Poemas neste tema

Mar, Rios e Oceanos

Cândido da Velha

Cândido da Velha

As idades da pedra - I

É do mar que vêm estas vozes
silabando a linguagem das marés,
gravando na areia estranhas grafias
onde, quem sabe ver, desvenda o rumo
no sobressalto das ondas.

Este permanente arfar marinho
desperta a ressonância de oculto escuro
de obscuros templos submersos onde o coração,
descompassadamente, se perturba
na iminência do segredo revelado.

Cheiros de primeira pâtria,
nesta urgência de sal em nossos membros,
atrai as pegadas para a líquida planura
pela saudade de verde glauco
que estira o corpo na fronteira do mar.

Reminiscência da primeira voz,
neste marulhar à concha dos ouvidos,
desperta nossa cólera e angústia
de malograda fuga e de nos vermos,
na babugem das águas, de olhos vítreos,
adormecidos peixes sobre a areia.
1 140
Neves e Sousa

Neves e Sousa

Ilha de Moçambique

Ilha de oiro e angustia
Feita de sol e de prata
Marfim talhado em relíquias
Cobre batido do vento
Num moinho de saudades.

Fortaleza escancarada
A memórias esquecidas...

Senhora do Baluarte velando
As brancas velas do Canal.

Sermões de S. Francisco Xavier
Guardados nas rochas de coral.

Riquexos vagueando ao sol
Brancas praias sonolentas
Enfeitadas de saris e cofios
Brancos, pretos, encarnados

E rostos cor da verdade
De viver num monumento
De prata, de oiro e de cobre
Cobre batido do vento...

Portico dos sonhos, momento
de indias descobertas e vencidas
Monumento, monumento,
De memórias esquecidas...

Além-portas de marfim
Paredes meias com a História
Dentro da fama e memória
Para que nela sempre fique
A Ilha de Moçambique.
1 299
Luís António Cajazeira Ramos

Luís António Cajazeira Ramos

Angústia Precipícia

Como posso estar só, se estou sempre comigo?
Minha ausência é a presença que tanto persigo.
Quero estar só, sem mim, pra não ter um motivo
pra tentar escapar do desgosto em que vivo.

Tenho lágrimas metafísicas — eu sei
que há muito que não choro, desde que gostei,
há pouco, quando alguém me disse que não vem
mais agora, e agora eu não quero mais ninguém.

Queria a solidão mais rústica e absorta,
como um coral num mar sem onda que o revolva
— e eu, sem jeito, sem fim, consumindo a revolta...

Revolta que é de mim, de estar preso a mim mesmo,
como um coral num mar sem fim — e eu, sem desejo,
sem revolta, sem nada que me traga apego.

929
Ronaldo Bonfim

Ronaldo Bonfim

Haicai

Cachoeira

As pedras quebram
o espelho d’água e
refletem o sol.

O grilo imita
o som do atrito
carro de boi.

1 008
João Maimona

João Maimona

Arte poética

Que erosão
no choque genésico das marés
de encontro às pedras habitadas.

Cai areia na areia.

Assim o gasto da palavra
limando os duros conformismos
libertando as verdades mais remotas
tão necessárias ao fruir dos gestos.
1 451
José Sarney

José Sarney

Meditação sobre o Bacanga

As águas passam
É lua e as casas aparecem.
Sou eu. Narciso que se olha
E fenece.

Tudo é sombra, sombra e nada,
água e silêncio nas folhas e vales
rompidos pelo Bacanga em sulcos
de madrugada.
Faixa de vento na montanha a encher e vazar:
címbalos onde o tédio geme.

É o gigante do não esquecer e as vozes do mangue.
Sangue correndo das imagens mordidas
pelos dentes estranguladores da noite.

Narciso se olha
Satanicamente o brilho dos olhares
buscam
o que não existe mais.

Ele vivia além e tinha fome, mas pensava.
Comeu os pensamentos devorando os dias
o nome e a noite.
Doce rio que vem e bóia
na enseada.
Águas barrentas, sujas,
Liberdade que morreu
e se afoga
no Mar.

Medito sobre mim que já sou morto:
as canções fúnebres que me pesam
como pedras no vazio do
lembrar.

— Barquinho de vela
que vai sobre o mar.
Boneca amarela
que me vem roubar.

meus olhos fenecem e o presságio dorme
no espelho das águas que
escorrem.
(A Canção Inicial / l954)

1 707
Teobaldo Virgínio

Teobaldo Virgínio

Rota longa

Irei na rota branca
da rosa de espuma
na hora madrugada
promissora da brisa.

Rota longa rota longa

Irei com a pétala ressequida
da tórrida paisagem
para além das distâncias secas.

Rota longa rota longa

Rota longa de espuma
vou irei espalhar minhas pétalas ressequidas
na hora madrugada
das correntes desatadas.

Rota longa rota longa

Vou irei sem detença
para além das distâncias secas
em busca do abraço ancorado
na outra margem da curva líquida.

Rota longa rota longa

Vou irei na hora alta desta vigília
e a manhã clara acontecerá.

Rota longa rota longa

Vou irei contra todas as cadeias protestantes do meu rumo
em cada protesto que embarco
na ondulação que se desatraca.
1 145
Luiz Augusto Kehl

Luiz Augusto Kehl

Tintim

Entre a noite e a aurora, nalguma hora em que vaga a mente
e vê o que foi sem ter sido,
noutras noites, a bordo daquele cargueiro rangente,
na Filipina distante, ou nalgum porto, no Pacífico imenso,
pedras do calçamento molhado rebrilhantes à luz da lua,
meandros de ruas e casas à fraca vela dos postes,
ninhos de putas às portas dos bares em que nunca estivemos,
sombras e luzes e o girar lento das palmeiras e das pás de vento
pendentes no teto descansando, banhando-se nas fímbrias e nas
réstias
de luz por entre cortinados de bambu, e a fumaça
de milhares de cigarros vagabundos misturando-se
aos perfumes molhados da selva e das veredas tropicais sob as
estrelas;
e embarcávamos resolutos
nalgum navio de ferro e homens suados em que não fomos
tatuados de amor e morte entre calados sábios papagaios,
sinais de rádio e de telégrafo, carcaça balouçante entre as ondas
e o praguejar do cozinheiro, relâmpagos e trovões oceânicos
rugentes
sobre os lamentos cavos das vagas a nos tragar
e a nos vomitar um dia nas calmarias e no sal do mar, a nós
inebriados do sal lambido dos sovacos das cadelas das bairas dos
cais
a naufragar-nos dentro da goela macia da baleia, entranhas
de mobydick e matahari, sexo dos contrabandistas e dos piratas
e nada além de uma página de pergaminho virada encharcada
coberta de nada, e significando tudo.

495
Luiz Ademir Souza

Luiz Ademir Souza

Pilões 1

Não há de ser breve
o encontro que terei com o rio
A palavra-chave é a sépia
da sua cor
da sua voz latina
Não vou dizer que toda água
corre para o mar;
o oceano não há de ser rápido
-o seu murmúrio a encenar movimento
perigo
se expande com a luz tão fria da manhã
No silêncio da foz e do brilho
a corrida do homem pode livrar
água de pau e pedra
seja de líquido manso ou forte
de ventura ou encanto.

1 036
Ribeiro Couto

Ribeiro Couto

Santos

Sobre a cidade a tarde cai de manso.
Começam a acender-se luzes mortiças
Nos longos mastros dos transatlânticos ancorados.
Como é longo o cais envolvendo a cidade inteira
Com os chatos armazéns e os guindastes em fila!
Como é longo o cais junto às águas oleosas!

Presos à amurada baloiçam botes vazios.
Vêm conversas confusas de marinheiros
Dentre vagões atulhados de carvão de pedra.

Nossa Senhora do Monte Serrat protege o comércio.
A igrejinha branca lá está, no alto do morro,
Abençoando a fadiga dos homens suarentos.

Junto a estas águas oleosas nasci.
Nasci para sonhar o bem difícil das viagens,
O encanto triste dos amanhãs do exílio.
O apito imenso das sereias, nas partidas,
Foi a música maravilhosa dos meus ouvidos de criança.

Ó transatlânticos com bandeiras enfeitadas,
Não é verdade que viestes para levar-me?


Publicado no livro Um Homem na Multidão (1926).

In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.13
1 341
Fernando Couto

Fernando Couto

Na agreste paisagem

Na agreste paisagem de dunas
expira a vastidão da savana.
No areal se sepulta o choro do mar
em seu clamor e seu soluço
e a fúria do vento largo
veste de saliva os arbustos sobreviventes.

Mangal de raizes nuas
doí-me o desespero dos teus dedos
ainda longos e cravados à terra.
Na orla do tempo, as aves marinhas
contemplam os despojos com olhos tranquilos
e nos conturbamo-nos à vista
dos despojos e do jeito dos pássaros.

Aqui, só nos vemos
a delgada fímbria do encontro
da morte e da vida
e conturbamo-nos.
E, amando-nos,
avivamos o traço esguio e sinuoso
dessa fímbria de encontro de morte e da vida
1 125
Mário Faustino

Mário Faustino

Gaivota, vais e voltas

...
Gaivota, vais e voltas,
gaivota, vais — e não voltas.
Somem-se os homens, deixam-se os peixes
ir à deriva —
mal se respira
o ar do mundo
e experimenta-se a voracidade
do mar, do fundo
envenenado:
esperma — e mente,
ira — e sorriso,
esperança — e dança.
Alguém traz a mirra,
traz açafrão, azeite, vinagre:
eis o homem disposto, com suas faixas,
ei-lo em templo deposto, entre seus panos.
Maresia, santidade — que perfume!
Exaure-se a vela de ouro, esgota-se o pavio,
cala-se alguém que não quis beber seu cálice,
alguém que não quis beber,
alguém que não quis
o mar, em vão e nada, o árduo mundo,
gota após gota, anos e anos.
Contemplando o poente, os albatrozes
refletem-se nos elmos derrotados.
Alguém canta o refrão. As algas dançam
no mar de vinho amargo. Xerxes, Xerxes,
açoite após açoite,
agora, enfim, é noite
e esvaem-se os navios.
— É esta, então, a Vera Cidade?
— É essa, Adão, a tua verdade?
Alguém não quis viver,
alguém não quis seu fardo, suas rotas,
alguém entre alcatrazes,
entre peixes vorazes, ser disforme —
santo lume nascente, ou heresia?
Um rei entre santelmos —

(pássaro, pássaro, cala-te, dorme,
Lázaro, Lázaro, vai-te, não voltes.)


Publicado no livro Poesia (1966). Poema integrante da série Esparsos e Inéditos.

In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
1 428
Mário Faustino

Mário Faustino

o eixo: a envergadura: a tempestade: o todo

...
o eixo: a envergadura: a tempestade: o todo-
ária de pranto, advento de borrasca,
o mar sem remo tolda os horizontes,
Bóreas tem asco deste canto e vai-se —
a este, o meio. O mar, alto e bifronte,
o mastro verga ao peso de seus astros,
tudo perdura e passa, Vasco e pano,
a hora atordoada, a ponte, o gado —

estado, tempo insone, maremoto
o peixe em seu sepulcro, o céu doloso,
piso estelado, fulcro de tormentos,
nasce de baixo um feixe, um arco, um pasto —

inviolável ave, procelária,
próxima de seu cume, vela e prumo,
alemar, terraquem, céu soto e supra,
solto esqueleto alado, escuma e sulco,

protelado corcel e corolário
do mar e dor do ar e surto e fumo,
esquálido estilete, flecha e rumo,

esquálido estilete flecho e rumo.


Publicado no livro Poesia (1966). Poema integrante da série Esparsos e Inéditos.

In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
1 214
Luís António Cajazeira Ramos

Luís António Cajazeira Ramos

A Estrela de Davi

(salmo do bom pastor)

A estrela de Davi me ilumina
a cada entardecer, no crepúsculo,
quando há escuridão nas esquinas,
e a noite cai num véu que é só luto.

A estrela de que falo é do mar,
achada por Davi nas areias
onde ele se deitou, a sonhar
com as ondas que sopravam sereias.

O menino Davi, de quem falo,
é o bom filho de Sara. Tão raro
alguém ser bom assim: deu-me a estrela!

E a estrela de Davi me ilumina,
pois ela é tal e qual lamparina,
se lhe enfio dentro, acesa, uma vela.

1 513
Albano Dias Martins

Albano Dias Martins

Elegia

em forma de epístola

A circunstância de sermos homem e mulher
presos por uma aliança tácita
e secreta
do sangue
é que nos prende à vida, meu amor, e nos salva.
Nascemos sem
passaporte,
entre fronteiras guardadas
por sentinelas de sal e de silêncio.
O rio da história
corre, estrangulado, entre as pedras,
e o cascalho, e os detritos humanos,
e a alegria suicida das coisas limpas e puras
abandonadas e soltas à vertigem da morte.
Construímos
para nossa defesa
um muro de ironia e de sarcasmo
– imponderável cortina
de humana ternura envergonhada
ou, como tu dizes, perseguida.
O silêncio
é a corda
que nos prende aos mastros,
a antena vegetal por onde
a vida se insinua,
universal e atenta.
Marinheiros
duma pátria
ancorada no tempo,
bebemos o sal dos minutos que passam
e adormecemos, hirtos, de costas para o mar.

in:Coração
de Bússola(1967)
1 113
Albano Dias Martins

Albano Dias Martins

Horizontal

o mar, a mor
te. Vertical
o desejo.
1 116
Renata Pallottini

Renata Pallottini

Olha, que no Verão

Olha, que no verão a lua nasce
vermelha dentro d'água
nesta praia.
Acendamos o fogo para vê-la
e para ver-nos. Já é quase noite
o mar só faz de conta com sua água múltipla
breve virá o rastro de ouro e sangue.

A lua sempre comoveu mulheres
seus ciclos, suas datas,
seus períodos
a lua sempre motivou os gatos
maré de bons resquícios
sexo e fluido;

gemendo nos amamos
e gemendo explodimos nos sismos do parto.
As mulheres são fossos onde a lua dorme
e desperta furiosa
a cada quatro casas.

Nada mais do que sou
me basta
neste instante;
o que fui já passou há muito tempo;
não devemos voltar nem pra recolher os destroços
fossem de ouro os restos
não voltemos;

deixa na praia os pedaços de troncos
ou joga-os na fogueira
de areia e ossos.

Pode tardar a lua; a hora não importa
à senhora dos sulcos e das lavras do mar.
Ela tem o seu tempo, o tempo das crateras
o lívido da pele do seu centro
o ouro do seu carmim
no nascimento.

Pode tardar a lua
Vem
O fogo
é dentro


In: PALLOTTINI, Renata. Ao inventor das aves. São Paulo: Edicon: J. Scortecci, 1985. (Aldebaran
1 489
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Cantata Para Francisco Carvalho

O mar aquece a palma da mão e verdeia a alma.
Singro a água com sentido na barca. Orquídeas
no mastro trazem a força das palavras. Girassóis.

O que somos está nos dedos. Plantamos o trigo e escutamos
o vento. São crônicas das raízes amanhando faces no sono.
Marejamos distância e velamos o arco-íris na praia.

A noite sopra o mistério do Ceará. O som do atabaque
acorda os lábios. O poeta prepara a alquimia. O galope
do Pégaso ronda montanhas e cobre de borboletas a túnica
dos serafins.

Francisco Carvalho compõe sonatas leves como asas de pássaros.
O homem dorme ao som da música. O Aquilão chega, o barco à deriva.
Punhais sangram anjos maus no fim da lua.

O sol nasce, crescem pombas. O poeta veleja imagens e coloca
tâmaras em meus olhos. Sinto a cor da poesia nos poros. Banho
de eucalipto o leito. A chuva é o bálsamo do homem.

Canto o poeta que desfolha nuvens nos dentes:
vive no pêndulo do relógio de Minas. Amadurecendo uvas.

994
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Mar Interior

O veleiro se perde no mar. No mastro,
cicatrizes do rosto. Espero a maré.
A volta da vela branca purificando
os olhos.

No horizonte o azul estagnado.
A ternura do tempo das amêndoas.
O beijo ficou além da geografia
e crucificou o lábio seco.

Sou marinheira do cansaço, da aceitação.
O desamor toma conta do mar interior.
Salgo a retina na água verde. O vazio
contorna os dedos. Dedos esquecidos do calor.

O que existe além dos nossos olhos?
Uma flor branca esperando o branco dente.
O exílio se alonga e a vida é cardume.
Há de chegar o vento. A imensidão dos anos.
Pouso da terra.

1 155
Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Homens de Lã

Todos os limites planaram
na linha do infinito. Descobrirei
o segredo das sementes, a calma
de suas raízes. O peixe, o barco
no mar. Anjos mergulhando sorrisos
no rosto. Terra orvalhada de chuva.
Montanhas vasando imagens do vento.
Antes da queda do poeta,
carneiros não deixarão os homens
roubar a lã.

737
Roberto Pontes

Roberto Pontes

Sutil Tecido de Sal e Concha

por Lúcia Helena
Acabo de ler o livro de Robeto Pontes, e a associação que de pronto me ocorre remete-me ao conceito que a Psicanálise tem formulado sobre o texto literário: "escrever é evitar o assassinato do desejo". E se o homem é este ser desejante, espécie de Prometeu acorrentado, de Sísifo que continuamente se debate com a perda de si e do outro, esta associação me ocorre em relação ao texto de Roberto porque ele, de modo explícito, se realiza em consonância com a perspectiva estético-histórica, o amor cortês, no qual o lirismo é tematizado como manifestação do desejo nas suas múltiplas formas: seja na do desejo de escrever sobre o desejo, seja no de viver o desejo como escrita que o perpetua e resgata. Aliás, estas duas perspectivas se interrelacionam e alternam ao longo do livro, num marcante traço erótico. E não seria excessivo afirmar que a personagem central deste texto "desejante" é Eros, captado em todos os seus poros e latências.
Cada poema de Memória Corporal, livro em que até no título se tematiza a palavra se fazendo carne, reafirma incessantemente o ato de amor, através de expressivas e reiteradas metáforas, nas quais a poesia e o ato de escrever se confundem com o ato de fazer amor, num gesto múltiplo de que participam: a natureza, o amante e o objeto amado.
Surpreende-nos a riqueza e simbiose de elementos que a natureza captada pelo poeta congrega, principalmente marinhos: "Nessas águas de sal marinho/ há cogumelos, enguias, hipocampos/ nenúfares, ventosas e anêmonas" ("Há Solstício Tropical"). A natureza ora se manifesta participante, à maneira das canções de amigo, em que as personagens e o amor aderem ao cenário, chegando a ganhar suas espécies o nome da paisagem em que decorre tanto a espera quanto o encontro ou a realização do amor. Ora se torna confidente, à maneira dos românticos, em que a ambiência tende ao lunar, ao silêncio, ao melancólico; ora, ainda, se mostra contundente, ao remeter, de modo inesperado, a correlações semânticas que instalam uma carga corrosiva, através das quais marca-se uma ruptura com o clima idílico predominante na obra: "Nos teus colares de coral rochoso/ os sátiros fecundam salamandras/ e entre moluscos de anemia e cloro/ ejaculo gasolina incendiária." ("Há Solstício Tropical").
As personagens – tanto o amante como seu objeto amado – são apresentadas com tal capacidade de metamorfose que, a todo momento, a personagem masculina, como "fauno" de inesgotável sensualidade, se transforma em objetos fálicos, através dos quais se desloca o significante ( a "marca" do desejo ) que percorre e constitui o verbo lírico: flechas, girassóis de amianto, dedos de aço e lua, dedos de sol e ferro – são algumas das "máscaras" poéticas desse Eros irrequieto que celebra o amor e tem sabor de sal. E sua "ninfa" metamorfoseia-se em pétala, terra, água e concha, no que o poeta retoma a imagem da flor-mulher, tão cara aos líricos, e os mitos do elemento fecundável, quer seja a terra a salgar, já que o amante é sal; quer seja a da concha do mar, que ao sal também converge: "Tu me dirás que sou forte/ e tenho sabor de sal/ (...) / Eu te direi que és lisa/ e polida como uma concha" ("Este Nosso Encantamento").
E porque o texto se faz porta-voz de Eros, o desejo a todo instante também se metamorfoseia e desloca, transmudado em pássaro, gaivota, corda que vibra, corcel, raio e punhal – ao se referir à amada, numa sugestão de atividade/passividade, penetração/profundidade, na qual se expressa, de modo icônico, um determinado conceito da sexualidade masculina/feminina. Eis, então, que a mulher é apresentada, no texto, como motivo de desejo, impulsionada pela latência e espera, e o homem como o gesto que emite aquele que se apossa: "Passa por mim a sensação da posse/ que me atormenta e dói como um segredo/ e vem com os passos de animal ferido/ nas vísceras, nos nervos e no peito" ("Poema da Posse"); ou ainda: "e agora, ouve, / cantarei assim: / lábios de maçã suave,/ mãos próprias e cabíveis nas minhas,/ eu sou a fúria que desfecha golpes,/ eu sou aquele que conhece os prazeres" ("Faltando Leite, Faltando Pão").
Desde "Cinco Prelúdios" até "Epitáfio", respectivamente o primeiro e o último poemas do livro, os temas da fecundação e da cópula se anunciam e tomam a forma da imagem de um sonho circular, no qual uma pétala é engravidada pelo pingo morno que lhe afoga o ventre e se faz "liberto, líquido, livre", ao acender-se a chama do amor pelos dedos da amiga, que lampejam na noite fria. Se isto é o que se tematiza no primeiro poema, que dá ensejo à abertura do ciclo da fecundação amorosa, no último texto – discurso da memória que flui – há o desdobramento final do ciclo que evolui ao longo do livro, e "Aqui jaz o amor um dia dito". E, com resta morto o amor, cabe à palavra poética resgatá-lo.
Este ciclo – fecundação/paixão/morte/resgate – do amor justifica o título da obra: Memória Corporal, além de explicitar o sentido que o poeta atribui ao termo memória. Este é apresentado, no texto de Roberto Pontes, como uma tentativa de se apreender, surpreender e suspender o tempo. Memória como instância que torna possível ao homem resgatar, do círculo inexorável e destrutivo de vida/morte, tanto o sentimento quanto as coisas. Como se a poesia, fazendo-se na cumplicidade com a memória, se tornasse uma "verdade indestrutível" e perpetuasse, para além de Cronos, a viagem de Eros.
Uma viagem lírica, em que a beleza do efeito rítmico-sonoro a todo momento nos relembra as melhores realizações da poesia lírica, dos cancioneiros ao hoje. Uma viagem de sensibilidade que nos penetra mansamente, à maneira do amor, e outras vezes avidamente, à maneira da paixão.
Esta obra do poeta cearense Roberto Pontes, que tece o amor no traço do homem e do nome, se apresenta como uma das melhores realizações da poesia lírica contemporânea. E, acredito e desejo, ocupará seu lugar.

LÚCIA HELENA é Mestre em Teoria Literária e Doutora em Letras
pela UFRJ. Professora de Literatura da Universidade Federal
Fluminense e de Teoria da Literatura na UFRJ. Professora
conferencista nas Universidades de Lisboa (Portugal),
Pavia e Bérgamo (Itália). Ensaísta e crítica literária tem
colaborado com publicações especializadas, entre as quais:
revista Colóquio/Letras (Portugal); Revista de Cultura Vozes
Petróplis/RJ) e Revista Tempo Brasileiro (RJ). É autora de
A Cosmo-Agonia de Augusto dos Anjos (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro),
Uma Literatura Antropofágica (Rio de Janeiro/Brasília: Cátedra/INL, 1982)
e Modernismo Brasileiro e Vanguarda (São Paulo: Ática, 1996).

818
Roque da Silva Ferreira

Roque da Silva Ferreira

Haicai

Marinha

farol da barra
clareia um barco na areia
que a maré agarra...

Atração

Há uma estrela boa
no olhar que me faz lembrar
uma ave que voa...

890
José de Paula Ramos Jr.

José de Paula Ramos Jr.

Murilo Mendes ad Oraculum

Serei pastor de meus dias?
O que a alma e as cordas do cor?
Suaves sirenas sopram serenas
a manhã abismal ou delicada?
A voz do piano no caos,
firmamento,
movimento,
equilíbrio do azul rendilhado,
sussurra que segredo ao vento,
sol, lua, marés...?

............................................

Todo mortal lamento
não passa de escuma:
miragem de um susto, apenas.

836
Marigê Quirino Marchini

Marigê Quirino Marchini

Sonetos Venezianos

Melhora Amor, sorrindo, amor que tenho:
deste resto salino de lembranças
forma lagunas e o molhado lenho,
gôndolas que antecipam as bonanças;

do som e acorde, cores e aláude,
faz um quarteto de perfeita dor,
por onde, navegando em beatitude
de Veneza, em acústico langor

as vibrações nos ares geram paz,
vitrais em claridade bizantina
- abre-se o sol em círculos, refaz,

de lembranças salinas, de saudade,
Amor se espelha nágua cristalina,
dourados picos, rútila cidade.

1 075