Poemas neste tema
Literatura e Palavras
Edmir Domingues
Canto fúnebre a Garcia Lorca
Quando os cavalos negros não chegaram
e os brancos foram feitos de fumaça,
teu rosto em plena sombra, Federico,
era uma suave luz como não resta.
Os ciganos dormiam, Santiago
de Cuba na distância repousava,
mar de papel, os plátanos medusas,
e em tudo o odor das flores de tabaco.
No entanto, Federico, nós não fomos,
num coche de água negra, a Santiago,
antes levou-te o coche às águas mortas
entre o sabor do sangue e da revolta.
E se não foi às cinco de uma tarde
sucedeu numa estranha madrugada
quando era o sol de sangue (e a lua sangue)
em um reino de bêbedos distantes
como o ritmo da paz e da esperança.
E as faces alvas todas se voltaram
para o país das lágrimas noturnas.
Choramos os teus passos, Federico,
que os teus pés muito leves não pisaram.
Nós os de branco, os outros de cinzento,
os de azul, os de terra, os de amarelo,
fomos chorar-te junto aos que choravam
e que estavam vestidos de vermelho.
E eis que te digo então que os homens todos
são ratos e são deuses, nada importa
a cor das roupas várias com que cobrem
o corpo igual e nu e sem segredo.
Por trás das cores dorme a indisfarçada,
a humana condição que nos domina
que só nos dá ser grandes quando ouvimos,
canções como as que sempre nos cantavas.
Quando um poeta morre a vida morre
um pouco. E mais morreu quando morreste.
Mais triste o mundo resta, irmão tombado,
sem tua voz de estranha humanidade.
Há silêncio na terra e este meu canto
é teu, pois te reclama nessa ausência,
de ausentes que nós somos e distantes
como o ritmo da paz e da esperança.
e os brancos foram feitos de fumaça,
teu rosto em plena sombra, Federico,
era uma suave luz como não resta.
Os ciganos dormiam, Santiago
de Cuba na distância repousava,
mar de papel, os plátanos medusas,
e em tudo o odor das flores de tabaco.
No entanto, Federico, nós não fomos,
num coche de água negra, a Santiago,
antes levou-te o coche às águas mortas
entre o sabor do sangue e da revolta.
E se não foi às cinco de uma tarde
sucedeu numa estranha madrugada
quando era o sol de sangue (e a lua sangue)
em um reino de bêbedos distantes
como o ritmo da paz e da esperança.
E as faces alvas todas se voltaram
para o país das lágrimas noturnas.
Choramos os teus passos, Federico,
que os teus pés muito leves não pisaram.
Nós os de branco, os outros de cinzento,
os de azul, os de terra, os de amarelo,
fomos chorar-te junto aos que choravam
e que estavam vestidos de vermelho.
E eis que te digo então que os homens todos
são ratos e são deuses, nada importa
a cor das roupas várias com que cobrem
o corpo igual e nu e sem segredo.
Por trás das cores dorme a indisfarçada,
a humana condição que nos domina
que só nos dá ser grandes quando ouvimos,
canções como as que sempre nos cantavas.
Quando um poeta morre a vida morre
um pouco. E mais morreu quando morreste.
Mais triste o mundo resta, irmão tombado,
sem tua voz de estranha humanidade.
Há silêncio na terra e este meu canto
é teu, pois te reclama nessa ausência,
de ausentes que nós somos e distantes
como o ritmo da paz e da esperança.
695
Rogério Bessa
Redescoberta de Orfeu ou O Mundo Nunca Encontrado
Do Canto I:
Prólogo Menos
lhe envio meu canto órfico
com o encanto de meu povo,
fala a lira em lira mor,
diz de orfeu o seu encanto.
sede e fome fomentaram
sua música, seu ritmo,
a queimar-lhe o sol a pele,
nasceu-lhe a redescoberta.
grande estalo resultou
num mundo nunca encontrado
e embora o canto doesse,
entremente não choveu.
Prólogo Menos
lhe envio meu canto órfico
com o encanto de meu povo,
fala a lira em lira mor,
diz de orfeu o seu encanto.
sede e fome fomentaram
sua música, seu ritmo,
a queimar-lhe o sol a pele,
nasceu-lhe a redescoberta.
grande estalo resultou
num mundo nunca encontrado
e embora o canto doesse,
entremente não choveu.
830
António Ramos Rosa
70. Incide a Água Onde Ainda É Água
70
Incide a água onde ainda é água
e o princípio é um não-saber
e a ilha poderia ser iluminada
pela outra ilha do horizonte incerto.
Assim as palavras mudam na carne ausente
que é a tua carne e o silêncio dessa carne
para um país real de excesso e maravilha
para a festa animal onde a montanha vibra.
As palavras mudas animam-se no dia
da sua festa incerta maravilha
é a parte que cabe à luz da vida.
Incide a água onde ainda é água
e o princípio é um não-saber
e a ilha poderia ser iluminada
pela outra ilha do horizonte incerto.
Assim as palavras mudam na carne ausente
que é a tua carne e o silêncio dessa carne
para um país real de excesso e maravilha
para a festa animal onde a montanha vibra.
As palavras mudas animam-se no dia
da sua festa incerta maravilha
é a parte que cabe à luz da vida.
1 111
António Ramos Rosa
69. Pedra E a Perfeição, Essa Frescura
69
Pedra e a perfeição, essa frescura
da pedra negra e alta
da matéria da linguagem e nos lábios
feridos da pobreza numa festa.
Festa do mar e da palavra livre
que festa seria do corpo libertado?
Aqui cintila a coluna do não-ser
aqui se perde a pedra e o fogo livre.
Aqui se acende todavia a pedra
de um outro fogo do mar de uma outra festa
que viria da palavra de outro ser.
Pedra e a perfeição, essa frescura
da pedra negra e alta
da matéria da linguagem e nos lábios
feridos da pobreza numa festa.
Festa do mar e da palavra livre
que festa seria do corpo libertado?
Aqui cintila a coluna do não-ser
aqui se perde a pedra e o fogo livre.
Aqui se acende todavia a pedra
de um outro fogo do mar de uma outra festa
que viria da palavra de outro ser.
515
António Ramos Rosa
78. Rosto Para Dizer o Rosto Rápido
78
Rosto para dizer o rosto rápido
pássaro quotidiano obscuro e vivo
poema da duração da alegria
do instante / do rosto pássaro.
Impulso e ombro táctil quase o beijo
sobre lábios de silêncio e de palavras
lábios lábios com seus dentes brancos
o que dizem o que falam negro e branco.
Aqui recuperada a perda exacta
da fala viva do rosto pássaro
no instante de dizer exaltação perdida.
Rosto para dizer o rosto rápido
pássaro quotidiano obscuro e vivo
poema da duração da alegria
do instante / do rosto pássaro.
Impulso e ombro táctil quase o beijo
sobre lábios de silêncio e de palavras
lábios lábios com seus dentes brancos
o que dizem o que falam negro e branco.
Aqui recuperada a perda exacta
da fala viva do rosto pássaro
no instante de dizer exaltação perdida.
994
António Ramos Rosa
76. Linha E Sóbria, Desesperada Pedra
76
Linha e sóbria, desesperada pedra
contida em sua linha de água e dança
vertida na palavra que não dança.
Ela a retida, livre — na cidade —
desocupada na página ou no lancil
lançada à vertigem viva de uma escrita.
Por ela a terra roda a vila pesa
a pedra é pedra e sol e água e
entre o lugar e a ausência o nome é branco.
Linha e sóbria, desesperada pedra
contida em sua linha de água e dança
vertida na palavra que não dança.
Ela a retida, livre — na cidade —
desocupada na página ou no lancil
lançada à vertigem viva de uma escrita.
Por ela a terra roda a vila pesa
a pedra é pedra e sol e água e
entre o lugar e a ausência o nome é branco.
522
António Ramos Rosa
79. a Abstracta Figura Concretiza-Se
79
A abstracta figura concretiza-se
em pedras e pedras sucessivas
num sincopado fluxo de água e de detritos.
Vejam a lâmpada negra da aranha
que entre paredes busca a sintaxe inversa
busquem a pedra essencial a pedra.
Mas o esforço é abandono rouco
às pulsões da terra branca desta escrita
que é animal para ser animal livre.
A abstracta figura concretiza-se
em pedras e pedras sucessivas
num sincopado fluxo de água e de detritos.
Vejam a lâmpada negra da aranha
que entre paredes busca a sintaxe inversa
busquem a pedra essencial a pedra.
Mas o esforço é abandono rouco
às pulsões da terra branca desta escrita
que é animal para ser animal livre.
1 069
António Ramos Rosa
75. a Pedra, o Corpo E a Escrita
75
A pedra, o corpo e a escrita
das árvores: cinza cinza que arde
quando o fogo da escrita arde sobre
o mineral negro, a ponta escura escreve
talvez uma laranja lancinante
talvez a simples mesa do pão branco.
Seja qual for o fim não há o fim
da aventura dessa pedra escrita
nesse escrever da pedra cinza negra.
A pedra, o corpo e a escrita
das árvores: cinza cinza que arde
quando o fogo da escrita arde sobre
o mineral negro, a ponta escura escreve
talvez uma laranja lancinante
talvez a simples mesa do pão branco.
Seja qual for o fim não há o fim
da aventura dessa pedra escrita
nesse escrever da pedra cinza negra.
1 225
Rogério Bessa
Do Canto IV:
A Retirada:
Antimitos Lua e Viagem ao (Im)Possível
gracilianos entre ramos
mortos e rumos épicos
deparar é o que vamos;
fabianos sem vitórias
régias ao mor março tépidos
entre telúricas glórias;
todos seres patagônias
à procura de pasárgadas,
sonhos leves, amazônias.
Antimitos Lua e Viagem ao (Im)Possível
gracilianos entre ramos
mortos e rumos épicos
deparar é o que vamos;
fabianos sem vitórias
régias ao mor março tépidos
entre telúricas glórias;
todos seres patagônias
à procura de pasárgadas,
sonhos leves, amazônias.
738
Rogério Bessa
Do Canto IX:
O Mundo Encontrado:
Inércia Calada e Mudez Falante do Sol
no impacto do cacto intacto,
o olho de intáctil tacto,
viaduto da em sol ação;
no pacto do cacto intacto,
o sol de olho por olho
no tacto incacto da mão.
no pacto, o cacto e o tacto
contrátil do contratante,
chão por chantão malsão.
Inércia Calada e Mudez Falante do Sol
no impacto do cacto intacto,
o olho de intáctil tacto,
viaduto da em sol ação;
no pacto do cacto intacto,
o sol de olho por olho
no tacto incacto da mão.
no pacto, o cacto e o tacto
contrátil do contratante,
chão por chantão malsão.
933
António Ramos Rosa
82. Procuro As Palavras — Língua Breve
82
Procuro as palavras — língua breve
acesa sobre a relva da manhã concreta
que os pássaros picam em palavras vivas
que aqui se inventam e são de fogo branco.
Procuro as palavras e são vãs e brancas
quantas vezes quantas vezes cinza
de uma cinza de outra cinza de algum fogo.
De algum fogo? O que procura o pulso
e que é letra de aranha, obscuras patas,
obscuro sonho do poema errante.
Procuro as palavras — língua breve
acesa sobre a relva da manhã concreta
que os pássaros picam em palavras vivas
que aqui se inventam e são de fogo branco.
Procuro as palavras e são vãs e brancas
quantas vezes quantas vezes cinza
de uma cinza de outra cinza de algum fogo.
De algum fogo? O que procura o pulso
e que é letra de aranha, obscuras patas,
obscuro sonho do poema errante.
1 061
António Ramos Rosa
84. a Incerteza E a Certeza Dessa Escrita
84
A incerteza e a certeza dessa escrita
não filha de um futuro
na folha chamamento
dilacerante e no entanto mudo.
E que incerta insistência, fogo vago
sobre casas desertas, sobre quartos
de insectos
quanta inércia quantas pálpebras
caídas e a sombra
de um só corpo se existisse
a dúvida criando este suporte.
A incerteza e a certeza dessa escrita
não filha de um futuro
na folha chamamento
dilacerante e no entanto mudo.
E que incerta insistência, fogo vago
sobre casas desertas, sobre quartos
de insectos
quanta inércia quantas pálpebras
caídas e a sombra
de um só corpo se existisse
a dúvida criando este suporte.
1 002
António Ramos Rosa
Não É Um Texto:
Não é um texto:
é um movimento da sombra
o pulso dos passos: pedra A mão
traça
o caminho separa as sombras
no desejo de ervas claras de ervas vivas
e só as pálpebras
pesam
sobre o texto
sem árvores
o braço oscila na montanha
é um movimento da sombra
o pulso dos passos: pedra A mão
traça
o caminho separa as sombras
no desejo de ervas claras de ervas vivas
e só as pálpebras
pesam
sobre o texto
sem árvores
o braço oscila na montanha
1 041
António Ramos Rosa
Entre Dois Espaços Duas Sombras Altas
Entre dois espaços duas sombras altas
o movimento da montanha o vazio
nos passos
talvez o texto da terra talvez a terra e a mão
antes das pálpebras no ar
Caminho não de lábios mas de sombras
sobre a raiz do lápis sobre o pulso
caminho ou não
no círculo
dos passos
e esta é a frase do caminho
ou a lucidez do braço
o movimento da montanha o vazio
nos passos
talvez o texto da terra talvez a terra e a mão
antes das pálpebras no ar
Caminho não de lábios mas de sombras
sobre a raiz do lápis sobre o pulso
caminho ou não
no círculo
dos passos
e esta é a frase do caminho
ou a lucidez do braço
1 096
António Ramos Rosa
88. Como Dizê-Lo: Ei-Lo, Aqui
88
Como dizê-lo: ei-lo, aqui
não imagem, não aspecto da figura
mas o incêndio de todas as imagens.
Como dizer a referência absoluta
irreal da folhagem no cavalo
da fuga absoluta, pedra e não pedra
água e não água, terra absoluta.
Como dizer-te, tu que não és tu nem nada
que és a figura desfeita na terra putrefacta
este resto impuro onde se afunda a boca.
Março-Maio de 1978
Como dizê-lo: ei-lo, aqui
não imagem, não aspecto da figura
mas o incêndio de todas as imagens.
Como dizer a referência absoluta
irreal da folhagem no cavalo
da fuga absoluta, pedra e não pedra
água e não água, terra absoluta.
Como dizer-te, tu que não és tu nem nada
que és a figura desfeita na terra putrefacta
este resto impuro onde se afunda a boca.
Março-Maio de 1978
983
António Ramos Rosa
Uma Falha Entre
Uma falha entre
duas pedras
a folhagem entre as pálpebras acesas
a moeda de fogo música de dedos sóbrios
o caminho mas
sem caminho: círculo de lâmpadas
o texto o texto único raiz
do pulso
lápis de sombra
raiz do lápis na montanha
duas pedras
a folhagem entre as pálpebras acesas
a moeda de fogo música de dedos sóbrios
o caminho mas
sem caminho: círculo de lâmpadas
o texto o texto único raiz
do pulso
lápis de sombra
raiz do lápis na montanha
975
António Ramos Rosa
Na Seiva do Ar
Na seiva do ar
uma palavra que é rosto ou melodia.
uma palavra que é rosto ou melodia.
1 159
António Ramos Rosa
No Peito da Página
No peito da página
o pulsar das pálpebras nas palavras
uma nova terra
na mão nova
o pulsar das pálpebras nas palavras
uma nova terra
na mão nova
1 045
António Ramos Rosa
As Palavras Brancas do Ar
As palavras brancas do ar
aqui
no cimo plano
aqui
no cimo plano
1 028
António Ramos Rosa
O Anel do Insecto Luxúria Mínima
O anel do insecto luxúria mínima
do poema os dentes descerrados à frescura do vento
a figura viva em fragmentos na fragrância verde
as sílabas o sol das sílabas sob as sílabas
a pedra escrita
entre a pedra e o silêncio
do nascimento
último
água ó minha mão na terra
do poema os dentes descerrados à frescura do vento
a figura viva em fragmentos na fragrância verde
as sílabas o sol das sílabas sob as sílabas
a pedra escrita
entre a pedra e o silêncio
do nascimento
último
água ó minha mão na terra
1 051
Patrícia Moreira
Romantismo lítero-musical
O professor e pesquisador Aleilton Fonseca foi buscar nas páginas da literatura romântica do século XIX os elementos para compor o livro Enredo romântico, música ao fundo, no qual analisa a presença das manifestações lúdico-musicais na ficção urbana do Romantismo. Lançado pela editora Sette Letras, o livro foi elaborado a partir da tese de mestrado do autor, defendida na Universidade Federal da Paraíba, em 1992. O estudo se propõe a mostrar como o rendimento dos fatos musicais interferem no desenvolvimento das tramas romanescas e como os escritores da época representavam a vida musical com o intuito de valorizar determinados gêneros de origem européia como modelos ideais para a nossa cultura.
O estudo concentra-se na análise de obras de autores como Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar e Manuel Antonio de Almeida, destacando a dicotomia entre música culta e música vulgar, presente no ambiente cultural da época e reproduzida na literatura. No século XIX, o Brasil se dividia entre a produção musical calcada nos padrões europeus e a que se desenvolvia nos meios populares sob a influência espontânea das tradições indígenas e, sobretudo, africanas. Os romances urbanos e de costumes de autores como Joaquim Manuel de Macedo e José de Alencar, são ricos em referências às manifestações lúdico-musicais da burguesia imperial, enquanto Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, se volta para a representação das camadas mais pobres e, conseqüentemente, registra manifestações diferentes daquelas dos salões.
Manifestações lúdico-musicais
da burguesia
imperial
Existia uma
interrelação
entre os
gêneros
musicais.
Narrativa- "Almeida mostra que as manifestações populares eram colocadas no espaço da desordem social, incorporando à narrativa urbana os modelos populares desprezados pela cultura oficial e considerados vadiagem, malandragem, caso de polícia", revela Aleilton Fonseca. Memórias de um sargento de milícias mostra a atuação do Major Vidigal e seus granadeiros para acabar ou proibir festas e prender os seus participantes. Enredo romântico, música ao fundo, não se limita, no entanto, a simplesmente registrar as abordagens literárias das manifestações lúdico-musicais da época. O autor vai mais longe ao sustentar que, apesar do preconceito em relação às manifestações populares, existia uma interrelação entre os gêneros musicais.
Havia apropriação e certa adequação de gêneros de uma camada social por outra."Muitos músicos transitavam nos dois espaços, tocando a música certa nos lugares adequados, mas sempre aclimatando, adaptando alguma coisa", ilustra Aleilton Fonseca. Ele cita como exemplo a dança do lundu, que por muito tempo foi combatida, mas gerou o que se batizou de lundu-canção para piano, atendendo mais ao gosto da elite. A forte influência do modelo cultural europeu sobre a elite brasileira do século XIX, remontava, segundo o pesquisador, ao período colonial, sendo posteriormente reforçada pela chegada do rei Dom João VI, em 1808.
Com a vinda da corte portuguesa, o ambiente cultural de Lisboa, fortemente inspirado nas tendências ditadas pelos salões parisienses foi fielmente reproduzido no Brasil. "Dom João VI procurou, dentro do possível, reproduzir as condições culturais de Lisboa. Ele construíu um teatro lírico, criou a capela imperial, contratou a famosa Missão Artística para prover a corte brasileira de modelos a serem seguidos e reproduzidos", revela Aleiton Fonseca. Na tentativa de se aproximar da corte, os brasileiros mais abastados aderiram com facilidade à nova ordem cultural, fazendo com que o padrão trazido de Portugal passasse a ser reconhecido como o único correto e oficial, relegando as manifestações locais, de cunho popular, ao isolamento e à marginalidade. A dicotomia entre música culta e música "vulgar", enquanto referencial de classe, riqueza e poder, predominaria por todo o século XIX. Na literatura, a presença das manifestações lúdico-musicais ocorre enquanto elemento de contextualização. Os autores procuraram recriar nos romances o ambiente social da época. Enredo Romântico, música de fundo, além de desvendar o universo musical que marcou o século XIX pelo seu caráter interdisciplinar, oferece um amplo panorama histórico ao correlacionar literatura, cultura e sociedade.
(in A Tarde, Caderno Cultural, 11/01/97)
Leia obra poética de Aleiton Fonseca
O estudo concentra-se na análise de obras de autores como Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar e Manuel Antonio de Almeida, destacando a dicotomia entre música culta e música vulgar, presente no ambiente cultural da época e reproduzida na literatura. No século XIX, o Brasil se dividia entre a produção musical calcada nos padrões europeus e a que se desenvolvia nos meios populares sob a influência espontânea das tradições indígenas e, sobretudo, africanas. Os romances urbanos e de costumes de autores como Joaquim Manuel de Macedo e José de Alencar, são ricos em referências às manifestações lúdico-musicais da burguesia imperial, enquanto Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida, se volta para a representação das camadas mais pobres e, conseqüentemente, registra manifestações diferentes daquelas dos salões.
Manifestações lúdico-musicais
da burguesia
imperial
Existia uma
interrelação
entre os
gêneros
musicais.
Narrativa- "Almeida mostra que as manifestações populares eram colocadas no espaço da desordem social, incorporando à narrativa urbana os modelos populares desprezados pela cultura oficial e considerados vadiagem, malandragem, caso de polícia", revela Aleilton Fonseca. Memórias de um sargento de milícias mostra a atuação do Major Vidigal e seus granadeiros para acabar ou proibir festas e prender os seus participantes. Enredo romântico, música ao fundo, não se limita, no entanto, a simplesmente registrar as abordagens literárias das manifestações lúdico-musicais da época. O autor vai mais longe ao sustentar que, apesar do preconceito em relação às manifestações populares, existia uma interrelação entre os gêneros musicais.
Havia apropriação e certa adequação de gêneros de uma camada social por outra."Muitos músicos transitavam nos dois espaços, tocando a música certa nos lugares adequados, mas sempre aclimatando, adaptando alguma coisa", ilustra Aleilton Fonseca. Ele cita como exemplo a dança do lundu, que por muito tempo foi combatida, mas gerou o que se batizou de lundu-canção para piano, atendendo mais ao gosto da elite. A forte influência do modelo cultural europeu sobre a elite brasileira do século XIX, remontava, segundo o pesquisador, ao período colonial, sendo posteriormente reforçada pela chegada do rei Dom João VI, em 1808.
Com a vinda da corte portuguesa, o ambiente cultural de Lisboa, fortemente inspirado nas tendências ditadas pelos salões parisienses foi fielmente reproduzido no Brasil. "Dom João VI procurou, dentro do possível, reproduzir as condições culturais de Lisboa. Ele construíu um teatro lírico, criou a capela imperial, contratou a famosa Missão Artística para prover a corte brasileira de modelos a serem seguidos e reproduzidos", revela Aleiton Fonseca. Na tentativa de se aproximar da corte, os brasileiros mais abastados aderiram com facilidade à nova ordem cultural, fazendo com que o padrão trazido de Portugal passasse a ser reconhecido como o único correto e oficial, relegando as manifestações locais, de cunho popular, ao isolamento e à marginalidade. A dicotomia entre música culta e música "vulgar", enquanto referencial de classe, riqueza e poder, predominaria por todo o século XIX. Na literatura, a presença das manifestações lúdico-musicais ocorre enquanto elemento de contextualização. Os autores procuraram recriar nos romances o ambiente social da época. Enredo Romântico, música de fundo, além de desvendar o universo musical que marcou o século XIX pelo seu caráter interdisciplinar, oferece um amplo panorama histórico ao correlacionar literatura, cultura e sociedade.
(in A Tarde, Caderno Cultural, 11/01/97)
Leia obra poética de Aleiton Fonseca
1 042
António Ramos Rosa
Estrias de Ignorância Para Enunciar
Estrias de ignorância para enunciar
o canto material.
o canto material.
971
Rossini Corrêa
Soneto da Arte Poética
Como escrever um soneto antológico,
se o sentimento não for meritório?
Tem, o poema, seu universo biológico,
sobre a fronteira deste território
verbal, que arquiteta o vôo mágico
do sonho, com plumas vestindo o azul.
Mas, sem coração e sem cérebro, trágico
será o soneto, estre cruzeiro sem sul.
— Se o poema é escrito com palavra,
a boca há de sentir gosto de sangue
e a mão há de pensar a sua lavra...
Do trapézio do verbo quedará exangue,
todo aquele que, à procura do infinito,
no promontório, canto, viva em grito.
se o sentimento não for meritório?
Tem, o poema, seu universo biológico,
sobre a fronteira deste território
verbal, que arquiteta o vôo mágico
do sonho, com plumas vestindo o azul.
Mas, sem coração e sem cérebro, trágico
será o soneto, estre cruzeiro sem sul.
— Se o poema é escrito com palavra,
a boca há de sentir gosto de sangue
e a mão há de pensar a sua lavra...
Do trapézio do verbo quedará exangue,
todo aquele que, à procura do infinito,
no promontório, canto, viva em grito.
991
Edmir Domingues
Louvado a Tarcísio
Louvo o Padre, louvo o Filho,
o Espírito Santo louvo,
louvo Tarcísio, e a Sete
que em suas praças internas
permitiu o Livro ao Povo.
Tarcísio, pastor de livros,
que os apascenta no amor.
Que o Livro, todos o sabem,
guarda os risos do Prazer,
guarda os suspiros da Dor.
O livro é carta de rumos,
rosa dos ventos, o mapa
de acertos e desaprumos,
dos roteiros misteriosos
dos ontens, dos amanhãs.
Das rotas das caravelas,
das órbitas parabólicas
de prateadas astronaves,
dos bergantins naufragados,
dos galeões com seus tesouros,
todos fortuna do mar,
dos olhos dos batiscafos
nas profundezas do abismo.
O livro é um mundo guardado
na menor das dimensões,
ora em verdade e crueza
ora em sonhos e ilusões,
o livro é um mundo de coisas
difíceis de descrever,
quem tiver curiosidade
compareça à Livro Sete
para ouvir, sentir e ver.
Outros mundos, muitos mundos,
todos o Livro contém,
Livro, resumo da Vida,
com todo o Mal, todo o Bem,
que guarda em si todo o Tudo,
que guarda em si todo o Sem.
Tarcísio, Pastor de Livros,
merece o nosso louvor.
Por isso louvo Tarcísio
e a luz do espírito louvo,
como também louvo a Sete
que em suas praças internas
permitiu o Livro ao Povo.
o Espírito Santo louvo,
louvo Tarcísio, e a Sete
que em suas praças internas
permitiu o Livro ao Povo.
Tarcísio, pastor de livros,
que os apascenta no amor.
Que o Livro, todos o sabem,
guarda os risos do Prazer,
guarda os suspiros da Dor.
O livro é carta de rumos,
rosa dos ventos, o mapa
de acertos e desaprumos,
dos roteiros misteriosos
dos ontens, dos amanhãs.
Das rotas das caravelas,
das órbitas parabólicas
de prateadas astronaves,
dos bergantins naufragados,
dos galeões com seus tesouros,
todos fortuna do mar,
dos olhos dos batiscafos
nas profundezas do abismo.
O livro é um mundo guardado
na menor das dimensões,
ora em verdade e crueza
ora em sonhos e ilusões,
o livro é um mundo de coisas
difíceis de descrever,
quem tiver curiosidade
compareça à Livro Sete
para ouvir, sentir e ver.
Outros mundos, muitos mundos,
todos o Livro contém,
Livro, resumo da Vida,
com todo o Mal, todo o Bem,
que guarda em si todo o Tudo,
que guarda em si todo o Sem.
Tarcísio, Pastor de Livros,
merece o nosso louvor.
Por isso louvo Tarcísio
e a luz do espírito louvo,
como também louvo a Sete
que em suas praças internas
permitiu o Livro ao Povo.
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