Poemas neste tema
Mar, Rios e Oceanos
Sophia de Mello Breyner Andresen
Iii. À Luz do Aparecer a Madrugada
À luz do aparecer a madrugada
Iluminava o côncavo de ausentes
Velas a demandar estas paragens
Aqui desceram as âncoras escuras
Daqueles que vieram procurando
O rosto real de todas as figuras
E ousaram — aventura a mais incrível —
Viver a inteireza do possível
1977
Iluminava o côncavo de ausentes
Velas a demandar estas paragens
Aqui desceram as âncoras escuras
Daqueles que vieram procurando
O rosto real de todas as figuras
E ousaram — aventura a mais incrível —
Viver a inteireza do possível
1977
698
Sophia de Mello Breyner Andresen
Ii. Navegação Abstracta
Navegação abstracta
Fito como um peixe o voo segue a rota
Vista de cima tornou-se a terra um mapa
Porém subitamente
Atravessámos do Oriente a grande porta
De safiras azuis no mar luzente
1977
Fito como um peixe o voo segue a rota
Vista de cima tornou-se a terra um mapa
Porém subitamente
Atravessámos do Oriente a grande porta
De safiras azuis no mar luzente
1977
1 069
Sophia de Mello Breyner Andresen
Iv. Aqui Viu o Surgir Em Flor Das Ilhas
«Dolce color d’oriental zaffiro»
Dante, Purgatório, Canto I, terceto 5
Aqui viu o surgir em flor das ilhas
Quem vindo pelo mar desceu ao sul
E o cabo contornou para nascente
Orientando o cortar das negras quilhas
E sob as altas nuvens brancas liras
Os olhos viram verdadeiramente
O doce azul de Oriente e de safiras
1977
Dante, Purgatório, Canto I, terceto 5
Aqui viu o surgir em flor das ilhas
Quem vindo pelo mar desceu ao sul
E o cabo contornou para nascente
Orientando o cortar das negras quilhas
E sob as altas nuvens brancas liras
Os olhos viram verdadeiramente
O doce azul de Oriente e de safiras
1977
1 118
Sophia de Mello Breyner Andresen
I. Navegámos Para Oriente
Navegámos para Oriente —
A longa costa
Era de um verde espesso e sonolento
Um verde imóvel sob o nenhum vento
Até à branca praia cor de rosas
Tocada pelas águas transparentes
Então surgiram as ilhas luminosas
De um azul tão puro e tão violento
Que excedia o fulgor do firmamento
Navegado por garças milagrosas
E extinguiram-se em nós memória e tempo
1977
A longa costa
Era de um verde espesso e sonolento
Um verde imóvel sob o nenhum vento
Até à branca praia cor de rosas
Tocada pelas águas transparentes
Então surgiram as ilhas luminosas
De um azul tão puro e tão violento
Que excedia o fulgor do firmamento
Navegado por garças milagrosas
E extinguiram-se em nós memória e tempo
1977
1 260
Edmir Domingues
Um contratempo num rever amigos
E eis que fomos no passo da aventura
para rever amigos na distância
e era um campo de mar, e era fragrância
de maresia a rota da procura.
Fomos os três na sombra, e dentro em breve
éramos cinco a um passo da alimária
pendida, a conversarmos sobre a vária
fortuna que tão longe nos deteve.
Ao pouso onde restava o olhar cansado
a noite imensa vinha, e o mar nos vinha
como ao beiral na chuva essa andorinha
cantada pelos versos do passado.
Quanto apesar de tudo noite rara
porquanto o tê-los visto compensara.
para rever amigos na distância
e era um campo de mar, e era fragrância
de maresia a rota da procura.
Fomos os três na sombra, e dentro em breve
éramos cinco a um passo da alimária
pendida, a conversarmos sobre a vária
fortuna que tão longe nos deteve.
Ao pouso onde restava o olhar cansado
a noite imensa vinha, e o mar nos vinha
como ao beiral na chuva essa andorinha
cantada pelos versos do passado.
Quanto apesar de tudo noite rara
porquanto o tê-los visto compensara.
677
Edmir Domingues
Ao infante navegador
Na noite negra o promontório
penetra o Mar do Fim do Mundo.
E as nossas faces, nossas frontes,
as nossas cãs da insônia tanta,
jazem despertas, debruçadas
neste outro mar dos instrumentos.
Onde andarão as nossas naves
no mar da bruma e da incerteza?
Onde andarão irmãos, amigos,
no mar de breu, de sorvedouros?
O Infante espia e cisma e sonha.
Eu, sacerdote do mistério,
sempre a seu lado, apuro os filtros,
espanto os gatos e os morcegos
avivo os fogos do braseiro.
(Viva bem vivo o sortilégio
para espantar os monstros feros
que habitam sempre o Tenebroso).
Zarco, Tris tão, Eanes, Velho,
Bartolomeu, Diogo Cão,
onde estarão na noite imensa?
(Dizem que quem no mar de trevas
haja por hem se aventurar
em pouco instante será velho
já não terá noção do tempo).
Na noite negra o promontório
penetra o Mar do Fim do Mundo.
O Infante espia o espaço e cisma.
Onde andarão as nossas naves
em meio aos vórtices do espaço?
Será que acaso já dobraram
O Cabo Não e Marte, e Vênus
e o Bojador, e acaso acharam
Catay, Saturno, Taprohana,
Cipango e o Décimo Planeta,
Lua e o País do Preste João?
Caminho líquido das índias
aérea rota para Andrômeda.
Sagres então, Canaveral
agora, e sempre, e em toda a vida.
No promontório o Infante cisma
e a guerra santa nos promete.
Aos habitantes das esferas
em breve luta sujeitados -
temos de impor a fé de Cristo
e difundir nosso Evangelho.
penetra o Mar do Fim do Mundo.
E as nossas faces, nossas frontes,
as nossas cãs da insônia tanta,
jazem despertas, debruçadas
neste outro mar dos instrumentos.
Onde andarão as nossas naves
no mar da bruma e da incerteza?
Onde andarão irmãos, amigos,
no mar de breu, de sorvedouros?
O Infante espia e cisma e sonha.
Eu, sacerdote do mistério,
sempre a seu lado, apuro os filtros,
espanto os gatos e os morcegos
avivo os fogos do braseiro.
(Viva bem vivo o sortilégio
para espantar os monstros feros
que habitam sempre o Tenebroso).
Zarco, Tris tão, Eanes, Velho,
Bartolomeu, Diogo Cão,
onde estarão na noite imensa?
(Dizem que quem no mar de trevas
haja por hem se aventurar
em pouco instante será velho
já não terá noção do tempo).
Na noite negra o promontório
penetra o Mar do Fim do Mundo.
O Infante espia o espaço e cisma.
Onde andarão as nossas naves
em meio aos vórtices do espaço?
Será que acaso já dobraram
O Cabo Não e Marte, e Vênus
e o Bojador, e acaso acharam
Catay, Saturno, Taprohana,
Cipango e o Décimo Planeta,
Lua e o País do Preste João?
Caminho líquido das índias
aérea rota para Andrômeda.
Sagres então, Canaveral
agora, e sempre, e em toda a vida.
No promontório o Infante cisma
e a guerra santa nos promete.
Aos habitantes das esferas
em breve luta sujeitados -
temos de impor a fé de Cristo
e difundir nosso Evangelho.
749
António Ramos Rosa
A Ordem do Mar
À medida que ver se completa em arco
de uma harmonia que reúne o espaço inteiro
a flor se ergue em fantasia calma e se decanta
na brisa que a inclina e a rodeia e a aviva.
Não mais a máscara, não mais a mímica, não mais
as flautas e as palavras flutuantes. Só a canção
do mar, a sua ordem múltipla e monótona,
os seus artifícios frescos, a sua fragrância funda.
É uma voz que torna o céu mais amplo e a folha
mais azul. É o conhecimento de uma ordem
em que as sombras se combinam com o vento,
em que os corpos são formas do verdadeiro oceano.
de uma harmonia que reúne o espaço inteiro
a flor se ergue em fantasia calma e se decanta
na brisa que a inclina e a rodeia e a aviva.
Não mais a máscara, não mais a mímica, não mais
as flautas e as palavras flutuantes. Só a canção
do mar, a sua ordem múltipla e monótona,
os seus artifícios frescos, a sua fragrância funda.
É uma voz que torna o céu mais amplo e a folha
mais azul. É o conhecimento de uma ordem
em que as sombras se combinam com o vento,
em que os corpos são formas do verdadeiro oceano.
997
Edmir Domingues
Memória da ilha
A casa aberta ao sol, ao vento, e à voz do mar
um templo grego à luz, de luz sempre lavado,
no topo da falésia o milagre implantado,
San Michele de sempre, a de se ver e amar.
O Imperador recorda (ainda é sombra forte)
o tempo que passou, que não volta e é perdido
como se perde tudo ( o que foi bem vivido
e o que não se viveu), na dura lei da morte.
É o azul mais azul o azul da Gruta Azul.
O mar Tirreno em volta, os verdes da esmeralda
de onde começa e cresce a luminosa falda
da montanha Solaro, a direção: o sul.
Esse azul quase verde em torno, piso e teto,
é exata dimensão do gosto do Arquiteto.
Anacapri, 1984.
um templo grego à luz, de luz sempre lavado,
no topo da falésia o milagre implantado,
San Michele de sempre, a de se ver e amar.
O Imperador recorda (ainda é sombra forte)
o tempo que passou, que não volta e é perdido
como se perde tudo ( o que foi bem vivido
e o que não se viveu), na dura lei da morte.
É o azul mais azul o azul da Gruta Azul.
O mar Tirreno em volta, os verdes da esmeralda
de onde começa e cresce a luminosa falda
da montanha Solaro, a direção: o sul.
Esse azul quase verde em torno, piso e teto,
é exata dimensão do gosto do Arquiteto.
Anacapri, 1984.
799
Charles Bukowski
Visita a Venice
nós fomos dar uma caminhada ao longo da praia em Venice
os hippies sentados esperando pelo Nirvana
alguns deles golpeando bongôs,
as últimas das velhas damas judias esperando a morte
esperando pelo momento de seguir seus maridos que já partiram faz tanto tempo,
o mar ondulava para lá e para cá,
ficamos cansados e nos deitamos num gramado
e minha filha de 8 anos passou os dedos por
minha barba dizendo: “Hank, está ficando cada vez mais
branca!” Eu ri direto para o céu, ela era
tão engraçada. então ela tocou meu bigode: “Está ficando
branco também”. Eu ri de novo. “E as minhas sobrancelhas?”,
eu perguntei. “Tem um aqui. É meio branco e meio
vermelho.”
“é?” “sim.”
fechei meus olhos por um momento. ela passou os dedos pelo meu
cabelo. “Mas não tem branco no seu cabelo, Hank. Nem um único
cabelo é branco...”
“Não, aqui perto da orelha direita”, eu disse, “está começando.”
levantamos e continuamos nossa caminhada até o carro.
“Frances tem o cabelo todo branco”, ela disse.
“Sim”, eu disse, “mas são aqueles 5 longos cabelos brancos
pendurados no queixo dela que não são muito bonitos.”
“Foi por isso que vocês se separaram?”
“Não, ela alegou que eu fui pra cama com outra mulher.”
“Você fez isso?”
“Veja como o céu está alto!”
o mar ondulava pra lá e pra cá.
“Ela não vai achar homem algum disposto a beijá-la com aqueles 5 cabelos brancos
no queixo dela.”
“Mas ela acha!”
“Ah é?”
“Bem, não muitos...”
“50.000?”
“Ah, não...”
“5?”
“Sim, 5. Um homem para cada cabelo.”
entramos de volta no carro e eu a conduzi de volta até
sua mãe.
os hippies sentados esperando pelo Nirvana
alguns deles golpeando bongôs,
as últimas das velhas damas judias esperando a morte
esperando pelo momento de seguir seus maridos que já partiram faz tanto tempo,
o mar ondulava para lá e para cá,
ficamos cansados e nos deitamos num gramado
e minha filha de 8 anos passou os dedos por
minha barba dizendo: “Hank, está ficando cada vez mais
branca!” Eu ri direto para o céu, ela era
tão engraçada. então ela tocou meu bigode: “Está ficando
branco também”. Eu ri de novo. “E as minhas sobrancelhas?”,
eu perguntei. “Tem um aqui. É meio branco e meio
vermelho.”
“é?” “sim.”
fechei meus olhos por um momento. ela passou os dedos pelo meu
cabelo. “Mas não tem branco no seu cabelo, Hank. Nem um único
cabelo é branco...”
“Não, aqui perto da orelha direita”, eu disse, “está começando.”
levantamos e continuamos nossa caminhada até o carro.
“Frances tem o cabelo todo branco”, ela disse.
“Sim”, eu disse, “mas são aqueles 5 longos cabelos brancos
pendurados no queixo dela que não são muito bonitos.”
“Foi por isso que vocês se separaram?”
“Não, ela alegou que eu fui pra cama com outra mulher.”
“Você fez isso?”
“Veja como o céu está alto!”
o mar ondulava pra lá e pra cá.
“Ela não vai achar homem algum disposto a beijá-la com aqueles 5 cabelos brancos
no queixo dela.”
“Mas ela acha!”
“Ah é?”
“Bem, não muitos...”
“50.000?”
“Ah, não...”
“5?”
“Sim, 5. Um homem para cada cabelo.”
entramos de volta no carro e eu a conduzi de volta até
sua mãe.
1 095
António Ramos Rosa
O Vento
O ar que se levanta com olhos móveis
quer às vezes ser árvore ou um sol muito escuro.
Vem do fundo onde tudo se cala sobre uma pedra branca.
Busca o odor das ilhas, busca a garganta perfeita
ou uma coluna de pombas. Às vezes nada está vivo
e o vento levanta-se com as suas artérias ligeiras.
E o mar ascende mudo até à boca do vento.
Nos meandros claros aviva-se a visão de uma paisagem
em movimento como um grande pássaro transparente.
Porosa e frágil é a mão que sublinha a caligrafia do vento.
quer às vezes ser árvore ou um sol muito escuro.
Vem do fundo onde tudo se cala sobre uma pedra branca.
Busca o odor das ilhas, busca a garganta perfeita
ou uma coluna de pombas. Às vezes nada está vivo
e o vento levanta-se com as suas artérias ligeiras.
E o mar ascende mudo até à boca do vento.
Nos meandros claros aviva-se a visão de uma paisagem
em movimento como um grande pássaro transparente.
Porosa e frágil é a mão que sublinha a caligrafia do vento.
1 214
Vinicius de Moraes
A Ausente
Amiga, infinitamente amiga
Em algum lugar teu coração bate por mim
Em algum lugar teus olhos se fecham à ideia dos meus.
Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios
Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas
Como que cega ao meu encontro...
Amiga, última doçura
A tranquilidade suavizou a minha pele
E os meus cabelos. Só meu ventre
Te espera, cheio de raízes e de sombras.
Vem, amiga
Minha nudez é absoluta
Meus olhos são espelhos para o teu desejo
E meu peito é tábua de suplícios
Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes
E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim
Como no mar, vem nadar em mim como no mar
Vem te afogar em mim, amiga minha
Em mim como no mar...
Em algum lugar teu coração bate por mim
Em algum lugar teus olhos se fecham à ideia dos meus.
Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios
Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas
Como que cega ao meu encontro...
Amiga, última doçura
A tranquilidade suavizou a minha pele
E os meus cabelos. Só meu ventre
Te espera, cheio de raízes e de sombras.
Vem, amiga
Minha nudez é absoluta
Meus olhos são espelhos para o teu desejo
E meu peito é tábua de suplícios
Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes
E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim
Como no mar, vem nadar em mim como no mar
Vem te afogar em mim, amiga minha
Em mim como no mar...
1 300
José Saramago
Metáfora
Trago nas mãos um búzio ressoante
Onde os ventos do mar se reuniram,
E das mãos, ou do búzio murmurante,
Alastra em cor e som irradiante
A beleza que os olhos te despiram
Onde os ventos do mar se reuniram,
E das mãos, ou do búzio murmurante,
Alastra em cor e som irradiante
A beleza que os olhos te despiram
1 867
Edmir Domingues
Galope das bruxas
Na noite mais negra do mês de novembro,
do fundo mais fundo da noite sem fim,
soprados por ventos de um hálito ruim
nasceram fantasmas, sem cor, bem me lembro.
As formas formando-se no ar, membro a membro,
de um branco ectoplasma, no chão sublunar,
morcegos-vampiros passando o voar,
que é isto, meu Deus dos desígnios supremos?
O horrível simpósio dos vultos blasfemos
brotando das sombras, à beira do mar.
Por certo é chegado o reinado de espantos
de há muito esperado, o advir de algum dia,
melhor, de uma Noite do Mal, bruxaria.
Cavalos de pó, cavalgados por santos,
dos santos quibandas de cujos quebrantos
um santo dos santos há-de me livrar
das mortes-vermelhas cumprindo o avatar,
de vozes chorando chorados lamentos
em viva diáspora em asas de ventos,
dos ventos que sopram na beira do mar.
Os sinos, dobrando o finados, se escutam,
na noite da festa, da festa vodu,
de obás e de eguns, dos demônios de Exu,
que montam coriscos e raios, que lutam,
provindos dos Ventos da Morte, labutam
no que é seu trabalho, o de o Mal espalhar.
- Relato estas coisas, que são de lembrar;
na voz do Galope compondo os relatos,
só para perpétua memória dos fatos
cantando o galope na beira do mar.
A Cobra, (essa cobra que tem os dois sexos),
também serpenteia, envolvida nos fumos,
em transe e estupor, sem roteiros nem rumos.
Duendes escuros permutam-se amplexos,
diante dos olhos, meus olhos perplexos,
com garras aduncas a me ameaçar.
Tal qual Missa Negra de Mundos de Azar
prossegue a Tragédia, ao grasnido dos corvos
das bruxas presentes, que bebem, aos sorvos,
os roncos nervosos das ondas do mar.
No entanto, desfaço os mistérios do absurdo,
sem cunhas de lenha, sem balas de prata,
e em breve inauguro uma paz de sonata
que, em manso lavor, silenciosamente urdo.
Desmancho esses ogros do imenso chafurdo
chamando a Senhora, a Quem cabe invocar.
Senhora de Tudo, de auréola estelar
da Boa Viagem, e dos Navegantes,
e da Piedade, (e dos oras, dos antes,)
também das Candeias da beira do mar.
E as horas da calma já vêm, vão chegando,
desfazem-se os monstros danados, por fim.
O ar se perfuma, o hálito ruim
soprado por fadas já vai-se evolando.
Às asas dos anjos, que chegam, em bando,
são suaves murmúrios, novo sussurrar.
Os sinos serenam, batendo a louvar
a Paz que conduz para a paz o meu músculo
de Fé, que se eleva ante o novo crepúsculo
da nova alvorada que nasce do Mar.
do fundo mais fundo da noite sem fim,
soprados por ventos de um hálito ruim
nasceram fantasmas, sem cor, bem me lembro.
As formas formando-se no ar, membro a membro,
de um branco ectoplasma, no chão sublunar,
morcegos-vampiros passando o voar,
que é isto, meu Deus dos desígnios supremos?
O horrível simpósio dos vultos blasfemos
brotando das sombras, à beira do mar.
Por certo é chegado o reinado de espantos
de há muito esperado, o advir de algum dia,
melhor, de uma Noite do Mal, bruxaria.
Cavalos de pó, cavalgados por santos,
dos santos quibandas de cujos quebrantos
um santo dos santos há-de me livrar
das mortes-vermelhas cumprindo o avatar,
de vozes chorando chorados lamentos
em viva diáspora em asas de ventos,
dos ventos que sopram na beira do mar.
Os sinos, dobrando o finados, se escutam,
na noite da festa, da festa vodu,
de obás e de eguns, dos demônios de Exu,
que montam coriscos e raios, que lutam,
provindos dos Ventos da Morte, labutam
no que é seu trabalho, o de o Mal espalhar.
- Relato estas coisas, que são de lembrar;
na voz do Galope compondo os relatos,
só para perpétua memória dos fatos
cantando o galope na beira do mar.
A Cobra, (essa cobra que tem os dois sexos),
também serpenteia, envolvida nos fumos,
em transe e estupor, sem roteiros nem rumos.
Duendes escuros permutam-se amplexos,
diante dos olhos, meus olhos perplexos,
com garras aduncas a me ameaçar.
Tal qual Missa Negra de Mundos de Azar
prossegue a Tragédia, ao grasnido dos corvos
das bruxas presentes, que bebem, aos sorvos,
os roncos nervosos das ondas do mar.
No entanto, desfaço os mistérios do absurdo,
sem cunhas de lenha, sem balas de prata,
e em breve inauguro uma paz de sonata
que, em manso lavor, silenciosamente urdo.
Desmancho esses ogros do imenso chafurdo
chamando a Senhora, a Quem cabe invocar.
Senhora de Tudo, de auréola estelar
da Boa Viagem, e dos Navegantes,
e da Piedade, (e dos oras, dos antes,)
também das Candeias da beira do mar.
E as horas da calma já vêm, vão chegando,
desfazem-se os monstros danados, por fim.
O ar se perfuma, o hálito ruim
soprado por fadas já vai-se evolando.
Às asas dos anjos, que chegam, em bando,
são suaves murmúrios, novo sussurrar.
Os sinos serenam, batendo a louvar
a Paz que conduz para a paz o meu músculo
de Fé, que se eleva ante o novo crepúsculo
da nova alvorada que nasce do Mar.
649
Edmir Domingues
Rota de colisão
É fortuna do mar o que nós somos
em seguida ao naufrágio. Nada resta
senão a solidão do abismo. Nesta
noite feita de esperas e de assomos.
Noite global. A angústia nos empresta
uma luz que recorda antigos cromos.
Onde o aroma provém de cinamomos
e sugere outro clima. De floresta.
O naufrágio sem mar. A queda enorme
sobre o abismo interior. Enquanto dorme
qualquer som de esperança e de conforto.
Barco à deriva. Após quebrado o leme,
que se parte e estraçalha, e chora e geme,
perdido para sempre o antigo porto.
em seguida ao naufrágio. Nada resta
senão a solidão do abismo. Nesta
noite feita de esperas e de assomos.
Noite global. A angústia nos empresta
uma luz que recorda antigos cromos.
Onde o aroma provém de cinamomos
e sugere outro clima. De floresta.
O naufrágio sem mar. A queda enorme
sobre o abismo interior. Enquanto dorme
qualquer som de esperança e de conforto.
Barco à deriva. Após quebrado o leme,
que se parte e estraçalha, e chora e geme,
perdido para sempre o antigo porto.
618
Edmir Domingues
Oferta para a amiga estrangeira
Dar-te-ei a água morna destes mares,
o verde e o azul das ondas desatadas,
a doçura das canas orvalhadas,
praias como não há noutros lugares,
e estes rios de luzes, e os cantares
dos pássaros, soando nas quebradas,
os bosques de onde vem, nas madrugadas,
o terral, de fragrâncias singulares.
Terás o amor que damos por costume.
Quente e vivo, contendo o mesmo lume
da lua em chamas sobre antigas tabas.
É as primícias da terra generosa:
a açucena, o Jasmim, o cravo, a rosa,
mangas, cajás, cajus, limões, mangabas.
o verde e o azul das ondas desatadas,
a doçura das canas orvalhadas,
praias como não há noutros lugares,
e estes rios de luzes, e os cantares
dos pássaros, soando nas quebradas,
os bosques de onde vem, nas madrugadas,
o terral, de fragrâncias singulares.
Terás o amor que damos por costume.
Quente e vivo, contendo o mesmo lume
da lua em chamas sobre antigas tabas.
É as primícias da terra generosa:
a açucena, o Jasmim, o cravo, a rosa,
mangas, cajás, cajus, limões, mangabas.
604
Marguerite Duras
As mãos negativas (excerto)
Chamam-se “mãos negativas” as pinturas de mãos encontradas nas grutas magdalenienses da Europa Sul-Atlântica. O contorno dessas mãos – espalmadas sobre a pedra – era recoberto de cor. O mais frequente de azul, de preto. Às vezes, de vermelho. Nenhuma explicação foi encontrada para esta prática.
Diante do oceano
sob a falésia
sobre a parede de granito
essas mãos
abertas
Azuis
E pretas
Do azul da água
Do preto da noite
O homem veio sozinho na gruta
de frente para o oceano
Todas as mãos têm o mesmo tamanho
ele estava sozinho
O homem sozinho na gruta olhou
no barulho
no barulho do mar
a imensidão das coisas
E ele gritou
Tu que tens um nome e uma identidade eu
te amo
Essas mãos
do azul da água
do preto do céu
Planas
Colocadas divididas sobre o granito cinza
Para que alguém as visse
Eu sou aquele que chama
Eu sou aquele que chamava que gritava há trinta
mil anos
Eu te amo
Eu grito que eu quero te amar, eu te amo
Eu amarei quem quer que escute o meu grito
Sobre a terra vazia ficarão essas mãos sobre a parede de
granito de frente para o fragor do oceano
Insustentável
Ninguém escutará mais
Ninguém verá
Trinta mil anos
Estas mãos, pretas
A refração da luz sobre o mar faz tremer
a parede da pedra
Eu sou alguém eu sou aquele que chamava que
gritava nessa luz branca
O desejo
a palavra ainda não foi inventada
Ele olhou a imensidão das coisas no fragor
das ondas, a imensidão de sua força
e depois gritou
Acima dele as florestas da Europa,
sem fim
Ele se segurou no centro da pedra
dos corredores
das vias de pedra
de todas as partes
Tu que tens um nome e uma identidade eu
te amo com um amor indefinido
Seria necessário descer a falésia
vencer o medo
O vento sopra do continente ele empurra
o oceano
As ondas lutam contra o vento
Elas avançam
abrandadas por sua força
e pacientemente alcançam
a parede
Tudo se esmaga
Eu te amo mais longe do que tu
Eu amarei quem quer que escutará que eu grito que eu
te amo
Trinta mil anos
Eu chamo
Eu chamo aquele que me responder
Eu quero te amar eu te amo
Há trinta mil anos eu grito em frente ao mar o
espectro branco
Eu sou aquele que gritava que te amava, tu
(tradução de Érica Zíngano e Marcela Vieira)
:
Les mains négatives(1979)
Margueirte Duras
On appelle mains négatives les peintures de mains trouvées dans les grottes magdaléniennes de l'Europe Sud-Atlantique. Le contour des ces mains – posées grandes ouvertes sur la pierre – était enduit de couleur. Le plus souvent de bleu, de noir. Parfois de rouge. Aucune explication n'a été trouvée à cette pratique.
Devant l'océan
sous la falaise
sur la paroi de granit
ces mains
ouvertes
Bleues
Et noires
Du bleu de l'eau
Du noir de la nuit
L'homme est venu seul dans la grotte
face à l'océan
Toutes les mains ont la même taille
il était seul
L'homme seul dans la grotte a regardé
dans le bruit
dans le bruit de la mer
l'immensité des choses
Et il a crié
Toi qui es nommée toi qui es douée d'identité je
t'aime
Ces mains
du bleu de l'eau
du noir du ciel
Plates
Posées écartelées sur le granit gris
Pour que quelqu'un les ait vues
Je suis celui qui appelle
Je suis celui qui apellait qui criait il y a trente
mille ans
Je t'aime
Je crie que je veux t'aimer, je t'aime
J'aimerai quiconque entrendra que je crie
Sur la terre vide resteront ces mains sur la paroi de
granit face au fracas de l'océan
Insoutenable
Personne n'entendra plus
Ne verra
Trente mille ans
Ces mains-là, noires
La réfraction de la lumière sur la mer fait frémir
la paroi de la pierre
Je suis quelqu'un je suis celui qui appelait qui
criait dans cette lumière blanche
Le désir
le mot n'est pas encore inventé
Il a regardé l'immensité des choses dans le fracas
des vagues, l'immensité de sa force
et puis il a crié
Au-dessus de lui les fôrets d'Europe,
sans fin
Il se tient au centre de la pierre
des couloirs
des voies de pierre
de toutes parts
Toi qui es nommée toi qui es douée d'identité je
t'aime d'un amour indéfini
Il fallait descendre la falaise
vaincre la peur
Le vent souffle du continent il repousse
l'océan
Les vagues luttent contre le vent
Elles avancent
ralenties par sa force
et patiemment parviennent
à la paroi
Tout s'écrase
Je t'aime plus loin que toi
J'amearai quiconque entendra que je crie que je
t'aime
Trente mille ans
J'appelle
J'appelle celui qui me répondra
Je veux t'aimer je t'aime
Depuis trente mille ans je crie devant la mer le
spectre blanc
Je suis celui qui criait qu'il t'aimait, toi
.
.
.
3 769
Edmir Domingues
Ichitus
O peixe, o abismo, o mar das incertezas.
A forma hidrodinâmica desliza
nos limites do susto. À forma escura
nos países da sombra. À forma clara
nos domínios da luz. O mimetismo
é o seguro da vida.
Pensa o peixe
o conteúdo aético existente
na lei do mais dotado? A injusta regra -
seleção natural - esse o seu nome.
E o direito do fraco? Imune à culpa
de ser fraco, onde fica esse direito?
Desliza o peixe em mares de perigos
aproveitando o instante, até que chegue
o do monstro voraz que vive a espreita.
Noutro mar, outros seres também sabem
a incerteza da vida, a grande rede
das traições, e procuram pelo peixe
sinal do bom caminho, nas estradas.
Entanto seja o forte o irmão do fraco.
Posta de lado a crença no milagre
difícil de aceitar frente à razão,
sem conteúdo mágico, sem ritos,
mas tão só pela luz do Ensinamento:
Iesous CHristos, THeou, Uios, Soter.
A forma hidrodinâmica desliza
nos limites do susto. À forma escura
nos países da sombra. À forma clara
nos domínios da luz. O mimetismo
é o seguro da vida.
Pensa o peixe
o conteúdo aético existente
na lei do mais dotado? A injusta regra -
seleção natural - esse o seu nome.
E o direito do fraco? Imune à culpa
de ser fraco, onde fica esse direito?
Desliza o peixe em mares de perigos
aproveitando o instante, até que chegue
o do monstro voraz que vive a espreita.
Noutro mar, outros seres também sabem
a incerteza da vida, a grande rede
das traições, e procuram pelo peixe
sinal do bom caminho, nas estradas.
Entanto seja o forte o irmão do fraco.
Posta de lado a crença no milagre
difícil de aceitar frente à razão,
sem conteúdo mágico, sem ritos,
mas tão só pela luz do Ensinamento:
Iesous CHristos, THeou, Uios, Soter.
856
Cesare Pavese
TERRA RUBRA TERRA PRETA
Terra rubra terra preta,
você veio do mar,
do verde ressequido,
onde há palavras
antigas e fadiga sanguínea
e gerânios dentre as pedras,
você não sabe o quanto trazes
de mar, de palavras e de fadiga;
você, rica como uma recordação,
como o campo árido,
você, palavra dura e docíssima,
antiga pelo sangue
reunido nos olhos;
jovem, como um fruto
que é memória e estação,
sua respiração repousa
sob o céu de agosto,
e as olivas do teu olhar
adoçam o mar,
e você vive e revive
sem surpresa, certeira
como a terra, algoz
de estações e de sonhos
que ao luar se revelam
antiguíssimos, como
as mãos da tua mãe,
a tigela do braseiro.
você veio do mar,
do verde ressequido,
onde há palavras
antigas e fadiga sanguínea
e gerânios dentre as pedras,
você não sabe o quanto trazes
de mar, de palavras e de fadiga;
você, rica como uma recordação,
como o campo árido,
você, palavra dura e docíssima,
antiga pelo sangue
reunido nos olhos;
jovem, como um fruto
que é memória e estação,
sua respiração repousa
sob o céu de agosto,
e as olivas do teu olhar
adoçam o mar,
e você vive e revive
sem surpresa, certeira
como a terra, algoz
de estações e de sonhos
que ao luar se revelam
antiguíssimos, como
as mãos da tua mãe,
a tigela do braseiro.
786
Carlos Drummond de Andrade
Ao Sol da Praia
Já não vou a Maracangalha,
Anália: para um pouco, e lê-me.
O melhor é ficar na praia
de Ipanema, Leblon ou Leme.
O Rio refloriu, e tintas
de Renoir e Gauguin invadem
céu, montanha, barraca, e as pintas
mais loucas repontam na carne.
O rock ‘n’ roll das ondas explode
nos cinemas, ritmo liberto
de velhos tabus. Um coiote
(lobo mau ou bom?) anda perto,
filhinha. Contudo, os rapazes
e garotas são, direitinho,
o que fomos… mas a coragem
se afundava no colarinho.
O Rio, quente, é mais airoso,
mais Rio, mais tudo. Repara
como até um senhor idoso
reverdece e atira a gravata,
aderindo ao primeiro samba
que sopram na esquina vitrolas,
buzinas, rádio, e tome dança
(férias não há nessas escolas).
Carioca mofino é aquele
que a farra fáustica não ama.
Do Carnaval não fujas: ele
entra no banheiro e na Câmara.
Barra da Tijuca, infinito
mar, envolto no sol-rubi.
Tenho pena de Juscelino,
que não sabe morar aqui.
E então não mora em parte alguma,
nem nos problemas de governo.
Os dias passam, como espuma,
e o Catete dormita, ermo.
Deixa dormir: há tanta vida
na rua, em frente, em toda parte;
em Ademar, pulando acima
e além de Pedro Malasarte.
(Ademar o bom, pois não); tanta
euforia na luz janeira,
que a gente, suada, se levanta
com ligeireza de capeta
e pede ao mar e toma ao gelo
aquele suave refrigério
e vai lendo com fino apreço
o livrão de Mário Palmério.
Poesia? Canções, de Cecília.
Aventura? a Baleia Branca,
Moby Dick e sua quizília,
numa história que jamais cansa.
É tradução de Berenice
Xavier, sabes?, portanto, boa.
O vento do largo retine
neste livro, de popa a proa.
Meu coração, vasco, se estende
por maracanãs e piscinas,
onde um reflexo de ouro acende
Maracangalhas inauditas.
Não, Anália, eu sou é do Rio…
Sem chapéu de palha e uniforme,
sem água, na glória do estio,
meu amor pousa aqui, enorme.
20/01/1957
Anália: para um pouco, e lê-me.
O melhor é ficar na praia
de Ipanema, Leblon ou Leme.
O Rio refloriu, e tintas
de Renoir e Gauguin invadem
céu, montanha, barraca, e as pintas
mais loucas repontam na carne.
O rock ‘n’ roll das ondas explode
nos cinemas, ritmo liberto
de velhos tabus. Um coiote
(lobo mau ou bom?) anda perto,
filhinha. Contudo, os rapazes
e garotas são, direitinho,
o que fomos… mas a coragem
se afundava no colarinho.
O Rio, quente, é mais airoso,
mais Rio, mais tudo. Repara
como até um senhor idoso
reverdece e atira a gravata,
aderindo ao primeiro samba
que sopram na esquina vitrolas,
buzinas, rádio, e tome dança
(férias não há nessas escolas).
Carioca mofino é aquele
que a farra fáustica não ama.
Do Carnaval não fujas: ele
entra no banheiro e na Câmara.
Barra da Tijuca, infinito
mar, envolto no sol-rubi.
Tenho pena de Juscelino,
que não sabe morar aqui.
E então não mora em parte alguma,
nem nos problemas de governo.
Os dias passam, como espuma,
e o Catete dormita, ermo.
Deixa dormir: há tanta vida
na rua, em frente, em toda parte;
em Ademar, pulando acima
e além de Pedro Malasarte.
(Ademar o bom, pois não); tanta
euforia na luz janeira,
que a gente, suada, se levanta
com ligeireza de capeta
e pede ao mar e toma ao gelo
aquele suave refrigério
e vai lendo com fino apreço
o livrão de Mário Palmério.
Poesia? Canções, de Cecília.
Aventura? a Baleia Branca,
Moby Dick e sua quizília,
numa história que jamais cansa.
É tradução de Berenice
Xavier, sabes?, portanto, boa.
O vento do largo retine
neste livro, de popa a proa.
Meu coração, vasco, se estende
por maracanãs e piscinas,
onde um reflexo de ouro acende
Maracangalhas inauditas.
Não, Anália, eu sou é do Rio…
Sem chapéu de palha e uniforme,
sem água, na glória do estio,
meu amor pousa aqui, enorme.
20/01/1957
1 375
Mário-Henrique Leiria
Pegada na areia
Pegada na areia
recortada ainda
como o sinal distante
que espera apenas
a prevista vinda
do mar em maré cheia
para então partir
barco oscilante
vazio como o búzio
abandonado
entre os escombros
a recordar
um rosto perdido
de mulher
envolto em algas
com manchas solares
até aos ombros
num tempo já esquecido
sorriso de mulher
a desaparecer suavemente
atrás da duna
como a leve escuna
que parte ao sol poente
todos os demónios
cantando em tua mão
o mar
a solidão
recortada ainda
como o sinal distante
que espera apenas
a prevista vinda
do mar em maré cheia
para então partir
barco oscilante
vazio como o búzio
abandonado
entre os escombros
a recordar
um rosto perdido
de mulher
envolto em algas
com manchas solares
até aos ombros
num tempo já esquecido
sorriso de mulher
a desaparecer suavemente
atrás da duna
como a leve escuna
que parte ao sol poente
todos os demónios
cantando em tua mão
o mar
a solidão
584
Mário-Henrique Leiria
Não me chamem senhor
Não me chamem senhor
foi o que eu disse
quando cheguei
ao caminho entre os teus seios
não sabiam
que eu possuía a tua língua
e falaram-me com extrema precaução
como se fala a um estrangeiro
não sou senhor de nada
apenas conheço a terra
líquida vegetal colorida quente
que desce dos rios que tu és
até ao teu umbigo
Yaffa
civilizações redondas e macias
antigas e cruéis
reunidas na estranha planície
que nunca me entregaste
estendendo-se entre amoras
até se encontrar
num tempo primeiro e decisivo
fundo único exacto
em colinas ondulantes
onde nascem cantantes vales
de laranjas
que se repetem pelo horizonte
até junto à orla do teu mar
deslizando entre cidades enterradas
a recordar vestígios de paisagens
como trombetas de ruído e sal
em caminhos de água e de memória
Yaffa
o teu sexo de repouso límpido
ao som da flauta do tof e dos figos
bei n’har Prat un’har Chideke!
foi o que eu disse
quando cheguei
ao caminho entre os teus seios
não sabiam
que eu possuía a tua língua
e falaram-me com extrema precaução
como se fala a um estrangeiro
não sou senhor de nada
apenas conheço a terra
líquida vegetal colorida quente
que desce dos rios que tu és
até ao teu umbigo
Yaffa
civilizações redondas e macias
antigas e cruéis
reunidas na estranha planície
que nunca me entregaste
estendendo-se entre amoras
até se encontrar
num tempo primeiro e decisivo
fundo único exacto
em colinas ondulantes
onde nascem cantantes vales
de laranjas
que se repetem pelo horizonte
até junto à orla do teu mar
deslizando entre cidades enterradas
a recordar vestígios de paisagens
como trombetas de ruído e sal
em caminhos de água e de memória
Yaffa
o teu sexo de repouso límpido
ao som da flauta do tof e dos figos
bei n’har Prat un’har Chideke!
609
Luís Miguel Nava
Em Sintra
As águas maravilham-se entre os lábios
e a fala, rápidos
em Sintra espelhos surgem como pássaros,
a luz de que se erguem acontece às águas,
à flor da fala
divide os lábios e a ternura. Da linguagem
rebentam folhas duma cor incómoda, as de que
maravilhado de água surges entre
livros, algum crime, um
menino a dissolver-se ou dele os lábios e ergues
equívoca a luz depois. Rápidos
espelhos então cercam-te explodindo os pássaros.
e a fala, rápidos
em Sintra espelhos surgem como pássaros,
a luz de que se erguem acontece às águas,
à flor da fala
divide os lábios e a ternura. Da linguagem
rebentam folhas duma cor incómoda, as de que
maravilhado de água surges entre
livros, algum crime, um
menino a dissolver-se ou dele os lábios e ergues
equívoca a luz depois. Rápidos
espelhos então cercam-te explodindo os pássaros.
1 356
Carlos Drummond de Andrade
Mosaico
Lá vem o limpa-praia: o pê pipoca
em seu nome, mas limpa. Vamos, toca
a recolher o humano sujo esparso
nas areias, e viva o oceano garço!
Olha que é muita coisa: são detritos,
como nossos pecados, infinitos.
Mas que falta nos faz, ó maquininha,
um limpa-almas, pois não? Estás sozinha…
Não é por falar mal dos semelhantes:
a mim mesmo, serviços relevantes
prestaria esse insólito aparato.
(Mas só se pensa no foguete a jato.)
Rodemos, enquanto isso, ao sol, na praia,
o bambolê, até que a roda caia,
já que o dólar não cai. (O Lucas Lopes
trouxe uns níqueis, ou são cinemascopes?)
Ao cinema não vou, sob a canícula:
sem ar refrigerado, é mesmo piccola
a chance de voltar com vida à casa,
e não quero morrer no escuro e em brasa.
É tão berilo o dia, em fim de contas!
É verão, e verão são cores tontas,
são formas expansivas e cursivas,
sejam concretas ou figurativas,
recriando o universo a cada verso
que o passo feminino, em ritmo terso,
grava na rua, no ar, no pensamento.
É verão: e verão é meu tormento
delicioso; este Rio pega fogo,
e piscina, sorvete, samba, jogo
de futebol noturno, e esses vestidos,
de curtinhos que são, tornam compridos
os olhares, enquanto o agudo bico
dos sapatos (ai, bico biririco
da clara infância) vai bicando a flor
do dia em chama. Nisto, um senador
me chama a um canto e diz: “Por que caçoa
do Conselho d’Estado? É coisa boa,
e pouco a pouco iremos no brinquedo
interessando o príncipe Dom Pedro,
de modo que, mais dia menos dia,
reimplantamos — oba! — a monarquia”.
No intervalo, pergunta-se ao penedo,
ao eco, à ventania (e tudo quedo):
Qual o parlamentar que fez baldroca?
É um ex, fique em paz na sua toca,
e nosso eminentíssimo Dom Jaime
deixa o inquérito no ar e sem andaime.
Bem faz a Academia: esconde o voto
para evitar prantina ou terremoto.
(Há candidatos que provocam certo
enjoo de votar a descoberto,
e, se o talento insiste em ser oculto,
há que prestar-lhe sigiloso culto.)
Mas que nos diz, irmão, daquele abono,
a ser pago depois do último sono?
Vai ser uma alegria para os netos,
se um dia viram leis esses projetos…
Ponho tudo de lado e, calmo, vou,
ler o livro que surge, de Carpeaux:
Nova história da música: já se ouvem,
a dominar o caos, Bach e Beethoven.
14/12/1958
em seu nome, mas limpa. Vamos, toca
a recolher o humano sujo esparso
nas areias, e viva o oceano garço!
Olha que é muita coisa: são detritos,
como nossos pecados, infinitos.
Mas que falta nos faz, ó maquininha,
um limpa-almas, pois não? Estás sozinha…
Não é por falar mal dos semelhantes:
a mim mesmo, serviços relevantes
prestaria esse insólito aparato.
(Mas só se pensa no foguete a jato.)
Rodemos, enquanto isso, ao sol, na praia,
o bambolê, até que a roda caia,
já que o dólar não cai. (O Lucas Lopes
trouxe uns níqueis, ou são cinemascopes?)
Ao cinema não vou, sob a canícula:
sem ar refrigerado, é mesmo piccola
a chance de voltar com vida à casa,
e não quero morrer no escuro e em brasa.
É tão berilo o dia, em fim de contas!
É verão, e verão são cores tontas,
são formas expansivas e cursivas,
sejam concretas ou figurativas,
recriando o universo a cada verso
que o passo feminino, em ritmo terso,
grava na rua, no ar, no pensamento.
É verão: e verão é meu tormento
delicioso; este Rio pega fogo,
e piscina, sorvete, samba, jogo
de futebol noturno, e esses vestidos,
de curtinhos que são, tornam compridos
os olhares, enquanto o agudo bico
dos sapatos (ai, bico biririco
da clara infância) vai bicando a flor
do dia em chama. Nisto, um senador
me chama a um canto e diz: “Por que caçoa
do Conselho d’Estado? É coisa boa,
e pouco a pouco iremos no brinquedo
interessando o príncipe Dom Pedro,
de modo que, mais dia menos dia,
reimplantamos — oba! — a monarquia”.
No intervalo, pergunta-se ao penedo,
ao eco, à ventania (e tudo quedo):
Qual o parlamentar que fez baldroca?
É um ex, fique em paz na sua toca,
e nosso eminentíssimo Dom Jaime
deixa o inquérito no ar e sem andaime.
Bem faz a Academia: esconde o voto
para evitar prantina ou terremoto.
(Há candidatos que provocam certo
enjoo de votar a descoberto,
e, se o talento insiste em ser oculto,
há que prestar-lhe sigiloso culto.)
Mas que nos diz, irmão, daquele abono,
a ser pago depois do último sono?
Vai ser uma alegria para os netos,
se um dia viram leis esses projetos…
Ponho tudo de lado e, calmo, vou,
ler o livro que surge, de Carpeaux:
Nova história da música: já se ouvem,
a dominar o caos, Bach e Beethoven.
14/12/1958
1 153
Paio Gomes Charinho
Quantos Hoj'andam Eno Mar Aqui
Quantos hoj'andam eno mar aqui
coidam que coita no mundo nom há
senom do mar, nem ham outro mal já.
Mais doutra guisa contece hoje a mi:
coita d'amor me faz escaecer
a mui gram coita do mar e tẽer
pola maior coita de quantas som,
coita d'amor, a quen'a Deus quer dar.
E é gram coita de mort'a do mar
- mas nom é tal; e por esta razom
coita d'amor me faz escaecer
a mui gram coita do mar e tẽer
pola maior coita, per boa fé,
de quantas forom, nem som, nem serám.
E estes outros que amor nom ham
dizem que nom, mas eu direi qual é:
coita d'amor me faz escaecer
a mui gram coita d'amor e tẽer
por maior coita a que faz perder
coita do mar, que faz muitos morrer.
coidam que coita no mundo nom há
senom do mar, nem ham outro mal já.
Mais doutra guisa contece hoje a mi:
coita d'amor me faz escaecer
a mui gram coita do mar e tẽer
pola maior coita de quantas som,
coita d'amor, a quen'a Deus quer dar.
E é gram coita de mort'a do mar
- mas nom é tal; e por esta razom
coita d'amor me faz escaecer
a mui gram coita do mar e tẽer
pola maior coita, per boa fé,
de quantas forom, nem som, nem serám.
E estes outros que amor nom ham
dizem que nom, mas eu direi qual é:
coita d'amor me faz escaecer
a mui gram coita d'amor e tẽer
por maior coita a que faz perder
coita do mar, que faz muitos morrer.
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