Poemas neste tema

Mar, Rios e Oceanos

Castro Alves

Castro Alves

Noite de Maio

BARCAROLA

Música da "Santa Lucia"

I

NO CÉU dos trópicos
Pra sempre brilha,
O noite esplêndida,
Que as ondas trilha.

Do amor nas pálpebras
Acende o raio.
O noite cúmplice!
Noite de maior

II

Vê... que astros lúcidos
Na azul clareira:
São flores níveas
Da laranjeira.

De noiva chamam-te
Em cada raio.
Noiva puríssima
Do mês de maio.

III

Do vento os hálitos
Erguem-te as tranças,
Nos seios rolam-te
Em loucas danças.

São meus anélitos,
É meu desmaio.
Ó noite cúmplice!
Noite de maio!

IV

Estrela pálida,
Moça divina!
Donzela tímida
Sob a neblina!

Teu véu empresta-me,
Teu longo saio,
Para as espáduas
Da flor de maio.

V

Nas praias nítidas
Têm voz as vagas...
São bocas trêmulas
Lambendo as plagas.

O oceano lúbrico
Beija-te o seio...
Meus versos canta-lhe,
Vaga de maio.

VI

O espelho etéreo
Das nuvens nasce,
Reflete em júbilos
A tua face.

Seu riso angélico
No céu guardai-o.
Espelho límpido
Da flor de maio.

VII

Há risos tépidos
Entre as palmeiras;
Beijam-se lânguidas
Fadas trigueiras.

Da selva o cântico
Além cantai-o,
Ó gênios cúmplices
Do céu de maio.

VIII

A lua imerge-se
Na etérea zona
A fronte inveja-te,
Dela Amazona.

Fronte de mármore
Que empresta um raio
À croa fúlgida
Do mês de maio.

IX

No azul dos trópicos
Suspende o passo,
As horas céleres
Prende ao regaço...

Os astros ligam-me
Num louro raio!
Sê nossa cúmplice...
Noite de maio! ...

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Francisco José Tenreiro

Francisco José Tenreiro

Romance de Sam Marinha

Sam Marinha
a que menina foi no norte
chegou naquele navio à ilha.

Risadas brancas
e goles de champagne!

Á hora do espalmadoiro
os moços do comércio
passaram de gravatas garridas.
O monhé chegou na porta
e limpou o suor
ao lenço de seda que importou do Japão!

Ai!
Aquela que chegou na ilha
como uma risada branca
está fechando a carinha a terra.

Braços pendentemente tristes
só os olhinhos
estão pulando para lá da fortaleza
querendo ver a Europa!...

Á hora do espalmadoiro
os moços do comércio
passaram de gravatas garridas.
O monhé chegou na porta
e limpou o suor
ao lenço de seda que importou do Japa~o!

Ai!
Aquela que chegou na ilha
como uma risada branca
está fechando a carinha a terra.

Braços pendentemente tristes
st os olhinhos
estão pulando para lá da fortaleza
querendo ver a Europa!...
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Aníbal Raposo

Aníbal Raposo

Poema na Madrugada

Tu e eu na mesma hélice
Tu, muitas espiras acima
Que voas mais alto...
Cirandas à volta da lua feiticeira
Com as tuas asas de fogo
Incendeias-me o corpo
E em torrentes e lava
O meu amor flui
E como ela,
Em desespero,
Procura o mar...

Deixa-me dançar contigo uma dança índia
À volta da fogueira
Do nosso encantamento.
Deixa-me enlouquecer ao ritmo
Dum batuque africano
Transposto para um terreiro da Baía.
Deixa-me sentir os sortilégios
De Oxúm e de Oxalá.
Deitar, na praia, flores a Iemanjá.
Adorar a mãe Terra
Sentir-lhe o cheiro
Depois de uma chuvada de Agosto.
Eu quero ser, ao mesmo tempo,
Vinho e mosto.
Madrugada, sol nascente,
Entardecer e sol posto.

Curare.
Veneno na ponta da zarabatana.
Réstia de lucidez em mente insana.

Canta comigo irmã
A cantiga da terra prenhe.
Enforquemos as vaidades
Em gravatas ridículas
Confeccionadas em boa seda
E vendidas por um moderno bufarinheiro
Junto à catedral de Milão.

Deixa-me fundear nas tuas angras.
Ser o teu pirata argelino de estimação.
O teu bandeirante,
Buscando a esmeralda perdida
No meio do sertão.

Eu quero ser o desatino da tua insónia.
A tua noite mal dormida.
A tua cicatriz, a tua ferida,
Cauterizada com ferros ardentes.
Quero ser o teu ranger de dentes
Ante o desespero da miséria...
O teu grilo falante.
O espinho da tua rosa triunfante.

Deixa-me caboucar o sonho.
Construir castelos quiméricos.
Inventar outra arquitectura.
Redonda.
Quero esperar por ti
Na paragem do autocarro
Que vai partir, já
Para Nova Deli.

Quero ser uma luzinha ténue
Na via láctea nocturna
Desta vida favelada.
Rocinha!
Rio e margem,
Voo picado
Pedra Bonita, pivete.
(Glória ao escrete!)
O poder está
Na ponta do canivete!
Ipanema...
Saravah! Irmão Vinícius
Poetinha do amor e do vício.

Aqui estou!
Dou-te razão:
A inspiração continua a estar
Bem no fundo do copo
E da alma.

Salvé musa minha
Habitante da ilha irmã.
Continuas a ser o meu luzeiro,
Estrela da manhã.
Por ti adoro Baco.
Por ti versejo.
Por ti faço charadas,
Num desejo
De te ter mais perto.
Sem ti sou um navio no deserto.
O profeta do caos.
Caruso a cantar na ópera de Manaus.
O porco nos joelhos do visionário Klaus Kinsky
Na epopeia de Fritz Carraldo.
O caldo
Da loucura...

Pura...

Heroína...

Menina...

Lua...

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Aimé Césaire

Aimé Césaire

entre outros massacres

entre outros massacres

com todas as forças o sol e a lua se entrechocam
as estrelas caem como testemunhas maduríssimas
e como um carregamento de ratos acinzentados

não tema nada apronta as tuas grossas águas
que tão bem carregam a berma dos espelhos

puseram barro nos meus olhos
e veja eu vejo terrivelmente eu vejo
de todas as montanhas de todas as ilhas
não resta mais nada a não ser alguns tocos ruins
da impenitente saliva do mar

(tradução de Leo Gonçalves)


entre autres massacres

de toutes leurs forces le soleil et la lune s"entrechoquent/les étoiles tombent comme des témoins trop mûrs/et comme une portée de souris grises//ne crains rien apprête tes grosses eaux/qui si bien emportent la berge des miroirs//ils ont mis de la boue sur mes yeux/et vois je vois terriblement je vois/de toutes les montagnes de toutes les îles/il ne reste plus rien que les quelques mauvais chicots/de l"impenitente salive de la mer

do livro "Soleil cou coupé" (1948)



para dizer...

para revitalizar o rugido das fosfenas
o âmago oco dos cometas

para reavivar o verso solar dos sonhos
sua lactância
para ativar o fresco fluxo das seivas a memória dos silicatos

fúria dos povos sumidouro dos deuses seu salto
esperar a palavra seu ouro sua orla
até a ignífera
sua boca

(tradução de Leo Gonçalves)
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Emílio de Menezes

Emílio de Menezes

Tarde na Praia

A Leal de Souza


Quando, à primeira vez, lhe vi a grandeza,
Foi nos tempos da longe meninice.
E quedei-me à mudez de quem sentisse
A alma de pasmos e terrores presa.

Depois, na mocidade, a olhá-lo, disse:
É moço o mar na força e na beleza!
Mas, ao dia apagado e à noite acesa,
Hoje o sinto entre as brumas da velhice.

Distanciado de escarpas e barrancos,
Vejo a morrer-me aos pés, calmo, ao abrigo
Das grandes fúrias e os hostis arrancos.

E ao contemplá-lo assim, tristonho digo,
Vendo-lhe, à espuma, os meus cabelos brancos:
O velho mar envelheceu comigo!


Publicado no livro Últimas rimas (1917).

In: MENEZES, Emílio de. Obra reunida: Poemas da Morte, Poesias, Últimas Rimas, Mortalhas, Esparsos e Inéditos. Org. Cassiana Lacerda Carollo. Rio de Janeiro: J. Olympio; Curitiba: Secretaria da Cultura e do Esporte do Estado, 198
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Paula Nei

Paula Nei

Fortaleza

Ao longe, em brancas praias embalada
Pelas ondas azuis dos verdes mares,
A Fortaleza — a loura desposada
Do sol dormita, à sombra dos palmares.

Loura de sol e branca de luares,
Como uma hóstia de luz cristalizada,
Entre verbenas e jardins plantada
Na brancura de místicos altares.

Lá canta em cada ramo um passarinho...
Há pipilos de amor em cada ninho,
Na solidão dos verdes matagais.

É minha terra, a terra de Iracema,
O decantado e esplêndido poema
De alegria e beleza universais.

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Florbela Espanca

Florbela Espanca

Mais Triste

É triste, diz a gente, a vastidão
Do Mar imenso! E aquela voz fatal
Com que ele fala, agita o nosso mal!...
E a Noite é triste como a Extrema-Unção.

É triste e dilacera o coração
Um poente do nosso Portugal!
E não veem que eu sou... eu... afinal,
A coisa mais magoada das que o são!

Poentes d’agonia tenho-os eu
Dentro de mim, e tudo quanto é meu
É um triste poente d’amargura!

E a vastidão do Mar, toda essa água
Trago-a dentro de mim num Mar de Mágoa!
E a Noite sou eu própria, a Noite escura!
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Geraldo Bessa-Victor

Geraldo Bessa-Victor

Não venhas mais ao cais, menina negra

Não venhas mais ao cais, menina negra.
Que esperas tu ainda?
Já sabes a tua sina:
o branco que partiu não volta mais!

E tu, olhando o cais,
menina negra linda,
vês o teu lindo sonho que já finda...

Cantaram o feitiço do teu corpo,
nessa noite sensual em que tiveste
por lençol nupcial uma folha de palma;
cantaram o feitiço do teu corpo,
mas não sabias nem soubeste
que o branco tem feitiço na alma.

Habituada ao balouço da canoa
nas margens do rio Dande,
e depois embalada pelo amor,
sonhaste viajar num enorme vapor
que navega no mar grande
e vai para Lisboa!

Ouve, menina negra: mato não é cidade,
oceano não é rio, dongo não é navio
e o sonho que sonhaste não é sonho, é saudade...

Não venhas mais ao cais,
que o branco não volta mais!
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Edimilson de Almeida Pereira

Edimilson de Almeida Pereira

Amor

"Iemanjá é, por definição, a mãe, a
senhora das origens.
... Reina sobre 'todas as águas do
mundo' doces e salgadas.
... deusa das águas primevas que são
(...) 'fons et origo, matrizes de todas as
possibilidades da existência'."

És a pura indagação de meus seios. Ainda que
o céu se quebre não te condenarei. As águas,
minhas filhas, abrem sete canoas, mas por elas
não te perderás. Meu ventre respira a sabedoria
dos peixes, este amor de algas nos olhos.
Suplico-te não mais que a humildade das flores
entregues à chuva.


Publicado no livro O livro de falas ou Kalunbungu: achados da emoção inicial (1987).

In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.21
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Hermes Fontes

Hermes Fontes

Luar de Paquetá

Nessas noites dolorosas
Quando o mar, desfeiro em rosas,
Se desfolha à lua cheia
Lembra a ilha um ninho oculto
Onde o amor celebra em culto
Todo o encanto que o rodeia
Nos canteiros ondulantes,
As nereidas incessantes
Abrem lírios ao luar
A água em prece borborinha
E em redor da Capelinha
Vai rezando o verbo amar.

Jardim de afetos
Pombal de amores
Humildes tetos
De pescadores...
Se a lua brilha
Que bem nos dá
Amar na Ilha
De Paquetá!

Pensamento de quem ama,
Hóstia azul, fervendo em chama
Entre lábios separados...
Pensamento de quem ama
Leva o meu radiograma
Ao jardim dos namorados.
Onde é esse paraíso,
O caminho que idealizo
Na ascensão para esse altar,
Paquetá é um céu profundo
Que começa neste mundo
Mas não sabe onde acabar...

Sobre o mar de azul rendado,
Que é toalha de uma noivado,
Surge a Ilha — taça erguida.
E o luar — vinho doirado
Enche a taça do Passado
Que embriaga a nossa vida!
Ai, que filtro milagroso,
Para a mágua e para o gozo
Para a eterna inspiração!
O luar, na mocidade,
Abre as rosas da saudade
Dentro em nosso coração.


In: VASCONCELOS, Ary. Panorama da música popular brasileira. São Paulo: Livr. Martins, 1964. v.1, p.122-123

NOTA: Música de Freire Júnior
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Capinan

Capinan

O Homem É o Rio, o Rio É o Mundo

O desenvolver-se do rio é pacífico.
Porque anda, seu conceito é sempre outro
E assim, para manter-se em sendo fio,
O rio se obriga a um novo corpo.

De então é fácil navegá-lo.
Transformá-lo é deixar que seja
Ainda um rio, sempre um rio,
Para que sendo não permaneça.

Ao navegante, entretanto, jamais acomodar-se.
É preciso, ao seguir-se a rota, apressá-la,
Ser mais ágil que o rio
E colher a cidade antes que seu leito o faça.


In: CAPINAN. Inquisitorial. Introdução de José Guilherme Merquior. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 5
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Manuel Alegre

Manuel Alegre

Pedro soldado

Já lá vai Pedro soldado
Num barco da nossa armada
E leva o nome bordado
Num saco cheio de nada
Triste vai Pedro soldado

Branca rola não faz ninho
Nas agulhas do pinheiro
Não é Pedro marinheiro
Nem o mar é seu caminho

Nem anda a branca gaivota
Pescando peixes em terra
Nem é de Pedro essa roda
Dos barcos que vão à guerra

Onde não anda ceifeiro
Já o campo se faz verde
E em cada hora se perde
Cada hora que demora
Pedro no mar navegando

Não é Pedro pescador
Nem no mar vindimador
Nem soldado vindimando
Verde vinha vindimada
Triste vai Pedro soldado
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Mafalda Veiga

Mafalda Veiga

Fragilidade

Talvez pudesse o tempo parar
quando tudo em nós de precipita
quando a vida nos desgarra os sentidos
e não espera, ai quem dera

Houvesse um canto pra se ficar
longe da guerra feroz que nos domina
se o amor fosse um lugar a salvo
sem medos, sem fragilidade

Tão bom pudesse o tempo parar
e voltar-se a preencher o vazio
é tão duro aprender que na vida
nada se repete, nada se promete
e é tudo tão fugaz e tão breve

Tão bom pudesse o tempo parar
e encharcar-me de azul e de longe
acalmar a raiva aflita da vertigem
sentir o teu braço e poder ficar

É tudo tão fugaz e tão breve
como os reflexos da lua no rio
tudo aquilo que se agarra já fugiu
é tudo tão fugaz e tão breve
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Daniel Faria

Daniel Faria

Sobre a água

Sobre a água estarei solto de caminhos
Dos que vierem nenhum barco é para ti
Não deixes a candeia acesa
Dorme:basta-me essa luz

de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
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Edimilson de Almeida Pereira

Edimilson de Almeida Pereira

Em Cabo Verde

Pescadores retornam.
Ouço-os com as pérolas
e os nãos de sal.

Amo o regresso
sem haver partido.
Amo a estrela outra
quando a noite

Os barcos
desperdiçam o cais:
à morte é que os peixes
brilham.


Publicado no livro Árvore dos arturos & Outros poemas (1988). Poema integrante da série Alguma Dança com Nicolás Guillén.

In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.165

NOTA: Título original do poema: "Em Cabo Verde, com Ovídio Martins
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Neves e Sousa

Neves e Sousa

Limites dos Sete Cantos da Cidade de S Filipe de Benguela

Recreei-te em saudade e cor
Quando me afastei de ti
E os limites que te fiz
São dentro do meu sentir.

Por cima a cor neutra e desdobrada
Dum céu de cinzas de passado.

O Sombreiro como um marco
marco um lado.

As curvas nuas e douradas
de montes femininos
Nus até à cintura verde
Verde dos longos canaviais
Anunciam o limite de Benguela.

Na areia a longa e estreita ferida
Do Cavaco
Escorrendo o sangue de água
Que abre em bananais sombrios
Caminhos às fábulas de antanho
Marca outra fronteira da Cidade.

Para outro lado estende-se o sertão
Palmeiras espetadas pelo mato
Como flechas da aljava
do Soba Caparandanda
Sombreiam a curva dos caminhos
Perdidos na imensidão...

Por outro limite tem Benguela
Saudade no meu coração
E pela frente aberto e vasto
Tem este mar ardente de oiro e poentes
Este mar imenso que sorri ao longe.

Este mar imenso que também chora
E conta histórias de espumas e naufrágios,

Mar que também banha os seios jovens
Das moças que embalam sonhos
Nas sombras azuis dos quintalões

Altas paredes de adobe
Cheias de sonhos e histórias

Que viram as longas caravanas da borracha
E passos perdidos pelos caminhos sem glórias

Molhadas de lágrimas,
Salobras lágrimas
De anseios há muito mortos...
Mais amargos do que o mar
O mar salgado que chora
Cantos de não mais voltar...

Lábios de mar, feitos de espuma, beijando o céu...

Sons dos sinos da Senhora do Pópulo
(Que sabem tudo e que viram tudo,
e nunca contam nada...)
Aconchegam os amantes que se beijam
nos velhos bancos verdes do jardim...

Sob as árvores antigas
Que o vento sul esporeia
Como uma zebra azul
Feita de nuvens e céu.

Coração quente e generoso de Benguela
Bairros do Benfica, Cassôco,
Águas da Cacimba da Rua Nove
Repouso claro e lento
De luas nascidas longe
Na noite semeada de astros
Como olhos de Cazumbis,...

Na noite enorme e feiticeira da cidade

Bruxuleante do bruxedo de fogueiras
Feitas de amores velhos, carcomidos,
Adormecidos, nas velhas casas compridas.

E de fogueiras de verdade que acalentam
Ritmos de guardas da noite
tocados em quissanges melodiosos
Subtis como a própria alma da brisa
Que arranca da terra o sangue vivo
Duma pena antiga que se perde...

Noite semeada de batuques
Batuques que me parecem

O palpitar dum coração imenso
Que se esvai nas noites desdobradas
Num rosário de auroras sucessivas.

Minha Benguela nocturna e antiga
Das amplas ruas cheirando a mar
Colmeia de lembranças que me ferem
Perante a dura realidade do progresso...

Volta:
Volta para os sete limites deste sonho
Sob a grande tristeza vegetal das frondes
Cheias de mistérios ancestrais
Do meu passado que não volta mais...
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Augusto dos Anjos

Augusto dos Anjos

O Mar

O mar é triste como um cemitério;
Cada rocha é uma eterna sepultura
Banhada pela imácula brancura
De ondas chorando n'um albor etéreo.

Ah! dessas vagas no bramir funéreo
Jamais vibrou a sinfonia pura
Do amor; lá, só descanta, dentre a escura
Treva do oceano, a voz do meu saltério!

Quando a cândida espuma dessas vagas,
Banhando a fria solidão das fragas,
Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma,

Reflete a luz do sol que já não arde,
Treme na treva a púrpura da tarde,
Chora a Saudade envolta nesta espuma!

Pau d'Arco, 1902

O Comércio, 26-II-1902


Publicado no livro Eu: poesias completas (1963). Poema integrante da série Poemas Esquecidos.

In: REIS, Zenir Campos. Augusto dos Anjos: poesia e prosa. São Paulo: Ática, 1977. p.209. (Ensaios, 32
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Evaristo da Veiga

Evaristo da Veiga

Soneto ao Brasil

Minha Pátria, oh Brasil! tua grandeza
Por léguas mil imensa se dilata
Do Amazonas caudoso ao rico Prata,
Os dois irmãos sem par na redondeza:

Das tuas serranias na aspereza,
Na fechada extensão da intensa mata,
No solo prenhe d'oiro se recata
Tosca sim, mas sublime a Natureza:

Da antiga Europa os dons em ti derrama
junto dos mares a civil cultura,
Que das artes, e Indústria os frutos ama:

De teus filhos o amor mil bens te augura,
E aos lares teus a Liberdade chama:
Não: não tens que invejar maior ventura.

17 de outubro de 1821.


In: VEIGA, Evaristo da. Poesias de Evaristo Ferreira da Veiga. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Biblioteca Nacional, 1915. p.7
4 079 1
Nuno Júdice

Nuno Júdice

Branco (a Eugénio de Andrade)

Não queiras saber o que é o branco para
além do branco, a ilusão de que o mar
se prolonga nesse mar que o branco
devora, com os lábios do vento; nem
interrogues o rosto que se esconde
no horizonte do branco, onde só o
silêncio te dá a resposta que ignoras.

No entanto, se o olhar que esse
horizonte te devolve tem a luz do
rosto que só no branco entrevês,
quando o vento empurra as cortinas
do mar, talvez reconheças no seu
fundo o corpo que habita o céu
em que o branco coincide com o mar.

E nos olhos fechados de um rosto
preso à cama da madrugada, o branco
do horizonte submerge o mar que
avança por dentro do branco, como se
a luz do dia que o vento te abre
não fosse branca, como esse branco
lençol que esconde o corpo sob o mar.

E em cada nuvem que passa no branco
do céu, um rosto revela o branco
para além do horizonte que o branco descobre.



Nuno Júdice | "As Coisas Mais Simples" | Publicações Dom Quixote, 2007
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D. Pedro II

D. Pedro II

IV - Sempre o Brasil

Nunca noite dormi tão sossegado,
Quem nem mesmo sonhei com o meu Brasil,
Porém, vendo infinito mar d'anil,
Lembra-me a aurora dele nacarada.

Cada dia que passa não é nada,
E os que faltam parecem mais de mil.
Se o tempo que lá vivo é um ceitil,
Aqui é para mim grande massada.

E a doença porém me consentir,
Sempre pensando nele, cuidarei
De tornar-me mais digno de o servir,

E, quando possa, logo voltarei;
Pois na terra só quero eu existir
Quando é para bem dele que eu o sei.

Bordo do Gironde, 7 de Julho de 1887.


In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas
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Iara Vieira

Iara Vieira

Segredo

Simplesmente isso:
uma mulher
entrou no mar
e foi fertilizada
enquanto as espumas
carregavam
para bem longe
a notícia.

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Afonso Lopes de Almeida

Afonso Lopes de Almeida

Vida

Mal nasce a filha, eis morre o pai...
E ouviu, do leito, o teu ouvido,
Num mesmo som da que nascia
O flébil, trêmulo vagido,
Bem como o último gemido
Da agonia
Do que morria...
Vida que vem, vida que vai.

Tu eras o traço de união
Daquelas vidas,
Dentro em ti mesma reunidas
No coração.
Eras o Mar. Eles, as ondas:
Uma onda a filha, outra onda o pai.
Onda que vem, onda que vai...

E outras virão, e outras irão,
E umas das outras surgirão...
Na mesma força indefinida,
Túrgidas, grossas e redondas,
Hão de crescer, hão de acabar.

Mas a água é a mesma, é o mesmo o Mar,
É o mesmo o amor, é a mesma a Vida...
A onda que desapareceu
Fez surgir
A que nasceu
Desta, cem outras hão de vir,
Em que mil outras se contenham
E estas farão com que outras venham ...

Onda que vem, onda que vai,
Esta se apruma, aquela cái,
Água do Mar, que agora flui,
Logo reflui...

O pai não viu a filha sua.
E a filha não verá seu pai.

É a vida, enfim, que continua:
Vida que vem... Vida que vai.
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Afonso Lopes de Almeida

Afonso Lopes de Almeida

A Alma da Tempestade

Filho, marido, pai, — toda a trindade
Do seu amor — o Mar pôde perdê-los...
Noite de vendaval: escuridade,
Relâmpagos, trovões, atros novelos

De nuvens, fragor de ondas, atropelos
De ventos... E ela olhava a imensidade
Encharcadas as roupas e os cabelos,
Na praia, em pé, hirta na tempestade.

E ainda hoje ela uiva as maldições e as pragas,
Louca, gênio, de um ódio ingênuo e mau,
No concerto dos ventos e das vagas.

Misturam-se-lhe os lúgubres lamentos
Na noite negra, ao troar dos raios, ao
Quebrar das ondas, ao gemer dos ventos!

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Rossini Corrêa

Rossini Corrêa

Movimento da Terra

O violino da consciência rememora
a música dos pássaros vegetais,
quando, no crepúsculo, o bolaço
de fogo espacial, movimentava-se
vagoroso, e naufragava, sem a
mínima resistência, no oceano
atlântico. Da estátua, Gonçalves
Dias a tudo assistia, comovido...

Como um namorado das estrelas,
certamente conhecendo os mistérios,
esperava, sob paciente convicção,
o retorno, indescritível aurora:
e o bolaço de fogo espacial, azul
cintilava, aquecido no dormitório
marítimo. O poeta, artesão do
eterno, repetia: "onde canta o sabiá!"

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