Poemas neste tema

Mar, Rios e Oceanos

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Realidade

Macedônio botou o dinheiro na mesa, comprou a velha Fazenda do Ribeirão.
Nunca fui lá, mas sentia a terra pertinho de mim,
a água mineira borbulhando com vontade de ser rio,
refletindo a criação.

Macedônio é de mandar.
Seu primeiro ato de proprietário foi um decreto:
“Dagora em diante esta é a Fazenda da Palestina”.

Tudo se desmancha a essa voz:
a água corre para a Bíblia,
a terra foge no tempo-espaço,
a fazenda vira presépio.
1 192
Mauricio Segall

Mauricio Segall

Na ponte de comando

Na ponte
de comando
da nave que singra as vagas
como a noz que flutua na corrente
a vista comanda a linha do horizonte
avistada no infinito
pelo navegante de todas as eras
que no convés ou tombadilho
tal escultura de pedra
perscruta sem piscar
e migra do longe para o perto
para imergir do fora para o dentro
na hipnose do encontro do céu e mar.

A coragem preparada para o mergulho
na cachoeira do fim do mundo plano
como a flechada da gaivota para o fundo
do oceano turvo de um mundo curvo
sonhando sempre com mistérios e perigos
da descoberta de algum novo porto

Portal de horizontes mais profundos.

873
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

O Primeiro Homem

Era como uma árvore da terra nascida
Confundindo com o ardor da terra a sua vida,
E no vasto cantar das marés cheias
Continuava o bater das suas veias.

Criados à medida dos elementos
A alma e os sentimentos
Em si não eram tormentos
Mas graves, grandes, vagos,
Lagos
Reflectindo o mundo,
E o eco sem fundo
Da ascensão da terra nos espaços
Eram os impulsos do seu peito
Florindo num ritmo perfeito
Nos gestos dos seus braços.
3 123
Ribeiro Couto

Ribeiro Couto

Serenata em Coimbra

Por vós e de um só nome eu te chamaria,
Não fosse a inclinação ao natural — infanta! —
E o pudor que também mais alto se alevanta
No meu vocabulário e na minha poesia.

Passaste com um cântaro à cabeça.
E eu — Mondego, Choupal, Camões, Rainha Santa —
Outro nome não sei que te valha e mereça.
Infanta? Pobre rapariga,
Havia sugestões clássicas pelo espaço
E eras infanta, sim, na paisagem antiga:
Parecias pisar o mármore de um paço.
(Era estranho que eu não ouvisse o burburinho
De fidalgos em ala a oferecer-te o braço.)

Entre escuros portais vejo-me a errar sozinho.
Vai alta a noite. Em que casa moras?
Na colina, uma luz entre tantas
(Não de castelos de rainhas e de infantas)
Será tua janela ainda acesa a estas horas.

Amanhã voltarás ao rio, lavadeira.
Dorme... Dentro da noite um refrão de modinha
Sobe da terra ao céu numa voz estrangeira:
Se coimbra, se Coimbra fosse minha...

1 115
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Gruta de Camões

Dentro de mim sobe a imagem dessa gruta
Cujo silêncio ainda escuta
Os teus gestos e os teus passos.

Aí, diante do mar como tu transbordante
De confissão e segredo,
Choraste a face pura
Das brancas amadas
Mortas tão cedo.
2 330
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Painéis do Infante

Príncipes do silêncio ó taciturnos
Por quem chamava nos longínquos céus nocturnos
A verdade das estrelas nunca vistas.

A vossa face é a face dos elementos,
Solitária como o mar e como os montes
Vinda do fundo de tudo como as fontes
Dura e pura como os ventos.
1 801
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Senhora da Rocha

Tu não estás como Vitória à proa
Nem abres no extremo do promontório as tuas asas
Nem caminhas descalça nos teus pátios quadrados e caiados
Nem desdobras o teu manto na escultura do vento
Nem ofereces o teu ombro à seta da luz pura
Mas no extremo do promontório
Em tua pequena capela rouca de silêncio
Imóvel muda inclinas sobre a prece
O teu rosto feito de madeira e pintado como um barco
O reino dos antigos deuses não resgatou a morte
E buscamos um deus que vença connosco a nossa morte
É por isso que tu estás em prece até ao fim do mundo
Pois sabes que nós caminhamos nos cadafalsos do tempo
Tu sabes que para nós existe sempre
O instante em que se quebra a aliança do homem com as coisas
Os deuses de mármore afundam-se no mar
Homens e barcos pressentem o naufrágio
E por isso não caminhas cá fora com o vento
No grande espaço liso da luz branca
Nem habitas no centro da exaltação marinha
O antigo círculo dos deuses deslumbrados
Mas rodeada pela cal dos pátios e dos muros
Assaltada pelo clamor do mar e a veemência do vento
Inclinas o teu rosto
Imóvel muda atenta como antena
3 108
Ricardo Madeira

Ricardo Madeira

Em Vales Encantados

O rio parou
E perguntou
À bela princesa (que na margem
Olhava o reflexo da sua imagem)
O porquê das suas lágrimas.

Depois continuou
E dias depois voltou
Carregando na sua corrente
Mensagem de teor urgente
Enviada pelo príncipe.

Milhares de flores,
Mil dores e amores,
Orquídeas, papoilas e rosas
Que flutuavam vagorosas
Desde destino longínquo.

E uma sublime doce canção
Atravessou os vales encantados
Serpenteando entre o silêncio
Daqueles bosques perfumados.

930
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Figurante

(uma canção)

Tantas palavras não ditas
na vida (fadiga)
o que buscamos está longe
está perto demais
aportado no cais

Buscando verdades me apego
a mentiras
dias desse qualquer dia
me rendo ao que sou
ou serei jamais

Nas mãos o que resta do
grande artefato
plano bordado de coisas errôneas
quase sempre banais

Movimento sereno de um corpo
enrustido de mágoas
lágrimas molham e ferem
o olhar

NÃO PAGAREI OS PECADOS DO [MUNDO
QUERO ANTES UM PORTO SEGURO
NAUFRAGAR MEUS DESEJOS[INCERTOS
ANCORAR MINHA SEDE NO MAR

NÃO SEREI HERÓI DESTE TEMPO
FIGURANTE DE UM SONHO A MAIS
NO CENÁRIO DE EXTREMO[CONFLITO
DESTE CIRCO ARMADO NO AR

Tantos momentos que a gente
descobre
de repente se morre
e ficamos de luto
em pleno verão

No céu desses olhos
o brilho mais forte
fugindo do norte
caímos na angústia
da agreste ilusão

Os filhos nos braços
os braços cansados
lábios cerrados
perderam o brilho e a cor
e o som

NÃO PAGAREI OS PECADOS . . .

864
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Cais

O cais é o fim
e o início
chegada e ponto de partida.

Abraça as ondas,
recolhe navios
e retém vez ou outra
pedaços de vida
(uma saudade que fica)

Hoje o mar está calmo
E o cais medita
(penso na vida)
refaço os erros
do dia a dia.

Náufrago das horas
sou como o cais,
da eterna reconstrução
da vida.

Um bem estar me habita.

Sou no cais um
porto seguro
e me sinto forte e íntegro.

935
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

No Alto Mar

à memória do meu Pai

No alto mar
A luz escorre
Lisa sobre a água.
Planície infinita
Que ninguém habita.

O Sol brilha enorme
Sem que ninguém forme
Gestos na sua luz.

Livre e verde a água ondula
Graça que não modula
O sonho de ninguém.

São claros e vastos os espaços
Onde baloiça o vento
E ninguém nunca de delícia ou de tormento
Abriu neles os seus braços.
4 174
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

No Mar Passa de Onda Em Onda Repetido

No mar passa de onda em onda repetido
O meu nome fantástico e secreto
Que só os anjos do vento reconhecem
Quando os encontro e perco de repente.
2 074
Mário Donizete Massari

Mário Donizete Massari

Mar

As ondas fogem
e chegam à praia,
mas inconstantes que são,
regressam logo
para o refúgio das
águas.

532
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Barcos

Um por um para o mar passam os barcos
Passam em frente de promontórios e terraços
Cortando as águas lisas como um chão

E todos os deuses são de novo nomeados
Para além das ruínas dos seus templos
2 304
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Cais

Para um nocturno mar partem navios,
Para um nocturno mar intenso e azul
Como um coração de medusa
Como um interior de anémona.
Naturalmente
Simplesmente
Sem destruição e sem poemas,
Para um nocturno mar roxo de peixes
Sem destruição e sem poemas
Assombrados por miríades de luzes
Para um nocturno mar vão os navios.
Vão.
O seu rouco grito é de quem fica
No cais dividido e mutilado
E destruído entre poemas pasma.
2 778
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Dia do Mar No Ar, Construído

Dia do mar no ar, construído
Com sombras de cavalos e de plumas.

Dia do mar no meu quarto — cubo
Onde os meus gestos sonâmbulos deslizam
Entre o animal e a flor como medusas.

Dia do mar no ar, dia alto
Onde os meus gestos são gaivotas que se perdem
Rolando sobre as ondas, sobre as nuvens.
4 170
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

A Estátua

Nas suas mãos a voz do mar dormia
Nos seus cabelos o vento se esculpia

A luz rolava entre os seus braços frios
E nos seus olhos cegos e vazios
Boiava o rastro branco dos navios.
2 573
Romulo Gouvêa

Romulo Gouvêa

Nossas bocas

Nossas bocas são portas
onde há fluxo e refluxo
por onde passa tudo.

Passa paixão
passa amor
passam sentimentos e carinhos.

Por elas passa o mar
passam os rios
passam todos os caminhos.

Por elas só não passa o tempo.

Elas têm a mesma temperatura,
mesmo calor, mesma ternura.
São de mesma estrutura.

Nossas bocas, neste beijo, são portas
portas abertas
por onde passam nossas descobertas.

946
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Descobrimento

Um oceano de músculos verdes
Um ídolo de muitos braços como um polvo
Caos incorruptível que irrompe
E tumulto ordenado
Bailarino contorcido
Em redor dos navios esticados

Atravessamos fileiras de cavalos
Que sacudiam suas crinas nos alísios

O mar tornou-se de repente muito novo e muito antigo
Para mostrar as praias
E um povo
De homens recém-criados ainda cor de barro
Ainda nus ainda deslumbrados
2 326
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Vi

Vi países de pedras e de rios
Onde nuvens escuras como aranhas
Roem o perfil roxo das montanhas
Entre poentes cor-de-rosa e frios.

Transbordante passei entre as imagens
Excessivas das terras e dos céus
Mergulhando no corpo desse deus
Que se oferece, como um beijo, nas paisagens.
2 128
Charles Baudelaire

Charles Baudelaire

PERFUME EXÓTICO

Quando, cerrando os olhos, numa noite ardente,
Respiro a fundo o odor dos teus seios fogosos,
Vejo abrirem-se ao longe litorais radiosos
Tingidos por um sol monótono e dolente.

Uma ilha preguiçosa que nos traz à mente
Estranhas árvores e frutos saborosos;
Homens de corpos nus, esguios, vigorosos,
Mulheres cujo olhar faísca à nossa frente.

Guiado por teu perfume a tais paisagens belas,
Vejo um porto a ondular de mastror e de velas
Talvez exaustos de afrontar os vagalhões,

Enquanto o verde aroma dos tamarineiros,
Que à beira-mar circula e inunda-me os pulmões,
Confunde-se em minha alma à voz dos marinheiros.

5 212
Mário Beirão

Mário Beirão

Moda Alentejana

A ribeira do Xacafre
Vai rasa dos meus cuidados:
No escuro das águas tristes,
Há laivos ensanguentados…

Ó meus olhos, ó meus olhos,
— Noite e dia — que estais vendo?
A ribeira do Xacafre,
Da minha alma discorrendo!

Na ribeira do Xacafre,
uma voz suspira fundo:
A voz da minha saudade,
A despedir-se do Mundo!

Aldeia de Montes Velhos
Não posso querer-te mais:
És a luz do sol-nascente,
Abrindo, em flor, nos meus ais!

Aldeia de Montes Velhos,
És sempre luz de alvorada,
És sempre rosa do altar
Da chama duma «queimada»!

Eu hei-de florir na urze,
Arder no vento «suão»,
Lá, na Charneca das Naves,
Mar alto da Solidão! —

1 316
Sérgio Mattos

Sérgio Mattos

Pancada Grande

Refúgio de andorinhas,
a cachoeira da Pancada Grande,
como um véu sagrado,
protegeu o casal enamorado,
selando um compromisso
mágico, colorido e acalorado.

Sob a força da água corrente
ouvi as três pancadas
da cachoeira, marcando o compasso
das batidas dos corações.

Batidas aceleradas,
cheias de vida e ação,
buscando preencher os espaços,
físico e espiritual,
num verdadeiro ritual,
criando elos de aço
que não podem ser rompidos
nem corrompidos.

— O elo une amizade, sentimentos,
alegrias, sofrimentos
e experiências de vidas passadas.

832
Antero de Quental

Antero de Quental

Oceano Nox

Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o voo dum pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas vagamente…

Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que ideia gravitais?

Mas na imensa extensão onde se esconde
O inconsciente imortal só me responde
Um bramido, um queixume e nada mais.

2 124