Poemas neste tema

Mar, Rios e Oceanos

Angela Santos

Angela Santos

Em Suspenso

Deixo-me
ficar quieta e absorta
a olhar a linha que rasga
o horizonte...
e os sonhos flutuam
ao som da toada e embalo do mar

há vozes suspensas
que chegam de longe
e com elas chegam
traços e contornos…

descubro teus olhos
na ave que o céu risca
e sinto tua mão
na leve brisa que passa

As cores de um Arco Íris
inundam meu olhar
e eu deixo-me ir
nas cores desenhadas
por uma mão qualquer
que naquele instante
ligou terra e mar

Um navio ao longe
sereno atravessa
a linha longínqua
onde o azul se afunda…

o navio passa
e acorda o tempo
que eu não vi passar.

1 064
Lêdo Ivo

Lêdo Ivo

Haicai

Noite de Domingo

Acabou-se a festa.
Resta, no silêncio,
o rumor da floresta.

O Lago Habitado

Na água trêmula
freme a pálida
anêmona.

1 879
Gláucia Lemos

Gláucia Lemos

Predestinos

No dia em que tuas águas forem tantas
que, por domá-las, te farás escrava,
chamarás pelo rei que te esperava
como um troféu. E engrandeceu teu pranto.

No dia em que te vier o teu viajante
será pra te seguir na tua estrada.
Te banhará de luz na madrugada
e dormirá contigo como amante.

E no dia de partir o teu amado
Teus pés arrumarás bem a seu lado
com ele irás tecer cada manhã,

ou ele deixará a sua carruagem
e os dois - metades - se unirão na imagem
de um mesmo e doce fruto de maçã.

07.07.96

1 001
Almeida Garrett

Almeida Garrett

A Tempestade (1828)

Virgílio,
Coeco carpitur igni
I

Sobre um rochedo
Que o mar batia,
Triste gemia
Um desgraçado,
Terno amador.
Já nem lhe caem
Dos olhos lágrimas,
Suspiros férvidos
Apenas contam
Seu triste amor.

II

Ondas, clamava o mísero,
Ondas que assim bramais,
Ouvi meus tristes ais!
Horrível tempestade,
Medonho furacão,
Não é mais agitado
Do que o meu coração,
O vosso despregado,
Horrisonoo bramar!
Ancia que atropela
Meu lânguido peito,
É mais violenta
Que o tempo desfeito,
Que a onda encapela,
Que a agita a tormenta
No seio do mar.

III

Mas, ah! se o negrume
O sol dissipara
Calmara
Seu nume,
O horror do tufão.
Assim à minha alma
A calma
Daria
De Armia
Um sorriso:
Um raio de esprança
Do paraíso
Traria
A bonança
Ao meu coração.

2 376
Gláucia Lemos

Gláucia Lemos

Soneto do Rio

(A um poeta)
Aonde me levam águas deste rio
com a insignificância de uma folha,
não sei como parar, não tenho escolha,
deslizo em seixos e húmus. Sol ou frio.

Ora numa vertigem rodopio
indo à flor da corrente. Ora à bolha
da água batendo em pedras. Ora me olha
a me encantar, o seu espelho esguio.

Perderam-se os meus pés por essas águas.
Minha sorte não sei. Mas sei que trago a
ansiedade de ainda prosseguir.

Por isso é que me advirto, vez em quando,
se é mesmo o rio que me está levando
ou se sou eu quem está querendo ir...

15.07.96

1 226
Albano Dias Martins

Albano Dias Martins

Relógio Sem Ponteiros

Quando agora te debruças sobre a água do tanque, vês projetado, lá no fundo, um relógio sem ponteiros. Percebes, então, que a ferrugem é também uma qualidade e um atributo da água, e não apenas de alguns metais a que chamamos vis. E percebes ainda que já não são necessários os relógios. Tu já não tens idade, nem o tempo, que partilha do halo e da fluidez da água e é, às vezes, como ela, tão inodoro e insípido, se deixa prender, mesmo num vaso de cristal. E não podes, assim, medir-lhe a respiração. A sua duração, se preferes. Se alguma ainda subsiste, é a que é regulada pelos ponteiros do seu próprio corpo.

1 498
Alberto de Lacerda

Alberto de Lacerda

Ilha de Moçambique

Desfeitos um por um os nós sombrios,
Anulada a distancia entre o desejo
E o sonho coincidente como um beijo,
Exalei mapas que exalaram rios.

Terra secreta, continentes frios,
Ardei à luz dum sol que é rumorejo
Para lá do que eu sou, do que eu invejo
Aos elementos, aos altos navios!

Trouxe de longe o palácio sepulto,
A cobra semimorta, a bandarilha,
E esqueci poços, prossegui oculto.

Desdém que envolve por completo a quilha,
Sou bem o rei saudoso do seu vulto,
Vulto que existe infante numa ilha.

1 664
Aleilton Fonseca

Aleilton Fonseca

nova meditação sobre o tietê

"Águas do Tietê,
onde me queres levar?
- Rio que entras pela terra
e que me afastas do mar..."
(Mário de Andrade)

águas do tietê,
no jorro de tuas nascentes:
melhor ficassem paradas
em teus reflexos afluentes

tietê: índias águas verdadeiras
quando te chamavas anhembi
e tuas sinuosas ribeiras
guiavam um povo guarani

aquieta-te como lago,
esta pressa para que,
se adiante a luz de espelho
logo tu vais perder?

te insinuas por quilômetros
em teu leito decidido,
insisto no meu reclamo
mas descrês do meu aviso

segues murmurando marchas
incertas em certo destino
e mal sabes o destrato
dos esgotos mais íntimos

por teus caminhos indiretos
viajaram bandeirantes heris,
e agora bandeiam os dejetos
dos seus netos fabris

tuas águas conduziram à glória
os vencedores das regatas
nas linhas d’água da memória
da cidade que não te resgata

águas do tietê,
onde me queres levar?
- teu traçado e teu destino
não se casam com o mar...

exala antes que tarde
o aroma que será deposto!
em tua cor se resguarde
o teu sabor sem desgosto!

pois já te vão injetando
mais volume e vida a menos:
e nas tuas líquidas veias
os insanos vícios dos venenos

em tuas artérias aguascentes,
no percurso transformadas,
corre agora o pus demente:
e mal deságuas putrefatas

eis que te tornas plumas,
brancas formas cristalinas:
belo engano para os olhos,
e o odor corrói as narinas

há remédio mais perfeito
do que apenas uma lágrima,
se todos chorassem em teu leito,
lavando tuas águas da mácula

mas ninguém me escuta, corres
sem garças, só antíteses,
desde o lugar onde morres
até o pasto de lamas líquidas

águas do tietê,
onde me queres levar?
- eis as pontes e tudo é noite,
e muito longe dorme o mar...

te olho e não me vês, assim
em vão, corpo cego de águas:
em verso te afogo em mim,
em ti me afogo em mágoas...

aleilton fonseca, sp, 95

1 312
Susana Thénon

Susana Thénon

Histórias de Magia

Um garoto espera
que o mar o alcance.
Quer ser o garoto
ausente, à hora do passeio.
Se cobre de areia.
É um barco naufragado.
Um administrador para
e pensa, quatro vezes quis demasiado.
(Os números celestes determinam
aos números sujos de terra
em Cannes, nos porões violentos
de Cannes, e em
todos todos os presságios de amor).
Um louco estende a mão
e pede água, é cinza
a água com o cristal, com a parede,
com a tarde
esparramada no relógio de sol.
Um sacerdote pensa, sou um homem
com altura e pele de cepa:
Minha rosa vive ainda,
enlouquece debaixo da túnica.
Sou um sino de luto.
Um homem de sentará e dirá estou cansado
Um homem se estenderá ao sol e dirá por quê
Um homem será o bastante para dizê-lo
Um homem pulará o muro
e dirá não.
963
Américo Falcão

Américo Falcão

Náufragos

Eu, timoneiro audaz, parti, cantando,
Na galera de sonhos, pela vida.
O lindo e imenso mar atravessando...
Vento largo... bonança indefinida...

Do mar a superfície adormecida
Que o sol beijava rútilo, raiando,
Era uma veiga azul toda florida
De espuma leve em flóculos boiando.

Fazendo rumo ao porto da ventura,
Mostrou-se o céu de plúmbea face adunca
E a galera perdeu-se em noite escura...

Ai que momentos lúgubres, medonhos!
Nautas da crença, eu não me esqueço nunca,
Do naufrágio sinistro dos meus sonhos.

1 902
Jaumir Valença da Silveira

Jaumir Valença da Silveira

Cumplicidade

"Give me your hands,
if we be friends."

Se eu vos disser que o mar que agora encaro
me faz um bem supremo ou mal me ampara,
é vero que o seu sal, de gosto extremo,
talvez vos teça a fé que me declara
ser tão feliz que a morte a mim me esqueça
ou sofrimento é só com que deparo.

Mas neste mesmo mar, se eu ponho o vento
vagando pelas crispas das marolas,
haveis de crer que sinto ser mais brando
o que já imaginais das priscas horas;
o que antes era júbilo é só paz,
não passa de um queixume o tal lamento.

E se eu não venho a por escuro ou lume
na tela que o sentido me extravasa,
é que vos trago a forma mais singela
de respeitar o céu que vos abrasa:
deixando, pra tintura do papel
o vosso sentimento que nos une.

854
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Soneto 1

Nos horizontes azulados onde gemem os pássaros
há um murmúrio de mastros, longo como o pescoço
de uma estátua de virgem. Trá-lo até mim o vento
e bebo-o de um trago, numa secura ardente de poço.

No cais onde tu, sombra ausente sob os painéis
litorais, bocejas um tédio de suis, estendo os braços,
ergo-me num só pé, e todo o corpo se levanta
no êxtase dos guindastes, numa fuga de batéis.

A ilha está próxima. Desembarco. O promontório
vago acolhe o barco numa vibração de lago. Corro
entre alas de gaivotas, perdido do meu próprio

corpo; e caio em mim. Esqueci-me das malas;
deixei-me no molhe. Quem sou? Dos céus o eco inglório
me persegue. Nas valas gritam deuses por socorro.



Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 50 | Na regra do jogo, 1982
1 064
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Soneto 5

Eu tenho da vida uma sensação doente,
desarmonias moles, franjas espinais,
um rumor absurdo da visão insistente
de aranhas, répteis, moluscos, viscos animais.

Prendo as minhas impressões a um candeeiro.
A luz agarra-me, flutuo indecisamente com alterações eléctricas, quebras de corrente,
e acendo uma vela, respiro fumo, um cheiro

a cera, a mortos, ao nevoeiro de velhos portos.
Ouço, ao longe, o motor de pesados cargueiros
ancorados no rio, instáveis, os mastros mortos,

e deito-me no sofá, com pulsações; salgueiros,
plátanos, pálidos abetos à neve, orquídeas,
a minha respiração frágil como um busto de Fídias.



Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 54 | Na regra do jogo, 1982
477
Lêdo Ivo

Lêdo Ivo

Condição para Aceitar

Condición para Aceptar

Que a morte me lembre
um mar transparente,
só assim a aceito:
silêncio final
dentro de meu peito,
perfeição de vagas
brancas e caladas,
paisagem abolida
no horizonte raso
do mar sem coqueiros,
vazio do mundo
após a palavra
que quis dizer tudo
e não disse nada.

La muerte me evoque
un mar transparente,
sólo así la acepto:
silencio final
dentro de mi pecho,
perfección de ondas
blancas y calladas,
paisaje abolido
en la lontananza
del mar sin palmeras,
vacío del mundo
tras de la palabra
que pretende inflarse
y no dice nada.

1 224
Sosigenes Costa

Sosigenes Costa

I [E Romãozinho foi subindo, foi subindo

(...)
E Romãozinho foi subindo, foi subindo
e chegou na Meroaba de cima.

— Você viu a caipora?

— Não vi não.

E Romãozinho passou pela Bolandeira, cantando:

— Dom Pedro disse a Totonha
sentado naquele beco
que este rio Jequitinhonha
é o rio do estrume seco.
Dom Pedro não era peco.
Dom Pedro disse a Totonha,
Totonha disse a Pacheco.
Pacheco disse a Badico,
o burro contou à vaca,
a besta disse à perua
e a coisa saiu do beco
e se espalhou pela rua.
Este rio Jequitinhonha
é o rio do estrume seco.
Quem me disse foi Joana
que mora com seu Pacheco.
Você viu a caipora?

— Não vi não.

Nisto apareceu o amarelo empapuçado.

— Você viu Zeca?

— Que Zeca?

— Zeca Fedeca sem pé nem munheca.

— Valha-me, Nossa Senhora
que este homem é Romãozinho!
Conheci pelo pé.
E Romãozinho foi cantando:
— Botei um circo no inferno
pra as almas que estão penando
se divertirem um pouquinho e se esquecerem do fogo.
Me visto então de João Bobo
arremedo miriqui,
dou pontapés nos defuntos
e o inferno faz: quá-quá-quá
e só se vê qui-qui-qui.
Quá-quá-quá. Qui-qui-qui.

As almas que estão sofrendo
precisam se divertir.
Dou pontapé no esqueleto
me viro em menino-cobra
faço careta pra a morte
passo a raspa no capeta
e o diabo faz: quá-quá-quá
e a morte faz: qui-qui-qui.
Quá-quá-quá, qui-qui-qui.

— Você viu a caipora?
— Não vi não.
(...)


In: COSTA, Sosígenes. Iararana. Introd. apuração do texto e glossário José Paulo Paes. Apres. Jorge Amado. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Cultrix, 1979
1 204
Sosigenes Costa

Sosigenes Costa

V [Lagartixa taruíra

(...)
Lagartixa taruíra
caquende papai-vovô.
A mãe dágua da Ingauíra
lá na beira do barranco
pariu hoje uma menina
com cabelinho de branco
e zoinho de xexéu
Lete late lete lixe
encontrei com a lagartixa
onde tem a flor do céu.

A filhinha da mãe-dágua
vai ficar araçuaba.
É tão branca que parece
lagartixa descascada.
Lagartixa taruíra
caquende papai-vovô.

A filhinha da mãe-dágua
assim que nasceu no toco,
no toco do pau sentou.

A menina da mãe-dágua
come papa de banana
e também de fruta-pão
que sequei no tabuleiro
que ralei naquele ralo
que pisei no meu pilão.
(...)

A mãe-dágua da Ingauíra
fez sapato e babadô.
E a mãe-dágua lá do Pardo
que é princesa do Patipe
veio pelo Poaçu
partejar aquela flor
e aparou Iararana
cortou o imbigo, deu banho
e deu maná à menina
e enterrou ali na areia
os panos sujos de sangue
de sua prima sereia.

Lete late lete lixe
encontrei com a lagartixa
assentada na cadeira
com o rabo dependurado.

A filhinha da mãe-dágua
tem berloque na cintura
e se senta no barranco
com o rabo dependurado.
Ela é filha de uma iara

e se chama Iararana
pois não puxou à sereia
puxou todinha o pai
aquele cavalo branco.

Lete late lete lixe
encontrei com a lagartixa
assentada na cadeira
com o rabo dependurado.
Isto não é lagartixa
isto é arte do diabo.

Taruíra venha ver
sua irmã lá no barranco.
(...)


In: COSTA, Sosígenes. Iararana. Introd. apuração do texto e glossário José Paulo Paes. Apres. Jorge Amado. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Cultrix, 1979
1 459
Sosigenes Costa

Sosigenes Costa

Iemanjá

(...)
— Ê vai ê vai
a rainha do mar
rompendo mar e vento.

Orungã, não faça isto
que o mundo vai se acabar.
Não te dói a consciência?
Não desonre esta sereia,
não manche a estrela do mar.

Ê vai ê vai
rompendo mar e vento
rainha da Guiné.

Onde mora Santa Barb'a
que quero me esconder.
Vai haver um castigo,
o mundo vai se arrasar.
Já estive numa casa
e era a casa de Bará.
Onde mora Santa Barb'a?
Minha gente, me responda:
Onde mora Santa Barb'a?

— Mora den'da lua
mora den'dum rochedo.

— Ai quem me dera que eu pudesse
me esconder dentro da lua.

E Iemanjá de tão cansada
já não podia correr mais.
Ia cai não cai caindo.

— Ô Iná marabô,
faça surgir um mar de Espanha,
Inaê ou Inaô,
um espinheiro e uma neblina,
ô Iná arauê
uma chuva de navalha
pra Orungã não te pear.

E Iemanjá já não podia
correr mais e desmaiou.
E caiu no chão de costas.
Porém antes que Orungã
alcançasse Iemanjá
e tocasse nos seu seios,
o seu corpo foi crescendo,
foi crescendo e agigantou-se
e os dois seios de Inaê
se tornaram do tamanho
de dois montes sem igual
e o céu estremeceu
e a terra se abalou
e o ceú veio arriando
e queria desabar.

Quando os bicos dos seus peitos
se afundaram pelas nuvens,
sustentando o firmamento
que queria desabar,
o anjo tocou a trombeta
e os dois seios da sereia
começaram a jorrar água
com estrondo e num dilúvio
e dois rios se formaram
da água de cada um,
e a água lavou o mundo.
E o espírito de Deus vagou naquelas águas
e foi então o princípio
e a pomba do Divino bebeu das águas bentas.

E eu botei o joelho em terra
para pedir pelos filhos de Deus.

Ai a água lava tudo,
lava o que nos mancha as almas,
lava o que nos envergonha.
Quem apaga o fogo?
É a água.

Dos teus seios, Janaína
se formaram estes dois rios
que a Bahia estão lavando
para tirar o que nos mancha
e também nos envergonha.
Ora, um é o S. Francisco
e o outro é o Jequitinhonha.
Quem apaga o fogo?
É a água.
(...)

Imagem - 00830001


Poema integrante da série Obra Poética II.


In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
2 275
Juscelino Vieira Mendes

Juscelino Vieira Mendes

Nu como um Yanomami

A Soares Feitosa, e à sua criação: PSI, a Penúltima!

Percorro o meu interior
E me vejo nu como um yanomami.
Ando pelas encostas do meu ser
e vejo claramente as florestas
largas e repletas de árvores fortes e floridas;
largas e repletas de frutos maduros;
largas e repletas de plantas verdes.
Ando em meio as árvores e não percebo o bosque.
em meio aos frutos e não posso comer;
em meio as plantas e não sinto o seu aroma.
Caminho em direção ao rio que vejo ao longe;
rio que tem curso calmo.
Às vezes suas águas, que nunca são as mesmas,
descem velozmente ao encontro de um mar
que é só meu, único e indescritível...impenetrável.
Ando ao encontro desse rio, cujas águas são azuis,
e chego exausto e trêmulo.
Nele molho a minh’alma que se encanta e se enleva,
e chego a perceber o bosque: imenso e úmido.
Ouço o cantar dos pássaros!
E como dos frutos das árvores próximas: maduros e doces.
Que me são permitidos comer!
E sinto o aroma das plantas adjacentes: perfume silvestre.
Cheiro suave!
Sigo atravessando o rio e não desejo chegar.
As suas margens ainda estão largas,
mas se estreitam à medida que caminho:
a passos lentos e firmes...inseguros às vezes: não desejo ainda chegar.
As suas águas continuam a bater nas encostas do meu ser.
Volto-me a mim e reconstituo o caminho de volta.
Deixo para trás um rio lento e suave a caminho do mar
que não consigo enxergar, ainda que o veja: não estou mais nu,
não me conheço. Continuo, contudo, um yanomami.

Salvador, à meia noite de 11 de janeiro/97.

1 441
Domingos Carvalho da Silva

Domingos Carvalho da Silva

Soneto Ocasional

Nas fronteiras do sonho eu te esperava,
aurora de olhos rubros e mãos frias.
Para o meu canto volatilizado,
eras um tema azul de águas marítimas.

Tinha estrela nas mãos. E surpreendia
pelo ruivo cabelo algas de encanto.
Em viagens sempre breves percorria
o cais das nuvens junto a um mar de palmas.

E quando aos poucos se despetalou
no ocaso o sonho, e a noite se tornou
realidade solitária e nua.

surgiu sobre as estrelas hesitantes,
como um lírio ofuscando diamantes,
a rosa do teu sexo em meia lua.


Publicado no livro Praia oculta: poemas (1949).

In: SILVA, Domingos Carvalho da. Poemas escolhidos. Introd. Adolfo Casais Monteiro. São Paulo: Clube de Poesia, 195
1 615
Vladimir Maiakovski

Vladimir Maiakovski

GAROTO

Fui agraciado com o amor sem limites.
Mas, quando garoto,
a gente preocupada trabalhava
e eu escapava para as margens do rio Rion
e vagava sem fazer nada.
Aborrecia-se minha mãe:
"Garoto danado!"
Meu pai me ameaçava com o cinturão.
Mas eu, com três rublos falsos,
jogava com os soldados sob os muros.
Sem o peso da camisa,
sem o peso das botas,
de costas ou de barriga no chão,
torrava-me ao sol de Kutaís
até sentir pontadas no coração.
O sol assombrava:
"Daquele tamainho
e com um tal coração!
Vai partir-lhe a espinha!
Como, será que cabem
nesse tico de gente
o rio,
o coração,
eu
e cem quilômetros de montanhas?"


2 121
João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

O Rio

ou relação da viagem
que faz o Capibaribe
de sua nascente
à cidade do Recife
(1953)
2 884
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Durante um passeio, no campo, uma águia

Desce ao nível do monte onde estou,
encostado às pedras que sobram do moinho antigo.
Paira, negra, no ar cuja transparência
se vai tornar azul, no cimo, e cinzenta
no horizonte onde o mar se adivinha.
Fica imóvel, como se fixasse a presa,
ou se tivesse esquecido da lei da gravidade.
No entanto, tem as asas bem abertas; só,
a esta distância, não é possível
ver-lhe os olhos.
Ao mesmo nível, eu e ela, apercebemo-nos
das diferenças mútuas:
presa ao espaço em busca da presa, ela;
com os pés na terra, voando em direcção
à sua imagem, eu.



Nuno Júdice | "O Movimento do Mundo", 1996
1 051
Luís António Cajazeira Ramos

Luís António Cajazeira Ramos

Poema Inédito

Canto de Sereia

A Propósito de Lágrima Súbita

Da face do prazer, surgiu a lágrima,
como se fora mágica o viver.
Do riso e da alegria, veio o pranto
— testemunha de um canto de poesia.

Mas hoje, tão sozinha e triste, a gota
singelamente solta, assim... caminha
por sobre o corpo nu, livre de obstáculo
— só dor! — sem sustentáculo nenhum...

Vem do mar uma brisa de carícia
que beija sem malícia a pele e criva
em sal a solidão deste mergulho...

No solitário pulo, uma fusão
de lágrimas do rio com o vasto mar,
num encontro invulgar de dor e cio...

837
Ana Suzuki

Ana Suzuki

Haicai

Noite na praia...
Os pescadores recolhem
a estrela cadente.

Crise

O sol esbraseia.
Um gato busca refúgio
na sombra do cão.

441