Poemas neste tema
Mar, Rios e Oceanos
Sophia de Mello Breyner Andresen
Os Deuses
Nasceram, como um fruto, da paisagem.
A brisa dos jardins, a luz do mar,
O branco das espumas e o luar
Extasiados estão na sua imagem.
A brisa dos jardins, a luz do mar,
O branco das espumas e o luar
Extasiados estão na sua imagem.
2 954
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Tolon
Um mar horizontal corta os espelhos
E um sol de sal cintila sobre a mesa
Habitamos o ar livre rente ao dia
Rente ao fruto rente ao vinho rente às águas
E sob o peso leve da folhagem
E um sol de sal cintila sobre a mesa
Habitamos o ar livre rente ao dia
Rente ao fruto rente ao vinho rente às águas
E sob o peso leve da folhagem
2 790
1
Manoel Andrade Silva
O Mar se Apaixona
O Mar se Apaixona...
Desde a agitação das águas
Ao beijar suas areias
A doce jovem que se banhava,
Fez o Poeta descrever sua beleza,
Por ver que o próprio mar
Por ela também se apaixonava.
Vendo a eclipsá-la as fúrias de sua espuma,
Via o abismo da morte
Quando o mar se enfurecia.
E o mar bravio quase absorvia,
Lançando-lhe as suas águas,
Como quem lança um verde manto,
Louco, apaixonadamente lhe cobria.
E ela enfrenta alegremente as ondas,
E o mar apertando-lhe apaixonadamente,
Se inflamava ferozmente e torturado,
Como quem encontrou sua própria amada...
O mar achava que tinha todo o seu direito
Deixando-me inquieto e com receio
Porque era em suas águas que banhava
Suas nádegas, seu corpo e seus lindos seios!
Aí eu gritei, Mar!!!
Quantas figuras peregrinas
Vejo banhar-se no teu vasto leito,
Exceto esta, sem alcançar no entanto
O verde cristalino destea enorme manto,
Diferente repleto de ternura,
Vou retirar de sua imensidão esta beleza,
Que embebebou-o e alimentou este seu sonho,
De um mar manso, transformou-se em mar medonho!
O mar responde:
- Minha linfa e cristalina,
Falando ao surgir das ondas,
Tua deusa, tua musa, tua beleza
Foi Deus quem fez, com sua pureza...
Quero levar comigo, longe, às profundezas,
E retirar-lhe deste mundo de maldades,
Guardando-lhe para toda a eternidade,
Na calmaria da imensidão de minha grandeza!
- Não Mar! Gritei novamente,
Isto não é verdade, estás doente!
Querer levar contigo e matar,
É sacrilégio, é praticar crime profano;
Aplacar, por ser poderoso, é ser vesano!
Deus te fez assim para uma eternidade,
Estás sonhando um sonho de verdade;
Fostes criado para banhar a humanidade,
Por milênios de anos e mais anos;
Se levares muitos inocente, com maldade,
Nunca passarás de um enorme oceano!
Depois que falei como um poeta apaixonado,
o mar responde novamente:
- Poeta, encontraste esta eloqüência
Em minha beleza, em minha amplidão?
Retrocedo pela sua emoção!
Diga a esta divindade e beleza,
Se encontrares no seu corpo impureza,
Não tenho culpa, condene esta humanidade,
Por lançarem em minhas águas seus detritos,
Sem respeito, ignorância e maldade!
Vou seguir meu destino apaixonado e aflito,
Deus me fez grandioso e infinito,
Vou obedecer a lei da eternidade!
Chorando agradecido, responde o Poeta:
- Obrigado, obrigado Oceano!
Deus o fez com todo seu poder
Por sua criatividade e por ser soberano;
Criou-te para banhar toda a humanidade,
És lindo, grandioso de verdade!
Perdoaste minha musa cheio de mágoa,
Mas prometo-lhe por esta linda luz
Deste sol que hoje nos clareia,
Que trarei por muitas vezes,
Minha musa, minha sereia,
Para banhar-se em suas águas
E beijar suas areias!
Desde a agitação das águas
Ao beijar suas areias
A doce jovem que se banhava,
Fez o Poeta descrever sua beleza,
Por ver que o próprio mar
Por ela também se apaixonava.
Vendo a eclipsá-la as fúrias de sua espuma,
Via o abismo da morte
Quando o mar se enfurecia.
E o mar bravio quase absorvia,
Lançando-lhe as suas águas,
Como quem lança um verde manto,
Louco, apaixonadamente lhe cobria.
E ela enfrenta alegremente as ondas,
E o mar apertando-lhe apaixonadamente,
Se inflamava ferozmente e torturado,
Como quem encontrou sua própria amada...
O mar achava que tinha todo o seu direito
Deixando-me inquieto e com receio
Porque era em suas águas que banhava
Suas nádegas, seu corpo e seus lindos seios!
Aí eu gritei, Mar!!!
Quantas figuras peregrinas
Vejo banhar-se no teu vasto leito,
Exceto esta, sem alcançar no entanto
O verde cristalino destea enorme manto,
Diferente repleto de ternura,
Vou retirar de sua imensidão esta beleza,
Que embebebou-o e alimentou este seu sonho,
De um mar manso, transformou-se em mar medonho!
O mar responde:
- Minha linfa e cristalina,
Falando ao surgir das ondas,
Tua deusa, tua musa, tua beleza
Foi Deus quem fez, com sua pureza...
Quero levar comigo, longe, às profundezas,
E retirar-lhe deste mundo de maldades,
Guardando-lhe para toda a eternidade,
Na calmaria da imensidão de minha grandeza!
- Não Mar! Gritei novamente,
Isto não é verdade, estás doente!
Querer levar contigo e matar,
É sacrilégio, é praticar crime profano;
Aplacar, por ser poderoso, é ser vesano!
Deus te fez assim para uma eternidade,
Estás sonhando um sonho de verdade;
Fostes criado para banhar a humanidade,
Por milênios de anos e mais anos;
Se levares muitos inocente, com maldade,
Nunca passarás de um enorme oceano!
Depois que falei como um poeta apaixonado,
o mar responde novamente:
- Poeta, encontraste esta eloqüência
Em minha beleza, em minha amplidão?
Retrocedo pela sua emoção!
Diga a esta divindade e beleza,
Se encontrares no seu corpo impureza,
Não tenho culpa, condene esta humanidade,
Por lançarem em minhas águas seus detritos,
Sem respeito, ignorância e maldade!
Vou seguir meu destino apaixonado e aflito,
Deus me fez grandioso e infinito,
Vou obedecer a lei da eternidade!
Chorando agradecido, responde o Poeta:
- Obrigado, obrigado Oceano!
Deus o fez com todo seu poder
Por sua criatividade e por ser soberano;
Criou-te para banhar toda a humanidade,
És lindo, grandioso de verdade!
Perdoaste minha musa cheio de mágoa,
Mas prometo-lhe por esta linda luz
Deste sol que hoje nos clareia,
Que trarei por muitas vezes,
Minha musa, minha sereia,
Para banhar-se em suas águas
E beijar suas areias!
1 043
1
Diogo Bernardes
Soneto
Leandro em noite escura ia rompendo
As altas ondas, delas rodeado
No meio do Helesponto, já cansado,
E o fogo já na torre morto vendo;
E vendo cada vez ir mais crescendo
O bravo vento, e o mar mais levantado;
De suas forças já desconfiado,
Os rogos quis provar, não lhe valendo.
"Ai ondas!" (suspirando começou):
Mas delas, sem lhe mais alento dar,
A fala contrastada, atrás tornou.
"Ai ondas! (outra vez diz) vento, mar,
Não me afogueis, vos rogo, enquanto vou;
Afogai-me depois quando tornar".
As altas ondas, delas rodeado
No meio do Helesponto, já cansado,
E o fogo já na torre morto vendo;
E vendo cada vez ir mais crescendo
O bravo vento, e o mar mais levantado;
De suas forças já desconfiado,
Os rogos quis provar, não lhe valendo.
"Ai ondas!" (suspirando começou):
Mas delas, sem lhe mais alento dar,
A fala contrastada, atrás tornou.
"Ai ondas! (outra vez diz) vento, mar,
Não me afogueis, vos rogo, enquanto vou;
Afogai-me depois quando tornar".
1 803
1
Mendes de Carvalho
S Romão
S. Romão é a terra e o mar
T. o vento o luar a noite total e o sol.
Em S. Romão cada um é rei de si mesmo
e lá os reis a valer não têm qualquer realidade
Em S. Romão podemos ficar ao sol
podemos perder-nos dentro da noite
podemos não fazer coisíssima nenhuma
podemos erguer um hino à preguiça
podemos ficar budamente de mãos na barriga
podemos ter poesia que não venha nos livros
podemos ter um cão nosso conhecido
sem nunca nos ter sido apresentado
um cão sem coleira que ladra à lua
livremente cão esquecido do fisco.
O nome deste lugar anfíbio é fictício
para que não o descubram os turistas
que andam sempre com o nariz no ar
e não seja enviado em cartaz para o estrangeiro
e nem sequer o descubra o Manuel Bandeira
que é amigo do rei de Pasárgada
e este não sabe andar sem comitiva
para que nenhum americano vá construir uma pousada
para week-end vinícola.
Em S. Romão não há pintores paisagistas
nem hoteleiros
nem urbanistas.
Em S. Romão ninguém pensa salvar o mundo
o que só acontece às pessoas perdidas de todo
e aos escritores neorealísticamente locais
que conhecem todas as misérias por fora.
S. Romão não é porto de abrigo
Desde já aviso à navegação.
Não há faroleiro os rochedos são perigosos
o mar sem distância é aventura
promessa de peixe
certeza de fome.
T. o vento o luar a noite total e o sol.
Em S. Romão cada um é rei de si mesmo
e lá os reis a valer não têm qualquer realidade
Em S. Romão podemos ficar ao sol
podemos perder-nos dentro da noite
podemos não fazer coisíssima nenhuma
podemos erguer um hino à preguiça
podemos ficar budamente de mãos na barriga
podemos ter poesia que não venha nos livros
podemos ter um cão nosso conhecido
sem nunca nos ter sido apresentado
um cão sem coleira que ladra à lua
livremente cão esquecido do fisco.
O nome deste lugar anfíbio é fictício
para que não o descubram os turistas
que andam sempre com o nariz no ar
e não seja enviado em cartaz para o estrangeiro
e nem sequer o descubra o Manuel Bandeira
que é amigo do rei de Pasárgada
e este não sabe andar sem comitiva
para que nenhum americano vá construir uma pousada
para week-end vinícola.
Em S. Romão não há pintores paisagistas
nem hoteleiros
nem urbanistas.
Em S. Romão ninguém pensa salvar o mundo
o que só acontece às pessoas perdidas de todo
e aos escritores neorealísticamente locais
que conhecem todas as misérias por fora.
S. Romão não é porto de abrigo
Desde já aviso à navegação.
Não há faroleiro os rochedos são perigosos
o mar sem distância é aventura
promessa de peixe
certeza de fome.
947
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Iremos Juntos Sozinhos Pela Areia
Iremos juntos sozinhos pela areia
Embalados no dia
Colhendo as algas roxas e os corais
Que na praia deixou a maré cheia.
As palavras que disseres e que eu disser
Serão somente as palavras que há nas coisas
Virás comigo desumanamente
Como vêm as ondas com o vento.
O belo dia liso como um linho
Interminável será sem um defeito
Cheio de imagens e conhecimento.
Embalados no dia
Colhendo as algas roxas e os corais
Que na praia deixou a maré cheia.
As palavras que disseres e que eu disser
Serão somente as palavras que há nas coisas
Virás comigo desumanamente
Como vêm as ondas com o vento.
O belo dia liso como um linho
Interminável será sem um defeito
Cheio de imagens e conhecimento.
2 822
1
Fernando Pessoa
XI. A ÚLTIMA NAU
Levando a bordo El-Rei D. Sebastião,
E erguendo, como um nome, alto o pendão
Do Império,
Foi-se a última nau, ao sol azíago
Erma, e entre choros de ânsia e de presago
Mistério.
Não voltou mais. A que ilha indescoberta
Aportou? Voltará da sorte incerta
Que teve?
Deus guarda o corpo e a forma do futuro,
Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro
E breve.
Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
Mais a minha alma atlântica se exalta
E entorna,
E em mim, num mar que não tem tempo ou 'spaço,
Vejo entre a cerração teu vulto baço
Que torna.
Não sei a hora, mas sei que há a hora,
Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora
Mistério.
Surges ao sol em mim, e a névoa finda:
A mesma, e trazes o pendão ainda
Do Império.
E erguendo, como um nome, alto o pendão
Do Império,
Foi-se a última nau, ao sol azíago
Erma, e entre choros de ânsia e de presago
Mistério.
Não voltou mais. A que ilha indescoberta
Aportou? Voltará da sorte incerta
Que teve?
Deus guarda o corpo e a forma do futuro,
Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro
E breve.
Ah, quanto mais ao povo a alma falta,
Mais a minha alma atlântica se exalta
E entorna,
E em mim, num mar que não tem tempo ou 'spaço,
Vejo entre a cerração teu vulto baço
Que torna.
Não sei a hora, mas sei que há a hora,
Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora
Mistério.
Surges ao sol em mim, e a névoa finda:
A mesma, e trazes o pendão ainda
Do Império.
6 548
1
Lúcio Cardoso
Amanhecer
A noite está dentro de mim,
girando no meu sangue.
Sinto latejar na minha boca
as pupilas cegas da lua.
Sinto as estrelas, como dedos
movendo a solidão em que caminho.
Logo o perfume da poesia
sobe aos meus olhos trêmulos, cerrados,
ouço a música das coisas que acordam
sôbre o corpo negro da terra
e a voz do vento distante
e a voz das palmeiras abertas em raios
e a voz dos rios viajantes.
E a noite está dentro de mim.
Como um pássaro,
meu sonho ergue as asas no coração da sombra.
Ouço a musica das fiôres que tombam,
o tropel das nuvens que passam
e a minha voz que se eleva
como uma prece na planície solitária.
Então sinto a noite fugindo de mim,
sinto a noite fugindo dos homens
e o sol que avança na garupa do mar
e as nuvens curvas que enchem o céu
como grandes corcéis de fogo côr-de-rosa
desaparecendo sugados pela treva.
1 694
1
Chagas Val
O Rio Dentro do Rrio
um rio que se define
no próprio espaço da fala
um rio dentro do rio
no seu leito permanente
jardins acesos nas margens
o áureo arroz explodindo
na manhã leitosa e branca
o milho ergue as espigas
na terra como um luar
o arco-íris entreabre-se
em cores azuis-suaves
como aves que voassem
no redondo silêncio alado.
o rio muge entre pedras
punhais e pontes mais claras
a água canta entre luzes
espelhos e alvas manhãs
mugindo dentro da noite
a foice
de suas águas
ferindo a face
de um espelho
e chove dentro da noite
no aceso silêncio espesso
no espaço aberto da fala
o rio dentro do rio
deságua no próprio curso
no seu uso mais corrente
as flores do rio cantam
abrindo os olhos nas margens
flutua alva a canoa
no metal claro da água
a lua leve no espaço
brota do rio e floresce
por entre margens e margens
à sombra azul do espelho
um fino punhal de prata
cravado no próprio peito
no leito
claro qual pássaro
voando dentro do sonho
e passa leve a canoa
a lua acesa na mata.
o ri dentro do rio
no curso de suas águas
floresce fundo no espelho
no alado silêncio vário
no seu caminho mais claro
é o Longa que se abre
à luz tenra da manhã
por entre pedras e pás-
saros o rio a relva
o riacho
no próprio espaço da fala
um rio dentro do rio
no seu leito permanente
jardins acesos nas margens
o áureo arroz explodindo
na manhã leitosa e branca
o milho ergue as espigas
na terra como um luar
o arco-íris entreabre-se
em cores azuis-suaves
como aves que voassem
no redondo silêncio alado.
o rio muge entre pedras
punhais e pontes mais claras
a água canta entre luzes
espelhos e alvas manhãs
mugindo dentro da noite
a foice
de suas águas
ferindo a face
de um espelho
e chove dentro da noite
no aceso silêncio espesso
no espaço aberto da fala
o rio dentro do rio
deságua no próprio curso
no seu uso mais corrente
as flores do rio cantam
abrindo os olhos nas margens
flutua alva a canoa
no metal claro da água
a lua leve no espaço
brota do rio e floresce
por entre margens e margens
à sombra azul do espelho
um fino punhal de prata
cravado no próprio peito
no leito
claro qual pássaro
voando dentro do sonho
e passa leve a canoa
a lua acesa na mata.
o ri dentro do rio
no curso de suas águas
floresce fundo no espelho
no alado silêncio vário
no seu caminho mais claro
é o Longa que se abre
à luz tenra da manhã
por entre pedras e pás-
saros o rio a relva
o riacho
897
1
Silvaney Paes
Inútil Amor
Ó Onda
de Luz !...
Porque não mais me carregas,
Se sopra tanto o vento estas minhas velas
Para que retorne a meu Cais?
Assoma... grita tanto em mim um poeta,
Em insano e dolente apego!
- Mas de que me serve este amor inútil,
Se é turvo e tortuoso rio
Que nasce e morre em mim mesmo?
Sei que quem me espera é o mar...
E que o oceano por detrás de teus olhos
Não conseguem ver-me
E careço chorar letras...
Verto estes tristes cantos
Por uma rosa e seu espinho
Desfolhando-me em quimeras
Ou em interiores guerras..
Delírio e inspiração de longínqua terra,
E se é por ti que assoma este poeta,
Assomas e cantas por ti mesma,
branca rosa portuguesa.
Mas que te guarde bem... Espinho
Pois não trazes os que te guardem.
Só minha saudade é o que te cerca,
Pois ela é também espera
Na poesia contida em branca rosa...
musa flor de longínqua terra.
de Luz !...
Porque não mais me carregas,
Se sopra tanto o vento estas minhas velas
Para que retorne a meu Cais?
Assoma... grita tanto em mim um poeta,
Em insano e dolente apego!
- Mas de que me serve este amor inútil,
Se é turvo e tortuoso rio
Que nasce e morre em mim mesmo?
Sei que quem me espera é o mar...
E que o oceano por detrás de teus olhos
Não conseguem ver-me
E careço chorar letras...
Verto estes tristes cantos
Por uma rosa e seu espinho
Desfolhando-me em quimeras
Ou em interiores guerras..
Delírio e inspiração de longínqua terra,
E se é por ti que assoma este poeta,
Assomas e cantas por ti mesma,
branca rosa portuguesa.
Mas que te guarde bem... Espinho
Pois não trazes os que te guardem.
Só minha saudade é o que te cerca,
Pois ela é também espera
Na poesia contida em branca rosa...
musa flor de longínqua terra.
745
1
Da Costa Santos
Pelo Alto Mar
Longe, pelo alto mar, onde a ave não se aninha,
rasgando os escarcéus da noite de áureos brilhos,
singra silenciosa a doida nau que é minha,
pesada de saudade e bambos amantilhos.
Um marinheiro canta e no convés caminha,
na loucura do mar olhando os tombadilhos,
para não sossobrar, sob a onda marinha,
essa nau que deixou para traz longos trilhos.
Velas brancas de luz no oceano, altaneiras,
enfunadas de vento, ao clarão das estrelas,
tendo no mastaréu o pano das bandeiras...
Toda a glória de amar, em sonhos rosicleres,
revive no pavor dos homens das procelas
e se afoga em canções no beijo das mulheres.
rasgando os escarcéus da noite de áureos brilhos,
singra silenciosa a doida nau que é minha,
pesada de saudade e bambos amantilhos.
Um marinheiro canta e no convés caminha,
na loucura do mar olhando os tombadilhos,
para não sossobrar, sob a onda marinha,
essa nau que deixou para traz longos trilhos.
Velas brancas de luz no oceano, altaneiras,
enfunadas de vento, ao clarão das estrelas,
tendo no mastaréu o pano das bandeiras...
Toda a glória de amar, em sonhos rosicleres,
revive no pavor dos homens das procelas
e se afoga em canções no beijo das mulheres.
928
1
Moacyr Felix
Dois Poemas do Homem e sua Escolha
Revenir serait une chute écrasante.
Paul Éluard
I
Se em cada porto, longe, o verde alfombra
uma esperança, uma salgada brisa
para os pesados barcos sobre a sombra
toda feita de nadas, imprecisa
(mas devorando o peixe e o ar e o homem),
alastro as rubras aves do incorpóreo
pelo dorso desnudo de uma tarde
(que é esta parte de mim que eu vou queimando)
e insisto em que eles partam, vou deixando-os
acompanhados desta dor acesa
levar o aviso dos meus olhos, mar
e mar afora... Mas eu fico. E finco
na sombra irreversivelmente minha
a permanência — ciclo e madureza
dos troncos regravados pela chuva,
dos troncos que se cumprem sempre os mesmos,
imóveis, simplesmente se cumprindo
sob um pórtico de nuvens giratórias...
II
Destino. Que é o destino? Que fazer
contra estas sombras íntimas, tão minhas
como o tecido esquivo de mim próprio
preso em meus ossos, latejando um ser
de asas de sal mordendo um chão de ópio?
Ah, destino, oxalá não haja enganos
quando chegar nas pontas dessa teia
de gastos gestos lentos costurados
com o arame triste desses muitos anos!
Quando parar, no tempo, esta alma cheia
de escolhas acabadas, rosa quieta
a desmanchar-se em desenhados ventos,
ah, vida, não me vença a noite alerta
atrás do abismo
e que os abismos incendeia:
deixa eu colher no rosto um rosto certo
do tempo irreversível, som de areia
que já foi casa ou ponte, e não deserto...
Publicado no livro O Pão e o Vinho (1959).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.17-1
Paul Éluard
I
Se em cada porto, longe, o verde alfombra
uma esperança, uma salgada brisa
para os pesados barcos sobre a sombra
toda feita de nadas, imprecisa
(mas devorando o peixe e o ar e o homem),
alastro as rubras aves do incorpóreo
pelo dorso desnudo de uma tarde
(que é esta parte de mim que eu vou queimando)
e insisto em que eles partam, vou deixando-os
acompanhados desta dor acesa
levar o aviso dos meus olhos, mar
e mar afora... Mas eu fico. E finco
na sombra irreversivelmente minha
a permanência — ciclo e madureza
dos troncos regravados pela chuva,
dos troncos que se cumprem sempre os mesmos,
imóveis, simplesmente se cumprindo
sob um pórtico de nuvens giratórias...
II
Destino. Que é o destino? Que fazer
contra estas sombras íntimas, tão minhas
como o tecido esquivo de mim próprio
preso em meus ossos, latejando um ser
de asas de sal mordendo um chão de ópio?
Ah, destino, oxalá não haja enganos
quando chegar nas pontas dessa teia
de gastos gestos lentos costurados
com o arame triste desses muitos anos!
Quando parar, no tempo, esta alma cheia
de escolhas acabadas, rosa quieta
a desmanchar-se em desenhados ventos,
ah, vida, não me vença a noite alerta
atrás do abismo
e que os abismos incendeia:
deixa eu colher no rosto um rosto certo
do tempo irreversível, som de areia
que já foi casa ou ponte, e não deserto...
Publicado no livro O Pão e o Vinho (1959).
In: FÉLIX, Moacyr. Antologia poética. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1993. p.17-1
1 489
1
Hélio Pellegrino
Plenitude
A pedra, o vento, a luz alteada,
o salso mar eterno, o grito
do mergulhão, sob o infinito
azul:
— Deus não me deve nada.
o salso mar eterno, o grito
do mergulhão, sob o infinito
azul:
— Deus não me deve nada.
1 671
1
Silvaney Paes
Náufrago
Trago desde
o berço o fado,
de com foice fazendo talhos
ou mesmo que me seja a nado,
cumprir o caminho inverso do parto.
reencontrar-me com o passado,
para reatar seculares laços
que para traz foram deixados.
Sendo um dos teus filhos bastardos,
que ficaram por aí largados,
carrego desde aquele parto
algo que jamais poderás nega-lo.
pois dos teus filhos mais legítimos,
que por cá foram nascidos,
trago todos os traços
e também naquilo que falo
encontrará teu registro.
Se os de cá a sal foram provados,
em azeite viram-se banhados
como o mais raro ungüento,
mais que não me torças o rosto
reparando nas marcas que trago
pois te chego como naufrago
em tuas águas banhado,
e não serei jamais abortado,
antes que possa abraça-lo.
E se me abrires os teus braços,
acolhendo-me como filho
não serei só lamento ou gemido
chegado de forma ondular marinho,
em tuas praias cuspido.
Te guardarei tamanho apreço,
que no dia em que me veres partindo,
retornando ao meu antigo ninho
serei um dos tantos gritos,
dos teus filhos mais queridos
saídos de Portugal.
o berço o fado,
de com foice fazendo talhos
ou mesmo que me seja a nado,
cumprir o caminho inverso do parto.
reencontrar-me com o passado,
para reatar seculares laços
que para traz foram deixados.
Sendo um dos teus filhos bastardos,
que ficaram por aí largados,
carrego desde aquele parto
algo que jamais poderás nega-lo.
pois dos teus filhos mais legítimos,
que por cá foram nascidos,
trago todos os traços
e também naquilo que falo
encontrará teu registro.
Se os de cá a sal foram provados,
em azeite viram-se banhados
como o mais raro ungüento,
mais que não me torças o rosto
reparando nas marcas que trago
pois te chego como naufrago
em tuas águas banhado,
e não serei jamais abortado,
antes que possa abraça-lo.
E se me abrires os teus braços,
acolhendo-me como filho
não serei só lamento ou gemido
chegado de forma ondular marinho,
em tuas praias cuspido.
Te guardarei tamanho apreço,
que no dia em que me veres partindo,
retornando ao meu antigo ninho
serei um dos tantos gritos,
dos teus filhos mais queridos
saídos de Portugal.
1 026
1
Juana de Ibarbourou
Silêncio
Minha casa tão longe do mar.
Minha vida tão lenta e cansada.
Quem me dera deter-me a sonhar!
Uma noite de lua na praia!
Morder musgos avermelhados e ácidos
E ter por fresquíssimo travesseiro
Um montão dessas curvas pedras
Que há polido o sal das águas.
Dar o corpo aos ventos sem nome
Abaixo o arco do céu profundo
E ser toda uma noite, silêncio,
No vazio ruidoso do mundo.
Minha vida tão lenta e cansada.
Quem me dera deter-me a sonhar!
Uma noite de lua na praia!
Morder musgos avermelhados e ácidos
E ter por fresquíssimo travesseiro
Um montão dessas curvas pedras
Que há polido o sal das águas.
Dar o corpo aos ventos sem nome
Abaixo o arco do céu profundo
E ser toda uma noite, silêncio,
No vazio ruidoso do mundo.
1 604
1
Natália Correia
Fiz um conto para me embalar
Fiz com as fadas uma aliança.
A deste conto nunca contar.
Mas como ainda sou criança
Quero a mim própria embalar.
Estavam na praia três donzelas
Como três laranjas num pomar.
Nenhuma sabia para qual delas
Cantava o príncipe do mar.
Rosas fatais, as três donzelas
A mão de espuma as desfolhou.
Nenhum soube para qual delas
O príncipe do mar cantou.
A deste conto nunca contar.
Mas como ainda sou criança
Quero a mim própria embalar.
Estavam na praia três donzelas
Como três laranjas num pomar.
Nenhuma sabia para qual delas
Cantava o príncipe do mar.
Rosas fatais, as três donzelas
A mão de espuma as desfolhou.
Nenhum soube para qual delas
O príncipe do mar cantou.
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1
Silvaney Paes
Enchente
Quisera
Deus Chovesse...
Para não ser solitário riacho
Ser rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Capaz de apenas com um trago
Arrasta-la em meus braços
Buscando o antigo regaço
Quisera Deus Chovesse...
E já sendo o rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Ao contrario do triste riacho
Abrir caminho, espaço.
Para encontrar nesse corpo
O deleite do abraço
Quisera Deus Chovesse...
E sendo rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Ao contrário do tímido Riacho
Fugir contigo nos braços
Para num longínquo destino
Perder-me em teu lácio.
Quisera Deus só chovesse...
Para fingir ser rio turvo
Incauto
Revolto e Bravo.
Até conquistar os teus beijos,
Para num remanso tranqüilo
Deleitando-me no abraço
Ser de novo teu manso Riacho.
Chorarei por ti meninas,
Pássaros presos nas matas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a que mata,
Fria águia.
Chorarei por vós meninas,
Ratos revirando as latas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a Gata,
A que caça nas latas.
Chorarei por vós meninas,
Prostitutas das praças.
Lamentarei por mim meninas,
Sou muitas praças,
Aquela que paga.
Chorei por vós meninas,
Escravas de suas casas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a dona da casa,
Senhora de Escravas.
Chorarei por vós meninas,
Mais só chorarei.
Diante de vós sou Fraca,
Sociedade parca,
Sou vossa Mãe Pátria.
Deus Chovesse...
Para não ser solitário riacho
Ser rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Capaz de apenas com um trago
Arrasta-la em meus braços
Buscando o antigo regaço
Quisera Deus Chovesse...
E já sendo o rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Ao contrario do triste riacho
Abrir caminho, espaço.
Para encontrar nesse corpo
O deleite do abraço
Quisera Deus Chovesse...
E sendo rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Ao contrário do tímido Riacho
Fugir contigo nos braços
Para num longínquo destino
Perder-me em teu lácio.
Quisera Deus só chovesse...
Para fingir ser rio turvo
Incauto
Revolto e Bravo.
Até conquistar os teus beijos,
Para num remanso tranqüilo
Deleitando-me no abraço
Ser de novo teu manso Riacho.
Chorarei por ti meninas,
Pássaros presos nas matas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a que mata,
Fria águia.
Chorarei por vós meninas,
Ratos revirando as latas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a Gata,
A que caça nas latas.
Chorarei por vós meninas,
Prostitutas das praças.
Lamentarei por mim meninas,
Sou muitas praças,
Aquela que paga.
Chorei por vós meninas,
Escravas de suas casas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a dona da casa,
Senhora de Escravas.
Chorarei por vós meninas,
Mais só chorarei.
Diante de vós sou Fraca,
Sociedade parca,
Sou vossa Mãe Pátria.
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Alfonsina Storni
Sou essa flor
Tua vida é um grande rio, vai caudalosamente,
a sua beira, invisível, eu broto docemente.
Sou essa flor perdida entre juncos e achiras
que piedoso alimentas, mas acaso nem olhas.
Quando cresces me levas e morro em teu seio,
quando secas morro pouco a pouco no lodo;
Mas de novo volto a brotar docemente
quando nos dias belos vais caudalosamente.
Sou essa flor perdida que brota nas tuas margens
humilde e silenciosa todas as primaveras.
a sua beira, invisível, eu broto docemente.
Sou essa flor perdida entre juncos e achiras
que piedoso alimentas, mas acaso nem olhas.
Quando cresces me levas e morro em teu seio,
quando secas morro pouco a pouco no lodo;
Mas de novo volto a brotar docemente
quando nos dias belos vais caudalosamente.
Sou essa flor perdida que brota nas tuas margens
humilde e silenciosa todas as primaveras.
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Luis Romano
Vida
A crioula que meus olhos beijaram a medo
predeu-se na confusão de um porto francês
Ela sorria continuamente, erguendo no seu riso uma cançaão extraordinária.
Não foi um romance de amor
nem mesmo um pequeno segredo entre ambos.
Somente, quando Ela falava ao pé de mim, eu sentia:
um aprazível devaneio
pela maravilha escultural duma Mulher Perfeita.
Depois,
a Vida separando Nós-Dois
a confusão, os ruidos, os braços agitando-se
e o vapor levando para outros mares,
outros portos,
a graça, o mistério, o perfume e os cantares
da crioula que meus olhos beijaram a medo
no tombadilho daquele vapor francês.
predeu-se na confusão de um porto francês
Ela sorria continuamente, erguendo no seu riso uma cançaão extraordinária.
Não foi um romance de amor
nem mesmo um pequeno segredo entre ambos.
Somente, quando Ela falava ao pé de mim, eu sentia:
um aprazível devaneio
pela maravilha escultural duma Mulher Perfeita.
Depois,
a Vida separando Nós-Dois
a confusão, os ruidos, os braços agitando-se
e o vapor levando para outros mares,
outros portos,
a graça, o mistério, o perfume e os cantares
da crioula que meus olhos beijaram a medo
no tombadilho daquele vapor francês.
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1
Silvaney Paes
O Lago
Estranho
Lago!
Num lugar ermo,
Seco, triste, árido,
Feito de algo reluzente e claro
Onde a lua...
Na melancolia do sol à tarde,
Na solidão da noite,
Ou no desespero da madrugada
Chora uma dor,
Naquele lago.
Mais que dele não se bebe,
Apenas se consente o pranto,
Ao vê-lo como espelho de almas.
E que parecendo límpido,
É salobro, insalubre e amargo,
De certos gostos e desgostos,
Que de mim, de ti, de tantos...
Emprestamos nossas dores
Para àquele lago.
Onde não se pode mergulhar,
Por não haver fundo nem volta,
Só os profundos e obscuros sentimentos,
De todos os dilapidados,
Restos de almas quase mortas,
Que pulsam e agonizam,
Como a dor de meu peito,
Sendo então feito àquele lago.
De fragmentos de vidas e lágrimas.
Lago!
Num lugar ermo,
Seco, triste, árido,
Feito de algo reluzente e claro
Onde a lua...
Na melancolia do sol à tarde,
Na solidão da noite,
Ou no desespero da madrugada
Chora uma dor,
Naquele lago.
Mais que dele não se bebe,
Apenas se consente o pranto,
Ao vê-lo como espelho de almas.
E que parecendo límpido,
É salobro, insalubre e amargo,
De certos gostos e desgostos,
Que de mim, de ti, de tantos...
Emprestamos nossas dores
Para àquele lago.
Onde não se pode mergulhar,
Por não haver fundo nem volta,
Só os profundos e obscuros sentimentos,
De todos os dilapidados,
Restos de almas quase mortas,
Que pulsam e agonizam,
Como a dor de meu peito,
Sendo então feito àquele lago.
De fragmentos de vidas e lágrimas.
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1
Mário Faustino
Viagem
Apago a vela, enfuno as velas: planto
Um fruto verde no futuro, e parto
De escuna virgem navegante, e canto
Um mar de peixe e febre e estirpe farto—
E ardendo em festas fogo-embalsamadas
Amo em tropel, corcel, centauramente,
Entre sudários queimo as enfaixadas
Fêmeas que me atormentam, musamente —
E espuma desta vaga danço e sonho
Com címbalo e símbolos, harmônio
Onde executo a flor que em mim se embebe,
Centro e cetro, curvando-se ante a sebe
Divina — a própria morte hoje defloro
E vida eterna engendro: gero, adoro.
Publicado no livro Poesia (1966). Poema integrante da série Esparsos e Inéditos.
In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
Um fruto verde no futuro, e parto
De escuna virgem navegante, e canto
Um mar de peixe e febre e estirpe farto—
E ardendo em festas fogo-embalsamadas
Amo em tropel, corcel, centauramente,
Entre sudários queimo as enfaixadas
Fêmeas que me atormentam, musamente —
E espuma desta vaga danço e sonho
Com címbalo e símbolos, harmônio
Onde executo a flor que em mim se embebe,
Centro e cetro, curvando-se ante a sebe
Divina — a própria morte hoje defloro
E vida eterna engendro: gero, adoro.
Publicado no livro Poesia (1966). Poema integrante da série Esparsos e Inéditos.
In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
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1
Cruz e Sousa
Sonata
I
Do imenso Mar maravilhoso, amargos,
marulhosos murmurem compungentes
cânticos virgens de emoções latentes,
do sol nos mornos, mórbidos letargos...
II
Canções, leves canções de gondoleiros,
canções do Amor, nostálgicas baladas,
cantai com o Mar, com as ondas esverdeadas,
de lânguidos e trêmulos nevoeiros!
III
Tritões marinhos, belos deuses rudes,
divindades dos tártaros abismos,
vibrai, com os verdes e acres eletrismos
das vagas, flautas e harpas e alaúdes!
IV
Ó Mar supremo, de flagrância crua,
de pomposas e de ásperas realezas,
cantai, cantai os tédios e as tristezas
que erram nas frias solidões da Lua...
Publicado no livro Broquéis (1893).
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 198
Do imenso Mar maravilhoso, amargos,
marulhosos murmurem compungentes
cânticos virgens de emoções latentes,
do sol nos mornos, mórbidos letargos...
II
Canções, leves canções de gondoleiros,
canções do Amor, nostálgicas baladas,
cantai com o Mar, com as ondas esverdeadas,
de lânguidos e trêmulos nevoeiros!
III
Tritões marinhos, belos deuses rudes,
divindades dos tártaros abismos,
vibrai, com os verdes e acres eletrismos
das vagas, flautas e harpas e alaúdes!
IV
Ó Mar supremo, de flagrância crua,
de pomposas e de ásperas realezas,
cantai, cantai os tédios e as tristezas
que erram nas frias solidões da Lua...
Publicado no livro Broquéis (1893).
In: SOUSA, Cruz e. Poesia completa. Introd. Maria Helena Camargo Régis. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 198
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1
Gonçalves Crespo
As Ondinas
Na praia tranqüila murmuram sonoras
As ondas do mar.
E, ao doce das águas murmúrio palreiro.
Na areia dormita gentil cavaleiro
À luz do luar.
As belas ondinas emergem das grutas
De vivo coral,
Acorrem ligeiras, e apontam, sorrindo,
O moço que julgam deveras dormindo
No argênteo areal.
Vem esta, e perpassa do gorro nas plumas
As mãos de cetim.
E aquela, com gesto divino, gracioso,
Nos ares levanta do jovem formoso
O áureo telim.
Essoutra, que lavas, que fogo não vibram
Seus olhos de anil!
Debruça-se e arranca-lhe a rútila espada,
Nos copos brilhantes se apóia azougada.
Travessa e gentil.
A quarta, saltando, retouça, lasciva,
Do moço em redor;
Suspira mansinho, de manso murmura:
"Pudesse eu em vida gozar a ventura
Do teu fino amor!"
A quinta rebeija-lhe as mãos, enlevada
Num sonho feliz,
E a sexta, com trêmula e doce esquivança,
Perfuma-lhe a boca, formosa criança!
Com beijos sutis...
E o moço, fingindo que dorme tranqüilo,
Não quer acordar.
E deixa que o abracem as belas Ondinas,
E lânguido goza carícias divinas
À luz do luar...
Publicado no livro Noturnos (1882).
In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1942
NOTA: Tradução de poema de Hein
As ondas do mar.
E, ao doce das águas murmúrio palreiro.
Na areia dormita gentil cavaleiro
À luz do luar.
As belas ondinas emergem das grutas
De vivo coral,
Acorrem ligeiras, e apontam, sorrindo,
O moço que julgam deveras dormindo
No argênteo areal.
Vem esta, e perpassa do gorro nas plumas
As mãos de cetim.
E aquela, com gesto divino, gracioso,
Nos ares levanta do jovem formoso
O áureo telim.
Essoutra, que lavas, que fogo não vibram
Seus olhos de anil!
Debruça-se e arranca-lhe a rútila espada,
Nos copos brilhantes se apóia azougada.
Travessa e gentil.
A quarta, saltando, retouça, lasciva,
Do moço em redor;
Suspira mansinho, de manso murmura:
"Pudesse eu em vida gozar a ventura
Do teu fino amor!"
A quinta rebeija-lhe as mãos, enlevada
Num sonho feliz,
E a sexta, com trêmula e doce esquivança,
Perfuma-lhe a boca, formosa criança!
Com beijos sutis...
E o moço, fingindo que dorme tranqüilo,
Não quer acordar.
E deixa que o abracem as belas Ondinas,
E lânguido goza carícias divinas
À luz do luar...
Publicado no livro Noturnos (1882).
In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrânio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1942
NOTA: Tradução de poema de Hein
1 999
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Sousa Caldas
Carta Dirigida a Meu Amigo João de Deus Pires Ferreira [1
Em que lhe descrevo a minha Viagem por mar até Gênova
Meu Pires,
Despontava o dia em que a meus olhos, não
sem saudade, havia por alguns meses desaparecer
Lisboa,
Que merece bem o nome
De Bisâncio ocidental;
Onde o saber pouco val,
Têm valor só prata e ouro,
Branco açúcar, rijo couro;
É melhor ter, que virtude:
Pelo menos assim pensa
Gente douta, e povo rude.
Dir-me-á que de Londres, Amsterdã, Berlim,
Viena, se pode dizer que sicut et nos manquejam
de um olho; não duvido: de Paris por ora nada
digo; espero as leis civis para ajuizar se fizeram
nelas o que devem.
É então que a minha Musa,
De cantar mais ansiosa,
Ferirá de novo as cordas
De sua lira saudosa.
Entretanto vamos ao ponto, que é a descrição
da minha viagem até Gênova. Por onde começarei?
Cansada a mimosa Aurora,
Para o leito se acolhia,
Enquanto Apolo açoitava
Os messageiros do dia.
Em vão Pirois retorcia
As orelhas fumegantes,
E com rinchos dissonantes
Etonte o ar aturdia;
Porque Apolo enfurecido
Mais e mais os fustigava,
Vibrando a torta manopla
Com horroroso estampido:
Vinte vezes foi ouvida,
Qual o vento, sibilar,
E nas ancas revoltosas
Dos ginetes estalar,
Por tal modo
que amanheceu enfim de todo. Confesse que é
uma das manhãs longas que se tem visto raiar
sobre o Horizonte: mas enfim amanheceu. Era de
esperar que, depois de tanto trabalho de Apolo,
a manhã fosse clara e brilhante: não sucedeu
assim;
Porque densa escura névoa,
Por entre o freio, escumavam
Os cavalos furiosos,
Dos açoites que aturavam.
Se lhe não agrada esta teoria, para explicar a
origem das névoas; saiba que em Poesia ainda se
não deu melhor; e se não é certa, ao menos é as-
sim inteligível para mostrar que a manhã foi ne-
bulosa. Irra! que manhã! eu mesmo já não sei
como hei de chegar ao meio-dia, a não ser de pulo.
Saltemos pois:
(...)
In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: poesias sacras e profanas. Org. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1821. v.
Meu Pires,
Despontava o dia em que a meus olhos, não
sem saudade, havia por alguns meses desaparecer
Lisboa,
Que merece bem o nome
De Bisâncio ocidental;
Onde o saber pouco val,
Têm valor só prata e ouro,
Branco açúcar, rijo couro;
É melhor ter, que virtude:
Pelo menos assim pensa
Gente douta, e povo rude.
Dir-me-á que de Londres, Amsterdã, Berlim,
Viena, se pode dizer que sicut et nos manquejam
de um olho; não duvido: de Paris por ora nada
digo; espero as leis civis para ajuizar se fizeram
nelas o que devem.
É então que a minha Musa,
De cantar mais ansiosa,
Ferirá de novo as cordas
De sua lira saudosa.
Entretanto vamos ao ponto, que é a descrição
da minha viagem até Gênova. Por onde começarei?
Cansada a mimosa Aurora,
Para o leito se acolhia,
Enquanto Apolo açoitava
Os messageiros do dia.
Em vão Pirois retorcia
As orelhas fumegantes,
E com rinchos dissonantes
Etonte o ar aturdia;
Porque Apolo enfurecido
Mais e mais os fustigava,
Vibrando a torta manopla
Com horroroso estampido:
Vinte vezes foi ouvida,
Qual o vento, sibilar,
E nas ancas revoltosas
Dos ginetes estalar,
Por tal modo
que amanheceu enfim de todo. Confesse que é
uma das manhãs longas que se tem visto raiar
sobre o Horizonte: mas enfim amanheceu. Era de
esperar que, depois de tanto trabalho de Apolo,
a manhã fosse clara e brilhante: não sucedeu
assim;
Porque densa escura névoa,
Por entre o freio, escumavam
Os cavalos furiosos,
Dos açoites que aturavam.
Se lhe não agrada esta teoria, para explicar a
origem das névoas; saiba que em Poesia ainda se
não deu melhor; e se não é certa, ao menos é as-
sim inteligível para mostrar que a manhã foi ne-
bulosa. Irra! que manhã! eu mesmo já não sei
como hei de chegar ao meio-dia, a não ser de pulo.
Saltemos pois:
(...)
In: CALDAS, Sousa. Obras poéticas: poesias sacras e profanas. Org. e notas Francisco de Borja Garção-Stockler. Paris: Of. de P.N. Rougeron, 1821. v.
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