Mar, Rios e Oceanos
Florbela Espanca
Há nos teus olhos
No teu perfil altivo de romano,
No teu riso de graça e de esplendor
Um misterioso ideal divino e humano.
Cruz de Cristo sangrando sobre o pano
Das velas altas, lá vai, sobre o fragor
Dum mar sereno, cristalino e plano,
A tua barca de conquistador!
Eu quero ir contigo a esses distantes
Reinos! Deixa-me erguer as brancas velas,
Ser um dos teus audazes navegantes!
Meus olhos cegos são dois poços fundos...
— Conta-me o céu! Ensina-me as estrelas!
Mostra-me a estrada dos teus Novos Mundos!
Jorge Luis Borges
Heráclito [3]
De Éfeso. La tarde lo ha dejado,
Sin que su voluntad lo decidiera,
En la margen de un río silencioso
Cuyo destino y cuyo nombre ignora.
Hay un Jano de piedra y unos álamos
Se mira en el espejo fugitivo
Y descubre y trabaja la sentencia
Que las generaciones de los hombres
No dejarán caer. Su voz declara:
Nadie baja dos veces a las aguas
Del mismo río. Se detiene. Siente
Con el asombro de un horror sagrado
Que él también es un río y una fuga.
Quiere recuperar esa mañana
Y su noche y la víspera. No puede.
Repite la sentencia. La ve impresa
En futuros y claros caracteres
En una de las páginas de Burnet.
Heráclito no sabe griego. Jano,
Dios de las puertas, es un dios latino.
Heráclito no tiene ayer ni ahora.
Es un mero artificio que ha soñado
Un hombre gris a orillas del Red Cedar,
Un hombre que entreteje endecasílabos
Para no pensar tanto en Buenos Aires
Y en los rostros queridos. Uno falta.
Jorge Luis Borges | "Poesía Completa", pág. 464 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Mário Dionísio
Bom dia marinheiro
há milénios sentado
nesse navio pirata
Traço-te o vulto a roxo
um claro azul nos olhos de água
ponho e a toda a volta um frémito vermelho
O teu cachimbo é agora uma sereia de prata
toda roída dum lado
por um cancro de estrelas que é só mágoa
e sobressalto frouxo
de cascos podres balouçando balouçante
ao som da lenda sem sabor dum cavaleiro
andante ridículo e ausente
no céu de chumbo onde passa lentamente um bombardeiro
com a morte no bojo
Águas fundas de amor e desencontro do que tanto se crê que não se crê
nestes fundos de lodo feitos sarça
não ardente mas fria de desespero e nojo
mesquinhamente tudo se disfarça
e desvirtua e se destrói e dói e ameaça
Que horror dizer bom dia ou até já
dizer adeus
ao que mais ninguém vê
Mário Dionísio
Pregão
Os montes, os mares, as estrelas, as nuvens, as almas, os deuses e as
sombras.
- o cortejo multissecular das sombras.
Antes
os braços eram curtos e terminavam por duas mãos pequenas.
Hoje
não há padrão que os meça,
prolongados nos montes e na viva complicação das máquinas,
nas chaminés voltadas para o céu.
Antes
as bocas eram breves para o beijo da casa.
Hoje
dilataram-se infinitamente no sorriso sublime e sem limites da
universalidade.
Todos os músculos estalaram.
Todos os olhos gritaram.
Todas as bocas gritaram.
Todos os pulmões se abriram ao olfacto sadio da terra húmida.
Terra.
Terra da partida e do regresso.
Terra!
Serão baixos todos os andaimes de biliões de andares,
fracas todas as asas,
para a nossa paixão da estratosfera:
para o caminho da terra que nos fará eternos.
Fraca nomenclatura de todos os tratados
para o nosso mundo de amor.
Os chicotes quebraram-se, vencidos,
vergados sobre a terra como nós até hoje.
Uma vida nova começa neste instante.
E agora, que dum gesto alcançámos a terra, nós seremos enfim o nosso próprio poema.
António Ramos Rosa
O Desejado Chegado
JUAN RAMÓN JIMÉNEZ
Porque és sem tensão o resultado,
o chegado. A praia e o centro do olhar
no extremo e simples.
A água toda externa, água solar,
por toda a parte visível nua em ti.
Vejo-te desejado pupila toda mar
à varanda de ti próprio.
À varanda do mar.
O desejado desejo
nudez de consciência
livre ao ar de tudo
em palavras nuas de água
eu o recebo, teu princípio e fim.
No espaço interno mar
onde chegaste
o desejo coincide eterno em si
no mar.
Salgado Maranhão
NOZ
sob os meus pés,espicharam-me
os olhos ao leito das almas
tristes.
Essas tristes léguas
que se me espalham
às metrópoles rasuradas.
Eu que sou do barro
dos oleiros, do sol
que acorda os mirantes;
eu que sou da várzea —
irmão dos rios descalços
e das pedras mudas;
não tenho para quem
chorar esta litania
de espectros,
estes grafites de sangue.
Não é a sucursal da dor
que nos acende o sol
e a sede de ágora,
é o esplendor do ínfimo.
Ainda que agarremos o real
pelo pântano, pelos
baixios que nos afoga
à superfície,
Ainda assim,
quebra-se a noz desse jogo.
E o que não serve ao pasto,
serve ao fogo.
Jorge Luis Borges
Einar Tambarskelver
Poco importan los nombres y sus dioses;
no hay otra obligación que ser valiente
y Einar lo fue, duro caudillo de hombres.
era el primer arquero de Noruega
y diestro en el gobierno de la espada
azul y de las naves. De su paso
por el tiempo, nos queda una sentencia
que resplandece en las crestomatías.
La dijo en el clamor de una batalla
en el mar. Ya perdida la jornada,
ya abierto el estribor al abordaje,
un flechazo final quebró su arco.
El rey le preguntó qué se había roto
a sus espaldas y Einar Tambarskelver
dijo: Noruega, rey, entre tus manos.
Siglos después, alguien salvó la historia
en Islandia. Yo ahora la traslado,
tan lejos de esos mares y de ese ánimo.
"La moneda de hierro" (1976)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 456 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Mário Dionísio
No cais
sem cortinados nas janelas
O dia é como a noite a noite é como o dia
e o Tejo aqui ao lado traz nas águas
pedaços de óleo e restos da cidade
Ó quarteirões de casas escuras
por trás de montes de carvão
que sabeis vós das nuvens dos poetas?
As vossas nuvens são de fumo
do fumo negro dos navios de carga
e de outros fumos negros da cidade
Ruas sem nome Iguais iguais
como estas mãos e essas mãos
como estes pés e esses pés
que a vida deformou
Ó quarteirões de casas escuras
o que enche aqui o ar é este grito repetido
dos guindastes no cais
e a matraca repetida dos comboios
de mercadorias
Ó quarteirões de casas escuras
os barracões engolem homens
os barracões vomitam homens
Rio
foste tu que inspiraste as ninfas ao Poeta?
Rio
és tu que inspiras os poetas?
Ó quarteirões de casas escuras
é impossível que não haja
nenhum sonho escondido e adormecido lá no fundo
destas vidraças partidas Que não haja
nenhum riso abafado nos barris de alcatrão
E nenhum canto aqui nestas águas do rio
nestas águas soturnas soturnas tão soturnas do rio
Velho sentado à porta da taberna
há tantos anos sentado com a perna de pau
à porta da taberna
com teu cachimbo e tua voz tão serena contando
histórias antigas e lendárias
à porta da taberna
Dá teu lugar a outro A qualquer outro
que quebre o fado do velho gramofone da taberna
e conte histórias um pouco mais felizes e mais claras
em vez do vinho na taberna
José Augusto de Carvalho
A recusa!
Recuso ser, na noite, a sombra que desenha
a angústia indefinida e fria deste cais.
O que tiver de vir, se mais houver, que venha,
Mostrengo, Adamastor e Fim do Nunca Mais!
O leme se quebrou. Ao vento, as rotas velas
ensaiam os sinais das barcas à deriva.
Que velhas perdições?! Na consciência delas,
assombram predições doendo em carne viva.
Que venham os pinhais gritar o desafio
do tempo por haver que acena o amanhecer
além deste torpor indefinido e frio!
Que venha a tentação sortílega tecer,
com arte com engenho, o já lendário fio
da espera que germina um novo acontecer!...
20 de Abril de 2010
Viana do Alentejo
António Ramos Rosa
Aproxima-Te do Silêncio, da Pedra do Silêncio
e a montanha abrir-se-á. Estás perto dessa casa
onde o silêncio é nenhuma árvore,
um silêncio deslocado como uma lâmpada de água.
Estende-se o silêncio até ao núcleo de um
rio, de cabeleiras de água e de silêncio ainda
de uma boca exasperada pela esperança das letras,
pela loucura dos astros, das palavras, das mãos
e de uma ponte férrea onde o cavalo passa
dizendo o inverno intenso de uma só cor gelada.
Ruy Belo
Os balcões sucessivos sobre o rio
as tesouras de poda nas roseiras
a sonolência lânguida e perversa
esse todo coerente e sobre ele apenas
a abóbada da minha perfeição
é esse o meu convite à desistência
a pena menos pública do mundo nos
lagos das finas flores dos sabugueiros
onde a mulher soltava os cabelos
pra que neles se prendesse o cheiro a erva
Ela tinha um aspecto inesperado
vinha com o vestido cor magenta nos
braços que lhe cresceram sobre a terra
movia-se ao andar como uma barca
Importa-me é o curso do dia e da noite
Vou andar um bocado nos caminhos
é pela hora em que não há ninguém
nudez desprevenida dos meus dias
mas só de noite desço até ao mar após
as sete horas da tarde hora crepuscular
os cheiros confortáveis e antigos
imagens dum lirismo fraudulento
um conforto algum tanto apreensivo
coisas que desde a infância a construíam
Mudo de opinião continuamente
espero o teu regresso pela tarde
e cuidadosamente velo a minha cólera
A vida é para mim pesar de pálpebras
leitura de discursos no outono
na casa abandonada e submetida à chuva
Regresso afinal aos próprios hábitos
sorrisos de mulheres sobre a areia
sou fiel à tristeza e pouco mais
e meto então um lenço num dos bolsos
que cheira ao perfume dos pinheiros
Ave de alarme sou deixem-me só
sou um contemporâneo assisto a tudo
os sinos vesperais nos dias de verão
o cão que passa numa encruzilhada
um cântaro que racha inexplicavelmente
confundido no hálito do mar
a minha saudação aos infantes do medo
crianças que iniciam o andar
Espero por alguém espero pelo sol
pla doçura estival da laranjeira
ando pelos caminhos muito tempo
e passo pelas portas devassadas pelos ventos
em cujos gonzos sopram agonias
E espero de novo a floração da primavera
Não quero nada quero estar presente sobre
as dunas do começo dos pinhais
nesse mundo de medos e animais
onde abri os meus olhos para a luz de agora
E perco todo eu em contriçães
ó terra branca e carnal e triste
as minhas madrugadas do sargaço
abertas nos bocejos da neblina
quando o tempo é suave e chega em dunas
à sensibilidade das narinas
nas horas generosas da maré
António Ramos Rosa
O Peito Entre As Plantas, Vês Os Cristais Nas Árvores,
a pedra límpida, os grandes nós da água.
De margem a margem o dia é tão claro
que o cavalo se ilumina da minha sede limpa.
E esse verde aroma do teu corpo que chama
a aridez dos insectos, a voraz oficina
de que se compõe a luta vida a vida,
searas, canaviais, constelações.
Entre o ar dos quartos e a fresca imobilidade
a curva da viagem num planeta novo.
Entre a terra e a lua deixa os seios da água,
limpa-os do pó nocturno, deixa a luz entre as árvores,
que o teu nome de mármore seja o cimo do salto
e a tua cauda arraste uma sombra vazia.
António Ramos Rosa
Mil Cores, E Uma Sombra Só Te Despe.
Substância perfeita da sombra mais feliz.
Substância ardente e diamante firme.
Água feliz do corpo, água de mil sombras,
e esta é a mais fresca, onde o cavalo bebe
sobre os teus seios tão altos como as chamas mais verdes.
O teu vestido de sombras torna cálido o corpo
e as sílabas do cavalo refrescam-se no mar.
Na praia mais selvagem caminha esse cavalo
que nos transforma o corpo e nos abre a face
mais escura da terra. E todo o mundo aceso.
Jorge Luis Borges
México
la tradición de espadas, la plata y la caoba,
el piadoso benjuí que sahúma la alcoba
y ese latín venido a menos, el castellano.
¡Cuántas cosas distintas! Una mitología
de sangre que entretejen los hondos dioses muertos,
los nopales que dan horror a los desiertos
y el amor de una sombra que es anterior al día.
¡Cuántas cosas eternas! El patio que se llena
de lenta y leve luna que nadie ve, la ajada
violeta entre las páginas de Nájera olvidada,
el golpe de la ola que regresa a la arena.
El hombre que en su lecho último se acomoda
para esperar la muerte. Quiere tenerla, toda.
"La moneda de hierro" (1975)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 442 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Jorge Luis Borges
Herman Melville
Ruta de la ballena, en que se aúnan
las dos enormes cosas, la ballena
y los mares que largamente surca.
Siempre fue suyo el mar. Cuando sus ojos
vieron en alta mar las grandes aguas
ya lo había anhelado y poseído
en aquel otro mar, que es la Escritura,
o en el dintorno de los arquetipos.
Hombre, se dio a los mares del planeta
y a las agotadoras singladuras
y conoció el arpón enrojecido
por Leviathán y la rayada arena
y el olor de las noches y del alba
y el horizonte en que el azar acecha
y la felicidad de ser valiente
y el gusto, al fin, de divisar a Ítaca.
Debelador del mar, pisó la tierra
firme que es la raíz de las montañas
y en la que marca un vago derrotero,
quieta en el tiempo, una dormida brújula.
A la heredada sombra de los huertos,
Melville cruza las tardes de New England
pero lo habita el mar. Es el oprobio
del mutilado capitán del Pequod,
el mar indescifrable y las borrascas
y la abominación de la blancura.
Es el gran libro. Es el azul Proteo.*
* Es el azul Proteo. La hipálage es de Ovidio y la repite Ben Jonson.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 448 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Filipa Leal
Ode louca
Todos os homens têm o seu rio.
Lamentam-no sentados no interior das casas
de interior e como o poeta que escreve a lápis
apagam a memória com a sua água.
Os rios abandonam os homens que envelhecem
longe da infância, e eles choram
o reflexo absurdo na distância.
Por vezes, enlouquecem os rios, os homens,
os poetas nas palavras repetidas
que buscam uma ode que lhes diga
a textura. Todos procuram o mesmo:
um lugar de água mais limpa
ou um espelho que não lhes negue
a hipótese do reflexo.
O rio sofre mais do que o homem,
o poeta,
porque dele se espera que nos devolva
a imagem de tudo, menos de si próprio.
Todos os rios têm o seu narciso,
mas poucos, muito poucos,
o simples reflexo das suas águas.
Filipa Leal
A cidade líquida
A cidade movia-se como um barco. Não. Talvez o chão se abrisse em algum
lado. Não. Era a tontura. A despedida. Não. A cidade talvez fosse de água.
Como sobreviver a uma cidade líquida?
(Eu tentava sustentar-me como um barco.)
As aves molhavam-se contra as torres. Tudo evaporava: os sinos, os relógios,
os gatos, o solo. Apodreciam os cabelos, o olhar. Havia peixes imóveis na
soleira das portas. Sólidos mastros que seguravam as paredes das coisas. Os
marinheiros invadiam as tabernas. Riam alto do alto dos navios. Rompiam a
entrada dos lugares. As pessoas pescavam dentro de casa. Dormiam em
plataformas finíssimas, como jangadas. A náusea e o frio arroxeavam-lhes os
lábios. Não viam. Amavam depressa ao entardecer. Era o medo da morte. A
cidade parecia de cristal. Movia-se com as marés. Era um espelho de outras
cidades costeiras. Quando se aproximava, inundava os edifícios, as ruas.
Acrescentava-se ao mundo. Naufragava-o. Os habitantes que a viam
aproximar-se ficavam perplexos a olhá-la, a olhar-se. Morriam de vaidade e
de falta de ar. Os que eram arrastados agarravam-se ao que restava do interior
das casas. Sentiam-se culpados. Temiam o castigo. Tantas vezes desejaram
soltar as cordas da cidade. Agora partiam com ela dentro de uma cidade
líquida.
(Eu ficara exactamente no lugar de onde saiu.)
António Ramos Rosa
Por Um Pouco de Sombra Após a Luz do Muro,
por um pouco de luz quando a sombra se adensa,
duas faces se formam, alguém caminha cego,
alguém quer ver a terra na limpidez do olhar.
Alguém a viu sair, essa mulher descalça
que marcha ao longo do muro impaciente e cega?
Apenas um murmúrio sobre as ondas visíveis,
apenas o perfil do cavalo sem a força.
É preciso dormir sobre escadas marinhas,
é preciso voltar à luz do muro, à sombra,
é preciso que a onda nasça de outra onda.
E cavalo e mulher na nudez mais perfeita
são as figuras vivas do sentir mais completo,
a perfeição do ser na frescura da forma.
Fernando Pessoa
Ininterrupto e unido guia o teu curso
Lídia, e sereno para o mar distante.
Teus manes não to param.
Interrompem-to apenas.
Mas conta tu as tuas próprias horas,
À tua espera dá-te incerta Naiade
Que a porta te não está
Tua segunda vida...
Condescendente p'ra contigo própria,
Deixa aos certos Letes de fugir
Vive com a verdade
No instante dos demónios
Que alhures a saber preso com deles
O céu do Fado, gozam a delícia
Altiva de viverem
Onde guardam suas vidas.
António Ramos Rosa
Rios E Rios, Palpitação Extrema.
de uma linha sem ruptura. De que matéria
escrita? Todas as linhas se articulam
para o cavalo e o salto.
Com os ossos da testa enfrenta os muros da noite,
a corrida ofegante sabe o fim vermelho,
uma única estria ilumina-lhe o dorso.
Longa linha delida e dolorosa, mas una.
Atravessas as brancas
muralhas. Sobre a palpitação.
Há insectos na erva, nas margens
dilaceradas.
A tua marcha atinge o ponto de ruptura.
Todo o céu rebenta na mais viva ferida,
ó noite mais nocturna, fixação explosiva.
Rui Costa
Autobiografia
Não preciso mas tu sabes como eu sou
encaminho-me pouco divirto-me assim nas copas
das árvores soprando pensamentos para o mundo que há de noite.
As pessoas quando acordam são outras, já sabias,
essa névoa contemporânea do medo miudinho
que perdemos nas cidades e nos corpos, tu entraste
antes de mim nos jogos, o enxofre da música e o
lago do feitiço, inocente homem breve que sonha
tu bem sabes.
Depois aluguei a bruxa por uma vasta noite.
E a minha vida mudou, a noite cresceu.
A vertigem ardeu-me nos braços até à sangria
do tédio quando para sempre julguei que te perdia.
Na luta perdi um ou dois braços,
mais do que o que tinha. Mas esta memória é um palácio,
são corais no pensamento. Jardins e fantasmas.
O gume nas mãos sorvendo, criança estratosférica
e profunda: sem braços e agora sem mais nada,
não me percebeste, enchi-me de fúria.
É uma arte, queria eu dizer, matar sem retrocesso e
atraso – ah aqueles braços para apoiar as mãos –,
ceifando. Saturno e o vento na proa erguendo.
O navio no mar parado, parado: completamente.
Parado como dizer? Não dizer, eu sou uma vida
medonha e múltipla. E agora descanso
deitado nestas mãos que mexem
sem apoio, sabes, nascendo dos teus olhos
p’la manhã.
Fernando Pessoa
7 - I feel pale and I shiver
What power of the moonlight
Tremulous under the river
Thus pains me with delight?
What spell told by the moon
Unlooses all my soul?
O speak to me! I swoon!
I fade from life's control!
I am a far spirit, e'en
In the felt place of me.
O river too serene
For my tranquillity!
O ache somehow of living!
O sorrow for something!
O moon‑pain the sense‑giving
That I am vainly king
In some spell‑bound realm mute,
In a lunar land lone!
O ache as of a dying flute
When we would have't play on!
Jorge Luis Borges
Elegía [2]
una el Océano, que habló con Claudio,
otra el Norte de aceros ignorantes
y atroces en la aurora y el ocaso,
la tercera muerte, ese otro nombre
del insaciado tiempo que nos roe.
La carga secular de los ayeres
de la historia que fue o que fue soñada
me abruma, personal como una culpa.
Pienso en la nave ufana que devuelve
a los mares el cuerpo de Scyld Sceaving*
que reinó en Dinamarca bajo el cielo;
pienso en el alto lobo, cuyas riendas
eran sierpes, que dio al barco encendido
la blancura del dios hermoso y muerto;
pienso en piratas cuya carne humana
es dispersión y limo bajo el peso
de los mares errantes que ultrajaron.
Pienso en mi propia, en mi perfecta muerte,
sin la urna, la lápida y la lágrima.
[*] Scyld es el rey de Dinamarca cuyo destino canta el exordio de la Gesta de Beowulf.
El dios hermoso y muerto es Baldr cuyos sueños premonitorios y cuyo fin están en las Eddas.
"La rosa profunda" (1975)
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 416 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
António Ramos Rosa
Olhos de Terra Ou de Água Ou Mesmo de Árvore
podem vencer a inércia e os próprios olhos nascem
para verem outros olhos (diferença-identidade),
a luta que se trava de olho a olho na água.
Raso, deixo-me erguer por esta imagem só.
Antes dos olhos terra (não imagem), antes da árvore
a água
e assim antes do poema a terra do poema.
Porque há um chão de terra no poema
e um cavalo que pasta a solidão real
e só real é o fim ou o princípio da água.