Poemas neste tema

Medo e Ansiedade

Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo

Noite

O menino viu
sair da boca

da mulher, talvez
sua mãe, uma voz

estrídula e lábil, que
logo desandou,

em cadência
de sonho, a quê?

– A enumerar desas-
tres já ocorridos

e por ocorrer,
a fecundar

harpias, a frisar
as marcas

da passagem
da pantera pelo quarto,

a aturdir relógios,
a enegrecer o sol

e outras mais
de tais proezas.
425
João Baveca

João Baveca

Meus Amigos, Nom Poss'eu Mais Negar

Meus amigos, nom poss'eu mais negar
o mui gram bem que quer'a mia senhor,
que lho nom diga, pois ant'ela for,
e des oimais me quer'aventurar
       a lho dizer; e pois que lho disser,
       mate-m'ela, se me matar quiser.

Ca, por boa fé, sempre m'eu guardei,
quant'eu pudi, de lhi pesar fazer;
mais, como quer, ũa mort'hei d'haver,
e com gram pavor ave[n]turar-m'-ei
       a lho dizer; e pois que lho disser,
       mate-m'ela, se me matar quiser.

Ca nunca eu tamanha coita vi
levar a outr'home, per boa fé,
com'eu levo; mais pois que assi é,
aventurar-me quero des aqui
       a lho dizer; e pois que lho disser,
       mate-m'ela, se me matar quiser.
482
Matilde Campilho

Matilde Campilho

Rio de Janeiro — Lisboa

um dia você
adora meus óculos
adoro os teus óculos
no dia seguinte
não quero que venhas na fazenda
três dias antes
você ia adorar este lugar
você quer vir até à fazenda?
um dia eu rasgo
o tecido celular do rosto
realizo um sorriso constante
que atravessa o morro
o ponto mágico do morro
rasgão alegre que fulmina
o veio mínimo da folha
de amendoeira
e pelo feixe de luz tropiquente
vai parar na cara de João
vendedor de suco no leblon
em ricochete João grita açaí!
qualquer dia eu vou e chego

no outro dia
a cidade se aborrece
desdignificada pela
gigante roleta
que se chama medo
o urubu fica empoleirado
na trave enferrujada
daquilo que já foi suporte
ao cartaz que anunciava
o novo mundo das piscinas

fosforescentes
o pássaro suspenso
olhando a via rápida
e catando caca
debaixo da unha
temendo o gira girar
da pequena roda
que circula sorte e azar

um dia você
escreve para seus pais
falando sobre o amor
quarenta dias depois
teus pais te escrevem
falando sobre redes de pesca
e o perigo das redes de pesca
um dia você me envia uma carta
depois a outra
o rasgão explode
recordando ainda outra carta
de alguns meses antes
o postal eterno que dizia
still crazy (after all
these years)
faço voto de silêncio
mas na sacralização
horária das avenidas
eu penso que você
sua mãe e seu pai
conversam muito
sobre peixes
e que isso mantém quieta
a roleta negra
e que isso mantém aparada
a unha do urubu
e que isso faz homenagem
a João e à fruta espessa
que brilha vermelha
em cada copo de minha cidade

um dia você diz que me a****
eu a****-te
no dia seguinte
a amendoeira se expande
e floresce cinco folhas mais
nesse dia reparo
que estamos contribuindo
você e eu
para o florestamento da cidade
de duas cidades
faço voto de silêncio
mas na sacralização horária
da respiração eu penso
que apesar da sala de casino
abrigo da gigante roleta do medo
apesar dos golpes de gmt -3
apesar da fita de seda que fica
ondulando sua medida de 7 800 km
estamos dando utilidade ao amor
alargando os braços das amendoeiras
alargando os braços dos jacarandás
partindo as inúteis linhas de fronteira
e fazendo do mundo
a gigante floresta
990
João Baveca

João Baveca

Cuidara Eu a Mia Senhor Dizer

Cuidara eu a mia senhor dizer
o mui gram bem que lhi quer'e pavor
houvi d'estar com ela mui peor
ca estava, e nom lh'ousei dizer
       de quanta coita por ela sofri,
       nem do gram bem que lhe quis, poila vi.

E nom cuidei haver de nulha rem
med'e, por esto m'esforcei entom
e foi ant'ela, se Deus mi perdom,
por lho dizer, mais nom lhi dixi rem
       de quanta coita por ela sofri,
       nem do gram bem que lhe quis, poila vi.

Bem esforçado fui por lhi falar
na mui gram coita que por ela hei,
e fui ant'ela, e siv'e cuidei
e catei-a, mais nom lh'ousei falar
       de quanta coita por ela sofri,
       nem do gram bem que lhe quis, poila vi,

e quer'e querrei sempre des aqui.
601
José Saramago

José Saramago

A Mesa É o Primeiro Objecto

A mesa é o primeiro objecto do sonho.
É branca, de madeira branca, sem pintura.
Tem papéis brancos que flutuam e se esquivam aos gestos.
O lugar seria um escritório se não fosse uma espécie de abside com degraus.
A parede curva, sem reboco, mostra as pedras roídas.
Quando o sonhador acordar, tentará saber onde esteve e há-de lembrar-se de uma ruína assim, em Paris, no museu de Cluny.
Mas não tem a certeza.
Os papéis brancos não obedecem, e isto impacienta o sonhador.
De repente há uma presença na abside, não bem uma presença, uma ameaça que se difunde e paira.
Começa o terror.
O homem que sonha quer resistir, mas o medo é mais forte, e não há ali ninguém a quem tivesse de mostrar coragem.
Foge por um longo corredor e pára junto de uma porta que dá certamente para um jardim.
Olha para trás, vai aparecer alguém.
Ao fundo do corredor passa de relance uma rapariga cor de fumo.
O medo é insuportável.
A rapariga vem pelo corredor, rodopiando em ziguezague, fazendo ricochete de parede a parede.
«Quem és?», pergunta o homem que sonha.
«Papoila», responde a rapariga, e ri sem ruído.
O medo lança o homem no jardim.
Cai no chão, e a rapariga, já não cor de fumo, mas suja, cai também.
Ao cair duplica-se, e as duas lutam arrancando-se bocados de roupas e de carne que logo se reconstituem.
O homem não aguenta mais, tem de libertar-se já.
Mas outra rapariga surge, igual às duas, e esta é muito maior.
Estão todos estendidos no chão, presos uns aos outros, e contudo não se tocam.
A rapariga grande tem um ovo dentro do bolso do avental.
Se aquele ovo for tirado e lançado pelo jardim fora e partido, será o fim do pesadelo.
Porque nesta altura o homem sabe que está a sonhar.
A rapariga grande senta-se no chão, dobra os joelhos, a saia escorrega sobre as coxas, o sexo fica à vista.
O ovo, é preciso tirar-lhe o ovo.
A rapariga começa a remexer-se, rindo.
Chegou o momento.
O homem mete-lhe a mão no bolso, agarra o ovo.
E acorda.
1 011
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Versos Negros (Mas Nem Tanto)

Ao levantar, muito cuidado, amigo.
Não ponha os pés no chão. Corre perigo
se há nylon no tapete: ele dá câncer.

Pise somente no ar, mas com cautela.
Uma pesquisa sábia nos revela
esta triste verdade: o ar dá câncer.

À hora do café, não seja pato,
pois tanto açúcar como ciclamato
e xícara e colher, sorry: dão câncer.

O banho de chuveiro? Não tomá-lo.
O de imersão, também. Sinto informá-lo
do despacho londrino: água dá câncer.

Não se vista, meu caro ou minha cara.
Um cientista famoso eis que declara:
na roupa, qualquer roupa, dorme o câncer.

A nudez, por igual, não recomendo,
a fim de prevenir um mal tremendo:
sábado se apurou que o nu dá câncer.

Rumo ao batente, agora. Antes, porém,
permita que eu indague: o amigo tem
um carrinho? Que azar. Carro dá câncer.

E coletivo, nem se fala. Em massa
aumenta a perspectiva de desgraça.
No ônibus, no avião, viaja o câncer.

Invente um novo meio de transporte
para ir ao trabalho, e não à morte…
Mas sabe que o trabalho já dá câncer?

Isso mesmo: afirmou-me com certeza
uma nega com o nome de Teresa
que dar duro é uma fábrica de câncer.

Pare de trabalhar enquanto é tempo!
Mas evite o lazer, o passatempo,
que no jardim da folga nasce o câncer.

Dormir? Talvez. Ou antes, nem pensar.
Em sonho, pelo que ouço murmurar,
é quando mais solerte chega o câncer.

O amor, então, é a grande solução?
Amor, fonte de vida… Essa é que não.
Amor, meu Deus, amor é o próprio câncer.

Viva, contudo, sem ficar nervoso,
mas sabendo que é muito perigoso
(lá disse o Rosa) e que viver dá câncer.

Já que você nasceu… Ah, não sabia
deste resumo da sabedoria?
Nascer, mero sinônimo de câncer.

Resta morrer, por precaução? Nem isto.
Veja, no céu, o aviso trismegisto:
no mundo de hoje, até morrer dá câncer.

Viva, portanto, amigo. Viva, viva
de qualquer jeito, na esperança viva
de que o câncer há de morrer de câncer.

Ou morrerá — melhor — pela coragem
de enfrentarmos o horror desta linguagem
que faz do câncer dor maior que o câncer.

Pois se souber do trágico brinquedo
que é ver câncer em tudo desta vida,
o câncer vai morrer — morrer de medo.
15/11/1969
658
Matilde Campilho

Matilde Campilho

I´Ll Have What She´S Having

nunca vou ser bom para ti
quero dizer
i talk to you for 5 hours
and then i can’t sleep
vejo a meg ryan
and then i can’t sleep
sou a cara do billy crystal
and then i can’t sleep
isto aqui não é manhattan
and then i can’t sleep
acho que o teu corte
de cabelo faz lembrar
vagalumes no sangue
do menino Emanuel
que como eu disse
era feito de veias
perfume e ossos
campo elétrico uniforme
i talk to you for 5 hours
sobre genética divina
sobre genética humana
sobre jejum e urologia
and then i can’t sleep
porque fico pensando
em Deus no filho de Deus
nos filhos de Deus
nos cachos amarelados
nas camisas de colarinho blue
no espadachim do anjo torto
na estrada para Umbaúba
na barraquinha de
frankfurters and rolls
and then i lose my glasses
and then i can’t sleep
e tenho o rosto coberto de pó
960
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Elegia Ao Primeiro Amigo

Seguramente não sou eu
Ou antes: não é o ser que eu sou, sem finalidade e sem história.
É antes uma vontade indizível de te falar docemente
De te lembrar tanta aventura vivida, tanto meandro de ternura
Neste momento de solidão e desmesurado perigo em que me encontro.
Talvez seja o menino que um dia escreveu um soneto para o dia de teus
anos
E te confessava um terrível pudor de amar, e que chorava às escondidas
Porque via em muitos dúvidas sobre uma inteligência que ele estimava
genial.
Seguramente não é a minha forma.
A forma que uma tarde, na montanha, entrevi, e que me fez tão tristemente
temer minha própria poesia.
É apenas um prenúncio do mistério
Um suspiro da morte íntima, ainda não desencantada...
Vim para ser lembrado
Para ser tocado de emoção, para chorar
Vim para ouvir o mar contigo
Como no tempo em que o sonho da mulher nos alucinava, e nós
Encontrávamos força para sorrir à luz fantástica da manhã.
Nossos olhos enegreciam lentamente de dor
Nossos corpos duros e insensíveis
Caminhavam léguas — e éramos o mesmo afeto
Para aquele que, entre nós, ferido de beleza
Aquele de rosto de pedra
De mãos assassinas e corpo hermético de mártir
Nos criava e nos destruía à sombra convulsa do mar.
Pouco importa que tenha passado, e agora
Eu te possa ver subindo e descendo os frios vales
Ou nunca mais irei, eu
Que muita vez neles me perdi para afrontar o medo da treva...
Trazes ao teu braço a companheira dolorosa
A quem te deste como quem se dá ao abismo, e para quem cantas o teu
desespero como um grande pássaro sem ar.
Tão bem te conheço, meu irmão; no entanto
Quem és, amigo, tu que inventaste a angústia
E abrigaste em ti todo o patético?
Não sei o que tenho de te falar assim: sei
Que te amo de uma poderosa ternura que nada pede nem dá
Imediata e silenciosa; sei que poderias morrer
E eu nada diria de grave; decerto
Foi a primavera temporã que desceu sobre o meu quarto de mendigo
Com seu azul de outono, seu cheiro de rosas e de velhos livros...
Pensar-te agora na velha estrada me dá tanta saudade de mim mesmo
Me renova tanta coisa, me traz à lembrança tanto instante vivido:
Tudo isso que vais hoje revelar à tua amiga, e que nós descobrimos numa
incomparável aventura
Que é como se me voltasse aos olhos a inocência com que um dia dormi
nos braços de uma mulher que queria me matar.
Evidentemente (e eu tenho pudor de dizê-lo)
Quero um bem enorme a vocês dois, acho vocês formidáveis
Fosse tudo para dar em desastre no fim, o que não vejo possível
(Vá lá por conta da necessária gentileza...)
No entanto, delicadamente, me desprenderei da vossa companhia, deixar-
me-ei ficar para trás, para trás...
Existo também; de algum lugar
Uma mulher me vê viver; de noite, às vezes
Escuto vozes ermas
Que me chamam para o silêncio.
Sofro
O horror dos espaços
O pânico do infinito
O tédio das beatitudes.
Sinto
Refazerem-se em mim mãos que decepei de meus braços
Que viveram sexos nauseabundos, seios em putrefação.
Ah, meu irmão, muito sofro! de algum lugar, na sombra
Uma mulher me vê viver... — perdi o meio da vida
E o equilíbrio da luz; sou como um pântano ao luar.

*

Falarei baixo
Para não perturbar tua amiga adormecida
Serei delicado. Sou muito delicado. Morro de delicadeza.
Tudo me merece um olhar. Trago
Nos dedos um constante afago para afagar; na boca
Um constante beijo para beijar; meus olhos
Acarinham sem ver; minha barba é delicada na pele das mulheres.
Mato com delicadeza. Faço chorar delicadamente
E me deleito. Inventei o carinho dos pés; minha palma
Áspera de menino de ilha pousa com delicadeza sobre um corpo de
adúltera.
Na verdade, sou um homem de muitas mulheres, e com todas delicado e
atento
Se me entediam, abandono-as delicadamente, desprendendo-me delas com
uma doçura de água
Se as quero, sou delicadíssimo; tudo em mim
Desprende esse fluido que as envolve de maneira irremissível
Sou um meigo energúmeno. Até hoje só bati numa mulher
Mas com singular delicadeza. Não sou bom
Nem mau: sou delicado. Preciso ser delicado
Porque dentro de mim mora um ser feroz e fratricida
Como um lobo. Se não fosse delicado
Já não seria mais. Ninguém me injuria
Porque sou delicado; também não conheço o dom da injúria.
Meu comércio com os homens é leal e delicado; prezo ao absurdo
A liberdade alheia; não existe
Ser mais delicado que eu; sou um místico da delicadeza
Sou um mártir da delicadeza; sou
Um monstro de delicadeza.

*

Seguramente não sou eu:
É a tarde, talvez, assim parada
Me impedindo de pensar. Ah, meu amigo
Quisera poder dizer-te tudo; no entanto
Preciso desprender-me de toda lembrança; de algum lugar
Uma mulher me vê viver, que me chama; devo
Segui-la, porque tal é o meu destino. Seguirei
Todas as mulheres em meu caminho, de tal forma
Que ela seja, em sua rota, uma dispersão de pegadas
Para o alto, e não me reste de tudo, ao fim
Senão o sentimento desta missão e o consolo de saber
Que fui amante, e que entre a mulher e eu alguma coisa existe
Maior que o amor e a carne, um secreto acordo, uma promessa
De socorro, de compreensão e de fidelidade para a vida.
1 395
Rodrigo Carvalho

Rodrigo Carvalho

Intervenção da Morte

Consulta médica.
O ar anestesia meus pensamentos,
deixando-os livres.
Que teria eu sofrido para estar em tal lugar?
E o doutor,
de barbas brancas, — que até passava um pouco de calma, sabe?! —
anunciou o esperado:
— Tu realmente és saudável, é verdade.
Salvo tuas vísceras,
teimosas,
impondo-se em deslocar-se.
Causastes uma hérnia, vísceras danadas!
Hospital.
Exames, espera, tricotomia, espera, roupas brancas — ridículas! —
botinhas de pano, touca, cadeira-de-rodas. . .
Sala de cirurgia!
Deito-me na maca e amarram-me por inteiro.
Eletroldos, injeções, soro, bisturi, coração, anestesia. . .

. . .

Terminou?

. . .

E vem a recuperação que,
apesar de rápida,
é bastante dolorosa.
Após a cirurgia, paro e reflito.
Tenho a nítida impressão de que a morte,
é aquilo ali:
não sente-se nada;
não ouve-se nada;
não se é nada,
após os ‘bip’s’. . .

Salvador, 10 de julho de 1994

663
Herberto Helder

Herberto Helder

Poemas Dos Peles-Vermelhas - a Obscuridade

Esperamos na obscuridade.
Vinde, vós que escutais, vinde
saudar-nos na viagem nocturna:
nenhum sol agora brilha,
nem luz agora nenhuma estrela.
Vinde, ó vós, mostrar-nos o caminho:
que a noite secreta é inimiga,
a noite que fecha as próprias pálpebras.
E eis como a noite inteiramente nos esqueceu.
E esperamos, esperamos, na obscuridade.
1 002
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Cidade

As ameaças quase visíveis surgem
Nascem
Do exausto horizonte mortas luas
E estrangulada sou por grandes polvos
Na tristeza das ruas
1 517
Rodrigo Carvalho

Rodrigo Carvalho

Sozinho

Que será que surge em mim neste momento?
Que inquietação é essa que é quase uma agonia?
Há alguma coisa que atormenta minha alma,
que neste momento inquieto,
torna-se sombria.

Porque, na solidão desta tarde que parece morrer,
sinto o coração bater,
em fortes pancadas de medo?
Não tenho medo.
Tenho que viver, crer e reerguer,
uma vida que todos pensam nada ser.

Porque pensei em minha mãe, agonizante?
Deveria pensar?
Deveria pensar em uma pessoa que faz parecer
a minha vida errante?
Deveria?

Como a casa é deserta!
E como a tarde é fria!
Surge cada vez mais o tormento. . .
E agora,
nessa hora,
o que permanece em minha alma?
Desesperança. . . Desalento. . . Desânimo. . .

Que me importa agora o passado?
A minha natureza repugna essa volúpia enorme
de fracasso.
E pergunto-me:
Que passado ruinaria só de belezas?

A partir de agora,
eu abomino a estupidez momentânea
e atitudes infâmias,
que fazem denegrir a auto-estima.

Que atos podem vir a destruir um ser?
Que sejam desconhecidos,
que perdure o vil alívio. . .

711
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

X. Sombrios Deuses

Sombrios deuses
Senhores do medo antigo
O sopro como estátuas suspendendo
Na movediça luz das lamparinas
1982
1 347
Daniel Francoy

Daniel Francoy

CLARIDADE

Se ao menos não houvesse dúvidas:
é aquela hora de bruma e de medo
e a relva, amanhecendo úmida,
tem como raízes  vísceras misturadas.
Se ao menos soubéssemos: sob o luar
Joana D’Arc é queimada e ascende
ainda mais translúcida do que a brisa
desfeita pela fuligem – é aquela hora
de árvores inertes e muros ensanguentados.
Se ao menos contemplássemos: arde
a cidade e somos nós os saqueadores,
nós os negros, nós os gregos, nós as troianas
deixadas ao estupro, aterrorizadas
por uma suspeita que jamais se confirma.
O que será esse rumor? Ratos
correndo no forro dos telhados ou torvelinhos
de vento uivando durante a madrugada?
Se ao menos uma palavra nomeasse
a pedra escura queimando o peito –
mas não: é meio-dia, faz sol
e a praça central se afoga em claridade.
1 202
Daniel Francoy

Daniel Francoy

Para pichar nos muros da cidade sitiada

Agora não há mais nada entre nós e o fim do mundo.
Toda quarentena é falha.
Eu tenho medo do ar que você respira.
A contagem dos mortos é sempre imprecisa.
Agora vivemos a vida adiada.
Há algo mais do que pássaros e ratos aqui.
Não confie no lucro anunciado.
Há homens com rifles nas esquinas.
Tudo o que conheci está sepultado.
Você ainda acredita que há dias sem mortos?
665
João Garcia de Guilhade

João Garcia de Guilhade

Elvira López, Que Mal Vos Sabedes

Elvira López, que mal vos sabedes
vós guardar sempre daqueste peom
que pousa vosc[o], e há coraçom
de tousar vosc', e vós nom lh'entendedes;
hei mui gram medo de xi vos colher
algur senlheira; e se vos foder,
o engano nunca lho provaredes.

O peom sabe sempr'u vós jazedes,
e nom vos sabedes dele guardar:
siquer poedes [em] cada logar
vossa maeta e quanto tragedes;
e dized'ora, se Deus vos perdom:
se de noite vos foder o peom,
contra qual parte o demandaredes?

Direi-vos ora como ficaredes
deste peom, que tragedes assi
vosco, pousando aqui e ali:
e vós já quanto que ar dormiredes,
e o peom, se coraçom houver
de foder, foder-vos-á, se quiser,
e nunca del[e] o vosso haveredes.

Ca vós diredes: - Fodeu-m'o peom!
E el dirá: - Bõa dona, eu nom!
E u las provas que lhi [vós] daredes?
600
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Imitação de Rilke

Alguém que me espia do fundo da noite
Com olhos imóveís brilhando na noite
Me quer.

Alguém que me espia do fundo da noite
(Mulher que me ama, perdida na noite?)
Me chama.

Alguém que me espia do fundo da noite
(És tu, Poesia, velando na noite?)
Me quer.

Alguém que me espia do fundo da noite
(Também chega a Morte dos ermos da noite…)
Quem é?
1 292
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Balada do Enterrado Vivo

Na mais medonha das trevas
Acabei de despertar
Soterrado sob um túmulo.
De nada chego a lembrar
Sinto meu corpo pesar
Como se fosse de chumbo.
Não posso me levantar
Debalde tentei clamar
Aos habitantes do mundo.
Tenho um minuto de vida
Em breve estará perdida
Quando eu quiser respirar.

Meu caixão me prende os braços.
Enorme, a tampa fechada
Roça-me quase a cabeça.
Se ao menos a escuridão
Não estivesse tão espessa!
Se eu conseguisse fincar
Os joelhos nessa tampa
E os sete palmos de terra
Do fundo à campa rasgar!
Se um som eu chegasse a ouvir
No oco deste caixão
Que não fosse esse soturno
Bater do meu coração!
Se eu conseguisse esticar
Os braços num repelão
Inda rasgassem-me a carne
Os ossos que restarão!

Se eu pudesse me virar
As omoplatas romper
Na fúria de uma evasão
Ou se eu pudesse sorrir
Ou de ódio me estrangular
E de outra morte morrer!

Mas só me resta esperar
Suster a respiração
Sentindo o sangue subir-me
Como a lava de um vulcão
Enquanto a terra me esmaga
O caixão me oprime os membros
A gravata me asfixia
E um lenço me cerra os dentes!
Não há como me mover
E este lenço desatar
Não há como desmanchar
O laço que os pés me prende!

Bate, bate, mão aflita
No fundo deste caixão
Marca a angústia dos segundos
Que sem ar se extinguirão!

Lutai, pés espavoridos
Presos num nó de cordão
Que acima, os homens passando
Não ouvem vossa aflição!
Raspa, cara enlouquecida
Contra a lenha da prisão
Pesando sobre teus olhos
Há sete palmos de chão!
Corre mente desvairada
Sem consolo e sem perdão
Que nem a prece te ocorre
À louca imaginação!
Busca o ar que se te finda
Na caverna do pulmão
O pouco que tens ainda
Te há de erguer na convulsão
Que romperá teu sepulcro
E os sete palmos de chão:
Não te restassem por cima
Setecentos de amplidão!
1 096
José Saramago

José Saramago

Sancho

Capaz de medos, sim, mas não de assombros.
Para assombros outra alma se precisa
Mais nua e desarmada.
Mas dessa bruta mão cai a semente
Que a teu amo sustenta, e sem o pão,
Até assombro é nada.
974
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

Balada de Pedro Nava

(O anjo e o túmulo)

I

Meu amigo Pedro Nava
Em que navio embarcou:
A bordo do Westphalia
Ou a bordo do Lidador?

Em que antárticas espumas
Navega o navegador

Em que brahmas, em que brumas
Pedro Nava se afogou?

Juro que estava comigo
Há coisa de não faz muito
Enchendo bem a caveira
Ao seu eterno defunto.

Ou não era Pedro Nava
Quem me falava aqui junto
Não era o Nava de fato
Nem era o Nava defunto?...

Se o tivesse aqui comigo
Tudo se solucionava
Diria ao garçom: Escanção!
Uma pedra a Pedro Nava!

Uma pedra a Pedro Nava
Nessa pedra uma inscrição:
"- deste que muito te amava
teu amigo, teu irmão..."

Mas oh, não! que ele não morra
Sem escutar meu segredo
Estou nas garras da Cachorra
V ou ficar louco de medo

Preciso muito falar-lhe
Antes que chegue amanhã:
Pedro Nava, meu amigo
DESCEU O LEVIATÃ!


II

A moça dizia à lua
Minha carne é cor-de-rosa
Não é verde como a tua
Eu sou jovem e formosa.
Minhas maminhas - a moça
À lua mostrava as suas -
Têm a brancura da louça
Não são negras como as tuas.
E ela falava: Meu ventre
É puro - e o deitava à lua
A lua que o sangra dentro
Quem haverá que a possua?
Meu sexo - a moça jogada
Entreabria-se nua -
É o sangue da madrugada

Na triste noite sem lua.
Minha pele é viva e quente
Lança o teu raio mais frio
Sobre o meu corpo inocente...
Sente o teu como é vazio.


III

A sombra decapitada
Caiu fria sobre o mar...
Quem foi a voz que chamou?
Quem foi a voz que chamou?

- Foi o cadáver do anjo
Que morto não se enterrou.

Nas vagas boiavam virgens
Desfiguradas de horror...
O homem pálido gritava:
Quem foi a voz que chamou?

- Foi o extático Adriático
Chorando o seu paramor.

De repente, no céu ermo
A lua se consumou...
O mar deu túmulo à lua.
Quem foi a voz que chamou?

- Foi a cabeça cortada
Na praia do Arpoador.

O mar rugia tão forte
Que o homem se debruçou
Numa vertigem de morte:
Quem foi a voz que chamou?

- Foi a eterna alma penada
Daquele que não amou.

No abismo escuro das fragas
Descia o disco brilhante
Sumindo por entre as águas...
Oh lua em busca do amante!
E o sopro da ventania
Vinha e desaparecia.

Negro cárcere da morte
Branco cárcere da dor
Luz e sombra da alvorada...
A voz amada chamou!

E um grande túmulo veio
Se desvendando no mar
Boiava ao sabor das ondas
Que o não queriam tragar.

Tinha uma laje e uma lápide
Com o nome de uma mulher
Mas de quem era esse nome
Nunca o pudesse dizer.
1 163
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Kreen-Akarore

Gigante que recusas
encarar-me nos olhos,
apertar minha mão
temendo que ela seja
uma faca, um veneno,
uma tocha de incêndio;
gigante que me foges,
légua depois de légua,
e se deixo os sinais
de minha simpatia,
os destróis: tens razão.
Malgrado meu desejo
de declarar-te irmão
e contigo fruir
alegrias fraternas,
só tenho para dar-te
em turvo condomínio
o pesadelo urbano
de ferros e de fúrias
em contínuo combate
na esperança de paz
— uma paz que se esconde
e se furta e se apaga
medusada de medo,
como tu, akarore,
na espessura da mata
ou no espelho sem fala
das águas do Jarina.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Receituário Sortido

Calma.
É preciso ter calma no Brasil
calmina
calmarian
calmogen
calmovita.

Que negócio é esse de ansiedade?
Não quero ver ninguém ansioso.
O cordão dos ansiosos enfrentemos:
ansipan!
ansiotex!
ansiex ansiax ansiolax
ansiopax, amigos!

Serenidade, amor, serenidade.
Dissolve-se a seresta no sereno?
Fecha os olhos: serenium,
serenex…

Dói muito o teu dodói de alma?
Em seda e sedativo te protejas.
Sedax, meu coração,
sedolin
sedotex
sedomepril.

Meu bem, relaxe por favor.
Relaxan
relaxatil.
Batem, batem à porta? Relax-pan.

Estás tenso, meu velho?
Tenso de alta tensão, intensa, túrbida?
Atenção: tensoben
tensocron
tensocrin
tensik
tensoplisin.

Anda, cai no sono,
amigo, olha o sonix.
Como soa o sonil
sonipan sonotal
sonoasil
sonobel sonopax!


E fique aí tranquilo tranquilinho
bem tranquil
tranquilid
tranquilase
tranquilan
tranquilin
tranquix tranquiex
tranquimax
tranquisan
e mesmo tranxilene!

Estás píssico, talvez
de tanto desencucarem tua cuca?
Estás perplexo?
Não ouves o pipilar: psicoplex?
psicodin
psiquim
psicobiome
psicolatil?
Não sentes adejar: psicopax?

Então morre, amizade. Morre presto,
morre já, morre urgente,
antes que em drágea cápsula ampola flaconete
proves letalex
mortalin
obituaran
homicidil
thanatex thanatil
thanatipum!
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Matilde Campilho

Matilde Campilho

Rugove

Levantei-me para o contrário disso — a tempestade
Foi como daquela vez em que morava na América
E regressei a casa para o contrário disso — a quebra
Prometeram-nos dias de sol depois após terror dos 30 dias
Disseram que fevereiro seria o contrário disto — o breu
Vesti-me a rigor para o desenho na casca dos jacarandás
Porque estava anunciado nos cartazes o contrário disto
Achei que nalgum momento a luz viria tomar conta de tudo
Que de forma ou outra lavaríamos os cabelos no mar
Mas hoje o que se vê da janela é o oposto do clarão
É mais uma volta na avenida com ombros cobertos de pavor
E eu só sei que acordamos sempre para o contrário disto
Somos os filhos do verão — somos o inverso da escuridão
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Arlindo Barbeitos

Arlindo Barbeitos

Esperança

Por entre as margens da esperança e da morte
meteste a tua mão
e
eu vi alongados nas águas
os dedos que me agarram

em lagoa de um sonho
corpo de jacaré
é soturna jangada de palavras secas
por entre as margens da esperança e da morte
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