Poemas neste tema

Literatura e Palavras

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Princípio de Estação

Venho do sol (uma cortina de bruma
envolve o dia). Testemunha
de uma solidão fresca, sem recordar,
sem esperar, volto a olhar no espaço mudo.
O cheiro a chão lavado.
Uma direcção entre vagas sensações.
Não existe uma pergunta. Suspenso, avanço
entre vazios.
*
Não penso ou penso: que há?
Entretanto, o dia prossegue pardamente.
É tinta e não seiva o que escorre do aparo,
mas impregno o que escrevo de algo mais
que não existe ainda, que aspiro apenas
a ser a face densa, aberta, impenetrável
e real.
*
Não surpreender apenas por
gosto dum fulgor ou excesso.
As paredes oferecem uma face percorrida
de mil sulcos. A procura é infinita
neste silêncio das coisas junto à terra.
Desprendido, olho um muro ou o firmamento.
A poeira é deliciosa quando fresca.
983
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

De Coincidência Em Incoincidência

É um quadrado quase perfeito
em que a luz incide duramente
— uma sombra aguçada e lisa acompanha
o gesto de escrever. Ausência.

Mais exacta, mais viva
a sombra da mão e do lápis
forma um conjunto menos suspeito,
de uma harmonia subjacente.
*
A coincidência da ponta do lápis
com a ponta da sombra do lápis
convida a uma coincidência de todos os pontos
da incoincidência vasta em que escrevo.

Ilusão de uma perfeita justiça,
ilusão dum amor recto como o mármore,
tentação dum espelho claro, inflexível.
*
Não como um espelho,
mas com a lisura e a tranquilidade do espelho.
Alto ou largo ou baixo, imóvel,
não para passear ao longo duma estrada,
mas fragmento de um turbilhão contido.
619
Herberto Helder

Herberto Helder

O Poema - Vii

A manhã começa a bater no meu poema.
As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores
líricas.
Muita coisa começa a bater contra os muros do meu poema.
Escuto um pouco a medo o ruído das gárgulas,
o rodopio das rosáceas do meu
poema batido pela revelação das coisas.
Os finos ramos da cabeça cantam mexidos
pelo sangue.
Talvez eu enlouqueça à beira desta treva
rapidamente transfigurada.
Batem nas portas das palavras,
sobem as escadas desta intimidade.
É como uma casa, é como os pés e as mãos
das pessoas invasoras e quentes.

Estou deitado no meu poema. Estou universalmente só,
deitado de costas, com o nariz que aspira,
a boca que emudece,
o sexo negro no seu quieto pensamento.
Batem, sobem, abrem, fecham,
gritam à volta da minha carne que é a complicada carne
do poema.

Uma inspiração fende lírios na minha testa,
fende-os ao meio
como os raios fendem as direitas taças de pedra.
Eu sorrio e levo pela mão essa criança poderosa,
uma visita do sangue cheio de luzes interiores.
Acompanho, como tocando uma espécie de paisagem
levitante,
as palavras pessoas caudas luminosas ascéticas aldeias.

E a madrugada e a noite que rolam sobre os telhados
do poema. E Deus que rola e a morte
e a vida violenta. E o meu coração é um castiçal
à beira
do povo que até mim separa os espinhos das formas
e traz sua pureza aguda e legítima.
—Trazem liras nas mãos, trazem nas mãos brutais
pequenos cravos de ouro ou peixes delicados
de música fria.

— Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos.

O poema dói-me, faz-me.
O povo traz coisas para a sua casa
do meu poema.
Eu acordo e grito, bato com os martelos
dos dias da minha morte
a matéria secreta de que é feito o poema.

—A manhã começa a colocar o poema na parte
mais limpida da vida. E o povo canta-o
enquanto crescem os campos levantados
ao cume das seivas.
Amanhã começa a dispersar o poema na luz incontida
do mundo.
1 459
Rodrigo Carvalho

Rodrigo Carvalho

Madrugada

Sinto-me só.
Sinto-me triste.
Vazio.
Mais triste e vazio que uma vida
triste e vazia.
Queria pelo menos um afago,
um toque,
mãos, braços,
mesmo que desconhecidos,
fingindo abraços.
Queria ao menos uma palavra,
mesmo que fosse vã,
balbuciada,
falsa.
Resta-me a madrugada.
Somente a inebriante escuridão da madrugada.
Faço dela minha companhia,
fuga do pobre poeta amargurado,
esconderijo de camufladas inspirações.

Salvador, 07 de novembro de 1996

864
Herberto Helder

Herberto Helder

Fonte - Iv

Mal se empina a cabra com as patas traseiras
na lua, e o cheiro a trevo
no focinho puro, e os cornos no ar
arremetendo aos astros. E sobre a solidão das casas,
entre o sono e o vinho derramado,
curvam-se os ágeis
cascos de demónio.
E o sonâmbulo desejo do coração
absorve tudo ao alto numa vertigem
tenebrosa.

E quando o esplendor invade as bagas
venenosas, o silêncio dos dedos
docemente o procura.
Então as veias mudam a conjunção
suspensa
do sangue que ascende e que mergulha.
Uma estrela feroz queima a fronte de apoio.
E as mandíbulas, os pés, a invenção, a loucura, o sono
secreto, a beleza terrível
espalham sobre nós a branca
luz violenta.

Um dia começa a alma, e um caçador atinge
a cabra fremente no flanco
com uma flecha viva.
Cantamos devagar o espírito dos livros.
E brilha toda a noite, no sangue espesso
e maduro do bicho
maravilhoso,
o dardo do caçador.
Um dia começa o amor louco.
Porque a cabra
é uma coisa materna e antiga.
À noite o trigo irrompe da terra.

E sob a nossa boca roda a imagem do mundo, rosácea
abstracta, ou rosa aglomerada
e ardente. Na penumbra das casas as mulheres
respiram —surdas, lentas, cegas
de beleza. E no sono as palavras
são mortalmente confusas.

— Mal se levanta a cabra sobre as letras puras, sobre
a forma árdua e amarga da melancolia.
1 158
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Abgar Renault

A contagem de tempo
do poeta
não é a do relógio
nem a da folhinha.
É amadurecer de poemas
a envolvê-lo e tirar-lhe
toda marca de tempo
de folhinha
e relógio
e a situá-lo
na franja além do tempo
onde paira o sentido
a razão última das coisas
imersas de poesia.
1 429
Herberto Helder

Herberto Helder

Fonte - Iii

Ó mãe violada pela noite, deposta, disposta
agora entre águas e silêncios.
Nada te acorda — nem as folhas dos ulmos,
nem os rios, nem os girassóis,
nem a paisagem arrebatada.
— Espero do tempo novo todos os milagres,
menos tu.

Corres somente no meu sangue memoriado
e sobes, carne das palavras outra vez
imperecíveis e virgens.
— Do tempo jovem espero o vinho e o pólen,
outras mãos mais puras
e mais sagazes,
e outro sexo, outra voz, outro gosto, outra virtude
inteligente.

— Espero cobrir-te novamente de júbilo, ó corola do canto.
Mas tu estarás mais branca com a boca selada
pelas pedras lisas.
E sei que terei o amor e o pão e a água
e o sangue e as palavras e os frutos.
Mas tu, ó rosa fria,
ó odre das vinhas antigas e limpas?

Do tempo novo espero
o sinal ardente e incorrupto,
mas levo os dedos ao teu nome prolongado,
6 cerrada mãe, levo
os dedos vazios —
e a tua morte cresce por eles totalmente.
1 189
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Manuel Bandeira Faz Novent’Anos

Oi, poeta!
Do lado de lá, na moita, hem?, fazendo seus novent’anos…
E se rindo, eu aposto, dessa bobagem de contar tempo,
de colar números na veste inconsútil do tempo, o inumerável,
o vazio-repleto, o infinito onde seres e coisas
nascem, renascem, embaralham-se, trocam-se,
com intervalos de sono maior, a que, sem precisão científica, chamamos de morte.
Mas bem que gostavas de fazer anos, lembras-te?
de tirar retrato, de beijar moçoilas flóreas, de rir
um riso que filtrava todas as salsugens da experiência e do desencanto,
e não era ácido, era indulgente/infantil, era sumo da suma:
como pesa a alma, como é leve o corpo,
mesmo visitado de mortais micróbios!

Sempre respeitei teus silêncios-pigarro
e seus corredores frios.
Parava diante da campainha
sem saber: toco?
surpreendo?
pergunto, de gravador?
Hoje me sobe o desejo
de saber o que fazes, como,
onde:
em que verbo te exprimes, se há verbo?
em que forma de poesia, se há poesia,
versejas?
em que amor te agasalhas, se há amor?
em que deus te instalas, se há deus?

Que lado, poeta, é o lado de lá,
não me dirás, em confiança?
Como passas as manhãs,
a cor qual é de teu dia,
como anoiteces? (Perdoa
falar-te em termos horários,
sobre a extradimensão sem relógios.
Vezo terrestre.) Sorris.
Sorriso-tosse,
com reticências. Desisto.

É aqui, neste agora, no teu livro
que te encontro:
Manuel, profundamente,
poeta de vastas solidões
desabrochadas em curta, embaladora
(como esquecê-la?) surdinada canção.

Manuel canção de câmara, Manuel
canção de quarto e beco,
ritmo de cama e boca
de homem e mulher colados no arrepio
do eterno transitório: traduziste
para nós a tristeza de possuir e de lembrar,
a de não possuir e de lembrar,
a de passar,
mescla do que foi, do que seria,
simultaneamente projetados
na mesma tela branca de episódios
— em nós, vaga, soprada cinza,
em ti, o sopro intenso de poesia.

Isto nos deste, verso a verso,
e só depois o soubemos claramente,
na leitura da luz da vida inteira.
Foste nosso poeta, doaste som
de piano e violão e flauta ao sentimento
esparso, convulsivo, dos amantes,
dos doentes, dos fracos, dos meninos,
dos sozinhos, na praça ou sanatório:
Manuel-muitos-irmãos no gesto seco.

Novent’anos, será? ou és menino
também e para sempre
agora que viveste a dor da vida
e sorris no mais longe Pernambuco?
1 690
Anderson Braga Horta

Anderson Braga Horta

Erotismo e Poesia

Neste breve discurso acerca de erotismo e poesia, desferiremos um vol doiseau sobre alguns dos mais notáveis acidentes eróticos da poesia brasileira, do Romantismo aos nossos dias. O assunto é saboroso, nossa poesia muito rica, talvez devesse eu ceder de pronto a voz aos poetas convocados, que têm muito a dizer; e muito mais poemas e poetas haveria, se espaço houvera. Mas como, afinal de contas, está comigo a palavra, não posso deixar de dizer alguma coisa própria a respeito, e é o que passo a fazer, contando com a paciência e boa vontade dos amigos.
De Eros, representaçao do Amor entre os gregos, desde o século VI a.C. cultuado principalmente como o deus da Paixão, vem erotismo. Significa paixão amorosa — o amor, não tanto no seu lado "cavalheiresco", platônico, dominante na poesia trovadoresca, por exemplo, mas antes no seu aspecto físico, sexual. A maior ou menor franqueza com que se pode, sem escândalo, falar do amor erótico, em literatura, varia de civilização para civilização; assim, obras que têm, em determinado país e tempo, serena posição nas letras, alhures ou em outra época poderão ser consideradas pornográficas. É como sói ser encarado no Ocidente o Kama-Sutra, antigo manual hindu de técnicas sexuais.
Mesmo em relação a obras da nossa cultura e do nosso tempo, é muita vez difícil a distinção entre arte e pornografia; e é verdade que a mesma obra pode agasalhar, lado a lado, ou misturados, imbricados, traços artísticos e traços pornográficos. Há de haver, sem embargo, meios ao alcance do leitor — e falo em leitor porque nos estamos cingindo à literatura, mais especificamente à poesia — para essa distinção. Tentando estabelecê-los, recorro a um breve discurso paralelo acerca do que chamo "a psicologia do palavrão".
Que vem a ser isto, um palavrão? Uma "palavra obscena ou grosseira", diz Mestre Aurélio, no seu dicionário. Mas, se temos duas palavras significando a mesma coisa, como, por que se há de associar a uma delas conotação de obscenidade, ou grosseria, e não à outra?
O que determina essa carga negativa, ou positiva, ou neutra, das palavras é a intenção. Deste modo, tem a língua, para significar os órgãos sexuais, palavras de uso restrito a meios técnicos ou científicos, e que podem ser fora daí empregadas sem susto, por serem meramente denotativas, eticamente neutras; palavras de uso familiar, carregadas de variável gama afetiva, que podemos dizer portadoras de conotação positiva; e palavras de baixo calão, que, além do significado, basicamente igual ao de suas irmãs retromencionadas, imantam-se de uma intenção negativa — de depreciação, achincalhe, deboche. Normalmente, estas últimas têm curso no escuso dos becos, em esconsos quartos ou frias salas, em meios onde os homens, vítimas da própria miséria, passam a ser uns para os outros não mais que objetos de egoístico prazer, ou sujo lucro. Por isto, não é necessariamente fruto de condenável preconceito a recusa de trânsito em níveis mais altos a certas palavras forjadas ou em curso naqueles meios; pois o que se recusa, ou deve recusar, nelas é a intenção que visa a diminuir o destinatário e que avilta o emitente. (Conseqüentemente, as palavras podem mudar de categoria, subir ou descer, degradar-se ou reabilitar-se, conforme o uso social que se lhes dê; e pode a mesma palavra pertencer a opostas categorias, em meios diversos.)
De modo semelhante, a qualificação de erótica ou pornográfica a obra literária depende do ponto de vista em que se coloque o autor (ou o leitor, o que relativiza ainda mais a questão). Transcrevo o que dizem a respeito Otto Maria Carpeaux e Sebastião Uchoa Leite, no verbete "erotismo" da Enciclopédia Mirador Internacional:
"A pornografia não provoca, em geral, questões de crítica literária; há, até, quem duvide se esses produtos pertencem à literatura em qualquer sentido da palavra. Essa dúvida atinge sobretudo as obras pornográficas que foram escritas com o único fim de estimular sensações sexuais. Mas em muitos casos a confecção de obras pornográficas serve para satisfazer os estímulos irrealizáveis dos próprios autores; trata-se, nesses casos, de fantasias de regressão infantil, de sonhos de poder sobre órgãos genitais alheios, que são o único tópico da pornografia ("pornotopia"). A exclusão de todos os outros motivos e a redução dos personagens a seus órgãos genitais são traços característicos da pornografia e indícios de que não se trata acaso de literatura propriamente dita."
Pornográfica é a obra em que se objetualiza o ser humano como pasto de paixões, reduzido o amor à bestialidade, isto é, à exacerbação e cega satisfação do instinto. E diria que a pornografia está para o erotismo assim como a prostituição está para o amor.
Não me lembra que escritor se perguntava, com real ou ficta perplexidade, por que não se dignavam os poetas de cantar os prazeres do paladar, como cantam os do amor. Sim, por que não merecerem algumas notas líricas as delícias do tutu com torresmo, o êxtase da feijoada completa, a ingenuidade da salada vegetal, os mistérios espirituais dos álcoois? (Estes até que não podem se queixar ... )
Poesia é transcendência. Por isto não canta o poeta o bom prato, a não ser no poema satírico. Por isto, ao cantar o amor, se não lhe despreza as materialidades, procura colher-lhe a volátil essência; nem é verdadeiramente poesia, senão torpe simulacro, essa, pseudo-erótica, incapaz de ultrapassar o descritivismo no âmbito da física sexual.
Uma e outra coisa existem e são necessárias. Só que não são, em si mesmas, objeto de poesia, como não o é o econômico, o técnico em geral. E, forçadas a um papel mais alto que o que lhes compete, tornam-se grotescas, ou obscenas.
Mas, esperem aí! — somos corpo e espírito, espírito e corpo. Quando sugiro espiritualização, não me entendam mal, não estou recusando o corpóreo. Nem me esqueço de que a poesia erótica ocidental tem raiz em seu livro sagrado — na Bíblia, no Velho Testamento, no Cântico dos Cânticos de Salomão. E como, nos seus cantares, se refere o rei poeta aos dotes da Sulamita? Em termos como estes, cuja sensualidade não elide a pureza:

"Quão belos são os teus pés
nas sandálias que trazes, ó filha de príncipe!
As colunas das tuas pernas são como anéis trabalhados por
mãos de artista.
o teu umbigo é uma taça arredondada,
que nunca está desprovida de vinho.
O teu ventre é como um monte de trigo
cercado de lírios.
Os teus dois seios são como dois filhinhos
gêmeos duma gazela.
O teu pescoço é como uma torre de marfim.
Os teus olhos são como as piscinas de Hesebon,
que estão situadas junto da porta de Bat-Rabim.
O teu nariz é como a torre do Líbano,
que olha para Damasco.
A tua cabeça levanta-se como o monte Carmelo;
os cabelos da tua cabeça são como a púrpura
um rei ficou preso às suas madeixas.
Quão formosa e encantadora és,
meu amor, minhas delícias!
A tua figura é semelhante a uma palmeira.
Eu disse. Subirei à palmeira,
e colherei os seus frutos.
Os teus seios serão, para mim, como cachos de uvas,
e o perfume da tua boca como o das maçãs."
Feito o intróito, cuja extensão espero me seja perdoada, passemos aos verdadeiros falantes desta jornada.
Álvares de Azevedo, um dos "gênios adolescentes" do nosso Romantismo, em cuja época se praticou pela primeira vez uma poesia caracterizadamente brasileira, morreu aos vinte anos, "sem na vida ter sentido nunca" — conforme se queixava no poema "Idéias Íntimas" — "na suave atração de um róseo corpo" os "olhos turvos se fechar de gozo". Não obstante, ou talvez por isso mesmo, sua lírica amorosa revela, no dizer de Antônio Soares Amora, erotismo tão explícito corno nunca antes, entre nós. É, pois, merecedor das honras da abertura. Leiam-se as estrofes iniciais de "Seio de Virgem":
"0 qu
1 913
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Algumas Sugestões

além da inveja e do rancor de alguns dos
meus pares
tem a outra coisa, vem por telefone e
carta: “você é o maior escritor vivo
do mundo”.

isso tampouco me agrada porque de certo modo
acredito que para ser o maior escritor vivo
do mundo
deve haver algo de
terrivelmente errado com você.

não quero ser sequer o maior escritor
morto do mundo.

só estar morto já seria bastante
justo.

e também a palavra “escritor” é uma palavra muito
enfadonha.

imagine só como seria bem mais agradável
escutar:
você é o maior jogador de sinuca
do mundo
ou
você é o maior comedor
do mundo
ou
você é o maior apostador de hipódromo
do mundo.
isso
sim
faria um homem
se sentir realmente
bem.
1 072
Paulo Leminski

Paulo Leminski

às vezes penso que as melhores inteligências

(...)

às vezes penso que as melhores inteligências como as nossas são
você riso caetano gil alice waly duda pedrinho sebastião
etc etc etc
etc etc
etc
não deviam se ocupar de arte/literatura/SIGNO
deviam partir para a militância
aplicar-se numa militância

A REVOLUÇÃO É SEMPRE NO PLANO PRAGMÁTICO DA MENSAGEM

o que interessa, o que a gente quer, no fundo, é MUDAR A VIDA
alterar as relações de propriedade a distribuição das riquezas
os equilíbrios de poder entre classe e classe nação e nação

este é o grande Poema: nossos poemas são índices dele
meramente

nossa poesia tem que estar a serviço de uma Utopia
ou como v. disse de uma ESPERANÇA
é isso que quero dizer quando falo
que o poeta para ser poeta tem que ser mais que poeta

é preciso deixar que a História chegue em você
dê choque em você
te chame te eleja te corteje
te envolva e te engaje

uma coisa pode ter certeza:
nascemos na classe errada

estou tomando o máximo de cuidado
para que tudo isso que estou dizendo
saia sem o menor resquício de stalinismo
sectarismo esquerdofrênico
and so on

mas não dá para jogar fora esse lance

nós que temos o know-how e o dont-know-how
temos que ter esse what
esse whatever it is
dont you think so?

chega de sutilezas críticas

com meia dúzia de slogans verdadeiros na cabeça
cerco a montanha
ponho cerco às fortificações
tomo a posição e a defendo

os patriarcas já teorizaram bastante por nós
foi seu martírio

estamos dentro de uma onda
uma grande vaga atlântica
me leva do pacífico
até as praias da Atlântida (a Terra Santa)

talvez não haja mais tempo
para grandes GESTOS INAUGURAIS
como a poesia concreta foi
a antropofagia foi
a tropicália foi

agora é tudo assim
ninguém sabe
as certezas se evaporam

que a estátua da liberdade
e a estátua do rigor
velem por todos nós

amor abraços

Leminski

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In: LEMINSKI, Paulo. Uma carta e uma brasa através: cartas a Régis Bonvicino, 1976-1981. Seleção, introdução e notas de Régis Bonvicino. São Paulo: Iluminuras, 1992. p. 42-44
2 002
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Espaço a Espaço

Sem peso, que palavras soltas,
nos restituem o sal fixo: o edifício claro?
Na mina vaga tudo é tentativa
e decisão de linhas:
tudo posso afirmar se sigo a curva
e respiro, alimentando-me, no ar,
caminho, vejo, ocupo
espaço a espaço.
*
Cumprir o imóvel caminho
que nos tenta,
nada que toque a boca,
só em canais de silêncio, raios furtivos,
a luz que esplende sobre um telhado,
assim se estende a terra, um corpo,
assim um olhar encontra um mar,
as palavras se juntam e separam,
alguma coisa resta e para lá caminha,
um braço suspenso continua.
*
Interminavelmente e é apenas o dia,
a crespa cabeleira sem cintilações,
o quadro aberto e vasto, já contido,
um outro olhar, um outro gesto, a forma de outro
braço, o mesmo vulto sorri
na mesa, inclinado:
equívoco sem traços,
continuação, ausência, passos, risos,
e o ar em torno, sossego, e mais um novo alento
que surge e se confunde, mar.
*
A nuvem que se adensa e um rosto longe,
súbito um céu sem horizonte,
uma casa crepitando, um espelho escuro,
tudo é um obsessivo presente sem presença,
toda a espessura cerrada sem respiração,
um homem invadido escuta a chuva,
um absurdo cacarejar de galinhas.
*
Uma clareira, alguém veio a fugir
e, parando, um silêncio descoberto
tudo cobriu: então o corpo vivo
respirou na claridade o fogo calmo
e deus na plenitude era sem tempo
o ondular das ervas, sob a luz,
um corpo aberto: ó sangue puro!
1 099
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Varanda

Se estou presente em ti
espaço em que me afirmo
surpreendente e simples

as palavras surgem na ordem livre
numerosas solares
degrau a degrau subo à varanda
onde o sol é uma flor extraordinária
sobre um mar negro de ingenuidade
*
Os mais simples traços
delicados rectos
levemente oblíquos
— na chuva dum rosto
largo como o sol
lábios fluindo,
um seio sobre o mar.
*
Defino-me deste lado — ardente.
Prossigo mais um degrau — o dia é claro.
Uma brisa sopra nos interstícios.
Na varanda uma nuvem se desfaz.
Tudo é perfil em traços nítidos.
*
De janela a janela o dia é plural.
O mar atravessa-se entre os postes.
Uma toalha crespa
dá-me a palavra lavada e seca.

(A dança vertical
no sono)
Encerrado em limites densos
o Verão respira num corpo

Rodopia sobre camadas frescas
assente sobre si no centro
em folhas sobre folhas
numa rosa fechada

Eu espero imóvel
entre paredes nuas.
589
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Folheando Disegni, de Kantor

Kantor:
o desenho torna-se modo de possuir as coisas
o desenho torna-se modo de absorver a coisa
o desenho torna-se modo de viver a coisa
o desenho torna-se modo de oferecer a coisa
em sua realidade não circunstancial.

Kantor:
a palavra torna-se a última projeção do desenho
a palavra transporta o desenho para o sentimento do desenho
a palavra incorpora-se ao desenho
a coisa o desenho a palavra
fundem-se em generosa radiação.

Kantor:
invade o país dos signos e deles faz sua mansão.
1 047
Herberto Helder

Herberto Helder

Elegia Múltipla - Vi

São claras as crianças como candeias sem vento,
seu coração quebra o mundo cegamente.
E eu fico a surpreendê-las, embebido no meu poema,
pelo terror dos dias, quando
em sua alma os parques são maiores e as águas turvas param
junto à eternidade.
As crianças criam. São esses os espaços
onde nascem as suas árvores.

Enquanto as campânulas se purificam no cimo do fogo,
as crianças esmigalham-se.
Seu sangue evoca
a tristeza, tristeza, a tristeza
primordial.
— Enlouquecem depressa caídas no milagre. Entram
pelos séculos
entre cardumes frios, com o corpo espetado nas luzes
e o olhar infinito de quem não possui alma.

Seu grito remonta ao verão. Inspira-as
a velocidade da terra.
As crianças enlouquecem em coisas de poesia.
Escutai um instante como ficam presas
no alto desse grito, como a eternidade as acolhe
enquanto gritam e gritam.

— É-lhes dado o pequeno tempo de um sono
de onde saem
assombradas e altas. Tudo nelas se alimenta.
Dali a vida de um poema tira
por um lado apaixonamento; por outro,
purificação.
Nelas se festeja a imensidade
dos meses, a melancolia, a silenciosa
pureza do mundo.

Quem há-de pensar para as crianças, sem ter
espinhos nas vozes desertas
até ao fundo? É vendo-se aos espelhos,
no seguimento da noite,
que as crianças aparecem com o horror
da sua candura, as crianças fundamentais, as grandes
crianças vigiadoras —
cantando, pensando, dormindo loucamente.

Não há laranjas ou brasas ou facas iluminadas
que a vingança não afaste.
As crianças invasoras percorrem
os nomes — enchem de uma fria
loucura inteligente
as raízes e as folhas da garganta.
Aprendemos com elas os corredores do ar,
a iluminação, o mistério
da carne. Partem depois, sangrentas,
inomináveis. Partem de noite
noite — extremas e únicas.
— E nada mais somos do que o Poema onde as crianças
se distanciam loucamente.
Loucamente.
1 051
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Se Há Cães de Sono…

Se há cães de sono que meus pulsos rasgam
cães de dentes em lava,
se há algas nos teus olhos,
se escrevo no papel a baba dos teus beijos
nenhum vagar de sombra
nenhum campo natural do vivo olhar.

Se nos teus olhos vejo um vale,
se posso dizer casa, vento, nu,
nenhuma terra pousa sobre a terra,
sobre a mão que escreve
nem a sombra cai.
Que escrevo então, nudez sem corpo,
janela sobre um mar sem mar,
mão sem mão,
porque persigo um rastro sem faro, opaco e frio?
Que face ou região, círculo aberto,
página que no silêncio não ascende,
sopro que não sobe à boca, lua morta?

Se não te quero, imagem fútil,
luva de nada,
porque insisto no pálido círculo deste campo?

Se não há sol nem mãos que o arrebatem,
se árvores não vejo, nem destroços restam,
um tudo há-de nascer, ou já nasce de nada,
de cães de raiva insone, cães insones?
Oh, dormir sem nada mais, dormir apenas,
dormir para acordar
como se houvera um acordar de vez.
1 052
Paulo Leminski

Paulo Leminski

a propaganda meu meio de vida

(...)
a propaganda meu meio de vida
me dá algumas satisfações
afinal
todo layoutman é um pouco poeta concreto
e aliás é fantástico como os homens de arte das agências
entendem um trabalho concreto na hora
enquanto os literati dizem:
— o que é isso? que quer dizer? isso não é poesia.
só me dou com cartunistas fotógrafos cineastas desenhistas
tudo menos escritores
dos quais acabei por ter grande horror

o bom é que estar em propaganda
facilita enormemente as coisas para nós
em termos de letra-set execução produção fotografia papel
uma agência é um laboratório de mensagens

isso está muito bom
além disso me pagam bem
e eu disponho dos melhores homens de arte da praça
todos amigos meus
servo-mecânico para um senhor-mecanismo
conduzo com alguma elegância
meu destino de médico & monstro

fiz uma palestra/debate
proposta minha
na arquitetura daqui
sobre o tema O BELO VERSUS O NOVO

no qual desenvolvi a idéia seguinte
isso que se chama arte moderna
deslocou o centro da idéia de BELO
para a idéia de NOVO
q eu disse ser própria de sociedades industriais
em adiantado estado de consumismo
capitalistas ou socialistas
o pau que quebrou vou te contar

imensamente interessado em tudo que você
produz
me mande me diga me comunique

com toda a amizade

Leminski


In: LEMINSKI, Paulo. Uma carta e uma brasa através: cartas a Régis Bonvicino, 1976-1981. Seleção, introdução e notas de Régis Bonvicino. São Paulo: Iluminuras, 1992. p. 24-25
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Flávio Sátiro Fernandes

Flávio Sátiro Fernandes

Augusto dos Anjos e a Escola do Recife

O tema que trago à consideração dos que compõem este Conselho Estadual de Cultura tem sido tocado, apenas, de leve, por quantos se interessam pela vida e pela obra do maior dos poetas paraibanos - Augusto de Carvalho Rodrigues dos anjos - cujo centenário de nascimento todo o Brasil, este ano, comemora.
De fato, Agripino Grieco chama-o, de passagem, "epígono retardado da Escola do Recife" (1); Ferreira Gullar alude ao contato de Augusto com o "espírito cientificista que se tornara tradição da famosa Escola do Recife, a partir de Tobias Barreto" (2); Jamil Almansur Haddad proclama que a "geração de Augusto dos Anjos ainda é herdeira da escola do Recife, do pontificado de Sílvio Romero e Tobias Barreto e acaba sendo um florescimento brasileiro da poesia científica" (3); Pinto Ferreira, em considerações sobre a Escola do Recife, reconhece ter sido Augusto, "não diretamente ligado ao magistério de Tobias, porém influenciado pelo evolucionismo, dentro do clima ideológico da Escola". (4)
O tema, pois, não é original. Cabe-me, apenas, o esforço de tratá-lo mais demoradamente e, pela primeira vez, na província.
Dito isso, perguntaríamos: Que aproximações poderiam ser estabelecidas entre Augusto dos Anjos e a Escola do Recife? Que influências teria o nosso grande vate recebido daquele movimento? Quais os sinais dessas influências na obra de Augusto?
Para responder a tais perquirições e para exata compreensão das influências recebidas por Augusto das idéias em voga, ao seu tempo, no Recife, creio necessário expor, inicialmente, o que foi a Escola do Recife, suas figuras luminares, suas fases, as teorias nela discutidas.

A Escola do Recife

O que se convencionou chamar de Escola do Recife foi um movimento cultural de ampla repercussão, congregando pensadores, estudiosos, juristas, sociólogos, poetas, preocupados em debater os mais variados temas dentro de suas respectivas especialidades. A Escola do Recife não teve um ideário próprio e definido. Antes, foi um movimento heterogêneo, um cadinho de filosofias, de sociologias, de correntes literárias e jurídicas. Conforme assinala Pinto Ferreira, o grande esforço válido da Escola do Recife foi o convite ao debate filosófico e cultural.
A Escola teve, primitivamente, três fase, Digo primitivamente porque, consoante ainda Pinto Ferreira, "este movimento de idéias não ficou estacionado no tempo, os segmentos do tempo lhe foram indiferentes". Para o mestre pernambucano, a Escola do Recife "e um movimento dinâmico que sobrevive na atualidade, em uma nova fase de desenvolvimento". (5)
Primitivamente, pois, a Escola teve três fases: a fase poética, a fase crítico-filosófica e a fase jurídica. Durante essas três fases, vários nomes podem ser identificados como exponenciais da Escola: Tobias Barreto, sem dúvida, a maior figura do movimento, Castro Alves, Sílvio Romero, Clóvis Beviláqua, Martins Junior, Artur Orlando e outros mais.
O primeiro período - da poesia - iniciou-se de 1862 a 1863, conforme esclarece Clóvis Beviláqua. (6) Essa fase corresponde à formação daquela corrente denominada por Capistrano de Abreu, "escola condoreira", integrada por Tobias Barreto e Castro Alves, notadamente, bem como por Vitoriano Palhares, Guimarães Junior, Antônio Alves Carvalho, Xavier Lima (7) e Sílvio Romero. (8)
Lançam-se por essa época os fundamentos da poesia filosófico-científica.
Tobias Barreto embebe-se do panteísmo do "Ahasverus", de Edgar Quinet e em sua poesia já estremece "um brado de revolta de um espírito abalado pelos desgostos e pela filosofia do século". (9) Dessa fase é o poema O Gênio da Humanidade, síntese da evolução humana, provavelmente inspirado no Ahasverus. Outro de seus poemas, Ignorabimus, traz à tona preocupações religiosas do autor:

Quanta ilusão!... O céu mostra-se esquivo
E surdo ao brado do Universo inteiro...
De dúvidas cruéis prisioneiro,
Tomba por terra o pensamento altivo.

Dizem que Cristo, o filho de Deus vivo,
A quem chamam também Deus verdadeiro,
Veio o mundo remir do cativeiro!...
E eu vejo o mundo ainda tão cativo!

Se os reis são sempre os reis, se o povo ignaro
Não deixou de provar o duro freio
Da travessia e da miséria o trato;

Se é sempre o mesmo engodo e falso enleio,
Se o homem chora e continua escravo,
De que foi que Jesus salvar-nos veio?...

E em outro, intitulado Epicurismo, defende essa filosofia de vida:

Se as crenças são um engodo,
Se falha o verbo da fé,
Se o homem se acaba todo
Com a matéria que ele é,
Se o coração nada aspira,
Se este bater é mentiroso,
Se além não há desfrutar,
Da vida a idéia suprema,
O grande, o sábio problema
É viver muito e gozar...

Também Sílvio Romero cultiva a poesia científica. E mais: foi seu ardente defensor, conforme assinala França Pereira, no Prefácio à segunda edição de A poesia científica, de Martins Junior. (10)
São, assim, Tobias e Sílvio Romero os precursores da chamada poesia filosófico-científica, que vai ter, ainda, na Escola do Recife, um teorizador e praticante apaixonado, na pessoa de Martins Junior, de que falarei adiante.
A segunda fase é a fase crítico-filosófica, iniciada pelos anos de 1868 a 1870 e que se estende até 1882, quando, com o concurso de Tobias Barreto, para professor da Faculdade de Direito, tem começo a fase jurídica da Escola.
Durante a segunda fase têm curso as mais diversas correntes filosóficas, críticas e religiosas, sobressaindo-se como autores mas acatados e discutidos Spencer, Heckel, Hartmann, Schopenhauer, Kant. Mas é fora de discussão que nessa época a Escola elege, por intermédio de Tobias, notadamente, o monismo e o evolucionismo, como as idéias principais de seu pensamento, a ponto de Luís Washington Vita, citado por Pinto Ferreira, observar que a doutrina adotada pelos pioneiros da Escola do Recife foi um somatório daquelas duas teorias. (11)
O evolucionismo teve, como se sabe, em Herbert Spencer um de seus mais importantes defensores. A nota fundamental que o evolucionismo spenceriano distingue na evolução é o progresso. Evolução significa progresso, conforme proclama o filósofo inglês em seu ensaio intitulado Progresso. O progresso, segundo Spencer, investe todos os aspectos da realidade. "Quer se trate - diz ele no ensaio citado - do desenvolvimento da Terra, quer se trate do desenvolvimento da vida na sua superfície ou do desenvolvimento da sociedade, ou do governo, ou da indústria, ou do comércio, ou da linguagem, ou da literatura, ou da ciência, ou da arte, sempre no fundo de todo progresso está a evolução que vai do simples ao complexo através de diferenciações sucessivas". (12)
E nos seus Primeiros Princípios, assim definia a evolução: "A evolução é uma integração da matéria e uma concomitante dissipação de movimento, durante a qual a matéria passa de uma homogeneidade indefinida e incoerente para uma heterogeneidade definida e coerente e durante a qual o movimento conservado é passível de uma transformação paralela". (13)
Ao lado do evolucionismo, a outra doutrina, também acatada pelos pensadores foi o monismo, cuja figura maior foi, sem dúvida, o filósofo alemão Ernst Haeckel.
Spencer e Haeckel dominam, por conseguinte, com suas idéias, o ambiente cultural do Recife, de fins do século passado e princípios do atual, graças à ação intelectual de Tobias Barreto, o grande mentor da Escola do Recife, e da dos demais que o acompanhavam naquele movimento.
Finalmente, a terceria fase da Escola, a fase jurídica, inicia-se em 1882, ano em que Tobias presta concurso para professor da Faculdade de Direito do Recife. Despontam nessa fase, além do grande sergipano, as figuras de Clóvis Beviláqua, José Izidro Martins Junior e Artur Orlando, este mais sociólogo que jurista.
Deles
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Visão de Clarice Lispector

Clarice
veio de um mistério, partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
era Clarice viajando nele.

Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.

O que Clarice disse, o que Clarice
viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata
ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são joias particulares de Clarice
que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.

Clarice não foi um lugar-comum,
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.
O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.

De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, escadarias,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.

Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis,
os cumprimentos falavam em agora,
edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.

Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia… saberemos amar Clarice.
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Herberto Helder

Herberto Helder

Elegia Múltipla - Iv

Acolher de súbito cai no silêncio da língua.
Paro com a gelada imagem do tempo nos sentidos
puros. E sei que não é uma flor aberta
ou a noite cercada de águas extremas.
Paro por esta monstruosa,
ingénua força da morte.
—Acolher envolvida pelo silêncio extenuante
da minha boca, da minha vida.

Que faço? Bem sei como se alimenta um homem,
e tímido e arguto
alimenta a sua irónica inspiração solar,
a inocente astronomia
de ossos e estrelas, veias e flores
e órgãos genitais —
para que tudo se construa docemente,
com as mulheres sentadas nos seus vestidos coalhados,
sorrindo fixamente como as crianças na lírica,
tenebrosa densidade da carne.

A colher cheia de alimento. Era um jogo vivo,
manso, ponderado—uma
beleza evocativa e confusa.
Eis: sou um homem que instante a instante
ganhava um sabor de perene
sentido, uma duração de sombra extasiada,
laboriosa, inclinada no grave centro
da primavera — a sombra
das minhas mãos.

A colher subia como um instrumento da criação,
firme subia nos dedos
como que invocando, unindo os fragmentos
do espírito,
a mímica na sugerida integridade
da pessoa
colocada na doce integridade do tempo.
Mas paro. Cai no silêncio da língua
a colher que era — quem sabe? — música,
intimidade, sinal fortuito
de uma essência, um génio interior.

O puro roer devagar roerá
a colher na mão e a boca na colher,
e no sangue imóvel o pudor da imagem onde
coagulava a leve espessura das casas. Essas que ardiam
na assimetria festiva e sagaz das invenções.
— Cai
no silêncio da língua a colher tão brusca.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Exercitia, de José Geraldo Nogueira Moutinho

A procura do número
na lição de Agostinho
e o encontro da poesia
no Oriente deserto
(sans ennui)
na escala de Alcavala
na maçã de Cézanne
— flecha em voo andorinho —
tudo revela a arte,
o engenho, a fina parte
da lucidez no sonho
de Nogueira Moutinho.
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António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Zona Intermediária

A página presente, o edifício novo, a madeira leve, um perfume de vento.
Vários pontos. Junturas breves.
Passagem. (Nuvens possíveis.)
Rigorosa tenuidade.

Escrever simplicidade actuante.
Entre possíveis paragens, ofegante barco
e janelas débeis sobre túneis,
confusão clara de perspectivas.
Um dedo acaricia a ranhura.
Entre o vento e a brecha
a vibração da teia,
perpassar de aranha sobre a página do ar.

É preciso passar e fixo
correr.
Cosido o corpo, rapidamente o novo
solto sopro vivo.
Casa de arame. Ao fundo a água.
A terra é próxima. Uma parede
animada.

A boca lenta e sossegada
alarga a transparência.
O solo rodeia-te e desdobra-se.
A pele das árvores é a do teu corpo.
Corpo de página visível.

Entre o fundo e o cimo a superfície
eis o céu a parede percorrida
a textura do papel
as linhas do vento.

Inundada superfície
onde os animais se precipitam
leves
as imagens se agrupam
e subsistem
as marcas vivas.
1 113
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

O Nariz do Morto

— Olha. O nariz do morto! — que nariz
e que morto? Que piada mais sem graça
é esta? — Não, senhor. É o Vilaça
(Antônio Carlos) com seu livro duro
e triste, machucante — almofariz
em que mói a si próprio e se destrói,
para ressuscitar ainda à procura
de seu rumo, indefesa criatura
solta ao vento da vida. Quer a paz?
Quer a guerra interior, ou foge dela?
Entre cacos de vida, Sigismundo,
numa doçura mista de amargor,
de letras e leituras faz seu mundo.
Há de salvá-lo não a fé; talvez
o raio impressentido de um amor.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Um Lírio, Por Acaso

E de repente Santa Teresinha
— quem diria? — faz 100 anos.
Ela que tem sempre 24
nas estampas dos gay twenties.

Santa do modernismo brasileiro,
do altar particular de Ribeiro Couto,
a quem curaste de tuberculose,
a tuberculose de que morreste,
santa invocada por Manuel Bandeira:
“Santa Teresa, não, Teresinha.
Teresinha do Menino Jesus.
Me dá alegria!”
Não o atendeste, amiga Teresinha…

O poeta se queixava:
“Fiz tantos versos a Teresinha…
Versos tão tristes nunca se viu!
Pedi-lhe coisas. O que eu pedia
era tão pouco! Não era glória…
Nem era amores… Nem foi dinheiro…
Pedia apenas mais alegria:
Santa Teresa nunca me ouviu!”

A ti nada pedi, mas simpatizava
com teu jeito simples de ser santa
do nosso tempo de incredulidade,
tempo de ciências exatas, Marx, anarquismo.
(Os ateus brasileiros levam sempre um santinho no bolso,
nossos comunas quando morrem, a família reza missa
de sétimo dia e de trigésimo.)
Simpatizava, simpatizava contigo
lendo tua autobiografia na tradução do padre Lochu
antes que me expulsassem do colégio
com a aprovação do próprio tradutor.

Naquele tempo
as autobiografias dos santos eram censuradas
e eu não sabia que foste
carmelitanamente precursora
do feminismo:
“Ah, pobres mulheres, tão desprezadas!
A todo instante nos proíbem:
Não faça isto, não faça aquilo,
e ameaçam excomungar-nos…”
Suave santa brasileira
por graça do diminutivo
que te fazia baiana, carioca, uberabense
(quem ousou um dia falar Santa Isabelinha, Santa Margaridinha?),
muito mais próxima de nós, em Lisieux,
do que a filha de Capistrano clausurada
ali no Morro,
e tão novinha
que dava oportunidade de dizer
a um senhor de 60 anos, na Avenida:
“Esta santa, mais moça do que eu…”
Então podemos todos ser santos?
Os santos não são apenas medievais,
predestinadíssimos, raríssimos,
para realçar ainda mais
nossa impossibilidade de pureza
ou para resgatá-la?

Vez ou outra eu ruminava essas coisas
enquanto ia chafurdando e esquecendo
a nostalgia de ter tido
o desejo, não digo de ser santo,
mas apenas o franciscano encapuzado
que assiste ao enterro do Conde de Orgaz
junto de Santo Agostinho e Santo Estêvão
na tela fantástica do Greco,
ou um dos pescadores no políptico de São Vicente,
de Nuno Gonçalves ou Hugo van der Goes, que sei eu,
aquele pescador quase de bruços
no painel da esquerda.

Já nem sei, minha santa,
qual o teu papel na Igreja contestante
de setenta,
és talvez, tão bonita, tão menina,
frágil demais para o serviço que se exige
do novo Cristo combatente,
mas a doçura não é arma também,
a seu tempo e seu modo, no combate?

Reparo agora,
já não és menina, és centenária,
ou assim te conta o tempo a vida breve,
e tenho de chamar-te vovozinha,
vovozinha Teresa do Carmelo,
de mel no nome e de ternura acesa
no coração de um distraído agnóstico,
ao abrir o jornal e nele ver
três linhas com teu nome,
entre os nomes de Hanói e de Manágua,
como um lírio nascido por acaso.
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