Poemas neste tema
Mar, Rios e Oceanos
Antônio Olinto
VI
Trago-te os rios
umedecidos de infância.
Não digas que há esquivanças
neste gesto doado.
Venho com passos naturais,
com piedade, sacrifício,
entregar-te a colheita dos olhos,
o fardo dos claros fracassos.
A pluma capturada
nas realidades sem mistura,
o tenteio do vento
no corpo oferecido as notícias,
a flor presa na mão branca,
o espanto da esposa iniciada,
o passeio exato no jardim —
estão comigo, estas coisas,
nesta verdade do canto,
na quietude dos átrios acalmados.
Trago-te os beijos da criança,
a paisagem ao redor da fazenda,
os brinquedos de barro já com sangue,
os lençóis do justo nascimento.
a mão pousada na madeira,
o sorriso apenas formulado,
a aceitação do gosto recebido,
a alegria das brasas extintas.
Venho dar-te notícias das coisas
esparzidas nos campos lá fora,
entregar-te o resíduo das datas,
o sinal de uma face marcada
para o largo consumo do amor.
umedecidos de infância.
Não digas que há esquivanças
neste gesto doado.
Venho com passos naturais,
com piedade, sacrifício,
entregar-te a colheita dos olhos,
o fardo dos claros fracassos.
A pluma capturada
nas realidades sem mistura,
o tenteio do vento
no corpo oferecido as notícias,
a flor presa na mão branca,
o espanto da esposa iniciada,
o passeio exato no jardim —
estão comigo, estas coisas,
nesta verdade do canto,
na quietude dos átrios acalmados.
Trago-te os beijos da criança,
a paisagem ao redor da fazenda,
os brinquedos de barro já com sangue,
os lençóis do justo nascimento.
a mão pousada na madeira,
o sorriso apenas formulado,
a aceitação do gosto recebido,
a alegria das brasas extintas.
Venho dar-te notícias das coisas
esparzidas nos campos lá fora,
entregar-te o resíduo das datas,
o sinal de uma face marcada
para o largo consumo do amor.
686
Paio Gomes Charinho
De Quantas Cousas Eno Mundo Som
De quantas cousas eno mundo som
nom vej'eu bem qual pod'en semelhar
a 'l-rei de Castela e de Leon
se[nom] ũa qual vos direi: o mar.
O mar semelha muit'aqueste rei;
e daqui em deante vos direi
em quaes cousas, segundo razom.
O mar dá muit', e creede que nom
se pod'o mundo sem el governar,
e pode muit', e [há] tal coraçom
que o nom pode rem apoderar.
Des i ar [é] temudo, que nom sei
quen'o nom tema; e contar-vos-ei
ainda mais, e julga[de]-m'entom.
Eno mar cabe quant'i quer caber;
e mantém muitos; e outros i há
que x'ar quebranta e que faz morrer
enxerdados; e outros a que dá
grandes herdades e muit'outro bem.
E tod'esto que vos conto avém
a 'l-rei, se o souberdes conhocer.
E da mansedume vos quero dizer
do mar: nom há cont', e nunca será
bravo nem sanhudo, se lh'o fazer
outro nom fezer; e sofrer-vos-á
tôdalas cousas; mais se em desdém
o per ventura algum louco tem,
com gram tormenta o fará morrer.
[E] estas manhas, segundo meu sem,
que o mar há, há el-rei; e por en
se semelham, quen'o bem entender.
nom vej'eu bem qual pod'en semelhar
a 'l-rei de Castela e de Leon
se[nom] ũa qual vos direi: o mar.
O mar semelha muit'aqueste rei;
e daqui em deante vos direi
em quaes cousas, segundo razom.
O mar dá muit', e creede que nom
se pod'o mundo sem el governar,
e pode muit', e [há] tal coraçom
que o nom pode rem apoderar.
Des i ar [é] temudo, que nom sei
quen'o nom tema; e contar-vos-ei
ainda mais, e julga[de]-m'entom.
Eno mar cabe quant'i quer caber;
e mantém muitos; e outros i há
que x'ar quebranta e que faz morrer
enxerdados; e outros a que dá
grandes herdades e muit'outro bem.
E tod'esto que vos conto avém
a 'l-rei, se o souberdes conhocer.
E da mansedume vos quero dizer
do mar: nom há cont', e nunca será
bravo nem sanhudo, se lh'o fazer
outro nom fezer; e sofrer-vos-á
tôdalas cousas; mais se em desdém
o per ventura algum louco tem,
com gram tormenta o fará morrer.
[E] estas manhas, segundo meu sem,
que o mar há, há el-rei; e por en
se semelham, quen'o bem entender.
613
José Saramago
Oceanografia
Volto as costas ao mar que já entendo,
À minha humanidade me regresso,
E quanto há no mar eu surpreendo
Na pequenez que sou e reconheço.
De naufrágios sei mais que sabe o mar,
Dos abismos que sondo, volto exangue,
E para que de mim nada o separe,
Anda um corpo afogado no meu sangue.
À minha humanidade me regresso,
E quanto há no mar eu surpreendo
Na pequenez que sou e reconheço.
De naufrágios sei mais que sabe o mar,
Dos abismos que sondo, volto exangue,
E para que de mim nada o separe,
Anda um corpo afogado no meu sangue.
1 434
Fernando Pessoa
IX - Meu coração é um pórtico partido
IX
Meu coração é um pórtico partido
Dando excessivamente sobre o mar
Vejo em minha alma as velas vãs passar
E cada vela passa num sentido.
Um soslaio de sombras e ruído
Na transparente solidão do ar
Evoca estrelas sobre a noite estar
Em afastados céus o pórtico ido...
E em palmares de Antilhas entrevistas
Através de, com mãos eis apartados
Os sonhos, cortinados de ametistas,
Imperfeito o sabor de compensando
O grande espaço entre os troféus alçados
Ao centro do triunfo em ruído e bando...
Meu coração é um pórtico partido
Dando excessivamente sobre o mar
Vejo em minha alma as velas vãs passar
E cada vela passa num sentido.
Um soslaio de sombras e ruído
Na transparente solidão do ar
Evoca estrelas sobre a noite estar
Em afastados céus o pórtico ido...
E em palmares de Antilhas entrevistas
Através de, com mãos eis apartados
Os sonhos, cortinados de ametistas,
Imperfeito o sabor de compensando
O grande espaço entre os troféus alçados
Ao centro do triunfo em ruído e bando...
1 644
José Saramago
Retrato do Poeta Quando Jovem
Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.
Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Onde brandas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.
Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.
Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.
Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Onde brandas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.
Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.
Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.
1 381
José Saramago
Premonição
Morto, absorto e lasso no regaço,
Um rastro de sombra de mastro
Ou gume de quilha que tomba traverso
Da ilha: reverso do lume, da tersa
Coluna rompente do ventre, laguna
Salobra que sobra do mar, ou cobra
Cortada segundo o buraco, ou boca de saco
Ao fundo juntada. Ou letra riscada.
Absorto e lasso e morto no regaço,
Ponho a sombra do mastro ou o seu rastro
Ao comprido do corpo e do cansaço.
Um rastro de sombra de mastro
Ou gume de quilha que tomba traverso
Da ilha: reverso do lume, da tersa
Coluna rompente do ventre, laguna
Salobra que sobra do mar, ou cobra
Cortada segundo o buraco, ou boca de saco
Ao fundo juntada. Ou letra riscada.
Absorto e lasso e morto no regaço,
Ponho a sombra do mastro ou o seu rastro
Ao comprido do corpo e do cansaço.
1 219
Paio Gomes Charinho
Disserom-M'hoj', Ai Amiga, Que Nom
Disserom-m'hoj', ai amiga, que nom
é meu amig'almirante do mar,
e meu coraçom já pode folgar
e dormir já, e, por esta razom,
o que do mar meu amigo sacou
saque-o Deus de coitas, que a[r] jogou
mui bem a mim, ca já nom andarei
triste por vento que veja fazer,
nem por tormenta nom hei de perder
o sono, amiga; mais, se foi el-rei
o que do mar meu amigo sacou,
saque-o Deus de coitas, que a[r] jogou
mui bem a mim, ca, já cada que vir
algum home de fronteira chegar,
nom hei medo que mi diga pesar;
mais, porque m'el fez bem sem lho pedir,
o que do mar meu amigo sacou
saque-o Deus de coitas, que a[r] jogou.
é meu amig'almirante do mar,
e meu coraçom já pode folgar
e dormir já, e, por esta razom,
o que do mar meu amigo sacou
saque-o Deus de coitas, que a[r] jogou
mui bem a mim, ca já nom andarei
triste por vento que veja fazer,
nem por tormenta nom hei de perder
o sono, amiga; mais, se foi el-rei
o que do mar meu amigo sacou,
saque-o Deus de coitas, que a[r] jogou
mui bem a mim, ca, já cada que vir
algum home de fronteira chegar,
nom hei medo que mi diga pesar;
mais, porque m'el fez bem sem lho pedir,
o que do mar meu amigo sacou
saque-o Deus de coitas, que a[r] jogou.
456
Paio Gomes Charinho
As Frores do Meu Amigo
As frores do meu amigo
briosas vam no navio,
e vam-s[e] as frores
daqui bem com meus amores,
idas som as frores,
daqui bem com [meus amores].
As frores do meu amado
briosas vam [ẽ]no barco,
e vam-s[e] as frores
daqui bem com meus amores,
idas som as frores,
daqui bem com [meus amores].
Briosas vam no navio
pera chegar ao ferido,
e vam-s[e] as frores
daqui bem com meus amores,
idas som as frores,
daqui bem com [meus amores].
Briosas vam ẽno barco
pera chegar ao fossado,
e vam-s[e] as frores
daqui bem com meus amores,
idas som as frores,
daqui bem com [meus amores].
Pera chegar ao ferido
servir mi, corpo velido,
e vam-s[e] as frores
daqui bem com meus amores,
idas som as frores,
daqui bem com [meus amores].
Pera chegar ao fossado
servir mi, corpo loado,
e vam-s[e] as frores
daqui bem com meus amores,
idas som as frores,
daqui bem com [meus amores].
briosas vam no navio,
e vam-s[e] as frores
daqui bem com meus amores,
idas som as frores,
daqui bem com [meus amores].
As frores do meu amado
briosas vam [ẽ]no barco,
e vam-s[e] as frores
daqui bem com meus amores,
idas som as frores,
daqui bem com [meus amores].
Briosas vam no navio
pera chegar ao ferido,
e vam-s[e] as frores
daqui bem com meus amores,
idas som as frores,
daqui bem com [meus amores].
Briosas vam ẽno barco
pera chegar ao fossado,
e vam-s[e] as frores
daqui bem com meus amores,
idas som as frores,
daqui bem com [meus amores].
Pera chegar ao ferido
servir mi, corpo velido,
e vam-s[e] as frores
daqui bem com meus amores,
idas som as frores,
daqui bem com [meus amores].
Pera chegar ao fossado
servir mi, corpo loado,
e vam-s[e] as frores
daqui bem com meus amores,
idas som as frores,
daqui bem com [meus amores].
844
Wanda Ramos
E correram os rios
Correram como rios as palavras
altas e soltas correram os rios na gente
rios de lava Lisboa inflamada acorrendo fremente
nos dias eu se abriram vinda das faldas vertida
dos dormitórios da cintura fumegante e mecanizada
Lisboa livre acorreu
enxameadas as veias avenida da liberdade
rossio terreiro do paço Belém
– e além na outra banda absurdo o cristo:
braços em cruz impotente –
e correndo os rios cada vez mais latos
até o súbito despedaçar-se da seda contra a amurada
afundadas as olheiras da vigília entornadas
as falas em busca do nexo – e achámos esta sorte
o sangue agitado o tempo:
uníssono o nosso grito
escancarado em cada rua
em passo de estar alerta
uníssono ressoou porém mais fundo.
E assim nos pergunto que águas nos lavaram tão de dentro
e levaram alamedas da liberdade acima
que rios tão feitos de luta e punhos? alegria?
altas e soltas correram os rios na gente
rios de lava Lisboa inflamada acorrendo fremente
nos dias eu se abriram vinda das faldas vertida
dos dormitórios da cintura fumegante e mecanizada
Lisboa livre acorreu
enxameadas as veias avenida da liberdade
rossio terreiro do paço Belém
– e além na outra banda absurdo o cristo:
braços em cruz impotente –
e correndo os rios cada vez mais latos
até o súbito despedaçar-se da seda contra a amurada
afundadas as olheiras da vigília entornadas
as falas em busca do nexo – e achámos esta sorte
o sangue agitado o tempo:
uníssono o nosso grito
escancarado em cada rua
em passo de estar alerta
uníssono ressoou porém mais fundo.
E assim nos pergunto que águas nos lavaram tão de dentro
e levaram alamedas da liberdade acima
que rios tão feitos de luta e punhos? alegria?
628
Vinicius de Moraes
Tatiografia
Em Tati tem Taiti
Ilha do amor e do adeus
Tem avatá, Havaí!
Taubaté, Aloha He...
Tem medicina com mascate
Pão de açúcar com café
Tem Chimborazo, Kantchatca
Tabor, Popocatepete
Tem montes sem ser rochosos
Tem milhões de Pireneus
Tem doces lagos da Escócia
Tem aconcáguas incríveis
Junto de Dedos de Deus
Tem Malaias tem malárias
Amazonas sem mistérios
Tem Saaras sem Simoun
Com tabus e Timbuctus
Tem iogas, tem nirvanas
Tem tigres, tem tuaregues
Tem vagas Constantinoplas
Tem Bombains sem madrastas
Tem juras, tem jetaturas
Danúbios sem ser azuis
Tem Jordões, tem Solimões
Içás, Tapajós, Purus
Tem Valências Catalunhas
E até calvários sem cruz
Tem Tejos, tem Beira Douros
Trás as Cintras, Trás-os-Montes
Tem rios, tem pororocas
Quedas-d'águas, brancas fontes
Tem colinas, tem bacias
Muitos belos horizontes.
Tem Norte Sul Leste Oeste
Zona quente e zona fria
Tem tudo que tem no mundo
Na minha Tatiografia.
Ilha do amor e do adeus
Tem avatá, Havaí!
Taubaté, Aloha He...
Tem medicina com mascate
Pão de açúcar com café
Tem Chimborazo, Kantchatca
Tabor, Popocatepete
Tem montes sem ser rochosos
Tem milhões de Pireneus
Tem doces lagos da Escócia
Tem aconcáguas incríveis
Junto de Dedos de Deus
Tem Malaias tem malárias
Amazonas sem mistérios
Tem Saaras sem Simoun
Com tabus e Timbuctus
Tem iogas, tem nirvanas
Tem tigres, tem tuaregues
Tem vagas Constantinoplas
Tem Bombains sem madrastas
Tem juras, tem jetaturas
Danúbios sem ser azuis
Tem Jordões, tem Solimões
Içás, Tapajós, Purus
Tem Valências Catalunhas
E até calvários sem cruz
Tem Tejos, tem Beira Douros
Trás as Cintras, Trás-os-Montes
Tem rios, tem pororocas
Quedas-d'águas, brancas fontes
Tem colinas, tem bacias
Muitos belos horizontes.
Tem Norte Sul Leste Oeste
Zona quente e zona fria
Tem tudo que tem no mundo
Na minha Tatiografia.
1 092
Fernando Pessoa
III - Corre, raio de rio, e leva ao mar
III
Corre, raio de rio, e leva ao mar
A minha indiferença subjectiva!
Qual «leva ao mar»! Tua presença esquiva
Que tem comigo e com o meu pensar?
Lesma de sorte! Vivo a cavalgar
A sombra de um jumento. A vida viva
Vive a dar nomes ao que não se activa,
Morre a pôr etiquetas ao grande ar...
Escancarado Furness, mais três dias
Te aturarei, pobre engenheiro preso
A sucessibilíssimas vistorias...
Depois, ir-me-ei embora, eu e o desprezo
(E tu irás do mesmo modo que ias),
Qualquer, na gare, de cigarro aceso...
Corre, raio de rio, e leva ao mar
A minha indiferença subjectiva!
Qual «leva ao mar»! Tua presença esquiva
Que tem comigo e com o meu pensar?
Lesma de sorte! Vivo a cavalgar
A sombra de um jumento. A vida viva
Vive a dar nomes ao que não se activa,
Morre a pôr etiquetas ao grande ar...
Escancarado Furness, mais três dias
Te aturarei, pobre engenheiro preso
A sucessibilíssimas vistorias...
Depois, ir-me-ei embora, eu e o desprezo
(E tu irás do mesmo modo que ias),
Qualquer, na gare, de cigarro aceso...
1 089
Vinicius de Moraes
A Ponte de Van Gogh
O lugar não importa: pode ser o Japão, a Holanda, a campina inglesa.
Mas é absolutamente preciso que seja domingo.
O azul do céu ecoa na esmeralda do rio
E o rio reflete docemente as margens de relva verde-laranja
Dir-se-ia que da mansão da esquerda voou o lençol virginal de miss
Para ser no céu sem mancha a única nuvem.
A calma é velha, de uma velhice sem pátina
As cores são simples, ingênuas
A estação é feliz: o guarda da ponte chegou a pintar
De listas vermelhas o teto de sua casinhola.
E, meu Deus, se não fossem esses diabinhos de pinheiros a fazer caretas
E a pressa com que o homem da charrete vai:
- A pressa de quem atravessou um vago perigo
Tudo estivesse perfeito, e não me viesse esse medo tolo de a pequena ponte
levadiça
Desabe e se molhe o vestido preto de Cristina Georgina Rosseti
Que vai de umbrela especialmente para ouvir a prédica do novo pastor da
vila.
Itatiaia, 1937.
Mas é absolutamente preciso que seja domingo.
O azul do céu ecoa na esmeralda do rio
E o rio reflete docemente as margens de relva verde-laranja
Dir-se-ia que da mansão da esquerda voou o lençol virginal de miss
Para ser no céu sem mancha a única nuvem.
A calma é velha, de uma velhice sem pátina
As cores são simples, ingênuas
A estação é feliz: o guarda da ponte chegou a pintar
De listas vermelhas o teto de sua casinhola.
E, meu Deus, se não fossem esses diabinhos de pinheiros a fazer caretas
E a pressa com que o homem da charrete vai:
- A pressa de quem atravessou um vago perigo
Tudo estivesse perfeito, e não me viesse esse medo tolo de a pequena ponte
levadiça
Desabe e se molhe o vestido preto de Cristina Georgina Rosseti
Que vai de umbrela especialmente para ouvir a prédica do novo pastor da
vila.
Itatiaia, 1937.
1 151
Fernando Pessoa
II - Deuses, forças, almas de ciência ou fé,
II
Deuses, forças, almas de ciência ou fé,
Eh! Tanta explicação que nada explica!
Estou sentado no cais, numa barrica,
E não compreendo mais do que de pé.
Porque o havia de compreender?
Pois sim, mas também porque o não havia?
Água do rio, correndo suja e fria,
Eu passo como tu, sem mais valer...
Ó universo, novelo emaranhado,
Que paciência de dedos de quem pensa
Em outra coisa te põe separado?
Deixa de ser novelo o que nos fica...
A que brincar? Ao amor?, à indiferença?
Por mim, só me levanto da barrica.
Deuses, forças, almas de ciência ou fé,
Eh! Tanta explicação que nada explica!
Estou sentado no cais, numa barrica,
E não compreendo mais do que de pé.
Porque o havia de compreender?
Pois sim, mas também porque o não havia?
Água do rio, correndo suja e fria,
Eu passo como tu, sem mais valer...
Ó universo, novelo emaranhado,
Que paciência de dedos de quem pensa
Em outra coisa te põe separado?
Deixa de ser novelo o que nos fica...
A que brincar? Ao amor?, à indiferença?
Por mim, só me levanto da barrica.
1 323
Carlos Drummond de Andrade
Paisagem Descrita Em Jornal de 1910
Aqui se elevam pedregulhos em cúmulos
ocultando avaramente o ouro.
Há flores roxas
de melastomas.
Os mirtos em touceira verde-escura
coalham-se de negras bagas.
Fetos arborescentes
radicados à cascalheira úmida
distendem semiperpendiculadas suas palmas
à semelhança de coqueiros.
De pequena gruta
jorra em cascata a água miraculosa
à sombra secular de um fícus.
ocultando avaramente o ouro.
Há flores roxas
de melastomas.
Os mirtos em touceira verde-escura
coalham-se de negras bagas.
Fetos arborescentes
radicados à cascalheira úmida
distendem semiperpendiculadas suas palmas
à semelhança de coqueiros.
De pequena gruta
jorra em cascata a água miraculosa
à sombra secular de um fícus.
1 103
Sophia de Mello Breyner Andresen
Mar
De novo o som o ressoar o mar
De novo o embalo do tumulto mais antigo
E a inteireza de instante primitivo
De novo o canto o murmurar o mar
Que se repete intacto e sacral
De novo o limpo e nu clamor primordial
De novo o embalo do tumulto mais antigo
E a inteireza de instante primitivo
De novo o canto o murmurar o mar
Que se repete intacto e sacral
De novo o limpo e nu clamor primordial
1 550
José Saramago
Quando Os Dedos de Areia
Quando os dedos de areia se esboroam,
A dureza da pedra é só memória
Do gesto inacabado.
Azul de céu e verde de alga funda,
Vejo a praia do mundo, fresca e rasa,
E o rosto desenhado.
A dureza da pedra é só memória
Do gesto inacabado.
Azul de céu e verde de alga funda,
Vejo a praia do mundo, fresca e rasa,
E o rosto desenhado.
992
Manuel Bandeira
A Onda
A O N D A
a onda anda
aonde anda
a onda?
a onda ainda
ainda onda
ainda anda
aonde?
aonde?
a onda a onda
a onda anda
aonde anda
a onda?
a onda ainda
ainda onda
ainda anda
aonde?
aonde?
a onda a onda
1 821
José Saramago
Devagar, Vou Descendo
Devagar, vou descendo entre corais.
Abro, dissolvo o corpo: fontes minhas
De águas brancas, secretas, reunidas
Ao orvalho das rosas escondidas.
Abro, dissolvo o corpo: fontes minhas
De águas brancas, secretas, reunidas
Ao orvalho das rosas escondidas.
1 088
Fernando Pessoa
Manhã que raias sem olhar a mim,
Manhã que raias sem olhar a mim,
Sol que luzes sem querer saber de eu ver-te,
É para mim que sois
Reais e verdadeiros;
Porque é na oposição ao que eu desejo
Que sinto real a natureza e a vida.
No que me nega sinto
Que existe e eu sou pequeno.
E nesta consciência torno a grande
Como a onda, que as tormentas atiraram
Ao alto ar, regressa
Pesada a um mar mais fundo.
Sol que luzes sem querer saber de eu ver-te,
É para mim que sois
Reais e verdadeiros;
Porque é na oposição ao que eu desejo
Que sinto real a natureza e a vida.
No que me nega sinto
Que existe e eu sou pequeno.
E nesta consciência torno a grande
Como a onda, que as tormentas atiraram
Ao alto ar, regressa
Pesada a um mar mais fundo.
796
José Saramago
Tempo de Cristal
Meu caminho de choupos, apontado
Ao segredo do ovo e das raízes,
Ou vara de cristal em mãos de fogo
E grito de barqueiro à madrugada:
Longa foi a jornada, e muitas águas
Foram charcos parados, quando rios
As fontes, que eram minhas, prometiam.
E barcos encalhados se perderam.
Sobre a terra pousado, como um sino,
Tange o vitral do céu e nasce o mundo:
Águas vivas, libertas, olhos de aves
São as formas do sol no ovo aberto.
Vão navegando os barcos, e as raízes
Firmes na rocha os troncos alimentam:
Descem brilhando ao fundo a vara e o fogo
E o tempo de cristal sobe até nós.
Ao segredo do ovo e das raízes,
Ou vara de cristal em mãos de fogo
E grito de barqueiro à madrugada:
Longa foi a jornada, e muitas águas
Foram charcos parados, quando rios
As fontes, que eram minhas, prometiam.
E barcos encalhados se perderam.
Sobre a terra pousado, como um sino,
Tange o vitral do céu e nasce o mundo:
Águas vivas, libertas, olhos de aves
São as formas do sol no ovo aberto.
Vão navegando os barcos, e as raízes
Firmes na rocha os troncos alimentam:
Descem brilhando ao fundo a vara e o fogo
E o tempo de cristal sobe até nós.
1 222
Stella Leonardos
Dois Temas para Debret
I
Pequeno príncipe, via
preso às janelas do Paço
o Rio onde já vivia.
Ah ser livre em mais espaço!
Das janelas via o largo
e, no largo, o chafariz.
Além do largo, o horizonte
— horizonte longilargo
de larguíssimo matiz.
Salpicados dágua doce,
os negros vinham cantando,
carregados de barris.
"Ei ê, qui foi, na fonte.
Ei ê, qui foi, na fonte.
Sinhora me disse
qui foi na fonte,
qui foi na fonte
Sinhora me disse
qui foi na fonte
com dois barri:
qui foi na fonte Sinhora me disse
com dois barri.
Ee ê ei ê."
E do cais e da baía
pescadores aportavam
nos barcos de maresia
contando aos ventos e às gentes
grandes pescas de baleia.
Se negros, afrocantavam
no ritmo de arpão afiado
e vozes de maré cheia:
"Mara, mara mdimba, auê ia ia auê,
mdimba urira,
mara, mara mdimba, auê ia ia auê".
Salpicando-se do sal
e do sol mares braveza.
In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro da Abolição: poesia. São Paulo: Melhoramentos, 1986
Pequeno príncipe, via
preso às janelas do Paço
o Rio onde já vivia.
Ah ser livre em mais espaço!
Das janelas via o largo
e, no largo, o chafariz.
Além do largo, o horizonte
— horizonte longilargo
de larguíssimo matiz.
Salpicados dágua doce,
os negros vinham cantando,
carregados de barris.
"Ei ê, qui foi, na fonte.
Ei ê, qui foi, na fonte.
Sinhora me disse
qui foi na fonte,
qui foi na fonte
Sinhora me disse
qui foi na fonte
com dois barri:
qui foi na fonte Sinhora me disse
com dois barri.
Ee ê ei ê."
E do cais e da baía
pescadores aportavam
nos barcos de maresia
contando aos ventos e às gentes
grandes pescas de baleia.
Se negros, afrocantavam
no ritmo de arpão afiado
e vozes de maré cheia:
"Mara, mara mdimba, auê ia ia auê,
mdimba urira,
mara, mara mdimba, auê ia ia auê".
Salpicando-se do sal
e do sol mares braveza.
In: LEONARDOS, Stella. Romanceiro da Abolição: poesia. São Paulo: Melhoramentos, 1986
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Fernando Pessoa
22 - RIVERS
Many rivers run
Down to many seas.
All my cares are one:
On what river of these
Could my heart have peace?
Two banks to each river.
None where I may stray
Hearing the rushes shiver
And seeing the river ever
Pass, yet seem to stay.
Maybe there is another
River, but far from Me.
There l may meet the Brother
Of my eternity.
In what God will this be?
Down to many seas.
All my cares are one:
On what river of these
Could my heart have peace?
Two banks to each river.
None where I may stray
Hearing the rushes shiver
And seeing the river ever
Pass, yet seem to stay.
Maybe there is another
River, but far from Me.
There l may meet the Brother
Of my eternity.
In what God will this be?
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Alberto da Costa e Silva
Flumen, Fluminis, setembro de 1950
Ouçamos o fluir deste curso de rio
entre velhos muros imóveis de fadiga
não apenas meras lajes limitadas e cinzentas
mas pedras tristes e calmas
entre as quais escorre o límpido silêncio
da água que flui sobre a nudez
pura da morte
em nenhuma outra fonte, o cansaço
de ser manhã quando a noite se debruça
sobre nós, sofreremos
pois tão estranhos seremos ao murmúrio
de suas águas veladas
à música que nada anuncia a não ser primaveras
como agora, sôfregos, nos reclinamos
sobre o líquido móvel deste rio que leva
para o mar distante e irrevelado
estas formas maduras e tranqüilas
este sopro perfeito
daquilo que foi apenas o fugidio e precário pó.
Publicado no livro O parque e outros poemas (1953).
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.2
entre velhos muros imóveis de fadiga
não apenas meras lajes limitadas e cinzentas
mas pedras tristes e calmas
entre as quais escorre o límpido silêncio
da água que flui sobre a nudez
pura da morte
em nenhuma outra fonte, o cansaço
de ser manhã quando a noite se debruça
sobre nós, sofreremos
pois tão estranhos seremos ao murmúrio
de suas águas veladas
à música que nada anuncia a não ser primaveras
como agora, sôfregos, nos reclinamos
sobre o líquido móvel deste rio que leva
para o mar distante e irrevelado
estas formas maduras e tranqüilas
este sopro perfeito
daquilo que foi apenas o fugidio e precário pó.
Publicado no livro O parque e outros poemas (1953).
In: SILVA, Alberto da Costa e. As linhas da mão. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Difel; Brasília: INL, 1978. p.2
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Lila Ripoll
Anunciação
Voam-me pássaros em torno,
numa ciranda sem motivos.
A estrada é fria.
Estou de branco.
Brilha uma estrela em minha mão.
Revoam pássaros em torno.
Meu ombro esquerdo vai ferido.
Medrosos passos vão levando
a fina sombra do meu corpo.
Volteiam folhas,
dança o vento
e a gaze clara do vestido.
Minha cabeça vai pendida
e há uma estrela em minha mão.
Que estranho o caminho andado,
de branco, na estrada fria,
por entre pássaros voando,
por sobre flores caindo
e o ombro esquerdo sangrando.
O mar canta em meus ouvidos
e a Montanha inacessível
estende ramos de paz.
Passam âncoras e cruzes
e há uma estrela em minha mão.
Por que me levam de branco,
na fria estrada de pedra,
com este ombro sangrando,
entre perfumes e asas?
Que anunciam essas cruzes?
Essas âncoras partidas?
Esses pássaros revoando?
E essa estrela em minha mão?
Quem me leva e para onde
com essa estrela na mão?
Publicado no livro Por Quê? (1947).
In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968. p.53-5
numa ciranda sem motivos.
A estrada é fria.
Estou de branco.
Brilha uma estrela em minha mão.
Revoam pássaros em torno.
Meu ombro esquerdo vai ferido.
Medrosos passos vão levando
a fina sombra do meu corpo.
Volteiam folhas,
dança o vento
e a gaze clara do vestido.
Minha cabeça vai pendida
e há uma estrela em minha mão.
Que estranho o caminho andado,
de branco, na estrada fria,
por entre pássaros voando,
por sobre flores caindo
e o ombro esquerdo sangrando.
O mar canta em meus ouvidos
e a Montanha inacessível
estende ramos de paz.
Passam âncoras e cruzes
e há uma estrela em minha mão.
Por que me levam de branco,
na fria estrada de pedra,
com este ombro sangrando,
entre perfumes e asas?
Que anunciam essas cruzes?
Essas âncoras partidas?
Esses pássaros revoando?
E essa estrela em minha mão?
Quem me leva e para onde
com essa estrela na mão?
Publicado no livro Por Quê? (1947).
In: RIPOLL, Lila. Antologia poética. Rio de Janeiro: Leitura; Brasília: INL, 1968. p.53-5
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