava morta, e a avó que empestava a casa estava morta, e morta estava aquela extraordinária rapariga de ancas altas, a que andava pela obscuridade, essa tinha a sua doença repugnante e estava morta.
Chegámos aqui a um ponto importante.
A minha teoria é a seguinte.
Matá-los não era possível, pois eles estavam todos mortos, sorrindo nos corredores, nas janelas, nos retratos.
Mas nós devíamo-nos sentir os executores.
A sua justa morte, posterior, deveria ter sido obra nossa, milagre, violência nossa.
E então partíamos para a neve, com uma alegria feroz, uma essência pura — libertos por nossas próprias mãos.
Que esplêndidos pés marcados.
Mas afinal sentamo-nos a uma mesa e escrevemos as palavras ambíguas para que haverá todos os sentidos, aqueles mesmo por onde escapará a pequena parte de nobreza que era a nossa intenção.
E agora, para mais, assaltam-me imagens de uma beleza terrível e degradante para o que tenho pela minha alta vocação: o esquecimento.
Sabem o que vejo?
Mãos quentes e seguras que fazem desenhos sobre a mesa, no ar, na conversa.
Irmãs, primas, mulheres que atravessam um frio e nítido pomar de laranjeiras anãs, o cabelo húmido, o rosto grande aberto, o olhar muito vivo.
Enquanto sufoco com tanta beleza, eu, criança comovida, pequeno monstro sensível entregue às ciladas da falsa memória.
Na realidade, eu deveria estar no deserto, de pé, porque tudo é impiedoso, e eu sou impiedoso.
É preciso deitar fogo às ervas, as ervas altas, estar sobre areia, sobre cal.
Há uma pureza, decerto.
E não será feita com detritos, emoções fáceis, figuras repetindo gestos a que nos aplicámos a dar uma virtude — e que constituem depois o exemplo do tempo, do lugar, do acto.
A história que eu conto é esta.
Houve um engano nos nossos pensamentos, e do engano fizemos a alegria e a tristeza, chegámos a fazer a nossa força.
A pureza não deve ser a ingenuidade e a segurança com que a podemos ter.
Por isso falo de uma viagem onde é possível perder o próprio nome, e morrer disso.
E então viver.
Não dormindo, como as nossas bestas respeitáveis.
Viver — digo eu.
E que o nosso afastamento, o silêncio vibrante, a grande morte pensada e amada nas profundidades — fossem bastante para vergar as bestas todas, empurrá-las pelo seu próprio sono abaixo, afundá-las até ao inferno.
Gostaria de cantar quando o ar estivesse completamente límpido.
Mas não passo de um fraco — nem sequer matei os prestigiosos monstros do meu tempo: todas essas criaturas que me entregam uma velhice pecaminosa, essas obscenas figuras de retórica que são as descobertas da intimidade.
Todos os dias os mortos ressuscitam e bebem o meu sangue de homem, e eu sorrio-lhes, cheio de gratidão e amor.
Grande filho de puta.
619
Herberto Helder
Os Ritmos 5
Estou no fundo da casa, no abismo possível dos oito anos.
A glória sangrenta é uma lembrança.
Da minha doença horizontal — súbita e esmagadora — pressinto a glória como uma coisa pequena.
Como se um indefinido grão de ciência tivesse um preço monstruoso: uma espécie de morte e um difícil renascimento, entre penumbras.
E o que se perdia — que perdera eu? — seria talvez tão precioso pelo menos como aquilo que se ganhava.
(Não reconhecia também o que ganhara.)
Aparecera em mim uma nova fragilidade, e o meu corpo crescera no seu conhecimento, o amor crescera e a confusão.
Contudo, eu havia decifrado um enigma.
Não sabia qual.
O mundo, entretanto, compreendera alguma coisa a meu respeito.
Os outros viam que eu crescera até ficar como que às portas da loucura.
E então as mulheres vinham observar o enfermo, com algum espanto, uma curiosidade cúmplice, talvez mesmo com certa gratidão.
Traziam as coisas femininas: as mãos, os vestidos, os cheiros, os longos cabelos, os olhos cheios de pensamento, e as maçãs, os bolos, a nenhuma referência verbal à minha glória.
Eu percebia, percebo isso.
Descubro também que sou pobre.
Que os homens não possuem outra arma além de um comovido e estéril entendimento.
Terei talvez de morrer gloriosamente um milhão de vezes, e ressuscitar sempre, com uma acrescentada ciência estéril.
A mãe chega e olha para mim.
Devorado pela febre, descubro a máxima lentidão das suas mãos e a máxima profundidade dos olhos.
Beija-me.
É como se ela tivesse também inteiramente descoberto quem eu sou.
Beija-me como se, de certa maneira, eu estivesse morto, para ressuscitar noutro sítio, noutra linguagem.
A avó, essa, tem uma idade verdadeiramente espantosa, porque me traz maçãs.
Põe-nas na mesa de cabeceira e diz: amanhã estás melhor.
Tremo.
Alegria, terror, gratidão, admiração.
As mãos e a cara dela são muito velhas — inesgotáveis.
Ajeita a roupa da cama e não sorri.
Não precisa sorrir.
A sua força é para além disso.
Uma força de presença, apenas.
É uma presença total, um bloco de idade.
Mas as irmãs e as primas sabem menos, por isso posso tocar mais facilmente nelas o pequeno milagre da minha nova sabedoria.
Vejo nelas um vestígio de culpa e reconhecimento.
Põem vestidos claros, beijam-me muito, contam tudo o que lhes aconteceu durante o dia.
Parece que desejariam dizer: não temos qualquer segredo para ti, queremos que te levantes e venhas connosco para todos os lugares.
Sabemos, no entanto, elas e eu, que nada mais temos do que amor para nos darmos.
Nunca possuiremos o mesmo conhecimento, o mesmo crescimento.
Eu deverei aprender devagar e penosamente o ritmo da feminilidade, aquele lugar onde elas têm vestidos claros e riem, ou onde de súbito ficam silenciosas e são lentas, como se receassem quebrar algo que trouxessem dentro de si.
Descobrirão logo o sentido da minha espectacular emoção, e ficarão gratas.
Depois vão-se todas embora, e eu permaneço com as minhas trevas onde o corpo está a crescer tanto que poderei rebentar de dor.
A minha luta é para fixar a pequena luz que germina no escuro.
Preciso curar-me de um conhecimento tão recente e tão vivo.
Curar-me da sua intensidade, da sua surpresa.
Só então me será possível sair do quarto, andar pela casa, aproximar-me das mulheres sem terror — e falar-lhes.
Contudo, nunca lhes poderei dizer o que conheço.
Mas ser-me-á concedida a alegria.
Voltarei a ter o meu próprio corpo.
A ferida do braço cicatriza.
Os dias são brancos e extensos.
Durmo e acordo, e há sempre luz e tempo.
Quando as sombras chegam, ouço vozes que cantam.
Percebo que existe algures uma grande simplicidade a que não poderei chegar nem cedo nem tarde demais.
Tenho oito anos, uma primeira glória violenta, a primeira morte e um modo novo de avaliar-me.
Brutalmente, aparece a grande certeza de que estou vivo.
É impossível continuar doente.
Os dias andam depressa agora, já não apalpo o subtil tecido de que são compostos.
Quero fazer coisas.
Levantar-me da cama, ver, mover-me.
Devo afirmar que o mundo é o meu espaço e o tempo não poderá existir sem mim.
As mulheres já sabem.
A avó deixou de me trazer maçãs, e prepara-me a roupa.
A mãe anda como que atarefada noutra esfera.
Julgo que enche frascos de compota.
Há nas irmãs e nas primas um leve receio de que eu tenha crescido demasiado e comece a partir, pela casa fora, tudo o que apanhar à mão.
Esta esplêndida violência do meu ser atemoriza-as um pouco e, embora sorriam gentilmente, sei que acabo de alcançar um perigoso prestígio.
Elas nunca terão a minha violência.
Isso torna-me monstruosamente feliz.
Apenas a minha próxima morte as libertará, até que eu de novo renasça, para então as atemorizar de novo.
Um dia, porém, elas serão como a mãe, e estarão fora do meu alcance, porque nessa altura devem conhecer a minha essencial esterilidade.
E, mais tarde ainda, serão como a avó, terão toda a inteligência, e pelo seu espírito não passará a mais ligeira dúvida: saberão tudo o que haverá para fazer.
Estarei reduzido à completa masculinidade.
Mas muitos anos terão de passar até ao momento dessa desesperada tarefa.
A glória e o conhecimento só agora principiaram, nem eu sei ainda ao que me conduzirão.
Gozo o poder violento deste instante, não me volto para trás nem para a frente.
Deixo as roupas moles da cama, o círculo sensível e intuitivo das mulheres, o silêncio — e abandono o quarto, estonteado pela debilidade da doença e pela força da cura.
Cresceste, diz a avó.
Sorri agora, sabendo o que é e o que será tudo isso.
Cresci, penso, cresci durante a minha doença.
As irmãs olham-me com pudor e curiosidade e as primas tocam-me de passagem no ombro.
Parece que estou com os braços e as pernas muito grandes para o resto do corpo.
Há qualquer coisa em mim de desproporcionado, talvez um pouco repelente, mas também comovedor.
Temível, do mesmo modo.
Riem timidamente do meu aspecto.
Ah, sim.
Gostariam de entregar-se a uma veemente e feliz troça, mas a minha desproporção é inquietante.
Os braços e as pernas.
Sem dúvida: desenvolveram-se demais.
Mas trata-se apenas de um sinal grosseiro de outra coisa que ganhou novo espaço.
A vida cresceu, a diferença cresceu entre mim e elas.
Eu sei coisas.
Eu tenho forças.
Outro país, não o delas, está a florescer em braços e pernas, em obscuro poder.
Dá vontade de rir.
E devido à insólita transformação no fundo da doença, aos oito anos, os anos delas vão-se pôr também a crescer, sabe-se lá como, com que poder e sinais.
Mas não penso nisso, nada sei.
Não me importam os seus risos e frases, nem a minha doença acabada, nem sequer o que diz a avó.
Estou interessado nos meus braços e pernas e no modo como aplicá-los ao vasto lugar onde se encontram e ao tempo atravessado pelo calor de junho.
Vejo que os posso colocar bastante bem em cada momento, no espaço todo.
Não há desproporção.
Os dias absorvem a minha desproporção.
Quando vou para a praia, movo-me melhor na água e corro sofregamente pela areia.
Por enquanto, durante toda esta ocupação de aplicar o meu novo tamanho, o corpo, o meu coração posterior à glória, à morte e ao renascimento, por enquanto sim, sei que desprezo um pouco as mulheres.
É preciso ser a avó para entender isso.
A glória sangrenta é uma lembrança.
Da minha doença horizontal — súbita e esmagadora — pressinto a glória como uma coisa pequena.
Como se um indefinido grão de ciência tivesse um preço monstruoso: uma espécie de morte e um difícil renascimento, entre penumbras.
E o que se perdia — que perdera eu? — seria talvez tão precioso pelo menos como aquilo que se ganhava.
(Não reconhecia também o que ganhara.)
Aparecera em mim uma nova fragilidade, e o meu corpo crescera no seu conhecimento, o amor crescera e a confusão.
Contudo, eu havia decifrado um enigma.
Não sabia qual.
O mundo, entretanto, compreendera alguma coisa a meu respeito.
Os outros viam que eu crescera até ficar como que às portas da loucura.
E então as mulheres vinham observar o enfermo, com algum espanto, uma curiosidade cúmplice, talvez mesmo com certa gratidão.
Traziam as coisas femininas: as mãos, os vestidos, os cheiros, os longos cabelos, os olhos cheios de pensamento, e as maçãs, os bolos, a nenhuma referência verbal à minha glória.
Eu percebia, percebo isso.
Descubro também que sou pobre.
Que os homens não possuem outra arma além de um comovido e estéril entendimento.
Terei talvez de morrer gloriosamente um milhão de vezes, e ressuscitar sempre, com uma acrescentada ciência estéril.
A mãe chega e olha para mim.
Devorado pela febre, descubro a máxima lentidão das suas mãos e a máxima profundidade dos olhos.
Beija-me.
É como se ela tivesse também inteiramente descoberto quem eu sou.
Beija-me como se, de certa maneira, eu estivesse morto, para ressuscitar noutro sítio, noutra linguagem.
A avó, essa, tem uma idade verdadeiramente espantosa, porque me traz maçãs.
Põe-nas na mesa de cabeceira e diz: amanhã estás melhor.
Tremo.
Alegria, terror, gratidão, admiração.
As mãos e a cara dela são muito velhas — inesgotáveis.
Ajeita a roupa da cama e não sorri.
Não precisa sorrir.
A sua força é para além disso.
Uma força de presença, apenas.
É uma presença total, um bloco de idade.
Mas as irmãs e as primas sabem menos, por isso posso tocar mais facilmente nelas o pequeno milagre da minha nova sabedoria.
Vejo nelas um vestígio de culpa e reconhecimento.
Põem vestidos claros, beijam-me muito, contam tudo o que lhes aconteceu durante o dia.
Parece que desejariam dizer: não temos qualquer segredo para ti, queremos que te levantes e venhas connosco para todos os lugares.
Sabemos, no entanto, elas e eu, que nada mais temos do que amor para nos darmos.
Nunca possuiremos o mesmo conhecimento, o mesmo crescimento.
Eu deverei aprender devagar e penosamente o ritmo da feminilidade, aquele lugar onde elas têm vestidos claros e riem, ou onde de súbito ficam silenciosas e são lentas, como se receassem quebrar algo que trouxessem dentro de si.
Descobrirão logo o sentido da minha espectacular emoção, e ficarão gratas.
Depois vão-se todas embora, e eu permaneço com as minhas trevas onde o corpo está a crescer tanto que poderei rebentar de dor.
A minha luta é para fixar a pequena luz que germina no escuro.
Preciso curar-me de um conhecimento tão recente e tão vivo.
Curar-me da sua intensidade, da sua surpresa.
Só então me será possível sair do quarto, andar pela casa, aproximar-me das mulheres sem terror — e falar-lhes.
Contudo, nunca lhes poderei dizer o que conheço.
Mas ser-me-á concedida a alegria.
Voltarei a ter o meu próprio corpo.
A ferida do braço cicatriza.
Os dias são brancos e extensos.
Durmo e acordo, e há sempre luz e tempo.
Quando as sombras chegam, ouço vozes que cantam.
Percebo que existe algures uma grande simplicidade a que não poderei chegar nem cedo nem tarde demais.
Tenho oito anos, uma primeira glória violenta, a primeira morte e um modo novo de avaliar-me.
Brutalmente, aparece a grande certeza de que estou vivo.
É impossível continuar doente.
Os dias andam depressa agora, já não apalpo o subtil tecido de que são compostos.
Quero fazer coisas.
Levantar-me da cama, ver, mover-me.
Devo afirmar que o mundo é o meu espaço e o tempo não poderá existir sem mim.
As mulheres já sabem.
A avó deixou de me trazer maçãs, e prepara-me a roupa.
A mãe anda como que atarefada noutra esfera.
Julgo que enche frascos de compota.
Há nas irmãs e nas primas um leve receio de que eu tenha crescido demasiado e comece a partir, pela casa fora, tudo o que apanhar à mão.
Esta esplêndida violência do meu ser atemoriza-as um pouco e, embora sorriam gentilmente, sei que acabo de alcançar um perigoso prestígio.
Elas nunca terão a minha violência.
Isso torna-me monstruosamente feliz.
Apenas a minha próxima morte as libertará, até que eu de novo renasça, para então as atemorizar de novo.
Um dia, porém, elas serão como a mãe, e estarão fora do meu alcance, porque nessa altura devem conhecer a minha essencial esterilidade.
E, mais tarde ainda, serão como a avó, terão toda a inteligência, e pelo seu espírito não passará a mais ligeira dúvida: saberão tudo o que haverá para fazer.
Estarei reduzido à completa masculinidade.
Mas muitos anos terão de passar até ao momento dessa desesperada tarefa.
A glória e o conhecimento só agora principiaram, nem eu sei ainda ao que me conduzirão.
Gozo o poder violento deste instante, não me volto para trás nem para a frente.
Deixo as roupas moles da cama, o círculo sensível e intuitivo das mulheres, o silêncio — e abandono o quarto, estonteado pela debilidade da doença e pela força da cura.
Cresceste, diz a avó.
Sorri agora, sabendo o que é e o que será tudo isso.
Cresci, penso, cresci durante a minha doença.
As irmãs olham-me com pudor e curiosidade e as primas tocam-me de passagem no ombro.
Parece que estou com os braços e as pernas muito grandes para o resto do corpo.
Há qualquer coisa em mim de desproporcionado, talvez um pouco repelente, mas também comovedor.
Temível, do mesmo modo.
Riem timidamente do meu aspecto.
Ah, sim.
Gostariam de entregar-se a uma veemente e feliz troça, mas a minha desproporção é inquietante.
Os braços e as pernas.
Sem dúvida: desenvolveram-se demais.
Mas trata-se apenas de um sinal grosseiro de outra coisa que ganhou novo espaço.
A vida cresceu, a diferença cresceu entre mim e elas.
Eu sei coisas.
Eu tenho forças.
Outro país, não o delas, está a florescer em braços e pernas, em obscuro poder.
Dá vontade de rir.
E devido à insólita transformação no fundo da doença, aos oito anos, os anos delas vão-se pôr também a crescer, sabe-se lá como, com que poder e sinais.
Mas não penso nisso, nada sei.
Não me importam os seus risos e frases, nem a minha doença acabada, nem sequer o que diz a avó.
Estou interessado nos meus braços e pernas e no modo como aplicá-los ao vasto lugar onde se encontram e ao tempo atravessado pelo calor de junho.
Vejo que os posso colocar bastante bem em cada momento, no espaço todo.
Não há desproporção.
Os dias absorvem a minha desproporção.
Quando vou para a praia, movo-me melhor na água e corro sofregamente pela areia.
Por enquanto, durante toda esta ocupação de aplicar o meu novo tamanho, o corpo, o meu coração posterior à glória, à morte e ao renascimento, por enquanto sim, sei que desprezo um pouco as mulheres.
É preciso ser a avó para entender isso.
1 048
Herberto Helder
Os Capítulos Maiores da Minha Vida
os capítulos maiores da minha vida, suas músicas e palavras,
esqueci-os todos:
octagenário apenas, e a morte só de pensá-la calo,
é claro que a olhei de frente no capítulo vigésimo,
mas não nunca nem jamais agora:
agora sou olhado, e estremeço
do incrível natural de ser olhado assim por ela
esqueci-os todos:
octagenário apenas, e a morte só de pensá-la calo,
é claro que a olhei de frente no capítulo vigésimo,
mas não nunca nem jamais agora:
agora sou olhado, e estremeço
do incrível natural de ser olhado assim por ela
1 220
Renato Russo
La nuova gioventú
Tudo que sei
É que você quis partir
Eu quis partir sem você
Tirar você de mim
Demorei para esquecer
Demorei para encontrar
Um lugar onde você não me machucasse mais
E guardei um pouco
Porque o tempo é mercúrio-cromo
E tempo é tudo que somos
Talvez tivéssemos, teríamos tido, tivéramos filhos
Estava lhe ensinando a ler
On the Road
E coisas desiguais
Com você por perto
Eu gostava mais de mim
Veja bem, eu já não sei se estou bem só por dizer
Só por dizer é que finjo que sei
Não me olhe assim
Eu sou parte de você
Você não é parte de mim
Do meu passado você faz pouco caso
Mas, só para você saber
Me diverti um bocado
E com você por perto
Eu gostava mais de mim
É que você quis partir
Eu quis partir sem você
Tirar você de mim
Demorei para esquecer
Demorei para encontrar
Um lugar onde você não me machucasse mais
E guardei um pouco
Porque o tempo é mercúrio-cromo
E tempo é tudo que somos
Talvez tivéssemos, teríamos tido, tivéramos filhos
Estava lhe ensinando a ler
On the Road
E coisas desiguais
Com você por perto
Eu gostava mais de mim
Veja bem, eu já não sei se estou bem só por dizer
Só por dizer é que finjo que sei
Não me olhe assim
Eu sou parte de você
Você não é parte de mim
Do meu passado você faz pouco caso
Mas, só para você saber
Me diverti um bocado
E com você por perto
Eu gostava mais de mim
992
Herberto Helder
I K
Porque ela vai morrer.
Cai no sono a água fria, e ferve, no sono de cal a água
fria: ah, a brusca temperatura, a insensatez
das imagens.
O pêlo negro das mães escorrega na sua cara
de criança voltada.
Só ela tão longamente se voltaria
dormindo,
criança
que se desdobra. Dêem um nome à memória, uma
arrumação sonora que se escreva
e ofusque — um nome
para morrer.
Porque a criança atravessa tudo e já toca no centro de si própria.
Cai no sono a água fria, e ferve, no sono de cal a água
fria: ah, a brusca temperatura, a insensatez
das imagens.
O pêlo negro das mães escorrega na sua cara
de criança voltada.
Só ela tão longamente se voltaria
dormindo,
criança
que se desdobra. Dêem um nome à memória, uma
arrumação sonora que se escreva
e ofusque — um nome
para morrer.
Porque a criança atravessa tudo e já toca no centro de si própria.
983
Fernando Pessoa
Perdi a esperança como uma carteira vazia...
Perdi a esperança como uma carteira vazia...
Troçou de mim o Destino; fiz figas para o outro lado,
E a revolta bem podia ser bordada a missanga por minha avó
E ser relíquia da sala da casa velha que não tenho.
(Jantávamos cedo, num outrora que já me parece de outra incarnação,
E depois tomava-se chá nas noites sossegadas que não voltam.
Minha infância, meu passado sem adolescência, passaram ,
Fiquei triste, como se a verdade me tivesse sido dita,
Mas nunca mais pude sentir verdade nenhuma excepto sentir o passado)
Troçou de mim o Destino; fiz figas para o outro lado,
E a revolta bem podia ser bordada a missanga por minha avó
E ser relíquia da sala da casa velha que não tenho.
(Jantávamos cedo, num outrora que já me parece de outra incarnação,
E depois tomava-se chá nas noites sossegadas que não voltam.
Minha infância, meu passado sem adolescência, passaram ,
Fiquei triste, como se a verdade me tivesse sido dita,
Mas nunca mais pude sentir verdade nenhuma excepto sentir o passado)
1 135
Herberto Helder
Talvez Certa Noite Uma Grande Mão Anónima
talvez certa noite uma grande mão anónima tenha por mim,
um a um, lado alado, escavando,
escrito os nomes,
um a um escrito os nomes esquecidos,
e entre os nomes mais obscuros o mais desmemoriado deles todos,
e eu esteja atrás vivendo desse próprio esquecimento,
a mão cortada, cortado o nome, além da morte escrita,
pelo buraco da voz o nome escoado para sempre
2010.12
um a um, lado alado, escavando,
escrito os nomes,
um a um escrito os nomes esquecidos,
e entre os nomes mais obscuros o mais desmemoriado deles todos,
e eu esteja atrás vivendo desse próprio esquecimento,
a mão cortada, cortado o nome, além da morte escrita,
pelo buraco da voz o nome escoado para sempre
2010.12
1 016
Herberto Helder
I L
Rosas divagadas pelas roseiras, as sombras das rosas
seguram-nas no ar
enquanto espumam batidas à lua, devoradas.
Com a lepra na boca no instante da palavra, oh
sim: memória da criança da terra andando
entre as cores primitivas.
E esperar que a lepra cubra os dedos, escrever: Rosa —
encadeado na rotação do nome.
Ir colher ao último alfabeto
a rosa extremamente escrita.
seguram-nas no ar
enquanto espumam batidas à lua, devoradas.
Com a lepra na boca no instante da palavra, oh
sim: memória da criança da terra andando
entre as cores primitivas.
E esperar que a lepra cubra os dedos, escrever: Rosa —
encadeado na rotação do nome.
Ir colher ao último alfabeto
a rosa extremamente escrita.
1 088
Herberto Helder
Os Ritmos 8
O que me exalta nas fotografias é o roubo — aquele roubo abrupto, resguardador, defensivo — às forças expansivas do tempo.
Vejo ali o máximo de poder centripetador.
A fábula da imobilidade defende-me da devastação e, no entanto, ponho-me a investigar nesse texto obsessivo o estremecimento dos germens.
Será possível que a criança já tudo saiba?
Sim, a fotografia apenas concentrou a maligna ciência infantil.
A adolescente de quinze anos ergue-se, por virtude do vestido branco e do cabelo solto, como num pequeno voo, uma levitação distraída e cheia de comovente confiança.
O medo.
Bem, não se vê?
É nas pálpebras que acabaram de bater e mostram um veloz arrependimento, a presciência de que a impulsão não a fará libertar-se numa onda de entusiasmo branco.
Realmente, é um olhar apavorado.
Nenhum movimento ascensional descarrega uma adolescente do crime da sabedoria, nem um vestido é suficientemente branco para deslocar a verdade.
O pai é um senhor robusto, pretendendo tapar tudo com o braço sobre o ombro da mãe, o casaco abotoado e o sorriso voltado demasiadamente para o fotógrafo, para quem o verá na fotografia, os exegetas da sua confiança e solidez de patriarca.
Contudo, há um ponto no casaco estático que parece latejar, e o que eu digo é que lateja de podridão, debaixo da luz.
A outra irmã encontra-se encostada à perna do cavalheiro, e se calhar vai ser feliz com aquela perna pela vida fora, andando e parando com ela, rapariguinha herdeira de uma espécie de estúpida frontalidade.
A sua arma é não entender as subtilezas e, assim, alegre sem arrebatamento, tranquilamente formal com a pata do cavalheiro como grande memória infantil, irá dia a dia adquirindo uma morte bastante material.
Não vai dar por isso.
A mãe está horrivelmente parada, e o menino de oito anos encosta-lhe a cabeça à barriga.
Parece incrustado no ventre materno — um cancro quente que o devora.
Pagará por isso, decerto.
A mãe é fascinante.
Vejam que não sorri, não sente o braço do cavalheiro sobre os ombros neutros, olha num ângulo insólito para ninguém, para nada, sem curiosidade.
Não se percebe que é a esposa dele e a mãe deles, a não ser com a condição de se estudar tudo, durante horas e horas, como se na fotografia pretendêssemos a chave do enigma que um dos quatro tivesse vindo a criar em si próprio, pelos anos fora.
É preciso ter desesperado de tudo e, depois de fazer viagens, julgando ganhar e perder coisas, parar de súbito num sítio, dentro de um quarto, e ficar para ali, com todo o fervor de uma última vontade de conhecimento, estudando e estudando e estudando a fotografia.
Uma noite descobre-se que se trata de uma criança perversa, de boca desordenada e olhos abruptos.
Tem a cara implacável dos meninos de oito anos que se encostam aos ventres das mães.
As mãos dele parecem inocentes, estão caídas ao longo do corpo e, disfarçadas pelos oito anos, pretendem confundir o tempo com esta ideia: têm oito anos, estas mãos, e por isso são limpas — as mãos caídas das crianças são inocentes.
Vejam que foram necessários muitos anos, com viagens loucas, buscas, algo como a mística demanda dos infernos, para compreender que as mãos estão ali assim para iludir a maneira da cabeça: enterrada no ventre materno.
A cabeça do filho é a morte da mãe — e o modo como está a mãe é que é o saber isso.
Ela haveria de gritar, a mãe?
Ter medo, cólera, expulsar aquela externa inocência dissimuladora?
Raízes invisíveis, múltiplas e nocturnas ligam aquele ser, pela cabeça, ao ser devastado pelo ventre.
Ela olha, no ângulo insólito, a difundida devastação da sua vida — e isso é tão forte e completo que nada tem importância: nem o voo simulado da adolescente, nem o senhor com um braço para o lado e uma perna um pouco para a frente, nem a menina com a pata patriarcal pela vida fora, e a felicidade compacta disso.
A mãe comove.
Depois, é outra coisa.
E é terrível.
No quarto onde se parou, tantos anos depois, com a decisão de esgotar o conhecimento, o que se vê é isto: há um pacto.
E só eles dois é que sabem, tendo a adolescente adivinhado qualquer coisa, devido a não se conhece que afinidades, que simetrias insondáveis.
Depois mete-se a fotografia dentro de um livro, anda-se para aqui e para ali, regressa-se a qualquer coisa, faz-se uma tarefa, descansa-se.
Está-se a fingir muito bem.
Finge-se quase até ao esquecimento.
Há paisagens, ruas, cinemas, amores, dinheiro, pensamentos, palavras, estações do ano e obras de arte.
Diz-se: a vida.
Ou: o tempo.
E um dia abre-se o livro e vê-se de novo a fotografia.
E já não se recomeça a leitura no mesmo ponto.
O que se roubou foi o tempo, sim, mas não naquele primeiro sentido suposto.
A antiquíssima imagem fixa serve para se roubar ao tempo a sua qualidade de perdão.
Porque a idade não ensina a anuência aos bons e fáceis sentimentos.
A idade é: cada vez mais atenção.
Só te resta isso, caminhador: o perigo.
O perigo que é o conhecimento, o conhecimento ganho na atenção.
Um homem que conquistou a sua idade não pára diante da fotografia antiga para se comover e murmurar: a mãe com o seu filho ou o filho com a sua mãe.
Ele pensa: quem são? o que fazem um ao outro?
Ele ouve: vou morrer, e vou deixar-vos descansados.
E ouve a sua própria voz: então morra.
E as mãos inocentes.
De uma delas sabe que se moveu como se agarrasse um punhal — a pequena mão inocente registada com oito anos.
Descanso?
Mas isso conhecia ela bem que seria impossível.
O que ela dizia era assim: morro para que tu, tu, tu, não tenhas nenhuma espécie de descanso.
Um pouco mais, um pouco mais — é para isso que as imagens são imóveis.
Tu próprio não és uma criatura móvel, a menos que fales em atenção, em profundidade.
Desce àquilo em que te encontras imóvel.
Mas em vez disso saímos para a rua, à procura dos velhos companheiros: os que se vão suicidar, os que se encontram à entrada do seu irrevogável romance de esquizofrenia, os que de longe escreverão uma carta pedindo para os ajudarmos a virem morrer nesta cidade branca que, do outro lado, quando se está com o fígado desfeito e a cabeça a tremer, a gente imagina metaforicamente aérea, varrida por ventos puros.
Saímos em busca dos bêbados.
Pretende-se a ilusão de espaços dinâmicos, figuras que se propaguem através deles, o empolgante cinetismo das visões.
E que haja tempo, o tempo, o tempo.
Que as coisas avancem, desfazendo os nós ferozes onde a angústia se concentrou.
Uma semana de bebedeira ininterrupta — e aparecem as amiguinhas, vamos todos de um lado para outro, bando apocalíptico, animado por um furor malsão, uma alegria brutal.
Arranjamos um quarto, despimo-nos, e depois estamos noutro quarto, e estamos a despir-nos, e de novo a fazer amor, quatro, seis, oito em cima do tapete — o terrível milagre de uma alucinação de pernas, braços, seios, mãos, sexos, coxas, cabeças, vestidos, camisas.
E uma madrugada, só, vagueando pelos cais desertos, no meio da luz suja e trémula, ressurge o horror da inteligência.
Vê-se tudo, e seria preciso morrer.
E então volta-se para casa, procura-se a fotografia no livro, no fundo de uma gaveta, e está lá isto: o tempo não existe.
Seria possível uma pequena piedade por nós próprios, mas somos tão pouco sentimentais, nós.
Não gostamos da piedade.
Descobre-se que a mãe não era para piedades.
A perversa cabeça infantil entra nela como um punhal, e a mãe, sem conhecer o peso do braço do cavalheiro, olha o espaço, de lado, neutra, ligada àquela espécie de enigmático crime, à obscura vingança no outro lado da sua profecia do descanso para eles, para ele, ele — para ti.
Decifrando a metáfora, percorrendo os caminhos para descobrir as deslocações das partes e, assim, recompor a verdade do texto — a fotografia, a realidade, a vida — ele descobre que toda a gente tem as mãos cheias de sangue.
Que nada foi criado que o não fosse no abismo das destruições.
E entendendo enfim a linguagem das fotografias, ele assume a sua desgraça, e a insignificância dela, e supõe poder avançar, liberto, para a sua própria morte, algures num tempo.
Vejo ali o máximo de poder centripetador.
A fábula da imobilidade defende-me da devastação e, no entanto, ponho-me a investigar nesse texto obsessivo o estremecimento dos germens.
Será possível que a criança já tudo saiba?
Sim, a fotografia apenas concentrou a maligna ciência infantil.
A adolescente de quinze anos ergue-se, por virtude do vestido branco e do cabelo solto, como num pequeno voo, uma levitação distraída e cheia de comovente confiança.
O medo.
Bem, não se vê?
É nas pálpebras que acabaram de bater e mostram um veloz arrependimento, a presciência de que a impulsão não a fará libertar-se numa onda de entusiasmo branco.
Realmente, é um olhar apavorado.
Nenhum movimento ascensional descarrega uma adolescente do crime da sabedoria, nem um vestido é suficientemente branco para deslocar a verdade.
O pai é um senhor robusto, pretendendo tapar tudo com o braço sobre o ombro da mãe, o casaco abotoado e o sorriso voltado demasiadamente para o fotógrafo, para quem o verá na fotografia, os exegetas da sua confiança e solidez de patriarca.
Contudo, há um ponto no casaco estático que parece latejar, e o que eu digo é que lateja de podridão, debaixo da luz.
A outra irmã encontra-se encostada à perna do cavalheiro, e se calhar vai ser feliz com aquela perna pela vida fora, andando e parando com ela, rapariguinha herdeira de uma espécie de estúpida frontalidade.
A sua arma é não entender as subtilezas e, assim, alegre sem arrebatamento, tranquilamente formal com a pata do cavalheiro como grande memória infantil, irá dia a dia adquirindo uma morte bastante material.
Não vai dar por isso.
A mãe está horrivelmente parada, e o menino de oito anos encosta-lhe a cabeça à barriga.
Parece incrustado no ventre materno — um cancro quente que o devora.
Pagará por isso, decerto.
A mãe é fascinante.
Vejam que não sorri, não sente o braço do cavalheiro sobre os ombros neutros, olha num ângulo insólito para ninguém, para nada, sem curiosidade.
Não se percebe que é a esposa dele e a mãe deles, a não ser com a condição de se estudar tudo, durante horas e horas, como se na fotografia pretendêssemos a chave do enigma que um dos quatro tivesse vindo a criar em si próprio, pelos anos fora.
É preciso ter desesperado de tudo e, depois de fazer viagens, julgando ganhar e perder coisas, parar de súbito num sítio, dentro de um quarto, e ficar para ali, com todo o fervor de uma última vontade de conhecimento, estudando e estudando e estudando a fotografia.
Uma noite descobre-se que se trata de uma criança perversa, de boca desordenada e olhos abruptos.
Tem a cara implacável dos meninos de oito anos que se encostam aos ventres das mães.
As mãos dele parecem inocentes, estão caídas ao longo do corpo e, disfarçadas pelos oito anos, pretendem confundir o tempo com esta ideia: têm oito anos, estas mãos, e por isso são limpas — as mãos caídas das crianças são inocentes.
Vejam que foram necessários muitos anos, com viagens loucas, buscas, algo como a mística demanda dos infernos, para compreender que as mãos estão ali assim para iludir a maneira da cabeça: enterrada no ventre materno.
A cabeça do filho é a morte da mãe — e o modo como está a mãe é que é o saber isso.
Ela haveria de gritar, a mãe?
Ter medo, cólera, expulsar aquela externa inocência dissimuladora?
Raízes invisíveis, múltiplas e nocturnas ligam aquele ser, pela cabeça, ao ser devastado pelo ventre.
Ela olha, no ângulo insólito, a difundida devastação da sua vida — e isso é tão forte e completo que nada tem importância: nem o voo simulado da adolescente, nem o senhor com um braço para o lado e uma perna um pouco para a frente, nem a menina com a pata patriarcal pela vida fora, e a felicidade compacta disso.
A mãe comove.
Depois, é outra coisa.
E é terrível.
No quarto onde se parou, tantos anos depois, com a decisão de esgotar o conhecimento, o que se vê é isto: há um pacto.
E só eles dois é que sabem, tendo a adolescente adivinhado qualquer coisa, devido a não se conhece que afinidades, que simetrias insondáveis.
Depois mete-se a fotografia dentro de um livro, anda-se para aqui e para ali, regressa-se a qualquer coisa, faz-se uma tarefa, descansa-se.
Está-se a fingir muito bem.
Finge-se quase até ao esquecimento.
Há paisagens, ruas, cinemas, amores, dinheiro, pensamentos, palavras, estações do ano e obras de arte.
Diz-se: a vida.
Ou: o tempo.
E um dia abre-se o livro e vê-se de novo a fotografia.
E já não se recomeça a leitura no mesmo ponto.
O que se roubou foi o tempo, sim, mas não naquele primeiro sentido suposto.
A antiquíssima imagem fixa serve para se roubar ao tempo a sua qualidade de perdão.
Porque a idade não ensina a anuência aos bons e fáceis sentimentos.
A idade é: cada vez mais atenção.
Só te resta isso, caminhador: o perigo.
O perigo que é o conhecimento, o conhecimento ganho na atenção.
Um homem que conquistou a sua idade não pára diante da fotografia antiga para se comover e murmurar: a mãe com o seu filho ou o filho com a sua mãe.
Ele pensa: quem são? o que fazem um ao outro?
Ele ouve: vou morrer, e vou deixar-vos descansados.
E ouve a sua própria voz: então morra.
E as mãos inocentes.
De uma delas sabe que se moveu como se agarrasse um punhal — a pequena mão inocente registada com oito anos.
Descanso?
Mas isso conhecia ela bem que seria impossível.
O que ela dizia era assim: morro para que tu, tu, tu, não tenhas nenhuma espécie de descanso.
Um pouco mais, um pouco mais — é para isso que as imagens são imóveis.
Tu próprio não és uma criatura móvel, a menos que fales em atenção, em profundidade.
Desce àquilo em que te encontras imóvel.
Mas em vez disso saímos para a rua, à procura dos velhos companheiros: os que se vão suicidar, os que se encontram à entrada do seu irrevogável romance de esquizofrenia, os que de longe escreverão uma carta pedindo para os ajudarmos a virem morrer nesta cidade branca que, do outro lado, quando se está com o fígado desfeito e a cabeça a tremer, a gente imagina metaforicamente aérea, varrida por ventos puros.
Saímos em busca dos bêbados.
Pretende-se a ilusão de espaços dinâmicos, figuras que se propaguem através deles, o empolgante cinetismo das visões.
E que haja tempo, o tempo, o tempo.
Que as coisas avancem, desfazendo os nós ferozes onde a angústia se concentrou.
Uma semana de bebedeira ininterrupta — e aparecem as amiguinhas, vamos todos de um lado para outro, bando apocalíptico, animado por um furor malsão, uma alegria brutal.
Arranjamos um quarto, despimo-nos, e depois estamos noutro quarto, e estamos a despir-nos, e de novo a fazer amor, quatro, seis, oito em cima do tapete — o terrível milagre de uma alucinação de pernas, braços, seios, mãos, sexos, coxas, cabeças, vestidos, camisas.
E uma madrugada, só, vagueando pelos cais desertos, no meio da luz suja e trémula, ressurge o horror da inteligência.
Vê-se tudo, e seria preciso morrer.
E então volta-se para casa, procura-se a fotografia no livro, no fundo de uma gaveta, e está lá isto: o tempo não existe.
Seria possível uma pequena piedade por nós próprios, mas somos tão pouco sentimentais, nós.
Não gostamos da piedade.
Descobre-se que a mãe não era para piedades.
A perversa cabeça infantil entra nela como um punhal, e a mãe, sem conhecer o peso do braço do cavalheiro, olha o espaço, de lado, neutra, ligada àquela espécie de enigmático crime, à obscura vingança no outro lado da sua profecia do descanso para eles, para ele, ele — para ti.
Decifrando a metáfora, percorrendo os caminhos para descobrir as deslocações das partes e, assim, recompor a verdade do texto — a fotografia, a realidade, a vida — ele descobre que toda a gente tem as mãos cheias de sangue.
Que nada foi criado que o não fosse no abismo das destruições.
E entendendo enfim a linguagem das fotografias, ele assume a sua desgraça, e a insignificância dela, e supõe poder avançar, liberto, para a sua própria morte, algures num tempo.
716
Charles Bukowski
Poema de Amor Para Uma Stripper
50 anos atrás eu observava as garotas
rebolando e fazendo striptease
no Burbank e no Follies
e era muito triste
e muito dramático
e a luz mudava de verde para
roxo para rosa
e a música era alta e
vibrante,
agora sento aqui esta noite
fumando e bebendo
ouvindo música
clássica
mas ainda me lembro de alguns de
seus nomes: Darlene, Candy, Jeanette
e Rosalie.
Rosalie era a
melhor, sabia como fazer,
e nós girávamos em nossos assentos e
fazíamos barulhos
e Rosalie dava magia
para os solitários
tanto tempo atrás.
agora Rosalie,
ou tão absolutamente velha ou
tão tranquila embaixo da
terra,
este é o garoto
com o rosto cheio de espinhas
que mentiu sobre sua
idade
apenas para ver
você.
você era boa, Rosalie,
em 1935,
boa o bastante para lembrar
agora
quando a luz é
amarela
e as noites são
lentas.
rebolando e fazendo striptease
no Burbank e no Follies
e era muito triste
e muito dramático
e a luz mudava de verde para
roxo para rosa
e a música era alta e
vibrante,
agora sento aqui esta noite
fumando e bebendo
ouvindo música
clássica
mas ainda me lembro de alguns de
seus nomes: Darlene, Candy, Jeanette
e Rosalie.
Rosalie era a
melhor, sabia como fazer,
e nós girávamos em nossos assentos e
fazíamos barulhos
e Rosalie dava magia
para os solitários
tanto tempo atrás.
agora Rosalie,
ou tão absolutamente velha ou
tão tranquila embaixo da
terra,
este é o garoto
com o rosto cheio de espinhas
que mentiu sobre sua
idade
apenas para ver
você.
você era boa, Rosalie,
em 1935,
boa o bastante para lembrar
agora
quando a luz é
amarela
e as noites são
lentas.
1 168
Charles Bukowski
Jon Edgar Webb
eu tive uma fase de poema lírico lá em New Orleans, martelando
uns versos gordos e roliços e
bebendo baldes de cerveja.
a sensação era de gritar num manicômio, o manicômio do
meu mundo
com os ratos dispersos em meio às
garrafas vazias.
às vezes eu entrava nos bares
mas não conseguia dar jeito com as pessoas que se sentavam nos
banquinhos:
os homens me evitavam e as mulheres ficavam aterrorizadas
comigo.
os bartenders pediam que eu
fosse embora.
eu ia, carregando com dificuldade os magníficos fardos de cerveja
no retorno ao quarto e aos ratos e àqueles gordos e roliços
versos.
aquela fase de poema lírico foi uma época de
doideira pura
e havia um editor logo ali na
esquina que
mandava toda e qualquer página para o prelo, nada
rejeitando
muito embora eu fosse desconhecido
ele me publicou em voraz papel
fabricado para durar
2.000 anos.
esse editor que era também o dono e
o impressor
mantinha o rosto sisudo enquanto eu lhe dava as dez ou
vinte páginas
toda manhã:
“isso é tudo?”
o louco daquele filho da puta, ele mesmo era um
poema
lírico.
uns versos gordos e roliços e
bebendo baldes de cerveja.
a sensação era de gritar num manicômio, o manicômio do
meu mundo
com os ratos dispersos em meio às
garrafas vazias.
às vezes eu entrava nos bares
mas não conseguia dar jeito com as pessoas que se sentavam nos
banquinhos:
os homens me evitavam e as mulheres ficavam aterrorizadas
comigo.
os bartenders pediam que eu
fosse embora.
eu ia, carregando com dificuldade os magníficos fardos de cerveja
no retorno ao quarto e aos ratos e àqueles gordos e roliços
versos.
aquela fase de poema lírico foi uma época de
doideira pura
e havia um editor logo ali na
esquina que
mandava toda e qualquer página para o prelo, nada
rejeitando
muito embora eu fosse desconhecido
ele me publicou em voraz papel
fabricado para durar
2.000 anos.
esse editor que era também o dono e
o impressor
mantinha o rosto sisudo enquanto eu lhe dava as dez ou
vinte páginas
toda manhã:
“isso é tudo?”
o louco daquele filho da puta, ele mesmo era um
poema
lírico.
1 150
Charles Bukowski
Prática
naquela vizinhança da depressão eu tinha dois amigões
Eugene e Frank
e eu trocava violentos socos com um e
outro
uma ou duas vezes por semana.
as lutas duravam 3 ou 4 horas e nós acabávamos
com
narizes esmagados, lábios inchados, olhos roxos, pulsos
torcidos, nós dos dedos machucados, vergões
escuros.
nossos pais não diziam nada, nos deixavam brigar sem
parar
observando desinteressadamente e
por fim voltando para seus jornais
ou seus rádios ou suas frustradas vidas sexuais,
eles só ficavam irritados quando nós rasgávamos ou estragávamos as nossas
roupas, por isso e somente por isso.
mas Eugene e Frank e eu
nós fazíamos uns bons exercícios
nós rolávamos pelas noitinhas, irrompendo por
cercas-vivas, lutando ao longo do asfalto, sobre os
meios-fios e adentrando estranhos pátios e quintais em
casas desconhecidas, os cães latindo, as pessoas gritando
conosco.
nós éramos
maníacos, nunca desistíamos até o chamado da janta
que nenhum de nós podia se dar ao luxo de
perder.
de todo modo, Eugene virou capitão da
Marinha e Frank virou juiz da Suprema Corte do Estado da
Califórnia e eu mexi com o
poema.
Eugene e Frank
e eu trocava violentos socos com um e
outro
uma ou duas vezes por semana.
as lutas duravam 3 ou 4 horas e nós acabávamos
com
narizes esmagados, lábios inchados, olhos roxos, pulsos
torcidos, nós dos dedos machucados, vergões
escuros.
nossos pais não diziam nada, nos deixavam brigar sem
parar
observando desinteressadamente e
por fim voltando para seus jornais
ou seus rádios ou suas frustradas vidas sexuais,
eles só ficavam irritados quando nós rasgávamos ou estragávamos as nossas
roupas, por isso e somente por isso.
mas Eugene e Frank e eu
nós fazíamos uns bons exercícios
nós rolávamos pelas noitinhas, irrompendo por
cercas-vivas, lutando ao longo do asfalto, sobre os
meios-fios e adentrando estranhos pátios e quintais em
casas desconhecidas, os cães latindo, as pessoas gritando
conosco.
nós éramos
maníacos, nunca desistíamos até o chamado da janta
que nenhum de nós podia se dar ao luxo de
perder.
de todo modo, Eugene virou capitão da
Marinha e Frank virou juiz da Suprema Corte do Estado da
Califórnia e eu mexi com o
poema.
1 002
Herberto Helder
O Poema - Ii
A palavra erguia-se como um candelabro,
a voz ardia como um inesperado campo de giestas.
E nós sustínhamos em nossos dois ombros o fulgor
e a tristeza divina. Quando os arbustos
eram bichos iluminando as regiões do céu e ao rés
da terra as pedras cantavam e os mitos davam
a forma das coisas.
Quando colhíamos o espanto nas mãos dolorosas
e em frente ao povo íamos cantando
a fábula e o próprio rosto do milagre.
Quem se assenta à nossa mesa? — dizíamos. — Quem
sobre a mesa coloca um beijo sem peso e sem mácula?
Nada existe que não seja inocente, e o hálito
perpassa à flor dos lábios,
a força da memória deu a alma ao vinho e o imponderável
ao primeiro sorriso. Toda a casa
acaba a noite, cria a auréola
em torno do objecto, enche cada instante
de um poder obscuro.
A delicada taça partia-se nas mãos — sangue:
um sinal, um símbolo. E cantar
era conceber uma estrela, um testemunho da mais alta
loucura. Cantar era uma razão
de morte e de alegria.
Desfaziam-se as pálpebras na jovem carne, na esfera
da luz, ou na ressonância e volúpia
do tempo. E a mão procurava o punhal,
a boca beijava a laje nua. Do braço divino
sumia-se o fogo e o archote corria sobre as águas
ou no coração da sementeira.
E era então o fogo aquilo a que o beijo,
em sua graça, firmemente aspirava.
Nenhuma vida tanto se gastou
que não seja visitada, nenhum deus
é tão grande que se não perca na substância
da sombra. — Uma flor e um grito,
um copo e um breve minuto, ou a aurora
cortando o peito, ou o primeiro respirar
de um pensamento.
Cantar onde a mão nos tocou,
o ombro se acendeu, onde se abriu o desejo.
Cantar na mesa, na árvore
sorvida pelo êxtase.
Cantar sobre o corpo da morte, pedra
a pedra, chama a chama — erguido,
amado,
aprendido.
a voz ardia como um inesperado campo de giestas.
E nós sustínhamos em nossos dois ombros o fulgor
e a tristeza divina. Quando os arbustos
eram bichos iluminando as regiões do céu e ao rés
da terra as pedras cantavam e os mitos davam
a forma das coisas.
Quando colhíamos o espanto nas mãos dolorosas
e em frente ao povo íamos cantando
a fábula e o próprio rosto do milagre.
Quem se assenta à nossa mesa? — dizíamos. — Quem
sobre a mesa coloca um beijo sem peso e sem mácula?
Nada existe que não seja inocente, e o hálito
perpassa à flor dos lábios,
a força da memória deu a alma ao vinho e o imponderável
ao primeiro sorriso. Toda a casa
acaba a noite, cria a auréola
em torno do objecto, enche cada instante
de um poder obscuro.
A delicada taça partia-se nas mãos — sangue:
um sinal, um símbolo. E cantar
era conceber uma estrela, um testemunho da mais alta
loucura. Cantar era uma razão
de morte e de alegria.
Desfaziam-se as pálpebras na jovem carne, na esfera
da luz, ou na ressonância e volúpia
do tempo. E a mão procurava o punhal,
a boca beijava a laje nua. Do braço divino
sumia-se o fogo e o archote corria sobre as águas
ou no coração da sementeira.
E era então o fogo aquilo a que o beijo,
em sua graça, firmemente aspirava.
Nenhuma vida tanto se gastou
que não seja visitada, nenhum deus
é tão grande que se não perca na substância
da sombra. — Uma flor e um grito,
um copo e um breve minuto, ou a aurora
cortando o peito, ou o primeiro respirar
de um pensamento.
Cantar onde a mão nos tocou,
o ombro se acendeu, onde se abriu o desejo.
Cantar na mesa, na árvore
sorvida pelo êxtase.
Cantar sobre o corpo da morte, pedra
a pedra, chama a chama — erguido,
amado,
aprendido.
1 375
Charles Bukowski
Obrigado
alguns querem que eu continue a escrever sobre putas e
vômito.
outros dizem que esse tipo de coisa os
enoja.
bem, não sinto falta das
putas
embora de vez em quando uma ou outra
tente me
localizar.
não sei se elas sentem falta de todos os tragos e
da pouca grana que lhes dei
ou se elas ficam encantadas com o modo
como eu as imortalizei na
literatura.
seja como for, agora precisam se virar com
quaisquer homens
que elas conseguirem
explorar.
– as pobrezinhas não faziam
ideia...
e tampouco fazia eu
de que aquelas infames noites barulhentas
virariam um suprimento barato
que nem mesmo
Dostoiévski
teria o pudor de
não usar.
vômito.
outros dizem que esse tipo de coisa os
enoja.
bem, não sinto falta das
putas
embora de vez em quando uma ou outra
tente me
localizar.
não sei se elas sentem falta de todos os tragos e
da pouca grana que lhes dei
ou se elas ficam encantadas com o modo
como eu as imortalizei na
literatura.
seja como for, agora precisam se virar com
quaisquer homens
que elas conseguirem
explorar.
– as pobrezinhas não faziam
ideia...
e tampouco fazia eu
de que aquelas infames noites barulhentas
virariam um suprimento barato
que nem mesmo
Dostoiévski
teria o pudor de
não usar.
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