Poemas neste tema
Mar, Rios e Oceanos
Pablo Neruda
III. A Nave
A nave é a rosa mais dura do mundo: floresce no sol
tempestuoso
e se abre no mar a corola de seus imponentes pistilos.
Assobiante é o vento nas pétalas,
a onda levanta a rosa nas torres da água
e o homem resolve o caminho fechado, cortando a grande esmeralda.
Minha pátria chamou o marinheiro: Olhai-o na proa do século!
Se o tempo não quis mover-se nos velhos relógios cansados
ele faz do tempo uma nave e dirige este século ao oceano,
ao amplo e sonoro Pacífico, semeado pelos arquipélagos,
onde uma espada de pedra delgada suspensa das cordilheiras
espera as mãos de Cochrane para combater as trevas.
Minha pátria é a espada de pedra das cordilheiras andinas.
Minha pátria é o mar oprimido que espera por Tomás Marinheiro.
tempestuoso
e se abre no mar a corola de seus imponentes pistilos.
Assobiante é o vento nas pétalas,
a onda levanta a rosa nas torres da água
e o homem resolve o caminho fechado, cortando a grande esmeralda.
Minha pátria chamou o marinheiro: Olhai-o na proa do século!
Se o tempo não quis mover-se nos velhos relógios cansados
ele faz do tempo uma nave e dirige este século ao oceano,
ao amplo e sonoro Pacífico, semeado pelos arquipélagos,
onde uma espada de pedra delgada suspensa das cordilheiras
espera as mãos de Cochrane para combater as trevas.
Minha pátria é a espada de pedra das cordilheiras andinas.
Minha pátria é o mar oprimido que espera por Tomás Marinheiro.
1 080
Pablo Neruda
Artigas
I.
Artigas crescia entre os matagais e foi tempestuoso seu passo
porque nas pradarias crescendo o galope de pedra ou sino
chegou a sacudir a inclemência do páramo como repetida centelha,
chegou a acumular a cor celestial estendendo os cascos sonoros
até que nasceu uma bandeira empapada no uruguaio orvalho.
II.
Uruguai, Uruguai, uruguaiam os cantos do rio uruguaio,
as aves turpiales17, a rola de voz malferida, a torre do trovão uruguaio
proclamam o grito celeste que diz Uruguai no vento
e se a cascata redobra e repete o galope dos cavaleiros amargos
que para a fronteira recolhem os últimos grãos de sua vitoriosa derrota
se estende o uníssono nome do pássaro puro,
a luz de violino que batiza a pátria violenta.
III.
Oh, Artigas, soldado do campo crescente, quando para toda a tropa bastava
teu poncho estrelado por constelações que tu conhecias,
até que o sangue corrompe e redime a aurora, e acordam teus homens
marchando atormentados pelas poeirentas ramagens do dia.
Oh pai constante do itinerário, caudilho do rumo, centauro da poeirada!
IV.
Passaram-se os dias de um século e se seguiram as horas atrás de teu exílio,
atrás da selva enredada por mil teias de aranha de ferro,
atrás do silêncio em que só caíam os frutos podres sobre os pântanos,
as folhas, a chuva desencadeada, a música do urutau,
os passos descalços dos paraguaios entrando e saindo no sol da sombra,
a trança do látego, os cepos, os corpos roídos por
escaravelhos:
um grave ferrolho se impôs apartando a cor da selva
e o arroxeado crepúsculo fechava com seus cinturões
os olhos de Artigas que buscam em sua desventura a luz uruguaia.
V.
“Amargo trabalho o exílio” escreveu aquele irmão de minha alma
e assim o entretanto da América caiu como pálpebra escura
sobre o olhar de Artigas, ginete do calafrio,
oprimido no imóvel olhar de vidro de um déspota, em um reino vazio.
VI.
Tua América tremia com penitenciais dores:
Oribes, Alveares, Carreras, nus corriam para o sacrifício;
morriam, nasciam, caíam; os olhos do cego matavam; a voz dos mudos
falava. Os mortos, por fim encontraram partido,
por fim conheceram seu bando patrício na morte.
E todos aqueles sangrentos souberam que pertenciam
à mesma fila: a terra não tem adversários.
VII.
Uruguai é palavra de pássaro, ou idioma da água,
é sílaba de uma cascata, é tormento de cristalaria,
Uruguai é a voz das frutas na primavera fragrante,
é um beijo fluvial dos bosques e a máscara azul do Atlântico.
Uruguai é a roupa estendida no ouro de um dia de vento,
é o pão na mesa da América, a pureza do pão na mesa.
VIII.
E se Pablo Neruda, o cronista de todas as coisas te devia, Uruguai, este canto,
este canto, este conto, esta migalha de espiga, este Artigas,
não faltei a meus deveres nem aceitei os escrúpulos do intransigente:
esperei uma hora quieta, espreitei uma hora inquieta, recolhi os herbários do rio,
submergi minha cabeça em tua areia e na prata dos
peixes-reis,
na clara amizade de teus filhos, em teus desmantelados mercados
acender-me-ei até sentir-me devedor de teu olor e de teu amor.
E talvez está escrito o rumor que teu amor e teu olor me outorgaram
nestas palavras escuras, que deixo em memória de teu capitão luminoso.
Artigas crescia entre os matagais e foi tempestuoso seu passo
porque nas pradarias crescendo o galope de pedra ou sino
chegou a sacudir a inclemência do páramo como repetida centelha,
chegou a acumular a cor celestial estendendo os cascos sonoros
até que nasceu uma bandeira empapada no uruguaio orvalho.
II.
Uruguai, Uruguai, uruguaiam os cantos do rio uruguaio,
as aves turpiales17, a rola de voz malferida, a torre do trovão uruguaio
proclamam o grito celeste que diz Uruguai no vento
e se a cascata redobra e repete o galope dos cavaleiros amargos
que para a fronteira recolhem os últimos grãos de sua vitoriosa derrota
se estende o uníssono nome do pássaro puro,
a luz de violino que batiza a pátria violenta.
III.
Oh, Artigas, soldado do campo crescente, quando para toda a tropa bastava
teu poncho estrelado por constelações que tu conhecias,
até que o sangue corrompe e redime a aurora, e acordam teus homens
marchando atormentados pelas poeirentas ramagens do dia.
Oh pai constante do itinerário, caudilho do rumo, centauro da poeirada!
IV.
Passaram-se os dias de um século e se seguiram as horas atrás de teu exílio,
atrás da selva enredada por mil teias de aranha de ferro,
atrás do silêncio em que só caíam os frutos podres sobre os pântanos,
as folhas, a chuva desencadeada, a música do urutau,
os passos descalços dos paraguaios entrando e saindo no sol da sombra,
a trança do látego, os cepos, os corpos roídos por
escaravelhos:
um grave ferrolho se impôs apartando a cor da selva
e o arroxeado crepúsculo fechava com seus cinturões
os olhos de Artigas que buscam em sua desventura a luz uruguaia.
V.
“Amargo trabalho o exílio” escreveu aquele irmão de minha alma
e assim o entretanto da América caiu como pálpebra escura
sobre o olhar de Artigas, ginete do calafrio,
oprimido no imóvel olhar de vidro de um déspota, em um reino vazio.
VI.
Tua América tremia com penitenciais dores:
Oribes, Alveares, Carreras, nus corriam para o sacrifício;
morriam, nasciam, caíam; os olhos do cego matavam; a voz dos mudos
falava. Os mortos, por fim encontraram partido,
por fim conheceram seu bando patrício na morte.
E todos aqueles sangrentos souberam que pertenciam
à mesma fila: a terra não tem adversários.
VII.
Uruguai é palavra de pássaro, ou idioma da água,
é sílaba de uma cascata, é tormento de cristalaria,
Uruguai é a voz das frutas na primavera fragrante,
é um beijo fluvial dos bosques e a máscara azul do Atlântico.
Uruguai é a roupa estendida no ouro de um dia de vento,
é o pão na mesa da América, a pureza do pão na mesa.
VIII.
E se Pablo Neruda, o cronista de todas as coisas te devia, Uruguai, este canto,
este canto, este conto, esta migalha de espiga, este Artigas,
não faltei a meus deveres nem aceitei os escrúpulos do intransigente:
esperei uma hora quieta, espreitei uma hora inquieta, recolhi os herbários do rio,
submergi minha cabeça em tua areia e na prata dos
peixes-reis,
na clara amizade de teus filhos, em teus desmantelados mercados
acender-me-ei até sentir-me devedor de teu olor e de teu amor.
E talvez está escrito o rumor que teu amor e teu olor me outorgaram
nestas palavras escuras, que deixo em memória de teu capitão luminoso.
1 114
Pablo Neruda
Santos Revisitado
I.
SANTOS: É no Brasil, e faz já quatro vezes dez anos.
Alguém a meu lado conversa “Pelé é um super-homem”,
“Não sou um aficionado, mas na televisão eu gosto”.
Antes era selvático este porto e cheirava
como uma axila do Brasil caloroso.
“Caio de Santa Marta.” É um barco, e é outro, mil barcos!
Agora os frigoríficos estabelecerem catedrais
de belo cinza, e parecem
jogos de dados de deuses os brancos edifícios.
O café e o suor cresceram até criar as proas,
o pavimento, as habitações retilíneas:
quantos grãos de café, quantas gotas salobres
de suor? Talvez o mar
se encheria, mas a terra não, nunca a terra, nunca satisfeita,
faminta sempre de café, sedenta
de suor negro! Terra maldita, espero
que arrebentes um dia, de alimentos, de sacos mastigados
e de eterno suor de homens que já morreram
e foram substituídos para continuar suando.
II.
Aquele Santos de um dia de Junho, de quarenta anos menos,
volta a mim com um triste olor de tempo e bananeira,
com um cheiro de banana podre, esterco de ouro,
e uma raivosa chuva quente sob o sol.
Os trópicos me pareciam enfermidades do mundo,
feridas pululantes da terra. Adeus
noções: Aprendi o calor
como se aprendem as lágrimas, com sobressalto:
aprendi os meses da Monção e a insensata
fragrância da manga de Mandalay (penetrante
como flecha veloz de marfim e face),
e respeitei os templos sujos de meus semelhantes,
escuros como eu mesmo, idólatras como todos os homens.
III.
Quanto tu fazemos, quando eu fazemos a viagem do amor,
amor, Matilde, o mar ou tua boca redonda
são, somos a hora que despreendeu o então,
e cada dia corre buscando aniversário.
IV.
Santos, oh desonra do olvido, oh paciência
do tempo, que não só passou
mas que trouxe barcos brancos, verdes, sutis
e o tremor florestal se fez ferruginoso.
V.
Compreendo que escutei a esfera pondo o ouvido em um ponto
e às vezes ouço só um rumor de marés ou abelhas:
perdão se não pude e a tempo escutar essa locomotiva
ou o estrondo espacial da nave que estala em seu ovo de aço
e que sobe silvando entre constelações e temperaturas,
perdoem algum dia se não vi o crescimento dos edifícios
porque estava olhando crescer uma árvore, perdão.
Tratarei de cumprir com aquelas cidades que fugiram de minha alma
e se armaram de duras paredes, elevadores altivos,
deixando-me fora na chuva, olvidado nos anos ausentes,
agora que volto de então tiro o chapéu, e rio
saudando este grande esplendor sem desejo nem inveja:
sentindo-me vivo como uma laranja cortada conserva em sua metade de ouro o intacto vestido de ontem
e no outro hemisfério respeita o cimento crescente.
SANTOS: É no Brasil, e faz já quatro vezes dez anos.
Alguém a meu lado conversa “Pelé é um super-homem”,
“Não sou um aficionado, mas na televisão eu gosto”.
Antes era selvático este porto e cheirava
como uma axila do Brasil caloroso.
“Caio de Santa Marta.” É um barco, e é outro, mil barcos!
Agora os frigoríficos estabelecerem catedrais
de belo cinza, e parecem
jogos de dados de deuses os brancos edifícios.
O café e o suor cresceram até criar as proas,
o pavimento, as habitações retilíneas:
quantos grãos de café, quantas gotas salobres
de suor? Talvez o mar
se encheria, mas a terra não, nunca a terra, nunca satisfeita,
faminta sempre de café, sedenta
de suor negro! Terra maldita, espero
que arrebentes um dia, de alimentos, de sacos mastigados
e de eterno suor de homens que já morreram
e foram substituídos para continuar suando.
II.
Aquele Santos de um dia de Junho, de quarenta anos menos,
volta a mim com um triste olor de tempo e bananeira,
com um cheiro de banana podre, esterco de ouro,
e uma raivosa chuva quente sob o sol.
Os trópicos me pareciam enfermidades do mundo,
feridas pululantes da terra. Adeus
noções: Aprendi o calor
como se aprendem as lágrimas, com sobressalto:
aprendi os meses da Monção e a insensata
fragrância da manga de Mandalay (penetrante
como flecha veloz de marfim e face),
e respeitei os templos sujos de meus semelhantes,
escuros como eu mesmo, idólatras como todos os homens.
III.
Quanto tu fazemos, quando eu fazemos a viagem do amor,
amor, Matilde, o mar ou tua boca redonda
são, somos a hora que despreendeu o então,
e cada dia corre buscando aniversário.
IV.
Santos, oh desonra do olvido, oh paciência
do tempo, que não só passou
mas que trouxe barcos brancos, verdes, sutis
e o tremor florestal se fez ferruginoso.
V.
Compreendo que escutei a esfera pondo o ouvido em um ponto
e às vezes ouço só um rumor de marés ou abelhas:
perdão se não pude e a tempo escutar essa locomotiva
ou o estrondo espacial da nave que estala em seu ovo de aço
e que sobe silvando entre constelações e temperaturas,
perdoem algum dia se não vi o crescimento dos edifícios
porque estava olhando crescer uma árvore, perdão.
Tratarei de cumprir com aquelas cidades que fugiram de minha alma
e se armaram de duras paredes, elevadores altivos,
deixando-me fora na chuva, olvidado nos anos ausentes,
agora que volto de então tiro o chapéu, e rio
saudando este grande esplendor sem desejo nem inveja:
sentindo-me vivo como uma laranja cortada conserva em sua metade de ouro o intacto vestido de ontem
e no outro hemisfério respeita o cimento crescente.
849
Pablo Neruda
O Lago
(Fala o lago Rupanco
toda a noite, só.
Toda a noite a mesma
linguagem rumorosa.
Para quê, para quem
fala
o lago?
Suave soa na sombra
como um salgueiro molhado.
Com que, com quem conversa
toda a noite o lago?
Talvez para si só.
O lago
conversa com o lago?
Seus lábios submergem,
se beijam sob a água,
suas sílabas sussurram,
falam.
Para quem? Para todos?
Para ti?
Para ninguém.
Recolho na ribeira,
pela manhã, flores
destroçadas.
Pétalas brancas de olmo,
aromas rechaçados
pelo vaivém da água.
Talvez foram coroas
de noivas afogadas.
Fala o lago, conversa
talvez com algo ou alguém.
Talvez com ninguém ou nada.
Talvez são de outro tempo
suas palavras
e ninguém entende agora
o idioma da água.
Algo quer dizer
a insistência sagrada
do lago, de sua voz
que se aproxima e apaga.
Fala o lago Rupanco
toda a noite.
Escutas?
Parece chamando
os que já não podem
falar, ouvir, voltar,
talvez a ninguém,
a nada.)
toda a noite, só.
Toda a noite a mesma
linguagem rumorosa.
Para quê, para quem
fala
o lago?
Suave soa na sombra
como um salgueiro molhado.
Com que, com quem conversa
toda a noite o lago?
Talvez para si só.
O lago
conversa com o lago?
Seus lábios submergem,
se beijam sob a água,
suas sílabas sussurram,
falam.
Para quem? Para todos?
Para ti?
Para ninguém.
Recolho na ribeira,
pela manhã, flores
destroçadas.
Pétalas brancas de olmo,
aromas rechaçados
pelo vaivém da água.
Talvez foram coroas
de noivas afogadas.
Fala o lago, conversa
talvez com algo ou alguém.
Talvez com ninguém ou nada.
Talvez são de outro tempo
suas palavras
e ninguém entende agora
o idioma da água.
Algo quer dizer
a insistência sagrada
do lago, de sua voz
que se aproxima e apaga.
Fala o lago Rupanco
toda a noite.
Escutas?
Parece chamando
os que já não podem
falar, ouvir, voltar,
talvez a ninguém,
a nada.)
1 136
Jorge Viegas
Navegando nas Emoções
Ao brilho
do luar
Abrem-se as campânulas de silencio
E o grito de alegria
Confunde-se com a magia das vagas quentes.
De súbito, o mar irrompe pelos sonhos
Transportando o olhar encantado
Da sereia bronzeada pela imensidão da noite.
Faz-se luz na enseada da vida
Os cânticos românticos
Vagueiam pelos recantos das grutas
Acordando aromas enfeitiçados
Acendem-se fogueiras de mitos
Aquecendo corações perdidos nas falésias do amor
E dança-se à volta da fronteira do desejo.
As estrelas iluminam a sensualidade dos actos
Inspira-se a pureza do universo
E na suavidade da corrente
Viajamos dentro da inocência dos sentidos
Reconstruindo sonhos antigos.
do luar
Abrem-se as campânulas de silencio
E o grito de alegria
Confunde-se com a magia das vagas quentes.
De súbito, o mar irrompe pelos sonhos
Transportando o olhar encantado
Da sereia bronzeada pela imensidão da noite.
Faz-se luz na enseada da vida
Os cânticos românticos
Vagueiam pelos recantos das grutas
Acordando aromas enfeitiçados
Acendem-se fogueiras de mitos
Aquecendo corações perdidos nas falésias do amor
E dança-se à volta da fronteira do desejo.
As estrelas iluminam a sensualidade dos actos
Inspira-se a pureza do universo
E na suavidade da corrente
Viajamos dentro da inocência dos sentidos
Reconstruindo sonhos antigos.
1 049
Jorge Viegas
Amanhã é Longe Demais
Fragmentos
sensíveis
Andam pelo tempo
Marcando o ritmo
Do voo das aves invisíveis
Doces melancolias
Desfazem-se pelos mistérios dos olhares
A beleza navega pelos sete mares
Diluída no brilho dos sonhos
Sombras de movimentos ancestrais
Dançam a beleza da luz imaculada
Por entre os astros do silêncio
Libertando transparências sentimentais.
Na baía das lendas
Abraçando a leveza dos espíritos
Gotas cristalinas de fontes eternas
Escorrem suavemente sonhadoras
Libertam o agora
Das profundezas do sonho da vida
E a sombra misteriosamente adormecida
Diz-nos que chegou a hora.
sensíveis
Andam pelo tempo
Marcando o ritmo
Do voo das aves invisíveis
Doces melancolias
Desfazem-se pelos mistérios dos olhares
A beleza navega pelos sete mares
Diluída no brilho dos sonhos
Sombras de movimentos ancestrais
Dançam a beleza da luz imaculada
Por entre os astros do silêncio
Libertando transparências sentimentais.
Na baía das lendas
Abraçando a leveza dos espíritos
Gotas cristalinas de fontes eternas
Escorrem suavemente sonhadoras
Libertam o agora
Das profundezas do sonho da vida
E a sombra misteriosamente adormecida
Diz-nos que chegou a hora.
1 322
Pablo Neruda
Manhã - X
Suave é a bela como se música e madeira,
ágata, telas, trigo, pêssegos transparentes,
tivessem erigido a fugitiva estátua.
Para a onda dirige seu contrário frescor.
O mar molha polidos pés copiados
à forma recém-trabalhada na areia
e é agora seu fogo feminino de rosa
uma borbulha só que o sol e o mar combatem.
Ai, que nada te toque senão o sal do frio!
Que nem o amor destrua a primavera intacta.
Formosa, revérbero da indelével espuma,
deixa que teus quadris imponham na água
uma medida nova de cisne ou de nenúfar
e navegue tua estátua pelo cristal eterno.
ágata, telas, trigo, pêssegos transparentes,
tivessem erigido a fugitiva estátua.
Para a onda dirige seu contrário frescor.
O mar molha polidos pés copiados
à forma recém-trabalhada na areia
e é agora seu fogo feminino de rosa
uma borbulha só que o sol e o mar combatem.
Ai, que nada te toque senão o sal do frio!
Que nem o amor destrua a primavera intacta.
Formosa, revérbero da indelével espuma,
deixa que teus quadris imponham na água
uma medida nova de cisne ou de nenúfar
e navegue tua estátua pelo cristal eterno.
931
Pablo Neruda
Pássaros
Oh delgada cascata de música silvestre!
Oh borbulha lavrada pela água na luz!
Oh som metálico do céu transparente!
Oh círculo do mundo convertido em pureza!
Hora de pés afundados no pastel do bosque,
velhas madeiras vítimas da umidade, ramagens
leprosas como estátuas de exploradores mortos,
e no alto se coroa a selva com estrelas
que na copa do olmo fabricam a fragrância!
Luz verde, genital, da selva! É estranho
cravar no papel estes signos: aqui
não cabe senão o musgo, a presença da árvore,
a inimizade do lago que ondula seu universo
e mais além dos bosques cheios de furacões
e mais além de todo este estupor fragrante
os vulcões armados por invencível neve.
Pobre do meu ser! Pobre minúsculo estrangeiro
chegado dos livros e das carrocerias,
sobrinho das cadeiras, irmão das camas,
pobre das colheres e dos garfos!
Pobre de mim, abandonado da natureza!
O pica-pau aproximou-se do meu caderno,
debulhou contra mim sua feroz gargalhada
e como pedra que caiu do céu
rompeu as vidraçarias do infinito.
Adeus
trem torrencial, relâmpago sonoro!
Acomodo o papel, persigo o tavão,
marcho para baixo afundando-me no tapete do musgo
e deixo para trás estas montanhas cristalinas.
Do lago Rupanco no centro a ilha Altuehuapi rodeada por água e silêncio
emerge como uma coroa fragrante e florida trançada pelos mirtos,
alçada por carvalhos, maitenes, caneleiras, colihues14, copihues15,
e pela folhagem das aveleiras cortadas por tesouradas celestes,
povoada pelas gigantescas peinetas16 hirsutas das araucárias,
enquanto as abelhas na multidão nupcial das flores do olmo
crepitam alando a luz encrespada da monarquia na selva
sobre colossais fetos que movem a esmeralda fria de seus leques.
Oh arrasado silêncio daquele continente chuvoso
sob cujos sinos de chuva nasceu a verdade de meu canto,
aqui no umbigo da água recupero o tesouro queimado
e volto a chorar e a cantar como a água nas pedras silvestres.
Oh chuva do lago Rupanco, por que me desdiz no mundo,
por que abandonei minha linhagem de tábuas apodrecidas pelo aguaceiro.
Agora caminho pisando as verdes insígnias do musgo
e em sonhos os escaravelhos pululam sob meu esqueleto.
Oh borbulha lavrada pela água na luz!
Oh som metálico do céu transparente!
Oh círculo do mundo convertido em pureza!
Hora de pés afundados no pastel do bosque,
velhas madeiras vítimas da umidade, ramagens
leprosas como estátuas de exploradores mortos,
e no alto se coroa a selva com estrelas
que na copa do olmo fabricam a fragrância!
Luz verde, genital, da selva! É estranho
cravar no papel estes signos: aqui
não cabe senão o musgo, a presença da árvore,
a inimizade do lago que ondula seu universo
e mais além dos bosques cheios de furacões
e mais além de todo este estupor fragrante
os vulcões armados por invencível neve.
Pobre do meu ser! Pobre minúsculo estrangeiro
chegado dos livros e das carrocerias,
sobrinho das cadeiras, irmão das camas,
pobre das colheres e dos garfos!
Pobre de mim, abandonado da natureza!
O pica-pau aproximou-se do meu caderno,
debulhou contra mim sua feroz gargalhada
e como pedra que caiu do céu
rompeu as vidraçarias do infinito.
Adeus
trem torrencial, relâmpago sonoro!
Acomodo o papel, persigo o tavão,
marcho para baixo afundando-me no tapete do musgo
e deixo para trás estas montanhas cristalinas.
Do lago Rupanco no centro a ilha Altuehuapi rodeada por água e silêncio
emerge como uma coroa fragrante e florida trançada pelos mirtos,
alçada por carvalhos, maitenes, caneleiras, colihues14, copihues15,
e pela folhagem das aveleiras cortadas por tesouradas celestes,
povoada pelas gigantescas peinetas16 hirsutas das araucárias,
enquanto as abelhas na multidão nupcial das flores do olmo
crepitam alando a luz encrespada da monarquia na selva
sobre colossais fetos que movem a esmeralda fria de seus leques.
Oh arrasado silêncio daquele continente chuvoso
sob cujos sinos de chuva nasceu a verdade de meu canto,
aqui no umbigo da água recupero o tesouro queimado
e volto a chorar e a cantar como a água nas pedras silvestres.
Oh chuva do lago Rupanco, por que me desdiz no mundo,
por que abandonei minha linhagem de tábuas apodrecidas pelo aguaceiro.
Agora caminho pisando as verdes insígnias do musgo
e em sonhos os escaravelhos pululam sob meu esqueleto.
1 275
Adélia Prado
Reza do Homem Demente
Senhor deus meu Jesus Cristo,
eu pecador poderoso,
todo-poderoso contemplo
o mistério de ondas marítimas
que chocam meu coração.
Esta noite foi legal,
joguei futebol na Rússia
e fiz conferência à toa
debaixo do viaduto.
As pessoas só olhavam,
ninguém falava miau,
só um velho me entendia.
Ele também não falava
mas discutimos com proveito.
Muito esquisito este sonho,
aliviante demais,
muito engraçado também.
Quero mudar de enfermeiro,
essezinho aí parado
é delicado demaisinho,
seo Luizinho, inho, inho.
Chega, gente, fecha a porta
que eu quero ficar sozinho.
eu pecador poderoso,
todo-poderoso contemplo
o mistério de ondas marítimas
que chocam meu coração.
Esta noite foi legal,
joguei futebol na Rússia
e fiz conferência à toa
debaixo do viaduto.
As pessoas só olhavam,
ninguém falava miau,
só um velho me entendia.
Ele também não falava
mas discutimos com proveito.
Muito esquisito este sonho,
aliviante demais,
muito engraçado também.
Quero mudar de enfermeiro,
essezinho aí parado
é delicado demaisinho,
seo Luizinho, inho, inho.
Chega, gente, fecha a porta
que eu quero ficar sozinho.
1 133
Pablo Neruda
3
Ah vastidão de pinhos, rumor de ondas quebrando,
lento jogo das luzes, campana solitária,
crepúsculo caindo em teus olhos, boneca,
caracol terrestre, em ti a terra canta!
Em ti os rios cantam e minha alma neles se perde
tal como tu desejas e para onde tu queres.
Marca meu caminho em teu arco de esperança e
soltarei em delírio uma revoada de flechas.
Em torno de mim vejo tua cintura de névoa
e teu silêncio acossa mias horas perseguidas,
e és com teus braços de pedra transparente onde os
meus beijos ancoram e a minha úmida ânsia aninha.
Ah tua voz misteriosa que o amor tinge e dobra
no entardecer ressonante e moribundo!
Assim em horas profundas sobre os campos tenho visto
dobrarem-se as espigas na boca do vento.
lento jogo das luzes, campana solitária,
crepúsculo caindo em teus olhos, boneca,
caracol terrestre, em ti a terra canta!
Em ti os rios cantam e minha alma neles se perde
tal como tu desejas e para onde tu queres.
Marca meu caminho em teu arco de esperança e
soltarei em delírio uma revoada de flechas.
Em torno de mim vejo tua cintura de névoa
e teu silêncio acossa mias horas perseguidas,
e és com teus braços de pedra transparente onde os
meus beijos ancoram e a minha úmida ânsia aninha.
Ah tua voz misteriosa que o amor tinge e dobra
no entardecer ressonante e moribundo!
Assim em horas profundas sobre os campos tenho visto
dobrarem-se as espigas na boca do vento.
1 230
Pablo Neruda
Os anos
Vai o tempo baixando talvez em meu corpo, em teu corpo, uma rosa,
e como um termômetro a idade da rosa desce à terra;
é lenta e delgada a linha de sua inexorável estreiteza
e na transparência do dia caminha a sede na taça
e se vai minorando a chama do vinho em teu corpo;
a rosa que esteve na altura de tua cabeleira
infundindo a pompa fragrante da primavera
pendeu transbordando os olhos com água de espadas e relâmpagos de água-marinha,
pôs no nariz um tremor de adeio de voo na sombra
e o rastro que deixa o aroma veloz do veado na selva
tudo foi percebido, caçado, queimado e perdido:
a rosa duplica os lábios curiosos e ansiosos do enamorado,
levanta os peitos compactos das açucenas
e cresce a dura donzela como um obelisco
até derramar-se em carícias molhadas pelo embelezamento
e baixa a rosa no filho matando a mãe
e volta a brilhar seu fulgor na altura do homem que nasce,
até que no trânsito cai do sexo a rosa
e cambaleia a idade na noite do frio
até que a terra recolhe teu corpo que já não floresce.
Não conto a paisagem, não diga o viajante que eu o examino,
não diga que vejo através de seu corpo de vidro a idade que sustenta ou demole seus passos,
eu sou o distante que leva em suas veias sua vida e a minha
e se participo de sua alma compartilho com ele o outono
e no movimento estrelado das estações floridas
resguardo a parte da primavera que lhe corresponde.
Foi minha obrigação transparente viver outras vidas,
morrer outras mortes e ressuscitar entre gente que não me conhece.
É esta a hora do mar circundante e pela janela compreendo
a água infinita que não me interessa. Sabei, companheiros,
que os pescadores de ouriços saíram e vejo sua mínima nave
tocar o penhasco de Ilha Negra distanciar-se bailando na espuma
enquanto sobe e desce na onda um aziago debate:
a proa cai de bruços e cede o vazio
até que outra vez se estabelece na espuma seu nenúfar negro.
Desceu mascarado ao silêncio o que era Rodríguez
e agora com roupa de esqualo chama-se sigilo e ondula
buscando colado à pedra o calado organismo
que pulsa entreaberto colado à sua mãe infinita
até que a faca separe a vida e a pedra
e o homem regressa levando em um saco o molusco
sangrento.
e como um termômetro a idade da rosa desce à terra;
é lenta e delgada a linha de sua inexorável estreiteza
e na transparência do dia caminha a sede na taça
e se vai minorando a chama do vinho em teu corpo;
a rosa que esteve na altura de tua cabeleira
infundindo a pompa fragrante da primavera
pendeu transbordando os olhos com água de espadas e relâmpagos de água-marinha,
pôs no nariz um tremor de adeio de voo na sombra
e o rastro que deixa o aroma veloz do veado na selva
tudo foi percebido, caçado, queimado e perdido:
a rosa duplica os lábios curiosos e ansiosos do enamorado,
levanta os peitos compactos das açucenas
e cresce a dura donzela como um obelisco
até derramar-se em carícias molhadas pelo embelezamento
e baixa a rosa no filho matando a mãe
e volta a brilhar seu fulgor na altura do homem que nasce,
até que no trânsito cai do sexo a rosa
e cambaleia a idade na noite do frio
até que a terra recolhe teu corpo que já não floresce.
Não conto a paisagem, não diga o viajante que eu o examino,
não diga que vejo através de seu corpo de vidro a idade que sustenta ou demole seus passos,
eu sou o distante que leva em suas veias sua vida e a minha
e se participo de sua alma compartilho com ele o outono
e no movimento estrelado das estações floridas
resguardo a parte da primavera que lhe corresponde.
Foi minha obrigação transparente viver outras vidas,
morrer outras mortes e ressuscitar entre gente que não me conhece.
É esta a hora do mar circundante e pela janela compreendo
a água infinita que não me interessa. Sabei, companheiros,
que os pescadores de ouriços saíram e vejo sua mínima nave
tocar o penhasco de Ilha Negra distanciar-se bailando na espuma
enquanto sobe e desce na onda um aziago debate:
a proa cai de bruços e cede o vazio
até que outra vez se estabelece na espuma seu nenúfar negro.
Desceu mascarado ao silêncio o que era Rodríguez
e agora com roupa de esqualo chama-se sigilo e ondula
buscando colado à pedra o calado organismo
que pulsa entreaberto colado à sua mãe infinita
até que a faca separe a vida e a pedra
e o homem regressa levando em um saco o molusco
sangrento.
1 091
Pablo Neruda
Os invulneráveis
Tua mão em meus lábios, a segurança do teu rosto,
o dia do mar na nave fechando um circuito
de grande distância atravessada por aves perdidas,
oh amor, amor meu, com que pagarei, pagaremos a espiga ditosa,
os ramos de glória secreta, o amor de teu beijo em meus beijos,
o tambor que anunciou ao inimigo minha longa vitória,
a calada homenagem do vinho na mesa e o pão merecido
pela honestidade de teus olhos e a utilidade de meu ofício indelével:
a quem pagaremos a felicidade, em que ninho de espinhos
esperam os filhos covardes da aleivosia,
em que esquina sem sombra e sem água os ratos peludos do ódio
esperam com baba e punhal a dívida que cobram ao mundo?
Guardamos tu e eu a florida mansão que a onda estremece
e no ar, na nave, na luz do conflito terrestre,
a firmeza de minha alma elevou sua estrelada estrutura
e tu defendeste a paz do racimo incitante.
Está claro, igual aos álveos da cordilheira que trepidam
abrindo caminho sem trégua e sem trégua cantando,
que não dispusemos mais de armas que aquelas que a água dispôs
na serenata que desce rompendo a rocha,
e puros na intransigência da catarata inocente
cobrimos de espuma e silêncio o covil venenoso
sem mais interesse que a aurora e o pão
sem mais interesse que teus olhos escuros abertos em
minha alma.
Oh doce, oh sombria, oh chuvosa e ensolarada paixão destes anos,
arqueado teu corpo de abelha em meus braços marinhos,
sentimos cair o desgosto do desmesurado, sem medo,
como uma laranja na taça do vinho de Outono.
É agora a hora e ontem é a hora e amanhã é a hora:
mostremos saindo ao mercado a felicidade implacável
e deixa-me ouvir que teus passos que trazem a cesta de pão e perdizes
sonham entreabrindo o espelho do tempo distante e presente
como se levasses em vez do canastro selvático
minha vida, tua vida, o loureiro com suas folhas agudas e o mel dos invulneráveis.
o dia do mar na nave fechando um circuito
de grande distância atravessada por aves perdidas,
oh amor, amor meu, com que pagarei, pagaremos a espiga ditosa,
os ramos de glória secreta, o amor de teu beijo em meus beijos,
o tambor que anunciou ao inimigo minha longa vitória,
a calada homenagem do vinho na mesa e o pão merecido
pela honestidade de teus olhos e a utilidade de meu ofício indelével:
a quem pagaremos a felicidade, em que ninho de espinhos
esperam os filhos covardes da aleivosia,
em que esquina sem sombra e sem água os ratos peludos do ódio
esperam com baba e punhal a dívida que cobram ao mundo?
Guardamos tu e eu a florida mansão que a onda estremece
e no ar, na nave, na luz do conflito terrestre,
a firmeza de minha alma elevou sua estrelada estrutura
e tu defendeste a paz do racimo incitante.
Está claro, igual aos álveos da cordilheira que trepidam
abrindo caminho sem trégua e sem trégua cantando,
que não dispusemos mais de armas que aquelas que a água dispôs
na serenata que desce rompendo a rocha,
e puros na intransigência da catarata inocente
cobrimos de espuma e silêncio o covil venenoso
sem mais interesse que a aurora e o pão
sem mais interesse que teus olhos escuros abertos em
minha alma.
Oh doce, oh sombria, oh chuvosa e ensolarada paixão destes anos,
arqueado teu corpo de abelha em meus braços marinhos,
sentimos cair o desgosto do desmesurado, sem medo,
como uma laranja na taça do vinho de Outono.
É agora a hora e ontem é a hora e amanhã é a hora:
mostremos saindo ao mercado a felicidade implacável
e deixa-me ouvir que teus passos que trazem a cesta de pão e perdizes
sonham entreabrindo o espelho do tempo distante e presente
como se levasses em vez do canastro selvático
minha vida, tua vida, o loureiro com suas folhas agudas e o mel dos invulneráveis.
1 022
Pablo Neruda
Integrações
Depois de tudo te amarei
como se fosse sempre antes
como se de tanto esperar
sem que te visse nem chegasses
estivesses eternamente
respirando perto de mim.
Perto de mim com teus hábitos,
teu colorido e tua guitarra
como estão juntos os países
nas lições escolares
e duas comarcas se confundem
e há um rio perto de um rio
e crescem juntos dois vulcões.
Perto de ti é perto de mim
e longe de tudo é tua ausência
e é cor de argila a lua
na noite do terremoto
quando no terror da terra
juntam-se todas as raízes
e ouve-se soar o silêncio
com a música do espanto.
O medo é também um caminho.
E entre suas pedras pavorosas
pode marchar com quatro pés
e quatro lábios, a ternura.
Porque sem sair do presente
que é um anel delicado
tocamos a areia de ontem
e no mar ensina o amor
um arrebatamento repetido.
como se fosse sempre antes
como se de tanto esperar
sem que te visse nem chegasses
estivesses eternamente
respirando perto de mim.
Perto de mim com teus hábitos,
teu colorido e tua guitarra
como estão juntos os países
nas lições escolares
e duas comarcas se confundem
e há um rio perto de um rio
e crescem juntos dois vulcões.
Perto de ti é perto de mim
e longe de tudo é tua ausência
e é cor de argila a lua
na noite do terremoto
quando no terror da terra
juntam-se todas as raízes
e ouve-se soar o silêncio
com a música do espanto.
O medo é também um caminho.
E entre suas pedras pavorosas
pode marchar com quatro pés
e quatro lábios, a ternura.
Porque sem sair do presente
que é um anel delicado
tocamos a areia de ontem
e no mar ensina o amor
um arrebatamento repetido.
1 955
Pablo Neruda
18
Aqui te amo.
Nos pinheiros escuros desenrola-se o vento.
Fosforesce a lua sobre as águas errantes.
Dias iguais andam se perseguindo.
Descinge-se a névoa em figuras dançantes.
Uma gaivota de prata descola-se do ocaso.
Às vezes uma vela. Altas, altas estrelas.
Ou a cruz negra de um barco.
Sozinho.
Às vezes amanheço, e até minha alma está úmida.
Soa, ressoa o mar distante.
Isto é um porto.
Aqui te amo.
Aqui te amo e em vão te oculta o horizonte.
Sigo te amando entre estas coisas frias.
Às vezes meus beijos seguem nesses navios,
que correm o mar até onde não chegam.
Já me vejo esquecido como estas velhas âncoras.
As docas são mais tristes quando atraca a tarde.
Minha vida se cansa inutilmente faminta.
Amo o que não tenho. Tu estás tão distante.
Meu fastio luta contra os lentos crepúsculos.
Mas a noite vem e começa a cantar pra mim.
A lua faz girar sua rodada de sonho.
Olham-me com teus olhos as maiores estrelas.
E como eu te amo, os pinheiros, ao vento,
querem cantar teu nome com suas folhas de flandres.
Nos pinheiros escuros desenrola-se o vento.
Fosforesce a lua sobre as águas errantes.
Dias iguais andam se perseguindo.
Descinge-se a névoa em figuras dançantes.
Uma gaivota de prata descola-se do ocaso.
Às vezes uma vela. Altas, altas estrelas.
Ou a cruz negra de um barco.
Sozinho.
Às vezes amanheço, e até minha alma está úmida.
Soa, ressoa o mar distante.
Isto é um porto.
Aqui te amo.
Aqui te amo e em vão te oculta o horizonte.
Sigo te amando entre estas coisas frias.
Às vezes meus beijos seguem nesses navios,
que correm o mar até onde não chegam.
Já me vejo esquecido como estas velhas âncoras.
As docas são mais tristes quando atraca a tarde.
Minha vida se cansa inutilmente faminta.
Amo o que não tenho. Tu estás tão distante.
Meu fastio luta contra os lentos crepúsculos.
Mas a noite vem e começa a cantar pra mim.
A lua faz girar sua rodada de sonho.
Olham-me com teus olhos as maiores estrelas.
E como eu te amo, os pinheiros, ao vento,
querem cantar teu nome com suas folhas de flandres.
1 134
Pablo Neruda
Regresso
Ontem regressamos cortando o caminho da água, do ar e a neve
e ao aterrissar na palma, na mão do Chile,
vagamente inquietos da permanência em confins distantes,
abrumadamente adormecidos ainda no sonho do voo
sem tocar apenas nem reconhecendo a terra temível e amada,
veio a bondade com seu traje cinza e a imóvel grandeza que ninguém conhece
e tive à minha vista a estrela que te reconhece
e assim com valises que apenas tocavam os dedos dos aduaneiros,
rodeados por três automóveis de amigos amados,
entrei com Matilde na sala dos candelabros do mundo,
em minha pátria pequena que acende suas velas vulcânicas
entre o esplendor das neves intactas e o coro da água marinha.
Oh pátria, ao beijar tua cintura de vespa vulcânica,
ao erguer o olhar a teus cerros de pálpebras negras
e descer a beijar na areia do mar a andrajosa formosura
de teus pés maltratados que sobem e descem pelas
cordilheiras,
recebi de repente o cheiro da costa marinha
e quanta dor iracunda esmagou meus pequenos irmãos,
misérias que matam com mãos mais duras que os terremotos,
injustiça vertendo o sal na ferida, queimando a pedra da alma,
tudo isso voou desprendido na rajada do mar majestoso,
do único oceano, da rosa gigante que se abre e se fecha na orla
perfumando tua hirsuta beleza com seus movimentos azuis.
Aqui está o estilo, sem dúvida, vejamos, salta! Suponho,
coração de papel, que minha nave cruzaste bailando à moda,
à moda de andar, à moda de ver, e é verdade que olhamos
com os olhos cambiantes e abrimos a porta com chaves futuras,
mas aqui entre o matagal sacudido e a insólita névoa de Janeiro
chamuscada a relva, sedenta a lua, sem sol e sem ninguém a areia,
e o vaivém da onda que cava sua tumba infinita
e o cheiro extenso de sal soberano que se desenrola
como um episódio do frio, cantando com trovões,
aqui, onde encontro, pergunto, o conselho?
E é claro o leio na rajada, no rastro da ave queltehue7,
na rouca advertência do mar, na noite que conta e que soma,
e nas cicatrizes abertas dos rochedos
pelas quebraduras do gelo de antigas catástrofes.
A borrasca que acende a espuma coroando o zênite do marulho
me ensinou a limpar as escuras ferramentas de meu desvario,
me ensinou a estender e secar no vento a linhagem da minha profecia,
e nestas rugas de pedra, na rocha quebrada pela eternidade movediça,
achei um ninho recente de barro e de palha fragrante
como os ovos do mar e as asas da travessia.
De modo que um beijo sem nome com lábios de terra
ou um nome com lábios de sombra marinha ou mel da costa selvagem
ou os surdos sussurros que indicam ao mês de Setembro
que a primavera enterrada começa a arranhar com suas unhas o féretro
ou melhor o chuvoso chamado de um menino que tem meu rosto
e que encontro nas dunas, perdido, e que não reconheço,
tudo isto, agregando o barril das más ações que voltam e assustam,
ou o ramo de nardos inúteis que talvez apodreceu em uma porta
sem que aquela à que foi destinado tocasse ou beijasse seu aroma,
tudo isto é o livro, o manual de minha sabedoria;
e não posso aprender outras coisas porque chego da desventura
e já descarreguei tantos sacos da cor amaranto na chuva
que só me fica uma hora para fazer-me feliz; é cedo,
é cedo e é tarde, é cedo: amanhece com lua
e no sol da noite recolho as melhores espigas do céu.
e ao aterrissar na palma, na mão do Chile,
vagamente inquietos da permanência em confins distantes,
abrumadamente adormecidos ainda no sonho do voo
sem tocar apenas nem reconhecendo a terra temível e amada,
veio a bondade com seu traje cinza e a imóvel grandeza que ninguém conhece
e tive à minha vista a estrela que te reconhece
e assim com valises que apenas tocavam os dedos dos aduaneiros,
rodeados por três automóveis de amigos amados,
entrei com Matilde na sala dos candelabros do mundo,
em minha pátria pequena que acende suas velas vulcânicas
entre o esplendor das neves intactas e o coro da água marinha.
Oh pátria, ao beijar tua cintura de vespa vulcânica,
ao erguer o olhar a teus cerros de pálpebras negras
e descer a beijar na areia do mar a andrajosa formosura
de teus pés maltratados que sobem e descem pelas
cordilheiras,
recebi de repente o cheiro da costa marinha
e quanta dor iracunda esmagou meus pequenos irmãos,
misérias que matam com mãos mais duras que os terremotos,
injustiça vertendo o sal na ferida, queimando a pedra da alma,
tudo isso voou desprendido na rajada do mar majestoso,
do único oceano, da rosa gigante que se abre e se fecha na orla
perfumando tua hirsuta beleza com seus movimentos azuis.
Aqui está o estilo, sem dúvida, vejamos, salta! Suponho,
coração de papel, que minha nave cruzaste bailando à moda,
à moda de andar, à moda de ver, e é verdade que olhamos
com os olhos cambiantes e abrimos a porta com chaves futuras,
mas aqui entre o matagal sacudido e a insólita névoa de Janeiro
chamuscada a relva, sedenta a lua, sem sol e sem ninguém a areia,
e o vaivém da onda que cava sua tumba infinita
e o cheiro extenso de sal soberano que se desenrola
como um episódio do frio, cantando com trovões,
aqui, onde encontro, pergunto, o conselho?
E é claro o leio na rajada, no rastro da ave queltehue7,
na rouca advertência do mar, na noite que conta e que soma,
e nas cicatrizes abertas dos rochedos
pelas quebraduras do gelo de antigas catástrofes.
A borrasca que acende a espuma coroando o zênite do marulho
me ensinou a limpar as escuras ferramentas de meu desvario,
me ensinou a estender e secar no vento a linhagem da minha profecia,
e nestas rugas de pedra, na rocha quebrada pela eternidade movediça,
achei um ninho recente de barro e de palha fragrante
como os ovos do mar e as asas da travessia.
De modo que um beijo sem nome com lábios de terra
ou um nome com lábios de sombra marinha ou mel da costa selvagem
ou os surdos sussurros que indicam ao mês de Setembro
que a primavera enterrada começa a arranhar com suas unhas o féretro
ou melhor o chuvoso chamado de um menino que tem meu rosto
e que encontro nas dunas, perdido, e que não reconheço,
tudo isto, agregando o barril das más ações que voltam e assustam,
ou o ramo de nardos inúteis que talvez apodreceu em uma porta
sem que aquela à que foi destinado tocasse ou beijasse seu aroma,
tudo isto é o livro, o manual de minha sabedoria;
e não posso aprender outras coisas porque chego da desventura
e já descarreguei tantos sacos da cor amaranto na chuva
que só me fica uma hora para fazer-me feliz; é cedo,
é cedo e é tarde, é cedo: amanhece com lua
e no sol da noite recolho as melhores espigas do céu.
1 191
Jorge Viegas
Silenciosa Felicidade
Acordam
as sombras floridas
Flutuando alegremente
Pela intensidade do intimo desejo.
Brincam os sentidos
Seguindo o voo colorido das aves
E ouvindo o murmúrio azul dos riachos.
Dançam pensamentos cristalinos
Sobre a suavidade deslizante
Das gotas brilhantes das cascatas.
Vibram comovidos carinhos
Aquecendo ardentes fontes seculares
Da alquimia sensual do beijo.
Resplandecem nuvens de sensibilidade
Espalhando misteriosas ternuras
Pelos perfumes infinitos da felicidade
E no emaranhado das lianas espirituais
Abraçamos majestosos segredos da luz da vida
Criando a magia absorvente do amor.
as sombras floridas
Flutuando alegremente
Pela intensidade do intimo desejo.
Brincam os sentidos
Seguindo o voo colorido das aves
E ouvindo o murmúrio azul dos riachos.
Dançam pensamentos cristalinos
Sobre a suavidade deslizante
Das gotas brilhantes das cascatas.
Vibram comovidos carinhos
Aquecendo ardentes fontes seculares
Da alquimia sensual do beijo.
Resplandecem nuvens de sensibilidade
Espalhando misteriosas ternuras
Pelos perfumes infinitos da felicidade
E no emaranhado das lianas espirituais
Abraçamos majestosos segredos da luz da vida
Criando a magia absorvente do amor.
1 181
Pablo Neruda
Terremoto no Chile
O navio caminha na noite sem pés resvalando
na água sem fundo nem forma, na abóbada negra do mundo,
nas pobres cabinas o homem resolve suas mínimas normas,
a roupa, o relógio, o anel, os livros sangrentos que lê:
o amor escolheu seu esconderijo e a sombra entrelaça
um férreo relâmpago que cai frustrado no vazio
e em plena substância impassível resvala o navio
com um carregamento de pobres desnudos e mercadorias.
Ali, no começo da primavera marinha,
quando a ave assustada e faminta persegue a nave
e no sal aprazível do céu e da água aparece o aroma
do bosque da Europa, o cheiro da menta terrestre,
soubemos, amada, que o Chile sofria quebrado por um terremoto.
Deus meu, tocou o sino a língua do antepassado na minha boca,
outra vez, outra vez o cavalo iracundo pateia o planeta
e escolhe a pátria delgada, a beira do páramo andino
a terra que deu em sua angustura a uva celeste e o cobre absoluto
outra vez, outra vez a ferradura no rosto
da pobre família que nasce e padece outra vez o espanto e a greta,
o solo que separa os pés e divide o volume da alma
até fazê-la um lenço, um punhado de pó, um gemido.
Talvez és, Chile, a cauda do mundo, o cometa marinho
apenas colado ao assombro nevado da cordilheira
e o passo instantâneo de um átomo solto na veia magnética:
treme tua sombra de âmbar e tua geologia
como se o rechaço do Polo ao ímã de tuas vinhas azuis
fizesse o conflito, e tua essência, outra vez derramada,
outra vez deve unir sua desgraça e sua graça e nascer outra vez.
Pelos muros caídos, o pranto no triste hospital,
pelas ruas cobertas de escombros e medo,
pela mina que forma a sombra às doze do dia,
pela ave que voa sem árvore e o cachorro que uiva sem olhos,
pátria de água e de vinho, filha e mãe de minha alma,
deixa-me confundir-me contigo no vento e no pranto
e que o mesmo iracundo destino aniquile meu corpo e minha terra.
Oh sem par formosura do Norte deserto,
a areia infinita, os rastros metálicos dos meteoros,
a sombra cortando o desenho de sua geografia violeta
na clara paciência do dia vazio como uma basílica
na que estiveram sentadas as pedras caídas desde outro planeta:
a seu redor as colinas de colo irisado esperando e mais tarde
as estrelas mais frescas do mundo palpitam tão perto
que cheiram à sombra, a jasmim, à neve do céu.
Oh pampas desnudos, capítulos cruéis que só percorrem os olhos do ceibo2,
sem par é o nome do homem que cava na porta maldita
e rompe deixando suas mãos nos cemitérios
a crosta do astro escondido, nitrato, sulfato, bismuto,
e acima na neve deserta de cruzes a altura eriçada,
a entrega através de seu sangue o sangue maligno do cobre,
sem par é o nome do homem e modesto é seu suave costume,
se chama chileno, está acima e abaixo no fogo, no frio,
não tem outro nome e isso lhe basta, não tem sobrenome,
se chama também areal ou salitre ou quebranto
e somente se olhas suas mãos amargas saberás que é meu irmão.
Rosales, Ramírez, Machucas, Sotos, Aguileras,
Quevedos, Basoaltos, Urrutias, Ortegas, Navarros, Loyolas,
Sánchez, Pérez, Reyes, Tapias,
Conejeros, González, Martínez,
Cerdas, Montes, López, Aguirres, Morenos, Castillos,
Ampueros, Salinas, Bernales, Pintos, Navarretes,
Núñez, Carvajales, Carillos, Candias, Alegrías,
Parras, Rojas, Lagos, Jiménez, Azócares,
Oyarzunes, Arces, Sepúlvedas, Díaz,
Álvarez, Rodríguez, Zuñigas, Pereiras, Robles, Fuentes, Silvas,
nomes que são homens ou grãos de pólvora ou trigo,
estes são os nomes que assinam as páginas da primavera,
do vinho, do duro torrão, do carvão, do arado,
estes são os nomes de inverno, dos escritórios, dos
ministérios,
nomes de soldados, de agrários, de pobres e muitos, de
entrada cedo
e saída aberta na sombra sem glória e sem ouro:
a estes pertenço e agora na noite de alarma, tão longe
no meio do mar, na noite, os chamo e me chamo;
quem cai cai em mim, o ferido me fere, o que morre me
mata.
Oh pátria, formosura de pedras, tomates, peixes, cereais, abelhas, tonéis,
mulheres de doce cintura que inveja a lua minguante,
metais que formam teu claro esqueleto de espada,
aromas de assados de inverno com luz de guitarras noturnas,
perais carregados de mel cheiroso, cigarras, rumores
de estio repleto como os canastros das chacareiras,
oh amor de rocio do Chile em minha fronte, destrói este sonho de ira,
devolve-me intacta minha pátria pequena, infinita, calada, sonora e profunda!
Oh ramos do Sul quando o trem deixou para trás os limões
e segue para o Sul galopando e ofegando rolando para o Polo,
e passam os rios e entram os vulcões pelas janelinhas
e um cheiro de frio se estende como se a cor da terra
mudasse e minha infância
tomasse seu poncho molhado para percorrer os caminhosde agosto.
Recordo que a folha quebrada do peumo3 em minha boca cantou uma toada
e o cheiro do raulí4 enquanto chove se abriu como uma arca
e todos os sonhos do mundo são um arvoredo
por onde caminha a lembrança pisando as folhas.
Ai canta guitarra do Sul na chuva, no sol lancinante
que lambe os carvalhos queimados pintando-lhes asas,
ai canta, racimo de selvas, a terra empapada, os rápidos rios,
o inabarcável silêncio da primavera molhada,
e que tua canção me devolva a pátria em perigo:
que corram as cordas do canto no vento estrangeiro
porque meu sangue circula no meu canto se cantas,
se cantas, oh pátria terrível, no centro dos terremotos
porque assim necessitas de mim, ressurgida,
porque canta tua boca em minha boca e só o amor ressuscita.
Não sei se morrestes e se morri: esperando sabê-lo te
canto este canto.
na água sem fundo nem forma, na abóbada negra do mundo,
nas pobres cabinas o homem resolve suas mínimas normas,
a roupa, o relógio, o anel, os livros sangrentos que lê:
o amor escolheu seu esconderijo e a sombra entrelaça
um férreo relâmpago que cai frustrado no vazio
e em plena substância impassível resvala o navio
com um carregamento de pobres desnudos e mercadorias.
Ali, no começo da primavera marinha,
quando a ave assustada e faminta persegue a nave
e no sal aprazível do céu e da água aparece o aroma
do bosque da Europa, o cheiro da menta terrestre,
soubemos, amada, que o Chile sofria quebrado por um terremoto.
Deus meu, tocou o sino a língua do antepassado na minha boca,
outra vez, outra vez o cavalo iracundo pateia o planeta
e escolhe a pátria delgada, a beira do páramo andino
a terra que deu em sua angustura a uva celeste e o cobre absoluto
outra vez, outra vez a ferradura no rosto
da pobre família que nasce e padece outra vez o espanto e a greta,
o solo que separa os pés e divide o volume da alma
até fazê-la um lenço, um punhado de pó, um gemido.
Talvez és, Chile, a cauda do mundo, o cometa marinho
apenas colado ao assombro nevado da cordilheira
e o passo instantâneo de um átomo solto na veia magnética:
treme tua sombra de âmbar e tua geologia
como se o rechaço do Polo ao ímã de tuas vinhas azuis
fizesse o conflito, e tua essência, outra vez derramada,
outra vez deve unir sua desgraça e sua graça e nascer outra vez.
Pelos muros caídos, o pranto no triste hospital,
pelas ruas cobertas de escombros e medo,
pela mina que forma a sombra às doze do dia,
pela ave que voa sem árvore e o cachorro que uiva sem olhos,
pátria de água e de vinho, filha e mãe de minha alma,
deixa-me confundir-me contigo no vento e no pranto
e que o mesmo iracundo destino aniquile meu corpo e minha terra.
Oh sem par formosura do Norte deserto,
a areia infinita, os rastros metálicos dos meteoros,
a sombra cortando o desenho de sua geografia violeta
na clara paciência do dia vazio como uma basílica
na que estiveram sentadas as pedras caídas desde outro planeta:
a seu redor as colinas de colo irisado esperando e mais tarde
as estrelas mais frescas do mundo palpitam tão perto
que cheiram à sombra, a jasmim, à neve do céu.
Oh pampas desnudos, capítulos cruéis que só percorrem os olhos do ceibo2,
sem par é o nome do homem que cava na porta maldita
e rompe deixando suas mãos nos cemitérios
a crosta do astro escondido, nitrato, sulfato, bismuto,
e acima na neve deserta de cruzes a altura eriçada,
a entrega através de seu sangue o sangue maligno do cobre,
sem par é o nome do homem e modesto é seu suave costume,
se chama chileno, está acima e abaixo no fogo, no frio,
não tem outro nome e isso lhe basta, não tem sobrenome,
se chama também areal ou salitre ou quebranto
e somente se olhas suas mãos amargas saberás que é meu irmão.
Rosales, Ramírez, Machucas, Sotos, Aguileras,
Quevedos, Basoaltos, Urrutias, Ortegas, Navarros, Loyolas,
Sánchez, Pérez, Reyes, Tapias,
Conejeros, González, Martínez,
Cerdas, Montes, López, Aguirres, Morenos, Castillos,
Ampueros, Salinas, Bernales, Pintos, Navarretes,
Núñez, Carvajales, Carillos, Candias, Alegrías,
Parras, Rojas, Lagos, Jiménez, Azócares,
Oyarzunes, Arces, Sepúlvedas, Díaz,
Álvarez, Rodríguez, Zuñigas, Pereiras, Robles, Fuentes, Silvas,
nomes que são homens ou grãos de pólvora ou trigo,
estes são os nomes que assinam as páginas da primavera,
do vinho, do duro torrão, do carvão, do arado,
estes são os nomes de inverno, dos escritórios, dos
ministérios,
nomes de soldados, de agrários, de pobres e muitos, de
entrada cedo
e saída aberta na sombra sem glória e sem ouro:
a estes pertenço e agora na noite de alarma, tão longe
no meio do mar, na noite, os chamo e me chamo;
quem cai cai em mim, o ferido me fere, o que morre me
mata.
Oh pátria, formosura de pedras, tomates, peixes, cereais, abelhas, tonéis,
mulheres de doce cintura que inveja a lua minguante,
metais que formam teu claro esqueleto de espada,
aromas de assados de inverno com luz de guitarras noturnas,
perais carregados de mel cheiroso, cigarras, rumores
de estio repleto como os canastros das chacareiras,
oh amor de rocio do Chile em minha fronte, destrói este sonho de ira,
devolve-me intacta minha pátria pequena, infinita, calada, sonora e profunda!
Oh ramos do Sul quando o trem deixou para trás os limões
e segue para o Sul galopando e ofegando rolando para o Polo,
e passam os rios e entram os vulcões pelas janelinhas
e um cheiro de frio se estende como se a cor da terra
mudasse e minha infância
tomasse seu poncho molhado para percorrer os caminhosde agosto.
Recordo que a folha quebrada do peumo3 em minha boca cantou uma toada
e o cheiro do raulí4 enquanto chove se abriu como uma arca
e todos os sonhos do mundo são um arvoredo
por onde caminha a lembrança pisando as folhas.
Ai canta guitarra do Sul na chuva, no sol lancinante
que lambe os carvalhos queimados pintando-lhes asas,
ai canta, racimo de selvas, a terra empapada, os rápidos rios,
o inabarcável silêncio da primavera molhada,
e que tua canção me devolva a pátria em perigo:
que corram as cordas do canto no vento estrangeiro
porque meu sangue circula no meu canto se cantas,
se cantas, oh pátria terrível, no centro dos terremotos
porque assim necessitas de mim, ressurgida,
porque canta tua boca em minha boca e só o amor ressuscita.
Não sei se morrestes e se morri: esperando sabê-lo te
canto este canto.
1 124
Pablo Neruda
Estou longe
É minha a hora infinita da Patagônia,
galopo estendido no tempo como se navegasse,
atravesso os tenros rebanhos trocando de passo
para não ferir as nuvens de espessa roupagem,
a estepe é celeste e cheira o espaço a sino,
à neve e a sol macerados no pasto pobre:
gosto da terra sem habitações, o peso do vento
que busca meu peito curvando a ramagem de minha alma.
De onde caí? E como se chama o planeta que soa como oalumínio
sob as pisadas de um pobre viajante afogado no amplo silêncio?
E busco no rumo sem rumo da oceania terrestre
seguindo as pegadas apagadas das ferraduras,
enquanto sai a lua como o pão da boca de um forno
e se vai pelo campo amarrada ao cavalo mais lento do céu.
Oh anel espaçoso que move contigo seu círculo de ouro
e que, caminhando, te leva em seu centro sem abandonar-te,
quantas sombras trocaram hostis estilos de espinhos queimantes
enquanto tu continuavas no centro do cinzento hemisfério
ou a raposa de pés invisíveis que deslizou resvalando no frio
ou a luz que trocou de bandeira depois de beijar teu cavalo,
ou a folhagem entendida em desditas que aceita tua ausência
ou o póstumo colibri que acendeu seu pequeno relógio de turquesa no braço das solidões
ou o trovão que se desenvolve rolando em sua própria morada
ou os avestruzes de pés militares e olhos de colégio
ou, mais pura que tudo, a terra e suas respirações,
a terra que mostra sua pele de planeta, seu couro de amargo cavalo,
a terra terrestre com o rastro extirpado de alguma fogueira,
sem enfermidades, sem homens, sem ruas, sem pranto nem morte,
com o vento ilustre que limpa de noite e de dia a natureza
e brunhe a hirsuta medalha da tempestuosa pradaria
das patagônias nutridas pela solidão e pelo orvalho.
É dentro, no vazio ou na sombra, na torre angustiada,
que busquei e te encontrei suspirando, bem meu,
foi uma hora em que todo o baluarte tremeu, moribundo,
e no meu peito a dúvida e a morte voavam nuas:
amor meu, cereja, guitarra da primavera,
que doce teu colo desviando as flechas do padecimento
e tua retidão de figura de proa no vento salgado que impõe seu rosto ao navio.
Amada, não foi em extensões e costas, não foi em eriçadas areias,
não foi tua chegada a um castelo rodeado pela geografia,
mas a uma catástrofe pobre que apenas concerne ao
viajante,
a uma greta que multiplicava punhais em minha desventura,
e assim tua saúde vitoriosa inclinando-se sobre o caminho
encontrou minha dor e arrancou as espadas daquela agonia.
Oceana, outra vez com seu nome de onda visito o oceano
e vivente e dormente ao meu lado na luz implacável de Janeiro
não sabemos sofrer, olvidamos a pedra enlutada
que pesou sobre um ano incitando meu peito a pulsar como um agonizante.
Troquei tantas vezes de sol e de arte poética
que ainda estava servindo de exemplo em cadernos de melancolia
quando já me inscreveram nos novos catálogos dos otimistas,
e apenas tinham-me declarado escuro como boca de lobo ou de cão
denunciaram à polícia a simplicidade de meu canto
e mais de um encontrou profissão e saiu a combater meu destino
em chileno, em francês, em inglês, em veneno, em calúnia, em sussurro.
Aqui levo a luz e a estendo para o meu companheiro.
A luz brusca do sol na água multiplica pombas, e canto.
Será tarde, o navio entrará nas trevas, e canto.
Abrirá sua adaga a noite e eu durmo coberto de estrelas.
E canto.
Chegará a manhã com sua rosa redonda na boca. E eu canto.
Eu canto. Eu canto. Eu canto. Eu canto.
galopo estendido no tempo como se navegasse,
atravesso os tenros rebanhos trocando de passo
para não ferir as nuvens de espessa roupagem,
a estepe é celeste e cheira o espaço a sino,
à neve e a sol macerados no pasto pobre:
gosto da terra sem habitações, o peso do vento
que busca meu peito curvando a ramagem de minha alma.
De onde caí? E como se chama o planeta que soa como oalumínio
sob as pisadas de um pobre viajante afogado no amplo silêncio?
E busco no rumo sem rumo da oceania terrestre
seguindo as pegadas apagadas das ferraduras,
enquanto sai a lua como o pão da boca de um forno
e se vai pelo campo amarrada ao cavalo mais lento do céu.
Oh anel espaçoso que move contigo seu círculo de ouro
e que, caminhando, te leva em seu centro sem abandonar-te,
quantas sombras trocaram hostis estilos de espinhos queimantes
enquanto tu continuavas no centro do cinzento hemisfério
ou a raposa de pés invisíveis que deslizou resvalando no frio
ou a luz que trocou de bandeira depois de beijar teu cavalo,
ou a folhagem entendida em desditas que aceita tua ausência
ou o póstumo colibri que acendeu seu pequeno relógio de turquesa no braço das solidões
ou o trovão que se desenvolve rolando em sua própria morada
ou os avestruzes de pés militares e olhos de colégio
ou, mais pura que tudo, a terra e suas respirações,
a terra que mostra sua pele de planeta, seu couro de amargo cavalo,
a terra terrestre com o rastro extirpado de alguma fogueira,
sem enfermidades, sem homens, sem ruas, sem pranto nem morte,
com o vento ilustre que limpa de noite e de dia a natureza
e brunhe a hirsuta medalha da tempestuosa pradaria
das patagônias nutridas pela solidão e pelo orvalho.
É dentro, no vazio ou na sombra, na torre angustiada,
que busquei e te encontrei suspirando, bem meu,
foi uma hora em que todo o baluarte tremeu, moribundo,
e no meu peito a dúvida e a morte voavam nuas:
amor meu, cereja, guitarra da primavera,
que doce teu colo desviando as flechas do padecimento
e tua retidão de figura de proa no vento salgado que impõe seu rosto ao navio.
Amada, não foi em extensões e costas, não foi em eriçadas areias,
não foi tua chegada a um castelo rodeado pela geografia,
mas a uma catástrofe pobre que apenas concerne ao
viajante,
a uma greta que multiplicava punhais em minha desventura,
e assim tua saúde vitoriosa inclinando-se sobre o caminho
encontrou minha dor e arrancou as espadas daquela agonia.
Oceana, outra vez com seu nome de onda visito o oceano
e vivente e dormente ao meu lado na luz implacável de Janeiro
não sabemos sofrer, olvidamos a pedra enlutada
que pesou sobre um ano incitando meu peito a pulsar como um agonizante.
Troquei tantas vezes de sol e de arte poética
que ainda estava servindo de exemplo em cadernos de melancolia
quando já me inscreveram nos novos catálogos dos otimistas,
e apenas tinham-me declarado escuro como boca de lobo ou de cão
denunciaram à polícia a simplicidade de meu canto
e mais de um encontrou profissão e saiu a combater meu destino
em chileno, em francês, em inglês, em veneno, em calúnia, em sussurro.
Aqui levo a luz e a estendo para o meu companheiro.
A luz brusca do sol na água multiplica pombas, e canto.
Será tarde, o navio entrará nas trevas, e canto.
Abrirá sua adaga a noite e eu durmo coberto de estrelas.
E canto.
Chegará a manhã com sua rosa redonda na boca. E eu canto.
Eu canto. Eu canto. Eu canto. Eu canto.
1 110
Pablo Neruda
Buscar
Do ditirambo à raiz do mar
se estende um novo tipo de vazio;
não quero mais, diz a onda,
que não sigam falando,
que não siga crescendo
a massa do concreto
na cidade;
estamos sozinhos,
queremos gritar por fim,
mijar frente ao mar,
ver sete pássaros da mesma cor,
três mil gaivotas verdes,
buscar o amor na areia,
sujar os sapatos,
os livros, o chapéu, o pensamento
até encontrar-te, nada,
até beijar-te, nada,
até cantar-te, nada,
nada sem nada, sem fazer
nada, sem terminar
o verdadeiro.
se estende um novo tipo de vazio;
não quero mais, diz a onda,
que não sigam falando,
que não siga crescendo
a massa do concreto
na cidade;
estamos sozinhos,
queremos gritar por fim,
mijar frente ao mar,
ver sete pássaros da mesma cor,
três mil gaivotas verdes,
buscar o amor na areia,
sujar os sapatos,
os livros, o chapéu, o pensamento
até encontrar-te, nada,
até beijar-te, nada,
até cantar-te, nada,
nada sem nada, sem fazer
nada, sem terminar
o verdadeiro.
1 095
Pablo Neruda
XXIV - A ilha
Adeus, adeus, ilha secreta, rosa
de purificação, umbigo de oro:
voltamos uns e outros para as obrigações
de nossas enlutadas profissões e ofícios.
Adeus, que o grande oceano te guarde
longe de nossa estéril aspereza!
Chegou a hora de odiar a solidão:
esconde, ilha, as chaves antigas
debaixo dos esqueletos
que nos censurarão até que sejam pó
em suas covas de pedra
nossa invasão inútil.
Regressamos. E este adeus, esbanjado e perdido
é mais um, um adeus
sem mais solenidade que a que ali fica:
a indiferença imóvel no centro do mar:
cem olhares de pedra que olham para dentro
e para a eternidade do horizonte.
FIM
de purificação, umbigo de oro:
voltamos uns e outros para as obrigações
de nossas enlutadas profissões e ofícios.
Adeus, que o grande oceano te guarde
longe de nossa estéril aspereza!
Chegou a hora de odiar a solidão:
esconde, ilha, as chaves antigas
debaixo dos esqueletos
que nos censurarão até que sejam pó
em suas covas de pedra
nossa invasão inútil.
Regressamos. E este adeus, esbanjado e perdido
é mais um, um adeus
sem mais solenidade que a que ali fica:
a indiferença imóvel no centro do mar:
cem olhares de pedra que olham para dentro
e para a eternidade do horizonte.
FIM
1 182
Claudio Willer
Faz Tempo que Eu Queria Dizer Isto
ainda não conseguiram destruir o mar
não foram capazes de estrangulá-lo com fios elétricos e rodovias
nem de o retalhar com cercas
ou de lotear as manchas do seu dorso
o mar ainda existe
presente na consciência dos amantes
nas madrugadas de suor cúmplice estampado nos lençóis
para podermos ver o mar
para penetrar aos poucos nestes refúgios mornos
cavernas do primitivo sonho
útero de filamentos luminosos
é preciso nos desnudarmos totalmente
e sabermos nos reconhecer
pelo toque da pele
como algo que termina e recomeça
dois poemas entrelaçados
mordendo-se como a serpente mítica
(...)
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
não foram capazes de estrangulá-lo com fios elétricos e rodovias
nem de o retalhar com cercas
ou de lotear as manchas do seu dorso
o mar ainda existe
presente na consciência dos amantes
nas madrugadas de suor cúmplice estampado nos lençóis
para podermos ver o mar
para penetrar aos poucos nestes refúgios mornos
cavernas do primitivo sonho
útero de filamentos luminosos
é preciso nos desnudarmos totalmente
e sabermos nos reconhecer
pelo toque da pele
como algo que termina e recomeça
dois poemas entrelaçados
mordendo-se como a serpente mítica
(...)
In: WILLER, Claudio. Jardins da provocação: poemas, 1976/1980. São Paulo: Massao Ohno: Roswitha Kempt, 1981
1 221
Antônio Barreto
Peixe
é
uma
pedra
que eu
vejo viva
entre as águas
molhando a linha
torta do horizonte
e não o peixe
que sustenta
algo táctil
entre
nós
e
não
será mais
necessário
despertar-lhe
o sonho o sono
o limo o cheiro
o ar porque
o talvez
só assim entenda o rio
que a pedra o peixe e o vento são apenas
pequenos enigmas que o silêncio e a água
não sabem decifrar
In: BARRETO, Antônio. Isca de pássaro é peixe na gaiola: pequeno concerto para realejo, caniço & vitrola. Il. Débora Camisasca. 2.ed. Belo Horizonte: Miguilim, 1990. p.24. (Rimas). Poema integrante da série Isca de Peixe É o Silêncio.
uma
pedra
que eu
vejo viva
entre as águas
molhando a linha
torta do horizonte
e não o peixe
que sustenta
algo táctil
entre
nós
e
não
será mais
necessário
despertar-lhe
o sonho o sono
o limo o cheiro
o ar porque
o talvez
só assim entenda o rio
que a pedra o peixe e o vento são apenas
pequenos enigmas que o silêncio e a água
não sabem decifrar
In: BARRETO, Antônio. Isca de pássaro é peixe na gaiola: pequeno concerto para realejo, caniço & vitrola. Il. Débora Camisasca. 2.ed. Belo Horizonte: Miguilim, 1990. p.24. (Rimas). Poema integrante da série Isca de Peixe É o Silêncio.
1 547
Pablo Neruda
Ida e Volta
Celebro a mensagem indireta e a taça de tua transparência
(quando em Valparaíso encontraste meus olhos perdidos)
porque eu a distância fechei o olhar buscando-te, amada,
e me despedi de mim mesmo deixando-te só.
Um dia, um cavalo que cruza o caminho do tempo, uma fogueira
que deixa na areia carvões noturnos como queimaduras
e desvencilhado, sem ver nem saber, prisioneira em minha curta desdita,
espero que voltes apenas partida de nossas areias.
Celebro esses passos que não divisei entre teus passos delgados,
a farinha incitante que tu despertaste nas padarias
e naquela gota de chuva que me dedicavas
achei, ao recolhê-la na costa, teu rasto encerrado na água.
Não devo descer as dunas nem ver o enxame da pescaria,
não tenho por que espreitar as baleias que atrai o Outono a Quintay
desde suas espaçosas moradias e procriações antárticas:
a natureza não pode mentir a seus filhos e espero,
espera, te espero. E se chegas, a sombra porá em seu
hemisfério
uma claridade de violetas que não conhecia a noite.
(quando em Valparaíso encontraste meus olhos perdidos)
porque eu a distância fechei o olhar buscando-te, amada,
e me despedi de mim mesmo deixando-te só.
Um dia, um cavalo que cruza o caminho do tempo, uma fogueira
que deixa na areia carvões noturnos como queimaduras
e desvencilhado, sem ver nem saber, prisioneira em minha curta desdita,
espero que voltes apenas partida de nossas areias.
Celebro esses passos que não divisei entre teus passos delgados,
a farinha incitante que tu despertaste nas padarias
e naquela gota de chuva que me dedicavas
achei, ao recolhê-la na costa, teu rasto encerrado na água.
Não devo descer as dunas nem ver o enxame da pescaria,
não tenho por que espreitar as baleias que atrai o Outono a Quintay
desde suas espaçosas moradias e procriações antárticas:
a natureza não pode mentir a seus filhos e espero,
espera, te espero. E se chegas, a sombra porá em seu
hemisfério
uma claridade de violetas que não conhecia a noite.
1 060
Antônio Barreto
Para Conhecer Sua Sereia
Não há limites para o meu amor:
o que dela conheço está no fundo do mar,
fechado com as chaves do meu desejo.
Diziam os gregos antigos
que cada homem tem uma sereia no
fundo do mar. Para conhecer a sua,
coloque dentro de uma garrafa uma
folha de papel com seu nome escrito,
fechando-a em seguida com uma rolha.
Amarre a garrafa numa pedra pesada
e, quando o sol nascer, atire-a ao
mar dizendo as seguintes palavras:
— SEREIA, SEREIA MINHA!
A HORA É CHEGADA, EU JÁ
SEI.
QUERO TE CONHECER,
Ó RAINHA,
COM A PERMISSÃO DE TEU
REI!
Não é necessário entrar
num escafandro ou vestir-se de
homem-rã para esperar por ela no fundo
das águas. Os hipocampos cuidarão
de avisá-la: eles são os carteiros do
mar.
À tardinha, procure na praia um
caracol e deite-se na areia para ouvi-lo.
Quando acordar-se para dentro,
num sonho súbito, você a verá linda
como nunca tivera imaginado,
pronunciando seu nome docemente.
Mas não tente pegá-la. Dizem
que Netuno, o Rei dos Mares,
tem ciúmes horríveis dos homens que
delas tentam se aproximar. As sereias
existem apenas para serem ouvidas e
admiradas.
Logo você descobrirá, todavia,
que o que existe de mais belo em sua
sereia é que ela não tem recordações.
E, como os anjos-da-guarda, só nos
aparecem nos sonhos.
Sua sereia simplesmente sabe
que é sua, eternamente, e mais nada.
In: BARRETO, Antônio. Livro das simpatias. Il. Márcia Franco. Belo Horizonte: Ed. RHJ, 1990. p.36-39. (Premiados, 3
o que dela conheço está no fundo do mar,
fechado com as chaves do meu desejo.
Diziam os gregos antigos
que cada homem tem uma sereia no
fundo do mar. Para conhecer a sua,
coloque dentro de uma garrafa uma
folha de papel com seu nome escrito,
fechando-a em seguida com uma rolha.
Amarre a garrafa numa pedra pesada
e, quando o sol nascer, atire-a ao
mar dizendo as seguintes palavras:
— SEREIA, SEREIA MINHA!
A HORA É CHEGADA, EU JÁ
SEI.
QUERO TE CONHECER,
Ó RAINHA,
COM A PERMISSÃO DE TEU
REI!
Não é necessário entrar
num escafandro ou vestir-se de
homem-rã para esperar por ela no fundo
das águas. Os hipocampos cuidarão
de avisá-la: eles são os carteiros do
mar.
À tardinha, procure na praia um
caracol e deite-se na areia para ouvi-lo.
Quando acordar-se para dentro,
num sonho súbito, você a verá linda
como nunca tivera imaginado,
pronunciando seu nome docemente.
Mas não tente pegá-la. Dizem
que Netuno, o Rei dos Mares,
tem ciúmes horríveis dos homens que
delas tentam se aproximar. As sereias
existem apenas para serem ouvidas e
admiradas.
Logo você descobrirá, todavia,
que o que existe de mais belo em sua
sereia é que ela não tem recordações.
E, como os anjos-da-guarda, só nos
aparecem nos sonhos.
Sua sereia simplesmente sabe
que é sua, eternamente, e mais nada.
In: BARRETO, Antônio. Livro das simpatias. Il. Márcia Franco. Belo Horizonte: Ed. RHJ, 1990. p.36-39. (Premiados, 3
1 493