Poemas neste tema
Mar, Rios e Oceanos
Tasso de Oliveira
Noturno
Notturno
tradução: Anton Angelo Chiocchio
Veleiro ao cais amarrado
em vago balouço, dorme?
Não dorme. Sonha, acordado,
que vai pelo mar enorme,
pelo mar ilimitado.
Se acaso me objetardes
que veleiro não é gente
e, assim, não sonha nem sente,
sem orgulhos nem alardes
eu direi: por que haveria
de falar-vos do homem triste
mas de olhar grave e profundo
que, à amargura acorrentado
sonha, no entanto, que vive
toda a beleza do mundo?
Melhor é dizer: Veleiro...
veleiro ao cais amarrado,
sob as límpidas estrelas.
Vela branca é uma alma trêmula,
sobretudo se cai sombra
do alto abismo constelado.
Veleiro, sim, que não dorme
mas na silente penumbra
sonha, ao balouço, acordado
que vai pelo mar enorme,
pelo mar ilimitado.
Quel veliero che, ancorato
giú nel porto, sembra assorto
a cullarsi, forse dorme?
No, non dorme. Sogna, desto,
di solcare il mare enorme,
sogna il mare illimitato.
Se obbiettaste che un veliero
non é un uomo, non é gente,
che non sogna, che non sente,
senza fingermi modesto,
vi direi: perché parlare
di questuorno cosi mesto,
dallo sguardo aspro e profondo,
che, ancorato all’amarezza,
tuttavia, ogni bellezza
sogna vivere del mondo?
Meglio dirvi del veliero
che a quel molo sta ancorato
sotto un vivo firmamento.
La sua vela trema: é un’anima,
soprattutto se ombre piovono ,
da quel baratro stellato.
Si, un veliero, che non dorme:
sogna ill mezzo allacqua e al vento,
mentre dondola svagato,
di solcare il mare enorme,
sogna il mare illimitato.
tradução: Anton Angelo Chiocchio
Veleiro ao cais amarrado
em vago balouço, dorme?
Não dorme. Sonha, acordado,
que vai pelo mar enorme,
pelo mar ilimitado.
Se acaso me objetardes
que veleiro não é gente
e, assim, não sonha nem sente,
sem orgulhos nem alardes
eu direi: por que haveria
de falar-vos do homem triste
mas de olhar grave e profundo
que, à amargura acorrentado
sonha, no entanto, que vive
toda a beleza do mundo?
Melhor é dizer: Veleiro...
veleiro ao cais amarrado,
sob as límpidas estrelas.
Vela branca é uma alma trêmula,
sobretudo se cai sombra
do alto abismo constelado.
Veleiro, sim, que não dorme
mas na silente penumbra
sonha, ao balouço, acordado
que vai pelo mar enorme,
pelo mar ilimitado.
Quel veliero che, ancorato
giú nel porto, sembra assorto
a cullarsi, forse dorme?
No, non dorme. Sogna, desto,
di solcare il mare enorme,
sogna il mare illimitato.
Se obbiettaste che un veliero
non é un uomo, non é gente,
che non sogna, che non sente,
senza fingermi modesto,
vi direi: perché parlare
di questuorno cosi mesto,
dallo sguardo aspro e profondo,
che, ancorato all’amarezza,
tuttavia, ogni bellezza
sogna vivere del mondo?
Meglio dirvi del veliero
che a quel molo sta ancorato
sotto un vivo firmamento.
La sua vela trema: é un’anima,
soprattutto se ombre piovono ,
da quel baratro stellato.
Si, un veliero, che non dorme:
sogna ill mezzo allacqua e al vento,
mentre dondola svagato,
di solcare il mare enorme,
sogna il mare illimitato.
915
Jaumir Valença da Silveira
Cumplicidade
"Give me your hands,
if we be friends."
Se eu vos disser que o mar que agora encaro
me faz um bem supremo ou mal me ampara,
é vero que o seu sal, de gosto extremo,
talvez vos teça a fé que me declara
ser tão feliz que a morte a mim me esqueça
ou sofrimento é só com que deparo.
Mas neste mesmo mar, se eu ponho o vento
vagando pelas crispas das marolas,
haveis de crer que sinto ser mais brando
o que já imaginais das priscas horas;
o que antes era júbilo é só paz,
não passa de um queixume o tal lamento.
E se eu não venho a por escuro ou lume
na tela que o sentido me extravasa,
é que vos trago a forma mais singela
de respeitar o céu que vos abrasa:
deixando, pra tintura do papel
o vosso sentimento que nos une.
if we be friends."
Se eu vos disser que o mar que agora encaro
me faz um bem supremo ou mal me ampara,
é vero que o seu sal, de gosto extremo,
talvez vos teça a fé que me declara
ser tão feliz que a morte a mim me esqueça
ou sofrimento é só com que deparo.
Mas neste mesmo mar, se eu ponho o vento
vagando pelas crispas das marolas,
haveis de crer que sinto ser mais brando
o que já imaginais das priscas horas;
o que antes era júbilo é só paz,
não passa de um queixume o tal lamento.
E se eu não venho a por escuro ou lume
na tela que o sentido me extravasa,
é que vos trago a forma mais singela
de respeitar o céu que vos abrasa:
deixando, pra tintura do papel
o vosso sentimento que nos une.
854
António Ramos Rosa
Não Digo Rosa Mas Pedra E Digo Sombra
Não digo rosa mas pedra e digo sombra
por um ritmo que não sei e acendo aquela cor
que vi brilhar no muro de outono e de ferrugem
Não digo nem a sombra digo a pedra do ritmo
e quando for de água a pedra para os teus pés
não direi as flores do desejo mas a nuca
inclinada e branca sobre um lago sem lua
e toda uma colina de ar em teu redor
como uma grande e suave força do dia
como uma pulsação do campo e do olhar
luz do lugar sombra clara clareira nave
por um ritmo que não sei e acendo aquela cor
que vi brilhar no muro de outono e de ferrugem
Não digo nem a sombra digo a pedra do ritmo
e quando for de água a pedra para os teus pés
não direi as flores do desejo mas a nuca
inclinada e branca sobre um lago sem lua
e toda uma colina de ar em teu redor
como uma grande e suave força do dia
como uma pulsação do campo e do olhar
luz do lugar sombra clara clareira nave
1 009
Antônio Barreto
Ária de América por um Antigo Marinheiro
Árvore ser de alvorecer e sendo
assim em raiz em nua face e foice
(alvorossonho foi-se, mente e lavra)
que de tão-somente semeou palavra
Por de onde sol anzolazul em céu
de peixe e mar esculpido e pronto
: frontisprefácio : em seta dor dedilha
a ária em arpa : peixe arpoador
arma da terra ameri ca me tengo
mi na vida nota cor de lheira
por de onde ondeias oceano
a tantas noites a tlanti cais me vengo
atlantas noches de mandar te andes
e ar vou ser em nada: serenata
peixe tecla dor de pescantar
anzolazul em punho, espada nua e n'antes
morrer de américa os relógios de neruda.
In: BARRETO, Antônio. O sono provisório. Rio de Janeiro: F. Alves, 1978. p.38. Poema integrante da série Fantasias da Fala
assim em raiz em nua face e foice
(alvorossonho foi-se, mente e lavra)
que de tão-somente semeou palavra
Por de onde sol anzolazul em céu
de peixe e mar esculpido e pronto
: frontisprefácio : em seta dor dedilha
a ária em arpa : peixe arpoador
arma da terra ameri ca me tengo
mi na vida nota cor de lheira
por de onde ondeias oceano
a tantas noites a tlanti cais me vengo
atlantas noches de mandar te andes
e ar vou ser em nada: serenata
peixe tecla dor de pescantar
anzolazul em punho, espada nua e n'antes
morrer de américa os relógios de neruda.
In: BARRETO, Antônio. O sono provisório. Rio de Janeiro: F. Alves, 1978. p.38. Poema integrante da série Fantasias da Fala
1 223
Juscelino Vieira Mendes
Nu como um Yanomami
A Soares Feitosa, e à sua criação: PSI, a Penúltima!
Percorro o meu interior
E me vejo nu como um yanomami.
Ando pelas encostas do meu ser
e vejo claramente as florestas
largas e repletas de árvores fortes e floridas;
largas e repletas de frutos maduros;
largas e repletas de plantas verdes.
Ando em meio as árvores e não percebo o bosque.
em meio aos frutos e não posso comer;
em meio as plantas e não sinto o seu aroma.
Caminho em direção ao rio que vejo ao longe;
rio que tem curso calmo.
Às vezes suas águas, que nunca são as mesmas,
descem velozmente ao encontro de um mar
que é só meu, único e indescritível...impenetrável.
Ando ao encontro desse rio, cujas águas são azuis,
e chego exausto e trêmulo.
Nele molho a minh’alma que se encanta e se enleva,
e chego a perceber o bosque: imenso e úmido.
Ouço o cantar dos pássaros!
E como dos frutos das árvores próximas: maduros e doces.
Que me são permitidos comer!
E sinto o aroma das plantas adjacentes: perfume silvestre.
Cheiro suave!
Sigo atravessando o rio e não desejo chegar.
As suas margens ainda estão largas,
mas se estreitam à medida que caminho:
a passos lentos e firmes...inseguros às vezes: não desejo ainda chegar.
As suas águas continuam a bater nas encostas do meu ser.
Volto-me a mim e reconstituo o caminho de volta.
Deixo para trás um rio lento e suave a caminho do mar
que não consigo enxergar, ainda que o veja: não estou mais nu,
não me conheço. Continuo, contudo, um yanomami.
Salvador, à meia noite de 11 de janeiro/97.
Percorro o meu interior
E me vejo nu como um yanomami.
Ando pelas encostas do meu ser
e vejo claramente as florestas
largas e repletas de árvores fortes e floridas;
largas e repletas de frutos maduros;
largas e repletas de plantas verdes.
Ando em meio as árvores e não percebo o bosque.
em meio aos frutos e não posso comer;
em meio as plantas e não sinto o seu aroma.
Caminho em direção ao rio que vejo ao longe;
rio que tem curso calmo.
Às vezes suas águas, que nunca são as mesmas,
descem velozmente ao encontro de um mar
que é só meu, único e indescritível...impenetrável.
Ando ao encontro desse rio, cujas águas são azuis,
e chego exausto e trêmulo.
Nele molho a minh’alma que se encanta e se enleva,
e chego a perceber o bosque: imenso e úmido.
Ouço o cantar dos pássaros!
E como dos frutos das árvores próximas: maduros e doces.
Que me são permitidos comer!
E sinto o aroma das plantas adjacentes: perfume silvestre.
Cheiro suave!
Sigo atravessando o rio e não desejo chegar.
As suas margens ainda estão largas,
mas se estreitam à medida que caminho:
a passos lentos e firmes...inseguros às vezes: não desejo ainda chegar.
As suas águas continuam a bater nas encostas do meu ser.
Volto-me a mim e reconstituo o caminho de volta.
Deixo para trás um rio lento e suave a caminho do mar
que não consigo enxergar, ainda que o veja: não estou mais nu,
não me conheço. Continuo, contudo, um yanomami.
Salvador, à meia noite de 11 de janeiro/97.
1 441
Mário Donizete Massari
Figurante
(uma canção)
Tantas palavras não ditas
na vida (fadiga)
o que buscamos está longe
está perto demais
aportado no cais
Buscando verdades me apego
a mentiras
dias desse qualquer dia
me rendo ao que sou
ou serei jamais
Nas mãos o que resta do
grande artefato
plano bordado de coisas errôneas
quase sempre banais
Movimento sereno de um corpo
enrustido de mágoas
lágrimas molham e ferem
o olhar
NÃO PAGAREI OS PECADOS DO [MUNDO
QUERO ANTES UM PORTO SEGURO
NAUFRAGAR MEUS DESEJOS[INCERTOS
ANCORAR MINHA SEDE NO MAR
NÃO SEREI HERÓI DESTE TEMPO
FIGURANTE DE UM SONHO A MAIS
NO CENÁRIO DE EXTREMO[CONFLITO
DESTE CIRCO ARMADO NO AR
Tantos momentos que a gente
descobre
de repente se morre
e ficamos de luto
em pleno verão
No céu desses olhos
o brilho mais forte
fugindo do norte
caímos na angústia
da agreste ilusão
Os filhos nos braços
os braços cansados
lábios cerrados
perderam o brilho e a cor
e o som
NÃO PAGAREI OS PECADOS . . .
Tantas palavras não ditas
na vida (fadiga)
o que buscamos está longe
está perto demais
aportado no cais
Buscando verdades me apego
a mentiras
dias desse qualquer dia
me rendo ao que sou
ou serei jamais
Nas mãos o que resta do
grande artefato
plano bordado de coisas errôneas
quase sempre banais
Movimento sereno de um corpo
enrustido de mágoas
lágrimas molham e ferem
o olhar
NÃO PAGAREI OS PECADOS DO [MUNDO
QUERO ANTES UM PORTO SEGURO
NAUFRAGAR MEUS DESEJOS[INCERTOS
ANCORAR MINHA SEDE NO MAR
NÃO SEREI HERÓI DESTE TEMPO
FIGURANTE DE UM SONHO A MAIS
NO CENÁRIO DE EXTREMO[CONFLITO
DESTE CIRCO ARMADO NO AR
Tantos momentos que a gente
descobre
de repente se morre
e ficamos de luto
em pleno verão
No céu desses olhos
o brilho mais forte
fugindo do norte
caímos na angústia
da agreste ilusão
Os filhos nos braços
os braços cansados
lábios cerrados
perderam o brilho e a cor
e o som
NÃO PAGAREI OS PECADOS . . .
865
Ana Suzuki
Haicai
Noite na praia...
Os pescadores recolhem
a estrela cadente.
Crise
O sol esbraseia.
Um gato busca refúgio
na sombra do cão.
Os pescadores recolhem
a estrela cadente.
Crise
O sol esbraseia.
Um gato busca refúgio
na sombra do cão.
441
Ronaldo Bonfim
Haicai
Cachoeira
As pedras quebram
o espelho d’água e
refletem o sol.
O grilo imita
o som do atrito
carro de boi.
As pedras quebram
o espelho d’água e
refletem o sol.
O grilo imita
o som do atrito
carro de boi.
1 009
Fernando Pessoa
Ó curva do horizonte, quem te passa,
Ó curva do horizonte, quem te passa,
Passa da vista, não de ser ou estar.
Não chameis à alma, que da vida esvoaça,
Morta. Dizei: Sumiu-se além no mar.
Ó mar, sê símbolo da vida toda —
Incerto, o mesmo e mais que o nosso ver!
Finda a viagem da morte e a terra à roda,
Voltou a alma e a nau a aparecer.
Passa da vista, não de ser ou estar.
Não chameis à alma, que da vida esvoaça,
Morta. Dizei: Sumiu-se além no mar.
Ó mar, sê símbolo da vida toda —
Incerto, o mesmo e mais que o nosso ver!
Finda a viagem da morte e a terra à roda,
Voltou a alma e a nau a aparecer.
1 400
Nuno Júdice
Crença Outonal
No entanto, caídas as colunas de setembro com os
ventos que arrastam as insónias do levante e incendeiam
as planícies, erguem-se nas mãos de um deus morto
os mastros de mármore de um navio antigo. A que porto
se dirigia a sua viagem? Em que recifes projectou o seu
naufrágio? Nos seus lábios, que os vermes do absoluto
devoram, leio as contas do tempo que ele imaginou
para o seu percurso clandestino, como se um deus
coubesse no porão. «Dizei-me», murmurou no instante
da agonia, «que ave seguirá o rasto do barco até
onde irei chegar?» Mas os homens confundiram
a sua voz com um distante anúncio de tempestade,
e abrigaram-se do céu, fugindo ao seu grito.
De manhã, recolhi os vestígios da noite
nesse cais abandonado: tábuas apodrecidas
pelo sal, as mantas que enrolaram os moribundos
antes que a morte os recolhesse, gemidos
apanhados nos rochedos do molhe, no instante
em que a onda se retira. Mas que fazer
com os despojos do sagrado? Por vezes, era
como se o corpo divino aparecesse à minha frente;
de outras vezes, entoava o louvor do nada, e cada sílaba
me arranhava a boca na dicção ácida de um fardo
de maldições. E o mar crescia na minha memória,
corria pela minha pele como os insectos dos trópicos,
e devorava cada imagem como se, no seu furor,
quisesse apagar o passado e restituir aos olhos
o horizonte branco da origem.
Porém, também as fontes secaram no limite do estio,
e os peixes sufocaram sobre o lodo do fundo. Apanhei-os
no meu saco, para os distribuir pelos bairros do norte,
pelos pórticos de onde espreitam as mulheres pálidas
e os homens de cabelo húmido pela maresia, e
assisti à sua refeição de carne doce, enquanto os pedintes
se juntavam atrás de mim para recolher os restos, sem
que eu tivesse alguma coisa para lhes dar a não ser essa
palavra que deus me ensinara ao dizer-me: «Dá aos que
nada têm o Ser que eu inventei.» E eles respondiam: «De
que nos serve o Ser? Que faremos com ele, nós, os que nada
temos?» E empurrei-os para os armazéns vazios, onde
as suas palavras ecoariam de encontro à cúpula
metálica que as chuvas enferrujaram num inverno
da infância. Mas eles recusavam, e insultavam-me,
como se a dádiva de um deus fosse uma ofensa.
Então, disse-lhes, juntemo-nos na grande mesa da comunhão;
partilhemos o ódio, como se parte o pão; e bebamos
o vinho da ira, já azedo, ficando com a garganta
amarga para que os gritos se tornem roucos; e deixemos
de nos ouvir uns aos outros. Como cegos, partiremos,
um em cada direcção, levando como único troféu
o desespero. E quando chegarmos ao limite da praia,
ao oceano em que deveríamos embarcar, perguntaremos
onde está esse navio prometido, esse mapa que nos daria
a resposta, e o azul do céu que nos abriria o desejo
de beleza, e nos faria ver o corpo anunciado de deus sobre
as águas. Mas ficámos sem ter aonde regressar, e só
nos alimenta um pedaço do pão da desventura,
ressequido do sol, com a consistência da pedra,
doendo na boca como as palavras do poema.
Por fim, sem mais nada, resta-nos deus. Está morto
dentro de nós. Mas ainda o podemos tirar da cabeça
e estendê-lo na areia, como o corpo de uma baleia
que tivesse dado à costa. «Não lhe toquem com os pés»,
diz o guardião da costa. «Se estiver podre, a sua podridão
pega-se à nossa pele. «Mas já andei com ele dentro de mim»,
respondi ao homem. «Já me pegou a doença do sagrado,
a lepra de uma crença infinita, o desejo de um além
que nunca verei.» O guardião da costa riu-se. «Sei
muito bem onde vêm dar estas baleias. Os seus ossos
estendem-se ao longo do litoral, e ao seu lado sentam-se
os inúteis, repetindo com as suas bocas mórbidas
as frases que aprenderam no contacto com a sua carne
putrefacta. Alguns, abriram-lhes os ventres e entraram
neles, como se ainda os pudessem fecundar. E o seu
esperma foi devorado pelos caranguejos da ria.»
Deixei-o a falar sozinho, como se faz a todos os que
perderam a fé. E subi pelo dorso da baleia, até onde
acreditei que poderia tocar o céu, enterrando-me
na sua carne movediça até me confundir com
o corpo de deus.
in, "A Convergência dos Ventos" | Nuno Júdice | Publicações Dom Quixote, 1ª. Edição, pág. 14, 15 e 16 - Lisboa, Outubro 2015
ventos que arrastam as insónias do levante e incendeiam
as planícies, erguem-se nas mãos de um deus morto
os mastros de mármore de um navio antigo. A que porto
se dirigia a sua viagem? Em que recifes projectou o seu
naufrágio? Nos seus lábios, que os vermes do absoluto
devoram, leio as contas do tempo que ele imaginou
para o seu percurso clandestino, como se um deus
coubesse no porão. «Dizei-me», murmurou no instante
da agonia, «que ave seguirá o rasto do barco até
onde irei chegar?» Mas os homens confundiram
a sua voz com um distante anúncio de tempestade,
e abrigaram-se do céu, fugindo ao seu grito.
De manhã, recolhi os vestígios da noite
nesse cais abandonado: tábuas apodrecidas
pelo sal, as mantas que enrolaram os moribundos
antes que a morte os recolhesse, gemidos
apanhados nos rochedos do molhe, no instante
em que a onda se retira. Mas que fazer
com os despojos do sagrado? Por vezes, era
como se o corpo divino aparecesse à minha frente;
de outras vezes, entoava o louvor do nada, e cada sílaba
me arranhava a boca na dicção ácida de um fardo
de maldições. E o mar crescia na minha memória,
corria pela minha pele como os insectos dos trópicos,
e devorava cada imagem como se, no seu furor,
quisesse apagar o passado e restituir aos olhos
o horizonte branco da origem.
Porém, também as fontes secaram no limite do estio,
e os peixes sufocaram sobre o lodo do fundo. Apanhei-os
no meu saco, para os distribuir pelos bairros do norte,
pelos pórticos de onde espreitam as mulheres pálidas
e os homens de cabelo húmido pela maresia, e
assisti à sua refeição de carne doce, enquanto os pedintes
se juntavam atrás de mim para recolher os restos, sem
que eu tivesse alguma coisa para lhes dar a não ser essa
palavra que deus me ensinara ao dizer-me: «Dá aos que
nada têm o Ser que eu inventei.» E eles respondiam: «De
que nos serve o Ser? Que faremos com ele, nós, os que nada
temos?» E empurrei-os para os armazéns vazios, onde
as suas palavras ecoariam de encontro à cúpula
metálica que as chuvas enferrujaram num inverno
da infância. Mas eles recusavam, e insultavam-me,
como se a dádiva de um deus fosse uma ofensa.
Então, disse-lhes, juntemo-nos na grande mesa da comunhão;
partilhemos o ódio, como se parte o pão; e bebamos
o vinho da ira, já azedo, ficando com a garganta
amarga para que os gritos se tornem roucos; e deixemos
de nos ouvir uns aos outros. Como cegos, partiremos,
um em cada direcção, levando como único troféu
o desespero. E quando chegarmos ao limite da praia,
ao oceano em que deveríamos embarcar, perguntaremos
onde está esse navio prometido, esse mapa que nos daria
a resposta, e o azul do céu que nos abriria o desejo
de beleza, e nos faria ver o corpo anunciado de deus sobre
as águas. Mas ficámos sem ter aonde regressar, e só
nos alimenta um pedaço do pão da desventura,
ressequido do sol, com a consistência da pedra,
doendo na boca como as palavras do poema.
Por fim, sem mais nada, resta-nos deus. Está morto
dentro de nós. Mas ainda o podemos tirar da cabeça
e estendê-lo na areia, como o corpo de uma baleia
que tivesse dado à costa. «Não lhe toquem com os pés»,
diz o guardião da costa. «Se estiver podre, a sua podridão
pega-se à nossa pele. «Mas já andei com ele dentro de mim»,
respondi ao homem. «Já me pegou a doença do sagrado,
a lepra de uma crença infinita, o desejo de um além
que nunca verei.» O guardião da costa riu-se. «Sei
muito bem onde vêm dar estas baleias. Os seus ossos
estendem-se ao longo do litoral, e ao seu lado sentam-se
os inúteis, repetindo com as suas bocas mórbidas
as frases que aprenderam no contacto com a sua carne
putrefacta. Alguns, abriram-lhes os ventres e entraram
neles, como se ainda os pudessem fecundar. E o seu
esperma foi devorado pelos caranguejos da ria.»
Deixei-o a falar sozinho, como se faz a todos os que
perderam a fé. E subi pelo dorso da baleia, até onde
acreditei que poderia tocar o céu, enterrando-me
na sua carne movediça até me confundir com
o corpo de deus.
in, "A Convergência dos Ventos" | Nuno Júdice | Publicações Dom Quixote, 1ª. Edição, pág. 14, 15 e 16 - Lisboa, Outubro 2015
1 761
Nuno Júdice
Definição
O amor: as têmporas de uma nuvem
roçando a cabeça do oceano.
1 446
Jorge Luis Borges
Poema del cuarto elemento
EL dios a quien un hombre de la estirpe de Atreo
Apresó en una playa que el bochorno lacera,
Se convirtió en león, en dragón, en pantera,
N un árbol y en agua. Porque el agua es Proteo.
Es la nube, la irrecordable nube, es la gloria
Del ocaso que ahonda, rojo, los arrabales;
Es el Maelström que tejen los vórtices glaciales,
Y la lágrima inútil que doy a tu memoria.
Fue, en la cosmogonías, el origen secreto
De la tierra que nutre, del fuego que devora,
De los dioses que rigen el poniente y la aurora.
( Así lo afirman Séneca y Tales de Mileto.)
El mar y la moviente montaña que destruye
A la nave de hierro sólo son tus anáforas,
Y el tiempo irreversible que nos hiere y que huye,
Agua, no es otra cosa que una de tus metáforas.
Fuiste, bajo ruinosos vientos, el laberinto
Sin muros ni ventana, cuyos caminos grises
Largamente desviaron al anhelado Ulises,
De la Muerte segura y el Azar indistinto.
Brillas como las crueles hojas de los alfanjes,
Hospedas, como el sueño, monstruos y pesadillas.
Los lenguajes del hombre te agregan maravillas
Y tu fuga se llama el Eúfrates o el Ganges.
( Afirman que es sagrada el agua del postrero,
Pero como los mares urden oscuros canjes
Y el planeta es poroso, también es verdadero
Afirmar que todo hombre se ha bañado en el Ganges.)
De Quincey, en el tumulto de los sueños, ha visto
Empredarse tu océano de rostros, de naciones;
Has aplacado el ansia de las generaciones,
Has lavado la carne de mi padre y de Cristo.
Agua, te lo suplico. Por este soñoliento
Nudo de numerosas palabras que te digo,
Acuérdate de Borges, tu nadador, tu amigo.
No faltes a mis labios en el postrer momento.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 177 e 178 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Apresó en una playa que el bochorno lacera,
Se convirtió en león, en dragón, en pantera,
N un árbol y en agua. Porque el agua es Proteo.
Es la nube, la irrecordable nube, es la gloria
Del ocaso que ahonda, rojo, los arrabales;
Es el Maelström que tejen los vórtices glaciales,
Y la lágrima inútil que doy a tu memoria.
Fue, en la cosmogonías, el origen secreto
De la tierra que nutre, del fuego que devora,
De los dioses que rigen el poniente y la aurora.
( Así lo afirman Séneca y Tales de Mileto.)
El mar y la moviente montaña que destruye
A la nave de hierro sólo son tus anáforas,
Y el tiempo irreversible que nos hiere y que huye,
Agua, no es otra cosa que una de tus metáforas.
Fuiste, bajo ruinosos vientos, el laberinto
Sin muros ni ventana, cuyos caminos grises
Largamente desviaron al anhelado Ulises,
De la Muerte segura y el Azar indistinto.
Brillas como las crueles hojas de los alfanjes,
Hospedas, como el sueño, monstruos y pesadillas.
Los lenguajes del hombre te agregan maravillas
Y tu fuga se llama el Eúfrates o el Ganges.
( Afirman que es sagrada el agua del postrero,
Pero como los mares urden oscuros canjes
Y el planeta es poroso, también es verdadero
Afirmar que todo hombre se ha bañado en el Ganges.)
De Quincey, en el tumulto de los sueños, ha visto
Empredarse tu océano de rostros, de naciones;
Has aplacado el ansia de las generaciones,
Has lavado la carne de mi padre y de Cristo.
Agua, te lo suplico. Por este soñoliento
Nudo de numerosas palabras que te digo,
Acuérdate de Borges, tu nadador, tu amigo.
No faltes a mis labios en el postrer momento.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 177 e 178 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 481
António Ramos Rosa
Em Abandono Límpido a Brancura
Em abandono límpido a brancura
do invisível ar por sobre a fronte
com as palavras no limite de uma margem
no intervalo assombroso
onde súbito o silêncio é um estrépito branco
avançar no silêncio sobre as pedras
num arranque de água em todo o corpo
sobre um cume de lábios
sobre a terra sempre
no ouvido da montanha uma água verde
um silêncio poderoso de íman negro
do invisível ar por sobre a fronte
com as palavras no limite de uma margem
no intervalo assombroso
onde súbito o silêncio é um estrépito branco
avançar no silêncio sobre as pedras
num arranque de água em todo o corpo
sobre um cume de lábios
sobre a terra sempre
no ouvido da montanha uma água verde
um silêncio poderoso de íman negro
1 004
Leopoldo Neto
Coreaú
Coreaú , minha terra querida
Do mesmo nome, te banha um rio ,
Onde muito tomei banho e senti frio ,
Na aurora da minha vida !...
És tu bela, és forte, mas traída ,
Por alguém que há muito, viste nascer
Mas , ainda tem , quem te dê guarida
Para quem te traiu , te ver crescer !...
És tão bela, que trouxeste inspiração ,
Para com versos, partidos do coração
Teu filho humilde te ofertar.
Estes versos, são para ti, terra nobre
De um filho , que nasceu em berço pobre...
Mas não te traiu , nem te trairá jamais !...
Do mesmo nome, te banha um rio ,
Onde muito tomei banho e senti frio ,
Na aurora da minha vida !...
És tu bela, és forte, mas traída ,
Por alguém que há muito, viste nascer
Mas , ainda tem , quem te dê guarida
Para quem te traiu , te ver crescer !...
És tão bela, que trouxeste inspiração ,
Para com versos, partidos do coração
Teu filho humilde te ofertar.
Estes versos, são para ti, terra nobre
De um filho , que nasceu em berço pobre...
Mas não te traiu , nem te trairá jamais !...
1 281
António Ramos Rosa
Como Uma Diferença Desconhecida Sem Diferença
Como uma diferença desconhecida sem diferença
a lâmina do silêncio branco dentro
o percurso da sombra fresca sobre o mar
numa varanda aberta ao espaço global
forma do vento figura feita de ar
silêncio que retorna sob o frio
corpo descoberto desde as plantas frígidas
com um rosto renovado pelas rajadas de ar
com a face do silêncio em frente sobre o mar
a lâmina do silêncio branco dentro
o percurso da sombra fresca sobre o mar
numa varanda aberta ao espaço global
forma do vento figura feita de ar
silêncio que retorna sob o frio
corpo descoberto desde as plantas frígidas
com um rosto renovado pelas rajadas de ar
com a face do silêncio em frente sobre o mar
1 055
António Ramos Rosa
Nem Antes Como Depois No Escuro Silêncio
Nem antes como depois no escuro silêncio
do sol no estrépito da espuma
do dia branco
no incessante intervalo entre mar e mar
um arranque de água em todo o corpo aceso
um abrir os poros a todo o sol do ar
e cada vez mais até à lâmina da água
o frígido murmúrio da ferida junto à boca
o rasgar das pernas na delícia do gelo
a pedra do mar e os lábios delirantes
no ar do sol do mar
do sol no estrépito da espuma
do dia branco
no incessante intervalo entre mar e mar
um arranque de água em todo o corpo aceso
um abrir os poros a todo o sol do ar
e cada vez mais até à lâmina da água
o frígido murmúrio da ferida junto à boca
o rasgar das pernas na delícia do gelo
a pedra do mar e os lábios delirantes
no ar do sol do mar
1 009
António Ramos Rosa
Ferozmente Nulo Humilde Árido
Ferozmente nulo humilde árido
percorro este intervalo de assombro nu
entre ar e ar
no repouso vibrante de um andar na margem
do centro verde da água do silêncio
antes do depois no ainda já
presente em todo o corpo gelado de ar
no chão mais alto e luminoso igual
num percurso indiferente às aranhas de dentro
no hálito inicial de uma boca de mar
percorro este intervalo de assombro nu
entre ar e ar
no repouso vibrante de um andar na margem
do centro verde da água do silêncio
antes do depois no ainda já
presente em todo o corpo gelado de ar
no chão mais alto e luminoso igual
num percurso indiferente às aranhas de dentro
no hálito inicial de uma boca de mar
979
Luís António Cajazeira Ramos
Poema Inédito
Canto de Sereia
A Propósito de Lágrima Súbita
Da face do prazer, surgiu a lágrima,
como se fora mágica o viver.
Do riso e da alegria, veio o pranto
— testemunha de um canto de poesia.
Mas hoje, tão sozinha e triste, a gota
singelamente solta, assim... caminha
por sobre o corpo nu, livre de obstáculo
— só dor! — sem sustentáculo nenhum...
Vem do mar uma brisa de carícia
que beija sem malícia a pele e criva
em sal a solidão deste mergulho...
No solitário pulo, uma fusão
de lágrimas do rio com o vasto mar,
num encontro invulgar de dor e cio...
A Propósito de Lágrima Súbita
Da face do prazer, surgiu a lágrima,
como se fora mágica o viver.
Do riso e da alegria, veio o pranto
— testemunha de um canto de poesia.
Mas hoje, tão sozinha e triste, a gota
singelamente solta, assim... caminha
por sobre o corpo nu, livre de obstáculo
— só dor! — sem sustentáculo nenhum...
Vem do mar uma brisa de carícia
que beija sem malícia a pele e criva
em sal a solidão deste mergulho...
No solitário pulo, uma fusão
de lágrimas do rio com o vasto mar,
num encontro invulgar de dor e cio...
837
Lúcia Maria Leite Sousa
O Arco-íris da Terra
Como um arco-íris de enrgia e cor
um imenso facho de luz surgiu
e da imensidão dos raios,
nasceu o azul cristalino do céu...
que nos encanta e presenteia
com a suave pureza do luar...
que apaixona e enlouquece os enamorados.
Eu vi o mar...
que nasceu verde...ou azul...
como um arco-íris...vultoso,
inundando de emoção o nosso olhar.
Eu senti o melodioso sussurrar do vento
nas folhar verdes das árvores...
como um arco-íris...
num vôo de esperança,
no verde-esperança da vida.
Eu vi a cinza semente borbulhar
no seio da terra...num sublime renascer.
Eu vi no céu
o encontro do sol e da lua,
num maravilhoso entardecer,
de cores vermelhas e incandescentes...
como um arco-íris...
e os pássaros a entoar melodias,
enriquecendo a grandiosa coreografia.
Mas no dia-a-dia da vida,
eu vi o facho de luz se apagar
e na imensidão do céu
um buraco negro predominar.
E as nuvens de gases,
eu vi o arco-íris encobrir,
e o azul do céu sombrear,
e o verde do mar escurecer,
e o amarelo das folhas entristecer,
e o verde das árvores esvair,
e toda terra gritar...não me deixai morrer!
Quero ser com um arco-íris,
e resplandecer luz e cor
até o infinito...eternamente!
13.07.92, Maceió/AL
um imenso facho de luz surgiu
e da imensidão dos raios,
nasceu o azul cristalino do céu...
que nos encanta e presenteia
com a suave pureza do luar...
que apaixona e enlouquece os enamorados.
Eu vi o mar...
que nasceu verde...ou azul...
como um arco-íris...vultoso,
inundando de emoção o nosso olhar.
Eu senti o melodioso sussurrar do vento
nas folhar verdes das árvores...
como um arco-íris...
num vôo de esperança,
no verde-esperança da vida.
Eu vi a cinza semente borbulhar
no seio da terra...num sublime renascer.
Eu vi no céu
o encontro do sol e da lua,
num maravilhoso entardecer,
de cores vermelhas e incandescentes...
como um arco-íris...
e os pássaros a entoar melodias,
enriquecendo a grandiosa coreografia.
Mas no dia-a-dia da vida,
eu vi o facho de luz se apagar
e na imensidão do céu
um buraco negro predominar.
E as nuvens de gases,
eu vi o arco-íris encobrir,
e o azul do céu sombrear,
e o verde do mar escurecer,
e o amarelo das folhas entristecer,
e o verde das árvores esvair,
e toda terra gritar...não me deixai morrer!
Quero ser com um arco-íris,
e resplandecer luz e cor
até o infinito...eternamente!
13.07.92, Maceió/AL
938
Mário Donizete Massari
Cais
O cais é o fim
e o início
chegada e ponto de partida.
Abraça as ondas,
recolhe navios
e retém vez ou outra
pedaços de vida
(uma saudade que fica)
Hoje o mar está calmo
E o cais medita
(penso na vida)
refaço os erros
do dia a dia.
Náufrago das horas
sou como o cais,
da eterna reconstrução
da vida.
Um bem estar me habita.
Sou no cais um
porto seguro
e me sinto forte e íntegro.
e o início
chegada e ponto de partida.
Abraça as ondas,
recolhe navios
e retém vez ou outra
pedaços de vida
(uma saudade que fica)
Hoje o mar está calmo
E o cais medita
(penso na vida)
refaço os erros
do dia a dia.
Náufrago das horas
sou como o cais,
da eterna reconstrução
da vida.
Um bem estar me habita.
Sou no cais um
porto seguro
e me sinto forte e íntegro.
935
Luís António Cajazeira Ramos
Angústia Precipícia
Como posso estar só, se estou sempre comigo?
Minha ausência é a presença que tanto persigo.
Quero estar só, sem mim, pra não ter um motivo
pra tentar escapar do desgosto em que vivo.
Tenho lágrimas metafísicas — eu sei
que há muito que não choro, desde que gostei,
há pouco, quando alguém me disse que não vem
mais agora, e agora eu não quero mais ninguém.
Queria a solidão mais rústica e absorta,
como um coral num mar sem onda que o revolva
— e eu, sem jeito, sem fim, consumindo a revolta...
Revolta que é de mim, de estar preso a mim mesmo,
como um coral num mar sem fim — e eu, sem desejo,
sem revolta, sem nada que me traga apego.
Minha ausência é a presença que tanto persigo.
Quero estar só, sem mim, pra não ter um motivo
pra tentar escapar do desgosto em que vivo.
Tenho lágrimas metafísicas — eu sei
que há muito que não choro, desde que gostei,
há pouco, quando alguém me disse que não vem
mais agora, e agora eu não quero mais ninguém.
Queria a solidão mais rústica e absorta,
como um coral num mar sem onda que o revolva
— e eu, sem jeito, sem fim, consumindo a revolta...
Revolta que é de mim, de estar preso a mim mesmo,
como um coral num mar sem fim — e eu, sem desejo,
sem revolta, sem nada que me traga apego.
929
Mário Donizete Massari
Mar
As ondas fogem
e chegam à praia,
mas inconstantes que são,
regressam logo
para o refúgio das
águas.
e chegam à praia,
mas inconstantes que são,
regressam logo
para o refúgio das
águas.
532
António Ramos Rosa
Um Avanço No Silêncio Como Um Sopro
Um avanço no silêncio como um sopro
frígido da avidez do ar
um caminhar no horizonte do mar
um corpo com novos lábios dentes frescos
a inocência de um silêncio de água
o olhar ao nível só do ar
a língua saboreando o sol e o ar
um fulgor ávido entre o corpo e o espaço
frígido da avidez do ar
um caminhar no horizonte do mar
um corpo com novos lábios dentes frescos
a inocência de um silêncio de água
o olhar ao nível só do ar
a língua saboreando o sol e o ar
um fulgor ávido entre o corpo e o espaço
1 025
Luiz Nogueira Barros
Do Lírio e da Estrela
De certezas foi a ponte construída.
E a estação, de aromas benfazejos,
fazia antesonhar a flor
nutrida do silêncio da procura.
Calmo rio, teu profundo olhar
ainda refletia lembranças delicadas
dos verdes vales dos caminhos que,
arriscando paisagens proseguiste,
trazendo em teu ventre o intocado
lírio para a festa das fronteiras
da madrugada consumida em chamas.
E quando despertamos era noite ainda:
e o lírio feito estrela já brilhava
- incorporado ao céu das nossas vidas.
E a estação, de aromas benfazejos,
fazia antesonhar a flor
nutrida do silêncio da procura.
Calmo rio, teu profundo olhar
ainda refletia lembranças delicadas
dos verdes vales dos caminhos que,
arriscando paisagens proseguiste,
trazendo em teu ventre o intocado
lírio para a festa das fronteiras
da madrugada consumida em chamas.
E quando despertamos era noite ainda:
e o lírio feito estrela já brilhava
- incorporado ao céu das nossas vidas.
875