Mar, Rios e Oceanos
Al Berto
Corpo
que te seja leve o peso das estrelas
e de tua boca irrompa a inocência nua
dum lírio cujo caule se estende e
ramifica para lá dos alicerces da casa
abre a janela debruça-te
deixa que o mar inunde os órgãos do corpo
espalha lume na ponta dos dedos e toca
ao de leve aquilo que deve ser preservado
mas olho para as mãos e leio
o que o vento norte escreveu sobre as dunas
levanto-me do fundo de ti humilde lama
e num soluço da respiração sei que estou vivo
sou o centro sísmico do mundo
(in "A Noite Progride Puxada à Sirga")
Sosigenes Costa
Case Comigo, Mariá
que ou te dou, Mariá,
que ou te dou, Meriá,
meu coração.
(Cantiga de roda)
O mar também é casado,
o mar também tem mulher.
É casado com a areia.
Dá-lhe beijos quando quer.
(Quadra popular]
Mariá, por que não te casas,
se o mar também é casado?
Se até o peixlnho é casado...
Não sabes que o mar é casado
com uma filha do rei?
Mariá, o mar é casado
com a filha loura do rei.
Mariá, por que não te casas
se o próprio mar é casado?
Ouem é a mulher do mar?
É a sereia?
É a areia, Mariá.
É a princesa dos seios de concha.
Mandei ao mar uma rosa, Mariá,
porque ele vai se casar.
O mar pediu que a sereia, Mariá,
viesse me visitar
e agradecer o presente.
Ouando foi isto? No passado, Mariá.
Sabes que fez a sereia, Mariá?
Deu-me um punhado de areia;
esta cidade de areia,
nossa terra, Mariá.
Aquela moça da praia, Mariá,
é namorada do mar.
Só vive olhando pra as ondas
e o mar vive a suspirar.
Aquela areia da praia
veio do Engenho de Areia, Mariá.
Que bela é a mulher do mar,
em cima daquela coroa!
Areia da Pedra Branca
desceste o rio correndo.
Tu viste a Ilha das Pombas,
ah! tu viste Mariá.
Adeus, Coroa da Palha,
que eu vou aos tombos da sorte,
rolando aos tombos da vida,
caindo e me levantando.
Só me salvo se cair
nos braços de Mariá.
Donde viria esta areia?
Da serra da Pedra Redonda.
Veio de Minas, Mariá,
rolando no Rio das Pedras
e só entrou na Bahia
quando passou dando um pulo
na cachoeira do Salto.
Deu um pulo no Salto Grande
a areia, a mulher do mar.
Em cima do Salto, está Minas.
Embaixo do Salto a Bahia.
Lá em cima a água é mineira,
caindo embaixo é baiana, Mariá.
Ah! como é linda esta roda
às sete horas da noite,
à hora em que a lua cheia
acabou de sair do mar,
iluminando Belmonte
com todas as suas ruas de areia.
A lua nasce chorando
lágrimas de prata na areia.
Apanhem numa redoma este pranto,
guardem bem guardada esta jóia
que um dia será adorada.
É a lágrima azul da saudade.
Que foi? O que teve? Nada.
Apenas uma lágrima salgada
caiu dos meus olhos na areia.
Marlá, por que não te casas?
Me diga; por que não te casas
comigo, se eu quero te dar,
se eu quero te dar, Mariá,
num beijo o meu coração?
Crianças cantando roda
nas ruas brancas da areia,
naquelas ruas tão longas
como as estradas de areia.
Cantando desde a Atalaia
até a Ponta de areia.
Cantando lá na Biela,
na rua do Camba e nas Baixas
e em todas as ruas de areia.
Ah! lá no Pontal da Barra
é que brilha a lua na areia,
nas areias da Barrinha
e na estrada da Barra Velha.
Mariá, por que não te casas?
Se tu casares comigo,
sabes o que te darei, Mariá?
Sabes o que te darei, Mariá?
Quantos beijos tu quiseres,
cem beijos se tu quiseres,
Mariá, meu coração.
Deitado dontigo na areia,
dar-te-ei meu coração.
Não é só o mar que é casado, Mariá.
O peixinho também é casado.
E o passarinho é casado.
Também quero ser casado
mas contigo, Mariá.
Mariá. case comigo,
já que o mar casou com a areia.
Mariá, por que não te casas,
se o mar também é casado?
Renato Rezende
Dentro do Mar
nós quatro
em silêncio
Onda vem e vai
dentro do mar
em silêncio
Um vem e vai
dentro do mar
em silêncio
Nós quatro
cada um quatro
cada quatro mil
em silêncio
lavando nossos passados
dentro do mar
infinito --
e o céu infinito
Cidade dos Arrecifes (Recife), 16 de novembro 1994
Nuno Júdice
O amor eterno
rapariga te empurram para a saída,
onde irá chover, de acordo com
a cor do céu, não resistas. Na rua,
onde os ventos se cruzam na esquina,
os que sopram, do norte, de colinas
manchadas pelo inverno, e os que
nascem do rio, trazendo a impressão
úmida do litoral, acende um cigarro,
para que o calor do lume te reconforte
as mãos, avança pelo passeio, enquanto
o frio te deixar, e ouve o canto da água
por baixo de terra: correntes
no limite entre o gelo
e o fogo, uma evaporação de humores,
como se as almas lutassem em busca de
saída, e, no fumo de uma memória
de mesa antiga, tu e essa que amaste,
trocando as frases matinais do re-
encontro. Vidros embaciados pelas
lágrimas da ruptura, perguntas sem
resposta, a casa de luzes
apagadas, como se estivesse vazia - e como
se não soubesses que os destinos se decidem
por cima de nós, onde em cada instante
um deus cansado nos desfaz as inúteis
promessas de eternidade.
Cleonice Rainho
Na Praia
os olhos no ar.
Vasto e imenso,
lindo e livre,
mar-espaço
— uma paisagem só.
Marulho das ondas,
voz do mar,
azul da manhã,
alegria do céu.
No meu coração
— um canto só.
Horácio Costa
Cuneiforme
na água dos meus pensamentos”, mas me interessa
mais do que eles esta praia e mais do que ela em si
a presença das três garças pequenas, brancas
e de olhos amarelos e agourentos e talvez
jovens, que por sua vez muito mais me interessam
do que tratar de compreender alguma “jeune parque”
cujos desígnios -não há porque negá-lo e mais a esta altura-
sempre foram para mim para sempre desconhecidos
não: incognoscíveis. Fiai o que quiserdes, na suave companhia
de vossas viscosas irmãs: confesso que vivi entremeado
a tais fibras o que pensei ter querido e o que
vossa caprichosa e parcíssima escolha nelas soube
mais do que sorrateiramente, incognoscivelmente entremeter.
Ainda, e por falar nas palmípedes três,
convenhamos: atraem-me mais os olhares e a alma
que os oito nada discretos cavalheiros que observo
enquanto as observo, desnudos todos frente ao mar,
ao abrigo entre as pedras deste reino naturista,
no Abricó (diga-se o lugar, pois), Recreio dos Bandeirantes,
Rio de Janeiro, Brasil. Hoje
a praia está ampla, o mar turbulento do outono
perde agora em sua cotidiana labuta
contra a areia. Regozijemo-nos.
Os nudistas, sem dúvida, mais do que
as graças, digo, as garças, me interessam:
enquanto observo estas e penso naquelas (Maillol,
volta ao Museu, não me ocupes neste instante),
confiro se alguém há em ereção, ou se algum par
de casuais amantes neste instante se retira da areia
para esconder-se ainda mais entre as grandes pedras
por líquens cobertas e coroadas por bromélias
e por cujos dorsos escorrem suculentas como sêmen
natural, para dedicar-se, ora está óbvio,
a uma não menos natural seção de homo-sexo,
nefanda segundo o vulgo e, aqui, sur mer,
nada, nada surpreendente:
ninguém que proclividade afim não professe
a esta praia vem, e mais num dia de mar-alto
e vento não tépido, frio, e mais: constante.
Somos previsíveis como a presença das garças
que na extensa língua de areia escavam os seus pitéus.
Os meus são esses que se aninham entre as pedras
por um tempo variavelmente curto ou longo
e que menos do que as garças,
que não as graças e suas parcas primas,
me interessam. Há pouco disse o oposto
e agora percebo tal estratégia do dizer,
que como é sabido muito fingem os poetas
e, por que não, também neste inconclusivo texto
(falso: basta de mentiras).
Também nas duas extremidades visuais
há costões ao oceano expostos:
perfazem algo como um enorme anfiteatro
no qual de fato nada acontece: aqui há monólitos
quase a pique e tão gigantescos que a linha da estrada
em sua silhueta desaparece, quando vistos à distância.
Este é o Mar dos Atlantes num cenário deles digno:
aqui poderiam engalfinhar-se em sua guerra. Mas não.
A ele voltei já faz um tempo, e tanto como à dita
“água do meu pensamento” (já não sei o quanto
nela há de verdade ou se a emana caso exista:
água lustral ou mero torvelinho liqüefazente?
E existirá de fato? Em caso positivo,
nela prossigo imerso ou naufragante?).
Há vinte e cinco anos, em Santa Bárbara, em
outro poema, houve falésias, e um convite que jamais
faria de novo a alguém, nem às garças nem às graças,
nem a nenhum sequer amante: já mais. Je vous en jure.
Minha viagem pela matéria hoje é solitária.
Observo
novamente
as ditas garças.
Sobre a areia em trânsito para o mar
ainda me obceca a impermanente escritura cuneiforme
dos tatibitates pèzitos das gratuitas
aves.
Cleonice Rainho
A Água
por um filtro natural,
a água vem,
jorra nas fontes,
faz gluglu nas torneiras
para nosso bem.
Água de silêncio
dos remansos e lagos,
mar, rio, cachoeira
que se despenha
em borbotões —
força motriz
e energia também.
Na pia batismal,
no corpo e no campo,
na flor e no fruto,
na seiva e no sumo,
no orvalho e no vinho,
a água
faz leito e caminho
de bela missão.
Renato Rezende
À Beira do Mar, Esta Manhã
eu fui um homem
à beira do mar.
Apenas um homem,
sem nome, sem memória:
Deus
à beira do seu mar.
Rio de Janeiro, 23 de novembro 1994
Fernando Pessoa
Faróis distantes,
De luz subitamente tão acesa,
De noite e ausência tão rapidamente volvida,
Na noite, no convés, que consequências aflitas!
Mágoa última dos despedidos,
Ficção de pensar...
Faróis distantes...
Incerteza da vida...
Voltou crescendo a luz acesa avançadamente,
No acaso do olhar perdido...
Faróis distantes...
A vida de nada serve...
Pensar na vida de nada serve...
Pensar de pensar na vida de nada serve...
Vamos para longe e a luz que vem grande vem menos grande.
Faróis distantes...
30/04/1926
Cleonice Rainho
Da Janela
de repente
mudou de cor.
Rolam as águas
às rajadas de vento,
altas e bravas as ondas
se rebentam e
sobem, explodem
montes de espuma.
Rugindo, raivoso,
varre o mar
barcos e homens
e peixes — até baleias!
Turbulento e feio,
o mar tormentoso
é um monstro dágua
que transtorna a paisagem
e escurece meus olhos.
Não faz mal, da janela
espero as nuvens azuis.
Cleonice Rainho
Noite no Mar
que dos rios do mundo
vem.
Tem correntezas,
tem profundezas,
os maiores perigos
tem.
Mas, de noite, a sonhar
na solidão da praia,
apenas sentimos
o imenso mistério
do mar.
Cleonice Rainho
O Vento
e neste momento
vejo-o passar.
Ele faz coisas boas
que fazem pensar.
Da minha janela
fico horas
ouvindo-o falar.
Histórias bonitas,
de terras distantes,
ele sabe contar.
E palavras e idéias
colhe no mundo
para ensinar.
E canções e cantos
o vento traz tantos!
Trá-lá-li... Trá-lá-lá...
Traz o ar da montanha,
os marulhos do mar
e perfumes tão puros
que o mando parar:
Ô vento, volta, volta,
vem cá!
Renato Rezende
Águas Além da Mente
e para sempre
no lago que existe
dentro, e além
da minha própria mente.
A água deste lago
é dourada, azul.
Nela eu me torno
puro—e um.
Me lembro de uma vez estar ao lado de um lago
e sentir desejo de ser ele.
Me lembro de sentir-me excluído da natureza.
O verde, os pássaros, o sapo
parecem ser um
com o lago e o céu.
Talvez estejam para sempre submersos
nas águas de uma mente em silêncio.
Mas, e eu? No meio do caminho, entre
o pó e o êxtase, os pés e as asas.
Escrevo: Anseio pelas verdadeiras águas.
Nova York, 20 de fevereiro 1996
Cleonice Rainho
Gaivotas
asas coloridas,
ao fulgor do sol.
Umas guiam as outras
na pureza e paz
do vôo fraterno.
Vigiam as ondas,
aos borrifos dágua,
pra lá e pra cá.
Maiores, menores,
abaixo, acima,
um bailado
verdeazul,
no ar molhado
do mar.
Quando beijam a água,
engolindo o peixe,
é errada e torta
a dança das gaivotas
cegas
pelo ardor do sal.
Nuno Júdice
No barco
Sobre estas escuras águas pouso o corpo e flutuo.
Do mesmo modo flutua a memória sobre a minha obscura alma,
e o seu desenho reflecte-se na atmosfera sombria
do entardecer. "Ficarei?", pergunto,
e sem esperar resposta olho a outra margem e o cais
a aproximar-se. Por fim, não desembarco. À espera do regresso
seguro-te as mãos, embora ninguém esteja comigo. Em silêncio
respiro o cheiro das máquinas; "para onde me conduzes,
ó infindável morte, por entre os vivos e as suas sombras", ouço-me
dizer-te. Para que não me respondas, deixando-me preso
a um banco de barco, sacudido pelos temporais, vendo a chuva cair
por detrás dos vidros.
Nuno Júdice | "Obra Poética" (1972 - 1985), pág. 92 | Quetzal Editores, 1999
Antonio Cicero
T r a n s p a r ê n c i a s
sobre o mar sem formar espumas
e os olhos gulosos engolem glaucas e mornas transparências
goles de azul e verde
fazendo inveja à língua aos lábios e à goela.
por que me induzes por areias sem águas
ou zonas infestadas de feras
ou paludes sombrios
ou friagens cíticas
ou mares coagulados
por que me queres nessa terra monstruosa e trágica
onde erram poetas e mitógrafos
e nada é certo nada claro.
Antonio Cícero (in o carioca - revista de arte e cultura nº 2/ julho e agosto 1996)
Al Berto
7 a noite chega-me
paredes do quarto
durmo sobre as águas e tenho medo
encolho-me no leito estreito, no fundo dele, onde o linho já não fulgura
queda a queda, voo
não consigo dormir com esta ferida
as máquinas sussurram, trepam pelas paredes, escancaram portas, invadem a casa, ocupam os sonhos
sirenes, alarmes lancinantes, cremalheiras da noite ressoando no limite do corpo
levanto-me e saio para a rua
caminho na chuva adocicada da manhã, as pedras acendem-se por dentro, reconhecem-me
uma voz líquida arrasta-se no interior dos meus passos, ecoa pelos recantos ainda vivos do teu corpo
em ti acostam os barcos e a sombra dos grandes navios do mundo
vive o peixe, agitam-se algas e medusas de mil desejos
em ti descansam os pássaros chegados doutras rotas
secam as redes, põe-se o sol
em ti se abandona a ressaca das ondas e o sal dos meus olhos
as árvores inclinadas, os frutos e as dunas
em ti pernoita a seiva cansada de palavras, o suco das ervas e o açúcar transparente das camarinhas
em ti cresce o precioso silêncio, as ostras doentes e as pérolas dos mares sem rumo
em ti se perdem os ventos, a solidão do mar e este demorado lamento.
Al Berto
percorro todo
da noite ecoam passos, nas ruas desertas ficam à solta os animais lendários da minha bebedeira
lutam comigo até de manhã, morrem à beira da minha boca
e conheço o amargo pão da tua sol/dadura, o ouro líquido que não chega para enriquecer um homem
o mar tem a solidão dos teus ais...medonhos ais, que persistem para lá da demorada insónia
o sol tornou-se rubro e cospe flores que provocam o sono, e o esquecimento
Al Berto
sabes, as aves
sobem-nos vozes calcárias à garganta, estrangulo-me neste humilde canto, fico atento ao eterno silêncio do teu castelo
às vezes escuto o teu cantar, raramente, é certo...mas quando cantas saem-te nomes puros da boca e sorrisos diáfanos de cristais
os lábios incendeiam-se com vinho, teu corpo adquire o sabor misterioso das algas
no crepúsculo expande-se o perfume a moreia frita, teu olhar é o mosto dos nossos desejos
dançamos à roda dum mastro, saia em papel de seda bordada com búzios...uma quadra flutua pela noite de nossos cabelos
rodopias, e os teus amores são relembrados pela noite adiante
espalham-se estrelas cadentes, papoulas breves, junco molhado e o mar enche-se novamente de pássaros, embarcações semelhantes a beijos que nos percorrem de alegria
Fernando Pessoa
11 - Aquela senhora tem um piano
Que é agradável mas não é o correr dos rios
Nem o murmúrio que as árvores fazem...
Para que é preciso ter um piano?
O melhor é ter ouvidos
E ouvir bem os sons que nascem.
Al Berto
escuto o lamento
os ventos varrem, ainda uivam em todas as frestas do Reino das Índias
Índias de fome, Índias de noite gelada
procuro no fundo das algibeiras os bonecos da bola, e as cobras nos valados do Rio da Moura
o sumo das amoras e o cheiro fresco do sabão...a memória envolve-se nos lençóis que secam estendidos ao sol
adivinho lugares distantes e sombrios, habitados pelo Último Cavaleiro dos Ventos, o Zé Babão... por andará o Cabecinha? e a Tia Clementina? e o Cisinato? e o Perna-Marota? e a Ti Carlota? e a Dentinho d'Ouro? e
em mim nada secou
não possuo a morte no coração, mas sim um pouco de chuva que lentamente apaga o fogo doutros dias mais simples
escuto o lamento das águas e sei que tudo continua vivo no fundo do mar...e no coração persistente das plantas
Al Berto
a noite chega-me
durmo sobre as águas e tenho medo
encolho-me no leito estreito, no fundo dele, onde o linho já não fulgura
queda a queda, voo
não consigo dormir com esta ferida
as máquinas sussuram, trepam pelas paredes, escancaram portas, invadem a casa, ocupam os sonhos
sirenes, alarmes lancinantes, cremalheiras da noite ressoando no limite do corpo
levanto-me e saio para a rua
caminho na chuva adocicada da manhã, as pedras acendem-se por dentro, reconhecem-me
uma voz líquida arrasta-se no interior dos meus passos, ecoa pelos recantos ainda vivos do teu corpo
em ti acostam os barcos e a sombra dos grandes navios do mundo
vive o peixe, agitam-se algas e medusas de mil desejos
em ti descansam os pássaros chegados doutras rotas
secam as redes, põe-se o sol
em ti se abandona a ressaca das ondas e o sal dos meus olhos
as árvores inclinadas, os frutos e as dunas
em ti pernoita a seiva cansada de palavras, o suco das ervas e o açúcar transparente das camarinhas
em ti cresce o precioso silêncio, as ostras doentes e as pérolas dos mares sem rumo
em ti se perdem os ventos, a solidão do mar e este demorado lamento
Cláudio Aguiar
Improviso a Iracema-Alencar
Iracemar - viver bem deslumbrado,
rindo na praia que Deus nos criou
além da inocência e do bom pecado,
com fogo, sal e sol devorador,
e todos votos do carnal amor.
Mercadoria fazes tuas mágoas,
América! Alencar te recriou,
além-mar, mar-além daquelas águas,
luzes banhadas pelo sol dos dias,
egressas de contados movimentos,
nascentes das canções de nossa gente,
cantadas em desoras maresias:
areal-pó, levado pelos ventos,
romance-aurora, madrigal silente.
Nuno Júdice
Poema II
Por entre os arcos da nuca e a luz
vidrada dos oblíquos idiomas do amor: as cinzas
de um pássaro refractam-te os cristais da
respiração, prendendo-me os olhos no sulco das cores
amargas da voz. Um eco de mar na concha dos lábios
anuncia o crepúsculo dos hemisférios, que uma
súbita dissolução de versos canta - rumor
que se perde no canto dos mapas, onde o rumo do corpo
se sobrepõe ao traçado de um continente sinuoso.
Colho as flores coaguladas dos sexos
abolidos. Misturo-as no fogo dos tampos arredondados
da manhã, quando o avermelhado silêncio das cigarras
se afoga num encrespar de charco. Bebo as
essências de um sonho cartulário, húmidas sombras
cuja mancha se inscreve na obscura alma. - Que
forma reproduzem? Traços da análoga caverna, peitos
marcados pelo chicote das viagens, im-
precações do rum na voz rouca dos faróis...
Só o que ouço subsiste ( - Mas que luzes
vacilam ainda na névoa da eternidade?)
Nuno Júdice | "Obra poética 1972 - 1985", pág. 297 | Quetzal Editores, 1999