Poemas neste tema
Literatura e Palavras
Antônio Wilson da Silva
Poemando
Fazer poema é gostoso
É um decifrar de sentimentos
É desabafar consigo mesmo
É relembrar belos momentos
Fazer poema é uma dádiva
inspiração que vai e vem
É ver a vida sempre bela
É amar à distância um alguém
Fazer poema é viver
É ter alma e corpo entrelaçados
É estar em paz consigo mesmo
É amar o próximo e ser amado
Fazer poema às vezes também é sofrer
É sentir solidão, é suplício e chorar
É sufocar no peito a saudade de alguém
É suplantar a tristeza e viver para amar.
É um decifrar de sentimentos
É desabafar consigo mesmo
É relembrar belos momentos
Fazer poema é uma dádiva
inspiração que vai e vem
É ver a vida sempre bela
É amar à distância um alguém
Fazer poema é viver
É ter alma e corpo entrelaçados
É estar em paz consigo mesmo
É amar o próximo e ser amado
Fazer poema às vezes também é sofrer
É sentir solidão, é suplício e chorar
É sufocar no peito a saudade de alguém
É suplantar a tristeza e viver para amar.
899
Adélia Prado
Fluência
Eu fiz um livro, mas oh, meu Deus,
não perdi a poesia.
Hoje depois da festa,
quando me levantei para fazer café,
uma densa neblina acinzentava os pastos,
as casas, as pessoas com embrulho de pão.
O fio indesmanchável da vida tecia seu curso.
Persistindo, a necessidade dos relógios,
dos descongestionantes nasais.
Meu livro sobre a mesa contraponteava exato
com os pardais, os urinóis pela metade,
o antigo e intenso desejar de um verso.
O relógio bateu sem assustar os farelos sobre a mesa.
Como antes, graças a Deus.
não perdi a poesia.
Hoje depois da festa,
quando me levantei para fazer café,
uma densa neblina acinzentava os pastos,
as casas, as pessoas com embrulho de pão.
O fio indesmanchável da vida tecia seu curso.
Persistindo, a necessidade dos relógios,
dos descongestionantes nasais.
Meu livro sobre a mesa contraponteava exato
com os pardais, os urinóis pela metade,
o antigo e intenso desejar de um verso.
O relógio bateu sem assustar os farelos sobre a mesa.
Como antes, graças a Deus.
1 444
Adélia Prado
Sesta
O poeta tem um chapéu,
um cinto de couro,
uma camisa de malha.
O poeta é um homem comum.
Mas, quando diz:
a tarde não podia tanger
com “os bandolins e suas doces nádegas”,
eu me prostro invocando:
me explica, ó decifrador, o mistério da vida,
me ama, homem incomum.
No oeste de Minas tem um canavial,
onde as folhas se roçam ásperas,
ásperas as folhas da cana-doce roçam-se.
Como agulhas bicando em vidro liso,
o pio das andorinhas dentro da igreja deserta.
Os trinados e as folhas cortam,
entre as canas é doce, doce e fresco,
entre os bancos da igreja.
Repouso lá e cá,
um poder em círculos me dilata,
eu danço na mão de Deus.
Na hora do encantamento,
o reverso do verso dá sua luz:
“os bandolins e suas doces nádegas”,
um mistério santíssimo e inteligível.
um cinto de couro,
uma camisa de malha.
O poeta é um homem comum.
Mas, quando diz:
a tarde não podia tanger
com “os bandolins e suas doces nádegas”,
eu me prostro invocando:
me explica, ó decifrador, o mistério da vida,
me ama, homem incomum.
No oeste de Minas tem um canavial,
onde as folhas se roçam ásperas,
ásperas as folhas da cana-doce roçam-se.
Como agulhas bicando em vidro liso,
o pio das andorinhas dentro da igreja deserta.
Os trinados e as folhas cortam,
entre as canas é doce, doce e fresco,
entre os bancos da igreja.
Repouso lá e cá,
um poder em círculos me dilata,
eu danço na mão de Deus.
Na hora do encantamento,
o reverso do verso dá sua luz:
“os bandolins e suas doces nádegas”,
um mistério santíssimo e inteligível.
1 227
Zuca Sardan
Mal Comparando
Se poesia fosse táxi
já arrancava
com o leitor pagando
bandeira dois.
In: SARDAN, Zuca. Osso do coração. Il. do autor. Campinas: Ed. da Unicamp, 1993. (Matéria de poesia)
já arrancava
com o leitor pagando
bandeira dois.
In: SARDAN, Zuca. Osso do coração. Il. do autor. Campinas: Ed. da Unicamp, 1993. (Matéria de poesia)
1 436
Marília Garcia
uma mulher que se afoga
coloco a mão sobre o seu joelho
e você me olha de frente
mas depois vira de lado ajeitando o
retrovisor por causa da chuva e eu quero dizer que aquela
frase era de uma canção, a mesma que você tinha usado
em outro lugar, então de novo você me olha
de frente
e sorri interrogando
minha expressão sempre confusa
e eu queria dizer que na viagem fraquejei
que tenho medo de enlouquecer
que tenho medo do que está
por vir mas acabo contando a história
do homem que perguntava
você me ama?
depois de anos casado com a mesma mulher
e ela dizia
não
e ele com aquela música repetindo na cabeça
aquela música sem parar tocando
ao fundo ecoando
e ela
não
e ele perguntava
será que eu sou louco?
perguntava depois que o barco na enseada
ela indo embora, fugindo
eu sou louco?
perguntava depois do acidente, do barco apagando
bajo la lluvia, 24 vezes a mesma carta enviada com o nome dela
e o telefone chamando
na bolsa
hoje ela me viu na rua e veio contar
o que tinha acontecido: vontade de gritar
vai embora daqui
não quero mais ouvir essa voz
e ela falando sem parar e eu
coloco a mão sobre seu joelho e você
me olha na hora e ela dizendo na rua que
não tinha me reconhecido
antes
por que então veio falar comigo?
mas não digo só penso e aquele silêncio
e ela dizendo que foi
por acaso
tudo bem
de agora em diante
e eu pensando não me lembro o que dizer
nessas horas, não suporto, será que um dia?,
e você coloca a mão sobre o meu joelho e eu
olho para você de frente, ainda ouvindo canção
pergunta gritos de
afogamento
será que eu sou louco?
e digo que você é uma das poucas
pessoas que quero que fiquem aqui
e você me responde
nunca sonhei em conhecer alguém
como você
e eu olho de volta e digo
você sabe que ninguém nunca
segurou minha mão assim?
você vira de lado ajeitando
o retrovisor e se projeta pra ultrapassar
o carro da frente.
e você me olha de frente
mas depois vira de lado ajeitando o
retrovisor por causa da chuva e eu quero dizer que aquela
frase era de uma canção, a mesma que você tinha usado
em outro lugar, então de novo você me olha
de frente
e sorri interrogando
minha expressão sempre confusa
e eu queria dizer que na viagem fraquejei
que tenho medo de enlouquecer
que tenho medo do que está
por vir mas acabo contando a história
do homem que perguntava
você me ama?
depois de anos casado com a mesma mulher
e ela dizia
não
e ele com aquela música repetindo na cabeça
aquela música sem parar tocando
ao fundo ecoando
e ela
não
e ele perguntava
será que eu sou louco?
perguntava depois que o barco na enseada
ela indo embora, fugindo
eu sou louco?
perguntava depois do acidente, do barco apagando
bajo la lluvia, 24 vezes a mesma carta enviada com o nome dela
e o telefone chamando
na bolsa
hoje ela me viu na rua e veio contar
o que tinha acontecido: vontade de gritar
vai embora daqui
não quero mais ouvir essa voz
e ela falando sem parar e eu
coloco a mão sobre seu joelho e você
me olha na hora e ela dizendo na rua que
não tinha me reconhecido
antes
por que então veio falar comigo?
mas não digo só penso e aquele silêncio
e ela dizendo que foi
por acaso
tudo bem
de agora em diante
e eu pensando não me lembro o que dizer
nessas horas, não suporto, será que um dia?,
e você coloca a mão sobre o meu joelho e eu
olho para você de frente, ainda ouvindo canção
pergunta gritos de
afogamento
será que eu sou louco?
e digo que você é uma das poucas
pessoas que quero que fiquem aqui
e você me responde
nunca sonhei em conhecer alguém
como você
e eu olho de volta e digo
você sabe que ninguém nunca
segurou minha mão assim?
você vira de lado ajeitando
o retrovisor e se projeta pra ultrapassar
o carro da frente.
702
Herberto Helder
Texto 6
Não se esqueçam de uma energia bruta e de uma certa
maneira delicada de colocá-la no “espaço”
ponham-na a andar a correr a saber
sobre linhas curvas e linhas rectas “fulminantes”
ponham-na sobre patins com o stique e a bola como
"ponto de referência” ou como “pretexto espaço-tempo”
para aplicação da “dança”
experimentem uma ou duas vezes ou três reter determinada
“imagem” e metam-na “para dentro” assim imóvel
e fiquem parados “aí” com a imagem parada talvez brilhando
(• qualquer coisa como uma sagrada suspensão
e abrindo os olhos então o jogo retoma a imagem
que entretanto ficou incrustada no escuro a brilhar sempre
e dela “parece” que o movimento parte de novo
é uma “linguagem” e energia e delicadeza atravessam o ar
espectáculo do “verbo primeiro e último” apanhem a figura “absoluta”
do pé esquerdo o patim refulge a mão direita “prolonga-se”
vamos achar bem que o stique seja a “respiração”
extrema e extensa
a bola põe-se a “caligrafar” todo um sistema de planos
intensos leves
"metáfora” decerto minuto a minuto destruída pela pergunta
"que jogo é este para o entendimento dos olhos?”
a resposta “alegria” tudo esgota
mas só um sentimento de urgência corporal dá ao jogo
uma “necessária dimensão”
“o jogo respira?” perguntam e diz-se “que respira”
“então deixem-no lá viver” como se se tratasse de
“uma criatura”
podemos confundir “isto” com “acertar”?
o jogo apenas acerta consigo mesmo e este acerto é o próprio
“jogo”
nele ressaltam só qualidades de acção força delicadeza
envolvimento em si mesmo
e o prazer de maquinar o universo numa restrita
organização de linhas vividas em “iminência”
de imagem em imagem se transfere o corpo
sempre à beira de “ser” e parando e continuando
e ainda “apagando e recomeçando” como se continuamente
bebesse de si e tivesse o ar pequeno para demonstrar
a grandeza de si a si mesmo
“referido a quê senão ao absurdo de um espelho?”
“a enviar-se” cerradamente entre os seus limites
zona frequentada pela “ausência viva”
destreza porque sim forma porque sim aplicação porque sim
de tudo em tudo
de nada em nada pelo gozo “básico” de “estar a ser”
maneira delicada de colocá-la no “espaço”
ponham-na a andar a correr a saber
sobre linhas curvas e linhas rectas “fulminantes”
ponham-na sobre patins com o stique e a bola como
"ponto de referência” ou como “pretexto espaço-tempo”
para aplicação da “dança”
experimentem uma ou duas vezes ou três reter determinada
“imagem” e metam-na “para dentro” assim imóvel
e fiquem parados “aí” com a imagem parada talvez brilhando
(• qualquer coisa como uma sagrada suspensão
e abrindo os olhos então o jogo retoma a imagem
que entretanto ficou incrustada no escuro a brilhar sempre
e dela “parece” que o movimento parte de novo
é uma “linguagem” e energia e delicadeza atravessam o ar
espectáculo do “verbo primeiro e último” apanhem a figura “absoluta”
do pé esquerdo o patim refulge a mão direita “prolonga-se”
vamos achar bem que o stique seja a “respiração”
extrema e extensa
a bola põe-se a “caligrafar” todo um sistema de planos
intensos leves
"metáfora” decerto minuto a minuto destruída pela pergunta
"que jogo é este para o entendimento dos olhos?”
a resposta “alegria” tudo esgota
mas só um sentimento de urgência corporal dá ao jogo
uma “necessária dimensão”
“o jogo respira?” perguntam e diz-se “que respira”
“então deixem-no lá viver” como se se tratasse de
“uma criatura”
podemos confundir “isto” com “acertar”?
o jogo apenas acerta consigo mesmo e este acerto é o próprio
“jogo”
nele ressaltam só qualidades de acção força delicadeza
envolvimento em si mesmo
e o prazer de maquinar o universo numa restrita
organização de linhas vividas em “iminência”
de imagem em imagem se transfere o corpo
sempre à beira de “ser” e parando e continuando
e ainda “apagando e recomeçando” como se continuamente
bebesse de si e tivesse o ar pequeno para demonstrar
a grandeza de si a si mesmo
“referido a quê senão ao absurdo de um espelho?”
“a enviar-se” cerradamente entre os seus limites
zona frequentada pela “ausência viva”
destreza porque sim forma porque sim aplicação porque sim
de tudo em tudo
de nada em nada pelo gozo “básico” de “estar a ser”
595
Herberto Helder
Texto 2
Não se vai entregar aos vários “motores” a fabricação do estio
o sussurro da noite apresentada pormenores
para um “estilo de silêncio” ou inclinações graves
expectando “instantes iluminatórios” é certo que o cenário
ganharia uma qualidade empolgante
mas desiste-se porque “a mão” vem depressa
indagam: que mão? que direcção? que posição?
indagam que “acção de surpresa e sacralidade” (se há)
o que houver “e vê-se pela pressa” é uma
espécie de vivacidade ou uma turbulência íntima
e ao mesmo tempo cautela poder serena destreza
de “chamar” de dentro do pavor e “unir” por cima
do pavor
agora estamos a fazer força para afastar o excesso
de planos multiplicidades antropofagias para os lados todos
que andam
“procuram um centro?” sim “uma razão de razões”
uma zona suficiente leve fixa uma como que
“interminabilidade”
serve o cabelo serve uma pedra redonda — a submissão
de um animal colocado sobre o seu próprio sangue ingénuo
temas de dias consumidos ou consumados teatros para saídas
altas entradas altas saídas baixas entradas baixas “movimentos”
aí mesmo é que se desmata o sítio excepcional
o acaso da ocasião fértil por si
mão para “escrever” um propósito inerente a natureza compacta
de um “peso movimentado” até se encontrar como
“peso próprio”
esta doçura que é o escândalo dos “mortos usando
cabeças de ouro o terror da riqueza”
mão apenas em dedicatória a lavouras desconhecidas
da “festa”
ela mesma a sua festa inferida de aí estar
sobre o rosto que se imprime de dentro a “rotação”
irresistível enquanto desce enquanto os lábios
fervem da sua “lepra” e trevas e luzes se combinam
numa tensão interna
“escrita e escritura” desenvolvidas pelo silêncio
que as não ameaça mas de si as libera como uma
borboleta ávida uma dona do espaço
visível proprietária da luz e sua extensão
“sinal” daquilo que se abriu por sua energia mesma
e nenhum arrepio de horror sequer um “transe”
fere o flanco oferecido ao mundo
apenas um “nascimento” o ritmo trabalhado noutro e trabalhando
outro ritmo como a malha das artérias
um mapa uma flor quentíssima em fundo de atmosfera
o sussurro da noite apresentada pormenores
para um “estilo de silêncio” ou inclinações graves
expectando “instantes iluminatórios” é certo que o cenário
ganharia uma qualidade empolgante
mas desiste-se porque “a mão” vem depressa
indagam: que mão? que direcção? que posição?
indagam que “acção de surpresa e sacralidade” (se há)
o que houver “e vê-se pela pressa” é uma
espécie de vivacidade ou uma turbulência íntima
e ao mesmo tempo cautela poder serena destreza
de “chamar” de dentro do pavor e “unir” por cima
do pavor
agora estamos a fazer força para afastar o excesso
de planos multiplicidades antropofagias para os lados todos
que andam
“procuram um centro?” sim “uma razão de razões”
uma zona suficiente leve fixa uma como que
“interminabilidade”
serve o cabelo serve uma pedra redonda — a submissão
de um animal colocado sobre o seu próprio sangue ingénuo
temas de dias consumidos ou consumados teatros para saídas
altas entradas altas saídas baixas entradas baixas “movimentos”
aí mesmo é que se desmata o sítio excepcional
o acaso da ocasião fértil por si
mão para “escrever” um propósito inerente a natureza compacta
de um “peso movimentado” até se encontrar como
“peso próprio”
esta doçura que é o escândalo dos “mortos usando
cabeças de ouro o terror da riqueza”
mão apenas em dedicatória a lavouras desconhecidas
da “festa”
ela mesma a sua festa inferida de aí estar
sobre o rosto que se imprime de dentro a “rotação”
irresistível enquanto desce enquanto os lábios
fervem da sua “lepra” e trevas e luzes se combinam
numa tensão interna
“escrita e escritura” desenvolvidas pelo silêncio
que as não ameaça mas de si as libera como uma
borboleta ávida uma dona do espaço
visível proprietária da luz e sua extensão
“sinal” daquilo que se abriu por sua energia mesma
e nenhum arrepio de horror sequer um “transe”
fere o flanco oferecido ao mundo
apenas um “nascimento” o ritmo trabalhado noutro e trabalhando
outro ritmo como a malha das artérias
um mapa uma flor quentíssima em fundo de atmosfera
580
Herberto Helder
Texto 7
Tenho uma pequena coisa africana para dizer aos senhores
“um velho negro num mercado indígena
a entrançar tabaco” o odor húmido e palpitante sobe dos dedos
a subtileza “rítmica” dos dedos chega a ser uma dor
fere na cabeça o pensamento da sua devotação
extrema quase “intáctil” sobre algo
“algo tabaco”
o que começa a tornar-se como uma “loucura comovida”
por cima dessa massa viva de tabaco
“como ele aflora Deus digitalmente debruçado!”
de repente “vê-se” a inocente diligência
o “sim” sem nada mais
o medo como se fosse mel a escorrer do crânio
por tudo ser de novo tão concentrado e leve
a dor em nós de uma tão forte “ignorância activa”
“a fazer-se” uma prova
de elegância na “razão” do tempo
nenhuma dúvida apenas a lisura branda de um “estilo”
transcorrendo
apetece não ter mais do que a interminável “escrita”
prestes a sufocar e dedo a dedo salva
nas suas pautas gravada a direito como uma implacável
“pormenorização oracular”
como se pode tornar tão veemente uma doçura humana
tão pertinaz a graça e terrífica
a digitalidade do “silêncio”
e a candura quase a corromper-se à força de candura
e então o puro toque no tabaco cria
uma “fria ocorrência de pavor” pois tudo é “ambíguo”
nesta “rima obsessiva” a pertinácia ganha “formas” insuportáveis
dedos na nuca ligamentos invisíveis de tendões
centros nervosos irradiando impulsos cruéis
imóveis animalidades fremindo ocultamente debaixo da “luz”
e percebe-se então o “sangue” a ir e vir
sempre “entrançando” o movimento dos dias e das noites
sobre a tranquila “germinação”
e a terra como um monstro “maternal” que parece dormir
planetas a gravitar em redor dos dedos
uma dolorosa absorção do tabaco pelo ritmo
e assim “é isto o estilo?” até que a cabeça
é como “a vista” e a ideia desta coisa se transforma
“nesta coisa”
e quando enfim alguém “realmente” adormece
nada pára e o tabaco continua a ser entrançado
por dedos “negros” em todos os “sentidos”
e nunca mais será possível esquecer
tudo se repercute um toque passa um toque
a matéria passa de matéria em matéria
o ritmo ligeiro como uma alucinação
falanges falanginhas e falangetas no “tabaco terreno”
a pulsar
“linguagem” extenuante pela sua própria “verdade”
“um velho negro num mercado indígena
a entrançar tabaco” o odor húmido e palpitante sobe dos dedos
a subtileza “rítmica” dos dedos chega a ser uma dor
fere na cabeça o pensamento da sua devotação
extrema quase “intáctil” sobre algo
“algo tabaco”
o que começa a tornar-se como uma “loucura comovida”
por cima dessa massa viva de tabaco
“como ele aflora Deus digitalmente debruçado!”
de repente “vê-se” a inocente diligência
o “sim” sem nada mais
o medo como se fosse mel a escorrer do crânio
por tudo ser de novo tão concentrado e leve
a dor em nós de uma tão forte “ignorância activa”
“a fazer-se” uma prova
de elegância na “razão” do tempo
nenhuma dúvida apenas a lisura branda de um “estilo”
transcorrendo
apetece não ter mais do que a interminável “escrita”
prestes a sufocar e dedo a dedo salva
nas suas pautas gravada a direito como uma implacável
“pormenorização oracular”
como se pode tornar tão veemente uma doçura humana
tão pertinaz a graça e terrífica
a digitalidade do “silêncio”
e a candura quase a corromper-se à força de candura
e então o puro toque no tabaco cria
uma “fria ocorrência de pavor” pois tudo é “ambíguo”
nesta “rima obsessiva” a pertinácia ganha “formas” insuportáveis
dedos na nuca ligamentos invisíveis de tendões
centros nervosos irradiando impulsos cruéis
imóveis animalidades fremindo ocultamente debaixo da “luz”
e percebe-se então o “sangue” a ir e vir
sempre “entrançando” o movimento dos dias e das noites
sobre a tranquila “germinação”
e a terra como um monstro “maternal” que parece dormir
planetas a gravitar em redor dos dedos
uma dolorosa absorção do tabaco pelo ritmo
e assim “é isto o estilo?” até que a cabeça
é como “a vista” e a ideia desta coisa se transforma
“nesta coisa”
e quando enfim alguém “realmente” adormece
nada pára e o tabaco continua a ser entrançado
por dedos “negros” em todos os “sentidos”
e nunca mais será possível esquecer
tudo se repercute um toque passa um toque
a matéria passa de matéria em matéria
o ritmo ligeiro como uma alucinação
falanges falanginhas e falangetas no “tabaco terreno”
a pulsar
“linguagem” extenuante pela sua própria “verdade”
1 102
Herberto Helder
Texto 1
Todo o discurso é apenas o símbolo de uma inflexão
da voz
a insinuação de um gesto uma temperatura
ã sua extraordinária desordem preside um pensamento
melhor diria “um esforço” não coordenador (de modo algum)
mas de “moldagem” perguntavam “estão a criar moldes?”
não senhores para isso teria de preexistir um “modelo”
u ma ideia organizada um cânone
queremos sugerir coisas como “imagem de respiração”
“imagem de digestão”
“imagem de dilatação”
"imagem de movimentação”
"com as palavras?” perguntavam eles e devo dizer que era
uma pergunta perigosa um alarme colocando para sempre
algo como o confessado amor das palavras
no centro
não tentamos criar abóboras com a palavra “abóboras”
não é um sentido propiciatório da linguagem
introduzimos furtivamente planos que ocasionais
ocupações (“des-sintonizar” aberto o caminho
para antigas explicações “discursos de discursos de discursos” etc.)
fixemos essa ideia de “planos”
podemos admiti-los como “uma espécie de casas”
ou “uma espécie de campos”
e então evidente para serem habitados percorridos gastos
Será que se pretende ainda identificar “linguagem” e “vida”?
uma vez se designou mão para que a mão fosse
uma vez o discurso sugeriu a mão para que a mão fosse
uma vez o discurso foi a mão
partia-se sempre de um entusiasmo arbitrário
era esse o “espírito” o “destino” da linguagem
agora estamos a veras palavras como possibilidades
de respiração digestão dilatação movimentação
experimentamos a pequena possibilidade de uma inflexão quente
“elas estão andando por si próprias!” exclama alguém
estão a falar a andar umas com as outras
a falar umas com as outras
estão lançadas por aí fora a piscar o olho a ter inteligência
para todos os lados
sugerindo obliquamente que se reportam
a um novo universo ao qual é possível assistir
ver
como se vê o que comporta uma certa inflexão
de voz
é uma espécie de cinema das palavras
ou uma forma de vida assustadoramente juvenil
se calhar vão destruir-nos sob o título
“os autómatos invadem” mas invadem o quê?
da voz
a insinuação de um gesto uma temperatura
ã sua extraordinária desordem preside um pensamento
melhor diria “um esforço” não coordenador (de modo algum)
mas de “moldagem” perguntavam “estão a criar moldes?”
não senhores para isso teria de preexistir um “modelo”
u ma ideia organizada um cânone
queremos sugerir coisas como “imagem de respiração”
“imagem de digestão”
“imagem de dilatação”
"imagem de movimentação”
"com as palavras?” perguntavam eles e devo dizer que era
uma pergunta perigosa um alarme colocando para sempre
algo como o confessado amor das palavras
no centro
não tentamos criar abóboras com a palavra “abóboras”
não é um sentido propiciatório da linguagem
introduzimos furtivamente planos que ocasionais
ocupações (“des-sintonizar” aberto o caminho
para antigas explicações “discursos de discursos de discursos” etc.)
fixemos essa ideia de “planos”
podemos admiti-los como “uma espécie de casas”
ou “uma espécie de campos”
e então evidente para serem habitados percorridos gastos
Será que se pretende ainda identificar “linguagem” e “vida”?
uma vez se designou mão para que a mão fosse
uma vez o discurso sugeriu a mão para que a mão fosse
uma vez o discurso foi a mão
partia-se sempre de um entusiasmo arbitrário
era esse o “espírito” o “destino” da linguagem
agora estamos a veras palavras como possibilidades
de respiração digestão dilatação movimentação
experimentamos a pequena possibilidade de uma inflexão quente
“elas estão andando por si próprias!” exclama alguém
estão a falar a andar umas com as outras
a falar umas com as outras
estão lançadas por aí fora a piscar o olho a ter inteligência
para todos os lados
sugerindo obliquamente que se reportam
a um novo universo ao qual é possível assistir
ver
como se vê o que comporta uma certa inflexão
de voz
é uma espécie de cinema das palavras
ou uma forma de vida assustadoramente juvenil
se calhar vão destruir-nos sob o título
“os autómatos invadem” mas invadem o quê?
1 070
Jorge Luis Borges
A un poeta Sajón
Tú cuya carne, hoy dispersión y polvo,
pesó como la nuestra sobre la tierra,
tú cuyos ojos vieron el sol, esa famosa estrella,
tú que viviste no en el rígido ayer
sino en el incesante presente,
en el último punto y ápice vertiginoso del tiempo,
tú que en tu monasterio fuiste llamado
por la antigua voz de la épica,
tú que tejiste las palabras,
tú que cantaste la victoria de Brunanburh
y no la atribuiste al Señor
sino a la espada de tu rey,
tú que con júbilo feroz cantaste,
la humillación del viking,
el festín del cuervo y del águila,
tú que en la oda militar congregaste
las rituales metáforas de la estirpe,
tú que un tiempo sin historia
viste en el ahora el ayer
y en el sudor y sangre de Brunanburh
un cristal de antiguas auroras,
tú que tanto querías a tu Inglaterra
y no la nombraste,
hoy no eres otra cosa que unas palabras
que los germanistas anotan.
Hoy no eres otra cosa que mi voz
cuando revive tus palabras de hierro.
Pido a mis dioses o a la suma del tiempo
que mis días merezcan el olvido,
que mi nombre sea Nadie como el de Ulises,
pero que algún verso perdure
en la noche propicia a la memoria
o en las mañanas de los hombres.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 258 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
pesó como la nuestra sobre la tierra,
tú cuyos ojos vieron el sol, esa famosa estrella,
tú que viviste no en el rígido ayer
sino en el incesante presente,
en el último punto y ápice vertiginoso del tiempo,
tú que en tu monasterio fuiste llamado
por la antigua voz de la épica,
tú que tejiste las palabras,
tú que cantaste la victoria de Brunanburh
y no la atribuiste al Señor
sino a la espada de tu rey,
tú que con júbilo feroz cantaste,
la humillación del viking,
el festín del cuervo y del águila,
tú que en la oda militar congregaste
las rituales metáforas de la estirpe,
tú que un tiempo sin historia
viste en el ahora el ayer
y en el sudor y sangre de Brunanburh
un cristal de antiguas auroras,
tú que tanto querías a tu Inglaterra
y no la nombraste,
hoy no eres otra cosa que unas palabras
que los germanistas anotan.
Hoy no eres otra cosa que mi voz
cuando revive tus palabras de hierro.
Pido a mis dioses o a la suma del tiempo
que mis días merezcan el olvido,
que mi nombre sea Nadie como el de Ulises,
pero que algún verso perdure
en la noche propicia a la memoria
o en las mañanas de los hombres.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 258 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 152
Jorge Luis Borges
Al idioma alemán
Mi destino es la lengua castellana,
El bronce de Francisco de Quevedo,
Pero en la lenta noche caminada,
Me exaltan otras músicas más íntimas.
Alguna me fue dada por la sangre-
Oh voz de Shakespeare y de la Escritura-,
Otras por el azar, que es dadivoso,
Pero a ti, dulce lengua de Alemania,
Te he elegido y buscado, solitario.
A través de vigilias y gramáticas,
De la jungla de las declinaciones,
Del diccionario, que no acierta nunca
Con el matiz preciso, fui acercándome.
Mis noches están llenas de Virgilio,
Dije una vez; también pude haber dicho
de Hölderlin y de Angelus Silesius.
Heine me dio sus altos ruiseñores;
Goethe, la suerte de un amor tardío,
A la vez indulgente y mercenario;
Keller, la rosa que una mano deja
En la mano de un muerto que la amaba
Y que nunca sabrá si es blanca o roja.
Tú, lengua de Alemania, eres tu obra
Capital: el amor entrelazado
de las voces compuestas, las vocales
Abiertas, los sonidos que permiten
El estudioso hexámetro del griego
Y tu rumor de selvas y de noches.
Te tuve alguna vez. Hoy, en la linde
De los años cansados, te diviso
Lejana como el álgebra y la luna.
"El oro de los tigres", 1972.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 361 e 362 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
El bronce de Francisco de Quevedo,
Pero en la lenta noche caminada,
Me exaltan otras músicas más íntimas.
Alguna me fue dada por la sangre-
Oh voz de Shakespeare y de la Escritura-,
Otras por el azar, que es dadivoso,
Pero a ti, dulce lengua de Alemania,
Te he elegido y buscado, solitario.
A través de vigilias y gramáticas,
De la jungla de las declinaciones,
Del diccionario, que no acierta nunca
Con el matiz preciso, fui acercándome.
Mis noches están llenas de Virgilio,
Dije una vez; también pude haber dicho
de Hölderlin y de Angelus Silesius.
Heine me dio sus altos ruiseñores;
Goethe, la suerte de un amor tardío,
A la vez indulgente y mercenario;
Keller, la rosa que una mano deja
En la mano de un muerto que la amaba
Y que nunca sabrá si es blanca o roja.
Tú, lengua de Alemania, eres tu obra
Capital: el amor entrelazado
de las voces compuestas, las vocales
Abiertas, los sonidos que permiten
El estudioso hexámetro del griego
Y tu rumor de selvas y de noches.
Te tuve alguna vez. Hoy, en la linde
De los años cansados, te diviso
Lejana como el álgebra y la luna.
"El oro de los tigres", 1972.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 361 e 362 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 972
Rubens Rodrigues Torres Filho
Senha
— Abra, bradava!
Pode a palavra?
Abra cada. Abra
esses estojos
invioláveis
(não dirão nada).
Branco segredo
tão pronunciado
na concha brava.
Vulcão extinto?
Lívida lava
que deslumbrava?
Palavra dada?
Peço a palavra?
Maga palhaça
que se disfarça
de deslembrada.
Abra! Bradava.
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. A letra descalça: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985
Pode a palavra?
Abra cada. Abra
esses estojos
invioláveis
(não dirão nada).
Branco segredo
tão pronunciado
na concha brava.
Vulcão extinto?
Lívida lava
que deslumbrava?
Palavra dada?
Peço a palavra?
Maga palhaça
que se disfarça
de deslembrada.
Abra! Bradava.
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. A letra descalça: poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985
1 384
Jorge Luis Borges
Al triste
Ahí está lo que fue: la terca espada
del sajón y su métrica de hierro,
los mares y las islas del destierro
del hijo de Laertes, la dorada
luna del persa y los sin fin jardines
de la filosofía y de la historia,
el oro sepulcral de la memoria
y en la sombra el olor de los jazmines.
Y nada de eso importa. El resignado
ejercicio del verso no te salva
ni las aguas del sueño ni la estrella
que en la arrasada noche olvida el alba.
Una sola mujer es tu cuidado,
igual a las demás, pero que es ella.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 363 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
del sajón y su métrica de hierro,
los mares y las islas del destierro
del hijo de Laertes, la dorada
luna del persa y los sin fin jardines
de la filosofía y de la historia,
el oro sepulcral de la memoria
y en la sombra el olor de los jazmines.
Y nada de eso importa. El resignado
ejercicio del verso no te salva
ni las aguas del sueño ni la estrella
que en la arrasada noche olvida el alba.
Una sola mujer es tu cuidado,
igual a las demás, pero que es ella.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 363 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 448
Régis Bonvicino
RB Resolve Ser Poeta
Nas páginas de "La Rosa Profunda"
descubro que escolhi
a mais curiosa das profissões humanas,
salvo que todas, a seu modo, o são.
Como os alquimistas
que buscaram a pedra filosofal
no azougue fugitivo,
farei com que as palavras comuns
— naipes marcados do tahur, moeda da plebe —
rendam a magia que foi sua
quando Thor era o nume e o estrépito,
o trovão e a prece.
No dialeto de hoje,
direi, de minha forma, as coisas eternas;
tratarei de não ser indigno
do grande eco de Camões.
Este pó(eta) que sou será invulnerável.
Se uma mulher compartilhar de meu amor,
meu verso roçará a décima esfera dos céus concêntricos;
se uma mulher desdenhar meu amor,
farei de minha tristeza uma música,
um alto rio que siga ressoando no tempo.
Viverei de esquecer-me.
Serei a cara que entrevejo e esqueço,
Judas que aceita
a divina missão de ser traidor,
Calibán no lamaçal,
um soldado mercenário que morre
sem temor e sem fé,
Polícrates que vê com espanto
o anel devolvido pelo destino,
serei o amigo que me odeia.
O Rubáiyát me dará o rouxinol
e os Texperts as palavras-espadas.
Máscaras, agonias, ressurreições,
desmancharam e mancharam minha sorte:
e, alguma vez, talvez agora,
eu seja Jorge Luis Borges.
In: BONVICINO, Régis. Más companhias: poesia, 1983/1986. São Paulo: Olavobrás, 1987.
NOTA DE RÉGIS BONVICINO: Tradução-encarnação do poema "Browning Resuelve Ser Poeta", de Jorge Luis Borges, do livro LA ROSA PROFUND
descubro que escolhi
a mais curiosa das profissões humanas,
salvo que todas, a seu modo, o são.
Como os alquimistas
que buscaram a pedra filosofal
no azougue fugitivo,
farei com que as palavras comuns
— naipes marcados do tahur, moeda da plebe —
rendam a magia que foi sua
quando Thor era o nume e o estrépito,
o trovão e a prece.
No dialeto de hoje,
direi, de minha forma, as coisas eternas;
tratarei de não ser indigno
do grande eco de Camões.
Este pó(eta) que sou será invulnerável.
Se uma mulher compartilhar de meu amor,
meu verso roçará a décima esfera dos céus concêntricos;
se uma mulher desdenhar meu amor,
farei de minha tristeza uma música,
um alto rio que siga ressoando no tempo.
Viverei de esquecer-me.
Serei a cara que entrevejo e esqueço,
Judas que aceita
a divina missão de ser traidor,
Calibán no lamaçal,
um soldado mercenário que morre
sem temor e sem fé,
Polícrates que vê com espanto
o anel devolvido pelo destino,
serei o amigo que me odeia.
O Rubáiyát me dará o rouxinol
e os Texperts as palavras-espadas.
Máscaras, agonias, ressurreições,
desmancharam e mancharam minha sorte:
e, alguma vez, talvez agora,
eu seja Jorge Luis Borges.
In: BONVICINO, Régis. Más companhias: poesia, 1983/1986. São Paulo: Olavobrás, 1987.
NOTA DE RÉGIS BONVICINO: Tradução-encarnação do poema "Browning Resuelve Ser Poeta", de Jorge Luis Borges, do livro LA ROSA PROFUND
1 521
Jorge Luis Borges
El advenimiento
Soy el que fui en el alba, entre la tribu.
Tendido en mi rincón de la caverna,
pujaba por hundirme en las oscuras
aguas del sueño. Espectros de animales
heridos por la esquirla de la flecha
daban horror a las tinieblas. Algo,
quizá la ejecución de una promesa,
la muerte de un rival en la montaña,
quizá el amor, quizá una piedra mágica,
me había sido otorgado. Lo he perdido.
Gastada por los siglos, la memoria
sólo guarda esa noche y su mañana.
Yo anhelaba y temía. Bruscamente
oí el sordo tropel interminable
de una manada atravesando el alba.
Arco de roble, flechas que se clavan,
los dejé y fui corriendo hasta la grieta
que se abre en el confín de la caverna.
Fue entonces que los vi. Brasa rojiza,
crueles los cuernos, montañoso el lomo
y lóbrega la crin como los ojos
que acechaban malvados. Eran miles.
Son los bisontes, dije. La palabra
no había pasado nunca por mis labios,
pero sentí que tal era su nombre.
Era como si nunca hubiera visto,
como si hubiera estado ciego y muerto
antes de los bisontes de la aurora.
Surgían de la aurora. Eran la aurora.
No quise que los otros profanaran
aquel pesado río de bruteza
divina, de ignorancia, de soberbia,
indiferente como las estrellas.
Pisotearon un perro del camino;
lo mismo hubieran hecho con un hombre.
Después los trazaría en la caverna
con ocre y bermellón. Fueron los Dioses
del sacrificio y de las preces. Nunca
dijo mi boca el nombre de Altamira.
Fueron muchas mis formas y mis muertes.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 366 e 367 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
Tendido en mi rincón de la caverna,
pujaba por hundirme en las oscuras
aguas del sueño. Espectros de animales
heridos por la esquirla de la flecha
daban horror a las tinieblas. Algo,
quizá la ejecución de una promesa,
la muerte de un rival en la montaña,
quizá el amor, quizá una piedra mágica,
me había sido otorgado. Lo he perdido.
Gastada por los siglos, la memoria
sólo guarda esa noche y su mañana.
Yo anhelaba y temía. Bruscamente
oí el sordo tropel interminable
de una manada atravesando el alba.
Arco de roble, flechas que se clavan,
los dejé y fui corriendo hasta la grieta
que se abre en el confín de la caverna.
Fue entonces que los vi. Brasa rojiza,
crueles los cuernos, montañoso el lomo
y lóbrega la crin como los ojos
que acechaban malvados. Eran miles.
Son los bisontes, dije. La palabra
no había pasado nunca por mis labios,
pero sentí que tal era su nombre.
Era como si nunca hubiera visto,
como si hubiera estado ciego y muerto
antes de los bisontes de la aurora.
Surgían de la aurora. Eran la aurora.
No quise que los otros profanaran
aquel pesado río de bruteza
divina, de ignorancia, de soberbia,
indiferente como las estrellas.
Pisotearon un perro del camino;
lo mismo hubieran hecho con un hombre.
Después los trazaría en la caverna
con ocre y bermellón. Fueron los Dioses
del sacrificio y de las preces. Nunca
dijo mi boca el nombre de Altamira.
Fueron muchas mis formas y mis muertes.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", págs. 366 e 367 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 183
Renato Rezende
Mito
Para viver o homem é preciso
Refazer a Beleza e o Amor.
A Beleza é mito; e o Amor, mito.
Reescrever a palavra, o mito.
O homem se debate dentro do mito:
Por você, poesia, eu sinto
O ódio maior, mais bonito.
Refazer a Beleza e o Amor.
A Beleza é mito; e o Amor, mito.
Reescrever a palavra, o mito.
O homem se debate dentro do mito:
Por você, poesia, eu sinto
O ódio maior, mais bonito.
1 033
Marília Garcia
ORDEM ALFABÉTICA
já falei em algum canto
sobre este poema
[“a garota de belfast ordena a teus pés
alfabeticamente”]
então começo de novo
queria contar como foi o começo
beginning again
contar como comecei a escrever
este poema
peguei o livro a teus pés
e reordenei os versos
em ordem alfabética
depois peguei uma personagem do joseph brodsky
que estava em belfast
dangerous town ele diz
ela tinha os cabelos curtinhos
para que menos partes suas sofressem
quando alguém a machucasse
a garota de belfast fez o poema
recortando os versos de ana c. que começavam
com a letra a
hoje é dia 18 de dezembro de 2013
e estamos imersos em listas e mais listas
que seguem enumerando os acontecimentos do ano
os maiores feitos e os melhores
isso foi o que eu disse para ela
mais cedo quando o telefone tocou
e estávamos as duas soterradas em tantas
listas
o som ao redor é um grande filme
ela disse e eu concordei
mas não queria saber de listas
eu disse e pensei que hoje
é dia 18 de dezembro de 2013
e estou mais para outro tipo de enumeração
em ordem alfabética
escolha um livro de que você goste
e ordene alfabeticamente
a garota de belfast ordena a teus pés alfabeticamente
98 voltas pelo parque antes de cair em
círculos sobre o próprio peso
98 vezes dizia o mesmo:
você pode ou não pensar em algo
definitivo. parecia a garota de belfast com
sua memória dobrada como um paraquedas
dentro do tecido eletrizado.
enquanto falava descia a
escada lateral recortando os ruídos
da orquestra. a roda da bicicleta
girando em loop esfarelando os
reflexos no ar e seis horas parada diante
do ralo, pode ou não pensar em algo, sentada na beira do
quarto. olha de longe quando o carro
passa, desce à noite pelos trilhos
quando tudo é uma vingança
fala de pontes atravessando os túneis
da cidade e ordena a teus pés
alfabeticamente
a anoitecer sobre a cidade
a câmera em rasante
a correspondência
a curriola consolava
a dor
a espera
a intimidade era teatro
...
a tomar chá, quase na borda
a voz em off nas montanhas
abre a boca, deusa
abria a cortina
acho que é mentira
pode ou não pensar que era sua voz em mountain hill
a uma velocidade de 1 km/h ou mil. antes
de voltar para a irlanda já começara a perder. entende
que só depois de o blindex esfarinhado contra a
cabeça, só em poucos segundos até que a cabeça
contra o blindex, mas era apenas parte
do trajeto, não tinha como calcular as noites ou linhas
em que passaria.
“como extrair o áudio de uma imagem
congelada” era a etiqueta que colava nas paredes
para tentar descobrir como chegar com precisão
e ao fundo a voz pela fresta
a ordenar este livro:
agora nessa contramão
agora chega
agora é a sua vez
agora estamos em movimento
agora pouco sentimental
agora sou profissional
água
água na boca
agulhadas
ou vertigem das alturas. você pode acordar trinta anos
depois com a imagem ainda mais viva
quando o quarto está às cegas
as cartas
as cartas, quando chegavam
as lupas desistem
as mulheres e as crianças
asas batendo
atravessa a ponte
atravessando a grande ponte
atravessa vários túneis da cidade
autobiografia. não, biografia
aviso que vou virando um avião
azul deixo as chaves soltas no balcão
azul que não me espanta
sobre este poema
[“a garota de belfast ordena a teus pés
alfabeticamente”]
então começo de novo
queria contar como foi o começo
beginning again
contar como comecei a escrever
este poema
peguei o livro a teus pés
e reordenei os versos
em ordem alfabética
depois peguei uma personagem do joseph brodsky
que estava em belfast
dangerous town ele diz
ela tinha os cabelos curtinhos
para que menos partes suas sofressem
quando alguém a machucasse
a garota de belfast fez o poema
recortando os versos de ana c. que começavam
com a letra a
hoje é dia 18 de dezembro de 2013
e estamos imersos em listas e mais listas
que seguem enumerando os acontecimentos do ano
os maiores feitos e os melhores
isso foi o que eu disse para ela
mais cedo quando o telefone tocou
e estávamos as duas soterradas em tantas
listas
o som ao redor é um grande filme
ela disse e eu concordei
mas não queria saber de listas
eu disse e pensei que hoje
é dia 18 de dezembro de 2013
e estou mais para outro tipo de enumeração
em ordem alfabética
escolha um livro de que você goste
e ordene alfabeticamente
a garota de belfast ordena a teus pés alfabeticamente
98 voltas pelo parque antes de cair em
círculos sobre o próprio peso
98 vezes dizia o mesmo:
você pode ou não pensar em algo
definitivo. parecia a garota de belfast com
sua memória dobrada como um paraquedas
dentro do tecido eletrizado.
enquanto falava descia a
escada lateral recortando os ruídos
da orquestra. a roda da bicicleta
girando em loop esfarelando os
reflexos no ar e seis horas parada diante
do ralo, pode ou não pensar em algo, sentada na beira do
quarto. olha de longe quando o carro
passa, desce à noite pelos trilhos
quando tudo é uma vingança
fala de pontes atravessando os túneis
da cidade e ordena a teus pés
alfabeticamente
a anoitecer sobre a cidade
a câmera em rasante
a correspondência
a curriola consolava
a dor
a espera
a intimidade era teatro
...
a tomar chá, quase na borda
a voz em off nas montanhas
abre a boca, deusa
abria a cortina
acho que é mentira
pode ou não pensar que era sua voz em mountain hill
a uma velocidade de 1 km/h ou mil. antes
de voltar para a irlanda já começara a perder. entende
que só depois de o blindex esfarinhado contra a
cabeça, só em poucos segundos até que a cabeça
contra o blindex, mas era apenas parte
do trajeto, não tinha como calcular as noites ou linhas
em que passaria.
“como extrair o áudio de uma imagem
congelada” era a etiqueta que colava nas paredes
para tentar descobrir como chegar com precisão
e ao fundo a voz pela fresta
a ordenar este livro:
agora nessa contramão
agora chega
agora é a sua vez
agora estamos em movimento
agora pouco sentimental
agora sou profissional
água
água na boca
agulhadas
ou vertigem das alturas. você pode acordar trinta anos
depois com a imagem ainda mais viva
quando o quarto está às cegas
as cartas
as cartas, quando chegavam
as lupas desistem
as mulheres e as crianças
asas batendo
atravessa a ponte
atravessando a grande ponte
atravessa vários túneis da cidade
autobiografia. não, biografia
aviso que vou virando um avião
azul deixo as chaves soltas no balcão
azul que não me espanta
916
Tomás Antônio Gonzaga
Carta 1a
Em que se descreve a entrada, que fez
Fanfarrão em Chile.
(...)
Acorda, Doroteu, acorda, acorda;
Critilo, o teu Critilo é quem te chama:
Levanta o corpo das macias penas;
Ouvirás, Doroteu, sucessos novos,
Estranhos casos, que jamais pintaram
Na idéia do doente, ou de quem dorme
Agudas febres, desvairados sonhos.
Não és tu, Doroteu, aquele mesmo,
Que pedes, que te diga, se é verdade,
O que se conta dos barbados monos,
Que à mesa trazem os fumantes pratos?
Não desejas saber, se há grandes peixes,
Que abraçando os Navios com as longas,
Robustas barbatanas, os suspendem,
Inda que o vento, que d'alheta sopra,
Lhes inche os soltos, desrizados panos?
Não queres, que te informe dos costumes
Dos incultos Gentios? Não perguntas,
Se entre eles há Nações, que os beiços furam?
E outras, que matam com piedade falsa
Os pais, que afroxam ao poder dos anos?
Pois se queres ouvir notícias velhas,
Dispersas por imensos alfarrábios,
Escuta a história de um moderno Chefe,
Que acaba de reger a nossa Chile,
Ilustre imitador a Sancho Pança.
E quem dissera, Amigo, que podia
Gerar segundo Sancho a nossa Espanha!
Não penses, Doroteu, que vou contar-te
Por verdadeira história uma novela
Da classe das patranhas, que nos contam
Verbosos Navegantes, que já deram
Ao globo deste mundo volta inteira:
Uma velha madrasta me persiga,
Uma mulher zelosa me atormente,
E tenha um bando de gatunos filhos,
Que um chavo não me deixem, se este Chefe
Não fez ainda mais, do que eu refiro.
(...)
Tem pesado semblante, a cor é baça,
O corpo de estatura um tanto esbelta,
Feições compridas, e olhadura feia,
Tem grossas sobrancelhas, testa curta,
Nariz direito, e grande; fala pouco
Em rouco baixo som de mau falsete;
Sem ser velho, já tem cabelo ruço;
E cobre este defeito, e fria calva
À força de polvilho, que lhe deita.
Ainda me parece, que o estou vendo
No gordo rocinante escarranchado!
As longas calças pelo embigo atadas,
Amarelo colete, e sobre tudo
Vestida uma vermelha, e justa farda:
(...)
Imagem - 00170001
Publicado no livro Cartas Chilenas (1845).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Cartas chilenas. Introd. cronol. notas e estabelecimento de texto Joaci Pereira Furtado. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p.50-53. (Retratos do Brasil, 1
Fanfarrão em Chile.
(...)
Acorda, Doroteu, acorda, acorda;
Critilo, o teu Critilo é quem te chama:
Levanta o corpo das macias penas;
Ouvirás, Doroteu, sucessos novos,
Estranhos casos, que jamais pintaram
Na idéia do doente, ou de quem dorme
Agudas febres, desvairados sonhos.
Não és tu, Doroteu, aquele mesmo,
Que pedes, que te diga, se é verdade,
O que se conta dos barbados monos,
Que à mesa trazem os fumantes pratos?
Não desejas saber, se há grandes peixes,
Que abraçando os Navios com as longas,
Robustas barbatanas, os suspendem,
Inda que o vento, que d'alheta sopra,
Lhes inche os soltos, desrizados panos?
Não queres, que te informe dos costumes
Dos incultos Gentios? Não perguntas,
Se entre eles há Nações, que os beiços furam?
E outras, que matam com piedade falsa
Os pais, que afroxam ao poder dos anos?
Pois se queres ouvir notícias velhas,
Dispersas por imensos alfarrábios,
Escuta a história de um moderno Chefe,
Que acaba de reger a nossa Chile,
Ilustre imitador a Sancho Pança.
E quem dissera, Amigo, que podia
Gerar segundo Sancho a nossa Espanha!
Não penses, Doroteu, que vou contar-te
Por verdadeira história uma novela
Da classe das patranhas, que nos contam
Verbosos Navegantes, que já deram
Ao globo deste mundo volta inteira:
Uma velha madrasta me persiga,
Uma mulher zelosa me atormente,
E tenha um bando de gatunos filhos,
Que um chavo não me deixem, se este Chefe
Não fez ainda mais, do que eu refiro.
(...)
Tem pesado semblante, a cor é baça,
O corpo de estatura um tanto esbelta,
Feições compridas, e olhadura feia,
Tem grossas sobrancelhas, testa curta,
Nariz direito, e grande; fala pouco
Em rouco baixo som de mau falsete;
Sem ser velho, já tem cabelo ruço;
E cobre este defeito, e fria calva
À força de polvilho, que lhe deita.
Ainda me parece, que o estou vendo
No gordo rocinante escarranchado!
As longas calças pelo embigo atadas,
Amarelo colete, e sobre tudo
Vestida uma vermelha, e justa farda:
(...)
Imagem - 00170001
Publicado no livro Cartas Chilenas (1845).
In: GONZAGA, Tomás Antônio. Cartas chilenas. Introd. cronol. notas e estabelecimento de texto Joaci Pereira Furtado. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p.50-53. (Retratos do Brasil, 1
2 735
Herberto Helder
Texto 9
Porque também “isso” acontece dizer-se que se lavra
a cantaria ou o ar ou mesmo
“espaços de luminosidade” a negra dança lavra-se
sobre
a ficção unitária do mundo é um modo demorado
de ver “uma porta que se abre” afinal subitamente
de uma certa ordem para uma ordem certa
pela “revelação” fulgura aqui a sabedoria do “tacto”
dedos a ler por linhas quentes
e pensa-se que se há-de encontrar “um nó”
o fulcro dessa palpitação a correria dos “sinais”
para uma “pauta” através de “temperaturas”
surgem ideias como “atmosferas” ou “climas”
regista-se entretanto que é uma “transformação do ritmo”
“rosto”
alguma coisa que procura equilibrar-se acima das águas
que requer “a sua zona” além das neblinas e vapores
uma “escrita” com a glória própria cometida contra
ameaças climáticas distorções de leitura ligas suspeitas
de matéria “levezas e pesos” precipitados irreferenciáveis volúveis
quem é? que é? que limite estabelece ao concreto?
que desencadeamento solicita ao meio das forças?
o rosto dirigido não já para o seu próprio “reflexo
irradiante” mas a “absorção” do poder difundido
para um novo impulso centrífugo
“diálogo daqui para lá” cerrada conversa
entre forma e formas troca sem fendas comunicação
ininterrupta
o eco da pancada é a outra pancada e uma pancada única
sustém a tensão do som uma “permanência”
dos sentidos voltados “entre si” para o que são
em si mesmos “sentidos de algo irrefutável”
a forma enfim criada pelo “gosto de ser” e para
o “gosto de que seja”
que a vergastem luzes e serão as “suas” luzes
gravita dentro e fora do que é o seu
“movimento interior” e “exterior movimento” ao longo
da “resposta” quando tudo pergunta “onde?”
decerto se tece o que sobre ela fervilha
de “temporal”
fios partidos ondas quebradas a chama que se desliga
da obra quando a mão se levanta da prata
mas ficará “gravação” do tumulto na geometria ou severo
“número” em tudo o que atravessa a desordem
das coisas geralmente “todas elas”
a cantaria ou o ar ou mesmo
“espaços de luminosidade” a negra dança lavra-se
sobre
a ficção unitária do mundo é um modo demorado
de ver “uma porta que se abre” afinal subitamente
de uma certa ordem para uma ordem certa
pela “revelação” fulgura aqui a sabedoria do “tacto”
dedos a ler por linhas quentes
e pensa-se que se há-de encontrar “um nó”
o fulcro dessa palpitação a correria dos “sinais”
para uma “pauta” através de “temperaturas”
surgem ideias como “atmosferas” ou “climas”
regista-se entretanto que é uma “transformação do ritmo”
“rosto”
alguma coisa que procura equilibrar-se acima das águas
que requer “a sua zona” além das neblinas e vapores
uma “escrita” com a glória própria cometida contra
ameaças climáticas distorções de leitura ligas suspeitas
de matéria “levezas e pesos” precipitados irreferenciáveis volúveis
quem é? que é? que limite estabelece ao concreto?
que desencadeamento solicita ao meio das forças?
o rosto dirigido não já para o seu próprio “reflexo
irradiante” mas a “absorção” do poder difundido
para um novo impulso centrífugo
“diálogo daqui para lá” cerrada conversa
entre forma e formas troca sem fendas comunicação
ininterrupta
o eco da pancada é a outra pancada e uma pancada única
sustém a tensão do som uma “permanência”
dos sentidos voltados “entre si” para o que são
em si mesmos “sentidos de algo irrefutável”
a forma enfim criada pelo “gosto de ser” e para
o “gosto de que seja”
que a vergastem luzes e serão as “suas” luzes
gravita dentro e fora do que é o seu
“movimento interior” e “exterior movimento” ao longo
da “resposta” quando tudo pergunta “onde?”
decerto se tece o que sobre ela fervilha
de “temporal”
fios partidos ondas quebradas a chama que se desliga
da obra quando a mão se levanta da prata
mas ficará “gravação” do tumulto na geometria ou severo
“número” em tudo o que atravessa a desordem
das coisas geralmente “todas elas”
555
Renato Rezende
Concepção
(Como em "Las ruinas circulares"
o sonhador sonha e é sonhado),
O homem criou Deus, da criatura
Sendo criado. Pai e filho
Em um espelho mítico unificado.
Assim, num tempo estático e revertido
Nasceram, escritor- e escrito, da poesia.
(Como misteriosamente é Fátima
mãe e filha do o poeta:
Filho da sua filha.
o sonhador sonha e é sonhado),
O homem criou Deus, da criatura
Sendo criado. Pai e filho
Em um espelho mítico unificado.
Assim, num tempo estático e revertido
Nasceram, escritor- e escrito, da poesia.
(Como misteriosamente é Fátima
mãe e filha do o poeta:
Filho da sua filha.
1 095
Jorge Luis Borges
Al primer poeta de Hungría
En esta fecha para ti futuraque no alcanza el augur que la prohibida
forma de porvenir ve en los planetas
ardientes o en las vísceras del toro,
nada me costaría, hermano y sombra,
buscar tu nombre en las enciclopedias
y descubrir qué ríos reflejaron
tu rostro, que hoy es perdición y polvo,
y qué reyes, qué ídolos, qué espadas,
qué resplandor de tu infinita Hungría,
elevaron tu voz al primer canto.
Las noches y los mares nos apartan,
las modificaciones seculares,
los climas, los imperios y las sangres,
pero nos une indescifrablemente
el misterioso amor de las palabras,
este hábito de sones y de símbolos.
Análogo al arquero del eleata
un hombre solo en una tarde hueca
deja correr sin fin esta imposible
nostalgia, cuya meta es una sombra.
No nos veremos nunca cara a cara,
oh antepasado que mi voz no alcanza
Para ti ni siquiera soy un eco;
para mí soy un ansia y un arcano,
una isla de magia y de temores,
como lo son tal vez todos los hombres,
como lo fuiste tú, bajo otros astros.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 365 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
forma de porvenir ve en los planetas
ardientes o en las vísceras del toro,
nada me costaría, hermano y sombra,
buscar tu nombre en las enciclopedias
y descubrir qué ríos reflejaron
tu rostro, que hoy es perdición y polvo,
y qué reyes, qué ídolos, qué espadas,
qué resplandor de tu infinita Hungría,
elevaron tu voz al primer canto.
Las noches y los mares nos apartan,
las modificaciones seculares,
los climas, los imperios y las sangres,
pero nos une indescifrablemente
el misterioso amor de las palabras,
este hábito de sones y de símbolos.
Análogo al arquero del eleata
un hombre solo en una tarde hueca
deja correr sin fin esta imposible
nostalgia, cuya meta es una sombra.
No nos veremos nunca cara a cara,
oh antepasado que mi voz no alcanza
Para ti ni siquiera soy un eco;
para mí soy un ansia y un arcano,
una isla de magia y de temores,
como lo son tal vez todos los hombres,
como lo fuiste tú, bajo otros astros.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 365 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
1 802
Herberto Helder
Texto 8
Nenhuma atenção se esqueceu de me cravar os dedos
na massa malévola e fervente e levemente doce
de um grande “vocabulário”
até que apenas quis ter as mãos expostas ao ar
e à minha frente o deserto pétreo das cacofonias
uma pobre selvática e eriçada “linguagem”
uma crua “exposição de designações”
brutais sem vícios de beleza ou graça
ou ambiguidade
chegar à “leitura explícita” de mim mesmo “texto”
sem marés “colocado” definitivamente
sempre em mim se avizinhou o “excesso vocal”
da “vocação silenciosa”
sempre a “movimentação errática” se aproximou
de um “sono extenso” e logo entendi
mal se fez para os meus olhos a “dança imóvel”
o acesso à “paragem fremente” foi-me dado
como ciência infusa
o palco apenas sem cenários a personagem sem gestos
a fala “não aposta nem suposta”
isto só bastaria como “acto”
de cima e de baixo uma luz “indiscutível”
bloco visão fulminante do “sentido” de tudo
a impossibilidade de “rotações e translações”
precipitação mortal e ainda voluta faiscante
para o corpo chegar-se o arco de si próprio
tangível apertado completo
contudo estão sempre a virar-me para a “paisagem”
dizem “vê as colinas a andarem em todos os espaços
ao mesmo tempo”
levam-me assim à audácia dos “espectáculos”
desviam de mim “o centro” essa paixão da unidade
“o compacto discurso” das trevas ou da luz
“gradações” sibilam eles contentes da subtileza
mas eu estou para além disso unido às vísceras
pelo seu próprio fogo
não me enxameiem a cabeça com as aspas coruscantes
uma nostalgia dourada do “dicionário” que eu podia
trava-se um pouco “a marcha”
mas vou para um “silêncio que treme”
“o violino sobre a mesa” a poeira que vem
“produzir a eternidade”
depois a alegria total de uma tentação dos dedos
parados
franquear a violência luminosa
suspensa
qualquer maneira de intervir na “música”
subindo por dentro a “temperatura” até os termómetros
caírem por eles abaixo
e a “explosão” preparada sorver-se implosivamente
e para sempre se restabelecer a “linha viva”
que une ao ar a labareda
um discurso sem palavras atravessado pela febre
fria
de um saber extremo “irredutível”
na massa malévola e fervente e levemente doce
de um grande “vocabulário”
até que apenas quis ter as mãos expostas ao ar
e à minha frente o deserto pétreo das cacofonias
uma pobre selvática e eriçada “linguagem”
uma crua “exposição de designações”
brutais sem vícios de beleza ou graça
ou ambiguidade
chegar à “leitura explícita” de mim mesmo “texto”
sem marés “colocado” definitivamente
sempre em mim se avizinhou o “excesso vocal”
da “vocação silenciosa”
sempre a “movimentação errática” se aproximou
de um “sono extenso” e logo entendi
mal se fez para os meus olhos a “dança imóvel”
o acesso à “paragem fremente” foi-me dado
como ciência infusa
o palco apenas sem cenários a personagem sem gestos
a fala “não aposta nem suposta”
isto só bastaria como “acto”
de cima e de baixo uma luz “indiscutível”
bloco visão fulminante do “sentido” de tudo
a impossibilidade de “rotações e translações”
precipitação mortal e ainda voluta faiscante
para o corpo chegar-se o arco de si próprio
tangível apertado completo
contudo estão sempre a virar-me para a “paisagem”
dizem “vê as colinas a andarem em todos os espaços
ao mesmo tempo”
levam-me assim à audácia dos “espectáculos”
desviam de mim “o centro” essa paixão da unidade
“o compacto discurso” das trevas ou da luz
“gradações” sibilam eles contentes da subtileza
mas eu estou para além disso unido às vísceras
pelo seu próprio fogo
não me enxameiem a cabeça com as aspas coruscantes
uma nostalgia dourada do “dicionário” que eu podia
trava-se um pouco “a marcha”
mas vou para um “silêncio que treme”
“o violino sobre a mesa” a poeira que vem
“produzir a eternidade”
depois a alegria total de uma tentação dos dedos
parados
franquear a violência luminosa
suspensa
qualquer maneira de intervir na “música”
subindo por dentro a “temperatura” até os termómetros
caírem por eles abaixo
e a “explosão” preparada sorver-se implosivamente
e para sempre se restabelecer a “linha viva”
que une ao ar a labareda
um discurso sem palavras atravessado pela febre
fria
de um saber extremo “irredutível”
589
Renato Rezende
Ato
O pintor avança
A mão na madeira:
Pinta uma rosa.
O poeta escreve:
Rosa vermelha,
Rosa branca.
A rosa é um símbolo
Ou pode ser um símbolo
Ou uma rosa.
O pintor se cansa
De se misturar ao mito
Ao criar.
Reflete na arte,
Com o lápis preto
Risca a rosa pintada.
O poeta pesquisa
Sua palavra na arte,
Na história.
Depois recomeçam,
O coração em pânico,
Para o desconhecido.
A mão na madeira:
Pinta uma rosa.
O poeta escreve:
Rosa vermelha,
Rosa branca.
A rosa é um símbolo
Ou pode ser um símbolo
Ou uma rosa.
O pintor se cansa
De se misturar ao mito
Ao criar.
Reflete na arte,
Com o lápis preto
Risca a rosa pintada.
O poeta pesquisa
Sua palavra na arte,
Na história.
Depois recomeçam,
O coração em pânico,
Para o desconhecido.
1 089
D. Dinis
Quer'eu Em Maneira de Proençal
Quer'eu em maneira de proençal
fazer agora um cantar d'amor
e querrei muit'i loar mia senhor
a que prez nem fremosura nom fal,
nem bondade; e mais vos direi en:
tanto a fez Deus comprida de bem
que mais que todas las do mundo val.
Ca mia senhor quiso Deus fazer tal,
quando a fez, que a fez sabedor
de todo bem e de mui gram valor,
e com tod'est[o] é mui comunal
ali u deve; er deu-lhi bom sem
e des i nom lhi fez pouco de bem
quando nom quis que lh'outra foss'igual.
Ca em mia senhor nunca Deus pôs mal,
mais pôs i prez e beldad'e loor
e falar mui bem e riir melhor
que outra molher; des i é leal
muit'; e por esto nom sei hoj'eu quem
possa compridamente no seu bem
falar, ca nom há, tra'lo seu bem, al.
fazer agora um cantar d'amor
e querrei muit'i loar mia senhor
a que prez nem fremosura nom fal,
nem bondade; e mais vos direi en:
tanto a fez Deus comprida de bem
que mais que todas las do mundo val.
Ca mia senhor quiso Deus fazer tal,
quando a fez, que a fez sabedor
de todo bem e de mui gram valor,
e com tod'est[o] é mui comunal
ali u deve; er deu-lhi bom sem
e des i nom lhi fez pouco de bem
quando nom quis que lh'outra foss'igual.
Ca em mia senhor nunca Deus pôs mal,
mais pôs i prez e beldad'e loor
e falar mui bem e riir melhor
que outra molher; des i é leal
muit'; e por esto nom sei hoj'eu quem
possa compridamente no seu bem
falar, ca nom há, tra'lo seu bem, al.
4 800