Poemas neste tema

Literatura e Palavras

António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

Uma Só Palavra

São quatro ou cinco ou duas
palavras duras e uma só mão.
Para o corpo inteiro a boca única,
o braço estende-se aos limites: quatro.
O pulso livre o branco aberto
um único sol pelo corpo todo
enche a cabeça o tronco o ventre
um sol interior no corpo.

É uma palavra ou quatro
ou todas as palavras rodando num olho fixo
ou só duas palavras dois ovos sobre o branco
duas iguais sobre a branca igualdade.

Duas brancas alvo, quatro cinco
proliferam moscas negras azuis
mas o suspiro do ventre sobe
à garganta, à língua, à fronte,
as comportas do cérebro abrem-se uma
bola branca solta e tensa
sol terra e ar: brancura extrema
um solo essencial um único solo
adere.

Um pé que ganhou gosto e sabor adere
a um soalho limpo, uma madeira cálida,
onde a nudez se sente e sabe viva. Uma palavra
em corpo ganhou o pé redondo e firme.

Eis no extremo limite o peso material
a que a língua adere: planta, dorso, palma.
Dali, do solo liso, jorra uma água sólida,
articulada e ágil, repousa, ascende em corpo,
pesa, pesa, eleva-se, massa de altura viva,
sol que se aperta, sol e solo, sol.
1 122
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Andei Trabalhando Na Ferrovia...

o Grande Editor disse que queria me encontrar
pessoalmente antes de publicar meu livro.
ele disse que os escritores eram na maioria filhos da puta
e ele só não queria lançar alguém
que fosse
então já que ele estava pagando a passagem de trem
fui lá para
Nova Orleans
onde morei perto dele dobrando a esquina
num quarto pequeno.

o Grande Editor morava num porão com uma
prensa, sua esposa e dois
cães.
o Grande Editor também publicava uma famosa
revista literária
mas meu planejado livro
seria sua primeira tentativa na
área.
ele sobrevivia com a revista, com a sorte, com
doações.

toda noite eu jantava com o Grande
Editor e sua esposa (minha única refeição e
provavelmente a deles também).
depois nós tomávamos cerveja até a meia-noite
quando eu ia para o meu quarto pequeno
abria uma garrafa de vinho e começava a
datilografar.
ele dizia que não tinha poemas
suficientes.
“preciso de mais poemas”, ele dizia.

ele tinha vencido meus poemas antigos
e conforme eu escrevia os novos poemas ele
os imprimia.
eu estava escrevendo diretamente para o
prelo.

pelo meio-dia todos os dias eu dobrava
a esquina
batia na janela
e via o Grande Editor
alimentando a prensa com
páginas dos meus poemas.

o Grande Editor era também o Grande
Empresário, o Grande Impressor e
Inúmeras Outras Grandes Coisas,
e eu era praticamente o poeta
desconhecido por isso tudo era bem
estranho.

de todo modo, eu acenava minhas páginas pra
ele e ele parava a prensa
e abria a porta pra mim.

ele sentava e lia os poemas:
“hmmm... bom... por que você não
vem jantar esta noite?”
aí eu ia embora.

certos meios-dias eu batia na
janela
sem quaisquer poemas
e o Grande Editor me encarava
como se eu fosse uma
barata gigante.
ele não abria a porta.

“vá embora!”, eu podia ouvi-lo gritar
através da janela, “vá embora e
não volte até ter
alguns poemas!”

ele ficava genuinamente zangado
e isso me intrigava: ele esperava
de mim 4 ou 5 poemas
por dia.

eu parava em algum lugar pra beber uma
dúzia de latinhas
voltava para o meu quarto
e começava a datilografar.
a cerveja da tarde sempre tinha um gosto
bom e me vinham
alguns poemas...

levava de volta
batia na janela
acenava as páginas.

o Grande Editor sorria
agradavelmente
abria a porta
pegava as páginas
sentava e lia:
“ãmm... ãmmm... estes estão
bons... por que você não aparece
pra jantar esta noite?”

e entre a tarde
e a noite
eu voltava para o meu quarto
e assinava mais e mais
colofões.
as páginas eram grossas, de alta
gramatura, caras,
criadas para durar
2.000 anos.
as assinaturas eram lentas e
trabalhosas
escritas com caneta
especial...
milhares de colofões
e conforme eu ficava mais bêbado
para tentar não ficar
completamente louco
eu começava a fazer desenhos
e
declarações...
quando eu terminava de assinar os
colos
a pilha de páginas alcançava
dois metros de altura
no meio do
quarto.

como falei,
era um tempo muito estranho
para um escritor desconhecido.
ele me disse uma
noite:
“Chinaski, você estragou
a poesia pra mim... desde que
passei a ler a sua eu simplesmente não consigo ler
mais nada...”

grande louvor, sem dúvida, mas eu
sabia o que ele queria dizer.

todos os dias sua esposa se postava
nas esquinas
tentando vender pinturas,
suas pinturas e as pinturas
de outros pintores.
ela era uma mulher belíssima e
fogosa.

finalmente o livro ficou pronto.
isto é, menos a encadernação;
o Grande Editor não conseguia fazer
a encadernação, tinha de pagar pela
parte da encadernação e isso o
deixava puto.

mas nosso trabalho estava pronto,
o dele e o meu,
e o Grande Editor e
sua esposa me puseram no trem
de volta para L.A.

ambos parados ali
na plataforma
olhando pra mim e sorrindo
enquanto eu olhava pra trás do
assento na janela.
foi algo...

constrangedor...
por fim o trem começou
a rodar lentamente
e eu acenei e eles
acenaram
e aí quando eu já estava
quase fora de vista
o Grande Editor
ficou dando vários saltos
como um garotinho,
acenando ainda...

fui até o vagão
do bar e decidi passar
minha viagem
ali.

algumas paradas e
algumas horas depois
o portador chegou
lá atrás:
“henry chinaski! tem
algum henry chinaski aqui?”

“aqui meu bom homem”,
falei.

“porra, cara”, ele disse, “eu
estava procurando você em tudo que é
canto desse trem!”

dei gorjeta e abri o
telegrama:
“você continua um f.d.p. mas
continuamos te amando...
Jon e Louise...”

fiz sinal para o portador se mandar
pedi um scotch duplo
com gelo
peguei o copo
e o ergui no ar por um instante
brindei a eles uma quase
lírica bênção
então bebi tudo
com o trem
rodando e balançando
balançando e rodando
levando-me para mais e mais
longe
daquelas mágicas
pessoas.
1 153
Vinicius de Moraes

Vinicius de Moraes

O Cemitério Na Madrugada

Às cinco da manhã a angústia se veste de branco
E fica como louca, sentada, espiando o mar...
É a hora em que se acende o fogo-fátuo da madrugada
Sobre os mármores frios, frios e frios do cemitério
E em que, embaladas pela harpa cariciosa das pescarias
Dormem todas as crianças do mundo.

Às cinco da manhã a angústia se veste de branco
Tudo repousa... e sem treva, morrem as últimas sombras...
É a hora em que, libertados do horror da noite escura
Acordam os grandes anjos da guarda dos jazigos
E os mais serenos cristos se desenlaçam dos madeiros
Para lavar o rosto pálido na névoa.

Às cinco da manhã... — tão tarde soube — não fora ainda uma visão
Não fora ainda o medo da morte em minha carne!
Viera de longe... de um corpo lívido de amante
Do mistério fúnebre de um êxtase esquecido
Tinha-me perdido na cerração, tinha-me talvez perdido
Na escuta de asas invisíveis em torno...

Mas ah, ela veio até mim, a pálida cidade dos poemas
Eu a vi assim gelada e hirta, na neblina!
Oh, não eras tu, mulher sonâmbula, tu que eu deixei
Banhada do orvalho estéril da minha agonia
Teus seios eram túmulos também, teu ventre era uma urna fria
Mas não havia paz em ti!

Lá tudo é sereno... Lá toda a tristeza se cobre de linho
Lá tudo é manso, manso como um corpo morto de mãe prematura
Lá brincam os serafins e as flores, bimbalham os sinos
Em melodias tão alvas que nem se ouvem...
Lá gozam miríades de vermes, que às brisas matutinas
V oam em povos de borboletas multicolores...

Escuto-me falar sem receio; esqueço o amanhã distante
O vento traz perfumes inconfessáveis dos pinheiros...
Um dia morrerão todos, morrerão as amadas
E eu ficarei sozinho, para a hora dos cânticos exangues
Hei de colar meu ouvido impaciente às tumbas amigas
E ouvir meu coração batendo.

Tu trazes alegria à vida, ó Morte, deusa humílima!
A cada gesto meu riscas uma sombra errante na terra
Sobre o teu corpo em túnica, vi a farândola das rosas e dos lírios
E a procissão solene das virgens e das madalenas
Em tuas maminhas púberes vi mamarem ratos brancos
Que brotavam como flores dos cadáveres contentes.

Que pudor te toma agora, poeta, lírico ardente
Que desespero em ti diz da irrealidade das manhãs?
A Morte vive em teu ser... — não, não é uma visão de bruma
Não é o despertar angustiado após o martírio do amor
É a Poesia... — e tu, homem simples, és um fanático arquiteto
Ergues a beleza da morte em ti!

Oh, cemitério da madrugada, por que és tão alegre
Por que não gemem ciprestes nos teus túmulos?
Por que te perfumas tanto em teus jasmins
E tão docemente cantas em teus pássaros?
És tu que me chamas, ou sou eu que vou a ti
Criança, brincar também pelos teus parques?

Por ti, fui triste; hoje, sou alegre por ti, ó morte amiga
Do teu espectro familiar vi se erguer a única estrela do céu
Meu silêncio é o teu silêncio — ele não traz angústia
É assim como a ave perdida no meio do mar...
............................................................................................

Serenidade, leva-me! guarda-me no seio de uma madrugada eterna!
1 264
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

De Bruços Sobre a Margem

A mão seca o abre: é um sabor vago.
Direitas letras: trémulas no branco.
Olhar a pele da face.
Uma diferença treme no vazio.

Jogar com, amar sem,
a forma justa à beira.
A boca sóbria e a mão deserta sobre.
Seria demasiado viva uma guitarra.

O olhar aflora: o branco o negro
sem vírgulas na rede exacta
a elegância paralela dos signos
na água.

Uma ordem desliza
e se perfaz em ramos.
A árvore surpreendente em cada folha.
Os seus caprichos verdes necessários.

Lenta paixão do olhar.

Poder horizontal
sem música.
Alimento tecido no vazio,
branca igualdade.

Concavidade súbita
mas plana no obscuro.
Seta que aponta sempre
ao branco intérmino.

Talvez só para chegar à mão.
Entre o olhar e a sombra.
Estar onde a chama
abre a distância mínima, informe.

A iminência de
um sopro que forme a boca
que sopre o sopro limpo:
a água vem à mão.

Sempre deserta, errante.
A sede que ondula o pulso:
aproximar o perto
de bruços sobre a margem.
1 027
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

As Palavras Desenham-Se Na Parede

As palavras desenham-se na parede.
Não há centro, tudo prolifera.
A vela entre as espinhas.
As palavras ásperas resplandecem.
São as mais nuas feridas,
as mais desertas entre pedras.

O rosto é percorrido por formigas.
Raspado, e luz uma malícia pura.
Um cigarro aqui é mais do que uma estrela.
Um risco mais rápido que um foguete.
E a seara acende-se para além do muro.
1 094
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Sombra de Uma Face a Face de Uma Sombra

Há uma face que não sei,
que não sou.
E o que sou é a face de uma sombra.
Escrever para essa sombra sem face.

Sou uma sombra sem face
na sombra da rua.
Escrevo nesse intervalo,
nessa sombra onde ninguém suspira,
onde ninguém passa,
onde ninguém me vê passar,
onde não passo,
onde vou passar.

Há uma face
página onde a sombra se fez face
frente à sombra.
Escrever contra a face sem face.

Escrever acender na sombra
árvores
mover a sombra até ao céu da rua.

Caminhar na sombra desatar a sombra
alta e viva
contra a face aberta
contra a face viva.

Sou somos uma face uma sombra
uma sombra uma face.

Escrever é abrir na sombra uma sombra
e respirar na sombra
um corpo de sombra.

Ninguém nos vê nem nos verá jamais.

Respirar a sombra viva.
1 002
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Na Escada Rolante

do Edifício Avenida Central, ao voltar da livraria onde encontrei o exemplar no 9 de 10 poemas em manuscrito, editado por João Condé em 1945, com ilustrações de Portinari, Santa-Rosa e Percy Deane e textos de Cecília Meireles, Augusto Meyer, Manuel Bandeira, Augusto Frederico Schmidt, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Abgar Renault, Mário de Andrade, Vinícius de Morais e o autor desta cantiguinha joco-nostálgica.

Destes dez, já não vivem dois.
Quedê Mário, Macunaíma?
Estás no céu, Jorge de Lima?

Dos pintores, um só nos resta.
Candinho e Santa, pelo cosmo,
estarão fazendo seresta?

Pois ficamos nós. Protegei-nos
nossa, de olhos verdes, Cecília,
que sois a verde maravilha.

Caro Vinícius, tem cautela,
e, marinheiro, poupa o casco
de teu airoso barco a vela.

Longe Murilo, eis que de Roma
teu verso chega, e sou romano
ao menos uma vez por ano.

O mano Abgar, este se esconde.
Faz muito bem. É em segredo
que se goza de paz avonde.

Augusto Meyer, porcelana
que deixa filtrar o crepúsculo:
o coração é flor ou músculo?

De Schmidt contam-nos as folhas
mais e melhor que a cantilena
desta mal informada pena.

Manuel, a estrela matutina
e a da tarde brilham igual?
Viver em luz é tua sina.

No mais, o poeta sem poesia,
de invisível texto paleógrafo,
aqui rabisca novo autógrafo.

Éramos dez em manuscrito.
Oito, carregamos no alforje
a saudade de Mário e Jorge.

Que lá perpetuam um livrinho
só deles, com Santa e Candinho.
25/05/1963
1 169
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Um Chamado João

João era fabulista?
fabuloso?
fábula?
Sertão místico disparando
no exílio da linguagem comum?

Projetava na gravatinha
a quinta face das coisas,
inenarrável narrada?
Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender?

Tinha pastos, buritis plantados
no apartamento?
no peito?
Vegetal ele era ou passarinho
sob a robusta ossatura com pinta
de boi risonho?

Era um teatro
e todos os artistas
no mesmo papel,
ciranda multívoca?

João era tudo?
tudo escondido, florindo
como flor é flor, mesmo não semeada?
Mapa com acidentes
deslizando para fora, falando?
Guardava rios no bolso,
cada qual com a cor de suas águas?
sem misturar, sem conflitar?
E de cada gota redigia
nome, curva, fim,
e no destinado geral
seu fado era saber
para contar sem desnudar
o que não deve ser desnudado
e por isso se veste de véus novos?

Mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador
de precípites prodígios acudindo
a chamado geral?
Embaixador do reino
que há por trás dos reinos,
dos poderes, das
supostas fórmulas
de abracadabra, sésamo?
Reino cercado
não de muros, chaves, códigos,
mas o reino-reino?

Por que João sorria
se lhe perguntavam
que mistério é esse?
E propondo desenhos figurava
menos a resposta que
outra questão ao perguntante?
Tinha parte com… (não sei
o nome) ou ele mesmo era
a parte de gente
servindo de ponte
entre o sub e o sobre
que se arcabuzeiam
de antes do princípio,
que se entrelaçam

para melhor guerra,
para maior festa?

Ficamos sem saber o que era João
e se João existiu
de se pegar.
22/11/1967
913
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

O Que Escrevo Ou Não Escrevo

Caminho com a pequena lâmpada vazia
flutuando entre as árvores, lentas ancas.

Escrevo: corpo do dia ao fim da rua.

A lâmpada desenha com a minha mão os traços finos.

Lâmpada ou pulso que nasceu das pedras.

Caminho com o sol, acendo-o entre árvores e telhados.

É duro e seco em cada passo o dia que desliza.

O pulso acende-se junto às paredes no calor da sombra.

O que escrevo ou o que não escrevo é a pequena lâmpada,
solta ao rés da terra, estilhaçada a cada passo.
1 157
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Nem Sempre Funciona

conheci um escritor uma vez
que sempre tentava enxugar suas frases

tipo ele escrevia:
um velho com chapéu de feltro verde caminhava pela
rua.

mudava para:
um velho de verde caminhava na rua.

mudava para:
um velho verde caminhava na rua.

mudava para:
velho verde caminhava.

mudava para:
verde caminhava.

por fim esse escritor dizia
merda, não consigo peidar,
e ele explodia o próprio
cérebro.

explodia próprio cérebro.

explodia cérebro.

explodia.
1 094
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Me Modernizando

bebi mais do que o normal esta noite, produzi com isso alguma
escrita mas eis ali minha máquina de escrever elétrica IBM e ambas
as fitas acabaram ao mesmo tempo: a fita de escrever e a fita apagadora
e geralmente consigo trocá-las
mas esta noite eu estava bêbado demais:

foi uma batalha da alma inserir a fita de escrever mas
no tocante à fita apagadora me faltou
alma: a fita grudenta grudava em coisas
indevidas, torcia-se como um pretzel, e a joguei fora e
tentei outra.
devem ter se passado dez minutos até que fiz
direito.
enquanto isso – eu já estava em outra garrafa, então olhei
a caixa no chão: restavam-me uma fita de escrever e uma
fita apagadora por isso recorri ao Manual de Instruções e disquei o
número 800 que acho que ficava em Maryland ou Dakota do Sul e
fiquei surpreso por ser atendido: eram 3:30 da manhã em
Los Angeles.

falei à mulher sobre a minha necessidade mas ela não entendia direito,
ficava exigindo um # do pedido.
eu estava com Richard Wagner no máximo volume no rádio e falei a ela
que eu não tinha um maldito # do pedido.
ela
desligou na minha cara e eu disquei de novo e dessa vez peguei um jovem
simpático e ele disse “que música maravilhosa o senhor está ouvindo...”, mas
o jovem simpático também exigiu um # do pedido.
sequei uma taça inteira de vinho, falei “escuta, eu não tinha um
# do pedido na primeira vez que liguei...”

“mas, senhor, na segunda vez que o senhor liga a regra é que deve ter
um # do pedido.”

“você quer dizer que não posso comprar minhas fitas? eu sou escritor, porra, como
vou fazer? você cortaria fora os chifres de um touro?”

“o senhor tem a sua última conta aí
consigo?”

“sim, sim...”

“o # do pedido deve estar na conta,
senhor...”

“estou dizendo, não tem nada aqui indicando um # do
pedido!”

“bem, senhor...”

“não, não, não!”

sequei outra taça de
vinho, “escuta, vamos fazer de conta que esta é a primeira vez que ligo
pra vocês e vamos começar pelo começo?”

“tudo bem, senhor... agora, o senhor pode listar pra mim o que
deseja?”

“obrigado! quero 18 fitas tira-tinta, item # 1136433 e quero 12
cartuchos de fita preta, item # 1299508.”

então li para ele o # do meu cartão American Express que não vou incluir
aqui.

“o senhor receberá todas as suas mercadorias dentro de 8 a dez dias, senhor...”
“obrigado!”

então, desligando, notei uma linha na minha conta anterior, ela dizia # de
pedido 11101 – isso e aquilo e traço isso e aquilo.
tinha estado ali o tempo
inteiro.

agora eu estava pronto para escrever de novo, o socorro já vinha, minha mente
livre, inclinei o corpo à frente e comecei a bater as teclas:
frsyj mrbrt ,syyrtrf sd ,ivj, sd yjsy dytuhhlr yo dysy
slibr s,pmh yjr %rp%;r smf om d%oyr pg yjs
%rp%;r.
frsyj eo%% mr yjr rsdody %sty.
1 042
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Paz E Amor

nos anos 60
escrevi uma coluna para um jornal
hippie.

eu não era um hippie (já tinha
40 e poucos) mas achei
legal que o jornal
me permitisse expor minhas
errantes
visões
uma vez por
semana.

para cada uma daquelas obras
geniais
eu ganhava
$10 (às vezes).

agora
havia outro jornal
hippie
querendo comprar meus
serviços.
estavam me oferecendo
$15 para cada
coluna.

não querendo parecer um
desertor
eu estava pedindo
$20.

então
eu visitava o outro
jornal
com bastante frequência
negociando com o
editor
a diferença de
5 pratas
enquanto esvaziávamos uma
dúzia de latinhas.

uma coisa legal desse
jornal hippie é que
quando eu entrava
todo mundo começava
a gritar meu
nome:

“Ei, Chinaski!”

“Chinaski!”
eu gostava,
ficava me sentindo uma
estrela.

e eles também
gritavam
“paz e amor!”

“paz e amor!”

várias gatinhas
gritavam isso pra
mim
e eu gostava
disso
embora eu nunca tenha
respondido às
saudações
exceto por um leve
sorriso
e um quase
invisível
aceno da mão
esquerda

eu ia falar com o
editor e dizia
pra ele “escuta, legal o
ambiente de vocês aqui, a gente
precisa bolar
algo...”
no entanto
nunca bolávamos
nada
mas decidi
continuar
insistindo...

então
houve a semana
em que fui

e o lugar todo estava
fechado: ninguém, na-
da

dentro...

bem, pensei, quem sabe
se mudaram, quem sabe acharam
um
lugar mais barato.

então
me afastei de lá
e segui caminhando
e no meu caminho
olhei para dentro de um café
e a mais estranha das
improbabilidades
aconteceu:
lá estava o editor
sentado a uma
mesa
então
entrei
e ele me viu
chegando
e falou “senta aqui,
Chinaski.”

eu sentei
e perguntei
a ele:

“o que aconteceu?”
“é triste, tivemos que
fechar justo quando estávamos
crescendo em circulação
e
anúncios.”

“ah é? e?”

“bem, 4 ou 5 deles
não tinham onde dormir então
falei que podiam
dormir no escritório à
noite desde que não fizessem
barulho e desligassem as luzes... então
eles trouxeram seus colchões
d’água, seus cachimbos, seu ácido,
seus violões, sua erva, seus
discos do Bobby Dylan e
parecia correr tudo
bem...”

“ah é? e??...”

“eles usavam os telefones de
noite. longa distância pra vários lugares,
alguns deles pra
França, Índia ou China
mas
na maioria
pra
lugares nos E.U.A.
mas pra onde quer que ligassem
era sempre por um longo
tempo, algo entre 45
minutos e 3 horas e
meia...”

“Jesus...”

“é, não conseguimos pagar a conta,
portanto adeus ligações, cobradores
atrás da gente, tivemos que
fechar...”

“sinto muito, cara...”

“tá tudo
bem...”

“eu tenho umas
verdinhas”, falei, “vamos
achar um
bar...”

bem, achamos
um e ele pediu um
scotch & soda e eu
pedi um whiskey
sour
e ficamos ali sentados
olhando reto
pra frente
realmente
sem ter muito a
dizer

exceto que
algum tempo depois
nós dois ainda ali
bebendo mais do
mesmo

ele me contou
que sua esposa o tinha
trocado
por um corretor
de imóveis
que trabalhava baseado no
Arizona e no
Novo México
onde as coisas estavam
indo
incrivelmente bem
sobretudo na área de
Santa
Fé.
1 079
António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

A Língua Árida

Sorvo na magreza da tábua o pó de verão. Calco — um dia, longo hausto — o chão seco, os livros.

Ar do outro lado da montanha — o declive do silêncio. Descer ao chão seguro, pequeno mar entre cabeços, margem lisa, extrema.

Afiar o lápis, fina febre de letra rápida — como um caminho sóbrio, ardente. A pedra onde o sol bateu, o dedo erguido, a marca do dedo na terra.

A parede ríspida que pede a língua, não o lábio. Língua árida que sabe o vento e o caminho. Quase quente, esta pedra, este caminho.
1 030
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Luar Para Alphonsus

Hoje peço uma lua diferente
para Ouro Preto
Conceição do Serro
Mariana.

Não venha a lua de Armstrong
pisada, apalpada
analisada em fragmentos pelos geólogos.

Há de ser a lua mágica e pensativa
a lua de Alphonsus
sobre as três cidades de sua vida.

Comemore-se o centenário do poeta
com uma lua de absoluta primeira classe
bem mineira no gelado vapor de julho
bem da Virgem do Carmo do Ribeirão
dos menestréis de serenata
bem simbolista bem medieval.

Haja um luar de prata escorrendo sobre montanhas
inundando as prefeituras
os bancos de investimento de Belo Horizonte
a própria polícia militar
de modo que ninguém se esqueça, ninguém possa alegar:

Eu não sabia
que ele fazia
cem anos.

Mas não é para soltar foguete nem fazer
os clássicos discursos ao povo mineiro
dando ao espectro do poeta o que faltou ao poeta
numa vida banal sem esperança.

É para sentir o luar
extra que envolve
Ouro Preto, Mariana, Conceição
filtrado suavemente
da poesia de Alphonsus, no silêncio
de sua mesa de juiz municipal
meritíssimo poeta do luar.

Algum estudante, sim, espero vê-lo
debruçado sobre a Pastoral aos crentes
do amor e da morte, penetrando
o cerne doceamargo
de um verso alphonsino cem por cento.
Algum velho da minha geração,
uns poucos doidos mansos, e quem mais?
Onde o poeta assiste, não há cocks
autógrafos, badalos, gravações.
Está cerrado em si mesmo (tel qu’en lui-même
enfin l’éternité le change…)
e descobri-lo é quase um nascimento
do verbo:
cada palavra antiga surge nova
intemporal, sem desgaste vanguardista, lua
nova, na página lunar.

E essa lua eu peço: aquela mesma
barquinha santa, gôndola
rosal cheio de harpas
urna de padre-nossos
pão de trigo da sagrada ceia
lua dupla de Ismália enlouquecida
lua de Alphonsus que ele soube ver
como ninguém mais veria
de seus mineiros altos miradouros.
O poeta faz cem anos no luar.
05/07/1970
1 762
Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo

Dedicatória

Prefiro a paciente
proeza das traças,

meu caquético rapaz,
aos versinhos

bem traçados
dos quais

te mostras capaz
(assépticos e sérios

como os de
ninguém mais).

Ah! Ler-te é
penetrar na paz

dos cemitérios.
Pelo modo como caminhas,

nota-se que ainda
respiras, mas

já entreleio,
junto aos títulos

dos teus livros,
os dois precisos

vocábulos
("Aqui jaz")

com que, um dia,
te saudarão os vivos.
487
Antônio Carlos Secchin

Antônio Carlos Secchin

Nos passos do poeta-viajante, João Cabral de Mello Neto

O jornalista José Castello procura no longo itinerário
percorrido por João Cabral de Melo Neto durante 40
anos a chave para compreender as emoções do homem
arredio e a sua obra, feita de concisão e racionalidade.

( João Cabral de Melo Neto: o homem sem alma José Castello Rocco, 184 páginas R$ 17,50)
A vida de João Cabral é um livro fechado, e que a custo se deixa entreabrir. Vista de fora - o ângulo preferido do poeta - apresenta tantos atrativos quanto a lista telefônica dos habitantes da Antuérpia. Visitá-la por dentro foi a dura tarefa que se impôs José Castello: extrair da pétrea resistência cabralina algum material propício à construção de uma biografia. É notória a aversão do poeta a tudo que se abeira do confessional. Sua obra deseja camuflar a presença do sujeito pela fixação ostensiva em realidades que lhe sejam fisicamente externas. Agrada-lhe deixar fluir a matéria a fim de ocultar-se em suas dobras e quinas - poesia de quem necessita clamar pelo visível para postar-se, invisível, à sua sombra.
Esse "homem sem alma" atraiu seu biógrafo pela miragem (frustrada, como qualquer miragem) de, afinal, esclarecer como foi possível extrair tanta poesia de um manancial de vida tão contido e distante. É sedutora a hipótese de Castello: não, não se trata de um homem sem alma. Seu esforço para sufocá-la demonstraria, pelo avesso, a existência de um mundo informe e subjetivo, cujo desesperado exorcismo a aparente frieza do verso procuraria efetuar. O biógrafo, numa argumentação persuasiva, não se furta à tentação do "psicanalisar" o biografado, chegando mesmo a falar em "cura" do poeta através da matéria concreta, uma vez que o imaterial seria a fonte de sua angústia. "O sintoma que o atormenta (...) é o medo do incontrolável", afirma à página 23. Após um prefácio em que expôs afetos e temores, Castello controla o ímpeto de privilegiar suas próprias oscilações e concede primazia à elaboração de uma espécie de biografia intelectual do poeta. Seu discurso deriva para um tom mais impessoal, reforçado pela estratgica utilização do presente como tempo narrativo. Assim, o relato reveste de certo distanciamento uma série de episódios já em si afastados do caráter espetacular que a expectativa do leitor, em geral, associa à vida dos grandes artistas.
O biografado ideal seria aquele que cedesse ao apelo implícito dos versos de Berceo, escolhidos por João Cabral para epígrafe de "O rio" (1954): "Quero que componhamos eu e tu uma prosa" - amistosa cumplicidade transformada em texto tramado a duas vozes. Provavelmente não terá sido essa a experiência de Castello na maioria dos 20 encontros que teve com Cabral entre março e dezembro de 1991. Diversos depoimentos concedidos à imprensa foram, no juízo do biógrafo, fontes tão fundamentais para a feitura do livro quanto as 30 horas de entrevista que colheu do poeta. José Castello desfaz, com bastante coragem e algum lamento, a imagem de que pudesse ter sido ungido à condição de interlocutor privilegiado, situando-se, antes, como atento ouvinte e leitor, inclusive de outros leitores cabralinos.
No longo prefácio, o autor se dedica a examinar o ambiente de penumbra e desânimo que cerca o poeta, e sua irreprimível vocação centrífuga, na tentativa de desalojar-se do incômodo de si mesmo e de tornar-se apenas um foco de pura percepção do outro, daquilo que lhe é exterior. O primeiro capítulo reconstitui a infância em Pernambuco, os anos de formação do poeta e sua vinda para o Rio de Janeiro. Já nesta quadra surgem nomes da literatura brasileira que ocuparão para sempre lugar privilegiado no círculo de relações de Cabral: Augusto Frederico Schmidt, Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade e, sobretudo, Vinícius de Moraes, a quem, por mais de uma vez, e por evidentes contrastes (de natureza pessoal e poética), Castello se refere como o "anti-Cabral" por excelência. O segundo capítulo relata a presença avassaladora da Espanha na vida e na obra do poeta, desde os primórdios da experiência em Barcelona a partir de 1947 até um retorno fugaz e algo desencantado em 1994.
Poeta voltou ao Brasil em 1986
João Cabral é definido por José Castello como um homem sob o signo da viagem permanente, "trânsfuga que jamais cessa de fugir", mesmo que a fuga conduza "sempre ao ponto de retorno, pois todo viajante é refém de sua origem"; por aí se pode explicar, em sua obra, a obsessiva analogia Pernambuco/Espanha. O capítulo 3 relata as demais experiências estrangeiras, eventualmente atreladas a reincidências hispânicas, além do retorno compulsório de João Cabral ao Brasil nos anos 50, afastado que fora do Itamaraty sob suspeição de envolvimento com o comunismo. O capítulo seguinte retoma a linha mais interpretativa e menos factual do prefácio, e o epílogo retrata as últimas incursões diplomáticas do poeta, bem como o seu regresso definitivo ao Rio, em 1986. Encerrado o périplo, constatamos que apenas dois lugares, praticamente, não conseguiram despertá-lo para a poesia: o Paraguai e o Rio de Janeiro.
O homem sem alma não traça a vida palpitante de um indivíduo, nem o amplo painel de uma geração. Anti-lírico, João Cabral se quer também antibiografável. Em diversas ocasiões revela desprezo ou antipatia pelo gênero, pelo risco de, nele, a vida sobrepor-se à obra. Paradoxalmente, Cabral nunca se esquivou de conceder entrevistas, que, de certa forma, acabaram por configurar-lhe um nítido perfil. Curiosa tensão entre eximir-se e exibir-se: o poeta expõe-se na prosa da entrevista, e se eclipsa na voz do verso. Como todo criador, Cabral revela o melhor de si naquilo que mais sutilmente resguarda. Na certeira observação do biógrafo, "a verdade, se existe, está na poesia. Jamais fora dela". Por isso, enfatizemos a seriedade e a importância do trabalho realizado por José Castello, mas sem esquecer de levar suas próprias palavras à última consequência: pela poesia, a vida de João Cabral é um livro aberto, e que muito dificilmente se deixará fechar.
Antonio Carlos Secchin é autor de João Cabral: a poesia do menos (Livraria Duas Cidades). Editou os Primeiros poemas de João Cabral (Faculdade de Letras da UFRJ) e organizou os Melhores poemas de João Cabral (Global)
Trechos
1 - Recife
A paisagem nordestina, desenhada em luz lancinante, dissolve rapidamente o luto. O Capibaribe, mesmo sujo, é majestoso. Ao longo de suas águas desfilam areeiros, vacarias, olarias, pescadores e catadores de caranguejos; personagens que povoam as primeiras lembranças de nosso viajante, como figuras pinceladas em uma tela virgem. A visão féerica da seca, que dará o tom de sua obra poética, ainda está distante. A natureza, aqui, é razoável. Comedida, mas generosa, ela abre os espaços de que o homem necessita para viver. A margem do rio está decorada por coqueiros, oitizeiros, mangueiras, sapotizeiros. A miséria fica exposta na fachada dos casebres instáveis e revestidos por lama negra. Há, entre eles, casarões coloniais erguidos com a arrogância de castelos e capelinhas onde a fé toma ares de confeito. E muitos quintais sombrios, armados para o rio e não para a rua, em que a exuberância da natureza se confunde com os dejetos da miséria.
2 Barcelona
Se não está manejando sua prensa, Cabral se concentra em uma só atividade: percorrer Barcelona com a ansiedade própria de um descobridor. O que deseja encontrar? Isso não importa, pois o poeta aceita o que a cidade tiver para lhe oferecer. Devora todos os livros que pode comprar sobre a Catalunha e se entrega a caminhadas de ida e volta pela calle Grandia e pelo paseo de Gracia, onde fica a Livraria Ler, que logo se torna sua favorita. Entre as prateleiras dessa livraria conhece uma figura-chave em sua primeira temporada espanhola: o poeta Joan Edoardo Cirlot é um poeta ligado ao surrealismo, autor de um importante dicionário de símbolos e muito chegado a André Breton, a quem sempre visita em Paris. Por meio dele, Cabral s
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Vivo Para Escrever E Agora Estou Morrendo

já contei antes e nunca foi publicado então
talvez eu não tenha contado direito, então
é assim: eu estava em Atlanta, morando num barraco
por $1.25 por semana.
sem luz.
sem aquecimento.
um frio de rachar, estou sem dinheiro mas tenho
selos
envelopes
papel.

mando cartas pedindo socorro, só que não conheço
ninguém.
tem os meus pais mas sei que eles não vão estar
nem aí.
escrevo uma pra eles
mesmo assim.

depois
pra quem mais?

o editor da New Yorker, ele deve me conhecer, eu
enviei um conto por semana pra ele por
anos.

e o editor da Esquire

e a Atlantic Monthly

e Harper’s.

“não estou submetendo texto”, eu
escrevia, “ou talvez esteja... de todo modo...”
e aí vinha a proposta: “só um dólar, vai
salvar a minha vida...” e etc. e etc...

e por algum motivo
eu tinha os endereços de Kay Boyle e Caresse
Crosby
e
escrevi para elas.

pelo menos Caresse tinha me publicado em sua
Portfolio...

levei todas as cartas até a caixa de correio
larguei lá dentro e
esperei.

pensei, alguém ficará com pena do escritor
faminto, sou um homem
dedicado:

vivo para escrever e agora estou
morrendo.

e
cada dia
eu achava que seria
meu último.

eu atrasava o aluguel, encontrava pedaços de comida
nas ruas, geralmente
congelados.

eu levava pra casa e descongelava
embaixo da colcha.

eu pensava no Fome de Hamsun
e
ria.

um dia frio era seguido por outro,
lentamente.

a primeira carta foi do meu pai,
seis páginas, e sacudi as páginas
repetidas vezes
mas não havia dinheiro
algum

conselhos,
o principal sendo
este: “você nunca será um
escritor! o que você escreve é feio
demais! ninguém quer ler essa
bosta!”

então chegou o
dia!
uma carta de Caresse
Crosby!
eu abri.
nada de dinheiro
mas
texto datilografado bonitinho:
“Caro Charles,
foi bom receber notícias
suas. desisti da
revista. moro agora num
castelo na Itália. é
no alto de uma montanha mas
embaixo há um vilarejo
com frequência desço lá
para ajudar os pobres. sinto
que é a minha missão.
com amor,
Caresse...”

ela não tinha lido minha carta?
eu
era o pobre!
eu precisava ser um camponês
italiano para me
qualificar?

e os editores das revistas nunca
responderam e tampouco
Kay Boyle
mas nunca gostei do que ela escrevia
de qualquer maneira.
e nunca esperei grande coisa
dos editores das
revistas.

mas Caresse
Crosby?
black sun press?

eu agora até lembro como
afinal saí de
Atlanta.
eu estava simplesmente vagando pelas
ruas e cheguei a uma
pequena área
arborizada.
havia uma cabana de zinco ali
e um grande letreiro vermelho
dizendo: “vagas de trabalho!”

dentro havia um homem com
agradáveis olhos azuis e ele era
bastante cordial
e assinei pra me juntar aos
operários de uma ferrovia:
“em algum ponto a oeste de
Sacramento.”

no caminho de volta
naquele vagão empoeirado de cem anos de idade com
os assentos rasgados e os ratos e
as latas de feijão com carne de porco
nenhum dos caras sabia que eu tinha sido
publicado na Portfolio junto com
Sartre, Henry Miller, Genet e
etc.
junto com reproduções de pinturas de
Picasso e etc. e etc.
e se tivessem ficado sabendo estariam
cagando e andando
e francamente
eu mesmo estava.

só algumas décadas depois
quando eu me via em circunstâncias ligeiramente melhores
que me aconteceu de ler sobre a morte de
Caresse Crosby
e outra vez fiquei desconcertado
por sua recusa em
mandar uma reles notinha para um
gênio americano faminto.

é isso
esta é a última vez que vou escrever essa
história.
ela deveria ser
publicada...

e se for vou receber centenas
de cartas
de gênios americanos famintos
pedindo uma prata, cinco pratas, dez ou
mais.

não vou lhes dizer que estou ajudando os
pobres, à la Caresse.

vou mandá-los ler
os Poemas reunidos de
Kay Boyle.
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Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Nota Social

O poeta chega na estação.
O poeta desembarca.
O poeta toma um auto.
O poeta vai para o hotel.
E enquanto êle faz isso
como qualquer homem da terra,
uma ovação o persegue
feito vaia.
Bandeirolas
abrem alas.
Bandas de música. Foguetes.
Discursos. Povo de chapéu de palha.
Máquinas fotográficas assestadas.
Automóveis imóveis.
Bravos. . .
O poeta está melancólico.

Numa árvore do passeio público
(melhoramento da atual administração)
árvore gorda, prisioneira
de anúncios coloridos,
árvore banal, árvore que ninguém vê
canta uma cigarra.
Canta uma cigarra que ninguém ouve
um hino que ninguém aplaude.
Canta, no sol danado.

O poeta entra no elevador
o poeta sobe
o poeta fecha-se no quarto.

O poeta está melancólico
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Sidney Frattini

Sidney Frattini

Canto ao Homem do Povo, Drummond

I
(Não) Era preciso que, nem poeta, nem maior, porém um tanto exposto à galhofa, girando um pouco em tua atmosfera ou nela aspirando a viver como na poética e essencial atmosfera de sonhos translúcidos.
Era preciso que este pequeno cantor mudo, de ritmos inexistentes, vindo de lugar-nenhum, onde nem nunca se usa gravata, e raro alguém é polido, e a opressão é desestranha, e o heroísmo se banha, também, em ironia, era preciso que atual velho vinte-e-tantos-tombos, preso à tua "gauchice" por filamentos de ternura e vida, viesse ousar falar-te e, fruto imaturo, te visitasse para dizer-te alguns nadas, sobcolor de despoema.
Para dizer-te como os nós te amamos e que nisso, como em nada mais, nossa gente não se parece com qualquer gente do mundo - exclusive os que perderam bondes e esperanças, e voltam pálidos para casa, e cujos corpos transigem na confluência do amor, iludindo a brutalidade e a brutal idade, e que, secretamente, pronunciam tuas palavras de vida e sonho.
Bem sei que o discurso, acalanto freguês, não te esmorece, e esta tua vivência é tua entrevista aos hebdomadários. Não é a saudação dos entusiasmados que te ofereço. Eles existem, mas é a de gente comum em mundo incomum.
Nem faço muita questão da anti-matéria de meu canto, tão abaixo de ti, como uma letra mal sucedida, mandada por vida real ao escritor de todas as cartilhas.
Falam por mim sei quantos, sujos de inexpressåo e gente, levados a refletir, ainda que microssegundo, que te percorreram papel adentro e, em meio ao Palácio das Jóias, descobriram anéis que lhes serviam e se sentiram imensamente ricos.
Falam por mim os que simplesmente simples de coração nunca ouviram falar de ti, ou si, a não ser por adjetivos e nunca por eles mesmos, líricos ou cismarentos, irresponsáveis ou patéticos, cariciosos ou loucos, e os que não chegam a ser nada disso.
II
A noite dissolve os homens, e não te apaga, não, a visão.
A noite é mortal, mas já não o és, mesmo despido de fardões que não te caem bem, deselegante predestinado, condenado à Eternidade, independente de certidões.
Assim, perdida a sábia infância, acumulas a noite na calvície plena e adquires a dimensão do grande e o pedaço vital da trajetória.
E te fazes em frases.
E então sentimos a noite.
Não como trevas, mas como fonte natural de nostalgia e brisa, como se ao contato da tua mensagem voltássemos ao país secreto onde dormem meninos ambiciosos de soltar coisas ocultas no peito.
III
Vazio de sugestões alimentícias, matas a fome dos que foram (ou não) chamados à ceia celeste ou industrial. E notas na toalha da mesa, em plena janta, impurezas no branco - lição de coisas que a vida te ensinou.
IV
E agora, Carlos? Não sossegues.
Teus ombros suportam o mundo, embora tenhas apenas duas mãos e a poesia seja, definitivamente, incomunicável, teu verso é nossa consolação e cachaça.
Oitenta por cento de ferro nas almas e brejo e vontade de amar doem, e o tempo é matéria, definitivamente.
V
Fazendeiro aéreo, habilitado para a noite, carregas no bolso viola eternamente encordoada. És apenas um homem e teu presente inunda nossa vida inteira.
VI
No meio do caminho tinha uma retina que enxergava a pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento.
A pedra que ontem não vi hoje seria avalanche.
Ela repousa na vida, sem esconderijo, enxergada.
No meio do caminho tinha uma retina.
VII
E, ao contrário do que dizes, todos os meninos saltam de tua vida, a restaurar as suas.
Suspeitaste o velho em ti? Sabe o sábio que és, com tuas rugas e tua calva.
Foi bom que te expusésses: meditavas e meditávamos.
E tudo dizias... (ó palavras gastas, entretanto salvas, ditas de novo).
Poder de mais-que-humana voz, inventando novos caminhos, dando sopro aos exaustos; dignidade digna, amor profundo, crispação de ser humano, árvore firme ante desastres ecológicos, ó Carlos, meu e nosso amigo, tua vida e poesia FABRICAM a estrada de pó e esperança.

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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Henry Miller E Burroughs

você quer dizer que não gosta deles?,
me perguntam toda
hora.

não.

qual é?

só não gosto.

não posso acreditar. por que
você não gosta
deles?

ah, meu deus, vai à merda.

você gosta de alguém?

claro.

cite os nomes.

Céline, Turguêniev, Dostoiévski, o Górki
do começo, J.D. Salinger, e.e. cummings,
Jeffers, Sherwood Anderson, Li Po,
Pound, Carson McCullers...

ok, ok, mas não acredito que
você não goste de Henry Miller ou Burroughs,
principalmente Henry Miller.

vai à merda.

chegou a conhecer o Miller?

não.

acho que você está brincando comigo sobre não gostar de
Henry Miller.

hmm hmm.

é inveja profissional?

não creio que seja.

o Miller abriu as portas pra todos
nós.

e eu estou abrindo a minha porta pra
você.

por que você está irritado com tudo
isso?

não irritado, mas você já comeu o
cu de uma galinha?

não.

faça isso, então volte que a gente
conversa sobre William B. e principalmente
Henry M.

eu te acho um babaca esquisito...

cai fora ou eu te tiro daqui na
porrada.

você vai ouvir falar de mim.

se um dia ouvirem falar de você vai
ser porque escrevo sobre
você, agora cai
fora!

boa noite.

boa, falei com a porta
fechando,
noite.
1 081
Matilde Campilho

Matilde Campilho

Rio de Janeiro — Lisboa

um dia você
adora meus óculos
adoro os teus óculos
no dia seguinte
não quero que venhas na fazenda
três dias antes
você ia adorar este lugar
você quer vir até à fazenda?
um dia eu rasgo
o tecido celular do rosto
realizo um sorriso constante
que atravessa o morro
o ponto mágico do morro
rasgão alegre que fulmina
o veio mínimo da folha
de amendoeira
e pelo feixe de luz tropiquente
vai parar na cara de João
vendedor de suco no leblon
em ricochete João grita açaí!
qualquer dia eu vou e chego

no outro dia
a cidade se aborrece
desdignificada pela
gigante roleta
que se chama medo
o urubu fica empoleirado
na trave enferrujada
daquilo que já foi suporte
ao cartaz que anunciava
o novo mundo das piscinas

fosforescentes
o pássaro suspenso
olhando a via rápida
e catando caca
debaixo da unha
temendo o gira girar
da pequena roda
que circula sorte e azar

um dia você
escreve para seus pais
falando sobre o amor
quarenta dias depois
teus pais te escrevem
falando sobre redes de pesca
e o perigo das redes de pesca
um dia você me envia uma carta
depois a outra
o rasgão explode
recordando ainda outra carta
de alguns meses antes
o postal eterno que dizia
still crazy (after all
these years)
faço voto de silêncio
mas na sacralização
horária das avenidas
eu penso que você
sua mãe e seu pai
conversam muito
sobre peixes
e que isso mantém quieta
a roleta negra
e que isso mantém aparada
a unha do urubu
e que isso faz homenagem
a João e à fruta espessa
que brilha vermelha
em cada copo de minha cidade

um dia você diz que me a****
eu a****-te
no dia seguinte
a amendoeira se expande
e floresce cinco folhas mais
nesse dia reparo
que estamos contribuindo
você e eu
para o florestamento da cidade
de duas cidades
faço voto de silêncio
mas na sacralização horária
da respiração eu penso
que apesar da sala de casino
abrigo da gigante roleta do medo
apesar dos golpes de gmt -3
apesar da fita de seda que fica
ondulando sua medida de 7 800 km
estamos dando utilidade ao amor
alargando os braços das amendoeiras
alargando os braços dos jacarandás
partindo as inúteis linhas de fronteira
e fazendo do mundo
a gigante floresta
993
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Poeta Emílio

Entre o Brejo e a Serra,
entre o Córrego d’Antas, o Aterrado, o Quartel Geral e Santa Rosa,
entre o Campo Alegre e a Estrela,
nasce em 1902
o poeta Emílio (Guimarães) Moura,
esguia palmeira
Pindarea concinna: o ser
ajustado à poesia
como a palmeira se ajusta ao Oeste de Minas.

E cresce. Viaja.
Vejo,
sob a lua perfumada a cravos de Barbacena,
alojado na Pensão Mondego,
o rapazinho fazer distraídos preparatórios
(para ser como toda gente bacharel formado)
e preliminares poemas
em busca da clave própria.

Advogado não seria,
posto que doutor de beca para foto de colação
— quem o veria requerer despejo?
— alegar falsidade de testamento?
— promover desquite litigioso?

Torcedor do Atlético, fumante de cigarro de palha marca Pachola,
quando não os prefere fazer ele mesmo
com ponderada, mineira, emiliana perícia,
eis Moura — de tantas noites andarilhas nas jasmineiras
ruas peremptas de Belo Horizonte.

O Diário de Minas, lembras-te, poeta?
Duas páginas de Brilhantina Meu Coração e Elixir de Nogueira,
uma página de: Viva o Governo,
outra — doidinha — de modernismo,
tua cegonha figura escrevendo o cabeço das “Sociais”,
nós todos na esperança de um vale do Bola — o Eduardinho gerente…

Com serenidade de irmão que vai ficando tio
e avô, e tem paciência carinhosa com os netos,
assistes ao passar de gerações:
A Revista, Surto, Edifício, Vocação, Tendência, Complemento, Ptyx,
ao morrer (Alberto puxa a fieira) e ao dispersar de amigos,
rocha sensível em meio à evanescência das coisas
de que guardas exata memória no coração de palmeira
solitária comunicante solidária.

Toda palmeira na essência é estranha
em sua exemplaridade:
palmeira que anda, ave pernalta,
palmeira que ensina, mestra de doutrinas
líricas disfarçadas em econômicas,
e o mais que esta conta em voz baixa, sussurro
de viração nas palmas:
amizade, teu doce apelido é Emílio.

Fiel à casa primeira e reimplantando-a
no lote da palavra,
fraco/forte diante da vida que corta e esfarinha,
sereno/desenganado, agulha terna apontando
para o enigma indecifrável do mundo:
poesia, teu nome particular é Emílio.
12/04/1969
1 164
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Rasgue

quando um poema não funciona, esqueça, não o persiga, não tente
acariciá-lo e molestá-lo, não o faça entrar nos A.A. ou
virar um cristão nascido
de novo.

quando um poema não funciona, simplesmente tire a folha da
máquina, rasgue, jogue no lixo – dá uma sensação
boa.

ouça, você escreve porque é a última metralhadora
na última colina.

você escreve porque é um pássaro sentado num fio, aí
subitamente suas asas batem e o seu traseiro idiota está
voando no ar.

você escreve porque o manicômio está lá arrotando e
peidando, pesado de mentes e corpos, você escreve porque
teme o extremo da loucura...

quando um poema não funciona, ele não funciona; esqueça;
o ritmo é a essência.

sei de uma dama que escreve tantos poemas que ela deve
levantar às 7 da manhã e datilografar até a meia-noite.

ela está numa competição de escrita de poesia – consigo
mesma.

quando um poema não funciona, não é o fim; não é sequer uma
banana podre, não é sequer uma ligação por engano pedindo para falar com
Blanche Higgins.

quando um poema não funciona é só porque você não acertou a mão
naquele momento.
ou você acerta
em algum momento?

pegue esse papel, rasgue, descarte, então
espere.

mas não fique sentado diante da máquina, faça outra
coisa – olhe tv, diga oi à sua esposa, mime o
gato.

nem tudo é feito
de papel.
1 050
José Saramago

José Saramago

Estou Onde o Verso Faço

Estou onde o verso faço, e erro o verso
Porque a fuga do tempo, ao núcleo escasso,
Tira a carne do fruto até ao osso.
Rilho no fel o dente e o desafio,
Tal, vagaroso, o bicho em jaula morde,
No travor do caroço, a memória do mel.
1 105