Poemas neste tema

Literatura e Palavras

Herberto Helder

Herberto Helder

Não Quero Mais Mundo Senão a Memória Trémula

não quero mais mundo senão a memória trémula,
quando me perdi,
a cidade, o rio camoneano, o ar,
era como se os apanhasse de uma só vez,
um dia inteiro para ver como acabava em noite,
não quero senão perder-me nesse enigma:
um pequeno poema bastava para meter tudo lá dentro,
e a minha vida como nota,
rápida, ríspida,
nas margens,
mas tamanhas eram elas que não acabavam nunca,
notas mais notas,
o caos,
e eu ali à espera da morte entre canções roucas,
eu que, trémulo, não quero, digo, mais mundo,
eu que me perdi,
não tinham ainda começado o rio, o poema, o ar, a morte
1 199
Lígia Diniz

Lígia Diniz

Enquanto

Por me dares sempre teu riso
Por me dares sempre teus olhos
Por me dares sempre tua boca,
E tomares a minha, sempre.

Por me embebedares com palavras
E por deixar-me te dopar com as minhas
Por beberes minhas frases,
Minha falas, meus sons.

Por me sentir em teus braços
Por me sentires em teus braços
Por meus braços te sentirem

Por ser em ti sem mim
Por não seres meu, por não ser tua,
Quero sempre ser pois tenho medo.

827
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Vibrar

Vibrar a superfície de um bloco. Dizer
a aspereza da pedra, a calma recompensa
da matéria nativa, os ritmos simples
da terra, do mar, do vento. Os frémitos
do solo, a realidade múltipla do imediato.

Acolhe, aceita o húmus primeiro do mundo.
No acaso da escrita, a necessária equivalência.
Energias latentes do universo em ressonância.
Sinais da dinâmica interna, submissão livre,
união infinita na liberdade do ar.

Diz a palavra muda das trevas donde veio
a pedra, músculo imóvel, sempre fértil,
diz a rudeza e o esforço e a inocência
em que perdura, diz ao rés da terra
o itinerário minucioso das formigas.
1 029
Herberto Helder

Herberto Helder

Irmãos Humanos Que Depois de Mim Vivereis

irmãos humanos que depois de mim vivereis,
eu que fui obrigado a viver dobrados os oitenta,
fazei por acabar mais cedo vossos trabalhos cegos,
porque nestas idades já não nunca,
nem leituras embrumadas,
nem crenças, nem política das formas, nem poemas no futuro, nem
visitas extraterrestres de mulheres
exorbitantemente
nuas, cruas, sexuais, luminosas,
só vê-las um pouco, sim, mas vê-las também cansa,
é como trabalhar: stanca,
lavorare stanca,
queríamos tanto acreditar no milagre isabelino do pão e das rosas,
e só tínhamos que perder a alma,
hoje talvez eu mesmo acreditasse melhor, mas foi-se tudo,
enfim esses jogos gerais, ao tempo que se esgotaram!
livros, je les ai lus tous, e como de costume a carne é insondável,
estou mais pobre do que ao comêço,
e o mundo é pequeníssimo, dá-se-lhe corda, dá-se uma volta,
meia volta, e já era,
irmãos futuros do génio de Villon e do meu género baixo,
não peço piedade, apenas peço:
não me esqueceis só a mim, esquecei a geração inteira,
inclitamente vergonhosa,
que em testamento vos deixou esta montanha de merda:
o mundo como vontade e representação que afinal é como era,
como há-de ser: alta,
alta montanha de merda — trepai por ela acima até à vertigem,
merda eminentíssima:
daqui se vêem os mistérios, os mesteres, os ministérios,
cada qual obrando a sua própria magia:
merda que melhor há-de medrar na memória do mundo
916
Lêdo Ivo

Lêdo Ivo

Acontecimento do Soneto

À doce sombra dos cancioneiros
em plena juventude encontro abrigo.
Estou farto do tempo, e não consigo
cantar solenemente os derradeiros

versos de minha vida, que os primeiros
foram cantados já, mas sem o antigo
acento de pureza ou de perigo
de eternos cantos, nunca passageiros.

Sôbolos rios que cantando vão
a lírica imortal do degredado
que, estando em Babilônia, quer Sião,

irei, levando uma mulher comigo,
e serei, mergulhado no passado,
cada vez mais moderno e mais antigo.

1 317
Martha Medeiros

Martha Medeiros

se contarmos todas as palavras que

se contarmos todas as palavras que
trocamos
daria para escrever um bom romance
eu nem te conhecia e contei meus absurdos
tu nem me conhecia e contou teus muitos
planos
se contarmos todos os olhares que trocamos
daria para encher um lago inteiro
eu nem te conhecia e contei o meu passado
tu nem me conhecia e contou teu desespero
se contarmos todos os silêncios que
trocamos
daria para povoar um edifício
eu nem te conhecia e contei meus vinte anos
tu nem me conhecia e contou teus sacrifícios
se contarmos todas as fantasias que trocamos
daria pra dizer que amantes fomos
mas o amor exige beijos e abraços
e não reconheceu o nosso encanto
1 290
Leão Júnior

Leão Júnior

Tempo Tempo

certifique-se de que o tempo
não goza, em seu cabedal,
o saber de um tempo argüido:
seu irônico juízo
no que investiga retorna
e o que investiga é retorno
do que então se parodia

do que então potencializa
um saber examinar-se
no outro que está do outro
sem imagem conferida
mas que pressupõe ao pôr
radicais inexistências
sob metódico senso
de crítica e de raciocínio

para então comprometer
a base — seu fundamento —
do círculo que vira dia
que se vive sem teoria

o que lhe permite ser tempo
é não contar sua história
é não ter sequer história
é ser o avesso da história

a própria falta — seu ser
de insuportável sentido —
satura de perdas a vida
e a explode como história

aí é preciso viver
de sobrevida aparente
nas sobras do apalavrado
reconduzido ao vazio

e nesta sede excluída
do homem desprende-se o tempo
demolindo o quê de si
sobrevive em seus sistemas

que permanecem percursos
de quebras fendas rupturas

são como um não-rio
os afluentes do tempo
(faz flutuar periódicas
minas de água parada)

que cai por brutas clivagens
como evidências sem fala
ou conflui estimulando
econômicas miragens

que precipitam o invisível
nas influências do visto
e trazem a forma adiante
das margens que nos espiam

sem olhar antecipando
múltiplos fluxos sem rio

é de poesia que
o tempo se alimenta
de sua força estratégica
sua premente ameaça

pois quanto mais fortifica
com mais defesas desata
e obriga ao tempo o adiante
de formas desmoronadas

obriga a viagem das horas
às suas fronteiras perdidas
a descobrir demasiados
possíveis de não rendição

mal começada a jornada
chegam arquitetos do não

tem o passado uma fome
do retomo do que falta
fome de raiz-além
desse longo ignorado

e rumina arruinando
a forma não digerida

tem a fome de uma espera
por horizonte não vindo
se morde o passo do onde
se gera a fome do tempo

enquanto rumina o presente
escape por entre os dentes

quando céu e terra se fizeram uno
o grande tempo moldou todas as coisas
de uma só vez

aos homens transmitiu a técnica
de não esperar

nenhum posterior, absoluto ou relativo
se pressupôs:
a consciência das clepisidras e das ampulhetas
desapareceu

perderam-se as sucessões e os recortes
irreversivelmente

o grande tempo fundiu os homens
na geografia do outro
e já não houve marcas de propriedade
e já não houve Estados

quando céu e terra se fizeram uno
o presente pôde ser lembrado

os configurados do tempo
marinheiros e megáricos
na volta não viram a margem
fazer porto no outro lado

fazer com poucos relógios
este contorno marinho
por lençóis curvos de água
canais de vida ou de linho

(mil canais de travessia
não chegam ao tempo visado
se o ângulo em que se projetam
não vaga em tua memória

se não te apreendem no agora
rasgos de incertos indícios)

a paciência da tribo
faz que dorme
faz que sonhem seus conceitos vagos
com cristais

quase nada extrai da falta
de origem ou fim

a paciência da tribo
retira-se do tempo com malas e bagagens
e põe-se a salvo
como duração e morte

quase nada deixa
de sua imprópria matéria
sem horizonte indagado

a paciência da tribo não se acaba
talvez porque seu puro escape
dispense o eterno
como os cristais às datas

no instante do bote
o tempo masca
não marcha
como os cadetes do colégio militar

a cobra-macha do tempo
não bate os calcanhares que não tem
nem se perfila ou bate continência

a cobra-marcha do tempo apenas rumina
o seu azul pairado
sobre alas, sobre balas.

no instante exato do bote
a cobra do tempo fuma
e o verde desfile dos passos para sempre
passa

como uma falta de ser
se imagina desejada
ou quanto a letra se quer
mais lida se mais apagada
a consciência propaga
sua força de abafada
que mal ultrapassa a falha
escandaliza o que falta

e perturba porque gasta
a razão da ultrapassagem
ao propagar o querer
doutras forças sufocadas
que mais apagadas se avivam
como letras desejadas
de uma escrita em que falta
tua imagem recortada

tua vida recordada
Por um apagado de charge

o único tempo é o tempo
que fora de si inexiste
como existe o que expulsa
de sua reserva incontente

expulsa do homem o ganho
ou pior, contabiliza
sua fome de um ser tempo
de ter no tempo o seu prumo

e este homem sem divisas
quer do tempo seu insumo
cobra incentivos e lucros
por vida a mais de consumo

mas o tempo acerta o trato
desconhecendo o rumo

quem rói de ti os fantasmas
de que se cobre a razão
lendo o antes da memória
que escapa à imaginação

que examina pela falta
as marcas da contradição
que ousa escritos vazios
sobre raspas predatórias

quem desconcentra a razão
para firmá-la no instável
como solta resistência
que se faz tão maleável

que nenhuma norma nova
fixa a ferida da margem

a tinta encarnada do teu
manuscrito sem história
se entranha na letra como
palavra arrancada à traça

se entranha em calar dobrado
como história dos silêncios
que a letra arranca aos pedaços
desta carne de azurado

a tinta dos manuscritos
come a tua mão pesada
com gratos garfos que vexam
o menos papel do prato

para abrir com suas chaves
o trauma de novos achados

escrevo palavras que calam
o meu objeto é o tempo
não fala

mas guarda em si monumentos
que sem vestígios
abalam

e o seu mudo testamento
fende infinito o fragmento
que age

escrevo à margem do efeito
leitor da ávida ausência
que apaga

e não consulto memórias
meu dicionário é o átimo
que indaga

deixa se possível um oco
para que o tempo arrebente
tuas mordaças sem corpo
o teu silêncio de ovo

teu fio sem interior
que tece os teus desenlaces
com mordidas ou amarras
famintas da tua nudez

derrama o rigor do silêncio
na veia oblíqua do novo

os tempos geraram os tempos
que geram de si os tempos
que geram os tempos de novo
como uma trama bastarda

os laços de parentesco
perdido no que se ligam
tecem o mito e a fenda

saber de que é feito o tempo
desses tempos sem história
é ter por familiares
homônimos desconhecidos

que no entanto evoluem
no seu poder de expurgar
incógnitas biografias

nos interiores das bibliotecas
o teu vizinho vive os anos vinte
um de meia-idade atrás de ti
parte uma galáxia

nos interiores da rua
cada palavra circula
com reais multiplicados

pelos becos mais dispersos
das páginas e
405
Lêdo Ivo

Lêdo Ivo

Canto Grande

Não tenho mais canções de amor.
Joguei tudo pela janela.
Em companhia da linguagem
fiquei, e o mundo se elucida.

Do mar guardei a melhor onda
que é menos móvel que o amor.
E da vida, guardei a dor
de todos os que estão sofrendo.

Sou um homem que perdeu tudo
mas criou a realidade,
fogueira de imagens, depósito
de coisas que jamais explodem.

De tudo quero o essencial:
o aqueduto de uma cidade,
rodovia do litoral,
o refluxo de uma palavra.

Longe dos céus, mesmo dos próximos,
e perto dos confins da terra,
aqui estou. Minha canção
enfrenta o inverno, é de concreto.

Meu coração está batendo
sua canção de amor maior.
Bate por toda a humanidade,
em verdade não estou só.

Posso agora comunicar-me
e sei que o mundo é muito grande.
Pela mão, levam-me as palavras
a geografias absolutas.

1 566
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Na Distância Sem Distância

A fluidez permanece na distância sem distância.
Alguns sulcos se curvam, as palavras dissolvem-se
no ar cintilante. São lábios que imaginam
ou que bebem as vogais do silêncio? Livre amplitude
será a morte na vida? Será a estrela do ar?

Toco o fundo e o cimo plano e sou secreto e liso,
circulo na suave nebulosa entre pequenos arbustos
e os nomes todos são brancos entre as águas incessantes.
Há uma casa incompleta que avança para mim.
Estou à beira. Escuto. É todo o mar que em mim ressoa.

Vigilante do ócio nas águas do olvido,
contemplo os jardins móveis e as linhas luminosas
e na dolência dos arcos a inteligência da tristeza
até onde a luz se alonga em lucidez antiga
e tudo está em si porque as próprias sombras amam.
987
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um Discurso Transparente

Avanço através de um caos silencioso.
Nem um som nem uma sombra. É uma lenta descida.
É vazio o princípio do princípio. Solipsismo.
A possibilidade de nascer é o desejo que nasce.
Esquecer, viver. Tudo dizer em evidências brancas.

Com as armas mais puras, com a luz das minhas ervas
enuncio a fragrância de uma lâmpada. Comovo-me
com a água do poema. Crianças de cor solar
acenam em campos silenciosos. É suficiente estar aqui
mais além de todo o lugar, na superfície nua.

Habito agora o movimento do meio-dia.
Inesgotável um campo tão contínuo.
O sol fixou-se na corola do tempo, o espaço é puro.
O mar levanta-se do fundo até aos seus limites.
Um discurso flui completo e transparente.
624
Lígia Diniz

Lígia Diniz

Querer

Há certas coisas que não cabem em uma linha
Não cabem em uma estrofe
Não cabem em um poema,
em mil poemas.
Não cabem em uma idéia
Não cabem em uma alma,
em um corpo, em mil corpos
Há certas coisas que se chamam,
sem se chamar - não cabem em um nome -
Se chamam fogo.

1 039
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Um País, Um Poema

Um país se delimita nas mudanças do vento.
Labirinto ou fábrica de espumas sempre aberta.
Sinuosas continuidades, dunas de pensamento,
por vezes um abrigo, ninho de primavera,
por vezes um polvo ardendo nas areias.

Sobre uma espádua escrevo e no tremor de um corpo
cintilam os animais. Este é o âmbito destinado
em inteira nudez de forma e vida.
Desperto estou em ti movido pela luz
numa terra imóvel, liso como uma folha leve.

Um país se delimita e são vocábulos e pedras,
maciços obscuros, pátria de tantos rumores,
lenta germinação de lâmpadas de terra.
Um poema oculta a metáfora de si mesmo
no seu sopro e em nenhum saber culmina.
1 141
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

A QUESTION

«Tell me», one day to a poet said
        A deep, brutal man,
«If you had to choose between seeing dead
Your wife whom you do love so well
And the loss complete, irreparable,
        Of your verses all, instead -
Which loss would you rather feel?»

The poet glanced with sudden woe
And deep distress at him who so
Broke with a question ill‑foreseen
His inner silence half‑serene,
And he did not answer; and the other
Smiled, as elder to younger brother:
The tortured glance of startled sense
And sudden self‑knowledge intense
And newness of self‑consciousness
Was bitter, as ev'n he could guess.
More than a smile were violence.
1 570
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Crescimento Escreve

A trama é verde num clima de brancura.
O crescimento escreve. Como uma flor se forma
em eficaz simplicidade. A energia é lenta
de uma lentidão silenciosa. Somos um fragmento
de um obstinado discurso de brancos arabescos.

Matéria porosa, transparente. Eclosão de torsos
sumptuosos, delicados. Génese violenta, límpida
dos corpos. Lisas, flexíveis, insinuantes formas.
O olhar vê e adere e escreve as carícias voluptuosas
deste caminho silencioso. Em fogo, em água, em terra

e ar. Que multidão tão branca e nua,
que exuberância calma, que prodígio aberto!
A afirmação do fundo é evidência aérea.
A luz nasce da água, tudo está suspenso,
as figuras dançam no círculo do princípio.
1 026
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Violenta No Obscuro

Por ímpetos de acaso tacteias o obscuro
violentamente nua na loucura das sílabas.
Com a agilidade do vento atravessas florestas
e torrentes. Num branco turbilhão te envolves
até te confundires toda com a areia

e a água. Não tens ainda um rosto, não inventaste
o rosto. Teus ombros acordam e devastam.
Propagas-te sem caminhos na fúria do desejo.
Entre pastores obscuros fertilizas a distância.
Sobes à tua sombra, mais vermelha do que nunca.

Em tuas formas de fogo e sangue e sémen
segues uma ordem secreta, uma coerência natural.
Quem poderá dizer, dançando como danças,
como vais terminar? Tu principias sempre.
És o corpo inesperado que se abre a todo o espaço.
539
Lêdo Ivo

Lêdo Ivo

Esconderijo

Hiding

A palavra-chave
sempre se esconde
atrás da porta.

The key-word
is always hidden
behind the door.

1 583
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Completo No Ar

Quando surge, substância subtil em rotação
de oferta, abre-se no rumor um espaço de silêncio.
Ponto imóvel. Luz branca. Incandescência.
O alento esqueceu-se de si e prolonga-se na luz.
Completa no ar é a realidade do desejo.

São lábios, são sementes, são dedos sobre o pólen?
Aprendemos a leveza das pétalas, o peso dos insectos.
A visão move-se, a lentidão é beleza.
O pensamento despiu-se e flui como uma onda.
O corpo revela a sua frágil, líquida, obstinada

violência. As coisas vibram, nuas,
incandescentes. Todas as nuvens ardem
azuis, vermelhas, brancas. No centro está o diamante lúcido.
Tudo abstraio até onde começa a transparência.
O poema apaga as letras e depois respira-as.
1 019
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Sem impaciência.

Sem impaciência.
Sem curiosidade,
Sem atenção
Vejo-o crochet que com ambas as mãos combinadas
Fazes.

Vejo-o do alto de um monte inexistente,
Malha após malha formando pano...

Qual é a razão que te dá entretenimento
Às mãos e à alma essa coisa rala
Por onde se pode meter um fósforo apagado?
Mas também
Qual é a razão que assiste a eu te criticar

Nenhuma.
Eu também tenho um crochet.
Data de desde quando comecei a pensar...
Malhas sobre malhas formando um todo sem todo
Um pano que não sei se é para um vestido ou p'ra nada
Uma alma que não sei se é para sentir ou viver...
Olho-te com tanta atenção
Que já nem dou por ti...

Crochet, almas, filosofia...
Todas as religiões do mundo...
Tudo quanto nos entretém ao serão de sermos...
Dois marfins, uma volta, o silêncio...
1 403
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Há tanto tempo que não sou capaz

Há tanto tempo que não sou capaz
De escrever um poema extenso!
Há anos...

Perdi a virtude do desenvolvimento rítmico
Em que a ideia e a forma,
Numa unidade de corpo com alma,
Unanimemente se moviam...
Perdi tudo que me fazia consciente
De uma certeza qualquer no meu ser...
Hoje o que me resta?
O sol que está sem que eu o chamasse...
O dia que me não custou esforço...
Uma brisa, com a festa de uma brisa
Que me dão uma consciência do ar...
E o egoísmo doméstico de não querer mais nada

Mas, ah!, minha Ode Triunfal ,
O teu movimento rectilíneo!
Ah, minha Ode Marítima

A tua estrutura geral em estrofe antiestrofe e epodo!
E os meus planos, então, os meus planos —
Esses é que eram as grandes odes.
E aquela a última a suprema a impossível!
1 365
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Perdi o Nascimento da Árvore

Perdi o nascimento da árvore. O acaso
chove sobre as minhas páginas brancas.
Quero apertar a argila entre os meus dedos,
possuir a madeira, o sal, o vidro, o fogo.
Quero ouvir a canção que é uma ilha de chuva.

Escrevo. Uma música hesita entre ser água
ou espaço. Uma palavra cinge a luz
do ar. Uma folhagem abriga o rosto.
Descanso como a água inteiramente em si mesma.
Aqui é a redondez de um aroma de silêncio.

O tempo que leva uma sombra a cair
é uma evidência que abriga obscura e leve.
Cerimónia pura em lugar tão aberto.
Que sede de água com as mãos ardentes!
Cai o corpo no corpo e o silêncio no silêncio.
1 044
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

MOMENTS - III

III

A philosopher of name
In the best of mind once said:
«Man is... » the rest is immaterial
And need not be chronicled.
1 189
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Círculo Cego

Uma linha expressa a cor e o som
das suas células. As palavras são pétalas
de pedra ou gotas do espaço. A chuva
levanta o mundo. Não há conhecimento
que mereça o nome do mais obscuro ruído.

O universo é mais lento e mais intenso.
Obscura luz obscura. Pirâmides de sombra.
Falamos com a respiração encerrada numa pedra
para que não se rompa o círculo cego.
Guia-nos a suave mão do vento.

Na brancura rápida há um tremor de gérmen.
Somos feridas vibrantes num jardim de veias.
Tocamos o rosto do ar e a suave lua de areia.
Uma aranha branca desenha um arco minucioso.
Esta é a pequena fonte junto a um arbusto resplandecente.
1 109
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Escrita Ou Corpo

Ele prepara os incertos lugares. Escreve
o que escreveria um réptil pulsando sobre as pedras.
Segue a linha do braço da mulher até ao obscuro
lábio. Penetra na musgosa gruta
incandescente. Que perfume ancestral,

que orvalho ardente! Ele aprende a suavidade
da sombra e a luz de um aroma. É uma escrita
de voluptuosas armas nas páginas do vento.
Quando a pedra encontra a transparência
ou a transparência se tornou uma pedra,

abre-se o espaço das palavras que nós somos.
Monotonia alegre de uma serpente de água.
Que insensatez tão certa, nada começa, nada acaba.
Quantos astros cintilam sob as pálpebras!
Quantos barcos se acendem na folhagem!
571
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

SAUDAÇÃO [c]

SAUDAÇÃO

A expressão, aborto abandonado
Em qualquer vão-de-escada da realidade.

O que é a necessidade de escrever versos senão a vergonha de chorar?
O que é o desejo de fazer arte senão o adultismo p'ra brinquedos?
(Quando é que parte o último comboio, Walt,
Quando é que parte o último comboio?)

Bonecos da minha infância com quem eu imaginava melhor que hoje
(...)

A química por baixo do Aqui jaz..
A dor, febre que hoje é química só, lá longe na cavada encosta
À hora em que era costume ele vir para casa
E o mesmo candeeiro hoje iluminado [...]
E apenas o silêncio já sem nos dizer que o fazem por se terem calado.
1 100