Medo e Ansiedade
Marcelo Almeida de Oliveira
Dom quixote I
em casa ou na rua,
quando sol ou quando lua,
olhe para qualquer lado e me veja,
espelho de carne;
escute os murmuros que o vento carrega e me ouça,
eco distante;
certeza que desta vez não é sua cabeça
que doente te prega peças;
esqueça a paranóia e perceba
que louco, você me é,
louco, você sou eu,
louco, você e eu.
Penso naquilo que você pensa, mas não fala;
temo aquilo que você teme, mas não demonstra;
sei das flores na sua cabeça, mas você não as mostra;
sei que sua vontade é gritar, então apenas o faça,
como tiro de fuzil,
alívio como nunca sentiu,
na língua, baioneta,
como lança, uma caneta;
espantando os demônios...
guerreiro, você sou eu,
guerreiro, você e eu.
Charles Bukowski
Roxo e Preto
atravessando a rua
com um fundo de trailers e arranha-céus,
um fundo de uma Hollywood tumular de
sábado à tarde
é bem interessante:
algo que se mexe,
algo que se mexe em roxo e preto enquanto
seu cabelo balança ao vento enquanto ela se volta,
o sol como o olho de um sapo,
o inverno está lá e está
aqui, e a rua é insípida, insossa,
eu seria capaz de me arrebentar naquele asfalto até
sangrar loucamente
e eu sequer me incomodaria;
a garota de roxo e preto
dá destino e direção à rua
até sair do alcance da minha janela,
e agora é outra vez
o que era antes, e uma pequena aranha
quase como algo feito de um fio de cabelo caído,
um pelo de uma pálpebra,
arrasta-se ao longo da parede à minha esquerda
e sequer tenho o desejo de
matá-la. fora da minha janela
é fantasmagórico e
fede com a malícia dos homens.
eu espero por novos arranjos
mas enquanto isso aguento
quando o telefone toca
e salto da minha cadeira
como um homem que levou um tiro nas
costas.
Jorge Luis Borges
Efialtes
noche quiero perderme en las aguas obscuras
que me lavan del día, pero bajo esas puras
aguas que nos conceden la penúltima Nada
late en la hora gris la obscena maravilla.
Puede ser un espejo con mi rostro distinto,
puede ser la creciente cárcel de un laberinto,
puede ser un jardín. Siempre es la pesadilla.
Su horror no es de este mundo. Algo que no se nombra
me alcanza desde ayeres de mito y de neblina;
la imagen detestada perdura en la retina
e infama la vigilia como infamó la sombra.
¿Por qué brota de mí cuando el cuerpo reposa
y el alma queda sola, esta insensata rosa?
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 424 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Filipa Leal
O medo
Não tenho o hábito dos cafés, nunca tive,
mas aquele ficara-me de um livro de Al Berto.
Eu falava do medo, não do medo de Al Berto,
do meu, e a minha amiga dizia-me qualquer coisa
amiga. Falávamos de amor, e ela talvez me dissesse
para não ter medo do medo de Al Berto
nem do meu.
Confesso: de tudo o que me disse a minha amiga,
ficou-me apenas a palavra
granito.
Fernando Pessoa
29 - ENNUI
Frowned on by lone winds that moan by
And palely sick for light from high
Till the landscape's soul doth sigh forever,
Forever sigh,
A black and calmness‑haunted river,
That doth a town from itself sever,
Runs with an inner fear and shiver
Like a dim fate forever nigh,
Nigher forever.
Ay, through that landscape lapsed from dream
Into a horrid truth doth gleam
That self‑absorbed, self‑empty stream
That bears a dream of dreams' emotion
To emotion's dream!
Runs from a land whence is no motion
Towards a possible far ocean;
And they, whose eyes anguished sans motion
Bathe in it, take emotion's dream
For dreams' emotion.
Filipa Leal
A recusa do amor
Não temos uma arma apontada à cabeça,
dizias-me. Mas era impossível que não visses,
impossível. Eu ao teu lado com aquela dor
no pescoço, imóvel, cuidadosa, o cano frio
na minha testa, a vida a estoirar-me
a qualquer momento. Era impossível que não visses
o revólver que levava sempre comigo. Por isso dormia
virada para o outro lado, não era por me dar mais jeito
aquele lado, era por me dar mais jeito
não morrer quando nos víamos,
era para dormir contigo só mais esta vez,
sempre só mais esta vez,
sempre com o meu amor a virar-se de costas,
sempre com o teu amor apontado à cabeça.
Filipa Leal
Se ao menos a morte
Ela morria tantas vezes
em tiroteios à porta de casa
que já não sabia morrer para sempre
assim
de uma só vez.
Se ao menos marcasse um dia
para a morte, uma hora certa
como no dentista
que apesar de tudo nos faz esperar
onde apesar de tudo
não sabemos quando será a nossa vez.
Se ao menos a morte tivesse revistas
e gente na sala de espera
não estaríamos tão sós
tão vivos nessa ideia final
nesse desconforto.
Poríamos o nome na lista
quando estivéssemos prontos
sabendo que seria fácil desmarcar
marcar para outro dia
ou simplesmente
não comparecer.
Depois, ficaríamos com a dor,
com o terror
de passar sequer naquela rua
como ela à porta de casa.
Ela que morria tantas vezes
porque morria de medo de morrer.
Jorge Luis Borges
East lansing
están entretejidos (interwoven) de memoria y de miedo,
de miedo, que es un modo de la esperanza,
de memoria, nombre que damos a las grietas del obstinado olvido.
Mi tiempo ha sido siempre un Jano bifronte
que mira el ocaso y la aurora;
mi propósito de hoy es celebrarte, oh futuro inmediato.
Regiones de la Escritura y del hacha,
árboles que miraré y no veré,
viento con pájaros que ignoro, gratas noches de frío
que irán hundiéndose en el sueño y tal vez en la patria,
llaves de luz y puertas giratorias que con el tiempo serán hábitos,
despertares en que me diré Hoy es Hoy.
Libros que mi mano conocerá,
amigos y amigas que serán voces,
arenas amarillas del poniente, el único color que me queda,
todo eso estoy cantando y asimismo
la insufrible memoria de lugares de Buenos Aires
en los que no he sido feliz
y en los que no podré ser feliz.
Canto en la víspera tu crepúsculo, East Lansing,
Sé que las palabras que dicto son acaso precisas,
Pero sutilmente serán falsas,
Porque la realidad es inasible
Y porque el lenguaje es una orden de signos rígidos.
Michigan, Indiana, Wisconsin, Iowa, Texas, California, Arizona:
Ya intentaré cantarlas.
9 de marzo de 1972
"El oro de los tigres" (1972)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 378 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Fernando Pessoa
Há uma cor que me persegue e que eu odeio,
Há uma cor que se insinua no meu medo.
Porque é que as cores têm força
De persistir na nossa alma,
Como fantasmas?
Há uma cor que me persegue e hora a hora
A sua cor se torna a cor que é a minha alma.
Amália Bautista
A tentação
E se naquele momento nos tivesse
surgido de repente uma serpente?
Que terias feito face ao meu medo?
Como é que me terias convencido
para que abrisse os olhos e contemplasse
na boca desse réptil a maçã?
Rui Costa
Medo
Furo-te os olhos com os dedos magoados
como-te
torpor de medo as luas verdes
mordem-me a boca
do teu peito sobe o halo nacarado
a essência fútil das flores mortas
e novamente o medo
de nunca mais voltar a ser perfeito
Rui Costa
Faca de incêndio
8
O diabo tem a mesma cara que tu
Era branco cor do leite quando temos
medo. Medo: quatro agulhas nos olhos
à entrada da árvore, os tecidos regenerando
o ar da praia e à luz fosca que segue a perda
da memória. Eles escondiam-na nas pedras,
até na água, homem e mulher – os peixes agitados
pelo movimento da duna, cidade – altíssima!
trabalhavam na cozinha, construindo cedo –
recuperando a tristeza, segando os legumes.
tacteando – à procura do olhar que retomava
o ponto de entrada, as mãos distribuídas pelo pão.
vamos ver as plantas que pesam ainda sobre a mesa,
as facas, pedaços cortados pela flor quando a terra
abriu, quem falou de alma? não era alma, usa
o meu nome. Este sou eu. Esta sou eu, Eu sei,
Eu sei. Mas a alavanca que os recuperou da queda
dispunha os mesmos dedos pela duna.
Quiseram deitar-se nos lábios das urtigas –
Permanecer.
Fernando Pessoa
FRAGMENT OF DELIRIUM
Nor do I know if my mind is ill;
I know not if love is but the last token
Of God to me, or a word unspoken
In a chaos of will.
My thoughts are such as the mad must have
And dead things guard my soul
Grotesque and odd are the shapes that rule
In my brain as worms in a grave
Rui Costa
breve ensaio sobre a potência 2
água sobre a mão quando o
sono se deita, um vértice de
pedra subindo entre o caule
da sombra e a propagação do
medo. a luz provoca a primeira
nostalgia, o íncubo que dispara
como um halo que espera.
Charles Bukowski
não se esqueça
sempre tem alguém ou algo esperando por você, algo mais forte, mais inteligente, mais maligno, mais gentil, mais durável, algo maior, algo melhor, algo pior, algo com olhos como o tigre, mandíbulas como o tubarão, algo mais louco que louco, mais são do que são,
sempre tem algo ou alguém esperando por você
enquanto calças os teus sapatos ou enquanto dormes
ou enquanto esvazias um caixote do lixo ou acaricias o teu gato ou escovas os dentes ou comemoras um feriadosempre tem alguém ou algo esperando por você.
tenha isto bem em mente para que quando acontecer
você estará o mais pronto possível.
Enquanto isso, um bom dia pra você
se ainda estiveres lá.
Acho que estou... Acabei de queimar os dedos neste cigarro.
Fernando Pessoa
When slattern Time, worn out with toil of wearing,
With loose‑tied pack shall trudge upon my years,
And I shall feel that forced occasion nearing
That despair's self (that must live to be) fears,
I, being beggared of all wealth of hope -
So prodigal have I to wishes been -
Shall with known uselessness for the coin grope
To pay that the hour’s ending be serene.
I shall not enter the great silent cave
With curious ardour, or ease out of sun,
But all that with me I shall then still have
Will be a coward rage that all is done.
No hope the cave's a passage shall control
Fear of the immediate night of the shown hole.
Amália Bautista
Dragões
Chegou a hora de matar o dragão,
de acabar para sempre com este monstro
de fauces terríveis e olhos de fogo.
Há que matar este dragão e todos
que à sua volta se reproduzem.
O dragão da culpa e o do espanto,
o do remorso estéril, o do ódio,
o que sempre devora a esperança,
o do medo, do frio, da angústia.
Há que matar também o que nos esmaga
de bruços contra o chão,
imóveis, cobardes, quebrados, sem raízes.
Que o sangue de todos inunde
cada parte da casa
até nos chegar à cinta.
E quando essa pilha de monstros
for só um monte de vísceras
e olhos abertos para o vazio,
enfim poderemos trepar, montar-nos sobre eles,
chegar às janelas, abri-las ou quebrá-las,
deixar entrar a luz, a chuva, o vento
e tudo o que estava retido
atrás dos vidros.
Amália Bautista
Agora
Agora que o caminho que devo percorrer
é uma passagem elevada sobre uma estrada
que dá medo olhar, porque
me chama o abismo implacável.
Agora que a esperança está morta
como um pássaro atirado do ninho
por irmãos mais fortes.
Agora que é noite todo o dia,
inverno todo o ano
e as semanas só têm segundas,
onde olhar, onde pôr os olhos,
que não encontre os olhos da morte?
Fernando Pessoa
49 - MOOD
I tremble at my very glee.
Sometimes I feel arrive in me
A dim, a cold. a sad, a fierce
A lust‑like spirituality.
It makes me one with all the grass.
My life takes colour at all flowers.
The breeze that seemeth loth to pass
Shakes off red petals from my hours
And my heart sulters without showers.
Then God becomes a vice of mine
And divine feelings an embrace
That sinks my senses in its wine
And leaves no outline in my ways
Of seeing God flower, grow and shine.
My thoughts and feelings mingle and form
A vague and hot soul‑unity.
Like a sea that expects a storm,
A lazy ache and fret make me
A murmur like a coming swarm.
My parched thoughts mix and occupy
Their interpresences and swell
To each others' places. I descry
Nought in me save impossible
Mixtures of many things all I.
I am a drunkard of my thoughts.
My feelings' juice o'erruns my soul.
My will becomes soaked in them all.
Then life stagnates a dream and rots
To beauty in my verses' dole.
Fernando Pessoa
O pescador do mar alto
Vem contente de pescar.
Se prometo, sempre falto:
Receio não agradar.
Pablo Neruda
11
a metade da lua.
Girante, errante noite, a escavadora de olhos.
A ver quantos fragmentos de estrelas nas poças.
Faz uma cruz de luto em minha testa, foge.
Forja de metais azuis,noites de lutas silenciosas,
meu coração dá voltas como um volante louco.
Menina que vem de tão longe,trazida de tão longe,
às vezes teu olhar fulgura sob o céu.
Queixume, tempestade, redemoinho de fúria,
cruza meu coração, sem te deteres.
Vento dos sepúlcros carrega, destroça, dispersa tua raiz sonolenta.
Decepa as grandes árvores do outro lado dela.
Mas você, alva menina, pergunta de fumo, espiga.
Era a que ia formando o vento com folhas luzidias.
Atrás das montanhas noturnas, lírio branco de incêndio,
ah nada posso dizer! Era feita de todas as coisas.
Ansiedade que partiu meu peito a cuteladas,
é hora de seguir outro caminho,onde ela não sorria.
Tempestade que enterrou campanários, turva revoada de tormentas
para que tocá-la agora, para que entristecê-la.
Ai, seguir o caminho que se afasta de tudo,
onde não estejam vagando a angústia, a morte, o inverno,
com seus olhos abertos entre o orvalho.
Carlos Drummond de Andrade
Anoitecer
É a hora em que o sino toca,
mas aqui não há sinos;
há somente buzinas,
sirenes roucas, apitos
aflitos, pungentes, trágicos,
uivando escuro segredo;
desta hora tenho medo.
É a hora em que o pássaro volta,
mas de há muito não há pássaros;
só multidões compactas
escorrendo exaustas
como espesso óleo
que impregna o lajedo;
desta hora tenho medo.
É a hora do descanso,
mas o descanso vem tarde,
o corpo não pede sono,
depois de tanto rodar;
pede paz — morte — mergulho
no poço mais ermo e quedo;
desta hora tenho medo.
Hora de delicadeza,
gasalho, sombra, silêncio.
Haverá disso no mundo?
É antes a hora dos corvos,
bicando em mim, meu passado,
meu futuro, meu degredo;
desta hora, sim, tenho medo.
Adélia Prado
A Carpideira
que recobriram a morta em seu caixão.
Mais difícil entender que o miriágono!
A marreca se deita sobre os ovos,
puxa para o ninho as folhas secas, cumpre-se.
Enquanto eu tenho medo.
Mesmo assim não desejo senão ficar olhando
os remetentes mistérios.
São tão maus os congressos, as escolas,
tão cheios de café velho e açúcar
que o pensamento divaga:
são elementares Deus e sua obra,
é macho e fêmea
sete cores
três reinos
um mandamento só: amai-vos.
Tinha tanto medo de casar com moço
que não fosse da Rede Ferroviária,
queria trastes de ferro
pra nunca mais se acabarem.
Pensava assim:
se a cama for de ferro e as panelas,
o resto Deus provê:
é nuvem, sonho, lembranças.
Ainda mais que não ia morrer, e ainda não vou,
porque sou doida e escapo como as boninas.
Em todo enterro choro com um olho só.
Com o outro rego a tira de terra
onde suspiros, saudades e perpétuas
hão de nascer e suportar insetos,
ciclo após ciclo de sol, de chuva,
calor de velas, frio de esquecimento.
Porque a vida é de ferro
e não se acaba nunca.
Carlos Drummond de Andrade
O Medo
"Porque há para todos nós um problema
sério... Este problema é o do medo." —
ANTÔNIO CÂNDIDO ("Plataforma de uma geração").
Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.
E fomos educados para o medo.
Cheiramos flôres de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.
Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
doenças galopantes, tomes.
Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em S. Paulo.
Fazia frio em S. Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.
Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno.
De nós, de vós; e de tudo.
Estou com medo da honra.
Assim nos criam burgueses.
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?
Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas
do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.
Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.
E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.
O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.
Tenhamos o maior pavor.
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.
Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes. ..
Fiéis herdeiros do medo,
eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo.