Poemas neste tema

Mar, Rios e Oceanos

Carlos Seabra

Carlos Seabra

O amar do mar

boca do mar
beijo de sal
lábios da praia
pele de areia

língua de rio
decote de dunas
seios de ilhas
abraço do sol

correntes de desejo
cheiro de algas
ondas de prazer
espuma que rebenta

gemidos das gaivotas
gozo das nuvens
céu que se funde
no azul do mar
1 245
Eduardo Alves da Costa

Eduardo Alves da Costa

Quero que o saibas

Quero que o saibas, linda Inês:
meu coração é português.
E dentro do peito fareja latidos
da alma que há muito me fugiu.

Ando sem alma, já se vê,
à procura de não sei quê.
Talvez um cheiro, uma cor, um som
- memória do tempo em que eu,
cidadão de Viseu,
vivia na bolsa seminal de meu pai.

O que foi ele buscar no mundo?
O azul profundo que há nos mares
quando se os tem interiores;
novos amores, terras mais vastas.
Não são assim os descobridores?

Pois meu coração é assim:
navegante à deriva, naufrago em mim!
1 448
Carlos Seabra

Carlos Seabra

Haicais

areia quente
pés descalços
corrida para o mar



espuma do mar
adensa o vôo das
gaivotas no ar


rochedo no mar
barco afundado
olhos a chorar


estrela do mar
abraça a areia
para a beijar


as ondas beijam
os lábios da praia -
bocas do mar


musa sereia -
marinheiro bêbado
ouve baleia
1 500
Felipe Vianna

Felipe Vianna

MAR

Mar, ó mar.
És mais que a terra
És mais que o ar,
És mar.

És tudo da vida,
Da vida já ida
Que não volta mais.

Ó mar!

Pudera dera
Um mar de esfera,
Uma esfera,
Amar!

Ame o mar.
Pois quem o ama,
A deus também, é amar.

Ó Mar!

26/01/01

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Felipe Vianna

Felipe Vianna

VIDA

Dança dourado luar
No reflexo espelhado do mar.
Este amor platônico
As ondas vêm à praia chorar.

Choras porque tens consciência
Que o que tens é só referência
Já que a verdadeira lua não podes abraçar
Deves contentar-te apenas com a luz do luar.

Mas o que é a vida
Se não apenas um espelho
De uma coisa já ida
Que nunca veio.

24/06/2001

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

III -  Somos meninos de uma primavera

IIISomos meninos de uma primavera
De que alguém fez tijolos. Quando cismo
Tiro da cigarreira um misticismo
Que acendo e fumo como se o esquecera.

No teu ar de dormir nessa cadeira,
(Reparo agora, feito o exorcismo,
Que o terceiro soneto ergue do abismo)
És sempre a mesma, anónima — terceira...

Ó grande mar atlântico, desculpa!
Cuspi à tua beira três sonetos.
Sim, mas cuspi-os sobre a minha culpa.

Mulher, amor, [alcova?] — sois tercetos!.
Só vós ó mar e céu nos libertais,
Que qualquer trapo incógnito franjais
Sossego? Outrora? Ora adeus! Foi feita
No cárcere a Marília de Dirceu.
De realmente meu só tenho eu.

Pudesse eu pôr um dique ao que em mim espreita,
(No seu perfil de pálida imperfeita,
Recorte morto contra um vivo céu,
1 100
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

II - Deixo, deuses, atrás a dama antiga

II
Deixo, deuses, atrás a dama antiga
(Com uma letra diferente fixo
O absurdo, e rio, porque sofro). Digo:
Deixo atrás quem amei, como um prefixo...

Outrora eu, que era anónimo e prolixo
(Dois adjectivos que de há muito sigo)
Amei por ter um coração amigo.
Amo hoje o que amo só porque o persigo.

Dêem-me vinho que um Horácio cante!
Quero esquecer o que de meu é meu...
Quero, sem que me mexa, ir indo adiante.

Estou no Estoril e olho para o céu...
Ah que ainda é certo aquele azul ovante
Que esplendeu astros sobre o mar egeu.
1 226
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Alumbramento

Eu vi os céus! Eu vi os céus!
Oh, essa angélica brancura
Sem tristes pejos e sem véus!

Nem uma nuvem de amargura
Vem a alma desassossegar.
E sinto-a bela... e sinto-a pura...

Eu vi nevar! Eu vi nevar!
Oh, cristalizações da bruma
A amortalhar, a cintilar!

Eu vio mar! Lírios de espuma
Vinham desabrochar à flor
Da água que o vento desapruma...

Eu via estrela do pastor...
Via licorne alvinitente!...
Vi... vio rastro do Senhor...

E vi a Via-Láctea ardente...
Vi comunhões... capelas... véus...
Súbito... alucinadamente...

Vi carros triunfais... troféus...
Pérolas grandes como a lua...
Eu vi os céus! Eu vi os céus!

— Eu vi-a nua... toda nua!

Clavadel, 1913
2 279
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Perspectiva à noite

Na altura do quinto andar
uma traineira
vara o negro céu negro mar
saindo ao longe
por trás da quina de concreto.
Luz do mastro somente
traço invisível
estrela que cai na horizontal
com o ventre carregado de escamas.
1 121
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Canção das Duas Índias

Entre estas Índias de leste
E as Índias ocidentais
Meu Deus que distância enorme
Quantos Oceanos Pacíficos
Quantos bancos de corais
Quantas frias latitudes!
Ilhas que a tormenta arrasa
Que os terremotos subvertem
Desoladas Marambaias
Sirtes sereias Medéias
Púbis a não poder mais
Altos como a estrela-d'alva
Longínquos como Oceanias
— Brancas, sobrenaturais —
Oh inacessíveis praias!...

1931
1 297
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Cantiga

Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.

Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela-d'alva
Rainha do mar.

Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar.
1 409
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Verde deserto

Na praia de Essauíra
os cameleiros
tocam as suas montadas
mar adentro.
Verdes dunas que as patas estilhaçam
espumas
e o ondear
em volutas
dos pescoços.

Atrás das trincheiras das lentes
olhares turistas
sequestram camelos pisando nas conchas.
No fundo de areia
passadas esmagam estrelas.
Inverte-se em águas
o céu beduino.
973
Felipe Larson

Felipe Larson

CORAÇÃO PIRADO

Tenho um coração pirado
Que vive sem razão
Mas sempre foi guiado
Pela força da emoção

Espero estar certo
E pronto para amar
Pra tudo que vier
Pra tudo que passar

Então sonhar com você
Pensar em você
Todos os dias
Então sonhar com você
Pensar em você na esperança de te ter
24 horas do dia

Descrevo meu destino
Seguindo o seu caminho
E aprendendo a amar
Com o brilho no olhar

Sentado do seu lado
De frente para o mar
Depois que fui beijado
Parecia flutuar

890
Felipe Larson

Felipe Larson

COMPLEMENTAÇÃO

Não ficaremos aqui parados
Ouvindo vocês dizendo: - obrigado
Vendo o por do sol
No horizonte perdido no mar

Eu ficaria muito orgulhoso
Se visse você aqui de novo
Sem saber o que dizer
No momento que eu a ver

Mas não venha me falar
De coisas que não fiz
Querendo me agradar
Mas olha o que você me diz

Quando a noite chegar
No céu a lua vai brilhar
Pra realçar sua beleza
Pra contemplar nossas emoções

Eu te completo, você me completa.
Esta distância é tão discreta
Mas não te vendo mais
Sinto tanta saudade de você

Me liga
Me escreva
Mande recado
Mande noticias de você

706
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Marinheiro Triste

Marinheiro triste
Que voltas para bordo
Que pensamentos são
Esses que te ocupam?
Alguma mulher
Amante de passagem
Que deixaste longe
Num porto de escala?
Ou tua amargura
Tem outras raízes
Largas fraternais
Mais nobres mais fundas?
Marinheiro triste
De um país distante
Passaste por mim
Tão alheio a tudo
Que nem pressentiste
Marinheiro triste
A onda viril
De fraterno afeto
Em que te envolvi.

las triste e lúcido
Antes melhor fora
Que voltasses bêbedo
Marinheiro triste!

E eu que para casa
Vou como tu vais
Para o teu navio,
Feroz casco sujo
Amarrado ao cais,
Também como tu
Marinheiro triste
Vou lúcido e triste.

Amanhã terás
Depois que partires
O vento do largo
O horizonte imenso
O sal do mar alto!
Mas eu, marinheiro?

— Antes melhor fora
Que voltasse bêbedo!
1 029
Rafael Alberti

Rafael Alberti

O mar, o mar

O mar. O mar.
O mar. Só o mar!

Por que me trouxeste, pai
a cidade?

Em sonhos, a marejada
me tira do coração.
Se o quisesses levar.

Pai, por que me trouxeste
aqui?

1 360
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Com o sol na língua

Ó Senhor!, que a garganta
não aguenta
tanto leandro em flor
tanta giesta
e o mar lá embaixo
como mesa posta.
Quero água de fonte
sobre os pulsos
e o sol na língua
como pão ou hóstia.
Quero descer
subir
a escadaria da encosta
a alma escancarada
a carne exposta
e esse explodir de sinos
na cabeça.
940
Marina Colasanti

Marina Colasanti

Nenhum como aqueles

Ao largo
cravados sobre o mar do horizonte
como torres de uma fortaleza
navios cargueiros esperam
fundeados.
Não entraram no porto.
O porto à noite
é reino de piratas.

Na minha infância os piratas
tinham cor
"Negro", "Vermelho"
e barbas
de preferência ruivas
e papagaios
e ganchos em lugar das mãos.
Na minha infância os piratas
eram amigos do rei
e se anunciavam com a bandeira negra

e o brasão da caveira rindo ao vento.
Os piratas da ilha de Mompracém
jovens Tigres de Sandokan
abordavam minha infância
no silêncio de seus prahus.

Hoje os piratas se escondem
atrás da noite
sem barba e sem rosto
escuros como os ratos do porão.

Nenhum navio fantasma
nenhuma caravela singra no porto
as águas poluídas.
Os predadores chegam em silêncio
rêmoras encostadas rente ao casco
desbotados piratas de blue jeans.
E os carros que passam distantes
no alto da ponte
anônimas luzes que correm
não colhem o canto cortante
das metralhadoras
1 258
Marina Colasanti

Marina Colasanti

COM FUNDO MUSICAL DE NINO ROTA

O caminhar da noite
já se ouve
vindo da escura
mansão do leste.
A névoa deitou-se
para o sono
sobre a linha do horizonte.
Na última claridade
o transatlântico avança
todo aceso em suas luzes.
Por um instante
- alada coroa -
parece pousar no topo
do edificio que entre o mar
e meus olhos
se interpôe.
Mas logo
sem âncora que o retenha
segue viagem.
955
Zoraida Díaz

Zoraida Díaz

Desejos

Onde estás alma minha
que não te posso encontrar
nem no céu, nem no mar,
nem em minha constante agonia?

Quero ser rosa...botão;
ser nuvem, rosicler,
ser tudo... menos mulher
com memória e coração.

Ser onda morta na praia
ser rosa que se desmaia
depois de viver um dia.

Ser toda eu pensamento
e me dissolver no vento
em busca tua...alma minha!

430
Yolanda Bedregal

Yolanda Bedregal

Ressaca

Quando já a ressaca deixe minha alma na praia,
e do arco cansado de meu ombro se vai
a asa cortada, qual vela desafiante,
em cicatriz e marca prolongará o instante.

Ficarão vigiando, símbolo trivial,
dois pobres olhos pródigos e uma mendiga fronte
Catacumba de água, amor! No me conheces!

Nem ninguém nos conhece. Só há fugazes toques,
desencontros, na apertada mudez de encruzilhadas.
Expiam sua demora, presenças nunca achadas.

Não são cruz já os braços nem altar para holocausto
de selvagens ternuras. Com seu resplendor exausto,
um sol desalentado afunda os abismos.

Somos pó e luzeiro, tudo em nós mesmos.

Para esta elementar cinza taciturna
seja a imensa lágrima do Mar celeste urna.

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Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Voz de Fora

Como da copa verde uma folha caída
Treme e deriva à flor do arroio fugidio,
Deixa-te assim também derivar pela vida,
Que é como um largo, ondeante e misterioso rio...

Até que te surpreenda a carne dolorida
Aquela sensação final de eterno frio,
Abre-te à luz do sol que à alegria convida,
E enche-te de canções, ó coração vazio!

A asa do vento esflora as camélias e as rosas.
Toda a paisagem canta. E das moitas cheirosas
O aroma dos mirtais sobe nos céus escampos.

Vai beber o pleno ar... E enquanto lá repousas,
Esquece as mágoas vãs na poesia dos campos
E deixa transfundir-te, alma, na alma das cousas...

Teresópolis, 1906
À BEIRA D'ÁGUA
D'água o fluido lençol, onde em áscuas cintila
O sol, que no cristal argênteo se refrata,
Crepitando na pedra, a cuja borda oscila,
Cai, gemendo e cantando, ao fundo da cascata.

Parece a grave queixa, atroando em torno a mata,
Contar não sei que mágoa inconsolada, e a ouvi-la
A alma se nos escapa e vai perder-se abstrata
Na avassalante paz da solidão tranqjúila...

Às vezes, a tremer na fraga faiscante,
Passa uma folha verde, e sobre a veia ondeante
Abandona-se toda, ansiosa pelo mar...

E vendo-a mergulhar na espuma que a sacode,
Não sei que íntimo e vago anseio ali me acode
De cair como a folha e deixar-me levar...

Teresópolis, 1906
1 395
Marina Colasanti

Marina Colasanti

NO MÊS DE MARÇO

Barcos estão parados junto às ilhas
é tempo de lulas,
me diz um pescador.
Com artimanhas
não com anzol
pescam-se as lulas.
Baixa-se ao fim da linha
uma engenhoca em pontas
guarda-chuva ao contrário
sem o pano
- creio que colorida -
e puxa-se de leve
bem de leve
para que dance a ponta.
Até que a lula
curiosa e brincalhona
venha enredar-se nos arames
e seja içada a bordo.
Quando o mar está calmo
e o mês é março
cai o preço da lula no mercado.
E elas certamente não se dizem
que o predador chegou.


985
Myriam Fraga

Myriam Fraga

Barragem

Estrutura de cal
Subitamente o rio
(argila e metal)
Se recompõe
E pára.

Somente a fúria
Calma do gesto
Que se disfarça.

Barragem ou poço
(argamassa)

Simetria de iludidos
Nas linhas duras
Do cais.

Talvez a sombra
íris-pupila
Que se adelgaça.

Recua e passa.

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