Poemas neste tema

Literatura e Palavras

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Ela Desloca o Corpo Ao Alto

Ela desloca o corpo ao alto, esse perfeito
campo
das palavras

As carícias nos ombros, nos seios ressoam
na linguagem
As densas coxas altas ostentam o suor
Lança as suas palmas brancas sobre as pernas

Sim Contra o seu ventre contra os seus dentes
contra o musgo, o centro
opaco e negro, vermelho e negro

A língua trabalha as suas cores, penetra
o sexo duro e aberto
E bebe a terra líquida, boca e mãos,

e alta desce aos pés, o sopro cálido
ascende até ao sexo, crispando as palmas brancas

abrindo
a fenda onde as palavras ferem
a fúria verde da sua língua salva

ela lança ela penetra ela levanta-se
branca no espasmo branca no espaço branco
como ela se levanta e arde branca
branca

coluna de silêncio, palmas, boca, espáduas
esplendor da água compacta e alta
horizontal linguagem
1 065
Henriqueta Lisboa

Henriqueta Lisboa

Do Supérfluo

Também as cousas participam
de nossa vida. Um livro. Uma rosa.
Um trecho musical que nos devolve
a horas inaugurais. O crepúsculo
acaso visto num país
que não sendo da terra
evoca apenas a lembrança
de outra lembrança mais longínqua.
O esboço tão-somente de um gesto
de ferina intenção. A graça
de um retalho de lua
a pervagar num reposteiro
A mesa sobre a qual me debruço
cada dia mais temerosa
de meus próprios dizeres.
Tais cousas de íntimo domínio
talvez sejam supérfluas.
No entanto
que tenho a ver contigo
se não leste o livro que li
não viste a rosa que plantei
nem contemplaste o pôr-do-sol
à hora em que o amor se foi?
Que tens a ver comigo
se dentro em ti não prevalecem
as cousas — todavia supérfluas —
do meu intransferível patrimônio?


Publicado no livro Pousada do Ser (1982).

In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
2 438
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Vinho da Eternidade

relendo um pouco do
Vinho da juventude de Fante
na cama
no meio desta tarde
meu grande gato
BEAKER
adormecido ao meu
lado.

a escrita de certos
homens
é como uma ponte vasta
que nos leva
por cima
das muitas coisas
que arranham e dilaceram.

as puras e mágicas
emoções de Fante
se firmam na frase
simples e
clara.

que esse homem tenha morrido
uma das mortes mais lentas e
mais horríveis
de que já fui testemunha ou
ouvi
falar...

os deuses não têm
favoritos.

larguei o livro
ao meu lado.

livro num lado,
gato no
outro...

John, conhecer você,
mesmo do jeito como
foi foi o acontecimento da minha
vida. não posso dizer
que eu teria morrido por
você, eu não teria conseguido
me sair tão bem.

mas foi bom te ver
de novo
nesta
tarde.
1 348
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Escrever

Escrever para
descer
no fundo da nudez
na invenção de cada frase
que respira o ar

Gérmenes entrelaçados, negra
pureza
da terra e da mulher
da produção de um fogo sobre o chão e a página
corpo flutuante impelido
pelo sangue das palavras e pelo sangue
contínua curva dos flancos
das conjunções
disseminadas
respiração total
no horizonte

Escrever            E as folhas
separavam-se de novo
de novo a terra         um corpo adormecido
despojado
o tecido trémulo sob
a epiderme
o ciclo repercutido do silêncio
uma ponte e outra ponte e outra ponte
a parede permanente o vácuo
e o súbito cavalo
sobre
as constelações silenciosas
602
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Pulsações da Terra

o gérmen na página         o puro
espaço
como o sinal branco
da transgressão feliz
da margem
que o desejo ainda
não atinge

e que poderia
ser
escrever
a lâmpada nas ervas
*
será como desnudar
um corpo no campo

ávido silêncio
voracidade verde

a pulsação da terra
*
não é como um ninho
um ninho verde
o que construo não tem o rosto
de luz e água
mas o sopro da sombra
azul e negro
sob o muro

o que construo vem do desejo
ignorado
e é talvez o arco
do espaço
do silêncio
*
há como que uma densidade
dúctil
um grau variável nas palavras
o sopro de uma praia

e estas linhas
mais livres
mais perto de uma forma de água
de um torso
liso
de um objecto
incontornável
um círculo aberto
impossível possível
*
aqui o braço sem sinal
de sangue
como um pulso sem
vagar
sem saber escrever

e sem a praia
desejando a vaga
a ululante ondulação
caindo no silêncio
da pedra do poema
*
onde a ferida se escreve
lentamente
com os sinais da saliva e do sangue
o murmúrio redondo
a dança
da chama dos músculos

no terraço branco

onde pulsa o desejo
entre o fogo e a sombra
*
eis que o silêncio
assume
a forma do silêncio

eis que a palavra encontra
o seu lugar no muro

oiço o diálogo da terra
com a terra

vejo um frágil arbusto
com o seu nome aceso
no silêncio da terra
1 117
Sebastião Uchoa Leite

Sebastião Uchoa Leite

Biografia de uma Idéia

ao fascínio do poeta pela palavra
só iguala o da víbora pela sua presa
as idéias são/não são o forte dos poetas
idéias-dentes que mordem e se remordem:
os poemas são o remorso dos códigos e/ou
a poesia é o perfeito vazio absoluto
os poemas são ecos de uma cisterna sem fundo ou
erupções sem lava e ejaculações sem esperma
ou canhões que detonam em silêncio:
as palavras são denotações do nada ou
serpentes que mordem a sua própria cauda


Publicado no livro Antilogia (1979).

In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
1 553
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Trapézio Imóvel

Saroyan disse para sua esposa: “eu preciso
apostar para poder
escrever”. ela lhe disse para
ir em frente.

ele perdeu $350.000
quase tudo no hipódromo
mas mesmo assim não conseguiu escrever ou
pagar seus impostos.

ele fugiu do governo e se exilou
em Paris.

mais tarde voltou, se virou
como pôde
endividado até o
pescoço –
direitos autorais
definhando.

mesmo assim não conseguia escrever ou
o que escrevia não
funcionava porque o tremendo
e bravo otimismo
que tanto animou
todo mundo
durante a depressão
simplesmente virou
água com açúcar
durante
os bons tempos.

ele morreu
na condição de lenda minguante
com um vasto bigode
em forma de guidão
igualzinho ao que o pai dele
costumava usar
no velho estilo
armênio de Fresno
num mundo que já não podia
usar
Wiliam.
1 107
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Pedra Plana,…

Pedra plana, quase escrita e indelével, e a pulsação plana aflora o corpo e a frase estala, pedra e toalha, sinal vivo do caminho que não espera, que avança como se o mar aflorasse e o corpo vivo chegasse ao cimo da água, à frase sem memória, fonte de desejo.
1 255
Sebastião Uchoa Leite

Sebastião Uchoa Leite

Não me Venham com Metafísicas

o corpo e a matéria em prosa
aqui e agora
nada de primeiros motores
nada de supremos valores
isso fica para os filhos da pátria
nem francisco de assis nem santa teresinha
amai-vos uns sobre os outros
nada de temores e tremores
nem de noite escura da alma
a prosa é preferível
"sei de um estilo penetrante
como a ponta de um estilete". flaubert
é só isso


Publicado no livro Antilogia (1979).

In: LEITE, Sebastião Uchoa. Obra em dobras, 1960/1988. São Paulo: Duas Cidades, 1988. (Claro enigma
1 328
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

As Palavras Que Suscitam As Pedras…

As palavras que suscitam as pedras sem a solidez das pedras podem ter a solidez das pedras, podem ser vivas, acres, surpresas do ar, ervas vivas, secretas sombras.
1 170
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Como Findar No Intervalo…

Como findar no intervalo quando o incessante é o princípio, quando a palavra desliza no indelével bordo do vazio, obscuro sussurro do silêncio, o branco fogo se ateia no silêncio, branco e quase e já cinzento.
1 151
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Os Primeiros Sinais Diferentes…

Os primeiros sinais diferentes no caminho, as sombras que afloram nas pedras escritas, nomes de nenhuma boca mas que aliciam a boca, a aligeiram até à saliva salva como a água do encontro entre boca e boca, palavra e palavra, pulso e terra.
1 362
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Um Poema Não Urgente

teve um sujeito que me escreveu sobre
sua impressão de que não havia a mesma
“urgência” nos meus poemas
do presente
em comparação com meus poemas
do passado.

ora, se isso é verdade
por que ele me escreveu
a respeito?
por acaso tornei seus dias
mais
incompletos?
é
possível.

bem, também já me senti
desapontado
por escritores
que eu antes considerava
poderosos
ou
ao menos
bons
pra burro
mas
jamais cogitei
escrever para
informá-los de que eu
pressentia sua
decadência.
descobri que a melhor coisa
a fazer
era apenas seguir martelando
no meu próprio trabalho
e deixar que os moribundos
morressem
como sempre
morreram.
1 156
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

1. o Grito Que Não Chama, a Chama Verde

1
O grito que não chama, a chama verde
submersa ou não, é a não-leitura
do corpo calado que o poema lê.

E o silêncio, o silêncio do grito
é sempre outro, além, nos muros, sobre a sebe
nunca a serpente ou serpentina mas
o grito na neve, o grito sob a neve.

Quem pára sobre a nuvem sobre a boca
dá o sinal do grito se aqui o grito
não clama o clamor mas incendeia

a não-leitura — leitura das trevas verdes
em que a boca sobrenada sobre nada
grita o silêncio do grito o grito do silêncio.
1 148
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Notificação à propósito da lua

Aos gringos dos States e das Rússias
através do presente notifico:
podeis passar na Lua os pretendidos
week-ends. Mas a Lua me pertence.
E meu bem de raiz há muito tempo,
desde que eu palmilhava incerto passo
nas campinas da infância já remota.
Na dúvida, podeis ir ver se tenho,
ou não, relacionado anualmente
ao Imposto de Renda o meu domínio.
Não me falta, eu vos digo e vos garanto,
o animus possidendi necessário,
e tenho-a registrada com certeza
nos Registros de Imóveis da Galáxia.

Direis o quanto é inútil possuí-la
para ver se desisto. Ao que pergunto:
não venho cultivando há tanto tempo
essa inutilidade, a poesia?

Direis que a Lua é um frígido deserto.
Mas há calor (humano) sobre a Terra?
Direis que não havendo uma atmosfera
não se presta ao cultivo de alimentos.
E eu pergunto em resposta: por acaso
não se morre de fome em nosso mundo?

Eis que vos dou Deimos e Fobos, Ceres,
Tritão, Nereida e Umbriel, Miranda,
e Ariel, e Oberon, Titã, Titânia,
outros bens que possuo registrados.
Lua não. Pois pretendo fique imune
aos progressos da técnica moderna
lembrando à humanidade, a cada dia,
a fome que há na Terra, o quanto é frio
o coração dos homens que a povoam.
639
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

8. E Boca Ou Acidente de Palavra

8
E boca ou acidente de palavra
aspecto de estrutura
ou ideia de rosa ou de cavalo.

Nome do seio sob
a renda de areia ou
arbusto de ser inanimado
na luz harmoniosa.

Animal ou palavra animal
e árvore ou ideia seio de água
única da sede inicial.
1 070
Luís Guimarães Júnior

Luís Guimarães Júnior

José de Alencar

No teu regaço, oh Pátria angustiosa,
Oh grande Mãe! oh Niobe! consente
Que caia minha lágrima pungente
E suspire minha alma dolorosa;

Tua serena fronte majestosa
Curva-se a terra — lívida e plangente:
Perdeste a nívea corda, a fibra algente
De tua agreste Lira luminosa.

Quem cantará agora esse obscuro
Idílio da floresta, — ingênuo tema
Que ele criou — tão mavioso e puro?

Quem guiará as asas do Poema
Com mais doçura? Oh Bardos do futuro,
Eu vos pergunto em nome de Iracema!


Poema integrante da série Segunda Parte: Os Poetas Mortos.

In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Liv. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
1 348
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

7. Amor da Imagem Ferida Aberta

7
Amor da imagem ferida aberta
pelo lábio perdido e o dente exacto
seja o delírio no nome no límpido quadrado.

Terrível branca imagem trémula
na mão de face dupla e branca
e branca como a folha na margem extrema
oblíqua sem espelho sem exemplo.

Lua de um crepúsculo e transeunte
no transe perfeito do acaso aberto
aqui: quase: quase exígua rara.
1 140
Carlos Nejar

Carlos Nejar

O Homem e as Coisas

As coisas não se submetem
à nossa vestidura;
na máscara que somos
as coisas nos conjuram.

Por que não escutá-las,
tão sáfaras e puras,
como flores ou larvas,
estranhas criaturas?

Por que desprezá-las
no sopro que as transmuda
com os olhos de favas,
fechados na espessura?

Por que não escutá-las
na linguagem mais dura,
comprimidas as asas
na testa que as vincula?

Despimos a armadura
e a viseira diurna;
a linguagem resvala
onde as coisas se apuram.

Recônditas e escravas
na cava da palavra,
são fiandeiras escuras
ou áspides sequiosas.

As coisas não se submetem
à nossa vestidura.


Publicado no livro Ordenações (1971). Poema integrante da série Ordenação Quinta: Formal de Partilha.

In: NEJAR, Carlos. Obra poética I. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980. p.329-330. (Poiesis
1 076
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

6. Aquela Linha Ou Esta ——

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Aquela linha ou esta ——
para a figura aberta para o voo
da figura destruída ou destruída folha.

Ontem era manhã da mão e ave
emboscada na folhagem e agora o que
resta do acto ainda é o acto aqui acto do pássaro.

Vi-o. Não o vi na visão gasta. Aqui
sem número no escuro da mão desgasta
finda destruindo o nome — pássaro.
982
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

5. a Língua É a Renda (De Um Rio) a Abstracção

5
A língua é a renda (de um rio) a abstracção
da mão na pedra da folhagem
a imagem de si mesma e outra.

A língua é lixo e luxo
na mesa ou impaciência fruto podre
incorruptível rosto catre (.) papéis
dejectos.

Pedra do conjunto dos aspectos
sem excitação na pobreza do terreno
igualando a pobreza do terreno
pobre figura abstracção o rosto.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

15. Animado o Poeta Desce

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Animado o poeta desce
a horizontal escada
para o encontro da lâmpada animal.

Desce até à terra humedecida
buscando a pobreza de uma lâmpada
roxa
sobre uma perna soberba ali perdida.

Desce
até que desce na pobreza
da face de folhagem negra
aranha negra sobre aquela perna
do corpo glorioso.
1 109
Edmir Domingues

Edmir Domingues

Mãos e telhados

Dos profundos azuis as mãos renascem
para a dança dos gestos costumeiros
(com pedaços de cinza atrás dos dedos)
para o reino esgotado das palavras
marcadas pela humana insuficiência.
Renascem, cada dia envelhecidas,
para os perfeitos cubos de silêncio
que repousam cobertos de vermelho,
quando, apesar de mãos, se desejassem
telhados feitos verdes liquescências,
do mar prolongamento muito nosso
como se verde e líquido os houvera.

Pouca verdade em nossas mãos repousa
e em tanto verde as nossas mãos tocaram,
que fica um sentimento de ternura
e a muda compreensão que se acalenta
de que somente o falso em que tocamos
vida nos fora em forma de alimento.

Daí, que as mãos em gesto se resumam
nada mais que do gesto se precise,
até que a chuva desça, e o tempo chegue,
enfim, de mergulhá-las se careça,
nos maduros trigais de quando os haja
para a carícia morna das espigas.
Porquanto, às vezes noite, se realiza
compreensão de telhados nunca verdes,
sentido de que são vermelho-vivos
para que não se integrem na paisagem.
698
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

10. Rosto Enraizado Na Palavra

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Rosto enraizado na palavra
neste espaço de nula vocação
mas quase o grito gritando o grito.

Nesta folha neste instante de jardim
sobre este banco ou esta pedra
ó terra no silêncio da folhagem!

Isto que foi, seria no não-não ser
ou aqui
neste jardim do não impuro
ó pobreza da água desta mão!
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